28 de julho de 2017

VICTOR P. HAMILTON - Do Sinai a Cades

DO SINAI A CADES

Números 10.11—20.21

Os israelitas, desde sua chegada ao Sinai, já tinham ouvido muita coisa, tanto de Moisés como de Deus. Houvera abundância de instruções, regulamentos e exortações. Agora, porém, era chegada a hora de levantar o acampamento e partir. O Sinai não era o destino geográfico que Deus havia preparado para seu povo, assim como o Monte da Transfiguração não foi o objetivo final de Pedro, Tiago e João. Devia, contudo, servir para revigorar o povo de Deus ao lhe permitir um conhecimento mais profundo do Senhor.



Da Marcha à Lamúria (10.11—12.16)

Frank Cross1 faz notar a proliferação da frase “e os filhos de Israel partiram de...” em Êxodo e Números. Ele compara essa fra­se com “essas são as gerações de...”, que aparece por dez vezes em Gênesis. Sete dessas frases — “e eles partiram de...” — encontra- se em Êxodo: 12.37; 13.20; 14.2; 15.22; 16.1; 17.1; 19.2.

As outras cinco ocorrências estão em Números: 10.12; 20.1,22; 21.10; 22.1. A partida do Sinai, porém, foi algo singular. Os israelitas levariam consigo lembranças que jamais esqueceriam. O cenário descrito em 10.11-36 é dramático e vibrante: bandeiras tremulando, a presença de Deus claramente manifesta e todos com grandes expectativas de conquistas em mente. Até surpreen­de um pouco o fato de Moisés chamar seu sogro, Hobabe, para acompanhá-los ao deixarem o Sinai (vv. 29-32, com especial des­taque para o 31); pois, diz Moisés a seu sogro midianita, “tu sabes que nós nos alojamos no deserto; de olhos nos servirás”. Quem era então o guia de Israel: a presença divina na nuvem de fogo. Hobabe ou ambos? No caso de serem ambos, a passagem demons­tra a relevância atribuída pela Bíblia tanto ao esforço divino como ao esforço humano como sendo fundamentais na promoção da von­tade de Deus. Para um outro exemplo da mesma realidade, lem­bre-se de que Josué enviou espiões a Jerico, em Josué 2, logo após Deus ter garantido a vitória de Israel em Josué 1 (“Ninguém se susterá diante de ti”). Se, após uma primeira recusa, Hobabe acei­tou acompanhá-los (o que não é de forma alguma assegurado pelo texto), não há nenhuma passagem subseqüente que destaque al­guma contribuição sua. Nas passagens seguintes, vemos Jeová sendo honrado, mas não o sogro de Moisés.

O leitor é, então, pego de surpresa pelo choque brusco dos capí­tulos 11 e 12. Em vez de um clima de otimismo e bravura, vemos um grotesco espetáculo de discórdias, lamúrias, depressão e con­fusões, as quais recebem a devida reação do juízo de Deus.

O texto nos dá três cenas diferentes desse desastre. Primeiro, vemos uma reclamação geral acerca de “desgraças/dificuldades". A forma da palavra hebraica utilizada (o Hithpael) pode sugerir que não se trata de um evento isolado, mas de um padrão comportamental. O Senhor respondeu com um fogo consumidor que atingiu as extremidades do acampamento. Somente as ora­ções de intercessão de Moisés puseram fim ao castigo (11.1-3). Em seguida, insatisfeitos com um cardápio limitado a apenas um prato, o maná, o povo clamou a Deus por refeições variadas (11.4­34). Na terceira situação, Miriã contestou tanto a perspicácia de Moisés na escolha de uma esposa como a credibilidade de sua relação exclusiva com Deus (12).

O propósito imediato desses acontecimentos é contrastar o Deus que está presente em seu acampamento para abençoar (1—10) com o Deus que está presente em seu acampamento para julgar grupos ou indivíduos que tentem destruir a harmonia da comunidade (11— 12). Por esse motivo, um fogo feriu o povo (11.1), uma praga se alastrou (11.33) e uma acusadora tornou-se leprosa (12.10).

O papel de Moisés em cada um desses incidentes é bastante interessante. No primeiro, ele teve sucesso como intercessor. Não fez perguntas nem repreendeu ninguém. No segundo, porém, a ânsia do “populacho” por carne já era uma outra questão. Se, em 11.2 Moisés “orou”, em 11.10 ele ficou “aborrecido/descontente”. Moisés entendeu as reclamações do povo e as lembranças da co­mida do Egito como uma acusação contra ele. Sentiu-se confuso e já não desejava qualquer responsabilidade por aquela congrega­ção ingrata e insensível. Diante da perspectiva de continuar com o ministério como estava, até mesmo a morte era-lhe preferível (v. 15). Murmuração é contagioso. Moisés rebaixou-se ao nível de sua congregação, adotando sua forma de pensar.

A resposta de Deus para Moisés (vv. 16-23) trouxe tanto alívio como repreensão. O alívio veio no fato de Moisés já não precisar agir sozinho. Deus providenciou setenta anciãos para repartir com ele o fardo da liderança. E como se Moisés tivesse “Espírito” mais do que suficiente para compartilhar. Sua própria porção do Espí­rito não foi reduzida pelo ocorrido, assim como uma vela não per­de nada de sua chama ao acender outra vela2. Foi, todavia, tam­bém uma palavra de repreensão. Se Moisés queria parar, não havia problema, mas devia antes escolher setenta pessoas da congrega­ção. Deus então derramaria sobre eles do “Espírito” que pusera em Moisés. Ele não era indispensável, mas sim a presença do Espírito divino. Apenas os dons do Espírito de Deus podiam expli­car as habilidades de Moisés.

Tudo isso se sucedeu na tenda da congregação (w. 16b,24), mas o espírito não pode ser confinado a um cômodo. O Espírito tam­bém desceu sobre outros dois, Eldade e Medade, que se encontra­vam no acampamento (v. 26). Josué, ortodoxo, queria que aquilo parasse (v. 28). A rigidez é difícil de ser superada. Tal postura transparece nas palavras do discípulo João para Jesus: “Mestre, vimos um que em teu nome expulsava os demônios, e lho proibi­mos, porque não te segue conosco” (Lc 9.49). Moisés, contudo, não teve uma visão tão limitada quanto a de Josué. Moisés, ao dizer: “Quem dera todo o povo do Senhor fosse profeta e que o Senhor pusesse o seu Espírito sobre eles!” (Nm 11.29 — NVI), demonstra um espírito verdadeiramente universal. (Pouquíssimos comenta­ristas tratam a declaração de Moisés no versículo 29 como carre­gada de cinismo: “Quem dera todo o povo de Deus fosse profeta e passasse pelas mesmas aflições que suporto, pois então veríamos como se sentiria!”)

Deus satisfez a compulsão do povo por comidas mais saborosas, porém, ao contrário de Êxodo 16, houve um preço a ser pago. Enquanto ainda mastigavam seus deliciosos bocados, uma praga se abateu sobre o povo (v. 33). Como no comentário de Salmos 106.15: “Deu-lhes o que pediram, mas mandou sobre eles uma doença terrível” (NVI). Deus aceitou, todavia não os eximiu do erro. Apalavra hebraica para o “vento” que trouxe as codornizes (v. 31), as quais em pouco tempo trouxeram uma terrível praga, também designa o “Espírito” que repousou sobre os setenta anciãos, fazendo-os profetizar (v. 25): rüah. Números 11.4-34 mostra claramente o potencial de uma bênção levar ao êxtase, ou de uma catástrofe levar ao ex­termínio, quando o rüah divino entra em ação.

O terceiro incidente se encontra no capítulo 12. Se no 11 Moisés foi indiretamente provocado, o que temos aqui é um ataque dire­to. Em 11.1-3, Deus ouviu o povo se queixando (v. 1) (e falou sobre isso com Moisés?); em 11.4-34, Moisés ouviu as queixas do povo (v. 10) e disse isso a Deus. Tanto em 11.1-3 como em 11.4-34 era Deus que estava sendo atacado; em 12.1-16, Moisés estava sendo atacado. A escolha de uma esposa, por parte de Moisés, foi o pri­meiro alvo de insinuações. Ele havia se casado com uma mulher “cuxita” (12.1). A acusação parece partir mais de Miriã que de Arão, pois 12.1, no hebraico, diz literalmente: “E ela falou, Miriã e Arão contra Moisés”. O verbo encontra-se na terceira pessoa do singular, não do plural, no feminino (vemos a mesma construção em Juízes 5.1: “E cantou Débora e Baraque”.) Robinson3 chega a chamar Arão de “fantoche de Miriã”.

Esse pode ter sido o motivo de Miriã ficar leprosa, apesar de Arão também ser implicado quando Deus disse: “por que, pois. não tivestes temor de falar contra o meu servo, contra Moisés?" 12.8 Cross4 comenta que, se o termo “cuxita” significar tez ne­gra ou uma mulher etíope, como em geral vemos na Bíblia, a his­tória faz com que “a pele branqueada de Miriã seja um castigo em especial adequado por ela ter reprovado a esposa cuxita”.

Por outro lado, Números 12.1 pode estar apenas dizendo que a esposa de Moisés pertencia a uma tribo de Cusã, uma região que corresponde a Midiã, em Habacuque 3.7: “Vi as tendas de Cusã em aflição; as cortinas da terra de Midiã tremiam”. Isso concor­daria perfeitamente com Êxodo 2.21, em que Moisés desposa Zípora, a midianita, em vez de forçar a suposição de que o texto em Números 12 diz respeito a um segundo casamento de Moisés.

Moisés sabia tudo sobre alguém se tornar leproso por ter feito ou dito algo desagradável a Deus. Ele passara por isso ao tentar se esquivar, pela terceira vez, de ir obedientemente ao Egito (Ex 4.1-9, em especial os vv. 6,7).

De modo curioso, Arão pediu misericórdia somente a Moisés (w. 11,12), que voltou a interceder em oração (v. 13). Voltamos, então, ao Moisés de 11.1-3, cujas orações aliviavam as sentenças divinas, sem, porém, cancelá-las. Não há expressão alguma de protesto con­tra Miriã ou Arão. Ele adotou uma política de silêncio frente a seus acusadores. Aliás, como observa Ackerman5, Moisés e Arão pare­cem se dar muito bem ao longo do restante do livro de Números (13.26; 14,2,5,26; 15.33; 16.3,11,16-22,36-40,41-50; 17.1-11; 18.1-7; 19.1; 20.2,6,8,10). Por sua vez, Miriã só volta a aparecer uma vez em Números, após o capítulo 12, e apenas para morrer (20.1b).

Não levantaram dúvidas apenas em relação à singularíssima esposa, mas também em relação ao relacionamento especial que tinha com Deus: “Porventura, falou o Senhor somente por Moisés?” (12.2) Seria ele o único canal de revelação? Cabia a ele o monopólio das declarações divinas? Moisés era o vigário de Deus na terra, um tipo de figura papal? A resposta de Deus é simples: sim (vv. 6-8).

O capítulo 11 de Números mostra um aspecto de Moisés dife­rente do ressaltado no capítulo 12. No 11, o texto relata um mi­nistério que Moisés compartilhou com outras pessoas, visto que Deus derramou do mesmo Espírito de Moisés sobre setenta anciãos. Trata-se de um recurso divino cujo monopólio não per­tence a Moisés. O capítulo 12, por sua vez, enfoca a singularidade do seu ministério (vv. 6-8). E somente com Moisés que Deus fala face a face. Ele não é especial apenas em relação ao ministério, mas também em seu caráter: ele era muito “manso” (v. 3). Essa é a única vez em que esta palavra aparece no singular na Bíblia Hebraica. No restante da Bíblia, ela aparece no plural e se refere aos “aflitos” que clamam a Deus. A chave da bem-sucedida lide­rança de Moisés pode ser aplicada a todos os servos de Deus que exerceram lideranças: ele tanto possuía um ministério liberalmen­te partilhado com outras pessoas, como um ministério para o qual Deus o separou e capacitou de forma especial. Embora as Escritu­ras ensinem o sacerdócio de todos os crentes, não parecem ensi­nar que todos os crentes são profetas.

Como já disse Brevard Childs6, esses relatos e aqueles que o sucedem perpetuam o tema de 1.1—10.11: a necessidade absoluta de santidade no meio do povo de Deus. O caráter sagrado da comu­nidade é contestado quando sua estrutura é ferida por conflitos e implicâncias. Isso faz com que Deus passe da bênção para o juízo.

Com demasiada freqüência, vimos estudos críticos preocupa­dos em discernir duas histórias distintas tanto no capítulo 11 (as codornas e os anciãos) como no 12 (a esposa de Moisés e o relacio­namento dele com Deus). Hoje em dia, vemos tais histórias com­binadas de forma não muito ordenada. Veja, por exemplo, os estudos de George Coats, os quais são grandemente influenciados por Martin Noth, o pesquisador que dá especial destaque à história das tradições. Digno de aplausos é o profundo trabalho de David Jobling7, que vai além de uma abordagem genética das Escrituras, que investiga a pré-história do texto, e aborda sua forma final.

Em estudos assim, a semelhança temática entre os dois capí­tulos se torna evidente. Em cada narrativa vemos um plano prin­cipal: Deus está dando a Israel a Terra Prometida de Canaã. En­tão, vemos um plano contrário, instigado pelas pessoas que se opõem a marchar, pela multidão que protesta contra a comida, por Moisés ao não aceitar sua função, e por Miriã e Arão ao criti­carem Moisés. Por fim, há uma reação de Deus com o propósito de restaurar a união, e os instigadores são punidos. A vontade de Deus é que haja um povo, uma comida e um líder.

Devemos Subir ou não? (13.1—14.15)

Esses dois capítulos discutem o envio de espiões a partir de Cades ou Cades-Barnéia (na fronteira sul de Canaã [Nm 34.4]. cerca de 65 quilômetros ao sul da Berseba de Abraão) a Canaã. a fim de determinar a conveniência em atacá-la. Falam também sobre os relatos trazidos de volta e suas repercussões. Devemos notar que o plano original de Deus era: “E falou o Senhor a Moisés, dizendo: Envia homens que espiem a terra de Canaã”. Pode-se imaginar que Deus bem podia ter dado as informações sobre Canaã diretamente, poupando todo o tempo e o embaraço envolvidos nessa aventura. Mesmo assim, o povo teve de realizar todo o tra­balho de pesquisa e investigação.

Os críticos atuais concordam de maneira unânime que esses dois capítulos são um entrelaçamento de duas histórias. Tem-se o relato original, com sua origem rastreada até J e E. Subseqüentemente, a história foi reformulada e suplementada por uma outra narrativa — essa com origem em P.

O critério que leva à suposição da heterogeneidade do texto é a presença de repetições claras que se excluem mutuamente. Des­sa forma, os espiões examinam apenas a região sul do Neguebe e a área de Hebrom (13.22 [J/E]), ou percorrem toda a terra de Canaã “até Reobe, à entrada de Hamate”, indo até o norte de Canaã (13.21 [P])? Foi apenas Calebe que se opôs a uma posição pessimista (13.30 [J/E]), ou foi Calebe e Josué (14.6 [P])? Apenas Calebe ha­veria de entrar na Terra Prometida (14.24 [J/E]), ou Calebe e Josué (14.30 [J/E, ou uma reformulação de J/E?])?

A reconstituição dos críticos (com mínimas variações) é aproximadamente a seguinte8:



13.1-7a P

13.25-26 P

14.5-10 P


13.7b-20 J/E

13.27-31 J/E

14.11-25 J/E


13.21 P

14.1-3 P

14.26-38 P


13.22-24 J/E

14.4 J/E

14.39-45 J/E












É discutível, contudo, que as repetições sejam de fato contraditórias. Antes, porém, de examinarmos essa questão, vale a pena relembrar a advertência de C. S. Lewis sobre todo o campo da crítica bíblica. Em Chrislian Beflections(Reí\.exãe& Cristãs)9, Lewis comenta sobre os críticos que analisam seus livros. Ele diz que, em todas as tentativas de responderem a questões sobre o porquê de ele ter escrito algo, suas influências ou o propósito de suas palavras, ou seja, áreas não tratadas ou explicadas de modo dire­to pelo autor, eles invariavelmente erram. Ainda assim, para um leitor desinformado, essas críticas podem parecer tão convincen­tes que são aceitas como inteiramente verdadeiras.

Tratando de maneira específica da questão da “reconstituição”, que fala sobre como um antigo livro foi escrito, Lewis diz10:

A excelência em julgamento e empenho que se precisaria atribuir aos críticos da Bíblia teria de ser quase super-humana, considerando que, a todo momento, são confrontados com costumes, ex­pressões idiomáticas, características raciais e sociais, formações religiosas, estruturas literárias e premissas básicas que erudição alguma poderia capacitar qualquer homem vivo a conhecer com a mesma intimidade, segurança e instintividade que um crítico pode conhecer minha obra. E por essa mesma razão, lembre-se, os críti­cos da Bíblia jamais podem ser considerados como absolutamente errados. Marcos [o evangelista] está morto. Quando eles encon­trarem Pedro, haverá questões mais urgentes a serem discutidas.

No caso de Números 13—14, parece possível que um segundo relato tenha sido acrescentado ao mais antigo. As repetições, caso sejam de fato isso, poderiam denunciar tal estrutura. O passo seguinte seria isolar as duas histórias (como fizemos acima, seguin­do o consenso existente). Isso foi o mais longe a que os críticos tradicionais chegaram. Vertentes mais recentes têm tentado le­vantar hipóteses quanto às implicações desse processo editorial (ver, por exemplo, McEvenue11).

A lógica nos força a perguntar se Números 13—14 realmente possui contradições. Existiram outras explicações de igual modo viáveis? E pouco provável que os doze espiões viajassem juntos. Operações clandestinas requerem separação. Que significaria “Neguebe” para espiões hebreus que só haviam conhecido dois lugares na vida, ou seja, o Egito e parte da península do Sinai? Será que “Neguebe” não dizia respeito a Canaã, definindo o todo pela parte?

Termos a reação de Calebe no primeiro dia, e a de Josué e Calebe no segundo é compreensível. No capítulo 13, são os espias que se demonstram pessimistas, mas, no 14, aquele espírito de morbi­dez já se havia apossado de toda a congregação. A. MacRae12, acer­ca do capítulo 13, comenta: “A posição de Calebe seria certamente mais eficaz. Uma manifestaçã.o de Josué, por ter uma relação mais íntima com Moisés, não seria de modo tão fácil aceita como um testemunho independente”.

A salvação de Calebe é comparada à perdição dos espiões incrédulos (14.24). A salvação de Calebe e Josué é nitidamente contrastada à da “má congregação” (14.27,30).

Não devíamos, portanto, tentar extrair dessas “contradições” tudo o que é possível ou está implícito? De que, então, trataria a seguin­te passagem: “Nenhum de vocês entrará na terra que, com mão levantada, jurei dar-lhes para sua habitação, exceto Calebe, filho de Jefoné, e Josué, filho de Num” (14.30 — NVI)? Até que ponto devemos insistir em “nenhum de vocês [...] exceto Calebe, filho de Jefoné, e Josué, filho de Num”? Será que Moisés e Arão também foram condenados por esse incidente? Certamente que não.

O que se pode dizer sobre esses dois capítulos em sua forma final, quanto a serem homogêneos ou compostos? Em primeiro lugar, deveria ser óbvio que eles dão continuidade ao argumento das narrativas dos capítulos 11 e 12. Nestes, o pecado da incredu­lidade trouxe destruição sobre o acampamento de Deus: morte pelo fogo, por pragas e pela lepra. De forma semelhante, o resul­tado do pecado da incredulidade nesses dois capítulos é desastro­so: morte imediata (14.37), morte prematura, exclusão da Terra Prometida (14.22,23,29,30) e derrota no campo de batalha (14.45). Em seus embates contra os amalequitas, os israelitas estavam empatados: uma vitória antes do Sinai (Ex 17.8-14) e uma derro­ta após o Sinai.

Mais uma vez, os dois capítulos estão repletos de contrastes. O capítulo 13 se concentra na reação negativa dos espias, enquanto o 14 enfoca a reação negativa de toda a congregação. O relato dos espiões é derrotista e separatista, mas o de Calebe é positivo (13.25­33). O fruto da terra é enorme (vv. 23,24,27b), mas seus ocupan­tes são ainda maiores (vv. 28,31,33). O povo fala sobre voltar ao Egito (14.1-5) ou lutar para conquistar Canaã (vv. 6-9). Deus ame­aça destruir esse povo (vv. 11,12); Moisés lhe implora para não fazê-lo (vv. 13-19). O narrador diz: “todos os filhos de Israel mur­muraram contra Moisés e contra Arão” (v. 2); Deus pergunta: “Até quando sofrerei esta má congregação, que murmura contra mim?” (v. 27) Calebe e Josué entrarão em Canaã; mas não seus iguais (vv. 28-30). Os filhos dos espiões incrédulos entrarão em Canaã (v. 31), mas também deverão sofrer pela incredulidade de seus pais (v. 33). Os incrédulos quiseram apedrejar Moisés, Arão, Calebe e Josué (v. 10); Moisés buscou perdão e absolvição para seus anta­gonistas (v. 19). Deus impõe punição imediata (v. 37) e promete punição após algum tempo (vv. 29,32,34).

T. E. Fretheim13 destaca que o povo, ironicamente, conseguiu o que queria, de forma que Deus concedeu o resultado desejado ou, como Jeová diz em 14.28: “farei a vocês tudo o que pediram” (NVI). Eles dizem que querem morrer lá mesmo no deserto (v. 2) e conseguem o que desejam (v. 32). Josué tenta convencer o povo de que “o Senhor é conosco” (v. 9), mas eles descobrem que não é bem assim (v. 42). Quarenta dias de espionagem em Canaã (13.25) le­varam a quarenta anos de juízo (14.34). O povo não deseja ser levado por Deus a “essa terra” (v. 3) e seu desejo é concedido: “Ne­nhum de vocês entrará na terra” (v. 30 - NVI).

Nos estudos do Pentateuco que realizamos até aqui, já nos acostumamos àquelas situações que requerem a pena de morte por uma violação das normas de comportamento aceitáveis. Dentre elas, temos assassinato, idolatria, desvios sexuais e contato físico ilícito com o santuário. A aplicação da justiça é dirigida a indiví­duos que infringem normas da aliança.

Aqui, contudo, temos toda a congregação sendo acusada de incredulidade, e não apenas pessoas específicas em meio a um gru­po maior. Apenas uns poucos escapam incólumes, como Noé em uma geração mais antiga.



Assim como Noé teve certamente de suportar a opinião da maioria das pessoas em sua época, o mesmo aconteceu a Calebe e Josué. A fé desses líderes na integridade da promessa de Deus deu, a Noé, vitória sobre o sarcasmo, e, a Calebe e Josué, vitória contra a hostilidade. Os injuriosos e os incrédulos, por outro lado, são impedidos de entrar na arca e na Terra Prometida.