28 de agosto de 2017

J. A. THOMPSON - Introdução ao livro de Deuteronômio (parte 2)

antigo testamento danilo moraes
I. ALGUMAS CARACTERÍSTICAS LITERÁRIAS DE DEUTERONÔMIO.

O livro de Deuteronômio nos é apresentado sob a forma e estilo dos discursos de Moisés, sendo dois breves, o primeiro e o terceiro, e um muito extenso, o segundo. Uma análise cuidadosa dos discursos revela uma grande variedade de unidades literárias. Em certa maneira o livro dá a impressão de extraordinária descontinuidade. Frequentemente muda depressa de um tema para outro, com aparentes interrupções do fluxo de pensamento. A despeito da grande repetição de vocabulário, há muitas mudanças de estilo, sendo uma das mais impressionantes a grande varia­ção no uso do singular “tu” e do plural “vós”. O livro como um todo su­gere a impressão de um mosaico notavelmente complexo de muitas peças de material tradicional, de grande variedade, que tenham sido fundidas de modo a formar uma unidade. Um bom número de aspectos da ques­tão literária será agora discutido.

A. As seções que empregam “tu” e “vós”

Uma característica incomum de Deuteronômio é que em muitas de suas divisões os verbos e os pronomes se encontram na segunda pessoa do singular, ao passo que em outras usa-se a segunda pessoa do plural. Em ambos os casos é a Israel que a passagem se refere.

Várias explicações têm sido oferecidas para tal fenômeno; mencio­naremos brevemente as mais importantes. Já em 1894 dois escritores alemães, W. S. Staerk[1] e C. Steuemagel,[2] haviam proposto que Deuteronômio deveria ser analisado segundo duas fontes, uma contendo subs­tantivos e verbos no singular, outra contendo substantivos e verbos no plural. Steuernagel argumentou que as seções “plural” eram históricas e que foram dirigidas por Moisés à geração de israelitas que recebeu a alian­ça do Sinai. As passagens “singulares”, por seu turno, foram dirigidas à geração de israelitas que empreendeu a conquista. Steuernagel acreditava ser necessário seguir essas duas fontes através dos capítulos 12 a 26. Um escritor mais recente, J. H. Hospers (1947), restringiu tal análi­se à introdução (capítulos 1-11) e à conclusão (capítulos 27-30) de Deuteronômio. Ele estabelece uma forma primitiva de Deuteronômio nas passagens que utilizam o pronome tu em 5:6-21; 6:4 - 9:7a; 12 - 26; 28; 30:11 -31:16. As passagens que utilizam o pronome vós são por ele con­sideradas adições bem mais recentes (1:6 - 6:1; 9:7 - 10:11; 28:69 - 29: 28), bem como as breves passagens que utilizam vós inseridas nos blocos maiores que utilizam o pronome tu. Finalmente, as passagens que utili­zam o pronome tu na Introdução (capítulo 1-4) e em 30:1-10 são con­sideradas posteriores àquelas que utilizam o pronome vós.

A entrada de Martin Noth no campo da crítica de Deuteronômio[3] deu um novo aspecto a estudos anteriores. Ele argumentou que Deuteronômio era a introdução à grande obra histórica que engloba os livros de Josué a 2 Reis. Segundo essa teoria, os capítulos 1 a 3 eram a introdução não a um Código Legal, mas à grande história deuteronômica, para a qual lançavam as pressuposições necessárias. Os capítulos 31:1-13, 24-26a e 34 são a conclusão histórica do período mosaico, abrindo caminho para a conquista sob a liderança de Josué. Segundo Noth já não havia razão para buscar duas (ou mais) fontes ou redatores de Deuteronômio, pois o livro era uma composição indivisível e original que empregava o prono­me tu, contendo apenas adições posteriores que empregavam o pronome vós. O grande historiador deuteronômico (que Noth chamou de Dtr) encon­trou o código original (que Noth chama de Dt, as passagens que empregam tu) já acrescido das seções onde aparece o pronome vós, acrescentando a seguir sua própria introdução (capítulo 1 a 3) e anexando o todo à sua gran­de obra histórica.

Mais recentemente, em 1962, G. Minette de Tillesse chegou a uma conclusão ligeiramente diferente. Começando com o ponto de vista de Noth, de que as passagens que empregam o singular em Deuteronômio 5 a 30 formam o conteüdo original do livro, que depois foi acrescido das passa­gens que empregam o plural, e mais tarde recebeu do historiador deuteronomista os capítulos 1 a 3, talvez 4, e 31 a 34, de Tillesse argumentou que foi o historiador deuteronomista (que é designado como Dtist) que acres­centou as passagens que empregam o plural nos capítulos de 5 a 30.[4] [5] Em­bora de Tillesse admita que a mudança de número nos pronomes e verbos possa não ser um critério adequado em si mesmo, argumenta que, pelo fato da teologia das passagens “plurais” ser diferente daquela encontrada nas passagens “singulares”, ainda pode reivindicar validade para seu cri­tério. A despeito deste argumento, pode ser provado que em algumas passagens as seções que empregam o plural não podem ser omitidas sem mutilar o sentido do todo. [6]

N. Lohfink argumentou em linhas bem diferentes, afirmando que mistura do número dos substantivos, pronomes e verbos é um recurso es­tilístico especial para enfatizar determinado assunto.[7] [8] Ele alega que a mudança do singular para o plural é muito mais significativa do que a mu­dança do plural para o singular. A mudança do singular para o plural ocor­re normalmente no verbo, ao passo que a mudança do plural para o singuiar ocorre geralmente no sufixo. Na narrativa o plural é usado com maior frequência, a não ser que o contexto exija o singular. Assim, a mis­tura de número parece ser governada pela forma empregada.

Pode bem ser, portanto, que embora a variação entre “tu” e “vós” nas várias passagens seja uma característica literária de Deuteronômio, não aponte, necessariamente, para uma diferença de autoria e sim para uma diferença de ênfase.

B. Frases introdutórias em Deuteronômio

Em vários pontos do livro de Deuteronômio encontramos frases introdutórias que parecem interromper o fluxo normal da forma literária da aliança. É claro que um tratado deveria ter um título qualquer em seu início. Isso explica Dt 1:1-5: Estas são as palavras que Moisés falou a todo o Israel além do Jordão . . . encarregou-se Moisés de explicar esta lei, dizendo. O que dizer, entretanto, de outros subtítulos como 5:1, 27:1, etc.?

Alguns escritores entendem tais subtítulos como indicações de dife­rentes fontes. Pode haver, entretanto, outra explicação. Eles podem representar uma mudança da pessoa que estava falando, tal como aconte­ce em outras partes do Velho Testamento, por exemplo, no diálogo entre Deus e Moisés em Êxodo 34, ou no diálogo entre Josué e o povo em Josué 24, ou ainda em 1 Samuel 12, que registra o diálogo entre Samuel e o po­vo. Em outras partes do Velho Testamento este recurso é empregado quan­do uma pessoa passa a se dirigir a um novo interlocutor (1 Cr 28:2; 29:1). É evidente que em Deuteronômio 27: 1, 9, 11; 31: 14, 24s há mudança de interlocutor. Outra possibilidade é que a certos pontos do registro de um tratado houvesse uma pausa em que as pessoas a quem ele era outorgado dessem seu assentimento às estipulações nele contidas. Em Josué 24, por exemplo, o povo respondeu em várias ocasiões (versículos 16-18, 21, 22 e 24). Tais respostas ficam intercaladas com as palavras de Josué.34 Tal prá­tica pode explicar os subtítulos em Deuteronômio 27:1, 9, 11; 29:Is.; 31: ls. Êxodo 19, Josué 24 e 1 Samuel 12 sugerem que Israel deu uma res­posta indicando sua aceitação depois da leitura das estipulações da aliança. Este fato parece estar implícito também numa comparação entre Deuteronômio 26:16 e 26:17. Também pode-se conjecturar que houve uma ou­tra resposta depois de 27:9, 10. Parece ser uma conjectura razoável afirmar que houve respostas depois de 26:19; 27:8; 27:10; 29:1; 30:20. Em cada caso apresenta-se Moisés a continuar o discurso que levará a outra resposta. Semelhantemente, o título encontrado em 4:44-46 pode seguir uma res­posta do povo depois da introdução histórica dos capítulos 1 a 3 e o estabelecimento dos princípios básicos no capítulo 4; este termina com o apelo de 4:40 à obediência aos mandamentos, depois do qual a narrativa re­começa. Alternativamente, esta última passagem pode representar um segundo título, tal como ocorre no tratado de Esaradon ou nas inscrições de Sefiré. 

Deuteronômio 27: 15-16 e implicações extraídas de tratados não bí­blicos deixam claro que se faziam respostas orais durante as cerimônias de celebração de tratados. Tais respostas eram meramente orais e não chega­vam a fazer parte do documento.

É, assim, evidente, que uma variedade de explicações alternativas pode ser oferecida para o problema das frases introdutórias. [9] [10] [11]



C. A maneira característica de apresentação em Deuteronômio

Mesmo o leitor casual de Deuteronômio ficará impressionado com a maneira notável em que, em algumas passagens, leis específicas são apresen­tadas primeiramente de maneira simples, sendo seguidas de exortações, adver­tências e promessas. Esse material suplementar tinha o propósito, nos pare­ce, de marcar profundamente na consciência dos ouvintes as implicações de cada lei. Claramente, Deuteronômio não é lei codificada e sim uma pregação sobre a lei de Javé. Os mandamentos são intercalados com material hortatório (parênese) de maneira intensamente característica de Deuteronômio. Recentemente, von Rad devotou bastante atenção a esta caracte­rística de Deuteronômio. Segundo ele,[12] a passagem de 15:1-11־, por exemplo, começa com a antiga lei: Ao cabo de cada sete anos farás remis­são (versículo 1). O sentido exato desta exigência é descrito, a seguir, em terminologia legal bem precisa: Este, pois, é o modo da remissão . . . (ver­sículo 2). O que se segue nos versículos 3 a 11 é pregação. Falta a estes últimos versículos a concisão das fórmulas legais pois foi claramente de­signado para provocar uma forte apelo pessoal a que o ouvinte aplique a lei de maneira generosa.[13]

Outro exemplo ocorre em 14:22-27. A lei antiga reza: Certamente darás os dízimos de todo o fruto das tuas sementes, que ano após ano se recolher no campo (14:22). Os versículos restantes, 23 a 27, são expo­sição. Mais uma vez em 15:12-18־ a antiga lei é apresentada de forma con­dicional (casuística) no versículo 12. Os versos restantes, 13 a 18, igual­mente fazem um forte apelo ao ouvinte para que interprete a lei da ma­neira mais generosa.

O mesmo procedimento é adotado com todos os tipos de lei, seja ela apodítica, casuística ou até mesmo em casos onde ela fica implícita.

D. Os tipos de material legal de Deuteronômio

Alguma consideração deve ser dada aos tipos de material legal en­contrados em Deuteronômio, já que os capítulos 12 a 26, que compreen­dem metade do livro, são, basicamente, uma exposição de leis individuais.

Em primeiro lugar há as leis apodíticas, como por exemplo, 14:22; 15:1, 19; 16:18, etc. Algumas destas são brevemente agrupadas em séries, tal como 16:21, 22; 17:1 (três leis); 16:19 (três leis); 22: 5a, 5b, 9, 10, 11 (cinco leis); 2230; 23:1, 2,3, 7a, 7b (seis leis).

Há também as leis casuísticas ou condicionais, expressas em forma personalizada, “Se (quando) alguém . . . então . . às vezes tais leis apre­sentam leves toques homiléticos, tal como 22:6, 7; 22:8; 23:21-23, 24, 25; 24:10-12; 24:19, etc. Estas leis casuísticas não são normalmente tratadas na mesma maneira homilética extensa que as leis apodíticas, talvez por se­rem triviais ou raras, de modo que não havia a mesma pressão de inculca-las na consciência dos ouvintes. Uma exceção é 15:12-18 (cf. Êx 21:2-11). Por outro lado, leis puramente condicionais, à maneira dos códigos legais do antigo Oriente Próximo, sem qualquer material homilético ou toques pes­soais aparecem em passagens como 21:15-17, 18-23; 22:13-29; 24:14; 25:1-3; 25:5-10. De modo geral estas leis casuísticas predominam no final do livro de Deuteronômio, ao passo que as grande passagens homiléticas ocorrem na primeira parte.

Além destes dois grupos facilmente classificáveis de material legal, há outros tipos que são difíceis de classificar. Alguns destes tratam de assuntos amplos como o profeta (13:1-5; 18:9-22), o rei (17:14-20), ido­latria (13:6-18), as cidades de refugio (19:1-13). Não parece haver, por trás de tais passagens, lei alguma, quer apodítica quer casuística, embora no tratamento destes temas sejam encontradas as mesmas características homiléticas já mencionadas. Duas dessas passagens são formuladas em es­tilo casuístico, embora nenhuma lei subjacente seja mencionada (13:1-5, 6-18).

Um grupo importante de passagens trata da Guerra Santa. Há regulamentos para a conduta na guerra (20:1-9), ataques contra cidades (20: 10-18, 19, 20), prisioneiras de guerra (21:10-14), higiene no acampamen­to (23:10-14), isenção para homens recém-casados (24:5), e tratamento dos amalequitas (25:17-19).

Outros regulamentos, ainda, tratam da oferta das primícias (26:1-11) e ações legais em caso de homicídio não esclarecido (21:1-9).

Há também uma variedade de material que trata da lei das festas (ca­pítulo 19), dos sacerdotes (18:1-8), do santuário (12:1-28) e de comidas puras e impuras (14:3-21), etc.

Esta breve exposição deixa claro que há uma variedade considerável de material legal e tradicional em Deuteronômio, apresentada sob uma variedade de formas literárias. A moderna análise da crítica da forma tem contribuído consideravelmente para o isolamento destes vários elemen­tos. [14]



E. Deuteronômio, o Livro da Aliança e o Decálogo.

Uma simples observação casual destes três blocos de literatura deixa o leitor consciente de um número de íntimas semelhanças, bem como de um número de diferenças entre eles. Assim, um número significativo de leis contidas no livro da Aliança (Ex 20:22 23:19 ־) encontra paralelo em Deuteronômio.



O número exato de paralelos entre os dois blocos de material legal é de difícil determinação. Uma lista semelhante preparada por G. T. Manley varia ligeiramente em conteúdo.[15]! Há, entretanto, acordo suficiente entre os vários comentaristas para deixar claro que os dois blocos de ma­terial legal têm muito em comum. Por outro lado, há leis no Livro da Ali­ança que não aparecem em Deuteronômio.[16] Gerhard von Rad estima que cerca de cinquenta por cento do livro da Aliança não encontra paraleio em Deuteronômio.42 Dificilmente se poderia argumentar, portanto, que Deuteronômio seja um substituto para o Livro da Aliança.

Uma questão importante é até que ponto Deuteronômio difere do Livro da Aliança nas leis que são comuns a ambos. Por exemplo, as duas passagens Êxodo 21:2-6 e Deuteronômio 15:12-18 tratam do caso do israelita que se toma escravo. Em ambas as passagens dá-se a instruçãò de que ele deve servir seis anos, sendo liberto no sétimo, a não ser que prefira permanecer a serviço de seu senhor. Uma comparação das duas passagens revela várias diferenças (ver o comentário quanto a detalhes). Embora as duas passagens se refiram ao mesmo princípio básico, a narra­tiva de exodo trata do caso de um homem e a de Deuteronômio amplia o tratamento para incluir também o caso da mulher. Pode-se argumentar que a lei deuteronômica é simplesmente uma ampliação da lei do Êxodo, e que visava deixar claro o fato de que a lei também se aplicava a mulheres. Por outro lado, tem-se argumentado que a lei de Deuteronômio se origi­nou numa época em que tanto mulheres quanto homens poderíam se ven­der voluntariamente como escravos, possivelmente por razões econômi­cas ou talvez quando certas cerimônias cultuais antigas, tal como encostar a orelha ao portal do santuário* haviam deixado de ser praticadas. Tal fato podería ter acontecido num período qualquer subseqüente a Moisés. A an­tiga lei mosaica era observada em princípio mas praticada com pequena di­ferença de detalhes.

A lei do ano de remissão nos oferece outra comparação. Em Êxodo 23: 10ss. faz-se referência ao período de repouso da terra, a cada sete anos. A palavra hebraica para deixar descansar (a raiz s-m-t) aparece no substan­tivo remissão ('sPmittâ) em Deuteronômio 15:1-11, mas o que se tem em vista é a remissão de um devedor de seu débito ao fim de sete anos, ao pas­so que em Êxodo 23:10ss. a referência é à remissão da terra do peso de produzir colheitas. Ambas as leis parecem ser baseadas no mesmo princípio sabático.

De acordo com von Rad, a lei geral é dada em Deuteronômio 15:1: Ao fim de cada sete anos fará remissão (Sámittâ) O modo da remissão é então explicado em termos legais no versículo 2. Encontra-se aqui uma ex­plicação diferente daquela encontrada em Êxodo 23:11, diferença estaque pode ser explicada pela pressuposição de que o princípio expresso em Êxodo 23 :11 foi usado com um propósito diferente num outro conjunto de circunstâncias. Assim, no caso da dívida contraída quando alguém em­prestava algo a seu próximo, deveria existir um ano de remissão em que todo credor deveria perdoar qualquer dívida que seu próximo tivesse para com ele, uma exigência que não * aplicava para o caso do estrangeiro (nofcrtj. Von Rad interpreta Deuteronômio 15:2 como uma extensão e uma aplicação posterior da antiga lei mosaica, legislando o caso em que, mais tarde, depois da conquista da terra, um israelita contraísse uma dívi­da e obtivesse um empréstimo com outro israelita.[17] Um meio de liquidar a dívida seria trabalhar na fazenda do credor. No ano de remissão, todavia, este tipo de trabalho era proibido. Neste caso, a dívida deveria ser cance­lada. Talvez esta idéia estivesse inerente na lei encontrada em Êxodo, mas só tenha vindo a encontrar expressão clara em Deuteronômio, com termos de referência ligeiramente diferente.[18] [19]

As duas versões do decálogo oferecem uma terceira comparação. As duas passagens a comparar são Êxodo 20 e Deuteronômio 5. Das vinte ou mais diferenças entre as duas versões, treze são adições ao texto de Êxo­do encontradas em Deuteronômio.4 Destas, sete dizem respeito simples­mente à adição da conjunção “e”, não sendo assim de grande importância. Fora estas, há adições em Deuteronômio na lei do sábado (5:12) e na lei dos pais (5:16). (Ver comentário.)

Há, ainda, três pequenas diferenças no palavreado do segundo mandamento, duas variações no quarto mandamento, uma no nono manda­mento e uma recolocação importante nas palavras do décimo mandamento, de modo a separar a esposa de todos os outros itens pertencentes a um ho­mem. Em Deuteronômio, a esposa é citada em primeiro lugar da lista, ao lado do verbo hãmãd, ao passo que para os outros itens se emprega o verbo hifawwã. Quer-nos parecer que o texto de Deuteronômio tem uma ênfa­se diferente neste ponto. Não faltam nas páginas da Bíblia exemplos em que um princípio que encontrou expressão num determinado contexto precisasse de ser expresso diferentemente noutro contexto. O princípio permaneceu mas sua expressão foi modificada. Comparar, por exemplo, as modificações de leis anteriores feitas por Jesus em Mateus 5:21-48. Na pressuposição de que Moisés tenha escrito ambas as formas do Decálogo, não é inconcebível que depois de quarenta anos ele viesse a re-enunciar alguns de seus princípios de modo a se ajustarem a um novo conjunto de circunstâncias. Por outro lado, tem-se argumentado que os princípios mosaicos expressos no Decálogo de Êxodo foram reformulados numa época indefinida, depois da morte de Moisés, em termos ligeiramente diferentes.

Exemplos adicionais de mudança de formulação entre leis no Livro da Aliança e leis em Deuteronômio serão discutidos no comentário. A questão que surge é se as variações práticas sugeridas por tais mudanças de formulação teriam exigido apenas o tempo decorrido entre Sinai e Moabe, digamos uma geração, ou se refletem um período mais longo de desenvolvimento. O ponto de vista tradicional é o de que as mudanças podem ser explicadas totalmente pela própria iniciativa de Moises, à luz da experiência de toda uma geração. E perfeitamente argumentável, en­tretanto, que um tempo bem mais longo tenha sido necessário. Tal pon­to de vista não destrói a idéia de uma autoria mosaica básica para as práticas que aparecem sob seu nome em Deuteronômio. Princípios, mesmo que tivessem sido expressos de maneira precisa em leis formuladas por Moisés para sua época, precisariam ser adaptados a uma época posterior. O princípio de adaptação é fundamental em todos os aspectos do desen­volvimento religioso.[20]

Do ponto de vista literário, as diferenças entre o Livro da Aliança e o livro de Deuteronômio são inegáveis. No que tange à significação exa­ta de tais diferenças há amplitude suficiente para uma variedade de inter­pretações.

F. O vocabulário e estilo peculiares de Deuteronômio

Uma simples leitura casual de Deuteronômio persuadiria o leitor de que há uma certa uniformidade de estilo que caracteriza o livro co­mo um todo. Mesmo nos capítulos 14, 27, 29-31, que alguns eruditos têm atribuído a fontes diferentes, o mesmo estilo é evidente. Assim, não há apenas unidade estrutural em Deuteronômio, mas também uma forte unidade estilística, destacada por sua simplicidade, sua lucidez, sua fra­seologia e seu caráter retórico. Isto não significa que as palavras e frases, expressões idiomáticas e linguísticas sejam sempre exclusivas do livro. O que constitui a peculiaridade do estilo deuteronômico é a maneira pela qual as frases são combinadas, bem como a estrutura e o ritmo das sentenças.[21] O fato de linguagem semelhante ocorrer em outras partes do Velho Testamento, notadamente em material editorial dos livros histó­ricos, tem sido explicado com a argumentação de que os autores de li­vros como Josué, Juizes, Samuel e Reis foram influenciados pelo estilo deuteronômico, ou que ambos compartilhavam o estilo característico da prosa israelita nos dias da monarquia. Seja qual for a explicação, o estilo é peculiar. S. R. Driver, escrevendo ao fim do século XIX, tentou fazer uma descrição do vocabulário e do estilo de Deuteronômio. Tal descrição permaneceu como o padrão por quase um século e é, talvez, a melhor e mais completa lista atualmente disponível.[22] A lista mais recente, preparada por Moshe Weinfeld, é uma tentativa de incluir refe­rências a este vocabulário em outras áreas do Velho Testamento onde 0 vocabulário característico é encontrado e também de organizá-lo em tomo de vários aspectos teológicos, quais sejam, a luta contra a idolatria, a centralização do culto, o êxodo, a aliança e a eleição, o credo monoteísta, a observância da lei e a lealdade à aliança, a posse da terra e a mo­tivação do povo à luz dos bens materiais e da retribuição divina.

Procuraremos oferecer a seguir uma listagem seletiva de algumas das palavras e expressões mais importantes que ocorrem freqüentemente em Deuteronômio.

Primeiramente, com referência à observância da lei e lealdade à aliança pode-se observar 0 seguinte:

1. amar. O verbo é usado tanto para o amor que Javé tem por Seu povo (4:37; 7:8, 13; 10:15; 23:5) quanto para a resposta apropriada de Israel a Jave' (65; 79; 10:12; 11:1, 13, 22; 13:3, etc.). É de algum in­teresse o fato de que a mesma palavra ocorre em tratados seculares em que um vassalo é exortado, a “amar” seu suserano. Pode haver assim um contexto comum no Oriente Próximo antigo, embora a idéia bíblica es­teja eivada de maior amplitude e profundidade de significado. 

2. ouvir, e a expressão Ouve ô Israel (4:1 Heb.); 5:1; 6:4; 9:1; 20:3; 27:9, etc.). A expressão paralela atender à voz de Javé (4:30; 8:20; 9:23; 13:4; 15:5; 26:14, 17; 27:10; 28:1, 2, 15, etc.) utiliza o mesmo verbo.

3. servir a Javé(6:13;10;12,20; 11:13; 13:4;28:47).

4. temer a Javé( 4:10; 5:29; 6:2, 13, 24; 8:6; 10:12, 20; 13:4; 14:23; 17:19; 28:58; 31:12ss.) e expressões relacionadas como aprender a temer a Javé (4:10; 14:23; 17:19; 31:12ss.), temer a Javé todos os dias/todos os dias da tua vida (4:10; 6:2; 14:23; 31:13).

5. apegar-se a Javé (4:4; 10:20; 11:22; 13:4; 30:20).

6. andar nos caminhos de Javé e expressões relacionadas (5:33;

8:6; 10:12; 11:22; 19:9; 26:17; 28:9; 30:16).

7. fazer o que é reto e bom aos olhos de Javé (6:18; 12:25, 28; 13:18; 21:9).

8. guardar/cumprir os mandamentos/estatutos/testemunhos/juizos/ as palavras desta lei. Tais expressões são exatamente comuns (5:29; 6:25; 11:8, 22; 13:18; 15:5; 19:9;26:18, etc.)•

9. estatutos e ordenanças (4:1, 5, 8, 14; 5:1; 11:32; 12:1; 26:16) e mandamentos (5:31; 6:2; 7:11; 26:17) e testemunhos (4:45; 6:20). Estas combinações dos quatro substantivos são muito variadas; há também várias referências ao termo mais abrangente, lei (tôrà).

O forte elo entre esta linguagem e a linguagem dos tratados do anti­go Oriente Próximo é bem clara.

Um outro grupo de expressões se refere à rebelião contra Javé e con­tra a aliança.

1. fazer aquilo que é mau aos olhos de Javé (4:25; 9:18; 17:2; 31:29); proceder corruptamente (4:16, 25; 31:29).

2. desviar-se, desviar-se do caminho (9:12, 16; 11:16,28; 31:29) des­viar-se para a direita ou para a esquerda (5:32; 17:11, 20; 28:14).

3. provocar Javé à ira (4:25;9:7; 18; 31:29).

Muitas expressões se referem à luta contra a idolatria. Há numerosas referências a deuses estranhos e abominações.

1. seguir (após) outros deuses (estranhos) (6:14• 8:19; 11:28; 13:2; 28:14).

2. servir (adorar) a outros deuses (7:4; 11:16; 13:2, 6,13; 173; 28:14,

36, 64; 29:26; cf. 4:19; 8:19; 30:17). Algumas destas passagens se refe­rem à adoração de deidades astrais — sol, lua e estrelas (4:19; 17:3). -

3. Idolatria como abominação (tô‘èbâ) (7:25, 26; 13:14; 17:4; 18:9; 20:18). '

4. uma abominação a Javé teu Deus (7:25; 12:31; 17:1; 18:12; 22:5; 23:18; 25:16; 27:15).

5. Referência a práticas cultuais de outras nações: queimar/fazer, passar pelo fogo filhos/filhas (12:31; 18:10); deuses que são obra de mãos de homens feitos de madeira e pedra (4:28; 27:15; 28:64; 31:29).

6. fazer aquilo que é mau aos olhos de Javé (4:25; 9:18; 17:2; 31:29).

Há um bom número de expressões frequentes que se referem à centralização do culto israelita.

1. o lugar que Javé vosso Deus escolher (12:5, 11, 14, 18, 21, 26; 14:23, 24, 25; 15:20; 16:2, 6, 7, 11, 15, 16; 17:8, 10; 18:6;26:2; 31:11).

2. o lugar onde Javé fazer habitar o Seu nome (12:5, 11; 14:23; 16:2, 6, 11; 26:2) para ali colocar o Seu nome (12:5,21; 14:24).

Outras expressões características se referem ao êxodo, com seus atos de poder, e a escolha de Israel por Javé (eleição) e Sua aliança com eles.

1. redimir (pãdâ) do Egito /da casa da servidão (5:6; 6:12;7:8;8:14; 9:26; 13:5; 15:15; 21:8; 24:18).

2. Lembra-te que foste escravo na terra do Egito (5:15; 15:15; 16:12; 24:18, 22).

3. Javé escolheu (bâhar) (Israel) (4:37; 7:6, 7; 10:15; 14:2)

4. para Lhe serdes Seu povo próprio (4:20; 7:6; 14:2; 26:18; 27:9); constituir para Si em povo santo (28:9; 29:13); chamar a Israel pelo nome (28:10).

5. Seu povo próprio (precioso) (segullâ) (7:6; 14:2;26:18)

6. um povo santo (7:6; 14:2,21;26:19;28:9)

7. Teu povo Israel (21:8; 26:15); povo de herança (4:20; 9:26, 29).

8. Aliança. Há muitas referências a este termo, relacionadas tanto aos patriarcas quanto a Israel (4:13, 23, 31; 5:2, 3; 7:2, 9, 12; 8:18, etc.).

Há uma ênfase acentuada na posse (ou herança) da terra que era uma dádiva de Javé a Israel.

1. A boa terra que Javé teu Deus te dá como herança para a possuíres (4:21; 15:4; 19:10;20:16;21:23;24:4;25:19;26:1).

2. A terra que passas a possuir/possuir as nações/ possuir a sua ter­ra (4:1, 5; 6:18; 7:1; 8:1; 9:1, 5; 11:8, 10, 29, 31; 28:21, 63: 30:16).

3. possessão (yerussâ) (2:5, 9,12,19; 3:20).

4. lançar fora as nações diante de ti (4:38; 7:1, 17; 9:3, 4, 5; 11:23; 18:14).

5. jurar, usado do juramento de Javé aos patriarcas (1:8, 35; 4:31; 6:10,18,23; 7:8,12,13;8:1;9:5, etc.).

6. A terra/o descanso/as cidades, etc./ que Javé teu (nosso, etc.) Deus te (nos, etc.) dá (1:20, 25; 2:29; 3:20; 4:1, 40; 11:17, 31; 12:9; 13:12; 15:7; 16:5, 18, 20; 17:2, 14; 18:9; 25:15; 26:2; 27:2, 3; 28:8).

Algumas frases características se referem às bênçãos decorrentes da lealdade à aliança.

1. Para que Javé te abençoe (14:29; 23:20; 24:19; cf. 12:7; 14:24; 15:4, 6, 10, 14; 16:10, 15; cf. também a ênfase na bênção de Javé em 1:11 ;2:7; 7:13; 15:18; 28:2,12, etc.).

2. Para que prolongues os teus dias na terra (4:26, 40; 5:16, 33; 11:9; 17:20; 30:18; 32:47).

3. Abençoar toda a obra das tuas mãos (2:7; 14:29; 15:10, 18; 16:15,23:20; 24:19; 28:8,12).

4. para que te vá bem (4:40; 5:16, 33; 6:3, 18; 12:25, 28; 22:7).

5. Alegrar-se perante Javé teu Deus (12:12, 18; 16:11; 27:7; cf. 14:26; 26:11).

Há numerosas referências em Deuteronômio a Javé, o Deus de teus (nossos, vossos, seus) pais (1:11, 21; 4:1; 6:3; 12:1; 26:7; 27:3; 29:25). Este é o nome par excellence do Deus que entrou em aliança com Israel, seu soberano Senhor. Como tal, Ele impõe exigências soberanas sobre Israel. A expressão que hoje te ordeno aparece freqüentemente em Deuteronômio (4:40; 6:6; 7:11; 8:1, 11; 13:18; 15:15; 19:9; 27:10; 28:1, 13,15:30:2,8,11,16, etc.).

Há numerosas outras expressões que são freqüentes em Deuteronômio.

1. todo o Israel (1:1; 5:1; 13:11; 21:21; 27:9; 29:2; 31:1, 7, 11; 32:45; 34:12).

2. tuas portas, isto é, as cidades de Israel (12:12, 15, 17, 18, 21; 14:21, 27, 28, 29; 15:7, 22; 16:5, 11, 14, 18; 17:2, 8; 18:6;23:16;24:14; 26:12; 28:52,55, 57; 31:12).

3. Horebe é sempre usado em lugar de Sinai (1:2, 6, 19; 5:2; 18:16).

Esta lista é apenas uma amostra das numerosas palavras e frases que ocorrem freqüentemente em Deuteronômio e a respeito das quais pode ser dito que caracterizam o estilo e o vocabulário do livro.

Tem-se apontado, freqüentemente, que muitas destas frases ocor­rem também nos livros históricos de Josué a 2 Reis (a chamada História Deuteronômica), com a sugestão de que 0(s) editor(es) destes livros foi (foram) influenciado(os) ou pela própria linguagem do livro de Deuteronômio ou por alguma influência afim. Parece haver ainda alguns elos entre as passagens de prosa em Jeremias e as de Deuteronômio 52 embora ha­ja também muitas diferenças. G. E. Wright lançou a interrogação sobre como é possível haver uma relação literária entre Deuteronômio, 0(s) historiadores) deuteronômico(s) e as passagens de prosa em Jeremias. Ele conclui que deveria haver um estilo retórico amplamente divulgado em Judá durante o sétimo e o sexto séculos AC, do qual os três escritos são representativos. Deuteronômio tem, entretanto, afinidades com material mais antigo, como Oséias, por exemplo, que data do oitavo sé­culo AC, e a “fonte” E do Pentateuco, tradicionalmente atribuída também ao oitavo século. G. E. Wright argumenta fortemente que esta últi­ma afinidade pode ser bem mais significativa do que se tem admitido. É uma afinidade que teria ficado muito mais evidente no passado se os estudiosos não a tivessem obscurecido, atribuindo-a à mão de um reda­tor Deuteronômico. Não poderia bem ser que as raízes do estilo deuteronômico cheguem bem mais distante no passado do que tem sido re­conhecido até aqui? Seja qual for, entretanto, a origem do estilo deuteronômico, este é suficientemente marcante para ser uma característica reconhecível no vasto espectro da literatura do Velho Testamento.






26 W. Staerk, Beitrage zur Kritik des Deuteronomiums (1894). 


[2] C. Steuernagel, Der Rahmen des Deuteronomiums (1894). 


[3] Martin Noth, Überlieferungsgeschichtliche Studien /2 (1957). 


[4] G. Minette de Tillesse, “Sections ‘tu’ et sections ‘vous’ dans le Deutero- nome”, VT, XII. 1, Janeiro 1962, pp. 29-87. 


3Ó Ibid., p. 34 


[6] Ibid., p. 36. Cf. E. W. Nicholson, Deuteronomy and Tradition (1967), pp. 33ss. 


[7] N. Lohfink, Das Hauptgebot: eine Untersuchung literarischer Einleitungs- fragenzuDt 5-11 (Analecta Biblica, 20, 1963), pp. 239ss. 


[8] Cf. G. J. Wenham, The Structure and Date of Deuteronomy (tese não-pu- plicada) pp. 210-213. 


[9] Cf. Ex 19: 8 em resposta aos versículos 4-6; 1 Sm 12: 4, 5b em resposta aos versículos 1-3 e 5a. 


33 D. J. Wiseman, “The Vassal Treaties of Esarhaddon”, Iraq, 20, 1958, pp. 1—99. Consultar as linhas 1-12 e 41—45. 


[11] j. a. Fitzmyer, The Aramaic Inscriptions of Sefiré (1967), face IA: 1-6, face B: 16־. 


[12] Gerhard von Rad, Deuteronomy (1966), pp. 105-107; Studies in Deute- ronomy (1953), pp. 15, 16. 


[13] Outros problemas relacionados a esta e outras passagens serão discutidos no comentário. 


[14] Em suas muitas obias Geihaid von Rad tem sido o líder neste campo, no- tadamente em Studies in Deuteronomy (1953); Deuteronomy (1966); IBD, I (1963), pp. 831-838. 


Cf. G. J. Wenham, “Formas Legais no Livro da Aliança”, TB, 22, 1971. pp. 95-102. 


[16] G. T. Manley, The Book ofthe Law (1957), pp. 77, 85. 

42 Ibid., pp. 79, 86. 

42 G. von Rad, Deuteronomy (1966), p. 13. 


[17] Ibid., p. 106. 


[18] G. T. Manley, op. cit., p. 102, em sua tabela H, que ele chama de “Leis de Clemência” argumenta que o ano de remissão é apenas uma de um grupo de leis “cuja absoluta irrelevância para a reforma de Josias é uma séria objeção à data pro­posta por Wellhausen” e pergunta, “O que é que caçar passarinhos tem a ver com a reforma?” A resposta é “Nada’’. Se, todavia, argumentarmos em favor de uma data para a edição final de Deuteronômio que seja posterior a Moisés, talvez durante o início da monarquia, embora não tão recente quanto o sétimo século, é possível que tais leis ainda fossem relevantes. 


4(5 j, j. Stamm e M. E. Andrew, The Ten Commandments in Recent Research (1967), pp. 13-18. 


^7 Por exemplo, a sanção básica para o ato litúrgico da comunhão cristã, a Santa Ceia, procede da ordem dada por Jesus a Seus discípulos no Cenáculo. A prá­tica exata, entretanto, tem variado de época para época e de grupo para grupo. Todos, entretanto, alegam a autoridade de Cristo para sua própria prática. 


[21] S. R. Driver, A Criticai and Exegetical Commentary on Deuteronomy (/ CC, 1902), pp. lxxvi-lxxviii. 


[22] Ibid., pp. lxxviii-lxxxiv. 

0י־ Moshe Weinfeld, Deuteronomy and the Deuteronomic School (1972), pp. 320-365. 

W. L. Moran, “The Ancient Near Eastern Background of the Love of God in Deuteronomy”, CBQ XXV.l, 1963, pp. 77-87.