12 de agosto de 2017

R. K. Harrison - Bençãos, punições finais, votos e ofertas

antigo testamento R.K. Harrison
BÊNÇÃOS E PUNIÇÕES FINAIS (26: 1-46)

No Oriente Próximo antigo era costumeiro tratados legais termina­rem com passagens que continham bênçãos para aqueles que observas­sem os estatutos, e maldições sobre aqueles que não os observassem. Os tratados internacionais do segundo milênio a.C. regularmente incluíam tais seções como parte do texto, sendo que a lista das maldições era mui­to mais longa do que as promessas de bênçãos. No Antigo Testamento, este padrão geral ocorre em Êxodo 23:25-33, Deuteronômio 28:1-68, e Josué 24:20. As maldições dos textos jurídicos mesopotâmicos, ou aquelas nos tratados dos arameus, dos heteus e dos assírios eram amea­ças pronunciadas nos nomes dos deuses que tinham agido como testemunhas às alianças. Que estas ameaças poderiam ser implementadas fa­zia parte da crença supersticiosa das pessoas no Oriente Próximo antigo, e poderiam ter alguma base coincidental nos fatos. Para os israelitas, po­rém, não havia dúvida de que o Deus que operou o ato poderoso de li­bertação no Mar Vermelho realmente levará a efeito tudo quanto prome­teu, seja para o bem, seja para o mal. A obediência aos Seus mandamen­tos é a maneira certa de obter um derramamento consistente de bênçãos, ao passo que a continuada desobediência é uma garantia de castigo futu­ro. A frase “Eu sou o SENHOR vosso Deus” divide este capítulo em se­ções convenientes. A menção dupla do nome de Deus nos w. 1-2 e 44-45 forma um paralelo com aquela em Levítico 19:2-3, 36-37.

a. Bênçãos (1-13)

1-2. Certas proibições antecedem as bênçãos propriamente ditas (3-13). O tipo de idolatria corrente em Canaã é rigorosamente proibido. Os ídolos (Hebraico ’elfltm) são as coisas não existentes referidas em Le­vítico 19:4, ao passo que a imagem de escultura, contra a qual há legisla­ção no Decálogo (Êx 20:4) era uma representação cultual de uma divin­dade do tipo que já tem sido descoberto em várias localidades em Canaã. A coluna (Hebraico massèbâ) era aparentemente feita de pedra e prova­velmente visava consistir em uma indicação tangível da presença de El ou Baal, as duas divindades principais da religião cananita. A pedra com fi­guras (Hebraico masfcft) deve, sem dúvida, ter contido alguma representação esculpida de uma divindade cananita, tal como uma pedra que retrata Baal lançando raios, com data de cerca de 1800 a.C. e escavada em Ras Shamra (Ugarite). A observância do sábado e a freqüência escru­pulosa da adoração no santuário serão as melhores maneiras de prevenir as corrupções da religião cananita.

3-13. Porque o acordo feito em Sinai entre Deus e Israel é tanto uma aliança quanto o eram os bem-conhecidos tratados internacionais do segundo milênio a.C., é tanto natural quanto apropriado que uma se­ção de bênção seja incluída aqui. Formam três divisões (w. 4, 6, 11), cada uma das quais tem como prefácio [no original] “Eu darei.'*’ A obe­diência às estipulações da aliança será recompensada pela prosperidade material (3-5), pela vitória sobre os inimigos da nação (6-9), pela certe­za da presença de Deus na terra (11-12), e pela dignidade da liberdade pessoal (13). A menção do fato que Deus livrou Israel do Egito é uma garantia que o Grande Rei que tomou a iniciativa da aliança com o povo é capaz de realizar o que prometeu. Não será nenhuma divindade ausente; pelo contrário, estará com os israelitas, dirigindo suas vidas e providen­ciando para todas as suas necessidades. Estas bênçãos são sui gêneris no seu caráter, e garantem aos israelitas sua segurança pessoal, a contínua prosperidade nacional, e, acima de tudo, a presença de uma divindade amorosa e onipotente. A certeza da presença de Deus tem sido uma fonte de fortaleza e bênção para gerações incontáveis de crentes (cf. Is 11:1-16; Ez 36:28; 37:24-27, etc.). Antes da Sua ascensão Cristo deu a certeza da Sua presença constante com Seus discípulos como meio de fortalecê-los e encorajá-los no ministério deles (Mt 28:20). Porque Jesus Cristo é o mesmo ontem, hoje e para sempre (Hb 13:8), esta pro­messa ainda é válida para todos os crentes.

b. Punições (14-39)

14-33. As seções dos tratados do Oriente Próximo antigo que continham as maldições eram muito mais longas do que aquelas que des­creviam as bênçãos que sobreviriam ao vassalo como conseqüência da obe­diência ao Grande Rei, e este padrão é visto aqui, também. Embora a pos­sibilidade de que o povo escolhido viria a aborrecer os juízos de Deus (15) talvez tenha parecido um pouco remoto no Sinai, nem por isso a perspec­tiva deixou de ser enfrentada abertamente. Os castigos incluíam o terror (16), resultante de calamidades de uma natureza médica, tais como a tí­sica e a febre ardente. A primeira (Heb. 8ahepet) era uma designação geral de qualquer moléstia debilitante, e esta poderia incluir tais estados contagiosos e infecciosos como a desinteria, a cólera, a febre tifóide, o tifo, a malária, a tuberculose e vários tipos de câncer. A condição descrita co­mo sendo febre foi explicada mais detalhadamente como um estado que desgasta os olhos e leva a vida a desvanecer-se. Ê possível que a referên­cia diga respeito a uma forma de cegueira causada pelo gonorréia, que oca­sionalmente tem sido registrada em proporções epidêmicas. A doença é marcada por uma forma aleijante de oftalmia conhecida como conjuntivite purulenta aguda, que se propaga rapidamente de olho em olho e de pessoa em pessoa. Resulta em cegueira permanente com as adversidades sociais conseqüentes. A rejeição da espiritualidade segundo a aliança tam­bém produzirá a seca e a fome acompanhante. As chuvas de estação serão substituídas por um céu tâo sem misericórdia e inamovível quanto o fer­ro, e por terra cuja superfície é dura como o bronze (19). Deus está re­lembrando aos transgressores em potencial que Ele ainda estará com eles, mas com castigos e não com bênçãos.

A desobediência contínua trará pragas de feias (22) tais como os leões asiáticos que se podiam achar na região de Jericó nos tempos de Davi (cf. 1 Sm 17:34-36), ou em derredor da Samaria depois do reino do norte ter ido para o cativeiro (2 Rs 17:25-26). Este castigo será se­guido pela guerra (25) que buscará suas vítimas e as destruirá. No Anti­go Testamento, aquelas nações que lutavam contra Israel freqüentemente estava sendo usadas por Deus como agentes para castigar o povo da aliança (cf. Jz 2:11-15; 2 Rs 17:18-20; Is 10:5-11, etc.). A fome que resultará quando o fornecimento de alimento for cortado (“Quando eu vos tirar o sustento do pão”) envolverá o racionamento do que sobrar. Esta quantidade será tão pequena que um só forno será tudo o necessá­rio para assar pão para dez famílias (26). A menção dos altos (30) pare­ce indicar um tempo em que os israelitas ocupariam as bãmôt cananitas pagãs, e as empregariam para o culto idólatra. As imagens do sol prova­velmente eram altares de incenso do tipo que se achavam em Canaã de­pois de 1100 a.C. Eram feitos de pedra calcária, e tinham projeções ou “chifres” em cada canto. Um altar deste tipo foi escavado em Megido num santuário israelita do começo do século X a.C.

Mais rejeição das responsabilidades segundo a aliança trará casti­gos ainda piores da parte de Deus. Estas garantias da retribuição divina estão baseadas num conceito da justiça rigorosa, visto que o Deus do Sinai é Aquele que sustenta Seus direitos (Êx 20:5, “Deus zeloso”).

O canibalismo (cf. 2 Rs 6:28-29; Lm 2:20), a desolação das cidades, e o exílio do povo (cf. Jr 9:16; Ez 5:10, 12, 14, etc.) serão elementos do castigo severo que Deus aplicará àqueles que não guardaram as pro­messas que Lhe foram feitas no Monte Sinai pelos israelitas.

34-39. O período do exílio permitirá à terra que se recupere do negligenciamento das observâncias do ano sabático (34). Folgará ou “go­zará” procura transmitir a idéia da compensação devida â terra pelos israelitas que deixaram de conservar corretamente seus recursos de acor­do com a lei. Os poucos que sobreviverem ao exílio (36) ficarão insegu­ros e aterrorizados pela menor ameaça, ao passo que seus companhei­ros no cativeiro serão consumidos (39) por causa de pecados passados. Este quadro dramático do exílio haveria de ser uma parte infeliz do fu­turo da nação, como conseqüência do continuado repúdio das respon­sabilidades e obrigações decorrentes da aliança.

c. As recompensas do arrependimento (40-46)

39-42. Deus não quer que o pecador morra, mas, sim, que se arrependa e viva. Se Seu povo iníquo confessar sua apostasia e traição, demonstrando arrependimento genuíno e um desejo sincero de tomarem eles por bem o castigo (41), Deus Se lembrará que Ele ainda está obri­gado pela Sua aliança eterna feita com os descendentes de Abraão (cf. Gn 17:7). Cristo ensinava quão grandemente Deus estima o arrependi­mento ao falar da alegria no céu por causa de um só pecador arrependi­do (Lc 15:7, 10).

43-45. A terra, que era uma parte importante das promessas a Israel conforme a aliança, precisará de tempo para recuperar sua produ­tividade. Poderá, portanto, folgar nos seus sábados (43) enquanto seus antigos habitantes estiverem no exílio. Embora Deus tenha afligido Seu povo com um castigo tão drástico, o próprio povo deve arcar com a res­ponsabilidade pelo acontecido. O conceito da aliança leva consigo a im­plicação de que o amaldiçoamento foi na realidade amaldiçoamento-próprio. Ao desobedecer às disposições do acordo da aliança, o vassalo traz sobre si mesmo as maldições que ela contém. As responsabilidades do indivíduo e da nação como um todo, portanto, assumem dimensões muito mais signiflcantes, visto que para os israelitas uma grande propor­ção da resposabilidade pelo sucesso do relacionamento recaía sobre eles. Tendo invertido os valores da aliança do Sinai por meio de tornar profa­no aquilo que é fundamentalmente puro e santo, dificilmente poderão queixar-se se, depois de repetidas advertências no decurso de um longo período de tempo, um Deus justo inverter a própria situação deles, ao le­var embora aquilo que fora dado, e ao entregar de volta a escravidão o povo que tão recentemente tinha sido libertado da escravidão aos egíp­cios. Embora a triste sorte do exílio que aqui está sendo contemplada profeticamente muito bem poderia tornar-se uma realidade na experi­ência dos israelitas, Deus não Se esquecerá do povo da aliança naquela eventualidade, pois Ele é a única razão para a existência deste povo (44). Porque ama Sua nação escolhida, submete-a à disciplina (Am 3:2; Hb 12: 6) ao invés de rejeitá-la completamente de improviso.

46. Uma fórmula de conclusão no estilo de um colofão repete o título geral da seção no v. 3 (estatutos. . . mandamentos), menciona o escriba que registrou a matéria (Moisés), e fornece uma data (no monte Sinai) para a ocasião.

REGULAMENTOS CONCERNENTES A VOTOS E OFERTAS. (27:1-34)


O capítulo final de Levítico trata pormenorizadamente dos votos e dízimos, que tinham sido mencionados apenas de modo um pouco geral noutros lugares (Lv 7:16; 22:18-23; 23:38). Um voto a Deus colocava uma pessoa ou os bens num relacionamento consagrado espe­cial que ficava fora das exigências normais da lei. A filha de Jefté (Jz 11:30-31) e Samuel, o filho de Ana (1 Sm 1:11), são exemplos de pes­soas que foram dadas como ofertas votivas por outros. Levítico come­çou com regulamentos acerca de ofertas para o santuário, e é apropria­do que terminasse com o mesmo tema.

a. Pessoas (1-8)

1-5. Esta seção trata da avaliação de uma pessoa do sexo masculino que for oferecida ao Senhor por um voto. 0 padrão da avaliação é o do siclo do santuário (ver nota sobre Lv 5:15), e um homem adulto era avaliado em cinquenta sidos de prata (3). este dinheiro seria pago aos sacerdotes, e nos períodos posteriores era usado para a manutenção geral do santuário. Mulheres que eram votadas ao serviço divino eram avaliadas em trinta siclos. Uma escala semelhante aplicava-se a pessoas de ambos os sexos cuja idade variava entre cinco e vinte anos. As mu­lheres sem dúvida ajudariam os sacerdotes em deveres não-cerimoniais em conexão com o santuário, e, além disto, provavelmente cuidariam das pessoas devotadas que eram mais jovens.

6-8. O jovem menino dedicado desta maneira ao serviço do Senhor era avaliado em cinco siclos, e a jovem menina em três siclos. Tais crian­ças seriam ensinadas como ajudar os sacerdotes em vários deveres enquan­to durasse o período dos seus votos. As pessoas acima de sessenta anos de idade eram avaliadas em quinze siclos, para um homem, e dez siclos, pa­ra uma mulher. Se o indivíduo que fazia o voto, ou para si mesmo ou pa­ra outra pessoa, era pobre demais para pagar coisa alguma, então a pessoa sendo dedicada era avaliada pelo sacerdote oficiante num nível mais bai­xo e realista, na expectativa que a pessoa envolvida guardaria sua promes­sa. No Antigo Testamento, votos eram considerados como sendo atos ex­tremamente sérios (cf. Dt 23:21-23), e as precauções aqui visavam dissua­dir votos demasiadamente èntusiastas e pouco realistas. Visto que a Torá não continha legislação que preceituava votos, esperava-se que quem entrasse nesse tipo de relacionamento voluntário com Deus completasse aquilo que empreendera. Somente aqueles votos que se conformassem com o gênio distinto da aliança seriam aceitáveis a Deus. O voto de uma esposa era inválido a não ser que fosse aprovado pelo marido.

b. Animais (9-13)

8- 10. Visto que todos os animais limpos oferecidos ao Senhor eram santos, deviam cumprir os padrões preceituados em seções ante­riores da legislação. Uma vez que um animal tivesse sido votado, não po­deria ser substituído por um de qualidade inferior ou um de espécie di­ferente (10). Se uma troca igual for feita, tanto o animal original quanto seu substituto deviam ser considerados santos, e nenhum deles poderia ser usado para propósitos seculares.

11-13. Animais considerados imundos por causa de um defeito também poderiam ser votados ao Senhor, e o sacerdote lhes atribuiria um valor em dinheiro (12). Se surgisse uma situação segundo a qual um homem desejava desobrigar-se do seu voto e resgatar seu animal, dele se exigiria o pagamento de uma multa orçada em uma quinta parte do pre­ço avaliado. Entes regulamentos protegiam a santidade do voto ao insis­tir em procedimentos rituais apropriados, e desencorajavam a consagra­ção indiscriminada de tais bens disponíveis como animais defeituosos ao cobrar uma multa quando ocorria o resgate.

c. Bens (14-29)

14-15. Casas e terrenos podiam ser votadas ao Senhor, além de pessoas e animais. No caso de casas, cabia ao sacerdote fazer uma ava­liação realista do imóvel antes de aceitá-lo. Uma multa de uma quinta parte do preço da avaliação tinha de ser paga caso o dono original resol­vesse resgatar aquilo que fora votado. Uma vez que a casa passasse para o controle dos sacerdotes do santuário, presume-se que poderíam fazer o uso dela que achassem por bem, visto que estaria numa cidade murada e, portanto, desligada de quaisquer terras (cf. Lv 25:29-30).

15-29. Quando a terra era dedicada ao serviço do Senhor, a situa­ção era um pouco mais complexa, visto que, segundo a legislação do ju­bileu, tais imóveis revertiam ao dono original naquela ocasião. A terra que estava sendo votada era avaliada pelo sacerdote em termos da quan­tidade de semente exigida anualmente para semeá-la anualmente, sendo que cada ômer pleno de cevada representa um preço de cinqüenta siclos para o período de quarenta e nove anos.[1] Este valor é comparável com práticas mesopotâmicas, onde um ômer de cevada custava um siclo. Co­mo no caso doutras medidas, é desconhecida a quantidade exata que compõe um ômer (cf. Lv 19:36), mas provavelmente equivalesse a dois ou mais hectolitros. Para um período mais curto de tempo, uma redução rateada era feita (cf. Lv 25:50-51). Ainda que o preço de um ômer de cevada pudesse flutuar, conforme as condições locais, o princípio subja­cente da legislação era vincular o valor das terras ao valor das ceifas que era de se esperar que produzissem. Uma taxa de 20% era pagável aos sa­cerdotes se o campo fosse redimido subsequentemente pelo dono. Na eventualidade da terra também ser vendida depois de ter sido dedicada ao Senhor, ficava sendo a posse perpétua dos sacerdotes no ano do jubi­leu imediato. Uma oferta temporária de terras aos sacerdotes (22) tam­bém era avaliada de acordo cõm a proximidade do ano do jubileu, e o doador devia fazer um pagamento comparável como coisa santa ao SE­NHOR (23). O siclo do santuário que era o padrão aprovado da avalia­ção, consistia em vinte geras (cf.Êx 30:13; Nm3:47; 18:16).

Os primogênitos dos animais limpos pertenciam a Deus em quais­quer circunstâncias (Êx 13:2), e, portanto, não podiam ser votados para o santuário. Animais imundos, i.é, com defeito, podiam ser resgatados pelo pagamento da taxa usual de 20%. Para desencorajar atos irrespon­sáveis de piedade, as coisas dedicadás (Heb. hèrerri) eram consideradas a possessão exclusiva do Senhor, e, portanto, não podiam ser alienadas ou resgatadas. O processo mediante o qual as pessoas eram devotadas a este tipo de “interdição” podia ser visto na história subseqüente de Israel (cf. Js 6:17; 7:1), juntamente com as conseqüências da desobe­diência à legislação que regia este tipo de dedicação. Semelhante procedimento de “de votar” ou “submeter â interdição” (“dedicar irremissivelmente” - ARA; “consagrar” — ARC) é o resultado das instruções diretas dadas por Deus em certas circunstâncias e, portanto, bem diferen­te de atos de dedicação individuais ao serviço do Senhor.

d. Redenção de dízimos (30-34)

30-31. O dízimo, que consiste na décima parte de todos os pro­dutos da terra, é considerado a oferta devida pelo povo ao verdadeiro dono da terra (Lv 25:23). Nos casos em que era necessário ou desejável que o dízimo fosse redimido, a taxa adicional normal de 20% era pagá­vel aos sacerdotes. Esta disposição não se aplicava aos animais, no en­tanto, visto que todo décimo animal que nascia pertencia automatica­mente a Deus.

32-34. A vara do pastor (32) servia para guiar as ovelhas e para ajudar o pastor a andar em terreno difícil. A palavra hebraica usada aqui, no entanto (sêbet), é mais apropriadamente um “cajado,” uma arma de­fensiva para afastar predadores (cf. 2 Sm 23:21). Quando o pastor passa­va suas ovelhas debaixo da sua vara, empregava-a para reter as ovelhas à porta do curral enquanto examinava cada uma delas, procurando lesões ou danos. Os recém-nascidos entre os cordeiros seriam examinados de maneira semelhante, à procura de imperfeições. Esta seção proibe os donos de rebanhos ovinos ou bovinos de fazer uma seleção arbitrária ou casual dos animais a serem oferecidos a Deus (33); e se qualquer tentati­va de fazer uma troca fosse empreendida, os dois animais seriam consi­derados consagrados a Deus. Um pronunciamento final autentica o con­teúdo do capítulo, da maneira achada noutras partes de Levítico.

A intenção desta legislação é delinear as condições segundo as quais pessoas e bens podiam ser dedicados ao serviço divino. Porque a santidade de Deus estava no âmago de toda oferta votiva, regulamentos severos eram necessários para evitar atos de profanação. A motivação in­dividual, portanto, é de importância primária neste capítulo, de modo que atos irracionais, frívolos ou exageradamente entusiásticos fossem reduzi­dos ao mínimo, senão totalmente excluídos. A experiência daqueles que fizeram votos parece indicar de modo geral que a passagem do tempo al­tera a motivação original ou as circunstâncias em que os votos foram fei­tos. As leis levíticas tomam conhecimento deste fato, e são suficiente­mente humanitárias e flexíveis para permitirem, em certas condições, o resgate daquilo que foi votado.

A gravidade de fazer um voto a Deus deve ser entendida tão clara­mente pelo cristão moderno como o era pelo hebreu antigo. O Novo Testamento não torna obrigatório qualquer tipo de voto, mas dá a enten­der de modo claro que quaisquer compromissos ou promessas diante de Deus são assuntos solenes que devem ser cumpridos, seja em se tratando de votos batismais, votos feitos na ocasião do casamento, ou outros com­promissos semelhantes. Quebrar um voto é análogo a pôr a mão no arado e olhar para trás (Lc 9:62). Cumprir o voto de uma vida dedicada ao ser­viço de Cristo é o meio mais aceitável de adorar um Deus santo e perfeito.






[1] Para o uso de “semente” para significar “colheitas,” ver R. de Vaux, Ancient Israel (1961), pág. 168.