7 de agosto de 2017

R. K. Harrison - Leis Rituais (parte 3)

harrison danilo moraes
C. Regras para a santidade sacerdotal (21:1 — 22:33)

Levítico enfatiza repetidas vezes o conceito da santidade divina como sendo o ideal que a vida individual e comunitária deve visar. Ao pas­so que capítulos anteriores trataram de circunstâncias do israelita mé­dio, a presente seção diz respeito aos padrões de santidade esperados dos sacerdotes. Porque muito lhes foi dado como sendo representantes de Deus na comunidade, muito mais será requerido deles, como resulta­do disto (cf. Lc 12:48), do que nos israelitas comuns. A matéria pode ser dividida facilmente em seis seções ao notar a fórmula de encerramento, que fala do Senhor como o santificador (21:8, 15, 23; 22:9, 16, 32). Os regulamentos para a santidade sacerdotal nesta seção tinham seu pa­ralelo, até certo ponto, no período exílico, nas ordenanças que forma­vam partes da visão de Ezequiel de um templo restaurado em Jerusalém (Ez 44:1-31). Há certas diferenças nos dois relatos, no entanto, que são dignas de nota. Em primeiro lugar, a legislação mosaica era primária, tendo sido revelada por Deus diretamente a Moisés, ao passo que a ma­téria em Ezequiel tinha a natureza de uma visão, e, portanto, era subje­tiva mais do que objetiva. Ao invés de preceituar ordenanças e estatu­tos, o profeta Ezequiel meramente está descrevendo o comportamento de sacerdotes que já estavam vivendo de acordo com aqueles estatutos.

Em segundo lugar, a experiência visionária recapitula um aspecto da Torá de modo verdadeiramente profético, e não introduz qualquer coisa de natureza inovadora ou distintiva nos deveres sacerdotais. Além disto, ao passo que a matéria em Levítico descreve com considerável detalhe o papel sacerdotal, a visão de Ezequiel meramente o resume como par­te da descrição da atividade no templo que viu. Parece haver pouca dú­vida quanto à existência antecedente prolongada dos preceitos levíticos, dos quais a matéria em Ezequiel se constitui em reflexão um pouco gene­ralizada. As duas seções, no entanto, enfatizam a exigência fundamental da santidade no serviço do Senhor.

1-9. Ser um dos sacerdotes do Senhor era uma posição altamente responsável, visto que a pessoa que a detinha era, em efeito, um substi­tuto de Deus entre o povo. Como outras ofertas vivas apresentadas ao Senhor, o sacerdote devia ser livre de máculas físicas e cerimoniais, de tal maneira que fosse aceitável a Deus (cf. Rm 12:1). Seu modo de vida era cercado por restrições que tinham o propósito de manter seu estado especial de santidade ao Senhor. Um sacerdote, portanto, devia evitar todo o contato com os mortos, visto que tal coisa o tornaria imundo (Nm 19:11-13). A única exceção a esta regra envolvia parentes muito pró­ximos (2-3), pelos quais o sacerdote teria uma responsabilidade pessoal. Sua jovem irmã solteira era incluída nesta categoria seleta, visto que não teria um marido para tratar dos ritos fúnebres, e talvez nem sequer pais. Não se menciona a própria esposa do sacerdote, mas a contamina­ção por causa dela seria de se esperar, visto que eram um só no casamento. As instruções dadas ao sacerdote exilado Ezequiel eram muito incomuns (Ez 24:15-18), mas se a morte da sua esposa ocorreu cerca da data em que Jerusalém caiu em 587 a.C., sua desolação pela perda seria típica da grande tristeza que os exilados experimentariam. Não deveria ficar enlutado por um passado morto, mas, sim, deveria viver para o futuro pelo poder de Deus.

O v. 4 seria melhor traduzido: “Não se contaminará, sendo ho­mem principal entre o seu povo, profanando-se desta maneira.” Parece que as contaminações têm conexão com os ritos de luto, como no versí­culo seguinte, e não por causa de um sacerdote casar-se de modo impró­prio. Rapar a cabeça (cf. Lv 19:27-28) era proibido, juntamente com outras práticas pagãs de luto, parcialmente para impedir a introdução de costumes pagãos em Israel, mas também porque desfigurar o corpo de qualquer maneira danificava sua perfeição e violava a idéia da santidade. Os sacerdotes, acima de todos os demais, deviam viver vidas santas, tendo sido separados para oferecer o pão de seu Deus (6), sendo que a palavra “pão” era um termo sacrificial para “carne” (cf. Lv 3:11, 16; 21:21). Os que ministram as coisas do Senhor devem ser prudentes no comportamento, e não deve tomar sobre si um jugo desigual no casamento (cf. 2 Co 6:14) com uma mulher desonrada ou repudiada (7). A menção de uma prostituta visa lembrar os israelitas que a prostituição cultual da va­riedade cananita não tinha qualquer lugar na vida da comunidade da aliança, visto que semelhante comportamento profanaria o santo nome de Deus. Porque os sacerdotes apresentam ofertas santas em prol da congregação, devem receber o respeito devido a uma posição tão exalta­da. A santidade dos sacerdotes se estende aos membros das suas famí­lias também, de modo que se uma filha se entrega à imoralidade, profana seu pai bem como a si mesma. O castigo para um delito tão grave era a morte: seria queimada no fogo.

10-15. O sumo-sacerdote também é obrigado por regulamentos especiais no que diz respeito ao luto e ao casamento. Num tempo de luto não deve demostrar quaisquer dos sinais usuais de tristeza (10), nem deve ter qualquer contato com os que morreram, até mesmo se fos­sem parentes bem próximos, para não ser contaminado. Tendo sido ves­tido das vestes sagradas e ungido com o óleo da consagração especial, exigia-se dele que mantivesse seu estado de santidade cerimonial. Restri­ções deste tipo se constituíam em imposição severa sobre pessoas que pe­la sua natureza e sua inclinação, comportavam-se de modo muito demons­trativo na presença da morte. A esposa do sumo-sacerdote devia ser cas­ta na ocasião do casamento (13), visto que qualquer pessoa menos pura contaminaria a própria santidade dele, e talvez já tivesse, ou viesse a pro­duzir, um filho que não fosse da descendência sacerdotal. Na questão do luto, e na do casamento, portanto, seu comportamento deve ser exem­plar, visto ser ele o representante supremo de Deus diante da congrega­ção. Paulo esforçava-se para recomendar seu próprio ministério por meio da pureza, da bondade, do amor e do Espírito Santo, juntamente com uma tentativa no sentido de evitar qualquer escândalo, a fim de que seu próprio sacerdócio não fosse censurado (2 Co 6:3-6) juntamente com o de outras pessoas. Numa geração corrupta e adúltera, a santidade e a pureza da vida podem ser atribuídas somente à obra santificadora do Es­pírito na vida do crente.

17-24. A pessoa que se aproxima do santuário como o sacerdo­te de Deus deve ser tão livre das imperfeições físicas quanto o animal sa­crificial que oferece. Um sacerdote que tem defeito físico é proibido de apresentar as ofertas sacrificiais, mas, mesmo assim, pode participar da carne sacrificial (cf. Lv 2:3, 10; 6:17-18, 29). As imperfeições alistadas incluem a cegueira, as mutilações do rosto, membros de comprimento desigual que poderiam ser o resultado da poliomielite, o corcunda, seja por deformidade congênita ou o resultado dalguma moléstia tal como a tuberculose da espinha, acondroplasia ou nanismo, e vários tipos de moléstias que causam coceira. Um homem castrado ou que sofre de orquiotrofia (20), também era maculado e, portanto, impróprio para os deveres do santuário. Mutações genéticas tais como a polidactilia tam­bém excluiriam uma pessoa do sacerdócio, e embora tais condições fossem raras, existiam indubitavelmente nos tempos do Antigo Testamento (cf. 2 Sm 21:20). A normalidade física e a santidade cerimonial estão estrei­tamente associadas aqui, sendo que a inferência é que os sacerdotes po­dem ser mais eficazes no serviço de Deus somente quando estão em con­dições normais de saúde e livres de imperfeições físicas. Estas condições prévias são muito importantes, mesmo se fosse por causa da tensão emo­cional e às vezes física que o servo consciencioso de Deus experimenta ao ministrar as coisas da vida eterna. Em todas as coisas, Deus deve ser glori­ficado, e Sua santidade é profanada por qualquer coisa que obviamente é menos do que perfeita, seja ela um animal sacrificial, ou um sacerdote sacrificante.

22:1-9. Os aronitas são relembrados nesta seção de que eles, também, podem tornar-se cerimonialmente contaminados, assim como qual­quer outro membro da congregação. A pureza é obrigatória para aque­les que oficiam nos sacrifícios, de modo que, se se tornarem contamina­dos de qualquer maneira, devem abster-se (2) das ofertas sacrificiais do povo, a fim de que o nome de Deus não seja profanado. Qualquer sacer­dote que empreende deveres no santuário enquanto estiver imundo de qualquer forma, profanou a área sagrada, e será eliminado (3) como cas­tigo. A contaminação pode resultar de certo número de situações, desde corrimentos até o contato com répteis imundos. Quando existir semelhante condição, dura até ao cair da tarde, e o sacerdote deve lavar seu corpo completamente antes de reaver sua pureza ritual. Deve ser escru­puloso na observância das leis dietéticas (8), a fim de não morrer nem profanar o nome santo de Deus por transgredir em tais questões. A san­tidade do sacerdote deve ser marcada por um alto grau de retidão ceri­monial e moral, como um exemplo para a congregação.

10-16. Porque a santidade do sacerdote era compartilhada pelos membros da sua família, eles, também, poderiam participar do alimen­to reservado para o uso dos sacerdotes. Este privilégio, no entanto, era negado para os que não eram sacerdotes (“estrangeiro”), ou para os que eram hóspedes ou empregados do sacerdote. Um escravo não-israelita que fazia parte da família do sacerdote tinha licença de comer alimento consagrado, sendo um membro regular do lar. Uma filha de sacerdote que se casava com um leigo já não era considerada membro da família imediata, e, portanto, era desqualificada para comer das porções sacerdotais. Se voltasse ao lar paterno segundo as condições delineadas (13), poderia mais uma vez participar como membro integrante da família. Se um leigo acidentalmente comesse do alimento sacerdotal, teria de dar aos sacerdotes um montante equivalente à oferta original, acrescido por uma multa de uma quinta parte (14), como no caso da oferta pela culpa. Estes estatutos relembram aos sacerdotes que devem ser escrupulosos ao tratarem das ofertas sagradas do povo, a fim de que não sejam castigados por profanarem o nome do Deus que santificou as ofertas.

17-33. Os sacerdotes recebem instruções no sentido de se asse­gurarem que todas ofertas sejam sem defeito, e o catálogo das incapaci­dades físicas que desqualificavam os descendentes do serviço no santuá­rio é aplicado aos animais sacrificiais (22, 24). A única exceção é a dos animais que aparentemente exibem danos genéticos (23), e até mesmo es­tes podem ser sacrificados somente por oferta voluntária. Animais cas­trados ou com mutilações semelhantes, seja de raça nativa, seja de raça importada, eram proibidos para o sacrifício, visto que não eram perfei­tos fisicamente e, portanto, não refletiriam de modo adequado a santidade divina (25). Nenhum animal mais jovem do que oito dias deve ser oferecido em sacrifício (cf. Êx 22:30), nem uma vaca ou uma ove­lha deve ser imolada com seus filhotes no mesmo dia, seja para propósi­tos sacrificiais, como nalguns cultos pagãos, nem para o consumo nor­mal como alimento. Esta proibição está em harmonia com as leis que proíbem práticas desperdiçadoras tais como tomar uma ave juntamente com seus ovos (Dt 22:6-7), ou a destruição indiscriminada de árvores (Dt 20:19-20). Em todas estas questões, o propósito principal é que o nome de Deus seja santificado (cf. Mt 6:9; Lc 11:2) pelo Seu povo eleito. Os regulamentos levam o “imprimatur” pessoal de Deus (“Eu sou o SE­NHOR”), e na medida em que são observados demonstrarão até que grau os israelitas estão vivendo verdadeiramente em comunhão com Deus.

No Novo Testamento, Cristo Se constitui no sacrifício perfeito e sem defeito (Hb 9:14; 1 Pe 1:19), onde a palavra grega amómos é o equivalente do Hebraico tãmfm, “sem defeito, imaculado.” Aqui, como em Efésios 5:27, o significado do termo transcende o uso puramente cultual, e se refere às implicações morais e espirituais do oferecimento que Cristo fez de Si mesmo. Sua morte visava livrar o pecador das suas iniquidades; tornar santo o corpo dos crentes cristãos; e remover deste corpo as máculas de qualquer tipo. É contra este pano de fundo que os membros da igreja cristã são exortados a serem eles mesmos livres de má­culas (Fp 2:15; 2 Pe 3:14). O termo amômètos ocorre somente em 2 Pedro 3:14, e descreve a falta de mácula moral que deve tipificar o cará­ter dos cristãos que acreditam no julgamento divino. Na mesma Epísto­la, diz-se que os falsos mestres são nódoas e deformidades no corpo de Cristo (2 Pe 2:13).

d. Consagração das estações (23:1-44)

Esta seção constitui-se de uma lista da estações sagradas (“festas fixas”) no calendário religioso israelita, inclusive as três grandes celebra­ções da páscoa, do pentecoste e dos tabernáculos. A lista foi provavel­mente compilada em primeiro lugar para a orientação dos sacerdotes, mas sem dúvida formou parte da instrução que passaram adiante para a congregação. Começando com a observância do sábado, a lista chega ao fim com a festa jubilosa dos tabernáculos, que enfatizava a libertação que Deus operou em prol de Israel, cativo no Egito.

1-2. As celebrações são descritas como festas fixas (Heb. mô‘êd), termo usado na expressão “tenda da congregação” (’ôhel mô‘èd). São, portanto, assembleias do povo que são realizadas em tempos determina­dos, e como santas convocações são celebradas no tabernáculo. A descri­ção destes eventos como festas (hag) indica seu caráter alegre, e demons­tra que nem todas as reuniões dentro do recinto do santuário eram neces­sariamente solenes ou cheias de pressentimentos.

3. O sábado semanal foi a primeira ocasião fixa a ser observada, e seguia o padrão do descanso de Deus da atividade criadora (Gn 2:3). O sé­timo dia era sagrado (Êx 20:11), porque foi santificado por Deus, e esta santidade foi reforçada quando o maná foi dado no deserto (cf. Êx 16:5, 23-29). O sábado (“dia de descanso”) era um dia em que cessava todo o trabalho, e o período de tempo reconhecido como o próprio dia do Se­nhor. Embora a idéia do sábado fosse conhecida aos mesopotâmicos, os dias que eram observados como tais eram muito menos regulares do que aqueles dos hebreus, e tinham uma base rigorosamente supersticiosa. Temendo ofender a várias divindades do panteão, os babilónicos obser­vavam um sabattú no dias sete, quatorze, dezenove, vinte e um e vinte e oito do mês. Sacrifícios especiais eram oferecidos aos deuses nestas ocasiões a fim de desviar sua ira ou de propiciá-los. Aparentemente ape­nas certas classes da sociedade babilónica eram afetadas pelas restrições do “sábado” sobre suas atividades normais, mas estes grupos incluíam o soberano e alguns sacerdotes. Em Israel, o sábado era uma ocasião para a adoração regular a Deus como o Autor das misericórdias da aliança e o Sustentador da vida nacional. O sábado às vezes era mencionado em co­nexão com a lua nova (2 Rs 4:23; Am 8:5; Is 1:13), e sempre era vene­rado pelos profetas que condenavam os israelitas por sua atitude casual para com as observâncias do sábado (Is 56:2, 4; Jr 17:21-27; Ez 20:12­24). O caráter distintivo do sábado era enfatizado no período mosaico pelo fato de que dois cordeiros eram sacrificados naquele dia, ao passo que um só bastava noutros dias da semana (Nm 28:9, 19). Naquele dia, uma dúzia de pães da proposição também era apresentada a Deus(Lv 24: 5-9; 1 Cr 9:32). A profanação do sábado era acompanhada por conseqüências sérias (Nm 15:32-36), porque o descanso imposto neste dia san­to básico era mais abrangente (“em todas as vossas moradas”) do que o exigido para outras festas fixas, quando, então, somente o trabalho ser­vil era proibido. Durante o período persa, Neemias empreendeu ação punitiva contra aqueles que violavam a observância do sábado mediante a realização de negócios comerciais naquele dia (Ne 10:31; 13:15-22). À medida em que se desenvolveu a teocracia de Judá, o sábado não so­mente ficou sendo a oportunidade para o culto semanal na sinagoga, mas também uma ocasião em que a lei era lida e estudada. Em conjunção com isto, emergiram os muitos pormenores da observância do sábado que fo­ram formulados pelos escribas.

No Novo Testamento, o “primeiro dia da semana” (Mt 28:1; Mc 16:2), que comemorava a ressurreição de Cristo, substituiu o sábado ju­daico como período regular para o culto cristão. O culto no domingo é uma lembrança semanal do fato que Cristo ressuscitou dentre os mortos, além de ser uma ocasião de instrução e comunhão. Um intervalo de des­canso de um dia em sete parece ser admiravelmente apropriado às neces­sidades do corpo humano. Intervalos de períodos maiores ou menores têm sido experimentados de tempos em tempos, mas não se revelaram tão bem-sucedidos quanto o sábado bíblico.

4-8. A mais importante das festas anuais era a páscoa, cujos ritos e significado são descritos em Êxodo 12:1-28. A cerimônia era exclusiva aos israelitas, e qualquer sugestão de que a festa tinha origens pagãs está inteiramente sem o apoio dos fatos. A páscoa era celebrada na décima- quarta tarde do primeiro mês (Nisã, na terminologia posterior) na prima­vera (março-abril), quando a ceifa da cevada estava para começar. Come­morava a libertação dos israelitas escravizados no Egito por um ato pode­roso de redenção divina, e marcava o estabelecimento dos descendentes de Jacó como nação. O dia que seguia a celebração da páscoa era o dia da festa dos pães asmos, cujos rituais são descritos em Números 28:16-25. Esta festa durava sete dias e, juntamente com as festas do pentecoste (se­manas) e dos tabernáculos, tinham o caráter de celebrações de peregrina­ção. Todos os homens adultos eram conclamados a observar estas três grandes festas (Êx 23:17; Dt 16:16). A festa dos pães asmos era uma santa convocação (7), e nenhuma obra servil devia ser empreendida duran­te a celebração. Este regulamento é menos severo do que aquele exigido para o sábado (3), parcialmente porque um período mais longo de tempo foi envolvido, e porque também se aplicava às demais festas principais (w. 21,25, 35-36). A páscoa e a festa dos pães asmos serviam de valio­so período anual de instrução, e faziam os israelitas relembrarem-se das questões teológicas envolvidas no êxodo do Egito, e também das impli­cações do relacionamento da aliança. A observância das grandes festas cristãs serve exatamente o mesmo propósito didático, levando à aten­ção do adorador que aquilo que está sendo comemorado aconteceu no tempo histórico a pessoas reais. Como a páscoa hebraica, a Ceia do Se­nhor focaliza um Cordeiro sacrificial que traz a redenção e a segurança espiritual mediante o derramamento do sangue.

9-14. O começo da ceifa da cevada, o primeiro tipo de cereal a ser ceifado, também era a ocasião em que os israelitas foram ordenados a trazer uma oferta das primícias a Deus. O estatuto antevê a ocupação sedentária de Canaã, e é uma de quatro leis (cf. Êx 13:5; 34:18; Nm 29: 12) que deviam então ser observadas pela nação. O molho (10), Hebrai­co ‘õmer, devia ser “movido” pelo sacerdote diante do Senhor, processo este que talvez tenha envolvido o sinal da cruz feito pelo oficiante. Esta oferta simbólica era acompanhada por um cordeiro sacrificial, uma ofer­ta de manjares de duas dízimas de um efa de flor de farinha, amassada com azeite (13), talvez cerca de 7 litros, e a quarta parte de um him de vinho, possivelmente até 1,7 litros. A cerimônia reconhecia Deus como o Autor verdadeiro de todos os produtos da terra, ao fazer a Ele uma apresentação que representava todas as colheitas, consagrando-as a Ele, portanto. A libação de vinho (Êx 29:38-42) sempre acompanhava a ofer­ta de manjares, mas é mencionada aqui pela primeira vez em Levítico, aparentemente para chamar a atenção ao fato de que, juntamente com o pão e a carne, tipificava os elementos principais da dieta. O conceito das primícias era popular entre os escritores do Novo Testamento, sendo aplicado aos primeiros convertidos como sendo as primícias do Espírito (Rm 8:23); aos judeus como precursores da igreja cristã(Rm 11:16); aos crentes individuais (Rm 16:5); a Cristo como sendo as primícias da res­surreição (1 Co 15:20); aos crentes nascidos de novo pela palavra da ver­dade (Tg 1:18); e ao grupo que tinha sido redimido como primícias (Ap 14:4).

15-22. A festa do pentecoste (semanas) ocorria quando a esta­ção da ceifa terminava, e autoridades judaicas posteriores consideravam que era o complemento ou a conclusão das celebrações da páscoa, visto que seguia esta última depois de sete semanas. Este intervalo deu origem ao nome de “pentecoste” ou “quinquagésimo.” A celebração durava um só dia (Dt 16:9-12), e era uma ocasião feliz em que a nação inteira dava graças ao Pai celeste providente por Suas dádivas abundantes de alimen­to. Esta gratidão era simbolizada por dois pães que eram cozidos leveda­dos (17) e apresentados ao Senhor, juntamente com animais sacrificiais, ofertas de manjares e libações. Nenhuma obra servil devia ser feita duran­te este período de santa convocação (21), e as necessidades do pobre e do estrangeiro eram lembradas nesta ocasião (22). A festa relembrava aos is­raelitas que o cuidado e o controle de Deus atingia todas as áreas da vida, não fazendo qualquer distinção falsa entre as bênçãos materiais e espiri­tuais. Cristo ensinou que nosso Pai celeste não nos dá meramente as coi­sas das quais precisamos, mas também dará o Espírito Santo para aque­les que o pedirem da parte dEle (Lc 11:13). Foi na festa do Pentecoste que o Espírito Santo foi originalmente derramado sobre os apóstolos (Atos 2:1-4).

23-32. O sétimo mês do ano, subseqüentemente conhecido co­mo Tisri, também era santo, assim como o sábado ou sétimo dia da sema­na. Esta é ainda outra indicação do alto grau de santidade atribuído ao número sete. O período era marcado por três festas distintivas, sendo que a primeira era a festa das trombetas. Celebrada no primeiro dia do mês, era um dia de descamo solene (24) em que trombetas eram tocadas a fim de reunir a congregação (Nm 10:10). No período pós-exílico a Torá era geralmente lida em público, e a atmosfera era de celebração e re­gozijo. Naquele tempo, o sétimo mês também marcava o começo do ano civil judaico, de modo que, depois do exílio, a festa das trombetas era efetivamente também uma festa do ano novo. O povo ficava lembrando as misericórdias que recebera de Deus, mediante a aliança, que ao ser obe­decida, o sustentaria durante mais um ano.

A segunda grande celebração era aquela do dia da expiação (26-32), realizada no décimo dia do sétimo mês. Em Levítico 16:1-34 já tinha si­do considerada do ponto de vista sacerdotal, mas aqui são examinados os deveres e as responsabilidades dos israelitas leigos. O povo devia pre­parar-se para este dia muito solene ao “afligir-se,” talvez por meio de je­juns ou outras formas de auto-disciplina, a negligência da qual levava con­sigo uma penalidade severa (29). Uma oferta queimada haveria de ser fei­ta, e qualquer pessoa que fizesse qualquer tipo de obra seria destruída por Deus. Bem claramente, esta celebração era muito mais um jejum do que uma festa, porque nela o sumo-sacerdote fazia expiação pelos peca­dos de acidente ou omissão cometidos pelos israelitas durante o ano pré­vio. Ficou sendo estatuto perpétuo pelas vossas gerações (31), sendo ce­lebrado anualmente pelos judeus em todas as partes do mundo. O sangue sacrificial apresentado a Deus no lugar santíssimo do tabernáculo pelo sumo-sacerdote era um símbolo do arrependimento do povo, e capacita­va-o a ser reconciliado com Deus. O único ato expiador de Cristo pelo pe­cado humano tornou obsoletas tais cerimônias, e além disto fez provisão para pecados cometidos em desafio aos regulamentos, situação para a qual nada poderia ser eficaz na antiga aliança (Nm 15:30).

33-44. Da solenidade do dia da expiação, os israelitas emergiam todos os anos na celebração da festa dos tabernáculos, a terceira ocasião comemorativa do calendário festivo hebraico. Conhecida também como a festa da colheita, tinha uma ocasião histórica, como a páscoa. Na festa dos tabernáculos, celebrada no dia quinze do sétimo mês, os israelitas se reuniam em reunião solene (36) no fim da estação da colheita, para uma celebração de oito dias. Durante este período habitavam em tendas fei­tas dos ramos de palmas, salgueiros e outras árvores nativas,[1] como lem­brança da maneira segundo a qual os israelitas tinham peregrinado no deserto depois do êxodo, habitando em tendas e abrigos temporários. O período festivo era marcado por numerosas ofertas diárias, que são re­gistradas em Números 29:12-38. A festa da colheita era uma oportuni­dade para a celebração jubilosa, que no período posterior, pós-exílico, adotou uma atmosfera quase de carnaval. Mesmo assim, a ocasião era uma lembrança da bondade de Deus, que demonstrava as raízes histó­ricas da Sua misericórdia, e asseverava Sua soberania sobre Sua criação material e Seu povo da aliança. A gratidão para os dons da natureza e para a graça divina revelada em Jesus Cristo deve sempre formar uma parte destacada do louvor e da oração dos cristãos.

e. Objetos sagrados: o pecado da blasfêmia (24:1-23)

Este capítulo trata de dois tópicos principais, a saber: regulamen­tos que regiam o lugar santo, e um caso de blasfêmia. Este caso prova­velmente ocorreu pouco depois de Deus ter dado a Moisés instruções acerca do azeite santo e dos pães da proposição (2-9), visto que é usual que a narrativa seja misturada com a legislação no livro de Levítico. A insistência na propriedade ritual, achada em capítulos anteriores, está grandemente em evidência aqui também.

1-4. O candelabro de ouro (Êx 25:31-40) com suas sete lâmpadas devia ser conservado aceso continuamente no tabernáculo, e devia ser suprido de combustível que consistia em azeite puro de oliveira, batido (2), conforme foi preceituado em Êxodo 27:20-21. O candelabro era colocado no lugar santo, que doutra forma ficaria completamente no escuro. Era a responsabilidade diária do sumo-sacerdote cuidar de encher e conservar em ordem as lâmpadas (4), visto que fora ele a primeira pes­soa que as acendeu (Nm 8:3). Em Êxodo 27:21, no entanto, fica claro que os deveres deviam ser compartilhados com outros membros do sa­cerdócio, visto que o ritual haveria de estender-se por muitas gerações. Alguns intérpretes, seguindo a visão de Zacarias 4, têm visto o candelabro como sendo típico de Israel, que segundo o propósito de Deus deve­ria ser uma luz para as nações do Oriente Próximo antigo. Mas a ver­dadeira luz para a revelação aos gentios, e para a glória do Seu povo Is­rael, era Jesus Cristo (Lc 2:32). O cristão é ordenado a deixar a luz da salvação de Cristo brilhar na vida diária, para a glória de Deus Pai (Mt 5:16; Ef5:8; Fp2:15).

5-9. Pouca coisa se diz acerca dos pães da proposição, ou pães da presença, em Êxodo 25:23-30, pormenores acerca dos quais são forneci­dos aqui no sentido de integrar os dois livros. Doze pães, tendo uma quinta parte de um efa de farinha fina cada, deviam ser cozidos e colo­cados em duas fileiras ou pilhas de seis pães cada. Incenso era colocado sobre os pães como porção memorial (7), que seria queimada no altar do holocausto (cf. Lv 2:2), quando os pães eram substituídos cada sábado. Os pães velhos formavam parte das prerrogativas dos sacerdotes (9), mas não podiam ser comidos por membros das suas famílias (cf. Mt 12:4). Alguns expositores têm visto no incenso um símbolo da oração, especial­mente no sentido de Deus outorgar ao Seu povo seu pão cotidiano (cf. Mt 6:11; Lc 11:3). Outros interpretam os doze pães como sendo uma ti­pificação das doze tribos, que são relembradas continuamente que todas as bênçãos que recebem são dádivas de um Deus generoso.

10-12. Um caso em que o nome de Deus foi profanado ocorreu em Sinai quando um homem, cujo nome não foi registrado, filho de uma mãe israelita e de um pai egípcio, blasfemou durante uma altercação no arraial. Suas maldições trouxeram desprezo sobre o nome santo de Deus, e já que naquele período não havia uma penalidade específica para a blasfêmia, o transgressor foi recolhido à prisão até que a vontade de Deus sobre a questão fosse conhecida. A menção do nome e da linhagem da mãe a identificaria para gerações futuras, e serviria como advertência para as mães de Israel criarem seus filhos no temor de Deus.

13-14. A sentença que finalmente foi revelada foi a morte por apedrejamento fora do arraial, de modo que a pureza ritual do taberná­culo e da congregação não fosse violada. Aqueles que realmente tinham ouvido a blasfêmia deviam fazer um gesto simbólico que significava seu envolvimento no crime, após o qual o homem era executado. O método exato não é mencionado, mas talvez o transgressor fosse forçado a dei­tar-se, depois do que sua cabeça era esmagada com pedras grandes, e o restante do seu corpo coberto com pedras menores para formar um mon­te como túmulo. Este procedimento evitaria que alguém incorresse em contaminação cerimonial acidental, e enquanto a congregação permane­cesse na área o monte de pedras serviria como lembrança do crime que tinha sido cometido.

15-23. A sentença não faz diferença entre o israelita nativo e o estrangeiro, pois qualquer pessoa entre a população que for culpada da blasfêmia receberá seu próprio castigo (16). Aqueles que desfrutam as bênçãos da aliança devem tomar o cuidado de não repudiar, de modo algum, o Autor da aliança. A ocasião fornece uma oportunidade para Deus lembrar aos israelitas acerca de vários delitos, para os quais a reta­liação em pé de igualdade é considerada apropriada. No texto hebraico esta lista é disposta num padrão concêntrico, indicando que sua ocorrência a esta altura não é nem casual nem um pensamento posterior dalgum compilador ou editor hipotético de data mais recente. Aquele que matar um homem será executado, e a pessoa que provocar a morte de um animal está obrigada a substituí-lo (18, 21). A deformação pes­soal deve ser retribuída em termos da lex talionis, um princípio impor­tante que declara a quantidade máxima de retaliação permitida em con­dições específicas. Além daqueles limites, a pessoa èra proibida de tirar vingança, o que era uma garantia de que a retribuição fosse proporcio­nal ao delito. Estes regulamentos eram uniformemente aplicáveis a todos os membros da nação, seja qual for sua origem racial, e, como outros estatutos, levavam a garantia do “imprimatur” de Deus (22).

A santidade de Deus é reforçada pela penalidade drástica preceitua­da para a blasfêmia. No Oriente Próximo o nome de uma pessoa era vincu­lado intimamente com seu caráter, de modo que, no caso de Deus, a blas­fêmia era, em efeito, um ato de repúdio. Este fato também pareceria aplicável aos tempos modernos, em que a blasfêmia é incrivelmente gene­ralizada. Longe de blasfemar, o cristão é aconselhado a não fazer qual­quer tipo de juramento (Mt 5:34-37), mas, sim, deve deixar que um sim­ples “sim” ou “não” baste. Os códigos jurídicos antigos continham um número muito maior de delitos capitais do que na jurisprudência ociden­tal moderna. De modo geral, as Escrituras hebraicas seguiam uma po­lítica de retribuição, mas o assassinato premeditado e a blasfêmia eram considerados crimes capitais. Até mesmo nos tempos do Novo Testa­mento, tanto Jesus quanto Estêvão foram considerados pelas autorida­des como sendo blasfemadores, e condenados à morte por este motivo (Mt 26:65-66; At 6:11). As expressões fratura por fratura, olho por olho (20) talvez façam parte da antiga fraseologia jurídica semítica que expressava o princípio da lex talionis, e não precisavam ter sido aplica­das literalmente. É importante notar que a justiça pública estava sendo imposta por este conceito jurídico, removendo, portanto, a sentença do alcance das “vendetas” de sangue ou doutras formas de vingança parti­cular. Cristo, nos Seus ensinos, modificou dramaticamente este con­ceito (Mt 5:38-41) ao requerer dos Seus seguidores que deem montan­tes adicionais ao invés de exigir a restituição ou de oferecer resistência ativa. Somente uma pessoa verdadeiramente forte pode corresponder de modo voluntário segundo estas diretrizes. Os fracos não têm outra opção senão fazer aquilo que se lhes ordena.

f. O ano do descanso e o do jubileu (25:1 -55)

Este capítulo continua o ciclo de estações consagradas tratado em Levítico 23:1-44, mas estende o princípio do descanso sabático ao séti­mo ano, e àquele que segue a complementação de sete ciclos de sete anos, a saber: o qüinquagésimo ano ou o ano do jubileu. A conservação dos re­cursos naturais e outros que é preceituada por esta legislação forma a base da boa prática agricultural e ecológica.

A legislação do jubileu tem como seu tema básico a libertação da­quilo que era preso. Como resultado, lembrava os israelitas, cada cinqüenta anos, do fato de que, certa vez, o povo de Deus tinha estado preso no Egito, vítima de um regime nativo opressor, mas que tinha sido liberta­do na ocasião do êxodo por uma demonstração milagrosa do poder divi­no. Agora, os israelitas eram cidadãos livres, vivendo na sua própria ter­ra, que por si só era uma dádiva de Deus, mas sendo ligados a Ele por um relacionamento da aliança, estavam apenas livres para servirem a Ele, com a exclusão de todos os demais deuses. Comó nação santa, seus corações e suas mentes deviam fixar-se em Deus e na Sua santidade, e não deveriam pensar em termos de acumular vastos latifúndios no decor­rer dos tempos, a fim de que não sucumbissem ao materialismo das na­ções circunvizinhas. A interrupção do decurso normal da vida nacional, preceituada para uma vez por meio-século forneceria uma oportunida­de para a reflexão sobre os valores da aliança e faria a nação lembrar-se de que não só pelo pão vive o homem.

A própria legislação fez provisão em primeiro lugar para todos aqueles israelitas que estavam em servidão a qualquer dos seus concidadãos, ao restaurarlhes sua liberdade. Estabeleceu um correlacionamento eqüitável entre o preço de um escravo e a proximidade do ano do ju­bileu (25:50). Em segundo lugar, aqueles que precisavam de dispor dos seus imóveis ancestrais por força das circunstâncias econômicas eram permitidos reavê-los conforme a legislação do jubileu. Este fato signi­ficava que era impossível para os israelitas alienar terras de modo perma­nente, ou comprar imóveis em grandes quantidades tendo em vista o acú­mulo de um vasto patrimônio. Finalmente, ficou sendo obrigatório para a própria terra permanecer em repouso, ainda que tivesse acabado de passar por um ano sabático.

No período do jubileu, o povo era obrigado a viver uma vida sim­ples, e esta era outra lembrança da disciplina do corpo e do espírito que era necessária para sobreviver os rigores de um meio ambiente do deserto que tinha sido a porção dos ancestrais deles que finalmente entraram na terra prometida. Durante o ano do jubileu, o alimento que tinha sido armazenado como preparativo para o evento poderia ser consumido, juntamente com qualquer coisa que crescesse espontaneamente da terra, mas nada devia ser plantado para alimento. Por este meio, Deus está claramente reasseverando Sua possessão da terra, e enfatizando a impor­tância de conservá-la santa. Quanto aos israelitas, a legislação os faz lembrar que devem confiar no Deus que libertou a nação da escravidão no Egito em dias idos, e forneceu aos Seus escolhidos uma terra em que vi­vessem, confiança esta que se estende à Sua providência para os anos não-produtivos do ano sabático e do ano do jubileu. A legislação, por­tanto, é uma exigência no sentido que os israelitas sejam obedientes ao Senhor seu Deus, e O sirvam como nação santa tanto mais consciente­mente durante o período em que muitos dos seus deveres normais seriam suspensos. Na medida em que os estatutos do ano do jubileu fossem ob­servados, o evento ocorreria uma só vez no decurso de uma vida normal.

1-7. Esta legislação, dada no monte Sinai, antevê o tempo quan­do os israelitas estariam na ocupação sedentária da Palestina. O princí­pio do descanso sabático agora é aplicado a um período de sete anos, em que o ano final deve ser observado como um sábado ao SENHQR (2). Naquele tempo a terra ficará em pousio, ao passo que os pomares e as vinhas ficarão sem cuidados agrícolas. Durante o ano sabático não deverá haver qualquer colheita sistemática das culturas que se semeiam a si mesmas, nem dos frutos tais como as uvas ou os figos. Qualquer coi­sa desta natureza pertence a todos, e as pessoas deveriam obter seu ali­mento onde quer que o pudessem achar, assim como os israelitas fize­ram nas suas peregrinações no deserto. Esta disposição seria de especial importância para aqueles que não possuíam terras (cf. Éx 23:11). O ano sabático demonstrava que Deus era o supremo providenciador, e que, embora o homem pudesse ajudar no processo, mediante a sua cooperação, era da parte de Deus que vinham todas as coisas. O dever principal do homem, portanto, era glorificar a Deus ao observar sábados regulares de adoração e de comunhão espiritual, e não concentrar-se no acúmulo das possessões materiais, com a exclusão de tudo o mais. Este mesmo prin­cípio subjaz as instruções que Cristo deu aos Seus seguidores no sentido de buscarem em primeiro lugar o reino de Deus (Mt 6:33).

8-12. Depois de sete anos sabáticos, o quinquagésimo ano devia ser proclamado no dia da expiação pelo sonido da trombeta em todas as partes da terra. Era um ano sagrado em que a população escrava era emancipada e o povo voltava para suas posses familiares. Este ano do jubileu (11) provavelmente tomava seu nome do tocar do chifre de car­neiro (yôbèl) que proclamava seu início. O termo tinha origem antiga, seja qual for seu significado, visto que em Js 6:6, 8 precisava da palavra adiciona] sôpãr (“chifre de carneiro”) para explicar seu significado. Como o ano sabático, o jubileu devia ser santo ao Senhor, e a terra devia perma­necer em pousio.

13-17. De conformidade com os regulamentos do ano do jubileu, â terra devia ser devolvida aos seus donos originais, restaurando-se, as­sim, a tradicional divisão da terra entre as tribos (cf. Nm 36:9). As leis sobre os bens nesta seção baseiam-se no conceito de que Deus mantém o domínio legítimo sobre todas as terras (cf. Êx 6:4; Dt 5:16), idéia esta que também era achada noutras culturas do Oriente Próximo. Por esta razão, a terra de Canaã foi distribuída aos israelitas tribo por tribo, e os que a ocupavam consideravam-se, na melhor das hipóteses, inquili­nos e não donos totais. A terra, portanto, não podia ser vendida, no sen­tido convencional, e qualquer pagamento por bens imóveis era o equiva­lente de o comprador tomá-los em arrendamento até o próximo ano do jubileu. Nestas condições, o custo dos imóveis comprados seria em pro­porção ao restante do tempo que sobrava do ciclo de quarenta e nove anos.

18-24. Visto que somente o produto da terra poderia assim ser apropriadamente comprado ou vendido, a questão do suprimento de ali­mentos era muito importante, mormente visto que um ano sabático sem­pre antecedia um ano do jubileu. Logo, grandes ceifas eram prometidas, que bastariam até que o período do jubileu tivesse acabado e as cul­turas pudessem ser ceifadas mais uma vez. O ano do jubileu era claramen­te um tempo para a fé na capacidade de Deus de fornecer alimentos, e uma oportunidade para os pobres e os endividados fazerem um novo co­meço na vida. Por causa do seu descanso obrigatório, os recursos da terra seriam conservados, e sua continuada fertilidade garantida. Tais dispo­sições representam um exemplo antigo do planejamento da terra, e a apli­cação de princípios ecológicos em geral. Os efeitos sociais da redistribuição do território na ocasião do jubileu eram de natureza relevantemente igualitária. Idealmente, não haveria qualquer divisão marcante da socie­dade em classes, e nenhuma exploração dos pobres pelos ricos donos das terras. Que esta situação não prevalecia, a despeito das intenções da legis­lação, é indicado pelos pronunciamentos de tais profetas do século VIII a.C. como Isaías (5:8) e Amós (2:6).

25-34. Embora na teoria a terra pertença a Deus, situações surgi­rão em que o dono-inquilino é obrigado a alienar seus bens. Somente a extrema adversidade levaria a tal passo, pois as heranças familiares eram grandemente estimadas (1 Rs 21:3). Em tais condições, esperava-se que um parente próximo viesse a comprar as propriedades, de tal maneira que não passassem às mãos de estranhos (25). No caso de um homem poder comprar de volta suas propriedades, o custo do resgate é determinado pelo período de tempo durante o qual os imóveis estavam sob contro­le alheio. O que ficar (27) representava o excesso do preço de venda so­bre o valor total das colheitas obtidas da terra. Se a pessoa não tivesse recursos para resgatar suas propriedades, teria de esperar até o ano do jubileu, quando, então, reverteria a ela por força da lei (28).

A regra do livramento dos bens não se aplicava a imóveis em cidade murada (29-30), os quais, se não fossem resgatados dentro de um ano após a venda, pertenciam permanentemente ao comprador. Talvez esta disposição fosse elaborada porque as terras agrícolas como tais não seriam envolvidas na compra. As casas das aldeias que não tinham muro, no en­tanto, eram classificadas segundo o regulamento que regia a alienação de imóveis em geral, visto que tais casas mais provavelmente seriam vendi­das com algum terreno acompanhante. Outra exceção era feita no caso dos levitas, que na distribuição do território no período da colonização tinham alocadas a eles quarenta e oito cidades com as terras acompanhan­tes (Nm 35:1-8; Js 21:1-42). Qualquer levita que vendesse seus imóveis em tais condições tinha o direito permanente de redenção, visto que sua casa era sua possessão perpétua. Se o levita não resgatar acrescenta um negativo, como na Vulgata, mas este acréscimo é desnecessário visto que, doutra forma, a continuidade com o versículo anterior não é conservada. O significado é que se um levita alienar seus imóveis a outro levita, a re­gra da reversão ao dono original no ano do jubileu ainda está em vigor.

35-38. A aplicação prática do amor ao próximo como a si mes­mo é ressaltada aqui. Seja qual for a causa da pobreza de um irmão, de­ve receber a hospitalidade oferecida a um estrangeiro ou peregrino, e não se deve deixar que morra de fome. O conceito da comunidade da alian­ça como sendo composta de irmãos e irmãs no Senhor aplica-se a ques­tões financeiras bem como a questões morais e espirituais. Não basta desejar aos necessitados todo o sucesso na sua busca de sustento, pois além disto, ajuda prática adequada para satisfazer as necessidades da pes­soa deve ser colocada à disposição (Tg 2:15-16). Um israelita necessita­do não deve ser explorado por seu próximo, e a Torá é distintiva aqui na sua insistência de que os empréstimos aos pobres devam ser livres de juros.[2] Deus usa da Sua própria generosidade para com os israelitas ao libertá-los da servidão como um exemplo para a comunidade espiritual seguir (cf. 1 Jo 4:11).

39-45. Se um homem se tornasse tão pobre que se vendesse como servo para um israelita mais rico, ainda assim, deveria ser tratado com a dignidade de um irmão. Embora obviamente deva trabalhar, deve ser tratado como jornaleiro (40), e não como escravo. Normalmente tais pessoas saíam livres no sétimo ano (Êx 21:2; Dt 15:12), mas se intervies­se o ano do jubileu, seu período de serviço seria encurtado de modo, cor­respondente. A pessoa que o contratou também era responsável pelo sus­tento de quaisquer familiares imediatos que o homem porventura tivesse (41). Este regulamento visava conservar a humanidade e a dignidade do pobre ou do endividado, sem deixar que tais pessoas evitassem suas res­ponsabilidades sociais e financeiras. Como a Torá, o Novo Testamento desencoraja o comportamento parasítico (cf. 2 Ts 3:10-11). Tendo si­do redimidos uma vez da escravidão, os hebreus nunca mais poderão ser vendidos como escravos (42). Este, porém, não é o caso dos não-israeli­tas, no entanto, que podem ser tanto comprados quanto vendidos daque­la maneira, e até mesmo legados aos herdeiros do dono (46). Uma situa­ção poderia ocorrer em que um israelita ficasse sendo escravo de uma fa­mília estrangeira rica (47), e neste caso devia ser resgatado por um paren­te próximo, visto que seu serviço não terminaria depois de seis anos. O preço da redenção deve ser calculado em termos do número de anos até o jubileu, como se o indivíduo se tivesse alugado numa base anual durante aquele período inteiro (52). Quer seja resgatado, quer não, o servo he­breu deve ser tratado de modo humanitário, porque todos os israelitas são verdadeiramente pertences do Deus que antigamente os resgatara da servidão no Egito. Na Sua obra expiadora no Calvário, Cristo pagou o preço supremo pela redenção daqueles que estavam escravizados ao peca­do, e tornou possível o grau mais alto de liberdade para aqueles que O servem.

Exatamente até que ponto o conceito do ano do jubileu era obser­vado em grande escala no decurso da história dos israelitas é difícil de­clarar por causa da falta da evidência direta. Que a legislação é antiga e não comparativamente recente parece ser indicado pelo fato de ser apro­priado que tais estatutos idealistas ocorressem no começo da vida comu­nitária dos hebreus em Canaã e não perto do fim dele, quando o povo da aliança era algo menos do que dono do seu próprio lar. Além disto, os hebreus não parecem ter sido inteiramente isolados no conceito geral do jubileu, visto que certos soberanos mesopotâmicos entre os séculos XIX e XVII a.C. decretaram uma legislação algo comparável. O fato de que o ano do jubileu não é mencionado fora do Pentateuco não indica neces­sariamente que não era observado de modo extensivo além dos tempos de Moisés. Na realidade, certo perito alegou que o único aspecto “poste­rior” na legislação é a exigência de que o ciclo de livramentos ocorresse regularmente cada cinqüenta anos.[3] [4] North tem argumentado de modo persuasivo que o conceito do jubileu teria sido muito mais provavelmente aceito pelos seguidores de Moisés do que pelos habitantes espiritualmente debilitados da Judéia nos tempos de Ageu, Zacarias ou Malaquias.[5] O ponto de vista de que o jubileu era celebrado periodicamente nos dias pré-exílicos tem sido apoiado por van Selms, pelo motivo de que ocorre em partes do Pentateuco (Lv 27:18, 21; Nm 36:4) em contextos que tratam doutras questões. Além disto, argumentou que nenhuma etimolo­gia convincente de yôbèl como sendo a designação do ano do jubileu era conhecida nos tempos pós-exílicos, indicando, assim, a antiguidade da instituição.[6] Há, de fato, muito poucas referências a outras festas princi­pais do ano religioso dos hebreus, sendo que a explicação mais provável é que as ocasiões eram tão normais como parte da vida nacional que eram tomadas por certo, e, portanto, não eram selecionadas para menção espe­cial. Em 1 Macabeus 6:49, diz-se que a terra estava tendo um sábado durante o período dos macabeus, circunstância esta que tornou difícil aos defensores cercados de Betsura resistirem, por causa da falta de ali­mentos. A narrativa não indica aqui se um ano sabático ou um ano de jubileu estava em andamento, mas se aquele estava sendo observado, é mais provável que este seria observado também.

Uma ênfase sobre o humanitarismo e a justiça social é uma caracte­rística marcante da legislação neste capítulo, e deve ser notado que o teor das leis seguia um caminho médio entre os extremos do capitalismo ir­restrito e o comunismo agressivo. Os direitos inalienáveis do indivíduo à sua liberdade pessoal e às suas posses ancestrais estão decretados pela lei, de modo que sejam garantidos, situação esta que está sublinhada pe­la injunção aos israelitas no sentido de que amassem seu próximo como a si mesmos. O amor fraternal podia ser expresso de modo mais direto na solicitude para com os empobrecidos, tradição esta que foi mantida pelos membros da igreja cristã primitiva (cf. At 4:34-35; 2 Co 9:1-2; Fp 4:15, etc.), que sustentavam os necessitados e indigentes como uma expressão da lei do amor de Cristo (G16:2).

Estes estatutos demonstram que uma sociedade equitável deve ser baseada em princípios morais e espirituais. Na realidade, a espiritualida­de do jubileu está fundamentada no conceito do sábado e do ano sabáti­co, do qual é uma extensão lógica. A legislação confirma e ressalta a so­berania reconhecida de Deus sobre Seu povo, pois os próprios israelitas tinham estado desesperançosamente emaranhados na servidão em certo período da sua história, e continuaram nesta condição até que Deus os libertasse por um ato dramático da redenção. A libertação do cativeiro e da opressão foram prometidas por Isaías (61:1), e foram cumpridas na obra de Cristo, o Messias de Deus, que citou aquela mesma profecia no começo do Seu ministério (Lc 4:18-19). A libertação do cativeiro ao pecado, a verdadeira humanidade, e o reconhecimento da dignidade que pertence a um filho de Deus, todos estes são o resultado da expiação que Cristo fez pelo pecado humano.






[1] As árvores formosas (40) foram interpretadas pela NEB como sendo ár­vores cítricas, e, numa nota marginal, os salgueiros de ribeiras foram traduzidos co­mo sendo “álamos.” Este último mais provavelmente era o álamo do Eufrates (Po- pulus euphratica), árvore esta que atinge doze metros de altura, ou mais. As folhas de textura rígida crescem em pecíolos fracos, e a árvore é achada em todas as partes da Síria e da Palestina, e cresce vigorosamente no vale do Jordão. Cf. H. N. e A. L. Moldenke, Plants of the Bible (1952), pág. 183. A espécie Populus alba, o álamo branco, que cresce nas colinas da Palestina, tem a preferência de W. Walket,AII the Platits ofthe Bible (Í958), pág. 168. 


[2] R. P. Maloney, Catholic Biblical Quarterly, 36,1974, págs. 1-20. 


[3] Cf. J. J. Finkelstein, Studies in Honor of Benno Landsberger (1965), págs. 233-246; D. J. Wiseman, “Law and Order in Old Testament Times,” Vox Evangélica, 8, 1973, págs, 5-21 (esp. pág. 12) demonstrou que o regulamento perió­dico da economia mediante decreto real perdoando certas dívidas fiscais e pessoais, conforme era praticado em todas as partes do Oriente Próximo, é um motivo im­portante por detrás das assim-chamadas “reformas” tais como aquelas que foram instituídas por Ezequias e Josias. 


[4] R. Westbrook, Israel Law Review (1971 ed.), págs. 209-226. 


[5] R. North, Sociology of the Biblical Jubilee, págs. 204-206. 


[6] A. van Selms, IDB Supplementary Volume, págs. 496-498. Ver também N. Sarna em H. Hoffner (ed.), Orient and Occident, págs. 143-149; R. North, Socio­logy of the Biblical Jubilee, págs. 96-101.