29 de julho de 2017

R. K. Harrison - Leis Rituais (parte 2)

Regulamentos adicionais (19:1-37) 

As palavras finais do capítulo anterior: Eu sou o SENHOR vosso Deus, servem como uma transição natural para este corpo específico de legislação, que também regula a santidade da vida comunitária. Embora esta seção trate de uma ampla variedade de preceitos morais, legais, ceri­moniais e espirituais, de tal maneira que pareça desorganizada, realmen­te está disposta em termos de dezesseis parágrafos distintos, cada um dos quais termina com a frase Eu sou o SENHOR (vosso Deus). Estas passagens estão dispostas em três seções principais (2b-10; 11-18; 19­37) de quatro, quatro e oito unidades respectivamente. Os estudiosos judeus têm visto na matéria um paralelo dos Dez Mandamentos, cujos preceitos são recapitulados da seguinte maneira; I e II no v. 4; III no v. . 12; IV e V no v. 3; VI no v. 16; VII no v. 29; VIII e IX nos w. 11 a 16; e X no v. 18.80 

l-2a. Uma seção introdutória reitera a exigência de Deus no sen­tido de que Seu povo seja santo. Esta injunção, como todas as demais leis da aliança, deve ser tornada pública e observada por todos. A ênfa­se dada à congregação indica que todos os membros devem fazer sua parte para manter o gênio distinto da aliança, e ninguém está isentado da responsabilidade de garantir que a santidade seja um princípio regu­lador da vida diária. 

20-10. Obrigações religiosas 



2b. A santidade de Deus deve ser considerada um modelo para a vida individual e comunitária. Este princípio pode muito bem ser con­siderado a divisa do povo da aliança. As características pessoais da san­tidade conforme são refletidas na natureza de Deus incluem o estado aperfeiçoado de atributos éticos tais como a justiça, o amor, a bondade [1] [2] e a pureza. A santidade, porém, também descreve Seu infinito poder, grandeza e exaltação sublime acima da Sua criação, que faz com que o homem pareça, por contraste, perdido e totalmente indigno. Como consequência, os que reverenciam a Deus como sendo Santo, conside­ram-No com medo e reverente temor (cf. SI 96:9; Is 8:13) por causa dos Seus juízos contra a humanidade (cf. SI 119:9; Ez 36:21-24; Hb 10:31 ; 12:26-29). A santidade de Deus é a antítese da imperfeição hu­mana e revolta-se contra tudo quanto é impuro ou maligno (Hc 1:13). Ao conclamar o cristão a ser perfeito (Mt 5:48), Jesus estava fazendo as mesmas exigências quanto à santidade da vida como aquelas que' se acham na Torá. A santidade é um dos resultados da obediência irrestri­ta à vontade de Deus. Deve ser notado que a obediência é ressaltada re­petidas vezes em Levítico, e não o amor que o homem tem para com Deus, que não é mencionado no livro, embora seja notado noutros lugares (Êx 20:6; Dt6:5; 10:12, etc.). 

3. A reverência para com os pais é um ato de piedade para com Deus, visto que os pais são substitutos do Pai celestial no que diz respei­to aos seus filhos. Em Êxodo 20:12 o pai antecede a mãe, e o verbo é “honrar” ao invés do Hebraico “temer” (respeitará) neste versículo, no entanto, termo este que é usado para a reverência para com Deus. O sig­nificado com respeito ao dever filial, porém, fica claro. Os pais, seja qual for sua posição na sociedade ou sua condição física ou mental, devem ser tratados com respeito e amor. Este é um dos mais importantes de todos os deveres e responsabilidades humanos. Honrar o sábado, que foi substituído pelo primeiro dia da semana (cf. Mt 28:1; Mc 16:1; Lc 24: 1; Jo 20:1) no ensino cristão, fornece uma oportunidade regular para o crente adorar a Deus na companhia doutras pessoas, e para contemplar até que ponto sua vida está de acordo com as exigências da santidade divina. Reverenciar os pais como sub-rogados de Deus está a um só passo da veneração do próprio Deus. 

4. Ser dado a qualquer forma de idolatria é expressamente proi­bido, sendo que os ídolos (Heb. ‘eUlím) são literalmente “coisas de nada,” “não-existência^” (cf. Is 44:10). A palavra para “ídolos” é semelhante, quanto ao som, àquela para “Deus” ( ’elõhtm), e as duas são contrasta­das para demonstrar a plenitude de Deus em contraste com o vazio de ído­los de pedra ou de madeira. No fim, os israelitas sucumbiram diante dos encantos da idolatria cananéia, e por causa disto foram castigados com o exílio. 

5-10. A propriedade ritual mais uma vez é enfatizada aqui, pois embora o sacrifício seja voluntário, deve ser oferecido em completa con­formidade com os procedimentos preceituados, a fim de que as inova­ções não resultem em castigo ao invés de aceitação. As regras são dadas em Levítico 3:1; 7:15-18, e fornecem um método distintivo de sacrifi­car ofertas pacíficas, sem qualquer mácula do paganismo. Os cristãos devem ser escrupulosos ao certificar-se que suas formas de adoração são totalmente bíblicas, e que não são contaminadas pela superstição ou por valores puramente humanos. Senão, aquilo que é santo ao Se­nhor será profanado, e seguir-se-á o castigo ao invés da bênção (8). A so­licitude do próprio Deus para com os pobres entre Seu povo deve ser refletida pelos israelitas na prática de deixar para aqueles uma pequena quantidade de grãos e frutos na ocasião da ceifa. A consciência de co­munidade entre os israelitas era tal que o pobre era considerado um ir­mão ou uma irmã, e era tratado à altura (cf. Atos 4:34-35). 

O próprio fato de que estavam sendo considerados por Deus como sendo membros de uma nação santa envolveu os israelitas num senso de responsabilidade para com seu próximo, especialmente para com o ca­rente de privilégios. O senso de fraternidade é expressado enfaticamente neste capítulo, bem como na legislação correspondente em Deuteronômio. Destarte, era proibido a um israelita fazer um empréstimo com ju­ros a outro membro do povo santo(Dt 23:20), visto que um empréstimo normalmente seria necessário somente numa emergência de tal tipo que tornaria o pagamento de juros uma questão difícil e embaraçosa. As mós não deviam ser tomadas em penhor, visto que tal coisa era o equi­valente a tirar o modo de sustento da pessoa (Dt 24:6). Na realidade, o tomar de penhores era regido por regras severas (Dt 24:10-13; cf. Ex 22:26-27). A exploração das pessoas necessitadas era proibida (Dt 24: 14-22) porque violava o princípio da fraternidade que, numa nação san­ta, significava que todas as pessoas eram iguais diante de Deus, seja qual for sua posição social. Destarte, membros do corpo único devem ser tratados de uma maneira justa e humanitária. 



11-18. O amor ao próximo 



11-12. As regras para os bons relacionamentos sociais são decla­radas especificamente aqui. O furto, os tratos desonestos, e a mentira de­liberada (11) são proibidos porque são estranhos à ética da aliança. Criam [3] a suspeita, a desconfiança e o ódio, e pela sua própria natureza enfraque­cem seriamente a estrutura da sociedade. Os filhos da nova aliança são conclamados a evitar tais males também (cf. Ef 4:28; Cl 3:9, etc.). Ju­rar falsamente pelo nome de Deus talvez não faça parte do processo de defraudar ou de mentir, mas de qualquer maneira profana o nome santo de Deus ao associá-lo com algum ato impuro, imoral, enganoso ou injusto. 

13-14. Ninguém deve explorar seu próximo israelita de qualquer modo, porque são irmãos e irmãs. O próximo (13) fica sendo o jornalei­ro em Deuteronômio 24:14, mas o princípio é o mesmo. Sua paga deve lhe ser dada à taxa certa, sem qualquer parte ser retida (“nem o rouba­rás”). Quando os trabalhadores são contratados por dia, precisam ter seu pagamento antes do anoitecer (cf. Mt 20:8), visto que os pobres teriam necessidade do salário do dia. No Novo Testamento os senhores são exor­tados a tratarem com justiça seus servos (Ef 6:9; Cl 4:1). Ao passo que pessoas com desvantagens no Oriente Próximo antigo tenderiam a ser ex­ploradas e abusadas, entre os israelitas deviam ser tratadas com conside­ração, visto que levavam em si a imagem do Deus a quem Israel era orde­nado a reverenciar. Amaldiçoar ao surdo era realmente tirar vantagem in­justa de pessoas que não poderiam defender-se. Visto que tanto Levítico (19:14) quanto Deuteronômio (27:18) proibiam os israelitas de colocarem obstáculos de vários tipos diante dos cegos, ou de guiá-los em di­reções em que não queriam seguir, pareceria que este tipo de atividade não era desconhecido noutras nações. O fato de que havia legislação pa­ra os surdos e os cegos como sendo classes da sociedade indica que estas doenças estavam em evidência na era mosaica. A restauração da vista e da audição fazia parte das maravilhosas atestações do ministério sobrena­tural de Cristo (cf. Lc 4:18). 

14-16. A justiça não devia ser pervertida por considerações das circunstâncias sociais ou econômicas. O juiz ou ancião no portão deve ser imparcial nas suas decisões, que devem ser baseadas somente na jus­tiça. As pessoas que espalham tagarelice maliciosa estão sujeitas à conde­nação desta legislação, assim como aquelas que ficam de lado, inativas ou indiferentes, não querendo ser envolvidas quando a vida (16, Heb. “san­gue”) de um próximo corre perigo. Estas disposições humanitárias sin­gelas não eram, de modo algum, sempre observadas na sociedade do Ori­ente Próximo, e nem sequer entre os israelitas. 

17-18. A responsabilidade para com o próximo envolve uma ati­tude positiva de coração e mente. O ódio é ufna resposta emotiva que somente deve ser empregada contra o mal (Am 5:15), e nunca contra alguém que também é um membro (“irmão") da comunidade da aliança. 

Quando se considera necessária a repreensão, a questão deve ser discuti­da abertamente com o transgressor, e não por detrás das suas costas, a fim de que a ira não levasse ao ressentimento e ao ódio, résultando, as­sim, no pecado. Paulo encorajou Timóteo a repreender os membros da igreja que estavam em erro, com amor e paciência (1 Tm 4:12). Tomar vingança da maneira de uma inimizade tradicional de sangue meramente perpetua uma injustiça, e às vezes a aumenta além de todas as proporções. A vingança como tal pertence somente a Deus (Dt 32:35; Rm 12:19; Hb 10:30), que pagará no tempo certo. O curso para o cristão seguir em tais casos foi exemplificado por Jesus Cristo (1 Pe 2:23). A lei do amor para como o próximo é enunciada somente aqui e no v. 34, e, se­gundo parece, abrange membros da comunidade da aliança (“os filhos do teu povo”) juntamente com os forasteiros e estrangeiros que viviam entre eles. Na realidade, os termos “amar” e “próximo” parecem ter si­do tão compreensivos no seu escopo naquele tempo quanto o são agora. Esta assim-chamada “regra de ouro” foi citada por Cristo (Mt 19:19; 22:39; Mc 12:31; Lc 10:27, etc.) como ideal de comportamento altruístico na sociedade. O sentimento que subjaz este aforismo era sem igual no mundo antigo, e representa um dos preceitos morais mais destacados do Antigo Testamento. 

19-37. Regulamentos miscelâneos 



19-25. A santidade e a pureza da congregação deviam ser ressal­tadas ao observar o princípio da qualidade separada, incorporado nos estatutos divinos. O cruzamento de tipos diferentes de gado para enrique­cer a linhagem de sangue e produzir espécies híbridas era proibido, embo­ra o cruzamento seletivo fosse conhecido e praticado entre os hebreus des­de a Era do Bronze Média (Gn 30:37-40). Talvez a razão para semelhan­te proibição fosse a preocupação de que talvez os israelitas imitassem se­melhantes ligações sexuais anormais, e, finalmente, se entregassem aos ritos orgiásticos da religião cananita. Tipos diferentes de sementes não podiam ser semeados no mesmo pedaço de terra, talvez porque, ao ado­tar-se este método ao invés de fazer rotação de culturas a terra ficaria enfraquecida mais rapidamente. Roupas feitas de dois tipos de estofo (19) facilmente produziriam eletricidade estática em climas tropicais, e são desconfortáveis para usar. Algumas misturas modernas de lã ou algodão com fibras sintéticas às vezes provocam uma reação alérgica em quem as usa. Considerações de conforto pessoal parecem estar em mente neste caso. Sejam quais forem as explicações aduzidas para estas injunções, pa­rece claro que a ênfase visava a manutenção de um estado de santidade ao senhor. Quando Deus começou Sua obra de criação, separou a luz das trevas e a terra seca do oceano. O homem pode seguir nos passos de Deus ao observar o mesmo princípio geral da separação. O povo escolhido já tinha sido tirado de todas as demais nações para ser a possessão especial de Deus, e para cumprir seu destino incumbiu-lhes manter sua qualida­de distintiva espiritual, moral e social. 

Outra forma de mistura imprópria, esta vez no campo moral, tem a ver com o homem que tinha relações com uma escrava que era noiva doutro homem (20). O delito não é um crime capital, visto que a escra­va não era uma mulher livre. A despeito disto, o transgressor devia sa­crificar uma oferta pelo pecado ao Senhor depois de um inquérito ter sido feito, e somente então a expiação apropriada poderia ser feita pela transgressão. Se a mulher tivesse sido seduzida dentro dos muros de uma cidade, ela e o transgressor teriam sido executados (Dt 22:23-24), presu­mivelmente porque ela podería ter obtido socorro que teria evitado o ataque. Embora a escrava (Heb. Siphâ) normalmente pertencesse à se­nhora dela, ainda podería ser usada pelo patriarca da casa como concu­bina, ou violentada por algum outro homem conforme permitiam as cir­cunstâncias. A passagem demonstra que, embora uma mulher pudesse ser uma escrava em Israel, ainda tinha direito à proteção da lei da aliança. 

A legislação que proíbe que se coma o fruto de árvores novas é ba­seada em princípios sadios de horticultura. Durante os três primeiros anos o fruto é considerado vedado (23), descrito em Hebraico em termos de “incircuncisão.” Já no quarto ano o fruto seria mais maduro, e era reservado como oferta de louvores aos SENHOR. Entre os antigos babi­lônios, as árvores frutíferas raramente eram usadas para alimento até de­pois do quarto ano. 

26-28. Os costumes pagãos proibidos à congregação santa inclu­íam o comer carne que ainda continha sangue (cf. Lv 17:10-14), bem co­mo a prática do agouro ou da adivinhação. O agouro envolvia o uso de amuletos, encantos e certos objetos tais como taças (cf. Gn 44:5,15), em­bora seja desconhecido exatamente como era feito. A adivinhação pare­ce ter consistido neste caso na prognosticação dos tempos favoráveis pa­ra formas específicas de ação. O mundo antigo era incrivelmente sobre­carregado por superstições grosseiras deste tipo, que não tinham lugar algum na vida de uma nação dedicada a obedecer ao Deus único e verda­deiro. Fez Sua vontade conhecida diretamente ao Seu povo através da revelação a Moisés e a outros, e indiretamente por meio de tais objetos de culto como os Urim e Tumim (Êx 28:30; Lv 8:8). Nenhum outro meio pelo qual a vontade de Deus pudesse ser averiguada era providenciado, mas, de qualquer maneira, o homem justo vivia pela sua fé (Hc 2:4). For­mar os cabelos numa curva redonda nas têmporas e na barba (27), ou a in­cisão de padrões na pele, faziam parte das práticas pagãs de luto, e, como tais, eram proibidas. Desfigurar a pele, que provavelmente incluísse alguns emblemas das divindades pagãs, desonrava a imagem divina numa pessoa, e era proibido porque não refletia a santidade de Deus (cf Dt 14:1-2). A perda de um ente querido devia ser aceita como parte da vontade de Deus para a vida do indivíduo, e nenhuma tentativa deveria ser feita para propi­ciar o falecido de qualquer maneira. 

29-30. Indivíduos bem como Deus podem ser profanados por comportamento imoral. As relações sexuais somente devem ser empre­endidas dentro do contexto santificador do casamento; em quaisquer outras circunstâncias ficam sendo táo profanas quanto os próprios trans­gressores (Hb 13:4). A filha de um homem, portanto, não deve ser alu­gada como prostituta para se fazer lucro com ela, visto que tal coisa re­baixa a qualidade sagrada da sua condição de mulher e nega-lhe o contro­le do seu próprio corpo. Alguns comentaristas têm entendido o v. 20 co­mo proibição contra a prostituição cultual que era muito comum no mundo antigo, mas a alusão parece por demais geral para semelhante interpretação. Como noutros trechos, são os delitos morais mais do que os cerimoniais que contaminam a terra. A santidade desta será conser­vada à medida em que os israelitas observam a adoração no sábado e réverenciam o santuário do Senhor. Porque os hebreus deixaram de ob­servar esta injunção de modo consistente na sua história subseqüente, a terra ficou cheia de maldade e eles próprios foram levados ao exílio (cf. Ez 23:37-42). 

31. A necromancia, que é a tentativa de entrar em contato com os espíritos dos falecidos, é especificamente proibida aos israelitas. O mé­dium (Heb. ’ôb; NEB “fantasmas”) era usualmente uma mulher que conseguia obter a materialização de certos falecidos, mediante pedido. A tentativa mais notável em Israel foi em conexão com o espírito de Sa­muel (1 Sm 28:8-25), mas a técnica da mulher não é descrita, sendo di­to apenas que “via” o espírito de um velho “subindo” da terra. Nalgumas sociedades do Oriente Médio, tais médiuns cavariam pequenos buracos na terra para simbolizar um túmulo, e depois colocavam ali ofertas para atrair a atenção da pessoa com quem a médium desejava entrar em con­tato. A palavra traduzida adivinhos (Heb. yidcf ‘ont, NEB “espíritos”) deriva de uma raiz “saber,” talvez com referência às informações ocultas que o praticante da necromancia alegava ter. O contato com tais pessoas resultava na contaminação espiritual, parcialmente porque tinham tido convívio com os mortos, mas também por causa das influências supers­ticiosas e demoníacas que acompanhavam a necromancia. 

32. O respeito para com os idosos era um aspecto destacado das sociedades do Oriente Próximo antigo, pelo motivo de que a velhice e a sabedoria iam de mios dadas. Que este nem sempre era o caso é visto no comentário de Eliú dirigido a Jó (Jô 32:9), que se constitui na única crítica do seu tipo no Antigo Testamento. A insolência dos jovens para com os mais velhos é usualmente considerada um presságio do infortú­nio (cf. 2 Rs 2:23-25; Is 3:5). 

33-34. Estrangeiros ou visitantes não deviam ser oprimidos ou explorados de qualquer maneira pelos israelitas, visto que tais ações não exemplificariam a santidade de Deus. Os israelitas sempre devem lembrar- se de que eles mesmos certa vez foram estrangeiros no Egito, e que foi somente pelo poder de Deus que foi restaurada sua liberdade e sua indi­vidualidade acompanhante. Embora o estrangeiro seja um residente tem­porário entre o povo da aliança, deve ser tratado como um membro regu­lar da comunidade (“o natural"), e amado como o próximo. Esta marca distintiva da piedade israelita não passaria desapercebida ao visitante es­trangeiro. Os cristãos também são conclamados a adotar uma atitude seme­lhante para com os estrangeiros (Hb 13:2). 

35-37. A imparcialidade e a eqüidade são aspectos importantes da na­tureza moral da Deus, e estas qualidades também devem ser refletidas na vida da nação da aliança, especialmente no que diz respeito às decisões ju­rídicas e comerciais. Decisões equitáveis por aqueles que estão em posi­ções de autoridade estão de acordo com a justiça do próprio Deus, e coo­peram para o benefício imediato da sociedade no seu todo. Instruções mais específicas são fornecidas em Deuteronômio 16:18-20. Práticas in­justas do comércio eram evidentemente muito comuns na antigüidade, agravadas pelo fato de que não havia pesos e medidas padronizados. O efa (36) tem sido estimado em cerca de 15 litros, ao passo que o him ti­nha talvez cerca de 3 litros, embora as quantidades exatas estão longe de serem certas. Deuteronômio 25:13-15 também procurava regular o co­mércio equitativo, e os que não observassem tais regulamentos eram con­denados (Dt 25:16; Pv 20:10; Am 8:5; Mq 6:10-11). A liberdade que os comerciantes e outros têm para negociar existe porque Deus, num certo período da história dos hebreus, libertou Seu povo escravizado e forneceu um ambiente em que podiam viver e trabalhar sem serem opri­midos. Mas estas bêqçãos somente continuariam enquanto guardassem Seus mandamentos. A obediência à vontade divina é a chave à bênção 




LEVITICO 20:1-5 na vida.

Penalidades pela desobediência (20:1-27)

Esta seção forma um apêndice natural ao conteúdo dos capítulos 18 e 19, e continua a ênfase dada à santidade. Ao passo que os dois ca­pítulos anteriores especificam o comportamento de modo positivo ou ne­gativo, o capítulo 20 descreve os castigos que resultarão se as ordenan­ças forem quebradas. Assim é feito a fim de demonstrar a extrema pecaminosidade para Israel de comportamento que era por demais comum entre outras nações do Oriente Próximo. A pena suprema era preceitua­da para a prática da adoração a Moloque, para o amaldiçoamento dos pais, para vários tipos de irregularidade sexual, e para a bruxaria; mas certos outros delitos sexuais eram tratados menos rigorosamente.

1-5. A referência breve à adoração a Moloque (Lv 18:21) agora é expandida tanto com respeito ao castigo que sobrevirá sobre o transgres­sor e o fim que sobrevirá àqueles que deixam de levar a efeito a senten­ça da morte. O amor que os israelitas devem demonstrar aos estrangeiros leva consigo uma responsabilidade recíproca que o estrangeiro residente deve cumprir a lei segundo a aliança. Esta estipulação visava frear a pro­pagação do culto pagão em que os estrangeiros residentes talvez quises­sem participar enquanto estivessem no convívio dos israelitas. A supre­macia do próprio Deus é ameaçada pela adoração das falsas divindades; logo, Ele intervirá diretamente ao eliminar o transgressor, presumivel­mente pela morte súbita. A frase o povo da terra (2, Heb. ‘am hã’ãres), talvez seja um termo técnico que descreve um concílio legislativo nomea­do para agir em prol da nação. Este corpo então executaria a sentença da morte pelo apedrejamento, uma forma de execução hebraica antiga. A expressão “o povo da terra” parece ter sido originalmente uma referên­cia aos habitantes indígenas do território (cf. Gn 23:7; 42:6; Nm 13:28. etc.). De acordo com certas interpretações, o termo se referia a donos de terras que exerceram certas responsabilidades cívicas e cultuais, mas este significado "dificilmente seria aplicável aos israelitas no Egito, que eram freqüentemente referidos como sendo ‘am. Como reação do concei­to de um corpo legislativo ou autoritativo, outros estudiosos considera­vam que o 'am hã áres fosse o povo pobre e comum. Uma interpretação mais moderada vê a expressão em termos de camponeses donos das suas próprias terras que trabalhavam o solo e que lutavam para defendê-lo periodicamente. As referências nos autores pré-exílicos sugeririam que o “povo da terra” consistia em um grupo influente, e pode talvez até ter sido considerado capaz da liderança cívica na ausência de um rei (2 Rs 25:19). No período pós-exílico a natureza mista dos habitantes na Pa­lestina levou a efeito um uso inteiramente diferente do termo, especial­mente quando os fariseus "vieram a ocupar uma posição de destaque. Já nos tempos de Cristo, era empregado quase como termo de desprezo para a mássa da população que não tinha interesse nas minúcias da lei (cf. Jo 7:49).[4] A morte pelo apedrejamento também era preceituada para a blas­fêmia (Lv 24:16), para a idolatria (Dt 13:6-10), para a profanação do sá­bado (Nm 15:32-36), e para o ocultismo (Lv 20: 27). O castigo é severo por­que o transgressor contaminou o santuário e profanou o nome santo de Deus. Aqueles do ‘am hàáres que fecham os olhos diante das atrocida­des da adoração a Moloque são tão culpados quanto aqueles que come­tem o crime, sendo cúmplices do mesmo. Ao negligenciar o delito, es­tão subentendendo uma certa simpatia para com ele, e semelhante atitu­de desmoralizaria a comunidade da aliança muito rapidamente. Sanções severas, portanto, são necessárias como reforço do ideal da santidade.

6. A penalidade por entregar-se à necromancia, proibida em Levítico 19:31, é declarada nos mesmos termos pessoais como aquela que é aplicável ao culto a Moloque. O desejo de comunicar-se com os faleci­dos remonta até ao passado remoto, mas por mais natural que se poderia pensar que fosse, a prática da necromancia era proibida aos hebreüs. Embora os médiuns espíritas modernos aleguem que fazem contato signifícante com pessoas falecidas, quase nunca há qualquer coisa de valor permanente nas “mensagens” que são transmitidas, e às vezes considerá­vel dose de fraude também. O cristão somente pode aliar-se com aque­les poderes que confessam Cristo como o Senhor encarnado (1 Jo 4:2).

7- 8. A exigência no sentido da santidade pessoal e comunitária é reiterada aqui. A consagração individual aos ideais da aliança estabele­cerá um padrão de vida santa que será especificamente moral bem como cerimonial flo seu caráter. A obediência inabalável aos mandamentos de Deus é uma indicação de uma vida santificada, tanto no Antigo Tes­tamento quanto no Novo.

9. A pena capital, presumivelmente pelo apedrejamento, é pre­ceituada para os que amaldiçoam o pai ou a mãe. Visto que os pais sim­bolizam a autoridade de Deus, e que são Seus sub-rogados do ponto de vista das crianças na família, amaldiçoá-los seria comparável à blasfêmia. Maldições complexas, muitas das quais parecem ter a natureza de sorti­légios mágicos, tinham uso corrente no Oriente Médio antigo, e entre pes­soas supersticiosas freqüentemente operavam com efeito devastador, vis­to que na mente oriental a maldição levava consigo mesma seu próprio poder de execução. As maldições aqui sem dúvida envolveriam o pro­nunciar dalguma fórmula deste tipo em que o nome de Deus mais prova­velmente ocorreria. Cristo ordena os cristãos a abençoarem ao invés de amaldiçoarem (Lc 6:28), i.é, a animarem a vida ao invés de a destruírem.

10-16. Boa parte desta matéria tem seu paralelo em Levítico 18: 6-23, só que aqui estão declaradas as penalidades. No v. 10 há certa difi­culdade no texto, sendo que o Hebraico diz: “Se um homem adulterar com a mulher de, se um homem adulterar com a mulher do seu próxi­mo. . .” Semelhantes “textos duplos,” surgem de uma variedade conside­rável de causas, mas neste caso a fundição dos textos é muito antiga, sen­do que é também repetida nas versões. Há pelo menos alguma possibilida­de de que, desta vez, a repetição fosse deliberada, e que consistisse de um método estilístico de chamar a atenção a um item importante da legisla­ção. Nesta seção os crimes capitais incluem o adultério (10; cf. Lv 18: 20; Dt 22:22), o coito com parentes-primários (11-14; cf. Lv 18:7-8, 15, 17), a homossexualidade (13, cf. Lv 18:22), e a bestialidade (15-16; cf. Éx 22:19; Lv 18:23). O método de execução não era especificado senão no caso de um homem que se casava com uma mulher e com a fi­lha dela também: todos os três deviam ser queimados com fogo (14). Nos casos da bestialidade, o animal era morto, juntamente com os participan­tes humanos. Estes crimes abomináveis, por mais familiares que fossem para os povos do Oriente Médio antigo, eram hostis ao conceito da san­tidade segundo a aliança, e, portanto, eram proibidos aos israelitas.

17-21. Esta seção contém uma lista de delitos sexuais contra a moralidade da aliança que seriam castigados pela intervenção divina. Visto que os casamentos entre os hebreus geralmente eram feitos com pessoas próximas ao círculo imediato da família, era importante que os limites da consangüinidade aceitável fossem claramente entendidos. Deus eli­minará aquele que coabita cqai sua irmã (17; cf. Lv 18:9,11) ou que tem relações sexuais com uma mulher menstruada (18; cf. Lv 18:19). O in­divíduo que coabitasse com uma tia por casamento (20) ou com uma cunhada (21; cf. Lv 18:16) sofreria, juntamente com sua parceira no de­lito, a penalidade de ficar sem filhos. Esta seria uma situação grave so­mente se as respectivas partes fossem realmente casadas. Se um homem se entregasse ao coito com sua tia consangüínea (19; cf. Lv 18:12-13), os dois sobre si levarão a sua iniqüidade, penalidade esta que parece me­nos severa do que ser “eliminado,” Em condições normais, o castigo para os vários crimes seria suficiente para frear todos menos os perver­tidos mais persistentes, a não ser que outros fatores, tais quais a ebrie­dade, fossem envolvidos.

22-26. A base lógica desta legislação é explicada dentro da situa­ção histórica de Israel como o povo eleito de Deus. Até mesmo antes de entrar na terra prometida, a nação é advertida ccfntra os graves peri­gos morais na frente. Somente mediante a guarda de todos os estatutos e ordenanças de Deus é que pode esperar que sobreviverão como povo santo. Se este povo sucumbir às tentações da vida cananita, a terra o ex­pelirá violentamente, assim como logo haveria de expulsar os cananeus e outros às mãos dos invasores israelitas. O povo da aliança deve viver uma vida de pureza moral e espiritual distintiva na terra próspera que Deus lhe deu, porque Ele o separou especificamente de todas as demais nações, a fim de que reflita Sua santidade intrínseca. As leis dadas em Levítico servirão como orientação à adoração apropriada de Deus, além de forne­cerem regras detalhadas para a vida santa. O povo eleito de Deus deve ser reconhecidamente distintivo daqueles que não são dedicados aos ideais da santidade, ênfase esta que é igualmente válida para o povo da no­va aliança. Os cristãos são conclamados a serem filhos obedientes, e san­tos na sua maneira de viver (1 Pe 1:14-15), e a evitarem todas as obras da carne (Rm 13:13; G1 5:19-21; Cl 3:8, etc.).

27. Sendo que as penas para aqueles que se entregam à necromancia já foram declaradas (6), a legislação agora trata daqueles indiví­duos que agem como médiuns ou feiticeiros. Sejam quais forem suas capacidades psíquicas, suas atividades não ressaltam a santidade de Deus, mas, pelo contrário, levam as pessoas à superstição e as subjugam à escra­vidão aos poderes demoníacos. Os que assim praticam devem ser mortos por apedrejamento, a fim de que a santidade de Deus não seja profanada. Ser eleito de Deus implica em responsabilidades bem como em grandes privilégios. O caminho da santidade está claramente definido, mas, como o caminho que leva para a vida eterna em Cristo (Mt 7:14) é estreito, e às vezes difícil de seguir. Os regulamentos da aliança visam capacitar o povo escolhido a glorificar a Deus através do seu modo de vida, e, se fo­rem seguidos, certamente tornariam os israelitas um povo sem igual no Oriente Próximo. Bem à parte da moralidade e da ética, os estatutos tam­bém freqüentemente confeririam um benefício físico positivo em termos de saúde e bem-estar individuais, que teriam seu próprio efeito sobre a vida comunitária. O padráo de existência que os eleitos deveriam seguir, portanto, não era de privação sem alívio, mas, sim, de alegria e paz na comunhão com em Pai amoroso e providente. As dificuldades surgiriam somente quando o crente desobedecesse as ordenanças de Deus, trazen­do sobre si, desta maneira, o rompimento da comunhão bem como algum castigo pessoal. Em Levítico os israelitas são constantemente conclama­dos a viver uma vida santa neste mundo, glorificando, assim, o Deus que os escolheu como sendo dEle próprio. Mas porque sempre há a possi­bilidade de que a carne vencerá o espírito (cf. G1 5:17), os estatutos ser­vem como diretrizes para a conduta e como advertências a transgresso­res em potencial. Por este meio, a maneira de se atingir a vida santifica­da é deixada abundantemente clara.






[1] Uma discussão mais geral do sexo e da sua teologia acha-se no Apêndi­ce B, págs, 228-232. 


[2] J. H. Hertz, The Pentateuch and Haftorahs, pág. 497. 


[3] Cf. S. Stein, Journal of Theological Studies, N.S., 4, 1953, pags, 161— 170; H. Gamoran, Journal of Near Eastern Studies, 30,1971,pags. 127-134. 


[4] De uma bibliografia de considerável tamanho sobre o assunto, as seguin­tes obras podem ser consultadas: M. Sulzberger, Am Ha-aretz, the Ancient Hebrew Parliament (1909); idem, Jewish Quarterly Review, 3, 1912-1913, págs. 1-18; S. Daiches, Journal of Theological Studies, 30, 1929, págs. 245-249; L. Rost em Festschrift Otto Proksch (1934), págs. 125-148; L. Finkelstein, The Pharisees (1938), págs. 25-42; S. Baron, A Social and Religious History of the Jews, 1,(1952), págs. 278-280; G. von Rad, Studies in Deuteronomy (1953), págs. 63-66; M. H. Po­pe, IDB, 1, págs. 106-107; W. T. Dayton, ZPEB, 1,128-129; H. Bietenhard, art. Povo, no NDITNT vol. 3.