3 de agosto de 2017

VICTOR P. HAMILTON - Do Sinai a Cades (Parte 2)

Do Sinai a Cades (Parte 2)


Outras Rebeliões contra Moisés (15—18)


O capítulo 15 interrompe de maneira abrupta a seqüência de Números, sem qualquer relação visível com o que vem antes ou depois. E uma unidade completamente dedicada a questões de adoração e encontra-se comprimida entre casos de maledicência contra Moisés (13—14; 16—18). Para comparar, imagine uma elaborada dissertação de Lutero sobre a preparação do vinho para a eucaristia, espremida entre relatos de suas contendas com a lide­rança da Igreja Católica Romana.

Desprezar a localização do capítulo como uma invasão e inser­ção sem sentido é, no entanto, injustificável. Cinco questões são abordadas nesse capítulo: informações adicionais sobre os primei­ros três sacrifícios detalhados em Levítico (ofertas de holocaustos, manjares e pacíficas [vv. 1-16]); a oferta das primícias (vv. 17-21): informações repetidas e complementares sobre a oferta pelo pe­cado, girando em torno de pecados inadvertidos ou motivados pela ignorância (vv. 22-31); um caso de pena de morte pela violação do Sábado (especificamente por recolher lenha [vv. 32-36]); a coloca­ção de franjas nas bordas das vestes (vv. 37-41). No judaísmo, a importância adquirida posteriormente pela franja pode ser avali­ada em duas referências de Mateus: “a orla da sua [de Jesus] ves­te” (9.20) e “eles [os escribas e fariseus] fazem [...] as franjas de suas vestes bem longas” (23.5 - NVI).

Números 15 parece estar relacionado a seu contexto imediato de diversas formas. Possivelmente, serve como uma pausa no dra­ma apresentado, mas por que isso seria preciso e qual o efeito de tal pausa? Teríamos aqui uma associação de idéias? O capítulo 14 lidava com o pecado da congregação; o 15 (vv. 22-26) provê, via a oferta pelo pecado, expiação para toda a congregação. Ou os incidentes dos capítulos 13—14 são uma clara ilustração do que é dito em 15.30-31, sobre aquele que “peca atrevidamente”? Para esse já não há expiação. Ele será “extirpado”.

Não é possível que, também aqui, tenhamos evidências de uma estrutura de contrastes? No fim do capítulo 14, Israel se vê inca­paz de atacar Canaã e desiste de invadi-la pelo sul (vv. 39-45); no início do capítulo 15, lemos: “Quando entrardes na terra das vos­sas habitações” (v. 2). Juízos, sim, mas esse não era o objetivo de Deus nem sua última palavra.

Os primeiros três sacrifícios das leis levíticas, abordados em 15.1-16, não são expiatórios, mas voluntários e espontâneos, da­dos a Deus em gratidão e louvor. Em Números 13, 14 e 16, são raríssimas as expressões de gratidão e louvor!

Toda a questão do pecado involuntário, tanto da congregação (15.22-26) como do indivíduo (vv. 27-29), é nitidamente contrasta­da com a do pecado cometido “com a mão levantada/atrevidamente” (v. 30). O cenário descrito em 13, 14 e 16 diz respeito ao segun­do tipo. Para tais, não há sacrifício. Somente as orações intercessórias de Moisés salvam os transgressores (14.13-19; 16.22), e, mesmo assim, não completamente.

As franjas costuradas nas vestes são uma forma de o Senhor dizer a Israel que eles devem ser santos para seu Deus; não com uma santidade moralista, mas com uma santidade firmada na obediência (15.40). Se uma vida em santidade é o objetivo de Deus para seu povo, os capítulos em torno desses trechos exibem o exa­to oposto desse estilo de vida.

Com o início do capítulo 16, vemos mais críticas a Moisés. Até aqui, toda oposição contra ele tinha partido da congregação (11), de sua família (12) e dos espias (13). A essa lista, acrescenta-se então a oposição dos sacerdotes (16).

O instigador da revolta foi Corá, levita da tribo dos coatitas. Unindo-se a dois leigos, Datã e aAbirão, e mais a duzentos e cinqüenta proeminentes varões da congregação, Corá partiu para atacar Moisés (16.3).

“Moisés tem por acaso o monopólio da santidade?”, perguntou Corá. Moisés teve ainda mais dificuldades em engolir os impropé­rios de Corá pelo fato de este ser seu primo-irmão. Conforme o que lemos em Êxodo 6.14-25, o pai de Moisés, Anrão, e o pai de Corá, Isar, eram irmãos, sendo que ambos eram filhos de Coate, um dos três filhos de Levi. A oposição dos irmãos de Moisés, no capítulo 12, continua no capítulo 16, com o antagonismo de seu primo-irmão por parte de pai. Também é compreensível que Corá, um levita coatita, tenha juntado forças com dois leigos da tribo de Rúben. Números 3.29 nos informa que os coatitas deviam acam­par ao sul do Tabernáculo e que, logo atrás deles, acampava a tribo de Rúben (Nm 2.10). Não é apenas o sofrimento que aproxi­ma as pessoas, mas também egos inflados, ou seja, pessoas que acreditam merecer mais do que possuem.

A crítica é dura, porém seria justificada ou deturpada? Em cer­to sentido, Corá está absolutamente certo. Todo o povo de Deus é santo. O próprio Deus dissera isso em Êxodo 19.6 (“E vós me sereis [...] povo santo”) e em outras passagens, como Deuteronômio 7.6 (“Porque povo santo és ao Senhor, teu Deus”). Reprimindo qual­quer impulso de defender-se, Moisés se dispôs a deixar o assunto para Deus julgar (vv. 5-7). Como na disputa entre Elias e os profe­tas de Baal no monte Carmelo (1 Rs 18), caberia ao Senhor dis­tinguir entre o profeta e o mentiroso. Como no Carmelo, o con­fronto era de um contra muitos. Moisés então disse: “Ouvi agora, filhos de Levi” (16.8). Ele não disse: “Ouvi agora, Corá”. Corá era apenas o porta-voz de um grupo maior.

O motivo por trás do protesto de Corá é esclarecido em 16.8-10. Por que se contentar em ser vigário de uma paróquia quando se pode conseguir o bispado?

Deus não demonstrou a mesma paciência de Moisés e quis re­solver o impasse de uma vez por todas (v. 21). Moisés e Arão, con­tudo, intercederam pelo transgressor (v. 22), a fim de que não houvesse uma punição generalizada, mas limitada ao culpado. Pois foi exatamente isso que aconteceu: Corá e sua parentela fo­ram engolidos pela terra (vv. 31-33). Toda cena bíblica de “engolição” ocorre em um contexto de vitória e juízo divino. Além dessa passagem, podemos lembrar o cajado de Arão, que engoliu os bordões dos egípcios (Ex 7.12); ou dos hinos cantados por Moisés e Miriã, que celebravam o fato de a terra ter tragado Faraó e suas tropas (Ex 15.12); ou do grande peixe que engoliu o infiel Jonas (Jn 1.17); ou da morte sendo tragada pela vitória de Cristo (1 Co 15.54). Logicamente, é irônico que os levitas, que deviam impedir que a “ira” (qetsep) de Deus se abatesse sobre a comunidade por causa de uma conduta inadequada (Nm 1.53), acabassem como alvo da ira divina em virtude da sua própria conduta: “ficarás tu irado [çetsep] contra toda a comunidade quando um só homem pecou?” (Nm 16.22 — NVI) Como comenta Magonet, 16.22 é a primeira ocorrência de “iralqetse/3’ em Números desde 1.53.

O pecado de Corá teve dois aspectos. Consistiu numa atitude desafiadora e na realização de tarefas que não lhe cabiam. A destruição de Corá e seus comparsas ficou “por memorial para os filhos de Israel, para que nenhum estranho, que não for da descendência de Arão, se chegue para acender incenso perante o Se­nhor” (v. 40). Mais uma vez, Números volta a enfatizar o fato de que Deus designou responsabilidades específicas para grupos es­pecíficos. O problema surge quando um grupo, ao contrário da atitude do apóstolo Paulo, afirma: “porque não aprendi a conten­tar-me com o que tenho” (ver Fp 4.11).

A seriedade dessa organização é reforçada em 18.3: “Eles [a tribo de Levi] [...] não se aproximarão dos utensílios do santuário, nem do altar, para que não morram, nem eles, nem vós [Arão e os sacerdotes]” (conforme 18.7). Já encontramos essa advertência em especial em Números 1.51; 3.10; 3.38; 4.20. Não se vê aqui ne­nhuma idéia de sacerdócio para todos os crentes. Uma autorida­de havia sido estabelecida, limites foram determinados, ministé­rios definidos e cada atividade tinha sido regulamentada.

A reclamação de Datã e Abirão contra Moisés é diferente da de Corá. Este via Moisés como alguém arrogante, que pensava ser bem superior aos outros. Datã e Abirão, líderes da facção política da revolta, reclamaram do estilo de liderança de Moisés e consideraram-no ineficiente (vv. 13,14). O que disseram (“E ainda quer se fazer chefe sobre nós?” [v. 13b — NVI]) faz lembrar palavras que Moisés ouvira anteriormente de seu próprio povo: “Quem te tem posto a ti por maioral e juiz sobre nós?” (Ex 2.14) A palavra hebraica sara, “tornar-se príncipe/assenhorar-se”, aparece ape­nas em Números 16.13. Êxodo 2.14 emprega o cognato sar, que deriva do verbo sara, “senhor, príncipe, chefe” (ver Magonet).

Uma das características da murmuração é que ela é altamente contagiosa. Após já tê-la enfrentado de perto, Moisés teria de suportá-la de novo. Seria de se esperar que os sobreviventes, após verem a terra engolir todos os colaboradores de Corá e a incinera­ção de 250 homens que ofereciam incenso, hesitassem em conti­nuar com sua murmuração. Eram eles, e não Moisés e Arão, que deviam estar prostrados sobre seus rostos. Ainda assim, não é fácil interromper as reclamações de uma turba quando elas assu­mem proporções de uma avalanche. Por incrível que pareça, Moisés foi acusado por algo que Deus tinha feito: “Vós matastes o povo do Senhor” (v. 41 [em hebraico, 17.6]). (A divisão dos capítulos 16 e 17 na Bíblia Hebraica é diferente das traduções em português. Português: 16.1-35 = Hebraico: 16.1-35; Português: 16.36-50 = Hebraico: 17.1-15; Português: 17.1-13 = Hebraico: 17.16-28.) As­sim como salvou o povo anteriormente, a intercessão de Moisés salva-os agora do completo caos (vv. 46-48 [Hebraico: 17.11-13]). Dessa vez, seguindo as instruções de Moisés, Arão foi o instru­mento de libertação. Moisés, o profeta, intercedeu em oração para salvar seu povo. Arão, o sacerdote, usou um ritual estabelecido por Deus para salvar seu povo. A oferta de incenso de Arão (v. 47 [Hebraico: MT 17.12]), feita para a expiação dos renegados, é claramente diferente da oferta feita no capítulo 16, por pessoas que foram ainda assim exterminadas. Há uma enorme diferença entre oferecer incenso em nome de outra pessoa, para o bem des­sa pessoa, e oferecer incenso a fim de se promover e alardear seus próprios méritos. Mesmo após ter sido vítima de difamação, Moisés voltou a apaziguar a ira de Deus. Moisés imita aqui a sua esposa, cuja reação rápida o salvou da ira divina (Ex 4.25).

O capítulo 17 [MT 17.16-28] está, em diversos aspectos, relacio­nado às informações que o precedem. Com o caso do cajado de Arão que floresceu, tenta-se consolidar sua posição de preeminência. O tema da eleição divina ecoa tanto no capítulo 16 como no 17. A palavra-chave é “aceitar”. Em um caso, a aceitação da oferta de incenso (16.7) define aquele a quem Deus escolheu como santo. e. no outro, a aceitação da vara (17.5 [MT v. 20]) define aquele a quem Deus escolheu como sacerdote. A decisão coube a Deus e sua clara resposta devia ter sufocado novas murmurações.

Qual foi, então, a reação do povo diante da terra se abrindo, da morte de Corá, da praga e da confirmação divina sobre a vida de Arão? As pessoas estavam chocadas, pasmas e aterrorizadas. Sentiam-se tão ansiosas de se aproximar do santuário como Daniel de entrar na cova dos leões. Por que procurariam apressar a pró­pria morte (17.12,13 [MT vv. 27,28])?

Acredito que o propósito do capítulo 18 seja demonstrar a res­posta de Deus frente a esse surto de medo e desapontamento. Afinal de contas, como a comunidade poderia verdadeiramente adorar se a casa de Deus fosse enxergada como uma armadilha que atrai desatentos para a morte certa? No que se segue, minha linha de argumento deve muito a Jacob Milgrom.

O propósito de 18.1-7 (o mesmo vale para os vv. 21-23) é aliviar a preocupação do povo. Lemos que, aos sacerdotes, é dito: “levareis sobre vós a iniqüidade do santuário [...] a iniqüidade do vosso sacerdócio” (18.1). Mais adiante lemos que “os levitas adminis­trarão o ministério da tenda da congregação e eles levarão sobre sba sua iniqüidade” (18.23). O propósito disso é declarado em 18.5: “para que não haja outra vez furor sobre os filhos de Israel”.

A interpretação da frase-chave em 18.23, “e eles levarão sobre si a sua iniqüidade”, é problemática. Quem devemos identificar por “eles” e “sua”? Será que “eles [os israelitas] levarão sobre si a sua [própria] iniqüidade”? Dificilmente. Será que “eles [os levi­tas] levarão sobre si a sua [própria] iniqüidade”? E possível. Ou será que “eles [os levitas] levarão sobre si a sua [dos israelitas] iniqüidade”? Ou seja, uma parte leva a culpa da outra parte. Se for esse o caso, Números 18, com especial destaque para os versículos 21-23, está dizendo que os levitas, vicariamente, leva­riam a culpa pelos pecados dos leigos. Milgrom, após defender a terceira interpretação, declara:

Embora a doutrina da responsabilidade coletiva seja um pilar da teologia sacerdotal (P) para todos os pecados cometidos contra Deus, no que diz respeito ao santuário, há uma tentativa de limitar o impacto destrutivo ao clero. Eis aqui a magnitude do consolo ofere­cido aos apavorados israelitas: daquele momento em diante, essa importantíssima doutrina seria abrandada para o bem do povo, de forma que pudessem adorar no santuário sem qualquer temor.

O capítulo 18 fala sobre privilégios e deveres de sacerdotes (vv. 1-19) e levitas (vv. 20-32). Deus comunica a maior parte dessas informações diretamente a Arão. Fora Levítico 10.8, Deus só re­vela suas instruções diretamente a Arão em Números 18.1, 8 e 20. Em geral, Deus fala com Moisés, que então fala a Arão ou ao povo, ou com Moisés e Arão ao mesmo tempo. Somente mais para o fim do capítulo (v. 25), ao falar sobre o dízimo dos dízimos que os levitas deveriam dar aos sacerdotes, Deus fala com e através de Moisés. Essa mudança tem provavelmente uma explicação práti­ca. O assunto dos versículos 25-32 é o dízimo que Arão e seus colegas sacerdotes recebem dos levitas. Deus revela esse assunto, que diz respeito a questões internas do clero, para Moisés, pois ele não se beneficiaria desse dízimo. Trata-se de um terceiro sem interesses diretos na questão.

Os Dois Tipos de Impureza (19.1—20.21)

O capítulo 19 enfoca um tipo de impureza: a impureza ritual que é contraída ao se tocar (vv. 11-13,16) ou se aproximar (v. 14) de algo morto. A temática da morte sobressai nos capítulos ante­riores (16—18). As vítimas incluem Corá e seus colegas insurgen­tes (16.35),' além dos 14.700 mortos pela praga (16.49 [MT 17.14]). Arão se coloca entre os mortos e os vivos (16.48 [MT 17.13]). Ve­mos o medo da morte (17.12,13 [MT 17.27,28]) e a possibilidade de morrer por causa de uma invasão (18.3,7,22) ou por erros no recolhimento do dízimo (18.32).

Uma pessoa contaminada pelo contato com um cadáver tem a possibilidade de ser purificada. O ritual envolve o espargimento de sangue de uma novilha ou uma vaca, a qual é sacrificada fora do acampamento. As cinzas da novilha/vaca incinerada são mis­turadas com água e espargidas sobre a pessoa impura no terceiro e no sétimo dias após a contaminação (19.17-19).

Essa não é a primeira vez que ouvimos falar, em Números, sobre contaminação através de contato com um cadáver. Núme­ros 5.2,3 diz explicitamente que “todos os imundos por causa de contato com algum morto” devem ser expulsos do acampamento, mas não vemos essa orientação ser dada em Números 19 para a mesma situação. Por quê? Não seria o caso de recorrermos à teo­ria da diversidade de fontes? Não necessariamente. Talvez a “dis­crepância” se deva ao fato de Números 5 lidar com o acampamen­to no deserto, com a situação imediata, enquanto Números 19 está voltado apenas para o futuro: “Isto lhes será por estatuto perpétuo” (19.21), ou seja, para o momento em que Israel estives­se estabelecida na Palestina20.

Se esse for o caso, teremos então um padrão perceptível para essa parte de Números. Acontecimentos do presente, em geral catastróficos, são sucedidos por um capítulo a respeito do futuro, para o qual Deus providenciou meios de redenção. Assim, os capítulos 11—14 falam sobre o juízo divino no presente, e o capítulo 15 traz regras para o culto futuro (15.15,21,23), enfatizando que a graça de Deus cobre o pecado do homem. Os capítulos 16—18 voltam a falar sobre a ira divina no presente; o 19 dispõe rituais para o futuro, destacando o poder de Deus para limpar as impurezas do povo. Logicamente, é importante observarmos que esse capítulo, que fala sobre purificação da contaminação oriunda da proximidade ou do contato físico com um morto, está entre o registro das mortes de Corá, Datã, Abirão e muitos outros, nos capítulos 16—17, e as mor­tes de Miriã e Arão, no capítulo 20 (vv. 1,22-29).

De certa forma, a impureza causada pelo contato com um ca­dáver é semelhante a outras impurezas adquiridas. A instrução de 19.11, por exemplo, de que qualquer pessoa envolvida em tais circunstâncias é impura por sete dias, pode ser comparada às outras impurezas que exigem uma semana de purificação (a mãe, logo após dar à luz [Lv 12.2]; a pessoa que possui uma doença infecciosa na pele [Lv 14.8]; alguém com emissões corporais anor­mais [Lv 15.13,28]). Em todas essas situações, porém, a pessoa deve apresentar, ao final do período de purificação, uma oferta pelo pecado/purificação (Lv 12.6-8; 14.19; 15.14,15,29,30). Não é isso o que temos aqui. Tal omissão parece classificar essa impure­za como não tão grave. Dessa forma, Números 19 evita extremos: não trata a morte de forma negligente, mas também não a aborda de forma paranóica e obcecada.

O segundo tipo de impureza, embora não seja assim chamada, diz respeito à reclamação quanto à falta de água (conforme Ex 17.1-7). O imbróglio ocorre entre os registros das mortes de Miriã (Nm 20.1) e Arão (vv. 22-29).

Curiosamente, ao contrário do que acontece em Números 11, o povo não sofre conseqüência alguma, mas sim Moisés. Ele é im­pedido de entrar na Terra Prometida, pois, como Deus disse: “não me crestes a mim, para me santificar diante dos filhos de Israel” (v. 12). Quando o povo tinha problemas, Moisés intercedia por eles, mas quem oraria por Moisés? Tinha ele um mediador a quem recorrer? Essa história, no mínimo, ilustra o princípio do “ao que muito se lhe confiou, muito mais se lhe pedirá”. Poder-se-ia apli­car a Moisés a seguinte declaração de Deus: “De todas as famílias da terra a vós somente conheci; portanto, todas as vossas injusti­ças visitarei sobre vós” (Am 3.2). Poderíamos parafrasear esse versículo da seguinte forma: “Somente a ti escolhi como líder den­tre o povo; portanto, teus pecados serão punidos”.

O texto não esclarece a exata natureza do pecado de Moisés e Arão. A acusação em 20.12 diz simplesmente: “Porquanto não me crestes a mim”. O termo hebraico para “crer” é o mesmo com que Deus acusa seu povo em 14.11: “E até quando me não crerão por todos os sinais que fiz no meio deles?” A primeira geração não ha­via confiado/crido em Jeová, portanto não entrariam na Terra Pro­metida. Moisés e Arão não creram/confiaram em Jeová, portanto não entraram na Terra Prometida. O que Abraão fez (Gn 15.6, com o Hiphil de ’ãman seguido pela preposição be, tal qual em Nm 20.12.) não foi repetido por seus descendentes, nem por Arão e Moisés, e isso custaria caro. O texto não entra em detalhes quanto àquilo que evidenciou a falta de confiança de Moisés. Ele golpeou a rocha em vez de falar com ela? Em vez de bater uma vez na rocha, ele bateu duas? Ele falou de forma muito dura com o povo (“Ouvi ago­ra, rebeldes”)? Se essa última sugestão for o motivo — o que é bas­tante improvável — a acusação lançada por Moisés contra seu povo (“Ouvi agora, rebeldes”) é a mesma que Jeová lança contra Arão e Moisés (“porquanto rebeldes fostes à minha palavra” [v. 24b]). Quem são então os maiores rebeldes: a congregação ou aqueles separados por Deus para a liderança da congregação?



Logo após a seção que fala sobre Moisés ter sido rejeitado por Deus, quando lhe foi negada a oportunidade de liderar o povo até a terra de Canaã, vem a história de como Israel, ainda sob a direção de Moisés, tentou conseguir a permissão do rei de Edom para atra­vessar seu território (20.14-21). Moisés continuou a liderar seu povo apesar das más notícias que recebera. Ele não é imediatamente subs­tituído nem passa a se esquivar do ministério. Seu ministério conti­nuou até que Deus dissesse: “até aqui virás e não mais adiante”.