27 de agosto de 2017

VICTOR P. HAMILTON - Primeiro Discurso de Moisés (1.1—4.40)

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Primeiro Discurso de Moisés (1.1—4.40)

O livro de Números cobriu uma grande porção de tempo e histó­ria, aproximadamente quarenta anos (compare a primeira data descrita em Números, que é “no primeiro dia do segundo mês, no segundo ano da sua saída da terra do Egito” [1.1], com a última data registrada em Números, que é “no quinto mês do ano quadra­gésimo da saída dos filhos de Israel da terra do Egito, no primeiro dia do mês” [33.38]). Deuteronômio, por outro lado, parece cobrir acontecimentos ao longo de um período de vinte e quatro horas. Isto pode ser visto ao compararmos os dois versículos seguintes:

Deuteronômio 1.3: “E sucedeu que, no ano quadragésimo, no mês undécimo, no primeiro dia do mês, Moisés falou”.

Deuteronômio 32.48: “Depois, falou o Senhor a Moisés, naque­le mesmo dia”.

Considerando, porém, que 1.5 declara que Moisés apenas “começou” a expor a lei no primeiro dia do décimo-primeiro mês, e não que ele “terminou” naquele mesmo dia, podemos supor que a expressão “naquele mesmo dia”, de 32.48, diz respeito aos even­tos narrados no capítulo 32 e que a morte de Moisés ocorreu em algum momento do décimo-segundo mês. E improvável, embora não impossível, que Moisés tivesse feito três discursos (1.5—4.40: 5.1; 28.68; 29.1—30.20), dissesse algumas palavras a Josué (31.7,8), compusesse e declamasse dois poemas (32—33) e então morresse, tudo dentro do período de vinte e quatro horas.

O grosso de Deuteronômio é muito parecido com o trecho que vai de Êxodo 19 a Números 10.11, ao longo do qual Israel está acampado no Sinai. Em Deuteronômio, Israel está acampado em Moabe; em Êxodo 1—18, está indo em direção ao Sinai; em Nú­meros 10.11—36.13, está indo rumo a Moabe. Os dois períodos de descanso são aqueles em que Deus fala (geralmente através de seu servo Moisés) de forma clara e ampla com seu povo. Tirando os momentos de maior agitação, é nesses acampamentos que o povo de Deus aprende a se aquietar, ouvir e discernir a voz de Deus para suas vidas e seus futuros.

O primeiro discurso de Moisés, portanto, compreende os pri­meiros quatro capítulos de Deuteronômio. Ele tem duas divisões muito claras: (1) os capítulos 1—3, que são uma recapitulação histórica da odisséia de Israel, começando na saída do Sinai e seguindo pela jornada no deserto; e (2) o capítulo 4, que é primor­dialmente uma exortação. Assim, a diretriz dos capítulos 1—3 é o passado, composto no modo indicativo. A ênfase são as recorda­ções. A diretriz do capítulo 4 é o presente e futuro, composto no modo imperativo: “Prestem atenção [...] façam [...] entrem [...] tomem posse”. Nos capítulos 1—3, Moisés fala sobre as circunstân­cias, no 4, é um pregador. O narrador se transforma em exortador; o historiador é também um analista.

Devemos notar que essas palavras de Moisés são dirigidas “a todo o Israel” (1.1). A importância desta frase não é salientada apenas por sua proliferação em Deuteronômio (quatorze vezes, onze das quais nas seções estruturais), mas também pelo fato de ela aparecer apenas duas vezes no restante do Pentateuco: Êxodo 18.25 e Números 16.34 (ver Flanagan). Não há ninguém que não careça de ouvir esta palavra divina e em seguida reagir ade­quadamente.

Reminiscências

Nesse discurso, Moisés recorda oito acontecimentos:

1. 1.9-18: Quando o fardo de Moisés é reduzido com a nomea­ção de juízes que o auxiliassem como assistentes (Êx 18.13ss e seguintes; Nm ll.l0ss e seguintes).

2. 1.19-46: A história dos espias enviados para recolher informações a respeito de Canaã (Nm 13—14).

3. 2.1-8a: A passagem de Israel ao largo do território de Edom (Nm 20.14-21).

4. 2.8b-25: A passagem de Israel pelo território de Moabe (Nm 21.4-20).

5. 2.26-37: A vitória de Israel sobre Seom, rei de Hesbom (Nm 21.21-32).

6. 3.1-7: A vitória de Israel sobre Ogue, rei de Basã (Nm 21.33­35).

7. 3.8-22: A distribuição de territórios tribais a leste do Jordão (Nm 32).

8. 3.23-29: O pedido de Moisés para entrar em Canaã e seu indeferimento (Nm 27.12-14, embora sejam ocorrências distintas).

Percebe-se que o primeiro e último itens da lista tratam de dispositivos que dizem respeito apenas aos israelitas. Em ambos os casos, o fardo de Moisés estava sendo aliviado. Assistentes reduziriam seus encar­gos. Antes que pudesse ultrapassar Pisga, transferiu suas fun­ções a uma outra pessoa, a saber, Josué. Os demais acontecimentos tratam das relações internacionais de Israel, tanto potenciais (3) quanto reais (4—6).

As recordações de Moisés não são meras repetições, mas tam­bém explicativas, com o acréscimo de novos entendimentos. Acontecimentos mais antigos podiam ter sido até mesmo ignorados: como, por exemplo, o incidente em Números envolvendo Balaque e Balaão. Uma rápida olhada nos sete acontecimentos de Deute­ronômio 1—3 já comprova isso.

Primeiro: Deuteronômio 1.9-18 é, sem dúvida, uma combina­ção de dois eventos bíblicos anteriores: um anterior ao Sinai (Ex 18.13-27, o único evento anterior ao Sinai nessa perícope; ver prin­cipalmente Dt 1.13-17) e outro posterior ao Sinai (Dt 1.9-12; Nm 11.14-17). Assim, notamos que Deuteronômio não faz nenhuma alusão ao papel de Jetro, que sugerira a Moisés a divisão de suas incumbências e responsabilidades, nem há qualquer referência à ordem de Deus para que Moisés escolhesse setenta anciãos. Em Números, é a Deus que Moisés dirige suas queixas: “eu sozinho não posso levar a todo este povo” (11.14); em Deuteronômio, é ao povo que Moisés se dirige: “E, no mesmo tempo, eu vos falei, di­zendo: Eu sozinho não poderei levar-vos” (1.9).

Em segundo lugar, temos a narrativa sobre o envio dos espias e o relatório que fazem, que é essencialmente a mesma de Núme­ros 13—14. A narrativa de Deuteronômio, no entanto, inclui uma curiosa observação: “Também o Senhor se indignou contra mim [Moisés] por causa de vós, dizendo: Também tu lá não entrarás" (Dt 1.37). A informação é reiterada em 3.26 e 4.21. Já a magnífica oração de intercessão, feita por Moisés e registrada em Números 14.13-19, não está presente em Deuteronômio.

A diferença mais marcante entre as duas narrativas é que Números 13.1,2 atribui a expedição de reconhecimento a Deus: “E falou o Senhor a Moisés, dizendo: Envia homens que espiem a terra de Canaã”, ao passo que Deuteronômio 1.22,23 sugere que a idéia foi do povo e não de Deus: “Então, todos vós vos chegastes a mim e dissestes: Mandemos homens adiante de nós, para que nos espiem a terra [...] Pareceu-me, pois, bem este negócio”. É possí­vel reconciliar essas diferenças se sugerirmos que, ao relembrar a história dos espias, Moisés intencionalmente a corrigiu com a finalidade de culpar o povo, em vez de insinuar que Deus fora o responsável por conceber e autorizar uma expedição que acabou em fiasco e na morte da primeira geração no deserto. É duvidoso, porém, crer que Moisés estivesse tentando proteger a Deus, “li­vrando-o de uma enrascada” ao tentar inocentá-lo de algo que dera errado. Podemos encontrar uma pista melhor no Pentateuco samaritano, o qual coloca Deuteronômio 1.20-23a antes de Nú­meros 13. Assim, teríamos: “[Dt 1.20-23a] Então, eu [Moisés] vos disse [...] Então, todos vós vos chegastes a mim e dissestes [...] Pareceu-me, pois, bem este negócio. [Nm 13.1] E falou o Senhor a Moisés, dizendo: Envia homens que espiem a terra”. A idéia teria, portanto, se originado em Israel. Moisés teria supostamente son­dado a Deus e Deus o teria permitido. Sem dúvida, a versão do Pentateuco samaritano tenta contemporizar, mas ainda assim capta de maneira correta o espírito das duas referências, pois por que motivo o redator deixaria tamanha contradição na narrati­va? O documento também estabelece uma analogia com 1 Samuel 8ss: a idéia de um rei parte inicialmente do próprio povo; Samuel pergunta a opinião de Deus e Deus concede o que desejam, resul­tando em conseqüências desastrosas.

Terceiro: antes de chegar a Edom, Moisés envia um grupo avançado a fim de obter permissão de passagem. A permissão é negada e Israel se vê forçado a dar a volta em Edom (Nm 20.14-21). Deuteronômio não registra as atividades desse grupo avançado nem a negativa dos edomitas. A novidade aqui é a ordem divina para que nenhuma iniciativa militar fosse tomada contra Edom, além da informação de que o próprio Deus dera aos edomitas sua terra (Dt 2.5).

Na quarta passagem, o Senhor dá aos israelitas uma palavra semelhante acerca de Moabe, conforme registrado em Deuteronô­mio. São instados a evitar qualquer embate militar, pois também os moabitas haviam recebido suas terras do próprio Jeová (Dt 2.9). Pode-se imaginar o impacto psicológico nos israelitas, ao ouvirem que outras nações também receberam terras do Deus de Israel? (Amós 9.7 sugere que o Deus de Israel não apenas tirou Israel do Egito, mas também conduziu o êxodo de outras nações). Essas considerações exaltaram ou abateram Israel? A última op­ção parece a mais provável.

Em algumas Bíblias, os versículos 10-12 do capítulo 2 estão entre parênteses; ao passo que, em outras, foram retirados. Al­guém, após Moisés, deve ter adicionado tais versículos, uma vez que o versículo 12b afirma que a conquista de Canaã está comple­ta: “os filhos de Esaú os lançaram fora [os horitas] [...] assim como Israel fez à terra da sua herança”. Assim, mesmo com o compro­misso de que Deuteronômio foi escrito por Moisés, ainda resta espaço para relevantes contribuições posteriores ao texto final.

Em quinto lugar, Deuteronômio esclarece que, no encontro de Israel com Seom, rei de Hesbom, Seom havia rejeitado o pedido de passagem de Israel porque Deus lhe endurecera o coração (Dt 2.30). Aos edomitas, moabitas e amonitas, Deus concedeu terras: mas, a Seom, deu espírito e coração endurecidos. Outros que tive­ram o coração endurecido por Jeová foram, logicamente, o Faraó, em Êxodo (10.1,20,27; 11.10); além dos habitantes de Canaã, em Josué, de forma que não se rendessem a Israel e lutassem, e, por certo, perdessem (11.20). De todo modo, Deus se sobrepõe à livre vontade daqueles que já escolheram o caminho do senhorio sobre si mesmos.

Sexto: a vitória sobre Ogue de Basã (uma área montanhosa no atual território da Síria, ao sul de Damasco), que ocupa onze versículos em Deuteronômio, contra três em Números. Como em 2.10-12, 3.11, a referência à enorme cama do rei Ogue é um acrés­cimo posterior ao período mosaico (ver MillarcF). No versículo 11 do capítulo 3, lemos o seguinte: “eis que o seu leito, um leito de ferro, não está porventura em Rabá dos filhos deAmom?”

Sétimo: no último evento, temos mais uma menção a Moisés como sofredor vicário (3.26, uma reafirmação de 1.37). Embora fosse afligido, não abriu sua boca. Ou será que abriu? É preciso que reexaminemos mais atentamente se Deuteronômio e Núme­ros estão tão distantes em suas explicações acerca da exclusão de Moisés da Terra Prometida, como sugere um grande número de comentaristas. Será que Números atribui responsabilidade à pes­soa de Moisés — “Porquanto não me crestes a mim” (20.12), “por­quanto rebeldes fostes [...] ao meu mandado” (27.14) — enquanto Deuteronômio o isenta e mostra-o como aquele que, embora ino­cente, carrega o castigo pelos pecados alheios?

As três passagens em Deuteronômio (1.37; 3.26; 4.21) não es­tão apenas dizendo que Israel era uma pedra de tropeço para Moisés? Aliás, foi exatamente por causa dos constantes murmúri­os e reclamações de Israel que Moisés foi levado a irar-se e, as­sim, à condenação divina. Veja que, em 3.26, a sentença divina de exclusão é seguida de uma ordem para que sua autoridade fosse transferida a Josué (3.28), que corresponde à seqüência de Nú­meros 27.12-23: a sentença de exclusão (vv. 12-14) é sucedida pela transferência de autoridade a Josué (vv. 15-23).

Exortação

Já comentamos que, no capítulo 4, o texto abandona as reminiscências exclusivamente históricas dos capítulos 1—3 e assume a forma de exortação. Porém, mesmo dentro do capítulo 4, há algu­ma narrativa histórica, demonstrada na referência ao incidente de Baal-Peor (v. 3; conforme Nm 25) e na revelação de Deus em Horebe/ Sinai (vv. 9-14; conforme Ex 19—20). Essa mudança de recorda­ções para apelos é ainda mais evidenciada pelo uso freqüente do discurso direto nos capítulos 1—3 e do discurso indireto no capítu­lo 4, conforme observa Polzin28. Veja as passagens nos primeiros três capítulos em que Moisés cita Deus no discurso direto: 1.6- 8,35,36,37b-40,42; 2.3-7,9,13,18,19,24,25,31; 3.2,26-28. Nas seguin­tes passagens, Moisés cita a si próprio na forma direta: 1.9­13,16,17,20,21,29-31; 2.27-29; 3.18-22,24,25. Nessas passagens, Moisés cita o povo em discurso direto: 1.14,22,25b,27,28,41a. Por outro lado, no capítulo 4, somente no versículo 10 Moisés cita Deus fazendo uso do discurso direto e em momento algum faz qualquer referência a citações suas ou do povo.

Nesse capítulo, a principal preocupação de Moisés era a possibilidade de que os israelitas, uma vez em Canaã, achassem a ten­tação da idolatria irresistível (vv. 15-19,23,25). E particularmen­te interessante que, ao relacionar as formas de imagens proibi­das (vv. 16-19), Moisés as liste em uma seqüência oposta à utili­zada na criação, segundo Gênesis l-2:4a29: macho e fêmea, feras e animais, aves e criaturas rastejantes, peixes, o sol, a lua, as estrelas e todo o exército dos céus. Se Israel virasse as costas ao Senhor e se entregasse à idolatria, a vontade de Deus para suas vidas mudaria. Tal revés equivaleria ao desmonte, à mais total subversão, da criação de Deus.

Moisés também exorta os israelitas a aprender não apenas com a história ou pré-história, mas também com suas próprias experi­ências pessoais. Moisés quer que Israel viva (v. 1), embora ele deva morrer (v. 22). Um quarto estímulo à obediência é o próprio caráter de Deus. Ele é ciumento, um fogo devorador/consumidor (v. 24).

Um último argumento para o apelo de Moisés por obediência é a ameaça de exílio. O Senhor que expulsara as nações de diante de Israel (v. 38), da mesma forma expulsaria Israel. Entre os es­tudiosos, é amplamente aceita a premissa de que qualquer refe­rência bíblica a um exílio de Israel faz supor que o escritor viveu após a devastação babilónica de Judá e Jerusalém em 587 a.C. O comentário de Gerhard von Rad30 ilustra isso: “Isto [4.25ss] nos dá uma pista sobre a data do livro, visto que esse pregador já tem conhecimento do exílio de 587”.

Tal conclusão, porém, certamente foge do simples fato de que Israel, com exceção de um breve período de glória durante o tempo de Davi, sempre viveu sob a sombra de vizinhos muito mais poderosos, de forma que o exílio ou a perda da independência eram sempre uma possibilidade (ver livro de Juízes). Além disso, essa hipótese ignora por completo evidências do segundo e do primeiro milênios a.C., nas quais lemos sobre a captura de um lugar e a deportação de seus cidadãos (ver Kitchen31). Será que toda e qual­quer coisa profética do Antigo Testamento deve ser considerada uma vaticinium ex eventuí2‘}.

As ameaças, contudo, não são as últimas informações encon­tradas. Deus é efetivamente ciumento e apaixonado, um fogo devorador (v. 24). Não existe outro além dEle (v. 35), e Ele é ouvi­do, mas não visto (v. 12). Além disso, Deus é “misericordioso /com­passivo” e jamais “te desamparará [...] nem se esquecerá” (v. 31). A conclusão de tão grandes conclamações de Moisés é uma pro­messa acerca da “terra que o Senhor, teu Deus, te dá para todo o sempre” (v. 40).



E, por causa da misericórdia de Deus, até mesmo o apóstata e o exilado podiam “se virar” (v. 30) para Ele. Se a porta para uma restauração da comunhão com Deus está fechada, é a própria humanidade que insiste nisso, não Deus. O povo de Deus podia se “esquecer” dEle e de seus preceitos (v. 9), porém Deus jamais “es­queceria” o seu povo (v. 31).