3 de fevereiro de 2017

TREMPER LONGMAN III - Lendo Gênesis como cristão

antigo testamento danilo moraesLENDO GÊNESIS COMO CRISTÃO

Neste capítulo final passamos a uma leitura cristã do livro de Gênesis. Para muitos, inclusive inúmeros cristãos, a ideia de uma “leitura cristã” é absurda e deturpadora. Alegam que temos de nos resguardar para não fazermos com que ideias e desdobramentos tardios sejam impostos aos antigo texto israelita.

De fato, é preciso ouvir tais advertências porque algumas interpretações tremendamente fantasiosas têm sido apresentadas por alguns que enxergam Cristo nas entrelinhas do Antigo Testamento. Por isso, temos de ter cuidado quando falamos sobre ele no livro de Gênesis. Entretanto, conforme mencionado no capítulo dois, o próprio Jesus encoraja em seus seguidores a expectativa de ler a respeito dele no Antigo Testamento (Lc 24.22-27, 44-48).

No que apresento em seguida não estou afirmando que o autor (ou autores) de Gênesis teve consciência detalhada de como suas palavras se cumpririam na história da redenção. Já expressamos, porém, nosso entendimento de que existe um Autor últi¬mo por trás do autor humano. Não poderíamos supor quais foram as intenções do Autor se não fosse pelo Novo Testamento. Revelação posterior expõe a relevância plena dessas palavras antigas, e é a partir dessa perspectiva do Novo Testamento que lemos agora o livro de Gênesis.

Deve ficar claro para nós o que estou fazendo na secção a seguir. Estou apresentando exemplos de uma leitura cristológica de Gênesis. Não faço nenhuma tentativa de esgotar o assunto. Nem estou interessado no uso mais amplo que o Novo Testamento faz do Antigo.

Meu interesse é restrito porque creio que este elemento crucial da interpretação do Antigo Testamento está ausente em boa parte da leitura e pregação do Antigo Testamento para prejuízo da igreja. A falta de um reconhecimento da dimensão cristológica conduz a uma desvalorização da pregação baseada no Antigo Testamento. Ou, quando se prega o Antigo Testamento, a mensagem é frequentemente apenas de natureza moral. Com certeza o Antigo Testamento deve ser pregado e lido por suas lições éti¬cas, mas há nele muito mais que isso, e é para esse “mais” que Jesus está nos dirigindo em Lucas 24.

Quer aceitemos ou não Moisés como o autor de Gênesis, todos reconhecemos que foi escrito e finalmente editado bem antes da época de Jesus Cristo. No entanto, os autores do Novo Testamento entendem que sua mensagem é relevante para o evangelho de Jesus Cristo, o que fica demonstrado nas repetidas citações de Gênesis.

O próprio Jesus convidou, até mesmo exigiu, que seus discípulos lessem o Antigo Testamento inteiro à luz de seu sofrimento e glorificação que estavam por vir. Os autores do Novo Testamento aparentemente o fizeram (Lc 24), e também devemos fazê-lo. As interpretações de Gênesis encontradas no Novo Testamento não eram necessariamente aquelas a que teriam chegado o público original ou o autor (ou autores) do livro do Antigo Testamento. Podem ter tido uma ideia de que a mensagem possuía um sentido que ia além daquilo que sabiam conscientemente, mas foi necessário o acontecimento em si para iluminar as profundezas do significado do livro de Gênesis. Assim que Cristo veio, seus seguidores perceberam o sentido pleno do livro.

Isso não significa que os autores do Novo Testamento nem seus leitores modernos não possam impor um sentido ao texto, sentido cristológico não é algo externo ao texto em si. Deriva do texto. Não existe um sentido nem um código secreto que exijam uma chave para decifrarmos o livro. Leituras cristológicas apropriadas do Antigo Testamento não são forçadas nem arbitrárias.

Ainda que seja completamente impossível esgotarmos nossa leitura cristológica de Gênesis, ela pode nos levar à reflexão. Apa­nharemos quatro textos importantes e exploraremos como o Novo Testamento os trata em relação a Jesus Cristo. Iniciaremos com o denominado protoevangelho, então passaremos à promessa de uma semente ou descendentes feita a Abraão, ao relato sobre Melquisedeque e, finalmente, consideraremos José como uma persona­gem que antecipa Jesus.

Gênesis 3.15: o protoevangelho

Porei inimizade entre ti e a mulher, entre a tua descendência e o seu

descendente. Este te ferirá a cabeça, e tu lhe ferirás o calcanhar.

O contexto literário. Gênesis 3.15 faz parte da maldição contra a serpente. Os dois primeiros capítulos são um relato da criação do cosmo e de seres humanos nos quais Adão e Eva desfrutam de um relacionamento íntimo com Deus e um com o outro no jardim do Éden. Gênesis 2 termina com uma nota de paz e harmonia.[1]

Em Gênesis 3 a serpente aparece e engana a mulher, a qual come da árvore proibida do conhecimento do bem e do mal. Adão, o marido, que estava junto dela durante o diálogo que ela travou com a serpente, come sem oferecer qualquer resistência. A essa altura Deus intervém e castiga cada um dos três participantes da rebelião. Ele começa com a serpente, e Gênesis 3.15 pertence a esta parte do relato.

Como os autores do Novo Testamento teriam entendido Gênesis 3.15 nos desdobramentos da esteira da morte e ressur­reição de Cristo?

Lendo o versículo em seu contexto antigo. Se nos imaginarmos ouvindo essa história na época de Moisés (para não falar do período em que ela está situada), temos de admitir que a identi­dade da serpente é um tanto quanto difícil de entender e expli­car. Até este ponto da narrativa tudo que ficamos sabendo é que Deus criou todas as coisas, inclusive todas as criaturas, e as decla­rou “boas”. Até aqui na narrativa não temos nenhuma indicação de qualquer coisa dando errado.

De onde é que este “mais sagaz que todos os animais selváti­cos” (Gn 3.1) surgiu? E como a serpente pode ser assim má de uma forma tão ostensiva, falando algo que se opunha a seu Criador e seduzindo as criaturas humanas de Deus para que se juntassem a ela naquilo que pareceu uma rebelião? A narrativa não nos explica, e as tentativas que alguns leitores da Bíblia fazem de encai­xar uma queda de anjos entre os dois primeiros versículos de Gênesis mostram como as pessoas estão desesperadas por chega­rem a uma explicação. De fato, não existe em nenhum lugar da Bíblia uma explicação de como o mal foi introduzido inicialmente no cosmo. Conquanto o espaço aqui não permita uma refutação, os argumentos apresentados com base em Isaías 14 e Ezequiel 28 não são críveis.[2] A serpente simplesmente aparece sem nenhuma explicação de sua origem.

Além do mais, a maldição contra a serpente é provocadora­mente ambígua quando lida em seu contexto antigo. Como é que alguém, durante o período do Antigo Testamento, entendia a refe­rência à “tua descendência [isto é, da serpente]” e o “seu descen­dente [isto é, da mulher]”? É extremamente duvidoso que Gênesis 3.15 tenha sido lido num sentido messiânico durante o período do Antigo Testamento. Certamente não se pode demonstrar tal leitura. O fato de que o texto não é usado nem desenvolvido em livros canônicos posteriores é uma boa indicação dessa verdade.

Dentro do contexto dos capítulos que seguem, é possível apresentar uma defesa incisiva da ideia de que a semente da mulher se refere àqueles descendentes da mulher que estão do lado de Deus (cf. a genealogia de Sete, em Gn 5), e que a semente da serpente são aqueles que resistem a Deus (cf. a genealogia de Caim, em Gn 4.17-26).

Apesar disso, também está claro que os autores do Novo Tes­tamento, que estão lendo Gênesis depois de Cristo, entenderam que Gênesis 3.15 tem um sentido mais profundo e último. Não há dúvida de que isso é ajudado pelo fato de que a igreja primitiva identificou a serpente com Satanás, e Jesus Cristo com a “semente (isto é, descendente) da mulher”.

No final do livro de Romanos, Paulo encoraja seus leitores com as seguintes palavras: “E o Deus da paz, em breve, esmagará debaixo dos vossos pés a Satanás. A graça de nosso Senhor Jesus seja convosco” (Rm 16.20). Aqui Paulo claramente identifica Satanás com a serpente. Afinal, Satanás será pisado e esmagado. O agente da destruição de Satanás é, contudo, a igreja, com a qual a Bíblia afirma que Cristo está presente. Embora o povo de Deus vá ser o agente da ruína de Satanás, é o Deus de paz que será a força por trás da vitória do povo.

Uma segunda passagem, Hebreus 2.14,15, cita Gênesis 3.15 mas de forma menos clara, mas muitos[3] defendem que nessa passagem existe uma alusão a Gênesis:

Uma vez que os filhos têm participação comum de carne e sangue, destes também ele, igualmente, participou, para que, por sua morte, destruísse aquele que tem o poder da morte, a saber, o diabo, e li­vrasse todos que, pelo pavor da morte, estavam sujeitos à escravidão por toda a vida.

Essa passagem fala de Jesus, mediante sua morte, romper o poder do diabo e, consequentemente, da necessidade de ele assu­mir forma humana. Talvez seja dessa maneira que Paulo, na pas­sagem anterior, creia que o Deus de paz esmagou Satanás debaixo dos pés de seres humanos.

O terceiro lugar onde encontramos linguagem associada a Gênesis 3.15 e aplicada a Satanás e a Cristo se acha no livro de Apocalipse:

Houve peleja no céu. Miguel e os seus anjos pelejaram contra o dragão. Também pelejaram o dragão e seus anjos; todavia, não prevaleceram; nem mais se achou no céu o lugar deles. E foi expulso o grande dragão, a antiga serpente, que se chama diabo e Satanás, o sedutor de todo o mundo, sim, foi atirado para a terra, e, com ele, os seus anjos. (Ap 12.7-9)

Aqui a associação com Gênesis 3.15 também é óbvia. Satanás é chamado de “a antiga serpente”, uma alusão inconfundível ao texto que estamos considerando.

Resumindo então, a igreja primitiva leu o relato de Gênesis 3 e não pôde deixar de ver a serpente associada com Satanás, agora entendida de modo mais completo com base em revelação posterior. Também entendeu que esmagar Satanás era algo que estava acon­tecendo em ligação com a vitória de Cristo sobre ele na cruz.

É essa uma leitura equilibrada do texto? E. Seria difícil ver como, depois de Jesus, a igreja poderia ler o texto de qualquer outra maneira. À época dos autores do Novo Testamento, Satanás é uma personagem bem mais caracterizada na Bíblia. Deus revela pro­gressivamente sua verdade ao seu povo, e, no período posterior do Antigo Testamento e na época do Novo Testamento, o povo de Deus veio a conhecer de forma bem mais profunda a natureza pes­soal do mal. Retornando a Gênesis 3, é difícil deixar de ver na serpente o caráter de Satanás. Uma vez feita essa ligação, seria ainda mais difícil deixar de ver a ligação entre Jesus e a semente da mulher. Aqui a mulher é Eva, e Jesus, plenamente humano e tam­bém plenamente divino, é o “filho de Eva”. Na crucificação de Jesus, Satanás fere o seu calcanhar; ele causa dano em Jesus, mas não dá fim totalmente nele; Deus o ressuscita dos mortos. Graças à ressurreição, a igreja entendeu isso como a derrota de Satanás. Sem dúvida essa derrota é um evento já-mas-ainda-não, pois Sata­nás e o mal não estão extintos até a segunda vinda (Ap 20.7-10), mas essa vitória é certa. Por isso leitores cristãos podem retornar a Gênesis 3 e ler ali o primeiro anúncio do evangelho (boa notícia). E melhor reconhecer que os primeiros leitores podem não ter reconhecido isso, mas que os propósitos últimos do autor são re­conhecidos pelos autores do Novo Testamento ao lerem o Antigo Testamento à luz da pessoa e obra de Jesus Cristo.

Antes de deixarmos este tópico para trás, devemos, entretan­to, considerar mais um fator. Embora o Novo Testamento seja o primeiro a associar Gênesis 3.15 à obra de Jesus, não é o primeiro a identificar a serpente com Satanás nem o agente de destruição com o Messias. Para isso podemos recorrer à literatura judaica que provém do período entre os testamentos.

Gênesis 12.1-3: a semente de Abraão

Em Gênesis 12, Deus promete a Abraão que “de ti farei uma grande nação” (v. 2). Essa promessa deixa implícitas tanto uma terra quanto descendentes. E, no que diz respeito a descendentes, a promessa é, com frequência, explicada de conformidade com as ideias encontradas em Gênesis 15.5: “Então, [o Senhor] condu­ziu-o até fora e disse: Olha para os céus e conta as estrelas, se é que o podes. E lhe disse: Será assim a tua posteridade”. Em outras palavras, o cumprimento dessa promessa está claramente associado à multiplicação dos descendentes de Abraão, mais tarde conheci­dos como os israelitas. Por esse motivo é surpreendente encontrar Paulo elaborar o seguinte raciocínio em Gálatas 3.15, 16:

Irmãos, falo como homem. Ainda que uma aliança seja meramente humana, uma vez ratificada, ninguém a revoga ou lhe acrescenta alguma coisa. Ora, as promessas foram feitas a Abraão e ao seu descendente. Não diz: E aos descendentes, como se falando de muitos, porém como de um só: E ao teu descendente, que é Cristo.

E ao teu descendente, que é Cristo! É mesmo verdade? Paulo conhecia o Antigo Testamento com muitíssima profun­didade. Sabemos disso pois ele é descrito em Atos 22.3 como um aluno do renomado rabino Gamaliel, aos pés de quem foi ins­truído “segundo a exatidão da lei de nossos antepassados”. Com certeza ele sabia e declarava que as Escrituras hebraicas afirmavam que a promessa abraâmica estava cumprida nos filhos de Israel.

Mesmo assim Paulo está lendo o Antigo Testamento à luz do evento Cristo e enxerga um cumprimento ainda mais importante da promessa da aliança no próprio Jesus. E, de conformidade com a prática exegética bem comum do primeiro século, ele explora o fato de que o termo descendente ou semente, que aparece em Gênesis 3, é um substantivo coletivo. E, no contexto do raciocínio mais amplo de Gálatas como um todo, segundo o qual a lei (a aliança mosaica) não supera a fé (a aliança abraâmica), Paulo assevera que a promessa abraâmica tem em Cristo seu derradeiro cumprimento.

Por isso, hoje em dia, quando cristãos leem Gênesis 12.1-3, ao mesmo tempo em que declaram seu cumprimento no Antigo Testamento mediante os descendentes biológicos de Abraão, o cumprimento mais importante é em Cristo. Dessa forma os cris­tãos se veem envolvidos na promessa abraâmica de uma semente, porque, de acordo com Gálatas 3.29, “se sois de Cristo, também sois descendentes de Abraão e herdeiros segundo a promessa”.

Gênesis 14.17-20: Melquisedeque

De acordo com o livro de Hebreus, Jesus é um sacerdote na linha­gem de Melquisedeque. Aliás, duas longas passagens desenvol­vem essa ideia (Hb 4.14—5.10; 7.1—9.13), mas a ideia básica está expressa nos seguintes versículos:

E, tendo sido aperfeiçoado, tornou-se o Autor da salvação eterna para todos os que lhe obedecem, tendo sido nomeado por Deus sumo sacerdote, segundo a ordem de Melquisedeque. (Hb 5.9,10)

Nossa atenção é dirigida a essas referências que ligam Cristo a Melquisedeque, uma vez que nosso primeiro encontro com este último ocorre numa passagem enigmática em Gênesis 14:

Após voltar Abrão de ferir a Quedorlaomer e aos reis que estavam com ele, saiu-lhe ao encontro o rei de Sodoma no vale de Savé, que é o vale do Rei. Melquisedeque, rei de Salém, trouxe pão e vinho; era sacerdote do Deus Altíssimo; abençoou ele a Abrão e disse:

Bendito seja Abrão pelo Deus Altíssimo,

que possui os céus e a terra; e bendito seja o Deus Altíssimo,

que entregou os teus adversários nas tuas mãos.

E de tudo lhe deu Abrão o dízimo. (Gn 14.17-20)

O contexto. O relato do encontro de Abraão com Melquise­deque se encontra no contexto da narrativa de Abraão, mas nos dá a impressão de ser uma interrupção do tema principal de Gênesis 12—26, o qual trata-se da promessa divina de que Deus fará uma grande nação a partir dos descendentes dele, e o centro da narrativa é a primeira etapa no cumprimento dessas promessas, a saber, Abraão e Sara terem uma criança. Esta última é estéril, e, por esse motivo, parece que o cumprimento da promessa corre risco. De forma geral a história de Abraão diz respeito à reação do patriarca aos obstáculos a esse cumprimento (ver p. 157-165 para uma explicação mais completa).

Gênesis 14 parece ter uma função diferente. O capítulo começa com a descrição de uma incursão militar de quatro reis de fora da terra de Canaã contra cinco reis, presumivelmente de Canaã, liderados pelos reis de Sodoma e Gomorra. Por vários anos os cinco reis de Canaã tinham estado em sujeição ao rei Quedor­laomer, o chefe da outra coalizão. A coalizão de Querdorlaomer estava reagindo a uma revolta e veio para novamente impor sua autoridade a seus vassalos. Nesse processo, a coalizão derrotou outras tribos, algumas das quais têm grande reputação como guer­reiras (os refains, os zuzins, os emins, os horeus, todos os amale- quitas e todos os amorreus). Quando os cinco reis enfrentaram a coalizão de Quedorlamoer, foram dispersos, e nisso Ló, que era sobrinho de Abraão e havia se mudado para as vizinhanças de Sodoma e Gomorra (Gn 13), foi capturado.

Logo Abraão foi informado desse desastre e partiu com 318 homens e derrotou a coalizão de reis estrangeiros, não somente resgatando Ló, mas também recuperando o que mais os reis haviam tomado da coalizão cananéia. Foi na volta que Abraão teve esse encontro com Melquisedeque. Depois de prestar tributo a Melquisedeque, Abraão se distancia dos outros reis da terra, ao se recusar a tomar qualquer coisa do despojo para si.

Ligações neotestamentárias. Por que o livro de Hebreus liga Jesus a Melquisedeque, e qual é a importância dessa ligação? Uma interpretação popular dessa relação é que Melquisedeque é uma cristofania do Antigo Testamento, ou seja, Melquisedeque é Jesus. Mas, pelo contrário, sugiro que a ligação com Jesus é resultado da natureza enigmática da introdução de Melquisedeque na narra­tiva e também de alguns dos detalhes de sua descrição.

Melquisedeque aparece repentina e inesperadamente, com praticamente nenhuma explicação. Quando lemos esse relato, ter­minamos com a pergunta sobre a identidade dessa pessoa. O que é que Abraão está fazendo ao reconhecer um rei-sacerdote cananeu como alguém da sua própria religião? Mais ainda, ficamos surpresos com o fato de que Abraão honra Melquisedeque como alguém superior, presenteando-o com o dízimo dos despojos. Ademais, seu próprio nome sugere muita importância, muito embora não possamos ser dogmáticos quanto aos detalhes. Isto é, é constituído de dois elementos: “rei” (melekh) e “justiça” (tsedeq). Permanecem de pé perguntas sobre se seu nome significa “meu rei é justo” ou “o rei de justiça”. Também não está claro se uma das duas partes do nome deve ser entendida como um nome ou epí­teto divino. Ainda outra incerteza tem a ver com o local onde isso ocorre. O nome indicado é Salém, que em outra passagem apa­rece em paralelo com Sião (SI 76.2), o que aponta fortemente para Jerusalém,[4] mas outros acreditam que é um local associado com a palavra paz e talvez indique outro lugar.

Parece-me que o autor de Hebreus, lendo o Antigo Testa­mento à luz do evento Cristo, explora a ambiguidade do relato a fim de fazer importantes afirmações teológicas sobre Jesus.

Entretanto, antes de nos dirigirmos diretamente para o livro de Hebreus, é importante assinalar que o único outro lugar da Bíblia que menciona Melquisedeque é o salmo 110. Esse salmo, entendido em seu contexto do Antigo Testamento, é um salmo régio especialmente apropriado para a acessão de um rei davídico, O primeiro versículo cita Yahweh, “o Senhor”, dizendo ao “meu Senhor” (o rei humano) para se assentar do lado direito de Deus enquanto ele derrota os inimigos do rei. Aqui devemos reparar na semelhança com outro grande salmo de acessão real, o salmo 2, que pronuncia uma bênção divina sobre o rei davídico e prediz seu sucesso e vitória. Esse salmo também se relaciona ao estabelecimento da aliança davídica em 2Samuel 7. No con­texto em questão, o rei davídico é proclamado sacerdote dentro da ordem de Melquisedeque (v. 4). E claro que o rei israelita não podia agir como um dos sacerdotes arônicos, visto que estes são levitas. Mas Melquisedeque é uma associação mais apro­priada porque foi um rei-sacerdote que governou na cidade de Salém — (Jeru)salém.

Contudo, a história dos descendentes de Davi não é uma história feliz. Depois de Davi raramente esses reis chegaram a servir o Senhor com uma dedicação e paixão exclusivas (Ezequias e Josias são os mais notáveis entre as exceções). Perto do fim do período do Antigo Testamento, ficou claro que esses textos esta­vam esperando para serem associados com um futuro rei messiâ­nico ideal, e os autores do Novo Testamento reconheceram, então, que Jesus era o Messias aguardado fazia muito tempo.

É assim que o autor do livro de Hebreus lê Gênesis 14 e Sal­mos 110, e reconhece Jesus. É errado pensar em Melquisedeque como uma aparição pré-encarnada de Jesus. É igualmente errado que esses textos sejam profecias messiânicas cujo único propósito é prenunciar a vinda de Jesus. Pelo contrário, quando o autor de Hebreus quis falar de Jesus como o derradeiro sacerdote, aquele que sobrepuja até mesmo Arão, a história enigmática de Melquisedeque foi um meio de exprimir essa verdade. Afinal, assim como Abraão honrou Melquisedeque, Levi mais tarde foi “gerado por seu pai” (isto é, por Abraão), e, desse modo, não somente Arão mas todos os levitas estavam simbolicamente reco­nhecendo a superioridade de Melquisedeque. Além disso, visto que Salmos 110 sugere uma combinação dos papéis de sacer­dote e rei-guerreiro, o autor de Hebreus entendeu que Jesus era a expressão mais perfeita desses papéis, sobrepujando até mes­mo o rei davídico que era o referente mais imediato desse poe­ma. De fato, em seu contexto no Antigo Testamento, o cenário mais provável é o de um hino de coroação. Esta última associa­ção é particularmente compreensível, considerando-se a relação entre Davi e Jesus, que é frequentemente descrito como filho de Davi (p. ex., Mt 1.1; 9.27; 12.23; 22.43, 45 [citando SI 110]; Rm 1.3; 2Tm 2.8) com a intenção de mostrar que ele é o cum­primento da aliança davídica, que declarava que um filho de Davi reinará para sempre (2Sm 7).

Com certeza os leitores primeiros e provavelmente o escritor de Gênesis 14, não teriam antecipado como o autor de Hebreus empregaria a narrativa acerca de Melquisedeque. Entretanto, à luz da experiência de Jesus Cristo, o autor inspirado de Hebreus não pôde deixar de reconhecer a associação.[5] Mas existe um sacer­dote maior ou um rei-guerreiro maior do que Jesus?

Gênesis 37—50: José e Jesus

Finalmente chegamos à história de José. Em nenhuma passa­gem do Novo Testamento José se encontra associado a Jesus.

Com certeza não existe nada parecido com profecia na narrativa sobre a vida de José. Entretanto, ler sobre a vida dele à luz do evangelho, conduz o leitor sensível a observar uma analogia entre a maneira como Deus operou a salvação por meio da vida de José e como ele o fez de modo tão supremo na vida de Jesus. José foi o agente divino no resgate da família de Deus. Jacó e sua família, a semente de Abraão, sobreviveram à fome porque José esteve numa posição de fornecer-lhe cereal. Por que estava ali? Por causa de uma série de ações perversas por parte de seus irmãos e de outros. Nas palavras de José: “Vós, na verdade, in­tentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida” (Gn 50.20). Deus utilizou feitos maus de outros para operar a sobrevivência de seu povo.

Ouvimos um tema parecido na reflexão que Pedro faz da morte de Cristo em Atos 2.22-24:

Varões israelitas, atendei a estas palavras: Jesus, o Nazareno, varão aprovado por Deus diante de vós com milagres, prodígios e sinais, os quais o próprio Deus realizou por intermédio dele entre vós, como vós mesmos sabeis; sendo este entregue pelo determinado desígnio e presciência de Deus, vós o matastes, crucificando-o por mãos de iníquos; ao qual, porém, Deus ressuscitou, rompendo os grilhões da morte; porquanto não era possível fosse ele retido por ela.

Enquanto os soldados romanos estavam cravando as mãos de Cristo na cruz, estavam cumprindo o plano divino de reden­ção. O que planejaram para o mal, Deus planejou para a sal­vação do mundo.

Conclusão

Neste capítulo não seguimos as instruções de ninguém mais do que o próprio Jesus, o qual, em Lucas 24, ensinou seus discípulos a lerem o Antigo Testamento à luz de sua vinda. Escolhi uns poucos textos representativos a fim de revelar como, enquanto lemos o antigo texto de Gênesis, devemos ser sensíveis ao fluir da história redentora que culmina em Jesus.

Princípio de interpretação. Depois de lermos Gênesis como se fôssemos parte do público original, devemos, então, lê-lo com o conhecimento pleno da história redentora que segue particular­mente a morte e ressurreição de Cristo. E nesse uso que os auto­res do Novo Testamento fazem do material de Gênesis, que deve ser moldado o nosso pensamento. 




[1] Para um relato mais completo desses capítulos, veja p. 123-138. Este breve sumário é apresentado aqui por conveniência para o leitor. 


[2] Consulte qualquer comentário moderno sobre esses capítulos. 


[3]Veja, por exemplo, Gordon Wenham, Genesis 1—15, série Word Biblical Commentary (Waco: Word, 1987), p. 80. 


[4] Esta posição entende que uru é um antigo determinativo que precede e indica o nome de uma cidade. 


[5] Especialmente à luz do fato de que a literatura judaica do período logo antes de Jesus entendia o salmo 110 messianicamente (manuscritos do mar Morto [o Gênesis apócrifo, lQapGen, e o rolo de Melquisedeque, llQMelch]) bem como a interação de Jesus com líderes judeus em Mt 22.41-45.