30 de dezembro de 2017

Quem é Deus como Javé? O Deus que julga, Deus que perdoa, Deus único

teologia do antigo testamento ralph smith
O Deus que julga


O papel de Deus como juiz

Se Deus é um Deus que salva, abençoa, criador, santo, amoroso, será que não é também um Deus que julga? Agir como juiz é incompatível com salvar, abençoar, criar, amar, ira e santidade? O Antigo Testamento fala muitas vezes de Deus como juiz. Logo no começo do Antigo Testamento, Abraão perguntou se é certo que o juiz de toda a terra destrua os justos com os ímpios. "Não fará justiça o Juiz de toda a terra?" (Gn 18.25).

O salmista disse: "Os céus anunciam a sua justiça, porque é o próprio Deus que julga" (SI 50.6).

lsaías disse: "O Senhor é o nosso juiz, o Senhor é o nosso legislador, o Senhor é o nosso rei; ele nos salvará" (ls 33.22).

No Antigo Testamento, Deus julga entre indivíduos (Gn 16.5; 31.53; ISm 24.12, 15) e nações (Is 2.4). Ele também julga indivíduos (Gn 30.6; SI 7.8; 26.1-2; 35.24-25; 43.1; 54.1); famílias (ISm 3.13); nações (Gn 15.14; SI 110.6; J1 3.12); seu povo (SI 50.4; 67.4; ls 3.13; 33.22; Ez 36.19); a terra (Gn 18.25; ISm 2.10; SI 9.8; 82.8; 94.2; 96.10); os deuses e as pessoas importantes (Jó 21.22; SI 82.1-2). O fato de Deus poder julgar todos esses grupos indica que tem autoridade e soberania sobre eles.

Três coisas são essenciais a um bom juiz: autoridade e soberania; decisões justas e imparciais; e a capacidade de perceber e interpretar corretamente todas as evidências. Javé tem as três qualidades. Ele é o soberano de toda a terra. Ele julga as pessoas de acordo com o que fazem (Ez 7.27; 24.14; 33.20). Suas decisões são corretas e imparciais (Gn 18.25; SI 9.4, 8; 67.4; 72.2; 75.2; 96.10. Perto do fim do Antigo Testamento, alguns escritores da Sabedoria levantaram questões sérias sobre a justiça de Deus: (Jó 8.3; 9.2, 20, 22-24). A coisa que mais qualificou Javé para ser juiz foi sua capacidade de olhar dentro das pessoas e conhecer-lhes as motivações e o verdadeiro caráter. O Senhor disse a Samuel:

O homem vê o exterior,
porém o Senhor, o coração.
(ISm 16.7)


O salmista disse:

Examina-me, Senhor, e prova-me;
sonda-me o coração e os pensamentos.

(SI 26.2; cf. 139.23)

Se tivéssemos esquecido o nome do nosso Deus
ou tivéssemos estendido as mãos a deus estranho,
porventura, não o teria atinado Deus,
ele, que conhece os segredos dos corações?

(SI 44.20-21)

E Jeremias:

Mas, ó Senhor dos Exércitos, justo Juiz,
que provas o mais íntimo do coração,
veja eu a tua vingança sobre eles;
pois a ti revelei a minha causa.

(Jr 11.20)

O papel do juiz no mundo antigo era mais do que ouvir o depoimento das testemunhas e tomar uma decisão quanto à culpa ou inocência do acusado. O papel do juiz podia incluir descobrir o crime, ouvir, acusar, defender, sentenciar e executar a sentença.

Labão acusou Jacó de roubar seus deuses do lar. Labão alcançou Jacó no caminho para o Jaboque e revistou sua bagagem. Quando não encontrou evidências incriminatórias, Jacó lhe disse: "Havendo apalpado todos os meus utensílios, que achaste de todos os utensílios de tua casa? Põe-nos aqui diante de meus irmãos e de teus irmãos, para que julguem entre mim e ti" (Gn 31.37). Depois de poupar a vida de Saul na caverna de En-Gedi, Davi lhe disse: "Julgue o Senhor entre mim e ti e vingue-me o Senhor a teu respeito; porém a minha mão não será contra ti" (ISm 24.12). Mais tarde Davi disse: "Seja o Senhor o meu juiz, e julgue entre mim e ti, e veja, e pleiteie a minha causa, e me faça justiça, e me livre da tua mão" (ISm 24.15).

Deus é apresentado no credo não histórico (Êx 34.6) como um Deus gracioso, paciente, fiel, amoroso e que perdoa, mas também como aquele que "não inocenta o culpado" (v. 7). Ele é um juiz justo que de modo algum deixará impune o culpado (SI 9.12). Ele os arrasta ao "tribunal" e os acusa de infringir a aliança. O Senhor com frequência tem uma controvérsia ou "acusação" contra seu povo (Is 1.18; Jr 2.9; Os 4.1-3; 12.2; Mq 6.2).

A convicção de que Deus é juiz é refletida em alguns nomes pessoais: Josafá significa "Javé julga". Daniel significa "Deus é juiz", assim como Elifal (veja lCr 11.35). Abidã significa "meu pai é juiz" (veja Nm 1.11; 2.22; 7.60; 10.24).

Às vezes a palavra "juiz" refere-se a Deus em papel político como o dos governantes terrenos. Ele inclui a capacidade de perceber a diferença entre bem e mal e agir conforme essa percepção. Salomão orou: "Dá ao teu servo coração compreensivo para julgar a teu povo, para que prudentemente discirna entre o bem e o mal" (lRs 3.9). Ludwig Kõhler disse que não é que Deus diga o que é certo; antes, ele ajuda a tomar as coisas certas.

A. A justiça e a retidão de Deus

A justiça (mishpat) e a retidão (tsèdãqâ) de Deus frequentemente têm relação com seu papel como juiz. Os termos são muitas vezes usados juntos. Com frequência é difícil distinguir o sentido de cada palavra, mas o conceito geral por trás de ambas está claro e é muito importante. Heschel disse: "Há poucos pensamentos gravados tão profundamente na mente do ser humano na Bíblia como a ideia da justiça e da retidão de Deus. Isso não é uma inferência, mas um elemento apriorístico evidente da fé bíblica; não um atributo acrescentado à essência de Deus, mas inerente à própria idéia de Deus. Ele faz parte da sua essência e é identificado com sua maneira de agir". Heschel está muito próximo do conceito de retidão de Η. H. Schmid, de retidão como parte da ordem do mundo.

Von Rad disse que não há absolutamente nenhum conceito no Antigo Testamento com um significado tão central para todos os relacionamentos da vida humana como o de tsèdãqâ ("retidão" ou "justiça"). Ele é o padrão para o relacionamento com Deus e para o relacionamento das pessoas entre si, incluindo até os animais e o ambiente natural, tsèdãqâ pode ser descrito como "o valor mais elevado da vida, sobre o qual toda a vida se apoia quando organizada corretamente". Johnson enfatizou o papel de tsèdaqâ como um termo de relacionamento que descreve forma, funcionamento e efeitos dos relacionamentos comunitários ordenados de forma positiva.

O Antigo Testamento diz muitas vezes que Deus age com correção (Êx 9.27; SI 11.7; 111.3; 116.5; 129.4; 145.17; Jr 12.1; Dn 9.14).

Eis a Rocha! Suas obras são perfeitas,
porque todos os seus caminhos são juízo;

Deus é fidelidade, e não há nele injustiça;
é justo ereto.

(Dt 32.4)

Justo és, Senhor,
e retos, os teus juízos.

(SI 119.137)

Qual é a diferença entre justiça e retidão no Antigo Testamento? mishpat ("justiça") é um termo legal usado no sistema judicial, tsèdãqâ ("retidão") denota conformidade a uma norma. Com frequência a norma é a aliança. Deus e Israel são retos quando fiéis à aliança.

Objetos podem ser "corretos, justos", no Antigo Testamento. Balanças, pesos e medidas são "justas" quando são como devem (Lv 19.36; Ez 45.10). Sacrifícios são "retos" quando oferecidos segundo as regras (Dt 33.19; SI 4.5; 51.19). Carvalhos são "justos" porque estão sempre verdes (Is 61.3), e caminhos são "retos" quando se pode andar por eles (SI 23.3). Assim, tsèdãqâ ("retidão") é conformidade à norma segundo a qual cada pessoa ou coisa deve ser. No Antigo Testamento, o próprio Deus é a origem do direito.

Heschel tentou distinguir entre retidão e justiça sugerindo que retidão é uma qualidade da pessoa, enquanto justiça é um modo de agir. O substantivo juiz significa "alguém que age como juiz", porém o substantivo reto se refere a uma pessoa correta. Retidão vai além de justiça. A justiça com frequência é "rígida e exata, dando a cada pessoa o que lhe é devido. Retidão implica benevolência, gentileza, generosidade. Justiça é forma, uma condição de equilíbrio; retidão tem o significado de um substantivo. A justiça pode ser legal; a retidão está ligada a uma compaixão ardente pelos oprimidos". A retidão de Deus não pode ser separada da figura de Deus como juiz.

A justiça originariamente referia-se às decisões e determinações de Deus como juiz. Julgamentos feitos em nome de Deus por juízes locais tomaram-se a base da lei comum em Israel. Não devemos equiparar nossa ideia de Deus como juiz no Antigo Testamento com a clássica figura da moça vendada segurando uma balança na mão. "A justiça de Deus estende um braço ao trapo jogado no chão enquanto com o outro afasta aquele que causa o infortúnio". Desse modo, a justiça de Deus tem sempre um elemento de graça e misericórdia. Com frequência favorece o pobre e necessitado.

C. Retidão como vitória ou salvação

Quase desde o começo do Antigo Testamento, a "retidão" de Deus era sinônimo de "vitória" e "salvação". Os grandes atos redentores de Deus em favor de Israel são chamados "atos retos de Javé" ("triunfos", Jz 5.11; "atos salvadores", ISm 12.7; "justificação", SI 71.15-16; 103.6; Dn 9.16; Mq 6.5). É na última parte de Isaías e em alguns salmos que a combinação das ideias de retidão, vitória e salvação se toma mais clara (SI 22.31; 35.24, 27-28; 48.10; 51.1, 14; 65.5; Is 45.8, 21, 25; 46.12-13; 51.1, 5-6, 8; 61.10; 62.1-2).

Muitos estudiosos falam de um desenvolvimento do sentido da ideia da retidão de Deus no Antigo Testamento, mas von Rad disse que não há transformação radical nem desenvolvimento perceptível no conceito israelita antigo da retidão de Javé. Desde a época do cântico de Débora, a retidão de Javé "não era uma norma, mas atos, e atos que concedem salvação". No Antigo Testamento, um indivíduo podia experimentar esses "retos" atos salvadores de Deus tanto quanto a nação (SI 22.31; 40.11; 71.2-22; 143.1). Toda a ideia da justiça de Deus no Antigo Testamento foi questionada por Klaus Koch e J. L. Crenshaw.

O substantivo "reto" aparece nas formas masculina (tsedfq), feminina singular (tsêdãqâ) e feminina plural (tsèdeqôt). Tem havido muita especulação quanto à diferença entre as formas masculina e feminina porque ambas podem ocorrer na mesma frase. Mais recentemente Johnson argumentou que a forma feminina é mais concreta, e a masculina, mais abstrata. Não há diferença significativa perceptível no emprego dos substantivos masculino e feminino. Jacob entendeu que a diferença era que a forma masculina destaca a norma da ação de Deus, enquanto a forma feminina enfatiza a manifestação visível dessa norma. Segundo Jepsen, a forma masculina significa "correção", "ordem", e a forma feminina significa "a conduta que objetiva a ordem correta".

G. A. F. Knight disse que até recentemente os estudiosos não haviam esclarecido a diferença entre as formas masculina e feminina. "Porém de novo temos de dizer humildemente que, visto que eles descrevem aspectos da graça e da bondade indizíveis do Deus vivo, podemos apenas tatear por palavras quando tentamos expressar o que Deus está fazendo". Em outro texto, Knight deu a entender que a forma masculina refere-se aos atos salvadores de Deus que vêm de cima, de pura graça, porque no mundo antigo o céu era considerado masculino. Ele disse que a forma feminina se refere principalmente aos atos redentores ou salvadores das pessoas umas em relação às outras, e é feminina porque terra é feminina. Nesse último sentido das ações humanas redentoras ou salvadoras uns pelos outros, retidão é sinônimo de justiça:

Corra o juízo (justiça) como as águas;
e a justiça (retidão), como ribeiro perene.
(Am 5.24)

As palavras "justiça" e "retidão" são usadas de tantas maneiras diferentes no Antigo Testamento que cada uso tem de ser estudado com muita atenção, à luz do seu contexto e do seu significado em outras passagens. Quando "retidão" se refere à retidão de Deus, de algum modo está vinculada às suas "ações salvadoras" pela graça. Quando a referência é à retidão humana, está ligada ou à posição da pessoa na aliança com Deus e/ou ao modo pelo qual tratou os outros em termos éticos. Walther Zimmerli observou que "retidão", que caracteriza a esfera da justiça divina com referência específica aos atos de Javé, torna-se o termo central para a justiça humana. Os salmos 111-112 mostram como a retidão de Javé (SI 111) é refletida (SI 112) nas ações de alguém que teme a Deus. Johnson sublinhou os relacionamentos da aliança, sendo a retidão a conduta alinhada com a aliança.

Temos de admitir que algumas passagens do Antigo Testamento falam de Deus como juiz ou rei do mundo porque ele o criou e sustenta. O mundo está fundamentado em retidão e justiça (SI 89.14; ls 28.16-17). Algumas passagens mostram o Senhor em batalha contra as forças do mal, contra o caos ou contra seus inimigos, para manter o mundo firmado em retidão. As vezes essas forças do mal são chamadas Raabe, Leviatã, Tanin ou dragão. Em português são chamadas bestas, serpentes, monstros marinhos, ou rios, enchentes e oceanos (Jó 9.13; 26.12; 38.8-11; SI 74.13; 89.10; 93.39־104.6 ;9־98.7 ;13־96.10 ;4־; ls 27.1; 51.9). Em Habacuque 3.8-15, o profeta fala de uma batalha entre Javé e os mares, rios e águas, usando metáforas do êxodo e da travessia do mar Vermelho. É óbvia a presença de uma antiga linguagem mitológica de uma batalha contra o dragão Tiamate. As águas no Antigo Testamento frequentemente simbolizam o mal cósmico. Javé está no controle. Ele tem poder sobre as águas e sobre o mal.

Com seu poder aquietou o Mar,
com sua destreza aniquilou Raab.

O seu sopro clareou os Céus
e sua mão traspassou a Serpente fugitiva.

(Jó 26.12-13, BJ)

Acaso, é contra os rios, Senhor, que estás irado?
É contra os ribeiros a tua ira
ou contra 0 mar, o teu furor,
já que andas montado nos teus cavalos,
nos teus carros de vitória?

Tiras a descoberto 0 teu arco,
e farta está a tua aljava de flechas.

Tu fendes a terra com rios.

Os montes te veem e se contorcem; 
passam torrentes de água;
as profundezas do mar fazem ouvir a sua voz
e levantam bem alto as suas mãos.

O sol e a lua param nas suas moradas,
ao resplandecer a luz das tuas flechas sibilantes,
ao fulgor do relâmpago da tua lança.

Na tua indignação, marchas pela terra,
na tua ira, calcas aos pés as nações.

Tu sais para salvamento do teu povo,
para salvar o teu ungido;
feres o telhado da casa do perverso
e lhe descobres de todo o fundamento.

Traspassas a cabeça dos guerreiros do inimigo
com as suas próprias lanças,
os quais, como tempestade,
avançam para me destruir;
regozijam-se, como se estivessem
para devorar o pobre às ocultas.

Marchas com os teus cavalos pelo mar,
pela massa das grandes águas.

(Hc 3.8-15)

Disseste: Hei de aproveitar o tempo determinado;
hei de julgar retamente.

Vacilem a terra e todos os seus moradores,
ainda assim eu firmarei as suas colunas.

(SI 75.2-3)

Habacuque sabia que o poder do mal era como um monstro. Um poder grande demais para ele, mas Deus era soberano sobre o mar. O apóstolo João, prisioneiro na ilha de Patmos, previu o dia em que o mar já não existirá —querendo dizer "não haverá mais mal" (Ap 21.1). Apocalipse 12.7-12 diz que Deus é soberano sobre o mal, assim como é sobre o mar. Haverá guerra no céu entre Miguel e seus anjos e o dragão e seus anjos. O dragão e seus anjos serão derrotadose expulsos do céu. A vitória é atribuída ao sangue de Cristo e ao testemunho fiel dos mártires cristãos (Ap 12.11).

No hebraico posterior e no aramaico, "retidão" se tomou quase sinônimo de ações de misericórdia e de esmolas (Dn 4.27; Mt 6.1). O apóstolo Paulo usou "retidão" de duas maneiras. Ao escrever sobre a lei da retidão, estava pensando no sentido genuinamente ético (Rm 9.31; 10.1-6; Fp 3.6, 9). Ao falar do "dom da retidão" (Rm 1.17; 3.22; 5.17), estava pensando no grande ato salvador de Deus em Cristo. Nisso Paulo é herdeiro dos profetas e dos salmistas que tomaram retidão sinônimo de salvação.

Portanto, Javé é juiz de todo o mundo no Antigo Testamento. Ele o criou. Ele o sustenta. Ele luta contra as forças do mal para preservar a retidão e a justiça. No fim, o "conhecimento de Deus" cobrirá a tema como as "águas" (símbolo do mal) cobrem o mar (veja Is 11.3-9; Hc 2.14).

Um Deus que perdoa

A experiência de ser perdoado pode ser uma das mais alegres, humilhantes e terapêuticas da vida. As exclamações mais líricas de poesia e doxologia no Antigo Testamento vêm dos que comemoram o perdão.

Miquéias se maravilhou:

Quem, ó Deus, é semelhante a ti,
que perdoas a iniquidade
e te esqueces da transgressão
do restante da tua herança?

O Senhor não retém a sua ira para sempre,
porque tem prazer na misericórdia.

(Mq 7.18) 



O salmista declarou:

Bem-aventurado aquele cuja iniquidade é perdoada,
cujo pecado é coberto.

Bem-aventurado o homem a quem o Senhor não atribui iniquidade e em cujo espírito não há dolo Confessei-te o meu pecado e a minha iniquidade não mais ocultei.

Disse: Confessarei ao Senhor
as minhas transgressões;
e tu perdoaste a iniquidade
do meu pecado [...].

Tu és o meu esconderijo;
tu me preservas da tribulação
e me cercas de alegres cantos de livramento.

(Sl 32.1-2, 5,7)

O perdão é necessário porque todos pecamos e carecemos da glória de Deus (Is 53.6). Somente Deus pode perdoar pecados (Is 53.4-5; veja SI 51.3-4; 130.3-4; Mc 2.7; Lc 5.21; 7.49).

Duas raízes hebraicas traduzem o conceito básico de "perdoar" no Antigo Testamento. Uma é salah e é frequentemente traduzida por "perdoar". Em acadiano, uma raiz semelhante, salahu, significa "aspergir" e é usada no sentido médico e cultual. Em hebraico, esse sentido concreto não transparece, mas a raiz pode ter vindo de um contexto de culto e poderia ter sido usada com o sentido de "aspergir", e depois "perdoar". Se isso é verdade, o perdão é um processo de purificação espiritual e mental que restaura o relacionamento entre Deus e o ser humano e entre as pessoas.

A segunda raiz hebraica que significa "perdoar" é naa’s tem o sentido literal de "levantar", "carregar", salah ocorre apenas com Deus como sujeito, mas naa’s é usada tanto com Deus como com as pessoas como sujeito. Os irmãos de José pediram que ele os perdoasse (Gn 50.17); Saul pediu perdão a Samuel, para que pudesse adorar (ISm 15.25); Abigail pediu a Davi que a perdoasse por sua parte na má conduta de seu marido em relação a ele (ISm 25.28).

O perdão também está presente em outros termos além de naa’s e salah. Expressões como "ser gracioso", "esconder-se da ira de Deus" e "que Deus se arrependa ou se desvie da sua ira" podem indicar o perdão de Deus.

O "credo" não histórico de Êxodo 34.6-7 descreve Javé como misericordioso e gracioso, tardio para se irar, rico em amor firme e em fidelidade, mantendo seu amor por milhares, e perdoando (nãéã’) iniquidade, transgressão e pecado. A raiz slh é usada no credo em Êxodo 34.9 na oração: "Perdoa (slh) nossa iniquidade e nosso pecado". Essa parte do "credo" é repetida duas vezes. Uma forma da raiz slh ocorre em Neemias 9.17: "Tu és Deus perdoador".

Israel acreditava que Javé era um Deus que perdoa, mesmo que em algumas ocasiões Deus diga que não perdoará (Êx 23.21; Dt 29.20; Js 24.19; 2Rs 24.4; Jó 7.21; Lm 3.42; Os 1.6). Amós orou para que Deus perdoasse Israel (Am 7.2, 5), e o Senhor se arrependeu e desistiu do castigo pretendido. Mais tarde Amós teve duas outras visões do julgamento vindouro, e Javé disse que havia chegado ao fim a paciência divina com Israel: "Jamais passarei por ele" (Am 7.8; 8.2). Javé disse três vezes a Jeremias que não orasse mais por seu povo, porque Javé não os pouparia do castigo (Jr 7.16; 11.14; 14.11).

O perdão de Deus nem sempre era garantido. Amós disse:

Aborrecei o mal, e amai o bem,
e estabelecei na porta o juízo;
talvez o Senhor, o Deus dos Exércitos,
se compadeça do restante de José.
(Am 5.15)

Na mesma linha, Sofonias conclamou:

Buscai o Senhor, vós todos os mansos da terra,
que cumpris o seu juízo;
buscai a justiça, buscai a mansidão;
porventura, lograreis esconder-vos

no dia da ira do Senhor.

(Sf 2.3)

O rei de Nínive não achou que o perdão de Javé fosse automático. Disse ele: "Clamarão fortemente a Deus; e se converterão, cada um do seu mau caminho e da violência que há nas suas mãos. Quem sabe se voltará Deus, e se arrependerá, e se apartará do furor da sua ira, de sorte que não pereçamos?" (Jn 3.8-9).

Nessas três passagens, o perdão de Deus não é automático nem garantido. Deus é livre para perdoar ou não. Durante a maior parte do tempo, Israel tinha uma fé firme na disposição de Deus de perdoar (Ne 9.17; SI 32.1-5; 65.3; 86.5; 99.8; 103.3; Is 55.7; Mq 7.18).

Comentando a ocasião em que Israel pressupôs o perdão de Deus (Is 48.1­-2), G. A. F. Knight lembrou a insolência da famosa declaração de Heinrich Heine no seu leito de morte: "Deus há de me perdoar, porque esse é o seu trabalho". Knight viu uma importante verdade evangélica em Isaías 44.22, que assevera que Deus já nos perdoou antes que nos arrependamos, não quando e se nos arrependermos. Mais tarde Knight disse: "Deus oferece perdão ao ser humano no mesmo momento em que este comete o pecado fundamental do qual derivam todos os outros. Deus perdoará abundantemente, [...] ou ‘multiplicará o perdão”'.

De acordo com o Antigo Testamento, o maior problema da raça humana é o pecado. Somente Deus pode lidar com ele eficientemente; isso ele fez, e faz, em Cristo. 

Um Deus único

O Antigo Testamento afirma que Javé é único (Dt 6.4) e que somente ele é Deus (Dt 4.35, 39; 2Sm 7.22; IRs 8.60; 2Rs 19.15; SI 86.10; Is 43.10-13; 44.6-8; 45.5-6, 21-22; J1 2.27; cf. Is 41.4; 48.12; 64.4). Essas afirmações são poucas, e suas datas são discutíveis. É surpreendente que o shema (Dt 6.4), que se tomara a divisa do judaísmo no começo da era cristã, é mencionado apenas uma vez no Antigo Testamento, e seu significado exato não está claro. O texto hebraico pode ser lido assim: "Ouve, ó Israel, Javé (é) nosso deus, Javé (é) um"; ou: "Ouve, ó Israel, Javé (é) nosso Deus, apenas Javé". G. Ernest Wright disse que o significado essencial está claro mesmo que nossa tradução não esteja.

O objeto da atenção, afeição e adoração exclusiva de Israel (cf. v. 5) não é difuso, mas específico. Não é um panteão de deuses, cada um com uma personalidade dividida de modo desconcertante por adeptos e santuários rivais, tanto que a atenção do adorador não tem como se concentrar. A atenção de Israel é indivisa; ela é restrita a um único ser definido cujo nome é Javé. [...] A palavra “um” é, portanto, usada em contraposição a “muitos”, mas também implica singularidade e diferença.

A palavra traduzida por "um" é o numeral cardeal comum ,êhad. G. A. F. Knight propôs que essa palavra "um" (,êhad) não deve ser vista aqui em sentido matemático, porque com frequência é usada para uma unidade na diversidade, como no exemplo de "uma só carne" de marido e esposa (Gn 2.24). "A pessoa de Deus [...] não deve ser entendida em termos individualistas modernos. Deus não é uma mera mônada, a mera ‘unicidade’ de ser no sentido matemático da palavra ‘um’. Ele é uma ‘unidade na diversidade’". Knight observou que outra palavra hebraica, yahid, pode significar "um" no sentido de singularidade ou "o único" (Gn 22.2, 12, 16; Jz 11.34; SI 22.20; 25.16; 35.17; 68.7; Pv 4.3; Jr 6.26; Am 8.10; Zc 12.10).

Os cristãos lembram o fato de que Deuteronômio 6.4 usa o único unido (,êhad) como evidência de que a doutrina da Trindade de forma alguma contradiz ou se opõe ao shema. Temos de tomar cuidado, no entanto, para não ler a doutrina cristã da Trindade dentro do shema do Antigo Testamento. David S. Dockery disse que é frequente a confusão quanto ao fato de a Bíblia afirmar ao mesmo tempo a doutrina da Trindade e o monoteísmo. Contudo, essas duas afirmações de modo algum são contraditórias. A doutrina da Trindade não ensina a existência de três deuses "Deus não se revelou em termos claramente trinitários no Antigo Testamento. Todavia, o Antigo Testamento preparou o fiel para a doutrina da Trindade".

A ideia da unicidade de Deus no Antigo Testamento é singular e significativa. Enquanto outros povos antigos achavam que seus deuses eram muitos, cada um tendo sua própria esfera de influência e responsabilidade, o Israel antigo entendia que seu Deus era um (indiviso), com todos os atributos e poderes da divindade em si mesmo, governando todas as esferas da existência. Não há distinções sexuais em Javé. O hebraico não tem palavra traduzível por deusa. Não há indicação de que o Javé do reino do Norte fosse de qualquer forma diferente do Javé do reino do Sul. Westermann disse:

Por ser o criador e também o salvador, por ser o Deus que abençoa sua criação em um horizonte universal o mesmo que salva e julga seu povo, por ser o Deus em quem cada pessoa confia o mesmo que “dá o alimento aos animais e aos filhos dos corvos” (SI 147.9), e por existir apenas um para louvar e um a quem se queixar —há coerência e relação em tudo o que acontece entre Deus e o ser humano, entre Deus e sua criação. Por isso essa história é real, do começo ao fim.