18 de fevereiro de 2017

ROY B. ZUCK - A transposição do abismo cultural

A transposição do abismo cultural

 Não levar em consideração o contexto consiste num dos problemas mais graves na interpretação bíblica. Se desconsiderarmos o “meio envolvente” de um versículo bíblico, poderemos acabar interpretando-o de forma completamente errada. Precisamos levar em conta as frases e os parágrafos que antecedem e sucedem o versículo em questão e, ainda, considerar o contexto cultural em que aquela passagem e até mesmo o livro inteiro foram escritos.
A importância desse procedimento decorre das diferenças culturais que existem entre nossa cultura ocidental e a cultura dos tempos bíblicos. “Para entender a Bíblia adequadamente, precisamos esvaziar nossas mentes de todas as ideias, opiniões e métodos modernos e procurar transportar-nos para a época e o ambiente em que viviam os apóstolos e os profetas que a escreveram.” Quanto mais tentamos transportar-nos para o contexto histórico dos autores bíblicos e nos desvincular de nossas próprias culturas, mais cresce a probabilidade de interpretarmos as Escrituras com maior precisão.
Quando os reformadores (Martinho Lutero, Philip Melanchton, João Calvino, Ulrico Zuínglio e outros) acentuaram a necessidade do retomo às Escrituras, eles ressaltaram a interpretação histórica, gramatical. Com “histórica”, estavam-se referindo ao contexto em que os livros da Bíblia foram escritos e às circunstâncias em jogo. Com “gramatical”, referiam-se à apuração do sentido dos textos bíblicos mediante estudo das palavras e das frases em seu sentido normal e claro. Pode-se somar outro aspecto da interpretação a esses dois, a saber, o retórico. A interpretação retórica sugere estudar como as características literárias de um trecho bíblico influem em sua interpretação. Conjugando as três, podemos falar de uma interpretação histórica, gramatical e retórica. Este capítulo versa sobre a interpretação histórica, examinando as circunstâncias e o contexto cultural em que os textos foram escritos.
O contexto em que determinada passagem bíblica foi escrita influi no entendimento que se terá dela. O contexto abrange vários elementos:

• o(s) versículo(s) imediatamente anterior(es) e posterior(es);
• o parágrafo e o livro em que o versículo se encontra;
• a dispensação em que foi escrito;
• a mensagem de toda a Bíblia;
• o ambiente histórico-cultural da época em que foi escrito.
O conhecimento do contexto cultural de um trecho ajuda-nos também a entender o significado daquele documento para os que primeiro o leram.
Dada a existência de um abismo cultural entre nossa era e os tempos bíblicos — e como nosso objetivo na interpretação bíblica é descobrir o sentido original das Escrituras — é imperativo que nos familiarizemos com a cultura e os costumes de então.
A não ser que acreditemos tenha a Bíblia caído do céu de paraquedas, escrita com uma pena celestial numa língua celestial curiosa, exclusivamente adequada como instrumento de revelação divina, ou então que foi ditada por Deus direta e imediatamente, sem referência a nenhum costume regional, estilo ou perspectiva, seremos obrigados a encarar os abismos culturais. Isto é, a Bíblia retrata a cultura de sua época.
Que queremos dizer com cultura?
Os dicionários definem “cultura” como “o conjunto dos moldes de comportamento, crenças, instituições e valores espirituais e materiais característicos de uma sociedade”. Portanto, a cultura envolve o que as pessoas pensam e creem, dizem, fazem e produzem, estamos falando de suas crenças.
A cultura de um indivíduo abrange vários níveis de relacionamentos e influências — suas relações com outras pessoas e grupos, a função que exerce na família e na classe social e a nação ou governo a que está sujeito. A religião, a política, as operações militares, as leis, a agricultura, a arquitetura, o comércio, a economia e a geografia da região onde o indivíduo vive e por onde viaja, o que ele e outros escreveram e leram, o que ele veste e a(s) língua(s) que fala — tudo isso influencia seu modo de vida e, no caso de ser um autor bíblico, o que ele escreve.
Quando um missionário vai para um país de cultura diferente, precisa saber como aquele povo pensa, em que acredita, o que diz, faz e produz. Ele precisa entender a cultura local para compreender as pessoas e comunicar-se bem. Se você já viajou para o exterior, sem dúvida alguma experimentou algum tipo de “choque cultural”. Isso significa que você sentiu o impacto dos ambientes e dos hábitos diferentes do povo daquela nação. À medida que foi-se familiarizando com aqueles costumes diferentes, o choque amenizou-se.
Quando abrimos as Escrituras, é como se estivéssemos entrando num país estranho. Da mesma forma como ficamos confusos com a maneira de agir das pessoas de outros países, podemos ficar confusos com o que lemos na Bíblia. Assim, é importante sabermos o que os personagens bíblicos pensavam, em que acreditavam, o que diziam, faziam e produziam. A medida que procedemos assim, temos mais condições de compreender e transmitir essas informações com mais exatidão. Se não atentarmos nessas questões culturais, podemos ser culpados de fazer uma eisegese, que é projetar na Bíblia nossos conceitos ocidentais do século XXI. “A preocupação com o contexto força-nos a um distanciamento de nossas interpretações particulares e a voltarmo-nos para o [...] mundo do autor.”
Hoje, em vários países, é preciso conhecer os costumes locais. Na Inglaterra, dirige-se do lado esquerdo da rua. Se você se esquecer disso, certamente vai ter problemas! Nós “percebemos” costumes diferentes em grande parte da Bíblia. Então, para interpretarmos corretamente a Palavra de Deus, precisamos entender quais eram aqueles costumes e seu significado. A atenção ao estudo cultural da Bíblia permite-nos conhecer o sentido original, literal e socialmente designado da palavra, expressão ou hábito. [...] a “interpretação literal” fica aleijada sem o auxílio do estudo das culturas. Como acontece com a história bíblica, as questões culturais não são pormenores que podemos pesquisar se sobrar tempo, mas que podemos desprezar quando premidos pela falta de tempo e pelas circunstâncias. Elas são indispensáveis ao entendimento correto das Escrituras Sagradas.
Como a variedade de costumes culturais influi na interpretação de certas passagens?
Apresentamos a seguir alguns exemplos de passagens bíblicas cuja interpretação depende do conhecimento de certos aspectos do contexto cultural.
Política (nacional, internacional e civil)
1. Por que o rei Belsazar concedeu a Daniel a terceira colocação no governo babilônico, e não a segunda (Dn 5.7,16)? Porque, como nos conta a história secular, Belsazar era na realidade o segundo no comando. Nabonido, seu pai, ausentara-se do país por um período longo.
2. Por que Paulo mencionou em Filipenses 3.20 a pátria celestial de seus leitores? A cidade de Fílipos era uma colônia romana. Os habitantes de Filipos não eram cidadãos romanos, mas o imperador romano Otávio Augusto lhes concedera “direitos itálicos”, ou seja, concedera-lhes os mesmos privilégios que teriam se sua terra natal fosse a Itália. Ciente disso, Paulo escreveu a respeito de uma pátria ainda mais nobre para os cristãos de Filipos, que era a pátria celestial. Isso teria um significado todo especial para os primeiros leitores dessa epístola.
3. Por que Jonas não queria ir para Nínive? Fontes seculares dão conta de que os ninivitas cometiam atrocidades com seus inimigos. Eles decapitavam os líderes dos povos conquistados e empilhavam as cabeças. Às vezes, colocavam numa jaula um chefe capturado e tratavam-no como animal. Era seu costume empalar os prisioneiros, deixando-os agonizar até à morte. Por vezes, esticavam as pernas e os braços do prisioneiro e esfolavam-no ainda vivo. Não é de admirar que Jonas não quisesse pregar uma mensagem de arrependimento aos ninivitas! Ele achava que mereciam ser julgados por suas atrocidades.
4. Qual a razão de tamanha inimizade entre Edom e Judá durante toda a sua existência? Esse fato pode intrigar os leitores da Bíblia, a não ser que se lembrem do conflito que houve entre os gêmeos Jacó e Esaú. Esse conflito passou a seus descendentes. A nação de Judá descendeu de Jacó, e os edomitas, de Esaú. Isso explica por que Obadías referiu-se quatro vezes às montanhas de Edom como “o monte de Esaú” (Ob 8, 9,19, 21).
5. Por que Boaz foi até a porta da cidade falar com os anciãos sobre o terreno de Noemi (Rt 4.1)? A porta da cidade era o lugar oficial para a realização de negócios e para o julgamento de casos (Dt 21.18-21; 22.13-15; Js 20.4; Jó 29.7).
6. O que Jesus quis dizer quando declarou: “Se alguém quer vir após mim, a si mesmo se negue, tome a sua cruz e siga-me”? Como sabemos pelo episódio de sua morte, o indivíduo que carregava a própria cruz até o local da execução tinha sido considerado criminoso. Portanto, tomar a cruz significava seguir Jesus até à morte. Evidentemente, naquela época tomar a cruz não significava passar privações, nem suportar pessoas e circunstâncias desagradáveis.
Religião
1. Por que Moisés deu um mandamento tão estranho quanto este: “... não cozerás o cabrito no leite da sua própria mãe” (Êx 23.19; 34.26; Dt 14.21)? Existem referências a essa prática em escritos descobertos na antiga cidade de Ugarite, próxima à atual Ras Shamra, no Líbano. De acordo com essa descoberta arqueológica, tal hábito era parte de um ritual cananeu. Evidentemente, então, Deus não queria que os israelitas participassem de nenhuma prática religiosa dos cananeus. Outro motivo poderia ser o fato de Deus não querer que os israelitas misturassem uma substância que sustenta a vida (o leite) com um processo associado à morte (cozimento). Como escreveu Filo, filósofo judeu do século I, é “totalmente inconcebível que a substância que alimentou o animal seja utilizada para sazoná-lo ou temperá-lo depois de morto”.
2. Qual a razão de Deus ter lançado as dez pragas sobre o Egito? Quer dizer, por que ele enviou justamente aquelas pragas em vez de outras? Parece que a resposta está no fato de que eram consideradas polêmicas ou atos de contestação da validade dos deuses e deusas egípcios. Com as pragas, Deus estava atacando e expondo a incapacidade e, consequentemente, a falsidade dos deuses e deusas egípcios. Essas surtiriam grande efeito entre os egípcios. Por exemplo, eles acreditavam que o rio Nilo era protegido por vários deuses e deusas. Mas, quando Deus o transformou em sangue, ficou evidente a incapacidade desses guardiães de cumprirem o papel que o povo lhes atribuía. Por que o gado haveria de morrer (na quinta praga) se a deusa egípcia Hátor, que tinha cabeça de vaca, era a protetora desses animais, e por que o gado morreria na presença do deus-touro egípcio Apis, que simbolizava a fertilidade? O objetivo dessa praga foi mostrar que Hátor e Apis eram deuses falsos. A chuva de pedras que destruiu as plantações, na sétima praga, mostrou que várias deusas e deuses foram incapazes de controlar as tempestades no céu e evitar a catástrofe no campo. Entre esses estavam Nut, a deusa do céu; Osíris, o deus da boa safra; e Seti, o deus das tempestades. Na décima praga, Isis, que era uma das principais divindades e que se acreditava ser a protetora das crianças, não pôde evitar a morte dos primogênitos de todas as famílias egípcias. O conhecimento desses fatos ajuda-nos multo a entender as pragas.
3. Por que Elias propôs que o monte Carmelo fosse o local de sua disputa com os 450 profetas de Baal? Os seguidores de Baal acreditavam que este habitasse no monte Carmelo. Portanto, Elias deixou que eles “jogassem em casa”. Se Baal não conseguisse fazer cair um raio sobre um sacrifício em seu próprio território, sua fraqueza se tomaria evidente. Outro ponto interessante é que os cananeus viam a Baal como o deus da chuva, dos raios, do fogo e das tempestades. Como até pouco antes desse episódio dramático houvera uma seca de três anos e meio, estava claro que Baal não era capaz de fazer chover. Sua incapacidade também foi demonstrada pelo fato de não conseguir fazer cair fogo do céu sobre o sacrifício.
4. Por que motivo Paulo escreveu, em Colossenses 2.3, que Cristo é o mistério de Deus “em quem todos os tesouros da sabedoria e do conhecimento estão ocultos” e, no versículo 9, que “nele habita corporalmente toda a plenitude da Divindade”? O apóstolo ressaltou esses fatos acerca de Cristo porque os falsos mestres em Colossos estavam pregando que Cristo era Deus apenas parcialmente. As afirmações de Paulo, portanto, formam uma contestação direta àquela falsa ideia.
5. Por que Paulo levantou a questão da carne oferecida a ídolos, em 1 Coríntios 8? Hoje em dia, nenhum convidado senta-se à mesa e pergunta se a carne havia sido oferecida a algum ídolo. É óbvio que esse costume pertence a uma cultura diferente da nossa. A questão é que os coríntios compravam a carne no mercado, ofereciam uma parte a ídolos pagãos num dos muitos templos e levavam o restante para casa, a fim de servir no jantar. Consequentemente, alguns cristãos achavam que o fato de comerem aquela carne os tomaria participantes da adoração a ídolos.
6. Por que os herodianos, os saduceus e um escriba fizeram aquelas perguntas para Jesus, em Marcos 12.13-28? As indagações diziam respeito às suas respectivas ocupações e crenças. Os herodianos tinham o apoio de Herodes e dos romanos, por isso discutiram com Jesus a questão do pagamento de impostos a um poder estrangeiro (v. 14). Os saduceus não acreditavam em ressurreição, portanto procuraram calar seu opositor levantando uma situação hipotética sobre uma mulher que teve sete maridos (v. 23). Os escribas judeus, por sua vez, preocupavam-se com os mandamentos do Antigo Testamento; assim, um deles perguntou a Jesus qual era o mais importante (v. 28).
Economia
1. Em Jó 22.6, por que Elifaz acusou Jó de exigir penhores de seus irmãos sem motivo? Na época do Antigo Testamento, essa atitude era considerada um crime desprezível. Se uma pessoa devesse dinheiro a outra e não pudesse pagar, a devedora dava sua capa à credora como penhor ou garantia do pagamento futuro. Contudo, ao cair da noite, a credora devia devolver-lhe a capa, pois provavelmente ela apascentaria ovelhas no campo ao relento e precisaria ter com o que se cobrir. Tomar um penhor de alguém sem motivo era pecado, Jó não era culpado dessa atitude, como explicou depois (31.19-22).
2. Por que o parente mais chegado de Elimeleque deu sua sandália a Boaz (Rt 4.8, 17)? Segundo as tábuas Nuzi, encontradas no Iraque em escavações que se estenderam desde 1925 até 1931, esse ato simbolizava a cessão de direitos de uma pessoa sobre a terra que pisava. Agia-se assim quando era concluída a venda de um terreno.
Leis
1. Em 2 Reis 2.9, quando Eliseu disse a Elias: "... Peço-te que me toque por herança porção dobrada do teu espírito”, será que ele estava pedindo duas vezes mais poder espiritual do que Elias tinha? Não, estava expressando o desejo de ser seu herdeiro, seu sucessor. De acordo com Deuteronômio 21.17, o primogênito de uma família tinha direito de receber em dobro sua parte da herança deixada pelo pai.
2. Em Colossenses 1.15, a expressão “o primogênito de toda a criação” significa que Cristo foi criado? Não, significa que ele é o Herdeiro de toda a criação (Hb 1.2), assim como o primogênito ocupava um lugar especial de honra e tinha privilégios na família. A palavra grega para primogênito é prototokos. Se Paulo pretendesse transmitir a idéia de que Jesus foi o primeiro ser criado, ele teria empregado outro termo grego: protoktisis. Ocorre que esse termo nunca foi utilizado em referência a Jesus.
Agricultura
1. Que há de tão estranho no fato de Samuel pedir chuva ao Senhor na época da colheita do trigo, em 1 Samuel 12.17? A colheita do trigo acontecia em maio ou junho, assim que começavam os seis meses de estio, que iam de abril até o final de outubro. Se chovesse na estação da seca, ficaria evidente a operação do Senhor.
2. Por que Salmos 1.4 compara os ímpios à palha? Para mostrar que o ímpio não tem segurança. Quando os fazendeiros joeiram o trigo, o vento leva a palha, que é mais leve. Nenhum fazendeiro procura guardar e usar a palha, pois não é útil. Os ímpios, como ela, não têm segurança nem utilidade.
3. Por que Amós chamou as mulheres de Betel de “vacas de Basã”, em Amós 4.1 ? As vacas de Basã — área fértil a nordeste do mar da Galiléia — eram conhecidas por serem gordas. As mulheres de Betel, à semelhança daquelas vacas, eram ricas e preguiçosas e pouco faziam além de comer e beber.
4. Qual o motivo de o Senhor ter perguntado para Jó, em Jó 39.1: “Sabes tu o tempo em que as cabras monteses têm os filhos...?”? As referidas cabras escondem-se nas montanhas quando vão parir. Alguns naturalistas já tentaram observar o parto desses animais, mas até o momento quase todos fracassaram. Num período de 30 anos, viram essas cabras copularem ou parirem nas montanhas da Judéia somente quatro vezes.  Obviamente, Deus estava acentuando a ignorância de Jó no tocante ao que acontece na natureza.
5. Em Mateus 13.31, 32, Jesus cometeu um erro quando disse que a semente de mostarda é a menor de todas? Algumas pessoas dizem que sim, pois lembram que a semente da orquídea, e não a da mostarda, é a menor das sementes. Mas Jesus referiu-se à mostardeira como uma hortaliça e, naquela época, a mostarda era realmente a menor semente de hortaliça da Palestina. É evidente que naquele tempo não existiam sementes de orquídeas lá. A semente de mostarda é tão pequena que cerca de 750 sementes pesam um simples grama. No entanto, apesar de tão diminuta, a mostardeira pode atingir uma altura de 3,5 a 4,5 metros em um ano!
6. Em Lucas 13.32, Jesus chamou Herodes de raposa porque achava que este era dissimulado e astuto? Não, naqueles dias a raposa era tida como um animal traiçoeiro; assim, Jesus estava insinuando que Herodes era conhecido por sua traição.
7. Por que Jesus condenou a figueira que não tinha frutos, se nem era época de figos? (Mc 11.12.-14) Em Israel, as figueiras costumam produzir pequenos botões em março e grandes folhas verdes em abril. Esses pequenos botões eram “frutos” comestíveis. Jesus “amaldiçoou” a figueira na época da Páscoa, ou seja, abril, Como a planta não apresentava botões, não daria frutos naquele ano, Mas o “tempo de figos” ia do final de maio até fins de junho, que é quando amadureciam. A maldição que Jesus lançou sobre a figueira representava a falta de vitalidade espiritual de Israel (como a falta de botões), a despeito de sua aparente religiosidade (como as folhas verdes).
Arquitetura
1. Como Raabe podia ter uma casa em cima de uma muralha (Js 2.15)? Jerico tinha muralhas duplas, e o intervalo entre elas era cheio de terra, de forma que se podiam construir casas ali e ainda estarem quase ao nível do topo.
2. Como foi possível que quatro homens descessem um paralítico pelo telhado (Mc 2.1-12)? A maioria das casas ocidentais possui telhados inclinados, mas, nos tempos bíblicos, os telhados eram planos e normalmente feitos de telhas. Portanto, não seria difícil que aqueles homens ficassem de pé no telhado, retirassem algumas telhas e descessem o paralítico.
3. Por que os discípulos reuniam-se num cenáculo? (At 1.13). Porque os cômodos nos andares superiores eram geralmente maiores. Os 11 discípulos, portanto, ficariam mais bem acomodados no andar superior.
Vestimentas
1. Qual o significado de “Tomará alguém fogo no seio?” (Pv 6.27). A palavra “seio” pode significar uma dobra na roupa que funcione como um bolso para carregar coisas.
2. Qual é o sentido da ordem “Cinge os teus lombos”, em Jó 38.3, 40.7 e 1 Pe 1.13? Quando um homem corria, trabalhava ou guerreava, enfiava a túnica por dentro de uma faixa larga que trazia à cintura para que pudesse ter maior liberdade de movimentos. A ordem, portanto, tem o sentido de induzir um estado de alerta e a capacidade de reação rápida.
Vida doméstica
1. Qual é o significado de Oséias 7.8: “Efraim [...] é um pão que não foi virado”? Às vezes, um pão assa mais de um lado que de outro se não for virado. Parece que Oséias empregou essa ilustração para dizer que Efraim carecia de equilíbrio, dando mais atenção a determinadas coisas e deixando de atentar para outras.
2. Não foi falta de educação João encostar-se em Jesus na última ceia (Jo 13.23)? Não, eles se sentavam em sofás, não em cadeiras, na hora das refeições; por isso, naquela cultura, não era considerado falta de educação uma pessoa recostar-se em outra.
3. Por que Tiago disse que se ungissem os enfermos com óleo (Tg 5.14)? Existem dois verbos gregos com o sentido de esfregar, ou ungir. O primeiro é chrio, que significa ungir num ritual. Não foi esse o termo que Tiago usou. O verbo em Tiago 5.14 é aleipho, cujo significado é esfregar com óleo. Assim sendo, Tiago não estava referindo-se a um ritual. Pelo contrário, ele falava de uma atitude refrescante e estimulante para com as pessoas doentes ou deprimidas. (Aleipho também é empregado em Mateus 6.17 com o sentido de passar óleo na própria cabeça [para refrescar-se], e em Lucas 7.46 em referência ao fato de a pecadora ter esfregado perfume nos pés de Jesus.)
4. Por que, em Lucas 9.59, o homem disse que queria enterrar o pai antes de seguir Jesus? Ele não quis dizer que o pai tinha acabado de morrer, mas que se sentia obrigado a esperar o pai morrer, mesmo que levasse vários anos, provavelmente, para receber a herança. Isso explica sua relutância em seguir Jesus.
5. Por que motivo Jó perguntou: “Por que houve regaço que me acolhesse?” (Jó 3.12)? Uma criança recém-nascida era colocada sobre os joelhos do avô, simbolizando que ela era sua descendente (Gn 48.12; 50.23). Afundado em tristeza, Jó estava questionando por que tinha nascido.
6. Por que as cinco virgens foram tolas por não terem levado azeite de reserva (Mt 25.1-13)? O motivo é que uma cerimônia de casamento podia durar até três horas e, assim, o azeite das lamparinas poderia acabar. As cinco virgens prudentes, por sua vez, “... além das lâmpadas, levaram azeite nas vasilhas” (v. 4), mostrando dessa forma que estavam preparadas.
7. Por que o Senhor falou da erva que é lançada no fogo (Mt 6.30)? Os fornos de barro, onde se assavam pães finos parecidos com panquecas, eram aquecidos pela queima do capim.
Geografia
1. Por que Jesus teve de “atravessar a província de Samaria” (Jo 4.4)? Visto que os judeus não se davam com os samaritanos (v. 9), eles costumavam passar ao largo de Samaria quando iam da Judéia, no sul, para o norte. Os viajantes seguiam por uma estrada próxima do rio Jordão ou do mar Mediterrâneo. Mas Jesus atravessou Samaria e foi até Sicar a fim de encontrar-se com a mulher que ele, em sua onisciência, sabia que estaria lá.
2. Por que Davi fugiu para En-Gedi (1 Sm 23.29)? Ele sabia que Saul teria dificuldade de segui-lo até lá, devido ao terreno acidentado do caminho ao sul de Jerico e a oeste do mar Morto. Também havia cavernas ali, o que tomaria ainda mais difícil que Saul o encontrasse. Além disso, existia uma cachoeira refrescante lá. A lógica desses fatores explica porque Davi fugiu para En-Gedi.
3. Por que a carta para a igreja de Laodicéia, em Apocalipse 3.16, dizia que os membros daquela igreja eram “mornos”, nem “quentes” nem “frios”? Essa afirmação reflete o fato de que aquela congregação local era como a água da cidade, em termos espirituais. A água percorria em dutos os quase 10 km de Hierápolis a Laodicéia. Ela saía quente das termas de Hierápolis, obviamente, mas quando chegava a Laodicéia já estava morna.
4. Por que Jesus falou de um homem que “desceu” de Jerusalém para Jerico, se esta cidade fica a nordeste daquela (Lc 10.30)? Jerico está situada a mais de 600 m abaixo do nível de Jerusalém, estando a uma distância de cerca de 22 km desta. É óbvio que o percurso de Jerusalém para Jerico era uma descida.
Organização militar
1. Por que Habacuque diz que os babilônios, “... amontoando terra, as [cidades] tomam” (Hc 1.10)? Isso não quer dizer que eles juntavam entulho. A referência é à construção de rampas de terra junto a muralhas. Como muitas cidades eram edificadas no alto dos montes, a única forma de o inimigo atacá-las era amontoando terra e destroços para diminuir a diferença de nível.
2. Por que Paulo afirmou, em 2 Coríntios 2.14, que Deus “em Cristo sempre nos conduz em triunfo...”? No Império Romano, quando um general retomava vitorioso de uma batalha, ele marchava à frente de seus soldados pelas ruas de sua cidade natal, com os prisioneiros atrás. De forma semelhante, Deus está-nos conduzindo num cortejo espiritual glorioso, pelo fato de estarmos “em Cristo”.
Estrutura social
1. Por que nos tempos bíblicos as pessoas às vezes jogavam pó sobre a cabeça (Jó 2.12; Lm 2.10; Ez 27.30; Ap 18.19)? Elas demonstravam assim o enorme pesar que sentiam; era como se estivessem numa sepultura, debaixo da terra.
2. Por que Deus declarou em Malaquias 1.2, 3: “... todavia amei a Jacó, porém aborreci a Esaú...”? Existem duas explicações possíveis. Uma é que, no Oriente Médio da antiguidade, um indivíduo que fizesse um testamento empregava o verbo amar em referência ao herdeiro escolhido e aborrecer com respeito à rejeição legal de qualquer reivindicação de terceiros. (Semelhantemente, não dar importância ou odiar a sabedoria, como diz Provérbios 1.7, é o mesmo que rejeitá-la.) Outra possibilidade é que se trata de uma forma de comparação, em que o Senhor estava dizendo que amava a Jacó mais do que a Esaú. Vemos um paralelo disso em Gênesis 29.30, 31, onde lemos que Jacó amava Raquel e não amava (ou seja, odiava) Lia.
3. Por que José barbeou-se antes de ir ao encontro de Faraó (Gn 41.14)? Não era costume dos hebreus usar barba? Mas, como os egípcios não usavam barba, José simplesmente seguiu o costume do país.
4. Qual é o significado de “aliança de sal” (Nm 18.19; 2 Cr 13.5)? Não se sabe como o sal era utilizado naqueles pactos, mas o aspecto de conservação a ele associado pode indicar que as partes envolvidas desejavam a conservação de sua amizade.
5. Por que Jesus mandou os discípulos não cumprimentarem ninguém no caminho (Lc 10.4)? Ele não estava incentivando uma atitude antissocial; antes, desejava que não se atrasassem no cumprimento da missão. As saudações consumiam muito tempo: cada um se curvava várias vezes, repetia o cumprimento e então comentava os acontecimentos do dia.
Em suma, está claro que o desconhecimento de tais costumes pode levar a um entendimento errado do significado dos textos. O estudante da Bíblia depara com muitos outros costumes ao lê-la.

Até que ponto os textos bíblicos são limitados pelos fatores culturais?
Um dos problemas mais importantes que os intérpretes da Bíblia enfrentam é o das passagens restritas a uma cultura. Em outras palavras, será que certas passagens bíblicas estão restritas àquela época pelos aspectos culturais, não podendo portanto ser transportadas para nossa cultura, ou será que tudo o que lemos nas Escrituras vale para hoje? Até que pomo a importância da Bíblia é limitada pelo aspecto cultural? Se determinadas passagens têm essa limitação, então como saberemos quais se aplicam a nossa cultura e quais não se aplicam?
Certas pessoas argumentam, por exemplo, que, como não há mais escravos nem mestres e o mandamento para os escravos em Efésios 6.5 é inaplicável para o mundo contemporâneo, então, dentro ainda do mesmo contexto, o mandamento para as esposas se submeterem a seus maridos também é descabido e não se aplica à atualidade. Acontece que essa concepção não leva em conta que, apesar de hoje não existir mais a escravidão que havia nos tempos bíblicos. Além disso, os mandamentos para as mulheres se submeterem a seus maridos não são anulados em parte alguma da Bíblia. Existem duas outras questões suscitadas por esse problema: o mandamento de 1 Timóteo 2.12, que proíbe as mulheres de ensinar os homens, tem limitações culturais? Os textos bíblicos a respeito do homossexualismo restringem-se àquela época?
A questão da aplicabilidade cultural é importante por causa das duas funções do intérprete: descobrir o significado do texto para os primeiros leitores, dentro daquele contexto cultural, e verificar seu significado para nós, hoje, em nosso contexto.
Deve ser óbvio que nem todos os costumes bíblicos têm aplicação hoje em dia. Se tivessem, então, quando você compra uma casa, o antigo dono deve tirar uma das sandálias e dá-la a você, o comprador, como aconteceu em Rute 4.8.
Vamos ilustrar essa questão da seguinte forma: leia cada um dos itens abaixo e circule o “P” (permanente) ou o “T” (temporário) que segue cada frase.
1. Cumprimentar uns aos outros com beijo santo (Rm 16.16).        P          T
2. Abster-se de carnes oferecidas a ídolos (At 15.29).          P          T
3. Ser batizado (At 2.38).       P          T
4. Lavar os pés uns dos outros (Jo 13.14).    P          T
5. Oferecer a destra de comunhão (G12.9).   P          T
6. Ordenação por “imposição de mãos” (At 13.3).   P          T
7. Proibir as mulheres de falar na igreja (1 Co 14.34).         P          T
8. Ter um horário fixo para orar (At 3.1).     P          T
9. Cantar salmos, hinos e cânticos espirituais (Cl 3.16).      P          T
10. Abster-se de comer sangue (At 15.29).   P          T
11. Os escravos devem obedecer a seus senhores terrenos (Ef 6.5).   P        T
12. Celebrar a ceia do Senhor (1 Co 11.24).    P         T
13. Não fazer juramentos (Tg 5,12).     P         T
14. Ungir os enfermos com óleo (Tg 5.14).  P         T
15. Proibir as mulheres de ensinar aos homens (1 Tm 2.12).     P     T
16. A pregação deve ser feita em dupla (Mc 6.7).     P       T
17. Pregar em sinagogas judaicas (At 14.1).     P     T
18. Comer o que lhe oferecem sem fazer perguntas por motivo de consciência (1 Co 10.27).     P     T
19. Proibir as mulheres de usar cabelo frisado, ouro ou pérolas (1 Tm 2.9).   P   T
20. Abster-se de relações sexuais ilícitas (At 15.29).     P     T
21. Não procurar o casamento (1 Co 7.26).     P     T
22. Ser circuncidado (At 15.5).     P     T
23. As mulheres devem orar com a cabeça coberta (1 Co 11.5).     P     T
24. Tomar a ceia num único cálice (Mc 14.23).     P     T
25. Fazer votos religiosos formais (At 18.18).     P     T
26. Evitar orar em público (Mt 6.5, 6).     P     T
27. Falar em línguas e profetizar (1 Co 14.5).     P     T
28. Realizar reuniões da igreja em casa (Cl 4.15).     P     T
29. Trabalhar com as próprias mãos (1 Ts 4.11).     P     T
30. Levantar as mãos ao orar (1 Tm 2.8).     P     T
31. Dar a quem lhe pede (Mt 5.42).     P     T
32. Orar antes das refeições (Lc 24.30).     P     T
33. Não sustentar viúvas com menos de 60 anos de idade (1 Tm 5.9).   P     T
34. Dizer “amém” ao final das orações (1 Co 14.16).     P     T
35. Jejuar para fins de ordenação (At 13.3).     P     T
36. Usar sandálias e uma só túnica (Mc 6.9).     P     T
37. As mulheres devem submeter-se a seus maridos (Cl 3.18).     P     T
38. Não agir com favoritismo em relação aos ricos (Tg 2.1 -7).     P     T
39. Usar pães asmos na ceia (Lc 22.13,19).     P     T
40. Lançar sortes para a ocupação dos cargos na igreja (At 1.26).    P     T
41. Não dever nada a ninguém (Rm 13.8).     P     T
42. Deve haver sete diáconos na igreja (At 6.3).     P     T
43. Não comer a carne de animais mortos por estrangulamento (At 15.29).   P   T
44. Não deixar comer quem não quer trabalhar (2 Ts 3.10).     P     T
45. Abrir mão de bens pessoais (At 2.44,45).     P     T
46. Os sacerdotes devem sustentar a si próprios (2 Ts 3.7, 8).     P     T
47. Fazer coletas nas igrejas a favor dos pobres (1 Co 16.1).     P     T
48. Os homens não devem usar cabelo comprido (1 Co 11.14).     P     T

Esses itens exemplificam a frequência com que os estudantes da Bíblia enfrentam o problema do que é hoje cabível culturalmente. As respostas a essas perguntas variarão de leitor para leitor. Como vamos saber quais devem ser consideradas permanentes e, portanto, aplicáveis a nós hoje e quais devem ser consideradas temporárias e restritas a determinada cultura? Em outras palavras, que diretrizes podem orientar nossas respostas?
Os princípios abaixo podem ser úteis na decisão de quais hábitos e situações culturais, mandamentos e preceitos bíblicos aplicam-se à nossa cultura e quais não.
1. Certas situações, mandamentos ou princípios são aplicáveis, contínuos ou irrevogáveis e/ou dizem respeito a temas morais e teológicos e/ou são repetidos em outra parte das Escrituras, sendo, portanto, permanentes e transferíveis para nós. Precisamos perguntar se a Bíblia atribui à situação, ao mandamento ou ao princípio um caráter normativo. Às vezes é explicada a razão de ser de um mandamento. A pena capital é considerada um mandamento permanente pois, após ter sido dado em Gênesis 9.6, não foi revogado em nenhum outro texto, e a razão apresentada no versículo é que o homem foi feito à imagem de Deus. O mandamento de Provérbios 3.5, 6 sobre confiar no Senhor é repetido em toda a Bíblia, embora com outras palavras. A ordem para os cristãos vestirem a armadura de Deus (Ef 6.10-19) não foi de modo algum revogada. Tampouco Deus voltou atrás no mandamento sobre ser humilde, como expresso em 1 Pedro 5.6. O mandamento para os homens orarem com corações puros é universal, como se vê pela expressão “em todo lugar” (1 Tm 2.8).
Os nazireus deviam deixar o cabelo crescer em sinal de dedicação ao Senhor (Jz 13.5; 1 Sm 1.11). Já no Novo Testamento, era desonroso para o homem usar cabelo comprido (1 Co 11.14). Assim, o Novo Testamento revogou o costume dos nazireus, que constava da lei mosaica do Antigo Testamento. “Todo texto bíblico deve ser considerado normativo para qualquer pessoa de qualquer sociedade em todas as épocas, a não ser que a própria Bíblia restrinja o público”.  “Quando a Bíblia dá uma ordem explícita e não a anula posteriormente, esta deve ser aceita como a vontade revelada de Deus e como mandamento que tem por fim moldar nosso comportamento individual e coletivo (nossa ‘cultura’) na forma dessa instrução.”  Isso significa que a Bíblia é auto regulamentadora, tendo até autoridade para determinar quais costumes são pertinentes a certa cultura e quais não. Uma forma de sabermos quais mandamentos devem ser repetidos é verificar se tal mandamento ou situação tem algum paralelo em outro texto bíblico.
2. Certas situações, mandamentos ou princípios dizem respeito às circunstâncias específicas de um indivíduo não aplicáveis e/ou a temas que não possuem caráter moral ou teológico e/ou foram revogados, sendo, portanto, inaplicáveis na atualidade. As instruções que Paulo passou a Timóteo em 2 Timóteo 4.11-13 para que levasse sua capa e os manuscritos limitavam-se àquela circunstância em que o apóstolo se encontrava, obviamente. Não existe nenhum mandamento para que os pais cristãos sacrifiquem seus filhos como foi ordenado a Abraão fazer (Gn 22.1-19); deu-se aquela ordem em tal ocasião específica da vida do patriarca.
Hebreus 7.12 e 10.1 indicam que o sacerdócio segundo a ordem de Arão e até mesmo a totalidade da lei mosaica foram abolidos.
No Antigo Testamento, a punição para os casos de incesto era o apedrejamento (Lv 20.11), mas no Novo Testamento o caso era resolvido pela excomunhão (1 Co 5.1-5).
3. Determinadas situações ou mandamentos dizem respeito a contextos culturais que se assemelham apenas parcialmente ao nosso e nos quais só os princípios são aplicáveis. O Novo Testamento cita cinco vezes a saudação mútua com um beijo santo (Rm 16.16; 1 Co 16.20; 2 Co 13.12; 1 Ts 5.26; 1 Pe 5.14). Visto que essa era a forma de cumprimento normal naquela época e como não o é em nossa cultura ocidental, deduz-se que tal hábito não precisa ser trazido para o presente. Mas o princípio que existe por trás deve ser seguido, ou seja, demonstrar delicadeza e amor para com os outros. Na América Latina, esse mesmo princípio é expressado por meio de abraço, em vez de beijo, e nos Estados Unidos um aperto de mão às vezes é acompanhado de um abraço ou de um “tapinha” nas costas.
Vemos outro exemplo em Deuteronômio 6.4-9. Não há dúvida de que os pais devem amar o Senhor e ensinar seus mandamentos para os filhos em diversas ocasiões. Contudo, o mandamento no versículo 9 de escrevê-los nos umbrais da casa e nas portas parece falar de um aspecto cultural semelhante, mas não idêntico, ao que existe hoje. Talvez a aplicação moderna do mandamento esteja em dependurar na parede placas com versículos gravados. Evidentemente, continua valendo o princípio de que os pais devem sempre lembrar seus filhos acerca das Escrituras.
Embora a carne que compramos não tenha sido oferecida a ídolos, o princípio de 1 Coríntios 8 continua válido, que é o de não nos envolvermos em nada que escandalize os cristãos mais fracos.
4. Certas situações ou mandamentos dizem respeito a contextos culturais totalmente diferentes, mas em que os princípios se aplicam. Certa pecadora demonstrou seu amor por Jesus derramando o perfume de um vaso de alabastro em seus pés (Mt 26,7, 8), É claro que não há como fazermos o mesmo com Jesus hoje, mas continua valendo o princípio de que podemos expressar nosso amor por ele na forma de sacrifícios. Quando Moisés esteve na presença de Deus pisando em terra santa, ele tirou as sandálias (Êx 3.5). Será que isso quer dizer que quando uma pessoa entra na presença de Deus, hoje, tem de tirar os sapatos?
“Um costume com determinado significado numa cultura pode ter sentido totalmente diferente em outra cultura”.  
Uma passagem muito discutida tratando-se de trechos bíblicos com “limitações culturais” é 1 Coríntios 11.2-16. Esse texto diz que o próprio cabelo da mulher deve servir de cobertura ou que ela deve usar outro tipo de cobertura? Parece que a segunda opção é a correta, pelo que dizem os versículos de 4 a 7. A cobertura da cabeça era como um xale, que ia das costas até a metade da cabeça, não como um véu para cobrir o rosto. Alguns arqueólogos desencavaram desenhos e esculturas greco-romanas que apresentam esse tipo de cobertura para a cabeça. No judaísmo do século I e no mundo greco-romano, cobrir a cabeça em público de fato era sinal de submissão da mulher ao marido. Não usar a cobertura indicava insubordinação ou rebeldia. Há menção disso em 3 Macabeus 36 e nos escritos de Plutarco, estadista romano. Considerando que tal cobertura fosse um xale, existem quatro alternativas de interpretação de como essa passagem aplica-se aos dias de hoje, se é que se aplica.
Uma forma de encarar a questão é entender que hoje as mulheres devem usar xales na igreja em sinal de submissão a seus maridos. Mantendo essa ideia, então o primeiro princípio acima estará sendo seguido — que tanto a situação cultural quanto o princípio que há por trás dela têm aplicação e importância atualmente.
A segunda concepção é que a passagem em questão não tem a menor aplicação para a mulher moderna. Estaremos, assim, tratando do segundo princípio já mencionado, a saber, que nem a situação cultural nem o princípio que a norteia têm aplicação. Segundo esta concepção, as mulheres podem desconsiderar completamente esses versículos no que lhes diz respeito, pois a situação cultural mencionada não tem paralelo em nossa cultura moderna.
Outros intérpretes da Bíblia apresentam uma terceira opinião: que as mulheres de hoje devem usar chapéu na igreja, em sinal de submissão a seus maridos. Encarando a passagem dessa forma, estão seguindo o terceiro princípio, segundo o qual a situação em Corinto é considerada parcialmente semelhante à nossa cultura moderna e o princípio envolvido pode ser aplicado e é permanente. A ideia é que, como hoje em dia as mulheres não costumam usar xales para orar, deveriam usar algo parecido, como chapéus.
Uma quarta forma de ver a questão é que as mulheres modernas não precisam usar chapéus na igreja, mas devem ser submissas a seus maridos. A relação agora é com o quarto princípio exposto acima. O contexto cultural é considerado totalmente diferente, mas o princípio se aplica. Na cultura de Corinto, o xale da mulher simbolizava a autoridade do marido e, ao usá-lo, ela estava demonstrando que se sujeitava àquela autoridade. Em Corinto, as prostitutas sagradas, ou seja, as que trabalhavam em templos pagãos, não usavam xales. É interessante notar também que as judias só passavam a usar uma cobertura para a cabeça depois que se casavam. Não havia necessidade de fazê-lo antes disso, já que não estavam sujeitas à autoridade de um marido. Mas parece que o princípio da submissão é permanente e aplica-se a todas as culturas modernas.
Você gostaria de fazer um exercício interessante? Analise a questão do lava-pés. Esse costume é mencionado dezenove vezes na Bíblia: Gênesis 18.4; 19.2; 24.32; 43.24; Êxodo 30.19; 40.31; Juízes 19.21; 1 Samuel 25.41; 2 Samuel 11.8; Cantares 5.3; Lucas 7.44; João 13.5, 6, 8-10, 12, 14 e 1 Timóteo 5.10. Procure esses versículos e veja se consegue dizer como esse costume era praticado e qual seu significado nas épocas do Antigo e do Novo Testamento. Depois, observe os quatro princípios já discutidos aqui e diga qual se aplica ao lava-pés. Tenha em mente as seguintes indagações enquanto analisa a questão: o lava-pés é tão necessário hoje quanto nos tempos bíblicos? Justifique. As Escrituras nos mandam praticar o lava-pés como uma ordenança da igreja? Justifique. A quem Jesus dirigiu suas palavras em João 13.15? Os cristãos modernos devem segui-las? Justifique. Que razões Jesus deu em João 13 para praticá-lo com os discípulos? Veja principalmente os versículos 1,7,12 e 16.

Princípios para descobrir se os costumes bíblicos estão restritos a certas culturas ou se as transcendem.
Às vezes fica difícil saber se devemos seguir o terceiro ou o quarto princípio discutido anteriormente, quando abordamos a questão de costumes culturais restritos ou transcendentes. Talvez as etapas relacionadas abaixo sejam úteis.
Primeira: veja se o costume naquela cultura tem um significado diferente em nossa cultura. Parece ser esse o caso no tocante ao uso do xale e ao beijo santo. Hoje em dia, o uso do xale na igreja e o ato de cumprimentar os outros com um beijo têm significados diferentes dos originais nos tempos bíblicos. É nessa etapa que se procura saber se o hábito em questão foge completamente à nossa cultura. Para muitos, o lava-pés é um exemplo disso.
Segunda: se o costume tem significado diferente para nós, descubra o princípio permanente que o norteia.
Terceira: verifique como esse princípio pode ser expressado num equivalente cultural. Paulo escreveu, em 1 Timóteo 2.1, 2, que devemos orar pelos reis. Mas como ficam os cristãos de países onde não há reis, como acontece com o Brasil? Essa passagem não lhes diz respeito? A impressão é que o contexto cultural é pelo menos parcialmente semelhante, o que permitiria aos cristãos seguir o princípio e orar pelos governantes, sejam eles presidentes ou primeiros-ministros. Tiago disse que um cristão estaria fazendo discriminação e pecando caso cedesse seu lugar na igreja a um cristão rico e dissesse que o crente pobre ficasse de pé ou sentasse no chão (Tg 2.1-4). Quer dizer que os membros ricos deveriam sentar-se no chão da igreja para que os pobres se acomodassem nos bancos? Não, não é essa a exigência para hoje, pois trata-se de um contexto cultural diferente. Todavia, o princípio da humildade continua valendo e os cristãos não devem fazer nenhum tipo de discriminação entre si tendo em mente a condição financeira.
As mulheres deveriam usar xales na cabeça para ir à igreja hoje em dia? Não, porque o uso do xale no mundo greco-romano não teria o mesmo sentido em nossa cultura. Esse ato não contém o mesmo simbolismo original. Mas será que não existe um princípio a ser seguido que pode ter expressão cultural equivalente? O princípio da subordinação (não inferioridade!) da esposa ao marido continua válido, porque é uma verdade mencionada em vários textos bíblicos (e.g., Ef 5.22-24; Cl 3.18; 1 Pe 3.1, 2). Como alguns sugeriram, um equivalente moderno poderia ser o uso da aliança por parte da esposa (e a incorporação do nome do marido ao sobrenome), pois isso mostra que ela é casada e está, portanto, sujeita à autoridade do marido.
Os cristãos de hoje também não precisam tirar os sapatos quando comparecem perante Deus na igreja ou quando oram em particular, mas devem mostrar reverência diante do Senhor.

O discernimento espiritual e o estudo cuidadoso das Escrituras são elementos importantes na análise do impacto dos aspectos culturais na interpretação da Bíblia.