7 de março de 2017

VICTOR P. HAMILTON - Preparações para a Partida do Sinai - Números 1.1—10.10

victor hamilton danilo moraes
Preparações para a Partida do Sinai - Números 1.1—10.10 

Se, em certos aspectos, “Levítico” parece um título estranho para o terceiro livro do Pentateuco, o mesmo poderia ser dito sobre o título do quarto livro. “Números” vem de Numeri na Vulgata, ex­traído de Arithmoi, da Septuaginta. Existem, com certeza, conta­gens e listas de números ao longo desse livro (como, por exemplo, as listas dos censos, dos capítulos 1 e 26; e o censo dos levitas, nos capítulos 3 e 4), mas tais capítulos não são a regra de Números. 

Na Bíblia Hebraica, o título desse livro é “No Deserto”, extraído da quarta palavra do texto hebraico de Números 1.1 (“Falou mais o Senhor a Moisés, no deserto...”). O deserto, aquela faixa de terra quase desabitada entre Egito e Canaã, onde vemos Israel entrar em Êxodo 15.22, é o cenário geográfico de Números. Como tal, era um lugar onde o povo aprofundaria sua confiança no poder de Deus para suprir suas necessidades, ou duvidaria das capacidades e re­cursos de seu Deus. A medida que atravessassem essa zona inter­mediária “entre a libertação e o desterro”1, o deserto representaria para Israel ótimas possibilidades ou grandes problemas. 

É quase um consenso que o livro de Números deixa muito a desejar e é por demais enigmático na apresentação de seu material. 

Por esse motivo, B. A. Levine (1976: 634) o vê como “o menos coe­rente dos livros da Torá”. A visão de R. C. Dentan2 é semelhante: “Considerando que o livro não é de fato coeso nem foi composto de acordo com qualquer plano lógico ou predeterminado, qualquer esboço que lhe seja imposto terá de ser reconhecido como ampla­mente subjetivo e arbitrário”. Para citar ao menos um exemplo, os comentaristas tentam justificar o porquê de o capítulo 15, um compêndio de leis diversas, vir entre os relatos dos espias/batedores (13—14) e o da rebelião de Corá (16). 

São poucos os que discordam dessa visão; dentre eles está Brevard Childs. Ele defende a tese de que todo material em Nú­meros — ritualístico, legal, narrativo e até mesmo as informações estatísticas — gira em torno do tema universal da santidade. Childs3 observa: “Apesar da diversidade de assuntos e da comple­xa estrutura literária, o livro de Números mantém uma interpre­tação sacerdotal unificada da vontade de Deus para seu povo, a qual é exposta em um nítido contraste entre o santo e o profano”. Sinto-me mais inclinado a aceitar a avaliação de Childs que a defendida por aqueles que vêem Números como uma coletânea aleatória de materiais J4, E5 e, principalmente, P6. 

Talvez seja melhor começar observando as divisões internas do livro, com base nas informações geográficas e cronológicas. 

1.1-10.1 — Preparações para a partida do Sinai. 

1.1: “Falou mais o Senhor a Moisés, no deserto do Sinai [...] no primeiro dia do segundo mês, no segundo ano da sua saída da terra do Egito”. 

10.11—20.21 - Partida do Sinai e chegada a Cades. 

10.11: “no segundo ano, no segundo mês, aos vinte do mês. que a nuvem se alçou de sobre o tabernáculo da congregação”. 

20.22—36.13 - Jornada de Cades para Moabe. 

20.22: “Todo o povo de Israel saiu da cidade de Cades”. 

É preciso notar que não há consenso entre os comentaristas em relação ao ponto de término da segunda seção e início da ter­ceira. Tanto M. Noth como R. C. Dentan concluem a segunda se­ção em 20.13. G. B. Gray7 encerra a segunda seção em 21.9. A New Oxford Annotated Bible (Nova Bíblia Anotada Oxford)8, nas notas editoriais, finaliza a segunda seção em 21.13. F. L. Moriarty9 sugere 22.1 como a conclusão dessa unidade. 


Dennis Elson, em diversos estudos (1985, 1996, 1997), sugere dividir Números em duas seções. Utilizando como chave os dois censos dos capítulos 1 e 26, sua primeira unidade é definida do capítulo 1 ao 25; a segunda, do 26 ao 36. A primeira parte cobre a geração de israelitas que saiu do Egito, dos quais ninguém conse­guiu chegar a Canaã (com exceção de Josué e Calebe). Pereceram no deserto por causa de sua incessante desobediência e pecaminosidade. A outra parte cobre a geração que nasceu no de­serto, a segunda geração, os quais entrariam em Canaã sob a li­derança de Josué e para quem Deuteronômio foi escrito. Assim, para Olson, Números fala sobre a morte do que é velho (1—25) e o nascimento do que é novo (26—36), com Deus tendo de começar novamente. 

Existem alguns fortes contrastes entre 1—25 e 26—36, sendo que todos mostram a segunda parte em condições mais favorá­veis que a primeira. No primeiro conflito militar travado pelos israelitas em 1—25, eles perderam (14.45). No único embate mili­tar posterior ao capítulo 26, empreendido pela segunda geração de israelitas em 26—36, eles venceram (31). Nos demais versículos de 1-25, Israel tentou evitar (13.31-32) ou fugir (20.21) de con­frontos. Quanto às vitórias registradas em 1—26 — os relatos da destruição de Arade em 21.1-3 e a vitória sobre Seom e Ogue em 21.21-35 —, provavelmente devem ser creditadas à segunda ge­ração. Tal interpretação seria mais provável que crer na possibi­lidade de esta primeira geração de israelitas ser triunfante — uma geração sob o juízo de Deus e destinada a ser destruída em pouco tempo. W. W. Lee10, em um interessante estudo, discorda de Olson. Ele sugere que, em vez do capítulo 26, é 21.1-3 que marca a transição da primeira para a segunda geração. 

Um outro contraste entre as duas unidades é que muitos israelitas morrem ou sofrem em 1—25, o que não é visto em 26—36. 

11.33: “feriu o Senhor o povo com uma praga muito grande“. 

12.10: “eis que Miriã era leprosa como a neve”. 

14.37: “aqueles mesmos homens [...] morreram de praga pe­rante o Senhor”. 

16.32: “E a terra abriu a sua boca e os tragou”. 

16.35: “saiu fogo do Senhor e consumiu os duzentos e cinqüenta homens”. 

16.49: “E os que morreram daquela praga foram catorze mil e setecentos”. 

20.28: “morreu Arão ali sobre o cume do monte”. 

25.8: “e [Finéias] os atravessou a ambos, ao varão israelita e à mulher”. 

25.9: “E os que morreram daquela praga foram vinte e qua­tro mil”. 

Denominei a primeira unidade de Números “Preparações para a Partida do Sinai”. Ela vai de 1.1 a 10.10. Os israelitas ainda não haviam se mudado geograficamente do Monte Sinai. Quais foram essas preparações para a partida? 

O Censo e a Organização das Tribos (1—2) 

No que diz respeito à emoção e ao efeito dramático imprimidos no leitor, o material apresentado nos primeiros dois capítulos de Números não se equipara ao impacto criado pelos trovões e pela fumaça que haviam envolvido o Sinai, seguidos pela revelação da vontade de Deus. Será que passamos do miraculoso para o co­mum, do sublime para o banal? 

Nesses dois capítulos, Moisés foi orientado por Deus para fa­zer um censo da congregação de Israel (1.1-3). Deus nomeou um representante para cada tribo, com exceção dos levitas, para ajudá- lo nesse trabalho (1.4-16). O censo foi realizado (1.17-46), mas os levitas foram deixados de fora (1.47-54). Foram então designadas áreas para cada uma das tribos ao redor da tenda da congrega­ção. Posições ao norte, sul, leste e oeste, que deveriam ser obser­vadas quer em marcha quer acampados (2.1-34). 

Existem, todavia, alguns aspectos que merecem nossa atenção. O censo devia incluir todos os homens da idade de vinte anos para cima, “todos os que saem à guerra em Israel” (1.3). Israel estava sendo enviada como ovelha entre lobos. Ações militares, para pre­servação ou conquista, seriam inevitáveis. O encontro que já haviam tido com os amalequitas (Êx 17.8-16) lhes dava uma idéia das experiências que viriam. O que aguardava Israel é salientado pela frase “capazes de ir à guerra”, a qual ocorre por quinze vezes no primeiro capítulo (w. 3,18,20,22,24,26,28,30,32,34,36,38,40,42,45). A presença de Deus sobre, entre e à frente de seu povo ao longo do caminho não torna supérflua a necessidade de um exército prepa­rado. Deus não opera à parte de seu povo, mas por meio dele, a fim de vê-los concretizar o destino que lhes preparou. 

Vemos aqui que a iniciativa do censo foi de Deus, como foi dele a iniciativa de mandar batedores para espiar a terra de Canaã (13.1,2). Moisés não teve um repentino desejo de aumentar o nú­mero de militares. Não se detecta, em Moisés, nenhuma atitude semelhante à atribuída por Joabe a Davi em seu censo: “mas por que deseja o rei, meu senhor, este negócio?” (2 Sm 24.3, com infor­mações adicionais no texto paralelo de 1 Cr 21.3). 

Mencionei anteriormente a existência do tema da santidade em Números. E no último parágrafo do capítulo 1 (vv. 47-54) que surge esse tema em particular. Somos informados de que os levi­tas não são contados no censo das tribos não sacerdotais, mas será que eles são deixados completamente de lado? Números atri­bui três responsabilidades aos levitas: o transporte, o desmonte e a montagem do Tabernáculo. Em seguida, vemos uma terrível observação: “o estranho que se aproximar morrerá” (1.51 —ARA). Violar a responsabilidade do outro leva à morte. 

E há mais. Dois versículos depois nós lemos: “os levitas se acamparão ao redor do tabernáculo do Testemunho, para que não haja ira sobre a congregação dos filhos de Israel; pelo que os levitas tomarão a si o cuidar [ou tomarão a si a função de guardar] do tabernáculo do Testemunho” (1.53). Os levitas atuavam como guar­das sacerdotais, com o dever de deter qualquer um que tentasse violar alguma proibição com respeito ao Tabernáculo. Se o intru­so não fosse impedido, a comunidade toda poderia sofrer o juízo de Deus. 

Os israelitas, portanto, não podiam descuidar dos confrontos que estavam por vir (vv. 1-46), mas também não podiam negli­genciar ou serem indiferentes em sua adoração a Deus (vv 47­54). Um inimigo poderia destruí-los, mas a ira de Deus também podia fazê-lo! Precisavam evitar, a todo custo, a atitude que diz: “farei isso ou aquilo do meu jeito”. 

Como disse G. S. Ogden11, Números 2 está organizado em nos­sas Bíblias modernas de forma a enfatizar a importância da pre­sença de Deus entre seu povo, através da tenda no meio do acampamento, tanto montada como desmontada. Em torno dela fica­vam Moisés e os sacerdotes (leste), os levitas coatitas (sul), os levitas gersonitas (oeste) e os levitas meraritas, com três tribos por trás de cada um desses grupos. 

2.1- 2: instruções para o acampamento (2 versículos) 

2.3-9: Judá, entre Issacar e Zebulom, no lado leste (7 versículos) 2.10-16: Rúben, entre Gade e Simeão, pelo sul (7 versículos) 

2.17: os levitas e a tenda no meio (1 versículo) 

2.18-24: Efraim, entre Benjamim e Manassés, pelo oeste (7 versículos) 

2.25-31: Dã, entre Aser e Naftali, pelo norte (7 versículos) 2.32-33: resumo e totais (2 versículos) 

[2.34: uma declaração de obediência] 

Dois Censos Levíticos (3—4) 

A maioria do conteúdo desses dois capítulos é dedicado à des­crição da quantidade de levitas e de suas responsabilidades. An­tes, contudo, de os leitores encontrarem os resultados do primeiro censo, são saudados com a lembrança dos dois filhos de Arão. Nadabe e Abiú, que “morreram perante o Senhor, quando oferece­ram fogo estranho perante o Senhor [...] e não tiveram filhos” (3.4). Há uma forma correta de adorar a Deus que, ao ser desrespeita­da, traz conseqüências desastrosas tanto para leigos (1.51) como para sacerdotes (3.4). 

Mas isso não é tudo. O capítulo 3 destaca por mais duas vezes a sinistra ameaça de destruição para aqueles que transgredissem na adoração a Deus: “e o estranho que se chegar morrerá” (vv. 10,38). Jacob Milgrom12 demonstra de forma convincente que a tradução “se chegar” ou “se aproximar” não é o que o texto está proibindo. Em vez disso, a expressão apenas significa “exceder certos privilé­gios” ou “usurpar as responsabilidades de outra pessoa” ou “ultra­passar os limites”. Os israelitas, incluindo os levitas, deviam saber o que deviam e não deviam fazer, sem confundir as duas coisas. Caso contrário, deviam arcar com as conseqüências. 

Por que foram realizados dois censos levíticos (3.14-39; 4.1­49)? Na verdade, os dois são bastante distintos entre si. Uma pis­ta que nos ajuda a enxergar essa diferença é encontrada no pri­meiro censo em 3.15: “Conta os filhos de Levi [...] todo varão da idade de um mês para cima”. Por outro lado, o segundo censo inclui aqueles “da idade de trinta anos para cima até aos cinqüenta anos” (4.3). O primeiro, portanto, começa com aqueles ainda em tenra infância e não possui limite de idade; o segundo se limita a contar aqueles com idade entre trinta e cinqüenta anos. 

Devíamos então supor que os levitas incluídos no primeiro censo estavam sendo destinados a um serviço pelo resto de suas vidas? Sendo assim, não havia restrição alguma de idade. Em contra­partida, o segundo censo incluía levitas que seriam recrutados para um ministério com limite de idade: após os trinta anos, de­pois da adolescência e do princípio da idade adulta, e antes de alcançar uma idade avançada. 

O próprio texto declara os motivos para tal limitação em Nú­meros 4. O trabalho descrito é físico e, especificamente, envolve a montagem, desmontagem e transporte do tabernáculo. Não é exa­gero traduzir “obra/serviço” (4.3,23,24,27,30,31,33,35,39,43,47) como “extenuante trabalho físico”. Por esse motivo, é estipulada uma idade de admissão ao serviço, trinta anos, e uma idade de aposentadoria, cinqüenta anos. E curioso que, no capítulo 1, a idade mínima para admissão no exército seja vinte, enquanto, no capítulo 4, a idade mínima para servir como levita no santuário seja trinta. Para servir na obra do Senhor são necessários dez anos a mais de maturidade que para servir no exército do Senhor. 

As responsabilidades são divididas em três e repartidas entre os filhos de Levi. As responsabilidades dos coatitas são detalha­das em 4.4-20. Cabia-lhes carregar as “coisas santas” do Tabernáculo (vv. 15,19). Por esse motivo, são acrescentadas duas informações. Primeiro, o efetivo trabalho de desmontar as partes mais sagradas do Tabernáculo era função de Arão e de seus fi­lhos, não podendo ser de modo algum realizado pelos coatitas (vv. 5-14)! Estes atuam no transporte, não no desmonte. 

Em segundo lugar, a fim de tornar a ordenança coercitiva, observa-se que os coatitas morreriam (vv. 15,18,20) caso ultrapassassem os limites de sua atuação. Pelo menos até aqui, raramen­te vimos Números perder a oportunidade de inserir, em meio a relatos estatísticos e atribuições de tarefas, algum lúgubre lem­brete sobre as conseqüências da desobediência. Deus, em sua san­tidade, não suporta isso de modo algum. 

O segundo grupo de levitas são os gersonitas (vv. 21-28). Sua função era principalmente carregar as cortinas do Tabernáculo ou, pelo menos, guardar os carros em que eram carregadas. Não se vê aqui qualquer indicação de que, a exemplo do que acontecia com os coatitas, eles trabalhassem sob ordens dos sacerdotes, ou que usurpar a função de outrem fosse passível de pena capital. 

O terceiro grupo de levitas são os meraritas (vv. 29-33). Como os gersonitas, eles guardavam uma parte do Tabernáculo, que era carregado em carros. Nesse caso, o material eram as tábuas e colunas. 

Vê-se que os coatitas tinham o maior privilégio e também as maiores responsabilidades. A quem muito é dado, muito é cobra­do. Aqueles que sobem mais alto, podem cair mais longe. 

Mantendo o Acampamento Santo (5) 

O livro de Números começa com dois capítulos dedicados aos leigos de Israel (1—2); depois há mais dois dedicados ao clero, os levitas (3—4); e outros dois voltam a lidar com o povo em geral (5—6), sendo que em cada seção vemos o clero desempenhando um importante papel. Lidam com questões envolvendo impure­zas (5.1-4); na falta do ofendido ou de algum familiar, podem ser beneficiados pela restituição devida pelo pecado contra alguém (vv. 5-10); presidem rituais acerca de mulheres suspeitas de adul­tério (vv. 11-31); desempenham um importante papel na vida dos nazireus, principalmente quando ele ou ela se preparam para encerrar o voto (6.1-21); por meio de orações, abençoam o povo (vv. 22-27). 

Os primeiros quatro capítulos enfatizam a santidade do Tabernáculo, tanto na determinação de posições como de funções. Trata-se da habitação de Deus e tudo deve ser cumprido e execu­tado conforme suas orientações. Não é por acaso que todos esses quatro capítulos terminam com a mesma frase: “Assim fizeram os filhos de Israel [ou Moisés]; conforme tudo o que o Senhor orde­nara” (1.54; 2.34; 3.51; 4.49). 

Uma vez que o conceito esteja claro, é natural que o texto siga essa mesma diretriz nos vários regulamentos que ajudam a man­ter o acampamento santo. Os primeiros quatro capítulos foram positivos: ‘aqui é o seu posto de trabalho, eis o que você deve fa­zer’. Em contrapartida, Números 5 apresenta uma ênfase negati­va. Lida com a expulsão daqueles que profanaram ou deprecia­ram o caráter sagrado do acampamento. Portanto, o leproso foi expulso (como em Lv 13.46), assim como todo aquele que padeceu de algum tipo de fluxo (como em Lv 15, que ao contrário de Lv 13. não utiliza a expressão “enviada/viverá fora do arraial”). E claro que a pessoa não era executada, condenada à morte como um coatita, mas exilada da comunidade. 

Somente tendo conhecimento de preceitos assim, podemos apreciar de maneira integral os atos de Jesus ao “tocar” um leproso (Mc 1.41). Se os discípulos estavam presentes para ver isso, não é difícil acreditar que tenham protestado: “Senhor, acabaste de te contaminar!” Não seria possível que Jesus, para provar o contrá­rio, tivesse encostado a palma da mão na pele de um dos discípu­los — provavelmente Pedro? 

Se certos tipos de impurezas físicas maculam o acampamento de Deus (5.1-4), que dizer dos pecados deliberados e seus destrutivos efeitos? Essa questão é tratada em 5.5-10 (em essên­cia, um aprimoramento da oferta pela culpa em Lv 5.14—6.7). Sempre que surgia um pecado no seio da comunidade, este devia ser abertamente reconhecido pelo pecador, pois pecar contra ou­tro filho de Deus é pecar contra o próprio Deus. A confissão oral era indispensável — “tal pessoa é culpada [...] Confessará o peca­do que cometer” —, assim como a restituição, acrescida de 20%, do que fora tirado ou roubado. Tudo isso vinha antes do ritual de expiação realizado pelo sacerdote. 

Uma nova informação é acrescida nesse parágrafo. Se a vítima do crime morresse sem deixar parentes, isso não cancelava a obri­gação de reparar o erro. Longe disso! A indenização devia ser en­tregue ao sacerdote e ao santuário (vv. 8-10). Vemos mais uma vez a mesma idéia: o acampamento de Deus deve ser um local sagrado e puro. Não seriam tolerados desvios dos planos divinos por parte de levitas ou leigos. As pessoas impuras deviam ser ex­cluídas. Aquele que pecasse contra o próximo devia arrepender-se e confessar seu pecado, preparando o caminho para uma res­tauração plena tanto com o ofendido como com Deus. 

O terceiro parágrafo do capítulo (vv. 11-31) prossegue no tema da preservação da santidade em meio ao povo de Deus. A questão aqui é um suposto ou real adultério por parte de uma esposa. O marido suspeitava da infidelidade, mas não havia qualquer tes­temunha, nem a mulher era pega em uma situação embaraçosa. 

O parágrafo anterior versa sobre um pecado real entre duas pessoas. Este discute um potencial pecado entre dois cônjuges. Um aspecto que liga 5.5-10 com 5.11-31 é que ambos lidam com infidelidade: infidelidade para com Deus em 5.6 e infidelidade para com o cônjuge em 5.12. Em ambos os casos, o hebraico ex­pressa o ato de infidelidade com mã‘almaal (substantivo e verbo cognatos), que carrega a idéia de se cometer um sacrilégio contra alguém ou de se trair a confiança de alguém. É fascinante que mesmo a suspeita de um pecado precise ser investigada. Se a sus­peita não desse em nada, nenhuma providência seria tomada; mas se fatos anormais e perturbadores viessem à tona, eles deveriam ser enfrentados. 

O leitor contemporâneo das Escrituras pode olhar para essa história e ter dúvidas quanto à legitimidade dessa prática. Por que apenas a esposa suspeita era levada a juízo? E se a esposa desconfiasse de infidelidade por parte do marido? Havia opções para ela? Por outro lado, será que esse procedimento dava ao marido o direito de fazer sua esposa passar por tamanha prova sempre que lhe viesse à mente a suspeita de uma possível aven­tura? Havia ela de beber as intragáveis “águas amargas” apenas para satisfazer a curiosidade do esposo? 

As seguintes observações devem ser feitas. Em primeiro lugar, podemos seguramente supor que o marido só recorria a esse expediente se não conseguisse esclarecer suas suspeitas. Dúvidas inquietantes não se desfazem no ar e, nesse caso, algo deve ser feito. Não é provável que fosse permitido a um marido ciumento de modo exagerado testar continuamente sua esposa. S. K. Sherwood13 levanta a possibilidade de essa lei jamais ter sido posta em prática de forma efetiva. Aliás, as Escrituras não registram nenhum caso de sua aplicação. Se, no entanto, fosse utilizada. Sherwood comenta que, após uma exposição tão vergonhosa de acordo com a lei, ainda que a esposa fosse declarada inocente, não apenas perderia seu respeito e dignidade no meio da comunida­de, mas também o marido. Em conseqüência, qualquer marido pensaria muito antes de fazer sua esposa passar por tal provação. 

Em segundo lugar, não é exato dizer que a esposa era submeti­da a um julgamento por ordálio14. A acusada não era forçada a enfiar sua mão em água fervente, nem devia andar descalça so­bre pregos ou ter sua cabeça mergulhada na água. Esses eram os testes utilizados em julgamentos por ordálio. O artigo 132 do Có­digo de Hamurabi, por exemplo, em uma situação semelhante a de Números 5.11-31, diz: “Se um dedo acusador é apontado para a esposa de alguém por causa de outro homem, mas a mulher não foi encontrada deitada com esse outro homem, ela deverá pular no rio em consideração a seu marido”. Ou seja: se fosse culpada, afundaria e se afogaria; se fosse inocente, sobreviveria. No Códi­go de Hamurabi, o perigo é bastante real; em Números, é hipoté­tico. (Na verdade, que significam as palavras de Números 5.27 que dizem: “a água amaldiçoante entrará nela para amargura, e o seu ventre se inchará, e a sua coxa descairá”? Seria atrofia físi­ca, esterilidade ou o quê?). Outro aspecto que afasta a idéia de um julgamento por ordálio é que, em um tal julgamento, a pessoa é considerada culpada a menos que prove sua inocência. Como comentam H. C. Brichto15 e J. Sasson16, o ritual de Números 5 é exatamente o oposto: ele julga a inocência da acusada, não sua culpa. Frymer-Kensky17 frisa que, nos verdadeiros julgamentos por ordálio, a decisão do deus invocado era manifesta de imedia­to, ao contrário do que ocorre em Números 5. 

Uma terceira observação advém do parágrafo anterior. Longe de aviltar a mulher, obrigando-a a atender todos os caprichos de um marido leviano, o procedimento promove exatamente o con­trário. Após observar a posição muitas vezes inferior da mulher no Antigo Testamento, Brichto18 comenta: “O ritual [...] é um es­tratagema em favor da esposa. Ele propõe que o marido prove o que alega ou se cale”. Ao suspeitar de sua esposa, o marido deve ter coragem suficiente para pôr em ação um mecanismo que esta­belece a verdade de uma forma ou de outra. Se não tiver coragem para passar da suposição à prática, deverá abandonar as acusa­ções e interromper quaisquer insinuações. 

O Nazireu (6) 

Com exceção dos versículos 21-27, que falam sobre a bênção aarônica, todo esse capítulo é dedicado a uma descrição do nazireado. Estamos familiarizados com essa atividade graças a brilhantes personagens das Escrituras que foram nazireus. Dentre eles, te­mos pessoas notáveis como Sansão, Samuel e João Batista (Lc 1.15). Pessoas que foram líderes em suas épocas. Sansão e Samuel foram extraordinários profetas e líderes militares do exército de Israel contra os filisteus. Em seus atos, lembram mais soldados profissi­onais que membros de uma comunidade monástica. 

Em Números 6, contudo, não vemos nenhum desses aspectos positivos. O capítulo se concentra em descrever o que os nazireus não podem fazer, em vez de abordar o que devem fazer. Entendo que isso está de acordo com a ênfase vista até agora em Números, no que diz respeito à exigência divina de santidade. As leis de Deus não devem ser evitadas. Além disso, dado o uso por todo o capítulo de frases como: “Enquanto for nazireu” (v. 4, NVI), “Du­rante todo o período de sua separação para o Senhor” (v. 5, NVI), “no dia em que se cumprirem os dias do seu nazireado” (v. 13) e “Esse é o ritual do voto de nazireu [...] de acordo com a sua sepa­ração” (v. 21, NVI). Números 6 trata basicamente do nazireado temporário e não de nazireus vitalícios, como Sansão e Samuel. Podemos fazer um paralelo para os dias de hoje com missionários que trabalham em projetos de curta duração e missionários de tempo integral. 

Três restrições eram impostas aos nazireus. Primeiro, devi­am se abster de vinho, bebida forte, vinagre, uvas e suco de uvas. Em segundo lugar, não podiam cortar os cabelos. Em terceiro lugar, deviam evitar qualquer contato com cadáveres, ainda que de familiares. Os nazireus deviam ser disciplinados quanto ao apetite, ter aparência característica e ser cuidadosos quanto a suas companhias. 

Se um nazireu se contaminasse em um contato acidental com um cadáver, era obrigado a passar por procedimentos de expiação (vv. 9-12). Também, ao encerrar o voto de nazireado, o indivíduo devia apresentar uma oferta de holocausto, uma pelo pecado e outra pacífica. As ofertas eram apresentadas na seguinte ordem: pecado, holocausto e pacífica (vv. 13-20). 

O capítulo 5 começa com uma observação acerca da presença de impuros no acampamento de Deus. Tais pessoas deviam pas­sar por uma quarentena, tanto homens como mulheres (5.3). O capítulo então continua asseverando: “Quando homem ou mulher fizer algum de todos os pecados humanos...”, e prossegue falando sobre relacionamentos conjugais. Da mesma forma, o voto de nazireado estava aberto “tanto ao homem como à mulher”. Ne­nhum dos sexos tem exclusividade quanto a essa posição. 

O fato desse serviço ser possível tanto para homens como para mulheres torna-se ainda mais espantoso quando se percebe que. no que diz respeito às proibições impostas ao nazireu, há grande semelhança com proibições impostas ao sumo sacerdote em rela­ção a escalões inferiores do sacerdócio. Um nazireu devia, por exem­plo, evitar qualquer contaminação advinda do contato com o corpo de um familiar morto (Nm 6.7). Isso também valia para o sumo sacerdote (Lv 21.11), mas não para sacerdotes comuns (Lv 21.1-4). O nazireu devia se abster de substâncias inebriantes (Nm 6.4). Isso também valia para Arão e seus filhos quando entravam na “tenda da congregação” (Lv 10.9). No que tange à proibição de se cortar o cabelo, o sumo sacerdote também estava sujeito à proibição análo­ga (Lv 10.6; 21.10) e sua cabeça era ungida com óleo (Lv 21.10; Êx 29.7). Ninguém era impedido de assumir o nazireado por causa de sexo, diferentemente dos ministérios sacerdotal e levítico, para os quais apenas o homem estava qualificado. 

Talvez o último parágrafo, a bênção aarônica nos versículos 21-27, esteja vinculado às informações sobre o nazireado pela ob­servação de que o nazireu devia ser “santo [...] ao Senhor” (v. 8). Isso também é válido para os sacerdotes. Eles deviam ser “santos ao seu Deus” (Lv 21.6,7 - NVI). Ademais, a seção acerca dos nazireus começa com “Fala aos filhos de Israel” (v. 2). A Arão e seus filhos, Moisés é orientado a dizer: “Assim abençoareis os fi­lhos de Israel” (v. 23). 

E importante notar que não é Arão que abençoa. Ele não é o autor, mas o transmissor da bênção. E o Senhor, e somente o Se­nhor (perceba que o Tetragrammaton é utilizado por três vezes na bênção), que abençoa. O Senhor se ocupa de “abençoar e guar­dar” seu povo. O verbo “abençoar” é bastante conhecido dos leito­res da Bíblia. Já o significado do verbo “guardar” é menos conhe­cido. Esse verbo aparece cerca de 450 vezes na Bíblia e, segundo Paul Riemann19, “não vemos nenhum caso em que a guarda de um ser humano por outro esteja claramente expressa em uma aliança ou mesmo que seja admissível como obrigação social”. O Senhor, e somente o Senhor, é aquele que guarda. 

Ele também faz “resplandecer o seu rosto” e “levanta o seu ros­to” sobre seu povo. E muito interessante a possibilidade de que, envolvida nessa bênção, tenhamos a utilização deliberada da fi­gura de um tribunal. Deus, como um rei, concede de forma graci­osa uma audiência a seus súditos. Ele não se mostra indiferente. Em outras partes das Escrituras, a expressão “levantar o rosto” é utilizada em um sentido bastante específico. Em Jó 42.8,9, lemos: “Meu servo Jó orará por vocês; eu aceitarei a oração dele [...] e o Senhor aceitou a oração de Jó” (NVI). Em ambos os casos, “acei­tar” é literalmente “levantar o rosto”. Para Deus, “levantar seu rosto” sobre seu povo significa aceitá-los, exibir sua face em um sorriso, dar-lhes um olhar de aprovação. De maneira semelhante, Jacó esperava que os presentes enviados ao irmão fizessem com que Esaú o “aceitasse”; literalmente, que ele “levantasse sua face” para Jacó (Gn 32.20 [MT20 v. 21]). Em contrapartida, “descair o semblante” é “franzir o cenho” (ver Gn 4.6 e Jr 3.12). 

E curioso observar que, em hebraico, a extensão de cada uma das três linhas da bênção aumenta em duas palavras a cada linha: 

v. 24: O-Senhor te-abençoe e-te-guarde (3 palavras) 

v. 25: O-Senhor faça-resplandecer o-seu-rosto sobre-ti e-tenha- misericórdia-de-ti (5 palavras) 

v. 26: O-Senhor sobre-ti levante o-seu-rosto e-te dê a-paz (7 palavras) 

Talvez a seqüência descrita em Números 1—6 seja um proces­so de causa e efeito. Havendo obediência e compromisso com uma vida de santidade (1.1—6.21), o resultado é a presença de um Deus abençoador (6.22-27). 

“Ofertas perante o Senhor” (7.1—10.10) 

As informações contidas no capítulo 7 antecedem as informa­ções nos capítulos 1—6 por um mês. Moisés terminou a constru­ção do Tabernáculo no segundo ano, no primeiro mês, ao primeiro do mês (ver Ex 40.17). Já Números 1 está datado de um mês mais tarde: no segundo ano, no segundo mês, ao primeiro do mês. Há. contudo, uma associação entre o fim do capítulo 6 e o início do 7. O capítulo 6 encerra-se destacando o que Deus quer para seu povo: o 7 enfatiza o que o povo quer fazer para Deus. O Deus que aben­çoa no fim do capítulo 6 é o Deus que recebe no capítulo 7. O fato de os dons de Deus precederem as ofertas a Deus demonstra que qualquer oferta a Ele é uma resposta às dádivas divinas, não um meio de obter suas bênçãos. 

O capítulo 7 é o mais longo do Pentateuco e trata das ofertas dos príncipes das tribos para o Senhor. Os versículos 12-88 identificam cada líder tribal e a oferta trazida ao Tabernáculo, começando pela tribo de Judá e terminando com a de Naftali. Em todos os relatos, o indivíduo não devia trazer apenas utensílios (uma bandeja de pra­ta ou um vaso de ouro), mas também vários animais para as se­guintes ofertas: manjares, holocaustos, pelo pecado e pacíficas, sem­pre nessa ordem. Adorar a Deus não é lhe dar uma gratificação, mas entrar em comunhão por meio do sacrifício. 

A parte do capítulo 7 que trata das ofertas (vv. 12-88) é mais uma vez precedida por uma informação que deixa bem clara a seriedade e a importância da santidade de Deus (vv. 1-11). Coube aos líderes de Israel fornecer os carros para o transporte do equi­pamento do Tabernáculo (vv. 1-8), porém as “coisas santíssimas” ficavam de fora, pois deviam ser levadas nos ombros dos coatitas (v. 9). Números 4.1-15 deixa claro que os coatitas não deviam des­montar as “coisas santíssimas”, mas que essa tarefa pertencia aos sacerdotes. Além disso, as “coisas santíssimas” não podiam ser empilhadas em cima de carros, porém seu transporte devia ser feito por humanos. 

O capítulo conclui (v. 89) com a informação de que Deus falou a Moisés a partir do Santo dos Santos. O texto simplesmente diz: “Moisés ouvia a voz” (NVI). O texto não diz que ele viu ao Senhor. A comunhão de Deus com Moisés é auditiva, não visual. O Senhor é ouvido, não visto, porque Moisés não entra no Santo dos Santos. Ele se detém na cortina/véu que separa o Lugar Santo do Santo dos Santos. Não restam dúvidas de que Deus se comunicou com Moisés de um modo único, que não vemos em relação a mais nin­guém; porém, mesmo para ele, havia restrições. 

O capítulo 8 fala sobre a consagração dos levitas. O trecho é bastante semelhante a Levítico 8, que fala sobre a ordenação dos sacerdotes aarônicos, mas traz uma diferença fundamental. Os sacerdotes, ao serem ordenados, são “consagrados/santificados” (Ex 29.1,21,23; Lv 8.12,30). Os levitas, ao iniciarem seu ministério, são “purificados” (Nm 8.7[2x],15,21[2x]). Uma possível relação entre os capítulos 7 e 8 reside no fato de que ambos falam sobre “dádi­vas”. O capítulo 7 descreve as ofertas feitas pelo povo a Deus (ver 7.3); o 8 descreve as dádivas de Deus para seus sacerdotes, ou seja, os levitas (ver 8.19). A descrição do culto de consagração propria­mente dito (w. 5-22) é precedida por um curto parágrafo (w. 1-4), o qual relembra a responsabilidade dos sacerdotes aarônicos no acendimento das lâmpadas do Tabernáculo (ver Ex 25.31-40; 27.20,21; Lv 24.2-4). E, portanto, a segunda vez que Números uti­liza um trecho dirigido aos sacerdotes como prefácio de informa­ções para os levitas (4.5-15a: sacerdotes; 4.15b-49: levitas). 

O ritual de consagração dos levitas é quase exclusivamente uma cerimônia de purificação. Os levitas precisam de “purifica­ção” (vv. 6,7[2x],15,21). Eles devem “se purificar” (v. 21). São obri­gatórias uma oferta de holocausto e outra pelo pecado (v. 12). De forma muito semelhante ao animal para o sacrifício, os levitas substituem o primogênito e, como tal, recebem imposição de mãos (vv. 10,11,16,18). Eles possuem a função de evitar que a ira divina destrua Israel (v. 19) e fazem isso repelindo todo e qualquer inva­sor (ver 1.53; 18.5). 

Jacob Milgrom21 explicou o raciocínio por trás da ênfase expiatória da consagração dos levitas. Sua explicação se concen­tra no uso da palavra hebraica para trabalho/ministério/serviço/ ofício, nos versículos 11, 15, 19, 22, 24, 26: “Eu diria que ‘serviço’, no capítulo 8 de Números, significa todo tipo de trabalho de remo­ção [...] Somente essa visão poderia explicar a necessidade dos rituais de purificação que acompanham o culto de iniciação dos levitas. A realização do serviço de guarda, tanto perto como longe do Tabernáculo, envolve contato com o santuário. As operações de remoção, considerando que a manipulação direta do santuário é função exclusiva dos levitas, exigiriam aspersões purificadoras e sacrifícios”. 

Ao revisar o conteúdo dos capítulos de Números em função do alvo da mensagem, temos o seguinte: 1—2: leigos; 3—4: clero; 5— 6.21: leigos; 6.22-27: clero; 7.1-89: leigos; 8: clero. 

Números 9.1-14 traz-nos de volta aos leigos e, em especial, à questão do adiamento da Páscoa. Em certos casos, a Páscoa pode ser observada um mês mais tarde; ou seja, no segundo mês em vez de no primeiro (vv. 3,5,11). Quais motivos, porém, são válidos para o adiamento da Páscoa? Duas situações são listadas. Se al­guém estiver longe de casa, em viagem, ou ficar impuro por haver tocado um morto (v. 10), o adiamento é inevitável. Recusar-se a observar a Páscoa por qualquer outra razão faz com que o acusa­do seja “extirpado” do meio do povo. Eis, uma vez mais, aquele sinistro tom de aviso e alerta. Se você estiver impuro e, portanto, indigno de estar na presença de Deus, adie a Páscoa. Caso contrá­rio, não tente se esquivar de suas responsabilidades para com Deus na adoração. 

O fornecimento de informações acerca da celebração da Pás­coa, logo antes de o povo sair do Monte Sinai em direção a Canaã. corresponde à mesma seqüência de informações sobre a primeira Páscoa (Ex 12.1-28), passada logo antes de o povo deixar o Egito rumo ao Monte Sinai (Ex 12.29-51). Em ambas as ocasiões, antes que o povo de Deus possa seguir em frente, é preciso celebrar o dia em que Deus passou por eles sem tocá-los. 

A conclusão do capítulo 9 é bastante parecida com a do 6. No capítulo 6, o trecho destaca a presença divina que abençoa. É a face de Deus que brilha. No capítulo 9, o trecho enfatiza (vv. 15­23) a presença divina que orienta. Uma nuvem que pairava no ar indicava o local do acampamento. Ao subir, a nuvem indicava a direção a ser seguida pelos israelitas. O uso contínuo da palavra “nuvem” nesses versículos (a palavra aparece onze vezes nos w. 15-23) indica que os israelitas viajavam sob a luz do dia, quando as nuvens são visíveis no céu (ver, contudo, o v. 21b). E óbvio que teria feito mais sentido viajar principalmente sob a cobertura da noite, tanto para se protegerem dos inimigos como do sol escaldante do deserto. Deus, no entanto, raramente se deixa pren­der pela lógica e pela praticabilidade do homem. 

O trecho encerra-se fazendo referência a duas trombetas de prata (10.1-10). Tais instrumentos deviam ser utilizados em de­terminadas festas, no início do ano, para reunir a congregação ou para levantar acampamento. Os versículos 5-7 frisam que as trombetas soavam um tipo de alarme, semelhante a uma sirene mili­tar. Dessa forma, as trombetas seriam mais para emergências que para música ou adoração. Os instrumentos musicais tinham um papel quase insignificante no ministério sacerdotal2. O livro de Levítico, que se dedica em grande parte à questão da adoração individual e comunitária, principalmente nos capítulos 1—16, não faz qualquer menção a música. 

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14       Prova judicial apelando para o juízo de Deus, recorrendo a meios como o
duelo, o ferro em brasa, a água fervente. Se o acusado sobrevivesse era inocente; se perecesse, era culpado. (N. do T.)
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