29 de agosto de 2017

RALPH L. SMITH - O conhecimento de Deus e o nome de YHWH

conhecimento deus nome de deus
O conhecimento de Deus

B. A história

Durante séculos os teólogos cristãos falaram da revelação como "a palavra de Deus". A maior parte dos teólogos sistemáticos fala que a revelação é proposicional, mas em 1952 G. Ernest Wright tentou recuperar a concepção bíblica de revelação a partir dos teólogos dogmáticos. Em God Who Acts ele disse: "O propósito desta monografia é descrever a natureza especial e característica da apresentação bíblica da fé e defender o uso da palavra ‘teologia’ para ela".[1] Wright alegou que, para a maior parte das pessoas, a revelação tem sido proposicional, expressa do modo mais abstrato e universal possível e organizada de acordo com um sistema preconcebido coerente. Obviamente, a Bíblia não contém nada assim. A teologia cristã tende a pensar na Bíblia principalmente como "a Palavra de Deus", embora na realidade um título mais adequado seja "os Atos de Deus". "A Palavra com certeza está presente nas Escrituras, mas raramente ou nunca é dissociada do Ato; antes, é o acompanhamento do Ato."[2] Wright definiu teologia bíblica como "o recital confessional dos atos redentores de Deus numa história em particular, porque a história é o principal meio de revelação".[3]

É provável que Wright tenha tido uma reação exagerada contra a forma proposicional da teologia sistemática, mas era sincero o seu esforço de permitir que o Antigo Testamento falasse com seus próprios termos. Wright foi influenciado nesse ponto pelo tratamento dado por von Rad aos "credos" do Antigo Testamento que recitavam os grandes atos de Deus (Dt 26.5-12).

A idéia de que a revelação é histórica está muito ligada às idéias da escola da história da salvação, que se pode remontar à "escola Erlangen" de J. C. von Hofmann em meados do século XIX. "A revelação é histórica" também era uma das cinco idéias-chave no movimento da teologia bíblica nos Estados Unidos, de acordo com B. S. Childs.[4]

Podemos concluir, portanto, que a revelação no Antigo Testamento é principalmente histórica. É histórica nos seguintes sentidos:

(1) Deus revelou-se em eventos e no ambiente da história do Antigo Testamento.

(2) Os eventos, experiências e encontros reveladores ocorreram num longo período.




(3) O conhecimento de Deus no Antigo Testamento deve ser um conhecimento mediado, porque Deus é apresentado no Antigo Testamento como fogo consumidor. Ninguém pode ver a Deus e viver (Ex 33.20).

Deus existe em um nível, e os seres humanos, num nível inferior. Jó reconheceu esse abismo entre Deus e a humanidade e pediu um árbitro para transpô-lo (Jó 9.33). Um modo de transpor o abismo entre Deus e as pessoas é mediar a revelação por meios históricos. Kierkegaard considerou um paradoxo a idéia de que a revelação bíblica é histórica, pois a revelação é uma visão do eterno, do imutável, do divino, mas a história é humana, mediada, ligada ao tempo. Kierkegaard falou da revelação bíblica nos seguintes termos: "Quem compreende essa contradição de dores? Não se revelar é a morte do amor; revelar-se é a morte do amado".[5]

Frank M. Cross parafraseou a parábola de Kierkegaard que ilustra a natureza da revelação:

Havia um grande rei que amava uma humilde criada. De início pareceu simples para 0 grande rei chegar à cabana de sua amada e declarar seu amor por ela. Mas 0 grande rei era sábio e estava ciente de que não conquistaria 0 amor da criada com uma declaração de amor, pois ela ficaria atormentada. A glória dele a prostraria, e ela não poderia fazer outra coisa senão casar-se com 0 grande rei. Então 0 rei pensou que poderia tomá-la princesa, ou seja, iria exaltá-la tomando-a igual a si. Mas de novo 0 rei percebeu que, ao exaltá-la, ele a estaria mudando, de modo que ela deixaria de ser a criada humilde a quem amava. Assim, ele resolveu que, se fosse cortejá-la e conquistá-la como ela era, precisaria deixar seu poder e glória como rei, tomando-se pastor. Ele só poderia ganhá-la descendo ao nível dela. Isso é 0 que Deus fez ao se revelar na história e na encarnação.[6]

Em anos recentes, o conceito de revelação como história tem sido cada vez mais atacado. James Barr predisse que virá um tempo em que o conceito não será nem claro nem útil. O conceito de fato tem problemas; tem sido muito unilateral e ambíguo.

Ele tem sido unilateral no sentido de não dar lugar à revelação pela natureza, sabedoria ou palavra. Tem sido ambíguo no sentido de que o termo história pode ser e é usado de muitas maneiras diferentes.

O conceito pode continuar como um conceito viável e significativo e como um ingrediente essencial de qualquer teologia bíblica. O conceito de revelação por intermédio da história não é uma simples moda ou aberração teológica passageira; ele faz parte do "centro da religião bíblica".[7] Goldingay disse: "Não é hora de dizer adeus à Heilsgeschichte’, mas a crítica certamente tem indicado pontos em que a idéia necessita de esclarecimento e de uma perspectiva melhor".[8]

Filósofos gregos especularam acerca do ser, da essência e da eternidade. Eles identificaram a realidade no âmbito do "ser" estático. As Escrituras do judaísmo e do cristianismo foram produto da história e preocupam-se essencialmente com Deus e com os homens na história. As Escrituras não se preocupam com a chamada história secular, mas com a história como revelação de Deus.

C. As palavras

Se a revelação é principalmente histórica no Antigo Testamento, qual a relação entre as palavras (discursos) de Deus e seus atos na história? No Antigo Testamento as palavras ocupam lugar de destaque como meio divino de comunicação com seu povo. Edmond Jacob disse que o fato de que Deus se revela por palavras é uma verdade confirmada em cada livro do Antigo Testamento.[9] A frase mais comum empregada nesse sentido é "a palavra do SENHOR veio a..." (Gn 15.1; 2Sm 7.4; 1 Rs 6.11; 17.2 e na maioria dos profetas). O principal vocábulo hebraico traduzido por "palavra" é dãbãr. A forma verbal, de acordo com Jacob, pode significar "estar atrás e empurrar". Uma palavra, portanto, é a projeção do que está atrás — ou seja, o que transpõe para um ato o que está no coração.[10]

No Antigo Testamento, a palavra é dinâmica, poderosa, uma força que "ocorre" ou sobrevêm a alguém. É um fogo destruidor (Jr 5.14); dura para sempre (Is 40.8). Os Dez Mandamentos são chamados as "dez palavras" (Êx 20.1; 24.3, 4, 8; 34.1, 27, 28). Essas "palavras" constituem uma revelação de Deus; nelas Javé afirma ser Senhor. Elas encerram a autoridade do próprio Deus, de modo que nenhum profeta verdadeiro jamais sonhou questionar-lhes a autoridade.

Profetas verdadeiros também falavam a palavra de Deus, mas a diferença entre a palavra profética e as dez palavras era que as dez palavras "têm um valor permanente para todas as gerações, enquanto a palavra do profeta [...] não tem aplicação após seu cumprimento".[11]

Claus Westermann distinguiu três tipos de palavra no Antigo Testamento: (1) anúncio ou proclamação —ou de salvação ou de julgamento; (2) instrução ou diretriz —ou lei ou mandamento; e (3) a palavra cultual em adoração —ou bênção ou maldição. O anúncio é em geral entendido como a palavra do profeta, mas os sacerdotes e levitas também podiam proclamar a palavra de Deus nos anúncios de bênção ou maldição. Ageu pediu a seu povo que fosse aos sacerdotes perguntar acerca da santidade e da impureza (Ag 2.11-14).

Os três tipos de palavra relacionam-se entre si. Quando se dá ênfase demasiada a uma função, negligenciando-se as outras, podem surgir equívocos. Por exemplo, os cristãos com freqüência dão ênfase à função preditiva da profecia, excluindo a função legal ou instrutiva. Nesse caso, o Antigo Testamento toma-se um livro cujo valor principal é a predição da vinda de Cristo. Os judeus, por sua vez, fazem da lei o aspecto mais importante do Antigo Testamento.

Westermann disse que nenhuma dessas funções da palavra de Deus no Antigo Testamento pode tornar-se absoluta à parte das outras. Toda perspectiva unilateral da palavra de Deus no Antigo Testamento pode ser rebatida pelo fato de que só juntas as três funções da palavra (anúncio, instrução e culto) expressam o que a palavra de Deus é no Antigo Testamento.[12]

Ao falar sobre a palavra de Deus no Antigo Testamento, precisamos lembrar que o Antigo Testamento com freqüência assevera que Deus "fala" à humanidade, mas não explica como ele fala. Quando lemos que Deus falou a Abraão, a Moisés ou a um dos profetas, não podemos pressupor que tenha falado com voz audível. A palavra falar pode simplesmente significar "comunicar-se", "revelar-se" ou "manifestar-se" de várias maneiras. A palavra hebraica "voz", qôl, pode também significar "trovão" (Gn 3.8; ISm 12.17; SI 29.3, 4, 5, 7, 8, 9).

Deus falou de modo audível no Antigo Testamento? Tanto o Antigo como o Novo Testamento falam que certas pessoas ouviram uma voz do céu. Quando o povo de Israel chegou ao Sinai, o monte foi envolvido por nuvens e fumaça porque Javé havia descido sobre ele em fogo. Moisés falou a Javé, e Deus respondeu-lhe num trovão (Êx 19.18-19). Então Deus falou as dez palavras a todo o povo. Eles ficaram com tanto medo quando ouviram sua voz, que perguntaram se no futuro Moisés não poderia ser o mediador entre eles e Deus, de modo que não tivessem de ouvir sua voz outra vez (Êx 20.18-19).

Tempos depois o escritor de Deuteronômio disse a respeito desse evento: "Então, o SENHOR vos falou do meio do fogo; a voz [qôf] das palavras ouvistes; porém, além da voz [qôlj, não vistes aparência nenhuma" (Dt 4.12). Pode haver referência a uma voz audível em Números 7.89: "Quando entrava Moisés na tenda da congregação para falar com o SENHOR, então, ouvia a voz que lhe falava de cima do propiciatório, que está sobre a arca do Testemunho entre os dois querubins; assim lhe falava". Esse linguajar pode significar que Moisés recebeu sua revelação de Deus da própria morada de Deus sobre a terra.

Wheeler Robinson disse que na Lei e nos Profetas a revelação é em geral descrita como "falada" por Deus às pessoas.

Essa exteriorização do processo era inevitável, com as supostas limitações psicológicas, para expressar a autoridade da revelação. Mas a forma histórica do evento, a verdadeira forma em que se manifestava, deve ter sido muito mais intima que uma voz real, para garantir 0 necessário núcleo de convicção. Mesmo que 0 profeta às vezes tenha “ouvido” uma voz externa (como é bem possível), isso não nos isentaria de uma análise psicológica da experiência constituinte.[13]

D. A relação entre palavras e história

A revelação deve ser encontrada em eventos ou em palavras? Devemos permitir que a palavra e o evento interajam, não reduzir um ao outro. É necessário haver uma combinação entre o conceito teológico e o fato histórico. "Fatos sem palavras (interpretação) são cegos; palavras sem fatos são vazias."[14] Se envolve interpretação (palavras), podemos falar da "história" no Antigo Testamento como "fatos"? Deve-se admitir que os fatos no Antigo Testamento são interpretados. Os autores dão descrições do que ocorreu entre Deus, o povo e o mundo. Os historiadores do século XIX consideravam "história" só o que podia ser documentado e confirmado por métodos científicos. Descartavam quaisquer dos atos de Deus como partes integrantes da história.[15]

No Antigo Testamento aquilo que move a história ocorre entre Deus e o povo. A questão permanece: a história do Antigo Testamento ocorreu ou a história veterotestamentária dos atos de Deus são meras inferências ou deduções humanas a partir de certos eventos? Temos interpretação, não história?

R. J. Blaike exige que "os que já não acreditam que Deus é um agente vivo e pessoal parem de usar os termos atos de Deus, Deus em ação e coisas semelhantes em referência a algo que não atos propositados e deliberados desse Deus".[16]

Lemke argumentou que a menos que possamos ou queiramos afirmar a atividade de um agente divino em ação na mente dos líderes de Israel ou ajudando a livrar Israel do Egito por meios naturais ou extraordinários, "toda conversa sobre atos de Deus ou revelação por meio da história não faz sentido e é enganosa, e uma honestidade básica deveria compelir-nos a nos refrear de fazer isso".[17]

Estudiosos continuam a debater sobre a diferença entre a história veterotestamentária da história de Israel e a reconstrução de tal história feita por estudiosos críticos modernos. Gerhard von Rad argumentou que existe uma ampla diferença entre o que o Antigo Testamento diz ter ocorrido e o que historiadores científicos modernos dizem ter ocorrido. De novo, precisamos lembrar que os escritores do Antigo Testamento e os historiadores modernos têm pressuposições diferentes. Mesmo com essa diferença, um reconhecido estudioso do Antigo Testamento consegue dizer: "Hoje não temos um bom motivo para duvidar de que há uma dose significativa de congruência entre os verdadeiros fatos da história de Israel reconstruídos pela crítica e o modo pelo qual são lembrados em suas tradições sagradas".[18]

E. História e fé

Em última análise, se a história veterotestamentária da salvação ocorreu ou não é uma questão de fé. Embora a fé seja impossível se não houver base histórica, o historiador não consegue provar ou reprovar a historicidade dos antigos atos de Deus na história de Israel. Desse modo, com base nas experiências pessoais com Deus e na mensagem da Bíblia, podemos dizer: "Posso manter a convicção de que a história da salvação ocorreu".[19] Ainda assim, convicções de fé não podem tomar impertinente a investigação histórica. Se os autores do Antigo Testamento procuravam escrever "história" pura e falharam, "é difícil levar a sério o trabalho deles. Mas se estavam contando uma história com uma mensagem, é a história deles que devemos interpretar".[20]

Cremos que a história bíblica é fiel ao propósito de Deus em nos mostrar quem ele é por meio do que tem feito e em nos mostrar como atender a ele. George

L. Kelm publicou recentemente seu entendimento do relato bíblico do êxodo de Israel do Egito e sua conquista de Canaâ. Kelm rejeitou a "interpretação simplista do texto bíblico que parece desconsiderar por completo a possibilidade de um evento histórico muito mais complexo do que uma leitura informal poderia sugerir". Ele também rejeitou o método histórico-crítico que sujeita o texto bíblico a uma análise interna rigorosa para determinar a fidedignidade histórica pelo "preconceito subjetivo da crítica".[21]

Kelm reconheceu que "o relato bíblico apresenta um grande problema. Algumas das evidências históricas parecem claramente contraditórias, e a conciliação de detalhes bíblicos, mesmo à parte de dados extrabíblicos, não é simples".[22] Ele recorreu à atuação dos escribas na transmissão dos textos para explicar muitos problemas e complexidades dos textos bíblicos presentes. Kelm concordou com muitos estudiosos judeus, entendendo que, enquanto copiavam o texto, geração após geração, os escribas podem ter feito acréscimos ou comentários aos textos "para dar sentido" a eles ou tomá-los compreensíveis à sua geração. É possível que tenham mudado, revisado ou reformulado os textos para esclarecê-los e ajudar em sua interpretação. Os chamados "anacronismos" (linguagem de uma época posterior aplicada num texto sobre uma época anterior) podem ser atribuídos aos escribas como meio de atualização dos textos.[23]

Essas mudanças promovidas pelos escribas podem também responder por muitas incoerências, duplicações, contradições e, em especial, diferenças de estilo e vocabulário. A modernização dos textos feita pelos escribas garantia uma constante transição de significado, por fim interrompida pela canonização. Nesse ponto a santidade dos textos bloqueou o processo interpretativo dos escribas. Seu significado foi fixado nos conceitos literários daquela época e lugar, muito distante da mente do século xx.[24]

Kelm pode estar correto no que disse a respeito da atuação dos escribas, mas não se podem atribuir todos os problemas textuais ou históricos do Antigo Testamento à ação dos escribas. Trent C. Butler disse que o problema começa com as pressuposições ligadas à teologia e à fé pessoal. Quem crê não chega às narrativas bíblicas para validar a qualidade das verdades nelas contidas. As narrativas já se provaram verdadeiras para a vida de fé muito antes que ele aprendesse a levantar o problema histórico. A questão histórica torna-se "um meio de reforçar a fé ou de validar a doutrina da pessoa".

Todos buscamos conhecimento e entendimento, de modo que insistimos na questão histórica. Cremos que a tradição bíblica é historicamente fundamentada. "A tradição bíblica não foi inventada do nada."[25] Muitas teorias têm sido apresentadas para explicar a versão histórica da conquista de Israel. Até aqui não se estabeleceu nenhum consenso acadêmico em tomo de uma teoria. Nossas pressuposições teológicas podem-nos inclinar a deixar para trás as regras do historiador objetivo por uma declaração de fé a respeito da situação histórica. "Nesse caso, precisamos estar bem conscientes da natureza das declarações que estamos fazendo."[26]





15. O Nome de Deus



A. O nome denota essência

O conhecimento de Deus no Antigo Testamento brota não só da história, palavra, criação e teofania, mas também da revelação do nome Javé. Concorda-se em geral que "entre povos primitivos e em todo o antigo Oriente, o nome denota a essência de algo: chamar algo pelo nome é conhecê-lo e, por conseguinte, possuir poder sobre ele".[27]

Os israelitas não eram exceção a essa regra geral entre os povos primitivos. Eles supunham que a essência total da pessoa concentrava-se em seu nome.[28] O nome estava relacionado à natureza do caráter da pessoa. O nome de Eva, "vida", ligava-a ao homem (Gn 2.18-23). Esaú disse que as ações de Jacó refletiam seu nome (Gn 27.36). Nabal era como seu nome, "um tolo" (ISm 25.25).

Von Rad e Jacob argumentaram que o nome de um deus no mundo antigo encerrava poder e podia ser ou perigoso ou beneficente. Era, assim, importante conhecer o nome do deus.



A invocação do nome



No Antigo Testamento, era necessário invocar o nome de Javé para aproximar-se dele. A primeira palavra de muitas das orações nos salmos é uma invocação, "Javé" (3.1; 6.1; 7.1; 8.1; 12.1). Entretanto, em algumas orações, Elohim, "Deus", é usado em seu lugar. A doxologia de Davi começa com a palavra Javé (1 Cr 29.10-11). A invocação do nome era ainda importante na época do Novo Testamento. Jesus ensinou seus discípulos a começar assim suas orações: "Pai nosso [...] santificado seja o teu nome" (Mt 6.9).

Quando Deus tomou a iniciativa de revelar-se, começou pronunciando o próprio nome: "Eu sou Javé" (Gn 35.11; Êx 6.2; 20.1; 34.5-6). Mas a revelação do nome não tomou Javé acessível e familiar. Israel considerava o nome de Javé santo e insistia que ele não devia ser profanado (Lv 22.2, 32; SI 103.1; 105.3; 111.9; 145.21; Ez 20.39; 36.20-23; 39.7; 43.7; Am 2.7). O nome de Javé substituía o próprio Deus, representando toda sua presença santa.

A invocação do nome era parte importante do culto. Se Javé não tivesse revelado seu nome, o adorador não poderia invocá-lo e não haveria culto. Childs reconheceu que a ligação entre o nome e o culto é válida. Mas quando Deus deu seu nome a Moisés (Êx 3.14), a questão era mais de relacionar o chamado de Moisés ao nome pela autoridade de Deus que pelo culto.[29]

B. O significado e a importância do nome do Deus de Israel

O nome Javé parece vir de uma forma imperfeita do verbo hebraico hãyâ, "ser" ou "tomar-se". Albright argumentou que o nome vem da forma hifil (causativa) do verbo, de modo que significa "aquele que causa a existência" e, portanto, "o criador". Muitos dos alunos de Albright apresentam propostas semelhantes. David Noel Freedman entende que o tetragrama YHWH deve ser traduzido "ele cria".[30] Frank Cross pensava que Javé era originariamente um nome cultual de El. A frase cultual "El que cria" tomou-se mais tarde "Javé, o criador".[31]

Philip Hyatt afirmou que em lugar de ver Javé como uma divindade originariamente criadora, devia-se entendê-lo como a divindade padroeira de um dos ancestrais de Moisés. Seu nome poderia ter significado "ele causa a existência (do ancestral)" ou "ele sustenta (o ancestral)".[32]

William Brownlee, especialista no material de Qumran, entende com base no uso que o Manual de Disciplina faz de 1 Samuel 2.3 e em outros indícios que o significado de Javé deve ser "aquele que faz acontecer".[33] [34] Brownlee disse que esse nome combina com o anúncio de que Javé livraria os hebreus da escravidão. A situação deles parecia desesperadora. O que eles precisavam era a garantia de que o Deus deles, Javé, podia fazer as coisas acontecerem e cumprir as promessas que lhes havia feito por intermédio de Moisés.[35]

A idéia de que Javé significa "o criador" pode ser questionada seriamente porque se baseia na pressuposição de que o nome Javé vem da forma hifil (causativa) do verbo "ser". A forma hifil desse verbo jamais ocorre no Antigo Testamento.[36] Tanto Jacob como von Rad criam que o significado básico de Javé é "presença", "estarei convosco" (Êx 3.12; cf Gn 28.20; Js 3.7; Jz 6.12).77

Terrien disse: "Ao vacilante Moisés, Javé primeiro deu segurança ao afirmar: ‘Estarei contigo’".[37]' Pela revelação de seu nome, Javé, "Eu sou" ou "Eu serei", Deus estava prometendo sua presença a Moisés. Deus estaria com ele. Na Grande Comissão, Jesus prometeu estar com os discípulos sempre, até o fim dos tempos (Mt 28.20).

Deus estava se revelando quando deu seu nome a Moisés? Ou estava sendo evasivo, recusando-se a dar uma resposta a Moisés, quando disse: "EU SOU O QUE SOU" (Êx 3.14)? Deus recusou-se a dar o nome a Jacó (Gn 32.30) e a Manoá (Jz 13.17-18). A. M. Dubarle concluiu que Deus recusa-se a revelar o nome a Moisés em Êxodo 3.14 porque isso comprometeria sua liberdade de ser Deus. Dubarle entendia que Deus estava dizendo: "Meu nome não lhe diz respeito".[38] Ludwig Kõhler também interpretou Êxodo 3.14 como uma resposta evasiva à pergunta. Deus é o deus absconditus.*0

Alguma ambivalência aparece no texto, mas o propósito principal é revelar o que Deus fará, e não a essência de seu ser. Assim, embora Javé tenha revelado seu nome a Moisés e a Israel e se tenha permitido ser "invocado" por eles, ou "se entregado" em compromisso e confiança só a Israel, ele ainda manteve sua liberdade.

Zimmerli disse que a liberdade de Javé significa que ele jamais é um simples objeto. Ainda que se tenha revelado liberalmente, ele deu o Terceiro Mandamento do Decálogo para proteger essa liberdade contra "abusos religiosos".[39]

C. A origem do nome

O nome Javé é mais antigo que Moisés? Javé aparece como nome de Deus a partir do segundo capítulo de Gênesis. Entretanto, Êxodo 6.3 diz: "Apareci a Abraão, a Isaque e a Jacó como Deus Todo-Poderoso; mas pelo meu nome, O SENHOR [Javé], não lhes fui conhecido". Por indícios bíblicos e extrabíblicos, é provável que o nome divino Javé existisse fora de Israel antes de Moisés; mas ainda não temos prova conclusiva disso. O elemento "Jo" em Joquebede, nome da mãe de Moisés, dá a entender um uso bíblico de Ja (Yah) antes de Moisés. A respeito de indícios extrabíblicos, P. D. Miller disse: "O nome ‘Javé’ em si é agora amplamente confirmado em inscrições na Judéia (mais de trinta casos) e não há referências a outras divindades".[40]

Childs disse que devemos reconhecer os cognatos do nome divino encontrados no antigo Oriente Próximo e até contar com uma longa pré-história do nome antes de sua entrada em Israel, mas o autor permaneceu aberto à possibilidade de Israel ter atribuído um significado totalmente novo ao nome.[41] Walter Harrelson admitia que o aparecimento da crença em Deus sob "o nome pessoal Javé é anterior ao período mosaico".[42]

W. H. Schmidt chegou a dizer: "O nome Javé não se restringe a Israel e, além disso, é anterior ao Antigo Testamento, ou seja, é bem possível que não seja israelita de origem".[43] R. W. L. Moberly alegou recentemente com veemência que o nome Javé foi primeiro revelado a Moisés e que empregos anteriores em Gênesis são anacronismos.[44] Podemos concluir apenas que a questão da origem do nome Javé ainda não tem resposta.



O nome de Deus e sua presença



Deuteronômio fala com freqüência de fazer o nome de Deus "habitar" ou "morar" em certo lugar (Dt 12.5, 11). Obviamente, Israel não podia contar demais com a presença de Deus na adoração. Só Deus podia garantir sua presença. O nome de Javé representa sua presença, poder e autoridade. Talvez esse seja o motivo pelo qual o nome Javé ocorre com tanta frequência (cerca de 6.700 vezes) no Antigo Testamento, enquanto Elohim só ocorre 2.500 vezes. Javé, não Elohim, era o nome do Deus a ser cultuado. Durante boa parte da história do Antigo Testamento o nome Javé parece ter sido usado livremente por todo e qualquer israelita. Mas no período pós-exílico o nome foi retirado do uso geral, provavelmente por temor do julgamento divino, caso o nome fosse pronunciado em vão. Na época de Jesus o nome era usado só em certas ocasiões no Templo, mas não mais nos cultos em sinagogas. Essa hesitação em pronunciar o nome reflete-se na maneira pela qual o nome aparece no texto massorético. Em geral ele aparece como quatro consoantes, YHWH, junto com as vogais da palavra ,Sdonay, criando uma combinação ("Jeová") que nenhum israelita jamais pronunciava. Em Israel, no pré-exílio, é provável que o nome fosse pronunciado Javé.

A palavra Jeová reflete a pronúncia alemã, uma vez que o J alemão é usado em lugar do T, e o Wé pronunciado V em alemão. A pronúncia de Jeová jamais foi usada pelos judeus. Eles liam e pronunciavam a palavra como ״,âdonay". Entretanto, quando a palavra aparece antes do tetragrama na Bíblia Hebraica (310 vezes), as vogais da palavra elohim são usadas com as quatro consoantes, e a palavra é pronunciada "Elohim".

D. Resumo

Javé era o nome especial de Israel para seu Deus. Ao revelar seu nome a Moisés e, por sua vez, a Israel, Deus escolhe ser descrito como "o definível, o distintivo, o indivíduo. Desse modo a fé israelita opõe-se ao conceito abstrato de divindade e também contra uma ‘base de existência’ sem nome. Tanto os equívocos intelectualistas de Deus como os místicos são rejeitados".

Isso é bem diferente da descrição abstrata de Deus dada por Paulo Tillich, como aquele que é o mistério último, a profundeza infinita, a base, o poder e a fonte de todo ser.88 Essa definição não chega perto do Definido, o Deus Vivo, o Salvador Vindouro do Antigo Testamento. O nome Javé é um nome pessoal, não abstrato. Baseado numa forma do verbo "ser", relaciona-se de algum modo à ideia de existência: passada, presente e futura.

Ele está ligado ao passado no que diz respeito a Moisés. Javé é o mesmo nome do Deus dos pais Abraão, Isaque e Jacó (Ex 3.16). Ele é também o Deus do futuro: "Este é o meu nome etemamente, e assim serei lembrado de geração em geração" (Êx 3.156). O nome também possui uma dimensão escatológica no Antigo Testamento. Pode haver uma ligação entre o nome Javé e a origem da escatologia, "pois um Deus que se define como "eu sou" não descansa até que esse ser e essa presença sejam concretizados em sua perfeição".89

O profeta do exílio podia referir-se a Javé como "o primeiro e o último, Criador, Senhor da história e único Salvador" (Is 41.4; 43.10; 44.6; 48.12-13; 49.6, 26; cf. Ap 22.13). Pelos atos poderosos de Javé na história, o faraó, os egípcios, as nações e Israel saberíam que Javé era Deus ("Eu sou Javé", Ex 7.5; 8.10, 22; 9.14; 10.2; Ez 20.26, 38; 24.24, 27; 34.27; 35.9, 15; 36.11, 23, 38; 38.23; 39.6, 28). Esse único Deus definível e distinto (Javé) escolheu um homem (Abraão) e um povo (Israel) e firmou uma aliança especial com eles. Por meio deles Deus abençoaria todas as nações.






[1] God Who Ads, 11 (no Brasil, O Deus que Age, pela ASTE).


[2] Ibid, 12.


״Ibid., 13.


[4] Biblical Theology in Crisis, 39-44.


[5] Veja Frank M. Cross, "Creation and History".


״Ibid.


[7] Lemke, Interpretation 36 [1983].


4“ Approaches to Old Testament Interpretation, 67.


4, Old Testament Theology, 127.


י" Ibid., 128. Veja uma modificação dessa definição de dSbSr, "palavra", em James Barr, The Semantics of Biblical Ixtnguage, 129-140.


[11] Jacob, op. cil., 130.


[12] Elements of Old Testament Theology, 24.


ss Inspiration and Revelation, 274.


M Goldingay, Approaches to Old Testament Interpretation, 77.


[15] Veja B. Stade, Geschichte des Votkes Israel I [ 1887]; cf. E. W. Nicholson, God and His People, 7-8.


“ Secular Christianity and God Who Acts, citado por Lemke, "Revelation Through History", 41.


[17] Op. cit., 41.


״Ibid., 45-46.


” Goldingay, Approaches to Old Testament Interpretation, 74.


“Ibid..


'יי Escape to Conflict, xxiii.


“ Ibid., xx.


6י Ibid., xxv.


w Ibid., xxv-xxvi.


“ Ibid., xli.


[26] Ibid., xli-xlii.


“ De Vaux, Ancient Israel, 43.


״ Jacob, op. cit., 43.


[29] The Book of Exodus, 67.


[30] "The Name of the God of Moses", 155.


[31] "Yahweh and the God of the Fathers", 225-259.


77 "Was Yahweh Originally a Creator Deity?", 376.


״ "The Ineffable Name of God", 39-45.


” Ibid., 45.


" Ibid., 53; von Rad, Old Testament Theology I, 180 (no Brasil, Teologia do AT. 2 vols., pela ASTE). ’* The Elusive Presence, 118.


א Jacob, op. cit., 50.


" "La Signification du nom de Jahweh", 3-21.


10 Old Testament Theology, 242, n. 38.


'* Old Testament Theology in Outline, 21.


K "Israelite Religion", 206, 217.


״ The Book of Exodus, 64.


“ "Life, Faith, end the Emergence of Tradition", 21.


The Faith of the Old Testament, 58.


"■ Veja R. W. L. Moberly, The Old Testament of the Old Testament, 5-6.