24 de agosto de 2017

RALPH L. SMITH - O conhecimento de Deus (Parte 1)

ralph smith
Revelação 

Por onde começamos o estudo da teologia do Antigo Testamento? Começaríamos por onde começa a Bíblia —com Deus como Criador— ou com o chamado de Abraão e o início da "história da salvação" (Dt 26.5-15)? Poderíamos começar com uma reflexão sistematizada sobre o material teológico veterotestamentário sobre Deus ou sobre a humanidade. Teólogos sistemáticos com freqüência iniciam pela "revelação". Talvez nem seja correto falar da "visão" israelita de revelação porque os israelitas nem possuem uma palavra que designe revelação, muito menos um tratamento sistemático do assunto. 

Ao selecionar a revelação como o ponto de partida necessário para a teologia, seguimos uma ênfase moderna. Como James Barr disse, uma afirmação da revelação é absolutamente necessária para a fé cristã; de outro modo, "teríamos uma série de idéias que elaboramos por nós mesmos".[1] Karl Barth, Emil Brunner, Paul Tillich, D. M. Baillie, Wheeler Robinson, Rudolph Bultmann e Wolfhart Pannenberg destacam, todos, a revelação.[2]

Por que hoje damos tanta ênfase à revelação, se nossa fonte de revelação não parece fazê-lo? James Barr disse que na teologia moderna a idéia de revelação atua contra dois problemas específicos que não existiam ou não eram importantes no mundo antigo. O primeiro problema é a negação de que Deus existe ou de que haja algum conhecimento verdadeiro a seu respeito. O segundo é fazer separação entre o conhecimento que Deus dá de si mesmo e os métodos e o conteúdo das ciências humanas independentes da revelação. "Na Bíblia, à parte de algumas concessões bem limitadas, não existe algum estágio em que Deus é desconhecido [...] Os problemas em relação às coisas sobre as quais a revelação atua parecem não existir na Bíblia ou não ser centrais nela. Em Israel Deus é conhecido."[3]

Nem todos os teólogos modernos começam na revelação. James Crenshaw não começaria um estudo da teologia do Antigo Testamento com a revelação. Ele crê que se deve começar com a humanidade. Crenshaw eleva a antropologia ou sociologia a uma posição no mínimo equivalente à da teologia na compreensão do Antigo Testamento.[4] Ele sustenta que a questão do sentido é mais básica que a de Deus. O ponto de partida bíblico não foi Deus, mas a pessoa. A questão de Deus é secundária na autocompreensão, de acordo com Crenshaw. 

"Isso dá a entender que a teologia do Antigo Testamento deve começar com o homem, em lugar de Deus, como é comum nas obras que adotam o princípio sistemático."[5] Pensa-se que talvez o estudo intenso da literatura de sabedoria tenha levado Crenshaw a essa conclusão. 

Dois outros autores contemporâneos que iniciam com o homem, em lugar de Deus, em seu estudo do Antigo Testamento são Norman Gottwald[6] e Peter L. Berger.[7] Gottwald começou com uma abordagem sociológica e explicou a ideologia religiosa do Antigo Testamento como um mutante cultural-materialista. Não há lugar para o tema da revelação na obra de Gottwald. O termo não ocorre no índice de seu livro. Brevard Childs disse que "a posição de Gottwald resulta num grande reducionismo teológico".[8] A devoção de Gottwald à metodologia sociológica o conduz para longe da revelação. 

Peter Berger em A Rumor of Angels procurou um modo de começar com o ser humano ao fazer teologia, sem glorificar a humanidade como faz a "teologia" secular. Berger viu "sinais de transcendência" em alguns comportamento humanos. Algumas atitudes das pessoas pressupõem uma ordem no universo. Uma maldição ou tragédia de dimensões sobrenaturais pode ser causada por comportamento excessivamente afrontoso. Mesmo os ateus podem às vezes sentir-se gratos pela vida e pelo mundo, embora possam dizer que não têm ninguém a quem agradecer tais bênçãos. A questão é que pressupõem uma crença na transcendência.[9]

G. Ernest Wright assumiu uma postura firme a favor de um estudo da teologia do Antigo Testamento que comece com Deus, não com o homem. Ele disse: 

Uma vez que tanto judeus como cristãos entendem que pela fé se crê na Bíblia como revelação daquele que de outra maneira no mundo seria 0 Deus desconhecido, não me habilito a iniciar a discussão com a questão existencial: “Que significa para mim 0 Antigo Testamento? Qual a possibilidade básica que ele apresenta para uma nova existência agora?” Sou antes convocado a transcender a mim mesmo e a minha existência, 0 quanto puder, para lutar pela compreensão de uma nova realidade externa a mim mesmo. Não cabe a mim dar ordens; antes, é ele mesmo, separado de mim e de minha comunidade no que diz respeito a seu ambiente e época originais.[10]

Gerhard von Rad disse que não se tropeça na transcendência. O entendimento humano de Deus ou do homem não começa do eu para depois perguntar, desse ponto de partida, sobre o contato com Deus. Começa com Deus e afirma que uma pessoa só pode ser completamente compreendida se começar por Deus. Todos os outros meios de compreender o homem só podem levar a distorções ou reduções. 

A humanidade encontra sua origem no coração de Deus. Na criação Deus extraiu de um mundo divino superior o modelo para o homem, algo que não fez para as outras obras da criação. "O homem é, desse modo, uma criatura que só pode ser compreendida a partir de cima e que, tendo cortado seu relacionamento com Deus, só pode reconquistar e manter sua humanidade dando ouvidos à palavra divina".[11]

Hans W. Wolff perguntou como no Antigo Testamento a pessoa é iniciada no conhecimento de si própria. Uma doutrina confiável do homem é um imperativo na teologia do Antigo Testamento; entretanto, o autoconhecimento humano não começa com pessoas terrenas, mas com o Deus Criador. Wolff disse: "Assim como é impossível ao homem confrontar a si mesmo e ver-se por todos os lados [...] por certo o homem necessita fundamentalmente encontrar-se com outro que o investigue e o explique. Mas onde está o outro a quem o ser humano pode fazer a pergunta: "Quem sou eu?" A resposta de Wolff era que o Outro já se mostrou pelo seu laço com o homem em palavras e em atos registrados no Antigo Testamento.[12]

Deve-se começar o estudo de teologia do Antigo Testamento com Deus e não com o homem. Mas como fazer isso? B. S. Childs levantou essa questão no início de seu Old Testament Theology.[13] Para ele, o contexto canônico faz diferença. Falar do Antigo Testamento como cânon é dizer que é Escritura e autoridade. O Antigo Testamento testifica que Deus revelou-se a Abraão, e nós confessamos que Deus irrompeu em nossa vida. 

"Não chego ao Antigo Testamento para ser informado sobre algum fenômeno religioso estranho, mas, em fé, empenho-me por obter conhecimento enquanto procuro compreender a nós mesmos pela luz do autodesvendamento de Deus. No contexto das Escrituras da igreja, procuro ser conduzido para nosso Deus que se fez conhecido, se faz conhecido e se fará conhecido."[14] Childs também disse que o termo revelação é só "uma fórmula abreviada que indica todo o empreendimento da reflexão teológica acerca da realidade de Deus".[15]

Pode-se negar um ponto de partida absoluto para fazer teologia do Antigo Testamento. John Goldingay disse: "Muitos pontos de partidas, estruturas e pontos centrais podem iluminar o cenário do Antigo Testamento; uma multiplicidade de abordagens levará a uma multiplicidade de percepções".[16] Ainda assim, vamos começar com a revelação porque não descobrimos a Deus; Deus nos encontra. De fato, Deus sabe tudo a nosso respeito (SI 139.1-18). 



A existência de Deus é pressuposta no Antigo Testamento 

O Israel antigo não defendia a existência de Deus nem tentava prová-la; o povo simplesmente aceitava que Deus existe e se revela aos homens. Deus é pressuposto no Antigo Testamento. A. B. Davidson afirmou que jamais ocorreu a qualquer profeta ou escritor do Antigo Testamento provar a existência de Deus. “Fazer isso podería perfeitamente ser considerado absurdo.”[17]

Edmond Jacob disse que a afirmação da soberania de Deus dá ao Antigo Testamento vigor e unidade. Deus é a base de todas as coisas, e tudo o que existe só existe por sua vontade. Além disso, a existência de Deus jamais é questionada. O conhecimento de Deus, no sentido de realidade divina, deve ser encontrado em todas as partes. O mundo inteiro conhece a Deus. A natureza foi criada para proclamar seu poder (SI 148.9-13). Mesmo o pecado proclama a existência de Deus por contraste. "O fato de Deus é tão normal que não temos no Antigo Testamento indícios de especulação sobre a origem ou evolução de Deus. Enquanto religiões circunvizinhas apresentam uma teogonia como o primeiro passo na organização do caos, o Deus do Antigo Testamento está presente desde o início".[18]

G. Ernest Wright observou: "... a proposição que é a grande dádiva de Israel para a humanidade é simplesmente esta: Deus é. Sua existência para o escritor israelita é completamente manifesta, sempre pressuposta e jamais questionada".[19] A doutrina bíblica repousa na crença de que "o Deus oculto à nossa vista revela-se ao homem".[20]

O agnosticismo no sentido moderno não tem lugar no pensamento hebraico. R. E. Clements crê que a "idéia de Deus permanece como pressuposição indispensável" em todos os escritos do Antigo Testamento. As idéias de criação, ordem natural, ordem social, tempo e âmbito espacial estão todas estabelecidas na relação com uma crença em Deus. A noção de uma sociedade "secular" simplesmente não existia. A cosmologia do antigo Israel era fundamentalmente religiosa em caráter, de modo que as instituições fundamentais da sociedade — reino, lei, cultura e educação — estavam todas baseadas em pressuposições religiosas.[21]



Conhecer a Deus é mais do que conhecimento intelectual 

O Antigo Testamento não só pressupõe que Deus pode ser conhecido; também afirma claramente que ele se faz conhecido: 



Manifestou os seus caminhos a Moisés
e os seus feitos, aos filhos de Israel. 

(SI 103.7) 

Apareci a Abraão, a Isaque e a Jacó como Deus Todo-Poderoso;
mas pelo meu nome, O SENHOR, não lhes fui conhecido. 

(Êx 6.3) 

Então, disse: Ouvi, agora, as minhas palavras;
se entre vós há profeta,
eu, o Senhor, em visão a ele,
me faço conhecer ou falo com ele em sonhos. 

Não é assim com o meu servo Moisés,
que é fiel em toda a minha casa. 

Boca a boca falo com ele, claramente e não por enigmas;
pois ele vê a forma do SENHOR. 

(Nm 12.6-8) 

No dia em que escolhi a Israel, levantando a mão,
jurei à descendência da casa de Jacó
e me dei a conhecer a eles na terra do Egito. 

(Ez 20.5) 

O vocabulário da revelação 

Essas passagens usam as formas passiva ou reflexiva do verbo yãda‘, “conhecer”, “ver”, e a forma intensiva do verbo dãbar, “falar”. Todos esses verbos são palavras cognitivas. O hebraico não possui um substantivo que signifique “revelação”; possui o verbo gãlâ, “revelar”. A raiz ocorre cerca de 180 vezes no Antigo Testamento. Ela contém dois conceitos básicos: “desvendar”, “revelar", e “ir para o exílio", a menos que o pensamento fosse: “indo o povo para o exílio, a terra ficou sem cobertura".[22] 

A palavra gãlâé empregada predominantemente no Antigo Testamento no sentido comum de "ir embora", "ser aberto" (Jr 32.11, 14). Em alguns casos refere-se à revelação do próprio Javé. É usada em Gênesis 35.7 em referência à ocasião em que Deus apareceu a Jacó em Betel, quando este fugia de Esaú. "E edificou ali um altar e ao lugar chamou El-Betel; porque ali Deus se lhe revelou [perf. nifal] quando fugia da presença de seu irmão". 

A forma participial nifal de gãlâ é usada em Deuteronômio 29.29 (heb. v. 28) em referência à Torá como "as [coisas] reveladas": "As coisas encobertas pertencem ao SENHOR, nosso Deus, porém as reveladas nos pertencem, a nós e a nossos filhos, para sempre, para que cumpramos todas as palavras desta lei". Esse versículo indica que algumas coisas são revelas e eles eram responsáveis por executá-las, enquanto algumas eram secretas (não reveladas). Eles não tinham conhecimento delas. Eles não tinham responsabilidade por coisas não reveladas. Os versículos 21-27 de Deuteronômio 29 referem-se a uma época em que Israel quebraria a aliança, cultuando outros deuses, e isso os levaria ao exílio. Eles tinham sido alertados que isso ocorrería se não obedecessem às palavras reveladas da lei. 

Peter Craigie disse que seria pretensão supor que essa revelação lhes dava conhecimento total de Deus. "Talvez jamais seja possível conhecer todas as coisas, as coisas encobertas, pois a mente humana é restrita pelos limites de sua finitude [...] e é possível conhecer a Deus de um modo profundo e vivo, por meio de sua graça, sem jamais ter captado ou compreendido as coisas encobertas ".n 

A palavra gãlâè usada em referência a uma época em que Samuel não conhecia o Senhor. "Porém Samuel ainda não conhecia o SENHOR, e ainda não lhe tinha sido manifestada [imperf. nifal] a palavra do SENHOR" (ISm 3.7). 

Usa-se gãlâ em 2Samuel 7.27 quando Davi alegou que o Senhor dos Exércitos "descobriu seus ouvidos", revelando-lhe que Deus lhe construiría uma casa —ou seja, uma dinastia. Isaías afirmou que Deus "desvendou-se" ou "revelou- se" aos ouvidos de Isaías, dizendo que o pecado que o profeta havia identificado não seria perdoado (Is 22.14). O termo gãlâè usado para falar da revelação da palavra de Javé (ISm 2.27), de sua glória (Is 40.5), de seu braço (Is 53.1), de sua salvação (Is 56.1), das coisas secretas (Dt 29.29; Am 3.7) e do mistério (Dn 2.19, 22, 28, 29, 30, 47). O povo no Antigo Testamento cria que Deus havia se revelado muitas vezes, mas em modos, lugares e momentos escolhidos por ele. 

O significado da revelação 

O Antigo Testamento fala com frequência em "conhecer" (yd) ou "não conhecer" Javé (compare Is 1.3; Jr 2.8; 4.22; 31.34; Os 2.20; 4.1, 6; 5.3-4; 6.6; 13.4). O conhecimento no Antigo Testamento é bem diferente de nosso entendimento do termo. Para nós, conhecimento implica compreender coisas pela razão, analisar e buscar relações de causa e efeito. No Antigo Testamento, conhecimento significa "comunhão", "familiaridade íntima com alguém ou algo". Falando em nome de Deus a Israel, Amós disse: 

De todas as famílias da terra
a vós somente conheci;
portanto, todas as vossas injustiças
visitarei sobre vós. 

(Am 3.2, ARC) 

Vriezen disse que o Antigo Testamento faz do "conhecimento de Deus" a primeira exigência da vida, mas jamais explica o significado do termo. O propósito da revelação divina não é declarado especificamente no Antigo Testamento. A revelação não se baseia em alguma necessidade de Deus. Deus não criou o mundo nem revela a si mesmo para ter alguém que guarde o sábado, como diziam alguns rabinos antigos. O conhecimento de Deus é mais que um mero conhecimento intelectual; diz respeito à vida humana como um todo. 

É essencialmente uma comunhão com Deus e é também fé; é um conhecimento do coração que exige 0 amor do homem (Dt iv); sua exigência vital é que 0 homem aja de acordo com a vontade de Deus e ande humildemente nos caminhos do Senhor (Mq vi.8). É 0 reconhecimento de Deus como Deus, a rendição total a Deus como Senhor.[23]

Gerhard von Rad entende que "o conhecimento de Deus" significa "compromisso", "confiança", "obediência à vontade divina". O conhecimento efetivo de Deus é a única coisa que coloca uma pessoa num relacionamento correto com os objetos de sua percepção. "A fé —como é comum crer hoje— não obstrui o conhecimento; pelo contrário, ela o libera."[24]

Assim, "conhecer Javé" é ser obediente a ele, ter um compromisso com ele. "Não conhecer a Deus" significava "rebelar-se contra ele", "negar o compromisso com ele". Em Oséias, o significado do termo "conhecimento de Deus" é ampliado para incluir a moralidade do israelita como indivíduo. O conhecimento de Deus pode ser identificado como a prática da moralidade hebraica tradicional, integridade moral (Os 4.1-2). 

A expressão hebraica "o conhecimento de Deus" traz assim pelo menos três conotações: (1) o sentido intelectual, (2) o sentido emocional e (3) o sentido volitivo. O verbo "conhecer" (yãda‘) refere-se basicamente ao que chamamos atividade intelectual, cognitiva; mas a psicologia hebraica não conhecia uma faculdade específica que compreendesse o intelecto ou a razão. 

O hebraico não possui uma palavra que signifique "cérebro". A palavra mais comum usada em lugar de "mente" em hebraico é "coração", (lSm 9.20; Is 46.8). O coração é considerado sede do intelecto, bem como da vontade e das emoções. O hebraico antigo não supunha que as pessoas pensavam com a mente, sentiam com as emoções e tomavam decisões com a vontade. Todas essas atividades eram desempenhadas pela pessoa como um todo.[25]

"Conhecer a Deus" significava ter um entendimento intelectual de quem ele era, ter um relacionamento pessoal e emocional com ele e ser obediente à sua aliança e mandamentos. Um verdadeiro conhecimento de Deus sempre resultava numa conduta ética. Jeremias disse ao perverso rei Jeoiaquim a respeito de seu pai justo: 

Acaso, teu pai não comeu, e bebeu,
e não exercitou 0 juízo e a justiça? 

Por isso, tudo lhe sucedeu bem. 

Julgou a causa do aflito e do necessitado;
por isso, tudo lhe ia bem.. 

Porventura, não é isso conhecer-me? 

—diz 0 Senhor. 

(Jr 22.15-16) 

"Não conhecer a Deus" no Antigo Testamento não significa necessariamente ignorância acerca de Deus; às vezes significa falta de disposição para obedecer a ele. 

A sobrevalorização da revelação 

Karl Barth e alguns outros teólogos modernos sobrevalorizaram o papel da revelação na teologia ao negar todo e qualquer conhecimento de Deus nas pessoas, exceto pela revelação especial. Carl Braaten questionou a concepção de Barth, que fazia da revelação a idéia dominante na teologia. Braaten disse: "Se a ignorância do homem posta-se no centro, o fato da revelação alivia essa sina; mas se a culpa do homem é o problema, então não é a revelação, mas a reconciliação, o que deve tomar-se o centro teológico".[26] Barth negou todos os outros meios de revelação, exceto Jesus Cristo, por causa de sua convicção de que Cristo é singular e único. Braaten cria na singularidade de Cristo, mas disse: 

Distinguindo, porém, entre revelação e reconciliação, é possível sustentar tanto a dualidade da revelação como a singularidade de Cristo. Jesus é 0 único Salvador, não 0 único revelador. A idéia de revelação dá a entender que algo previamente oculto é desvendado. O evento de Cristo não é 0 desvendar de algo que sempre existiu, mas que até então permanecia oculto e encoberto em mistério. Essa é uma visão completamente platônica de revelação. A reconciliação não é apenas revelada, como se estivesse ali, meramente oculta; ela é realizada na história, um evento único, algo absolutamente inédito debaixo do sol [...] O ato de reconciliação provoca uma situação objetivamente nova, não só para 0 que crê, mas também para 0 cosmo. O mundo foi reconciliado com Deus em Cristo.[27]

"Conhecer o Senhor" significa ser "reconciliado" com ele. Ele faz isso por nós mediante a morte e a vida de seu Filho em nosso lugar (veja Rm 5.10-11; 2C0 5.15-21). 



O Deus abscôndito 



Embora o Antigo Testamento reconheça que, em certo sentido, todo o mundo está ciente do divino ou do "sagrado", ele se refere com frequência ao Deus abscôndito. Jó cria em Deus, mas não conseguia encontrá-lo. 



Eis que ele passa por mim, e não o vejo;
segue perante mim, e não o percebo. 

Eis que arrebata a presa! Quem o pode impedir?
Quem lhe dirá: Que fazes? 

(Jó 9.11-12) 

O profeta do exílio disse: 

Verdadeiramente, tu és o Deus que te ocultas,
o Deus de Israel, o Salvador. 

(Is 45.15, arc) 

Na folha de guarda de seu The Elusive Presence, Samuel Terrien citou Blaise Pascal: "Uma religião que não afirma que Deus está oculto não é verdadeira".[28] Pascal continua seu discurso sobre Deus ser abscôndito: "Uma religião que não ofereça uma razão (para o fato de ele ser abscôndito) não é iluminadora".[29] Terrien entende que, porque Jesus estaria em agonia até o fim do mundo, Pascal podia apropriar-se com segurança das palavras do profeta: Vere tu es Deus Absconditus (Is 45.15). 

A verdade é que Deus jamais é totalmente visível ou completamente conhecido no Antigo Testamento. Se Deus fosse completamente conhecido, seria limitado pela capacidade humana de compreensão e não seria, de modo algum, Deus. Só um punhado de ancestrais, profetas e poetas de fato perceberam a proximidade de Deus; e, então, mediou-se o desvendar de Deus. 

B. W. Anderson disse: "A pressuposição da Revelação é que Deus está oculto à vista do homem. A revelação, portanto, é Deus desvendando ou descobrindo a si mesmo e a seus propósitos".[30] O Antigo Testamento fala com freqüência de um Deus "oculto". Afirma-se 26 vezes que Deus esconde o rosto (Dt 31.17, 18; 32.20; Jó 13.24; 34.29; SI 10.11; 13.1; 22.24; 27.9; 30.7; 44.24; 51.19; 69.17; 88.14; 102.2; 104.29; 143.7; Is 8.17; 54.8; 59.2; 64.5; Jr 33.5; Ez 39.23, 24, 29; Mq 3.4). Deus esconde os olhos (Is 1.15) e os ouvidos (Lm 3.56). Deus se oculta (SI 10.1; 55.1; 89.46; Is 45.15).[31]

Que quer dizer o Antigo Testamento quando fala que Deus se oculta? Vriezen disse que é a substância de Deus que permanece oculta. "O conhecimento de Deus não implica uma teoria sobre sua natureza, não é ontológico, mas existencial [...] conhecimento de Deus e comunhão com ele são possíveis, mas o segredo da Substância de Deus jamais é atingido."[32]

Isso pode ser verdade, mas quando o Antigo Testamento fala que Deus se oculta refere-se principalmente à sua inatividade em favor de seus adoradores e ao fato de Deus parecer não responder às orações deles. Muitas das expressões de que Deus esconde o rosto estão nos lamentos (em Salmos e Lamentações). O salmo 44 é um exemplo de lamento comunitário porque Deus se oculta. Israel tinha sido derrotado e Deus não o resgatou como fizera em outras ocasiões. Assim, o salmista pergunta: 

Por que escondes a face
e te esqueces da nossa miséria
e da nossa opressão? 

(SI 44.24) 

Por que Deus parecia agir em algumas ocasiões de modo diferente do que agira em outras? Esse era o mistério. Os que falam no salmo 44 reclamavam que Deus não lhes havia ajudado como ajudara seus pais, embora não tivessem pecado (SI 44.9-22). Eclesiastes diz que as pessoas não conseguem encontrar o motivo pelo qual Deus faz o que faz (Ec 8.17). 

Muitos dos salmos falam de "esperar em Deus" (25.3; 37.9; 40.17; 62.1; Is 8.17) e de Deus estar longe (10.1; 22.1, 11, 19). Eles alegam que Deus se esqueceu (13.1 ).Os salmistas criam que Deus era coerente em seu propósito e fiel à sua palavra. Nas complexidades e ambigüidades da existência histórica, porém, o propósito de Deus pode ser visto só de maneira vaga. 

Os salmos de lamento conduzem-nos à dimensão mais profunda do testemunho da Bíblia: o reconhecimento de fé de que o Deus que se revela na história muitas vezes permanece oculto. Ele não é prisioneiro de pensamentos humanos ou cativo de seus esquemas. Seu propósito também não é de fácil discernimento no desenrolar dos dramas da história humana. Deus permitiu que os filisteus capturassem a arca da aliança, provocando consternação por parte de Israel e dos filisteus (1 Sm 4.18-19; 6.9). 

Vriezen concordava que o propósito de Deus nem sempre pode ser visto, mesmo na história da salvação. Ele disse que se compararmos essa história a uma linha, só certos pontos dela estariam visíveis. Ninguém consegue copiar a linha em si porque é um segredo de Deus e porque ele mesmo se mantém um Deus miraculoso e essencialmente oculto. 

Os profetas jamais supuseram saber com precisão o que Deus estava para fazer. Deus é livre para fazer o que quer. Seus propósitos, planos e caminhos são com freqüência secretos. Os profetas evitavam dizer exatamente o que Deus faria ou deixaria de fazer. 

Porque os meus pensamentos não são os vossos pensamentos,
nem os vossos caminhos, os meus caminhos, diz o SENHOR,
porque, assim como os céus são mais altos do que a terra,
assim são os meus caminhos mais altos do que os vossos caminhos,
e os meus pensamentos, mais altos do que os vossos pensamentos. 

(Is 55.8-9) 

Aborrecei o mal, e amai o bem,
e estabelecei na porta o juízo;
talvez o Senhor, o Deus dos Exércitos,
se compadeça do restante de José. 

(Am 5.15) 

Buscai o Senhor, vós todos os mansos da terra,
que cumpris o seu juízo;
buscai a justiça, buscai a mansidão;
porventura, lograreis esconder-vos
no dia da ira do Senhor. 

(Sf 2.3) 

O rei de Nínive disse: "Que o homem e os animais clamem poderosamente a Deus; sim, cada um se converta de seu mau caminho e da violência que está em suas mãos. Quem sabe Deus possa ainda arrepender-se e afastar-se de sua ira feroz, de modo que não pereçamos" (Jn 3.8-9, tradução do autor). 



O arrependimento de Deus no Antigo Testamento ancora-se no conceito de sua liberdade. 



Os deuses pagãos das nações vizinhas de Israel careciam dessa liberdade. 

Uma vez que falassem ou emitissem um decreto, eram impotentes para alterar de algum modo o feito. Era diferente com o Deus de Israel. Ele sempre se mantinha Senhor dos próprios propósitos. Ele mantinha aberta a opção de mudar seus decretos sempre que a situação garantisse tal mudança.[33]

Essa mudança no curso de ação determinado por Deus frustrou Jonas, mas revelou a graça de Deus. Os hebreus acreditavam que Deus podia "arrepender-se" de seu propósito estabelecido se as atitudes e ações humanas mudassem, mas ele também tinha a liberdade de não se arrepender. Kelley disse: "O arrependimento de Deus nos salva tanto do desespero como da arrogância".[34] O arrependimento de Deus é coerente com o fato de ele estar oculto. Assim, não só a Substância de Deus é oculta no Antigo Testamento; seus propósitos e caminhos também são conhecidos só de maneira parcial. 

Eis que isto são apenas as orlas dos seus caminhos! 

Que leve sussurro temos ouvido dele! 

Mas o trovão do seu poder, quem o entenderá? 

(Jó 26.14) 





Os meios de revelação 

Como Deus se revela no Antigo Testamento? De muitas e várias maneiras. John Goldingay observou a vasta gama de meios pelos quais Javé se revelou a Israel: 

Ele [Israel] experimentou sua presença e atividade e ouviu sua voz na história de seu passado como nação e esperava experimentá-la no futuro. Assim, ele tinha consciência de viver na história. Mas também a experimentava em seu presente, na natureza, na experiência pessoal, no culto, na teofania, no ouvir e no pronunciar a palavra profética, em sua consciência moral, na lei, em suas instituições e ordenanças.[35]


Teofanias e epifanias 

Num modelo de teologia do Antigo Testamento só podemos dar algumas pinceladas sobre os meios pelos quais Deus se faz conhecido. Um dos meios pelos quais Deus se revela no Antigo Testamento é pelas suas aparições (teofanias/epifanias). Adão e Eva ouviram o som de Deus andando no jardim no frescor do dia (Gn 3.8). O Senhor apareceu aos patriarcas Abraão, Isaque e Jacó (Gn 15.1-21; 17.1-21; 18.33; 26.2-5, 24; 28.12-16; 32.24-32). 

Alguns estudiosos referem-se a todas as aparições de Deus no Antigo Testamento como teofanias. Outros fazem distinção entre teofanias e epifanias. Terrien referiu-se à aparições de Deus aos patriarcas como "visitações epifãnicas" porque em geral não se acompanham de manifestações da natureza como terremoto, fogo, nuvem, vento, trovão e/ou fumaça como ocorre em outras teofanias notáveis. As teofanias mais notáveis no Antigo Testamento são a sarça ardente (Êx 3), o estremecimento do Sinai (Êx 19-24), os chamados de Isaías (Is 6) e Ezequiel (Ez 1), e o redemoinho (Jó 38).[36]

Claus Westermann isolou algumas passagens a que chamou epifanias (Dt 33; Jz 5.4-5; SI 18.7-15; 29; 50.1-3; 68.7-8, 33; 77.16-19; 97.2-5; 114; Is 30.27-33; 59.156-20; 63.1-6; Mq 1.3-4; Na 1.36-6; Hc 3.3-15; Zc 9.14). De acordo com Westermann, as epifanias referem-se só às aparições de Deus para ajudar, resgatar ou salvar seu povo. A teofania é uma aparição de Deus com o propósito de transmitir uma mensagem —chamar um profeta, fazer uma aliança ou promessa.[37]

Bem próximos das teofanias e/ou epifanias estão os relatos de aparições de Deus a pessoas em visões e sonhos, no anjo do Senhor, em sua face, seu nome ou sua glória. Kuntz disse que a aparição divina não possui forma consistente. A descrição teofanica pode mencionar alguns dos instrumentos divinamente destacados pelos quais a divindade pode ser representada. Estudiosos de teologia bíblica em geral identificam quatro: o kãbôd (glória), mal’ãk (mensageiro ou anjo), pãním (face) e Sem (nome). Esses veículos, tecnicamente conhecidos por teologômenos, são as “representações” da divindade em sua natureza real, mas jamais plenamente revelada.[38]







[1] OU and New in Interpretation, 83. 


־ Observe que em outros aspectos a posição teológica deles é bem diferente. A ênfase na revelação não leva a uma unidade ou consenso teológico. 


1 Op. cil., 89. 


[4] Studies in Ancient Israelite Wisdom, 291. 


[5] Ibid., 291. 


[6] The Tribes ofYahweh (no Brasil, As Tribos de Jaweh, pela Paulinas). 


[7] A Rumor of Angels. 


* Old Testament Theology, 25. 


י Veja em John Goldingay, Theological Diversity, 211, uma critica à concepção de Berger. 


[10] Reflections, 380. 


[11] Godat Work in Israel, 9192־. 


[12] Anthropology of the Old Testament, 1-2. 


יי P. 28. . 


[14] Childs, Old Testament Theology, 28. 


[15] Ibid., 25-26. 


[16] Theological Diversity and Authority, 115. 


[17] Old Testament Theology, 30. 


״ Jacob, Theology <4the 37="" div="" nbsp="" old="" testament="">


[19] The Challenge of Israel's Faith, 55. 


* Rowley, The Faith of Israel, 23. 


11 R. E. Clements, *Israel in its Historical and Cultural Setting", em The World of Ancient Israel, 9. 


[22] Cf. Hans-JUrgen Zobel, galah em TDOT, 478. 


[23] Outline of Old Testament Theology, 154. 


[24] Wisdom in Israel, 6768־. 


M Veja no cap. 6, divisio 30-C, uma discussSo mais detalhada de "coraçao". 


[26] History and Hermeneutics, 14. 


1,Ibid., 15. 


w Cf. Blaise Pascal, Pensees, n. 584. 


50 Terrien, The Elusive Presence, 474. 


יי "The Old Testament View of God", 419. 


[31] Veja uma discussão das palavras hebraicas que significam "ocultar" nas obras de Samuel E. Ballentine alistadas na Bibliografia. 


״ An Outline of Old Testament Theology, 155. 


” Kelley, "The repentance of God", 13. 


“ Ibid. 


” Approaches to Old Testament Interpretation, 69. 


J* The Elusive Presence, 63-66. 


” Elements of Old Testament Theology, 25-26, 57-61 (no Brasil, Teologia do AT, pela Paulinas). 


[38] Kuntz, The Self-Revelation of God, 37.