16 de agosto de 2017

R. K. Harrison - O sexo e sua teologia

HARRISON ANTIGO TESTAMENTO
O SEXO E A SUA TEOLOGIA

Boa parte daquilo que se ensina na Escritura acerca do sexo ocorre no Antigo Testamento, de onde emerge de uma maneira que às vezes é explícita e às vezes revestida de eufemismos. A diferença sexual é descri­ta por termos tais como “macho” e “fêmea,” “homem” e “mulher,” “esposo” e “esposa.” H continuada no nível da estrutura física por tais palavras gerais como bàsàr (“carne,” “corpo inteiro,” seja humano, seja animal) sendo empregada num sentido eufemístico especial para denotar o órgão masculino da geração (cf. 17:11; Êx 28:42; Lv 15:2-18; Ez 16: 26, etc.) O termo hebraico yãrèk (“coxa,” “lombos”) também é empregado periodicamente para o órgão sexual masculino (cf. Gn 24:2,9; 46:26, etc.). Às vezes a palavra “pés” era empregada como substituto para as partes genitais masculinas (Êx 4:25; Rt 3:7; Is 6:2, etc,), e ocasional­mente para os órgãos sexuais femininos também. Um termo adicional, geralmente traduzido “nudez” nas versões, tem sido usado para denotar a exposição vergonhosa dos genitais femininos (Lv 18:6-19; 20:17-21; Lm 1:8, etc.). Embora eufemismos geralmente fossem geralmente empre­gados para descrever os órgãos sexuais e as atividades sexuais, tais carac­terísticas sexuais secundárias como as glândulas mamárias femininas eram mencionadas abertamente pelo nome. Tanto os órgãos genitais mascu­linos quanto os femininos eram freqüentemente descritos em termos do seu relacionamento ao corpo inteiro.

Os órgãos sexuais eram considerados sagrados, e às vezes juramen­tos eram feitos sobre eles (cf. Gn 24:2, 3, 9). Entre os hebreus, a circun­cisão não parece ter tido o significado de um rito de puberdade, conforme supostamente o tinha entre alguns outros povos antigos, mas, pelo contrá­rio, era o sinal de ser recebido na comunhão do povo escolhido. Em con­dições normais, os órgãos sexuais não ficavam â mostra, visto que os cos­tumes dos hebreus consideravam vergonhosa semelhante atividade (Gn 9: 21-23; Lv 18:6-19, etc.).

Entre os israelitas, o comportamento sexual era regulado pela lei. O adultério era proibido (Êx 20:14; Lv 18:20, etc.), e vários estatutos tratavam de questões tais como a sedução de uma virgem (Êx 22:16), a bestialidade (Lv 18:23), o incesto (Lv 18:6-18; 20:11, 12, 14; Dt 27: 20, 22), a homossexualidade (Lv 18:22; 20:13) e a utilização do salá­rio de tais atividades (Dt 23:18). Funções fisiológicas de uma orienta­ção sexual tais como a menorragia (Lv 15:25-30) e a menstruação nor­mal (Lv 15:24; 18:19; 20:18) também eram abrangidas pela legislação.

Os homens e as mulheres tinham seus papéis distintivos na antigui­dade. Numa sociedade patriarcal, o homem era o chefe do lar, e era res­ponsável por todos os seus membros, sobre os quais exercia poder total. Os homens de uma casa lavravam a terra, cuidavam dos animais, ocupa­vam-se com profissões ou atividades comerciais, e lutavam nas batalhas da nação quando surgia a necessidade. A função primária das mulheres era a de produzir .filhos e de serem ajudadoras dos seus esposos. Tare­fas secundárias vieram a destacar-se para as mulheres quando a cultura sedentária se desenvolveu depois do tempo de Josué, e até o tempo em que os provérbios de Israel estavam sendo compilados, uma “mulher vir­tuosa” tinha uma vida variada e responsável (Pv 31:10-13).

Embora houvesse, portanto, uma diferenciação entre os sexos em termos de papéis sociais, não parece ter havido qualquer segregação de mulheres no período bíblico a não ser em interlúdios tais como o harém de Salomão com seu contingente de mulheres estrangeiras. Mesmo ali, porém faltam evidências em prol da segregação das mulheres. No livro de Ester, as mulheres da casa real parecem ter sido alojadas numa área separada do palácio em Susã (Et 1:9; 2:3, etc.). Outras referências bí­blicas indicam que pelo menos algumas mulheres tinham seus próprios alojamentos (cf. Gn 16:2; 31:3; Dt 22:13, etc.). O que importa em discriminação contra as mulheres ocorre naquelas passagens que tratavam das violações da legislação da aliança. Destarte, a mulher era castigada mais severamente pela infidelidade do que era o caso para um homem (Dt 22:13-21).

No Oriente Próximo antigo, as relações sexuais entre pessoas casa­das tinham como seu propósito primário a procriação de filhos. Os pros­titutos ou as prostitutas empregavam sua sexualidade tendo em vista rigo­rosamente o ganho monetário, enquanto talvez oferecessem uma ativi­dade recreacional incidental para as pessoas que se aproveitavam dos ser­viços daqueles. O Antigo Testamento é surpreendentemente sensível ao aspecto emocional dos relacionamentos entre os sexos, conforme indica a coletânea de líricos de amor chamada Cantares de Salomão. Junta­mente com outras fontes, estas composições indicam a maneira segundo a qual o desejo sexual como tal pode ser transcendido e enriquecido por um companheirismo profundo entre um homem e uma mulher. As rela­ções sexuais nunca foram descritas explicitamente no Antigo Testamento, situação esta que tende a enfatizar a natureza delicada e íntima da ativi­dade. Ao invés disto, expressões tais como “tornar-se uma só carne” (Gn 2: 24), “conhecer uma esposa” (Gn 4:1, ARC; - ARA tem “coabitar”) ou “deitar-se” com alguém (Gn 34:7) foram empregadas como eufemismos.

O teor geral da lei da aliança torna claro que o Deus de Sinai é o Criador e Sustentador de toda a vida. Porque exemplificava padrões mo­rais e éticos altaneiros como uma divindade santa, os que têm relaciona­mento com Ele segundo a aliança devem viver de tal maneira que também exibirão estas qualidades espirituais. Colheitas generosas e rebanhos gran­des são Sua dádiva a uma nação que tem a santidade e a obediência às Suas leis em primeiro lugar nas suas atividades. O que quer que as na­ções pagãs tenham crido acerca da capacidade dos seus ritos orgiásticos para influenciarem a produtividade agrícola, a lei torna abundantemente claro que tais crenças e atividades não têm lugar na vida do povo escolhi­do. Para ele, era de importância fundamental permnecer num estado de santidade ritual, a fim de que não poluísse a terra por meio de entre­gar-se aos excessos sexuais dos cananeus. A atividade sexual era, de fato, uma parte legítima da vida de um povo santo, mas somente à medida em que era consistente com os regulamentos que regiam tais contatos. Se os israelitas usassem sua sexualidade fora daquelas diretrizes, somente pode­riam esperar que o castigo divino sobreviesse a eles. ’A santidade do rela­cionamento do casamento foi enfatizada quando Deus fez uso dele nos dias de Oséias a fim de demonstrar a seriedade das promessas de lealdade à aliança feitas nos tempos de Moisés, e contrastou aquela situação com o estado em que a aliança tinha ficado no século VIII a.C. ao retratar a na­ção como sendo uma esposa infiel. Por causa da contínua apostasia de Israel, o povo foi advertido que, a não ser que se arrependesse e voltasse a Deus com obediência e fé, seria severamente castigado. Deus o Pai amava Seus filhos com um amor que transcendia em muito aquele dos pais humanos pelos seus filhos. Com retribuição, Ele exige que eles de­monstrem reciprocidade com uma profundidade de emoção e dedicação, cuja medida é expressada pelo termo hebraico “conhecer”, que em si mesmo é um eufemismo para o amor sexual (cf. Is 11:2; Os 4:1,6). Pa­receria, portanto, na base daquilo que foi dito supra, que a afeição expe­rimentada dentro de um contexto sexual pode indicar os participantes a um amor muito maior e mais puro do que pode ser imaginado pelos mortais.

O ensino no Novo Testamento sobre o assunto do sexo é menos evidente do que aquilo que ocorre no Antigo Testamento, mas, mesmo assim, fica dentro da tradição hebraica geral. As relações sexuais eram consideradas uma função legítima de homens e mulheres dentro dos la­ços conjugais, dos quais a monogamia já havia muito era a representante, como nos tempos do Antigo Testamento, o objetivo principal da ativi­dade sexual era a procriação de filhos, que eram amados e acalentados como dádivas preciosas de Deus. Jesus Cristo condenava o adultério e a concupiscência sexual (Mt 5:27-32; 15:19-20, etc.), e ressaltava a im­portância de um motivo puro na sexualidade, como, de fato, em todos os demais relacionamentos. Em circunstâncias um pouco especiais, Seu amor se estendeu em certa ocasião até ao perdão de uma mulher tomada em fla­grante adultério, mas, mesmo assim, ela foi advertida a não mais continuar tal comportamento imoral (Jo 8:11).

Os ensinos de Cristo lançaram o alicerce para os subseqüentes altos padrões morais e éticos para a atividade sexual que são contidos noutras partes do Novo Testamento. O ideal de uma união vitalícia entre um ho­mem e uma mulher no matrimônio (cf. Gn 2:24) é ressaltado pela injunção de que seja “no Senhor” (cf. 1 Co 7:39). Qualquer forma de satisfa­ção sexual fora do casamento era condenada, por mais infreqüentes ou casuais que tais ligações possam ser. Os desvios e perversões sexuais, um aspecto comum da vida do mundo antigo, também eram considerados es­tranhos ao conceito cristão da moralidade sexual. Destarte, o homosse­xualismo era proibido especificamente em Romanos 1:27 e 1 Coríntios 6:9.

Modernos estudos psicológicos e médicos têm explorado a comple­xidade do comportamento homossexual, mas com resultados inconclu­sivos na maioria das vezes. A natureza pluralista da sociedade dos fins do século XX tem encorajado a crença de que uma opinião é tão válida quanto outra num determinado assunto, e não menos naquilo que diz respeito à moralidade, visto que a idéia da existência e da autoridade de princípio espirituais absolutos para a vida tem sido negada em tão gran­de escala. Algumas opiniões a respeito do homossexualismo vêem a prá­tica como sendo uma violação dos ensinos bíblicos acerca do tópico, e, portanto, como uma perversão das funções legítimas na área da ativida­de sexual. Alguns pesquisadores chegaram à conclusão que o homossexualismo é uma forma de psicopatologia, e recomendaram vários tipos de tratamento numa tentativa de combater a condição, caso semelhante abordagem for considerada necessária ou desejável. Outros investigado­res deixaram de lado valores ou desvalores concorrentes, e meramente consideraram o homossexualismo como uma variação da norma estatística.



Este comentário obviamente não é o lugar próprio para explorar esta questão com qualquer profundidade. Basta dizer, no entanto, que na opinião do presente escritor, o Novo Testamento torna claro que qualquer forma de prática homossexual é incompatível com uma vida cristã moral e santa. Uma pessoa pensar em si mesma como “homosse­xual cristão” ou “lésbica cristã” é uma total contradição em termos, e não pode ser sustentada de modo algum com base nas Escrituras. Igual­mente especiosa é a lógica que se esforça para fazer o homossexualismo parecer válido como “estilo de vida alternativo” para o cristão.