30 de julho de 2017

RALPH L. SMITH - A situação atual da teologia do Antigo Testamento

ralph smith danilo moraes
A situação atual da teologia do Antigo Testamento

A. O interesse continuado na teologia do Antigo Testamento até 1985 e o fluxo de literatura sobre o tema

A teologia bíblica pode estar em crise, mas isso não deteve o fluxo de teologias do Antigo Testamento, de artigos e estudos que tratam de aspectos importantes do tema. Várias teologias novas do Antigo Testamento surgiram desde 1970. Um estudioso católico, A. Deissler, escreveu Die Grundbotschafl des Alien Testaments em 1972. Deissler via o centro da fé veterotestamentária como o relacionamento de Deus com o mundo e com o ser humano.

Walther Zimmerli publicou seu livro Old Testament Theology in Outline em 1972. Ele considerou o Antigo Testamento um “livro de pronunciamentos”, em contraste com o conceito de von Rad do Antigo Testamento como um “livro de história”. Zimmerli fez do primeiro mandamento seu ponto de partida e centro do seu estudo. Disse ele: “A obediência a Javé, o único Deus, que libertou Israel da escravidão e zela por ser o único, define a natureza fundamental da fé veterotestamentária”.[1]

Georg Fohrer, editor de 2AW, publicou seu livro Theologische Grundstrukturen des Alien Testaments em 1972. O primeiro capítulo trata do problema da interpretação do Antigo Testamento. O capítulo 2 trata de revelação e o Antigo Testamento. Fohrer, como existencialista, via a revelação nas decisões de vida e morte do ouvinte. O capítulo 3 fala da diversidade de atitudes diante da vida no Antigo Testamento. O capítulo 4 estuda a questão de um centro ou ponto eqüidistante no Antigo Testamento, que Fohrer cria ser a soberania de Deus e a comunidade de Deus. O capítulo trata do poder transformador e do potencial da fé veterotestamentária. O capítulo 6 descreve certos elementos básicos no Antigo Testamento, como o fato de Deus se manter oculto, e seus atos na história e na natureza. O capítulo 7 faz uma aplicação, ao lidar com tópicos como a crise do ser humano, o estado e a política, pobreza e projetos sociais, o ser humano e a tecnologia, e o futuro na profecia e na literatura apocalíptica.[2]

Em 1974, John L. McKenzie, um destacado estudioso católico do Antigo Testamento, publicou A Theology of the Old Testament. Em seu prefácio, McKenzie disse que uma teologia do Antigo Testamento ou uma história de Israel oferece ao autor uma oportunidade de fazer um resumo de toda a sua obra.


Todavia, existe um obstáculo oculto: a teologia do Antigo Testamento não tem uma estrutura ou estilo aceito por todos. McKenzie disse que leu a maioria dos livros sobre o assunto, tendo colhido principalmente o fruto de aprender o que não fazer. Citou James Barr, dizendo que “a teologia bíblica atualmente está fora de moda”, e depois observou que estava decidido a mostrar que Barr é quem estava “fora de moda”.87 McKenzie criticou o método de von Rad como uma “teologia do desenvolvimento”.88 Ele definiu a teologia como “conversa de Deus” e disse que, se alguém reunir tudo o que Deus fala no Antigo Testamento, emergirá uma realidade pessoal bastante clara, que provavelmente não será totalmente coerente em si mesma, mas também não poderá ser identificada com nenhuma outra realidade pessoal. O livro de McKenzie é uma teologia do Antigo Testamento —e não uma exegese, uma história da religião de Israel, ou uma teologia da Bíblia. Seu interesse não está na “experiência religiosa”; está voltado para os documentos do Antigo Testamento. “Pode-se presumir que surja algo da totalidade, que não surge de um pronunciamento isolado.”89 Uma teologia do Antigo Testamento deve formular essa realidade na linguagem do debate acadêmico.

Depois da introdução, o livro de McKenzie tem sete capítulos: 1) culto; 2) revelação; 3) história; 4) natureza; 5) sabedoria; 6) instituições políticas e sociais; 7) o futuro de Israel, terminando com um epílogo.

Em 1978, Walter C. Kaiser, Jr., da Trinity Evangelical Divinity School, publicou seu livro Toward an Old Testament Theology (no Brasil, publicado pela Vida Nova como Teologia do Antigo Testamento). Kaiser defendia que a teologia do Antigo Testamento funciona melhor “como serva da teologia exegética do que em seu papel tradicional de fornecer dados para a teologia sistemática” (p. viii). O principal ponto de partida de Kaiser é a idéia de que os próprios escritores do Antigo Testamento “pronunciam suas mensagens contra o pano de fundo de uma teologia acumulada que eles, seus ouvintes e agora seus leitores têm de recordar se quiserem captar a profundidade exata da intenção original da mensagem” (p. viii). Kaiser parece afirmar que os escritores do Antigo Testamento escreveram com conhecimento de um conjunto de dados teológicos. Ele também parece pensar que podemos descobrir a “intenção” original desses escritorès. “Intenção” sempre é difícil de descobrir e de provar.

Depois de repassar a história da teologia do Antigo Testamento de 1933 até 1978, Kaiser asseverou que a disciplina está em estado de confusão —se não de crise— porque os estudiosos não têm conseguido “reafirmar e reaplicar” a autoridade da Bíblia. Para ele, a autoridade da Bíblia está intimamente relacionada [3] [4] ao tipo normativo de teologia.[5] Kaiser via a norma da teologia do Antigo Testamento no seu centro, que ele identificou com a promessa. A exemplo de Eichrodt, Kaiser acreditava que “a busca de um centro, um conceito unificador, estava no cerne da preocupação dos receptores da palavra divina”.[6]

O conceito de Kaiser de uma teologia do Antigo Testamento era que ela tem de ser “uma teologia em conformidade com toda a Bíblia, descrita e contida na Bíblia, e que conscientemente recebe acréscimos de época em época. O contexto imediatamente antecedente passa a ser a base para a teologia que seguia em cada época”.[7] Não é surpreendente, dadas as pressuposições de Kaiser, que seu método era acompanhar a “promessa” por todo o Antigo Testamento. Ao concentrar-se em promessa e bênção, porém, Kaiser ignorou quase totalmente tópicos como criação, culto e sabedoria.

Outro escritor conservador, William Dymess, deão da escola de teologia no Fuller Theological Seminary, disse que seu livro Themes in Old Testament Theology é resultado da sua experiência de ensino no Asian Theological Seminary em Manila. Ele sentiu a necessidade de um livro como esse em seus alunos asiáticos e não conseguiu encontrar uma pesquisa teológica recente do Antigo Testamento adequada para eles. Disse ele que seu livro é “mais um reconhecimento dessa lacuna do que uma tentativa de preenchê-la”.

Elmer A. Martens, presidente e professor de Antigo Testamento no Mennonite Brethren Biblical Seminary, escreveu God’s Design: a Focus on Old Testament Theology. Culto e conservador, Martens, estudioso do Antigo Testamento, foi co-editor de The Flowering of Old Testament Theology (1992). Martens afirmou que o tema que percorre todo o Antigo Testamento é o plano de Deus encontrado em Êxodo 5.22-6.8. “Plano” pode significar “centro”. Este plano tem quatro componentes: libertação, comunidade, conhecimento de Deus e vida abundante. Martens tentou fazer uma abordagem sintética (os quatro temas) e diacrônica dos três períodos da história do Antigo Testamento, que são: pré- monarquia, monarquia e período pós-exíüco. Ele também tentou estudar a teologia do Antigo Testamento de modo descritivo e normativo.

Ronald Clements é um dos estudiosos contemporâneos do Antigo Testamento mais criativos da Inglaterra. Seu interesse na teologia do Antigo Testamento está refletido em “The Problem of Old Testament Thelogy”.[8] Clements, escrevendo contra o pano de fundo da profusão de outras teologias do Antigo Testamento, argumenta que uma nova estratégia toma-se necessária —que na realidade é antiga. A nova estratégia de Clements é prestar mais atenção em como os cristãos e, em certa medida também os judeus, na verdade ouvem o Antigo Testamento lhes falar teologicamente.[9] Clements crê que a idéia do cânon é importante na teologia do Antigo Testamento. Ele determina os limites, a autoridade e a forma de um estudo assim.

Old Testament Theology é um livro pequeno, de 200 páginas, organizado em oito capítulos. O primeiro capítulo lida com os problemas da teologia do Antigo Testamento: que é e como fazê-la. O capítulo 2 estuda as dimensões da fé no Antigo Testamento: literária, histórica, de culto e intelectual. Os capítulos 3 e 4 formam o coração do estudo: o conceito que Israel tinha de Deus e de si mesmo como povo de Deus. Os capítulos 5 e 6 apresentam a idéia que Clements tem do cânon. O capítulo 5 trata do Antigo Testamento como Lei (Torá) e o 6 lida com profecia ou promessa. Ele não tem uma seção separada sobre salmos e sabedoria. Os últimos dois capítulos (7 e 8) tratam da relevância do Antigo Testamento e da teologia do Antigo Testamento para a religião e para a teologia contemporâneas.

Samuel Terrien, franco-americano, formado na Universidade de Paris (1933) e no Union Seminary em Nova York (1941), lecionou no Wooster College (1936-1940) e no Union Seminary (1941-1976). Terrien foi instruído nos clássicos, em arqueologia, nos estudos semíticos e na história das religiões. Seu interesse pelos semitas e por religiões comparadas ajudou-o a concentrar sua atenção na literatura de sabedoria do Antigo Testamento e no livro de Jó. Seu interesse em Jó levou-o a procurar a presença divina na ausência, busca que culminou em seu livro The Elusive Presence: Toward a New Biblical Theology.

Terrien acreditava que a realidade da presença de Deus está no centro da fé bíblica, mas que essa presença é sempre elusiva, de difícil percepção.[10] Apenas uma meia dúzia de ancestrais, profetas e poetas tinha realmente percebido a presença imediata de Deus. O grosso do povo experimentava a proximidade de Deus sendo representado ou intermediado no culto.[11] Contudo, o culto nem sempre trazia Deus para perto do povo. Freqüentemente ele produzia estagnação e corrupção.

Terrien chamou seu livro de “prolegômenos”, preâmbulo de uma verdadeira teologia bíblica que pode trabalhar as semelhanças e diferenças entre a idéia da presença de Deus na fé israelita e a dos seus vizinhos.[12] A idéia da presença de Deus pode proporcionar o elo que atravessa os séculos entre os patriarcas e Jesus e uma base para o diálogo entre judeus e cristãos. Ela pode incorporar todos os tipos de literatura veterotestamentária (sabedoria e salmos) na teologia do Antigo Testamento.

Depois de rejeitar a idéia da aliança de Eichrodt e o método da história da salvação de von Rad para organizar a teologia bíblica, Terrien perguntou: “Será que a teologia hebraica da presença proporciona uma abordagem legítima de uma teologia autêntica de toda a Bíblia?” Ele sugeriu que “esse pode muito bem ser o caso”.9* Esse livro deve ser considerado o prefácio de uma descrição das características específicas da fé bíblica. Ele frisa demais a dificuldade de percepção da presença de Deus em detrimento da realidade da sua presença. O método demora-se demais no estudo dos diferentes tipos de literatura e não é “sistemático” ou “teológico”. E dirigido demais à sociedade secular e não o suficiente à igreja, dando preferência a Deus como criador em vez de Deus como redentor. Um rápido exame no índice de assuntos do livro de Terrien mostra quão pouco se fala sobre pecado ou culpa.[13] [14]

Um dos escritores mais prolíficos no campo dos estudos do Antigo Testamento foi Claus Westermann. Ele se aposentou como professor de Antigo Testamento em Heidelberg em 1978. Escreveu comentários sobre Gênesis e Isaías 40-66, estudos abrangentes sobre os salmos e os profetas, e dois livros sobre a teologia do Antigo Testamento: What does the Old Testament Say About God? e Elements of Old Testament Theology. Este ultimo é uma tradução de Theologie des Altes Testaments in Grundzügen (publicado no Brasil como Teologia do Antigo Testamento pela Paulinas).[15] Esses dois livros são muito semelhantes e têm essencialmente o mesmo esboço. O livro de 1979 está baseado em uma série de palestras feitas no Union Theological Seminaiy em Richmond, na Virginia, em 1977.

Westermann insistia que a tarefa da teologia do Antigo Testamento é resumir e ver em conjunto o que o Antigo Testamento como um todo diz sobre Deus.[16] O Antigo Testamento não tem um centro teológico, como o Novo Testamento. Temos de apresentar a teologia do Antigo Testamento da maneira como o Antigo Testamento o faz: em forma de narrativa ou história, baseado em eventos em vez de conceitos.

Westermann usou a divisão tríplice do cânon hebraico (Torá, Profetas e Escritos) como guia para a teologia das várias partes do Antigo Testamento. A Torá contém história ou os atos salvíficos de Deus; os Profetas representam a Palavra de Deus; e os Escritos (Sabedoria e Salmos) representam a resposta humana. Todos esses três elementos são necessários para uma teologia do Antigo Testamento. O capítulo 1 trata principalmente de definição e metodologia. Os capítulos 2 e 3 falam de Deus como o Deus que salva e abençoa. O capítulo 4 (os Profetas) apresenta a palavra de Deus proferida em condenação e compaixão. O capítulo 5 é a resposta humana aos atos e à palavra salvadora de Deus. As pessoas respondem em louvor e lamento, bem como em ações, aos mandamentos e leis na vida diária e na adoração.

Sem dúvida a idéia da tradição ou tradições ocupa hoje um lugar central nos estudos do Antigo Testamento, especialmente na área da teologia do Antigo Testamento. Em 1977, uma coletânea de artigos, Tradition and Theology in the Old Testament, foi publicada pela Fortress Press. O editor foi Douglas A. Knight, da Vanderbilt University. Na introdução, Knight fàlou dos efeitos positivos e negativos que as tradições têm sobre todos nós. O termo tradição pode ser aplicado tanto à literatura oral e escrita como a costumes, hábitos, crenças, padrões morais, atitudes culturais e normas. Knight definiu a tradição como qualquer coisa na herança do passado que é transferido ao presente e pode contribuir para a formação de um novo etos.[17]

Tradição pode referir-se ao processo de transmissão assim como ao conteúdo do material passado para frente. Walter Harrelson, no mesmo volume, referiu-se a uma definição estreita de tradição, que fala de passar adiante o que alguém (ou um grupo) recebeu, da maneira que o recebeu.[18] As tradições podem mudar ou aumentar no curso das transmissões, mas o processo de transmissão tem de manter intacto o que foi recebido. Os elementos essenciais das tradições têm de estar ali, reconhecíveis. Algumas tradições passadas adiante não tinham muito peso, no sentido de que não eram decisivas para a autocompreensão do grupo. Outras tradições foram passadas adiante porque tinham peso genuíno. O grupo reconheceu nelas algo de importância decisiva para a manutenção da sua vida e fé.[19] Harrelson discerniu uma tradição central composta de quatro partes que funcionavam oralmente e respondiam pelas origens de Israel: 1) Javé era o Deus de Israel (isso começa num mistério); 2) ele os acompanhou em seus movimentos; 3) ele estava particularmente preocupado com os oprimidos e maltratados entre eles; e 4) ele os estava levando para um futuro do qual os aspectos ainda não se haviam definido. Harrelson argumentou que essas tradições centrais pertencem aos primórdios da comunidade e têm o caráter de revelação fundamental ou descoberta.

O último artigo em Tradition and Theology é “Tradition and Biblical Theology”, escrito por Hartmut Gese. Como professor de Antigo Testamento em Tübingen, Gese seguiu a maneira de von Rad estudar a história das tradições de Israel. Ele estava convicto de que o Antigo Testamento e o Novo não devem ser separados, como os cristãos já fizeram no passado. Ele diz que há apenas um cânon. O mesmo processo de formação do cânon do Antigo Testamento continuou no período do Novo Testamento e dos apóstolos.[20] [21] [22] Gese argumentou que existe uma unidade entre o Antigo e o Novo Testamento. A morte e ressurreição de Jesus indicam o objetivo, o fim, o telos do percurso da tradição bíblica. Por isso, com a morte e ressurreição de Jesus, o cânon se encerra onde não se encerrara antes.

Gese continuou seu trabalho na teologia bíblica fazendo uso do método da história da tradição. Em uma coletânea de Essays on Biblical Theology,'01 Gese explica seu método de fazer teologia bíblica e trata de seis temas bíblicos histórica e teologicamente. Os seis temas são: morte, a lei, expiação, ceia do Senhor, o Messias e o prólogo ao evangelho de João. Gese entendeu que todos esses temas começam no Antigo Testamento e continuam no Novo. A origem da Ceia do Senhor, por exemplo, encontra-se nos salmos de ações de graça do Antigo Testamento.10*

John Goldingay avaliou o novo método da história das tradições em seu livro Approaches to Old Testament Interpretation. Ele reconheceu que o cânon bíblico é resultado de um processo longo.[23] [24] [25] [26] Sobre a história da tradição, Goldingay disse: “O método histórico-tradicionário é sugestivo, apesar de ser exclusivista demais. O Novo Testamento é uma atualização seletiva do Antigo, e não o objetivo inevitável para o qual todo o Antigo Testamento manifestamente se dirige”."0

A maioria dos teólogos do Antigo Testamento fez da “história da salvação” a ênfase principal da teologia do Antigo Testamento, mas ultimamente há um enfoque cada vez maior na sabedoria como um tema importante.1" Em 1962, von Rad disse que Israel não conhecia nem o nosso conceito da natureza nem o conceito grego do cosmos. “Para eles, o mundo não era um organismo estável e ordenado harmonicamente.”"2

Η. H. Schmid adotou uma perspectiva totalmente diversa em relação à categoria básica de pensamento no Antigo Testamento. Schmid argumentou que em Israel, como em todo o antigo Oriente Próximo, a ordem do mundo é a categoria de pensamento básica. Ele afirmou que a palavra hebraica sedeq equivale à palavra egípcia maat e ao sumério me. A ordem do mundo abrange lei, sabedoria, natureza, guerra, culto e história. Segundo Schmid, termos hebraicos como ’emet, shalom e chesed fazem parte do mesmo campo semântico. Essa terminologia está profundamente arraigada no pensamento de sabedoria; por isso, “a sabedoria não é algo secundário, mas um elemento central na Bíblia”.[27]

Em 1983, Simon J. de Vries publicou The Achievements of Biblical Religion. Esse livro procura a compreensão bíblica de um ponto de vista rigorosamente histórico e exegético, destacando temas específicos que distinguem Israel dos seus vizinhos. De Vries afirmou que esses elementos distintivos respondem pelo fato de o Antigo Testamento ter sobrevivido e ser relevante até hoje.[28] Os temas específicos que diferenciavam Israel são: 1) a transcendência de Deus; 2) a imagem divina espelhada na pessoalidade humana; 3) a vida de integridade realizada na comunidade da aliança; 4) a história como diálogo responsável com Deus; e 5) sentido e propósito na existência finita. Esses cinco temas dão título aos cinco capítulos do seu livro.

De Vries concluiu que existe unidade na Bíblia e que “de Gênesis a Apocalipse dá-se testemunho do mesmo Deus, avançando de época em época, levando suas obras à perfeição cada vez maior”.[29] De Vries cria que a razão por que judaísmo e cristianismo sobreviveram, cresceram e se espalharam pelo mundo em face de oposição e perseguição foi que “tinham algo precioso em que se apegar, algo que lhes tomava a vida diferente da vida dos vizinhos pagãos, algo pelo que valia a pena morrer, que transcendia a morte”.[30]

Em 1983, Martin H. Woudstra escreveu um artigo sobre “The Old Testament in Biblical Theology and Dogmatics”, em que tratou do interesse atual no Antigo Testamento e seu lugar na dogmática. Antes de analisar o lugar do Antigo Testamento na dogmática, ele traçou a história do movimento de teologia bíblica da obra de Gabler até o presente. Woudstra acreditava que a obra de Gabler foi muito mais influente do que um simples chamado para a separação entre dogmática e teologia bíblica. Gabler foi uma personagem fundamental no desenvolvimento do estudo da Bíblia na Alemanha. Woudstra cria que Gabler foi influenciado principalmente por quatro pessoas: Eichhom, Semler, Lessing e Herder. A influência desses quatro homens foi mais negativa que positiva no que tange à perspectiva cristã da Bíblia e da teologia.

Woudstra observou que Gabler foi o primeiro a considerar a idéia de “mito” um termo adequado para compreender a natureza da narrativa bíblica. Gabler minou a autoridade dos credos da igreja e disse que o estudo erudito da Bíblia é um “esforço esotérico”"7.

Woudstra destacou Abraham Kuyper, Charles Hodge e B. B. Warfield como modelos de teólogos dogmáticos e pareceu aprovar a maneira como eles usavam o Antigo Testamento, em oposição ao trabalho de estudiosos modernos como K. H. Miskotte, A. A. van Ruler, K. Barth e H. Berkhof. Woudstra dizia que esses últimos estudiosos faziam muito caso do aspecto “judaico” do Antigo Testamento, o que põe em xeque a unidade e a continuidade dos Testamentos."* Woudstra acreditava que o método bartiano toma difusa a linha divisória entre judaísmo e igreja. Ele objetou ao uso do termo cisma por Miskotte e William Temple para referir-se à divisão entre judeus e cristãos, porque o termo sugere uma separação entre pessoas da mesma fé. Woudstra disse: “Isso não faz justiça a toda a profundidade da perspectiva bíblica”."9 O denominador comum, para Woudstra, é o uso que o Novo Testamento faz do Antigo:

Este escritor acredita que a identidade messiânica de Jesus e, em consequência, a natureza e missão do seu ministério terreno, do nascimento à ascensão, dependem totalmente da aceitação em fé, também do ponto de vista exegético, das opiniões do Novo Testamento quanto ao significado do Antigo.[31] [32] [33] [34]

O ideal de que precisamos, segundo Woudstra, é uma versão melhorada de Miskotte, van Ruler, Berkhof e Ernst Block:

Esta é uma grande tarefa, e as pessoas disponíveis para executá-la de uma perspectiva bíblica coerente são raras e às vezes sobrecarregadas. [...] Enquanto isso, os próprios estudiosos do Antigo Testamento deveríam tentar “digerir” e expor 0 material bíblico de tal modo que 0 sistematizador possa usá-lo sem precisar fazer uma reorientação total.[35]

Um livro recente sobre a história da teologia do Antigo Testamento, Old Testament Theology: its History and Development, de Hayes e Prussner, assume essa posição “judaica” de que Woudstra falou. Trata-se da expansão, revisão e atualização por Hayes da tese de doutorado de Prussner na Universidade de Chicago em 1952. O livro se compõe de cinco capítulos: 1) os primeiros desenvolvimentos da teologia do Antigo Testamento; 2) a teologia do Antigo Testamento no século XVIII; 3) a teologia do Antigo Testamento no século XIX; 4) o renascimento da teologia do Antigo Testamento; e 5) desenvolvimentos recentes da teologia do Antigo Testamento.

Excelentes bibliografias atualizadas iniciam cada divisão principal. No livro há ao todo 21 bibliografias atuais amplas, e mais ou menos 50 obras importantes sobre teologia do Antigo Testamento são resenhadas e avaliadas.

Todavia, um “propósito oculto” parece estar por trás de boa parte do livro de Hayes e Prussner. Podemos começar com a dedicatória: “A Sidney Isenberg, que sabe todas as razões por quê.” Diferente da maioria das obras sobre teologia do Antigo Testamento, que terminam com alguma referência à sua continuação ou “cumprimento” no Novo Testamento e na fé cristã, Hayes e Prussner terminam seu livro com uma apologia abrupta do judaísmo como continuação e interpretação legítima das Escrituras hebraicas. Depois o leitor é informado de que, “em todo esse volume”, os autores perceberam a baixa estima que os teólogos bíblicos têm pelo judaísmo pós-exílico e posterior.[36] Hayes falou do menosprezo pelo judaísmo e disse que é lamentável que a atitude negativa em relação ao judaísmo tenha sido continuada por Eichrodt e von Rad.

Na verdade, a obra de Hayes e Prussner reflete a tendência de alguns estudiosos contemporâneos do Antigo Testamento, que tentam corrigir a injustiça que sentem estar sendo feita aos judeus pelos estudiosos do Antigo Testamento cristãos. James Barr fez a sétima palestra de Montefiore sobre Judaism: its Continuity with the Bible, na Universidade de Southampton em 1968. Barr disse que Claude Montefiore se ressentia, com o que Barr concordava, de que os cristãos, em especial os instruídos e eruditos, costumavam olhar de cima para baixo para o judaísmo, como uma religião à qual faltava espiritualidade e moralidade genuína. Eles dizem que é um conjunto de práticas que são seguidas sem convicção interna. Essas opiniões supostamente estavam de acordo com a crítica básica e original do judaísmo, exemplificada nos ensinos do próprio Jesus e apoiada e incentivada pela descrição do judaísmo feita nos evangelhos e nas cartas de Paulo.[37]

Para contrabalançar essa imagem negativa do judaísmo, Montefiore se dispôs a apresentar o material rabínico da época de Jesus de uma maneira que mostrasse sua espiritualidade, nobreza moral e valores fundamentais. Montefiore enfatizou os ensinos positivos do judaísmo e do cristianismo sem fazer juízo de valor da pessoa, da função e das ações miraculosas de Jesus.[38]

Todavia, depois da Segunda Guerra Mundial e do ataque nazista ao Antigo Testamento, a tentativa de exterminar os judeus provocou uma atmosfera pró- semita na teologia acadêmica. O Antigo Testamento passou a ser altamente valorizado, e muitos estudiosos e teólogos faziam coro às palavras de Jesus: “A salvação vem dos judeus” (Jo 4.22). A ênfase não era expressa em termos de espiritualidade e moralidade, mas de continuidade e diferença.

Os cristãos têm um grande apreço por sua herança judaica, mas sua ênfase nos atos redentores de Deus encontrados no Antigo Testamento levou de modo natural e bíblico, segundo o Novo Testamento, a Cristo. Como muitos judeus rejeitam as afirmações dos cristãos a respeito de Jesus, Barr pensou que na estrutura do cristianismo estava embutida uma tendência de desprezar o judaísmo.[39] Parece que Hayes e Prussner tinham a forte impressão de que o judaísmo fora prejudicado pelos teólogos bíblicos, e se esforçaram para corrigir a situação.






M Old Testament Theology in Outline, 116. 


[2] Veja a resenha de G. H. Wright em interpretation 28 (1974), 460-462; e G. F. Basel, Old Testament Theology: Basic Issues, 63*66 (no Brasil, Teologia do AT, pela JUERP). 


87 McKenzie, A Theology of the Old Testament, 10. ״Ibid, 20. 


[4]9Ibid.21 ״. 


[5] Toward an Old Testament Theology, 6. 


[6] Ibid, 6-7. 


[7] Ibid., 9. 


[8] Veja The London Quarterly and Holborn Review 190 (1965), 11-17; God's Chosen People; One Hundred Years of Old Testament Interpretation, cap. 7; Old Testament Theology: a Fresh Approach׳, e "Old Testament Theology", deN. Porteous, cm The Westminster Dictionary of Christian Theology (1983), 398-403,406-413. 


[9] Old Testament Theology, 4. 


[10] The Elusive Presence, xxvii. 


[11]Ibid.. 1-2. 


[12] Ibid, 27. 


9*Ibid., 473. 


[14]Ibid., 510. 


[15] Gottingen, 1978. 


[16] Elements of Old Testament Theology, 9. 


[17] Tradition and Theology, 2. 


[18] Ibid., 15. 


[19] Veja um exemplo interessante de percurso da tradição em Trent C. Butler, Joshua, xxii-xxiii. “Havia Tradição e Tradições’ (Knight, Tradition and Theology, 17). 


[20] Ibid., 322. 


[21] Editada e traduzida para o inglês em 1981. 


[22] Veja Hartmut Gese, Zur Biblischen Theologie: Altlestamenlliche Vortrüge (Chr. Kaiser Verlag, Munique), 1977, editado e traduzido para o inglês em 1981. 


[23] Approaches to Old Testament interpretation, 122. 


[24] Ibid., 131. 


[25] Cf. WaltherZimmerli, "The Place and Limit of Wisdom in the Framework of Old Testament Theology", 165181־. 


[26] Old Testament Theology 1,426 (no Brasil, Teologia do Amigo Testamento, 2 vols., pela ASTE). 


[27] "Creation, Righteousness, and Salvation", em Creation in the Old Testament, 102-117; cf. H. Graf Reventlow, "Basic Problems in Old Testament Theology", 10; Roland E. Murphy, "Wisdom —Theses and Hypotheses", em Israelite Wisdom, editado por John Gammie e outros, 37. 


[28] The achievements of Biblical Religion, vii. 


[29] Ibid., 28. 


[30] Ibid., 29. 


[31] "The Old Testament in Biblical Theology", 49. 


utlbid53 ״. 


[33] Ibid., 57, nota 39. 


[34] Ibid., 58. 


[35] Ibid., 60-61. 


[36] Old Testament Theology, 276. 


122 Barr, Judaism: its Continuity with the Bible, 5. 


[38] Ibid., 6. 


[39] Judaism: its continuity with the Bible, 9.