5 de fevereiro de 2017

ROY B. ZUCK - A interpretação bíblica — ontem e hoje

roy zuck
 Quando você está dirigindo um carro, precisa ficar atento a toda a sinalização rodoviária. Algumas placas servem para advertir: “Saliência ou Lombada” ou “Pista Irregular”. Outras mostram a direção: “Siga em Frente ou Vire à Esquerda”, “Proibido Virar à Direita” ou ainda “Mão Única”. Já outras placas são meramente informativas, a saber, “80 km —Velocidade Máxima Permitida” ou “Proibido Estacionar”,

De forma semelhante, o entendimento de como pessoas e grupos interpretavam a Bíblia antigamente pode funcionar para nós como uma espécie de sinalização, advertindo, conduzindo e informando.
Como placa de advertência, o estudo da história da interpretação bíblica pode ajudar-nos a enxergar os erros que outros cometeram no passado e suas consequências, alertando-nos assim para evitarmos que se repitam.
Como placa que indica a direção, o conhecimento de algo da evolução da interpretação bíblica ao longo dos séculos pode ajudar-nos a perceber a importância das interpretações corretas e o que implicam. Como placa informativa, a história da hermenêutica ajuda-nos a entender como certas questões de interpretação surgiram e o modo como foram abordadas no passado. Ela nos informa como chegamos ao nível atual de compreensão da Bíblia.
Como veremos mais adiante neste capítulo, no decorrer dos séculos os estudantes das Escrituras adotaram várias perspectivas: literal, alegórica, tradicional, racionalista e subjetiva.
A interpretação judaica
Esdras e os escribas
Quando os judeus retomaram do exílio na Babilônia, tudo indica que falavam aramaico, e não hebraico. Consequentemente, quando Esdras, o escriba (Ne 8.1, 4, 13; 12.36), leu a lei (Ne 8.3), os levitas (vv. 7-9) tiveram de traduzir do hebraico para o aramaico. Talvez seja este o sentido de “claramente” (v. 8). O termo hebraico significa “tomar claro” ou “interpretar”, e provavelmente o sentido aqui é “traduzir”. Além disso, os levitas “expunham o significado” enquanto circulavam entre o povo, ou seja, explicavam, interpretavam a lei “de maneira que entendessem o que se lia” (v. 8).
Desde Esdras até Cristo, os escribas não só ensinavam as Escrituras, mas também as copiavam. Eles tinham grande reverência pelos textos do Antigo Testamento, mas essa veneração logo caiu no exagero. Por exemplo, o Rabino Akiba (507-132 d.C.), líder de uma escola para rabinos em Jaffa, na Palestina, “afirmava que toda repetição, figura, paralelismo, sinonímia, palavra, letra, partícula, pleonasmo e, ainda mais, a própria forma de uma letra possuíam um significado oculto, assim como cada fibra da asa de uma mosca ou da perna de uma formiga tem sua importância curiosa”.  Akiba ensinava que “assim como o martelo que trabalha ao fogo provoca muitas fagulhas, cada versículo das Escrituras possui muitas explicações”.  Ele asseverava que cada monossílabo do texto bíblico tinha vários significados.

Havendo um “e” ou um “também” a mais, ou ainda uma flexão, sempre devem merecer interpretação especial. Se 2 Reis 2.14 diz que Eliseu “Também [...] bateu nas águas”, é sinal de que Eliseu fez mais milagres no Jordão do que Elias. Quando Davi afirma “o teu servo matou também o leão, também o urso”, o significado (pela regra de inclusão sobre inclusão) é que ele tinha matado pelo menos três animais.
Hillel e Shammai
O Rabino Hillel (70 a.C.?10 d.C.?) foi um líder proeminente entre os judeus da Palestina. Nascido na Babilônia, fundou uma escola em Jerusalém que levou seu nome. Ele era conhecido por sua humildade e seu amor. Hillel dividiu em seis tópicos as diversas regras que se desenvolveram entre os judeus acerca dos 613 mandamentos da lei mosaica.
Shammai, da mesma época que Hillel, diferia dele tanto no que se refere à personalidade quanto à hermenêutica. Indivíduo de temperamento violento, interpretava a lei com rigor. Os ensinamentos desses dois rabinos quase sempre se contrapunham. Após a queda de Jerusalém em 70 d.C., a escola de Hillel ganhou fama, ao passo que a de Shammai foi perdendo importância e influência.
A alegorização judaica
Alegorizar é procurar um sentido oculto ou obscuro que se acha por trás do significado mais evidente do texto, mas lhe está distante e na verdade dissociado. Em outras palavras, o sentido literal é uma espécie de código que precisa ser decifrado para revelar o sentido mais importante e oculto. Segundo este método, o literal é superficial, e o alegórico é que apresenta o verdadeiro significado.
A alegorização judaica sofreu influências da alegorização grega. Os filósofos gregos, ao mesmo tempo em que admiravam os antigos escritos gregos de Homero (século IX a.C.) e de Hesíodo (século VIII a.C.), ficavam constrangidos com o comportamento imoral e com os antropomorfismos dos deuses imaginários da mitologia grega constantes naquela literatura. Por exemplo, Fedra apaixonou-se por seu enteado Hipólito. Zeus teve de derrotar Tífon, de três cabeças. E Ares, o deus grego da guerra, tinha prazer nas matanças. Como os filósofos gregos podiam louvar essa literatura e ao mesmo tempo aceitar seus elementos “fantasiosos, grotescos, disparatados ou imorais”?
A solução que os filósofos adotaram para contornar o problema foi alegorizar as histórias, procurando sentidos ocultos sob o texto literal. Assim sendo, os escritores gregos valiam-se de alegorias com fins explicativos, para que os poetas gregos não fossem ridicularizados.
Os judeus de Alexandria, no Egito, foram influenciados pela filosofia grega. Mas também tinham um problema a resolver: como podiam aceitar o Antigo Testamento e também a filosofia grega, especialmente a de Platão? A solução foi a mesma encontrada pelos filósofos gregos: alegorizar o Antigo Testamento. Os judeus alexandrinos preocupavam-se com os antropomorfismos e as imoralidades do Antigo Testamento, da mesma forma que os filósofos gregos ficavam constrangidos com esses elementos em Homero e em Hesíodo. Como havia muitos gregos em Alexandria, os judeus foram logo influenciados e prontamente adotaram a alegorização do Antigo Testamento. Assim, poderiam conviver tanto com este quanto com a filosofia grega. Eles também viam a questão como uma forma de justificativa, uma maneira de defender o Antigo Testamento perante os gregos.
A versão dos Septuaginta — tradução grega do Antigo Testamento feita em Alexandria cerca de 200 anos antes de Cristo — procurou remover deliberadamente os antropomorfismos de Deus. Por exemplo, ela traduz “O SENHOR é homem de guerra”, de Êxodo 15.3, em hebraico, por “o Senhor esmaga as guerras”. “A forma do SENHOR”, em Números 12.8, é traduzida do hebraico por “a glória do Senhor”. A Septuaginta traduz Êxodo 32.14, “Então se arrependeu o SENHOR do mal...” por “então o Senhor se compadeceu”.
Existem dois nomes de relevo na alegorização judaica de Alexandria: Aristóbulo e Filo. Aristóbulo, que viveu por volta de 160 a.C, acreditava que a filosofia grega estava baseada no Antigo Testamento e que aqueles ensinamentos só podiam ser desvendados mediante alegorização.
A Epístola de Aristéias, escrita por um judeu alexandrino aproximadamente no ano 100 a.C., ilustra a alegorização judaica. Ela afirma que as leis dietéticas realmente ensinavam várias formas de discriminação necessárias à obtenção da virtude e que o processo de ruminação de certos animais simboliza a meditação sobre a vida e a existência (Epístola de Aristéias, 154).
Filo (c. 20 a.C. 54 d.C.) é o alegorista judeu-alexandrino mais famoso. Ele também sofreu influência da filosofia grega, mas, como era um judeu devoto, procurou defender o Antigo Testamento contra os gregos e, muito mais ainda, contra seus companheiros judeus. Seu desejo de evitar contradições e blasfêmias levou-o a alegorizar o Antigo Testamento, em vez de seguir sempre um método literal de interpretação. Filo disse que a alegorização é necessária para evitar as declarações aparentemente impróprias de Deus ou as afirmações aparentemente contraditórias do Antigo Testamento. Disse também que a alegorização faz-se necessária quando a própria passagem indica que se trata de uma alegoria.
Filo ensinava que Sara e Hagar representam a virtude e a cultura, e Jacó e Esaú, a prudência e a insensatez; que o episódio em que Jacó se deitou e apoiou a cabeça numa pedra simboliza a autodisciplina da alma e o candelabro de sete hásteas que havia no tabernáculo e no templo representa sete planetas. A alegorização também se utilizava de sinônimos e jogos de palavras.
Se o texto bíblico diz que Adão “se escondeu de Deus”, essa expressão é uma desonra a Deus, que vê todas as coisas — portanto, só se pode tratar de alegoria. Quando lemos que Jacó, dispondo de tantos servos, enviou José para procurar os irmãos, que Caim tinha esposa ou construiu uma cidade, que Potifar tinha uma esposa, que Israel era uma “herança de Deus” ou que Abraão foi chamado de “o pai” de Jacó em vez de avô, estamos diante de “contradições”, e, consequentemente, essas passagens precisam ser alegorizadas.
Filo, porém, não descartou totalmente o significado literal das Escrituras. E ainda disse que este correspondia ao nível mais imaturo de entendimento, correspondente ao corpo, ao passo que o significado alegórico era para o maduro, correspondente à alma.
Alguns judeus tomaram-se ascéticos e formaram comunidades fechadas, como a dos essênios de Qumran, perto do mar Morto. Eles copiavam as Escrituras e escreviam comentários sobre alguns dos livros do Antigo Testamento. Eles também sofreram influência da alegorização. No comentário redigido em Qumran sobre Habacuque 2.17, lê-se: “Líbano aqui representa o Conselho Comunitário, e ‘animais ferozes’, os judeus simples de espírito que cumprem a lei”.
Os pais da igreja primitiva
Pouco se sabe sobre a hermenêutica dos primeiros pais da igreja, daqueles que viveram no século I d.C. Mas sabe-se que em seus escritos proliferavam as citações do Antigo Testamento e que entendiam que este deixava prever a Cristo.
Clemente de Roma viveu por volta de 30 a 95 d.C. Ele fazia muitas citações detalhadas do Antigo Testamento. Citava também o Novo Testamento com frequência, visando a reforçar suas próprias exortações.
Inácio de Antioquia da Síria, (c. 35-107) escreveu sete cartas endereçadas a Roma, nas quais fazia constantes alusões ao Antigo Testamento e salientava a figura de Jesus Cristo. Policarpo de Esmirna (70-155) também fez diversas citações do Antigo e do Novo Testamento em sua Epístola aos Filipenses.
A Epístola de Barnabé cita o Antigo Testamento 119 vezes. Também utiliza alegorias constantemente. Exemplo clássico é a menção que Barnabé faz dos 318 servos de Abraão (Gn 14.14). Ele afirmou que existem três letras gregas que representam o número 318 e que cada uma tem um significado. A letra grega t equivale a 300 e representa a cruz; as letras i e equivalem a 10 e 8 respectivamente, e são as primeiras duas letras de Iêsous (Jesus, em grego). Portanto, os 318 servos representam Jesus na cruz. Barnabé escreveu: “Deus sabe que nunca ensinei a ninguém nada mais verdadeiro, e acredito que sois dignos disso”. Esta prática de atribuir significado aos números é conhecida como gematria.
As outras interpretações de Barnabé são um pouco forçadas. Por exemplo, ele disse que aquela frase de Salmos 1.3, “Ele é como árvore plantada junto a corrente de águas”, fala do batismo e da cruz. O fato de a folhagem não murchar indica que o justo haverá de trazer provisões e esperança para muitas pessoas.
A partir do exemplo desses pais da igreja primitiva, fica evidenciado que, apesar do fato de terem tido um bom começo, logo foram influenciados pela alegorização. Mesmo assim, entendiam que o Antigo Testamento continha muitos tipos que falavam de Jesus Cristo.
Justino Mártir (c. 100-164) fazia muitas citações das Escrituras em suas obras, quase sempre com o objetivo de mostrar que o Antigo Testamento prenunciava Cristo.
Justino era um defensor apaixonado e destemido do cristianismo. Era homem muito culto e adorava usar seus conhecimentos de filosofia grega para ilustrar e reforçar os ensinamentos das Escrituras. Mas suas exposições costumam ser fantasiosas, quase tolas, às vezes. Ele leva a interpretação comum do Antigo Testamento a uma fantasia literária desarrazoada.
Justino afirmava que Lia representa os judeus, Raquel simboliza a igreja e Jacó é Cristo, que serve a ambos. A atitude de Arão e Hur de sustentar as mãos de Moisés simboliza a cruz. Justino afirmava que o Antigo Testamento era pertinente aos cristãos, mas essa pertinência, dizia ele, era percebida por meio da alegorização.
Em seu Diálogo com Trífon, ele contestou Marcião, escritor da época da igreja primitiva que não aceitava o Antigo Testamento e acreditava que este não tinha a menor aplicabilidade para os cristãos modernos. Marcião sustentava que nem a alegorização conseguia tomar-lhe aplicável.
Ireneu morou em Esmima (hoje parte da Turquia) e em Lião (hoje na França). Ele viveu de 130 a 202 aproximadamente. Contrapondo-se aos gnósticos e às suas interpretações fantasiosas, Ireneu ressaltou, em sua obra Contra Heresias, que a Bíblia deve ser entendida de acordo com seu sentido óbvio, verdadeiro. Fazendo frente a outros hereges, como os valentinianos e os seguidores de Marcião, que rejeitavam o Antigo Testamento, Ireneu frisou que este é aceitável para os cristãos porque está repleto de tipos. Em certos casos, entretanto, a tipologia por ele desenvolvida chegava às raias da alegoria. Ele afirmou, por exemplo, que os três espias (e não dois!) que Raabe escondeu representavam Deus Pai, Deus Filho e Deus Espírito Santo. Nos cinco volumes de sua obra “A Refutação da Falsa Gnose”, ele acusa seus adversários de cometerem dois erros. Primeiro, eles deixaram de lado a ordem e o contexto das passagens bíblicas, tomando passagens e palavras isoladas e interpretando-as tendo em mente suas próprias teorias. Segundo, acusou os valentinianos de interpretarem passagens claras, evidentes, pelo prisma da obscuridade.  Ireneu assinalou que uma afirmação ambígua nas Escrituras não deve ser explicada a partir de outra afirmação ambígua.
Em seu entender, o único método correto de interpretação é o da fé, preservada nas igrejas mediante a sucessão apostólica.  Ele costumava apelar para a tradição, dizendo que a exposição autêntica das Escrituras precisava ser aprendida com os anciãos, que podiam considerar-se participantes da sucessão apostólica.
Tertuliano de Cartago (c. 160-220) afirmou que as Escrituras são propriedade da igreja. A solução para a heresia é “a regra de fé”, ou seja, os ensinamentos ortodoxos sustentados pela igreja. Tertuliano acreditava que as passagens bíblicas tinham de ser vistas de acordo com o sentido original, interpretadas segundo o contexto em que foram enunciadas ou escritas.  Contudo, à semelhança do que ocorreu com Ireneu, sua tipologia beirou a alegorização. O quadro de Gênesis 1.2, do Espírito pairando sobre as águas, simboliza o batismo, e Cristo estava ensinando por meio de símbolos quando disse a Pedro que embainhasse a espada.
Tertuliano reprovava os gnósticos por sua alegorização, no entanto recorria a esse estilo sempre que lhe convinha. Os 12 apóstolos são simbolizados pelas 12 fontes de água de Elim, pelas 12 pedras preciosas que o sacerdote levava no peitoral e pelas 12 pedras tiradas do rio Jordão.
Podemos fazer três observações sobre esses três apologistas; Justino, Ireneu e Tertuliano: 1) O estilo alegórico assumiu um caráter apologético, da mesma forma que sucedera no caso dos filósofos gregos e dos judeus alexandrinos. Tais homens achavam que os problemas do Antigo Testamento eram prontamente resolvidos pela alegorização. 2) A tipologia logo pendeu para a alegorização. 3) A autoridade da igreja foi usada para combater as heresias. Sem saber, esses apologistas acabaram abrindo caminho para que a tradição da igreja ganhasse maior autoridade, e essa perspectiva predominou durante séculos na Idade Média.
Os pais alexandrinos e antioquinos
Duas escolas de pensamento surgiram cerca de 200 anos depois de Cristo. Eram escolas de concepções hermenêuticas que tiveram forte impacto sobre a igreja nos séculos posteriores.
Os pais alexandrinos
Panteno, falecido por volta de 190, é o mais antigo mestre da Escola Catequética de Alexandria, no Egito, de que se tem notícia. Ele foi professor de Clemente (não confundi-lo com Clemente de Roma, mencionado anteriormente).
Não é de admirar que Clemente (155-216), morador de Alexandria, tivesse sido influenciado pelo alegorista judeu Filo. Clemente ensinava que todas as Escrituras utilizam uma linguagem simbólica misteriosa. Um dos motivos disso é que servia para despertar a curiosidade dos leitores, e outro era que as Escrituras não deviam ser entendidas por todos.
Clemente afirmou que qualquer passagem da Bíblia pode ter até cinco significados; a) histórico (as histórias bíblicas); b) doutrinário, com ensinamentos morais e teológicos; c) profético, que inclui tipos e profecias; d) filosófico (alegorias com personagens históricas, como Sara, que simbolizava a verdadeira sabedoria, e Hagar, que representava a filosofia pagã e e) místico (verdades morais e espirituais).
Em sua excessiva alegorização, Clemente ensinava que as proibições mosaicas de comer porco, falcão, águia e corvo (Lv 11.7, 13-19) representavam respectivamente a ânsia impura pela comida, a injustiça, o roubo e a cobiça. No episódio em que 5 000 pessoas foram alimentadas (Lc 9.10-17), os dois peixes simbolizam a filosofia grega (As Miscelâneas, 6.11).
Orígenes (c. 185-254) era homem muito culto e de grande magnetismo. Adorador das Escrituras, elaborou os Hexapla — obra em que o texto hebraico e mais cinco versões gregas do Antigo Testamento ficavam dispostos em seis colunas paralelas. Esse trabalho imensurável consumiu cerca de 28 anos. Ele escreveu uma série de comentários e homilias sobre grande parte da Bíblia, e também redigiu vários trabalhos apologéticos, entre eles Contra Celso e De Principiis. Neste último, ressaltou que, como a Bíblia está repleta de enigmas, parábolas, afirmações de sentido obscuro e problemas morais, o sentido só pode ser encontrado num nível mais profundo. Esses problemas incluem a existência de dias em Gênesis 1 antes de o Sol e a Lua terem sido criados, o fato de Deus caminhar pelo jardim do Éden, outros antropomorfismos como a face de Deus e problemas morais como o incesto de Ló, a embriaguez de Noé, a poligamia de Jacó e a sedução de Judá por Tamar, entre outros. Valendo-se de suas alegorias, Orígenes rebateu prontamente estas e outras questões que os inimigos do Evangelho usavam para atacar o cristianismo. Aliás, ele afirmou que as próprias Escrituras exigem que o intérprete empregue o método alegórico (De Principiis, 4.2.49; 4.3,1). Ele via um sentido triplo nos textos bíblicos: literal, moral e espiritual/alegórico. Tal concepção estava fundamentada na tradução da Septuaginta de Provérbios 22.20, 21: “Registra-as três vezes [...] para que possas responder com palavras de verdade”. Esse sentido triplo também é sugerido em 1 Tessalonicenses 5.23 pelo corpo (literal), pela alma (mortal) e pelo espírito (alegórico). Na realidade, ele costumava enfatizar só dois sentidos: o literal e o espiritual (a “letra” e o “espírito”). Todos os textos bíblicos tem significado espiritual, afirmava, mas nem todos possuem significado literal.
Mediante a alegorização, Orígenes ensinava que a arca de Noé simbolizava a igreja e que Noé simbolizava Cristo. O episódio em que Rebeca tirou água do poço para os servos de Abraão significa que devemos recorrer diariamente às Escrituras para ter um encontro com Cristo. Na entrada triunfal de Jesus, a jumenta representava o Antigo Testamento, o jumentinho o Novo Testamento e os dois apóstolos os aspectos moral e místico das Escrituras.
Orígenes desconsiderou a tal ponto o sentido literal e normal das Escrituras, que seu estilo alegórico passou a ser caracterizado por um exagero incomum. Como disse certo autor, era “fantasia desmedida”.
Os pais antioquinos
Percebendo o crescente abandono do sentido literal das Escrituras por parte dos pais alexandrinos, vários líderes da igreja em Antioquia da Síria sublinharam a interpretação histórica, literal. Eles incentivaram o estudo das línguas bíblicas originais (hebraico e grego) e redigiram comentários sobre as Escrituras. O elo entre o Antigo e o Novo Testamento era a tipologia e as profecias em vez da alegorização. Para eles, a interpretação literal incluía a linguagem figurada.
Doroteu, com seus ensinamentos, ajudou a abrir caminho para a instituição da escola em Antioquia da Síria. Luciano (c. 240-312) foi o fundador da escola antioquina.
Diodoro, também da escola antioquina (m. 393), elaborou a obra “Que Diferença Há entre Teoria e Alegoria?”. Ele empregou a palavra teoria em referência ao sentido autêntico do texto que, conforme disse, contém tanto metáforas quanto afirmações explícitas. Foi ele o mestre de dois outros pais antíoquinos famosos: Teodoro da Mopsuéstia e João Crisóstomo. Conta-se que Teodoro da Mopsuéstia foi o maior intérprete da Escola de Antioquia. No último de seus cinco livros, “Da Alegoria e História Contra Orígenes”, ele pergunta: “Se Adão não era de fato Adão, como a morte foi introduzida na raça humana?”. Apesar de Teodoro contestar a canonicidade de vários livros da Bíblia, é conhecido como o príncipe da exegese primitiva.
João Crisóstomo (c. 354-407) era arcebispo de Constantinopla. Suas mais de 600 homilias — que consistem em discursos expositivos de aplicação prática — levaram certo autor a afirmar: “Crisóstomo é indubitavelmente o maior comentarista dentre os primeiros pais da igreja”.  Suas obras contêm cerca de 7 000 citações do Antigo Testamento e em tomo de 11 000 do Novo.
Teodoreto (386-458) escreveu comentários sobre a maioria dos livros do Antigo Testamento e sobre as epístolas de Paulo. Seus comentários, “encontram-se entre os melhores exemplares da exegese primitiva”. 
Os pais da igreja dos séculos V e VI
Sete nomes destacam-se entre os pais da igreja dos séculos V e VI, embora Jerônimo e Agostinho sejam os mais conhecidos.
Jerônimo (c. 347-419) começou adotando a alegorização de Orígenes, Sua primeira obra exegética, “Comentário sobre Obadias”, foi alegórica. Posteriormente, porém, assumiu um estilo mais literal, depois de ter sido influenciado pela escola antioquina e pelos mestres judeus. O último comentário que escreveu foi sobre Jeremias e seguia a linha literal. Mas ele acreditava que um sentido mais profundo das Escrituras poderia ser desvendado a partir do sentido literal. Ou, quando este não era nada edificante, ele o descartava. Foi por isso que alegorizou a história de Judá e Tamar (Gn 38).
Depois de muito viajar, fixou-se em Belém, em 386 d.C. Em clausura, escreveu comentários sobre a maioria dos livros da Bíblia e traduziu-a para o latim. Essa tradução — a Vulgata — foi sem sombra de dúvida sua maior obra.
Agostinho (354-430) foi um teólogo proeminente que exerceu grande influência na igreja durante séculos. No início, era maniqueísta. O movimento maniqueísta, que começou no século III d.C., desmerecia o cristianismo ressaltando os antropomorfismos absurdos do Antigo Testamento. Essa perspectiva dificultava seu entendimento do Antigo Testamento. A tensão foi resolvida, no entanto, quando ele ouviu Ambrósio na catedral de Milão, na Itália. Ambrósio tinha o hábito de citar 2 Coríntios 3.6: “... a letra mata, mas o Espírito vivifica”. Foi assim que Agostinho adotou o estilo alegórico como forma de solucionar os problemas do Antigo Testamento.
Em sua obra “De Doctrina Christiam”, escrita em 397, ele salienta que a forma de descobrir se uma passagem tem sentido alegórico (e a maneira de se resolverem problemas de exegese) é consultar “a regra da fé”, ou seja, o ensinamento da igreja e da própria Escritura. Contudo, nessa mesma obra Agostinho desenvolveu o princípio da “analogia da fé”, segundo o qual nenhuma interpretação é aceitável se for contrária ao sentido geral do restante das Escrituras. No terceiro volume de “De Doctrina Christiana”, ele apresenta sete regras de interpretação, mediante as quais procura criar um fundamento racional para a alegorização. São elas;
1. “O Senhor e seu corpo.” As referências a Cristo quase sempre também se aplicam a seu corpo, a igreja.
2. “A divisão em dois feita pelo Senhor ou a mistura que existe na igreja.” A igreja pode conter tanto hipócritas quanto cristãos genuínos, representados pelos peixes bons e maus apanhados na rede (Mt 13.47,48).
3. “Promessas e a lei.” Algumas passagens estão relacionadas com a graça e outras com a lei; algumas ao Espírito, outras à letra; algumas às obras, outras à fé.
4. “Espécie e gênero,” Certas passagens dizem respeito às partes (espécie), enquanto outras referem-se ao todo (gênero). Os cristãos israelitas, por exemplo, são uma espécie (uma parte) dentro de um gênero, a igreja, que é o Israel espiritual.
5. “Tempos.” Discrepâncias aparentes podem ser resolvidas inserindo uma afirmação em outra. Por exemplo, a versão de um dos evangelhos de que a Transfiguração ocorreu seis dias após o episódio em Cesaréia de Filipe insere-se dentro da versão de outro evangelho, que registra oito dias. E o significado dos números quase nunca é o matemático exato, mas sim o de ordem de grandeza.
6. “Recapitulação.” Algumas passagens difíceis podem ser explicadas quando vistas como referindo-se a um relato anterior. O segundo relato sobre a Criação, em Gênesis 2, é entendido como uma recapitulação do primeiro relato, em Gênesis 1, não como uma contradição a ele.
7. “O diabo e seu corpo.” Algumas passagens que falam do diabo, como Isaías 14, estão mais relacionadas a seu corpo, isto é, a seus seguidores.
Segundo o sistema de interpretação bíblica de Agostinho, o grande teste para saber se uma passagem tem sentido alegórico é o do amor. Se a interpretação literal indica dissensão, o texto deve ser alegorizado.  Ele salientou que a função do expositor é desvendar o sentido das Escrituras, e não lhes atribuir sentido. Mas ele incorreu justamente no erro que contestava, pois afirmou que “o texto bíblico possui mais de um sentido, o que justifica o método alegórico”.  O sistema de alegorização de Agostinho ensinava que os quatro rios de Gênesis 2.10-14 eram quatro virtudes fundamentais e que, no episódio da Queda, as folhas de figueira representavam a hipocrisia e o cobrir a carne, a mortalidade (3.7, 21). A embriaguez de Noé (Gn 9.20-23) simbolizava o sofrimento e a morte de Cristo. Os dentes da sulamita, em Cantares 4.2, simbolizavam a igreja “arrancando os homens da heresia”.
João Cassiano (c. 360-435) era um monge da Cítia (a atual Romênia). Ele pregava que a Bíblia tinha um sentido quádruplo: histórico, alegórico, tropológico e anagógico. Com “tropológico”, ele se referia ao sentido moral. O termo grego tropê, que significa “desvio”, indica que uma palavra adquire sentido moral. Com “anagógico”, referia-se a um significado oculto, celestial, do grego anagein, que se traduz por “fazer subir”,
Segundo esse método, Jerusalém pode ter quatro significados: historicamente, a cidade dos judeus; alegoricamente, a igreja de Cristo; tropologicamente (ou moralmente), a alma humana e anagogicamente, a cidade celestial.
Euquério de Lião, que morreu por volta de 450, tentou provar em seu livro “As Regras da Interpretação Alegórica” a presença de linguagem simbólica nas Escrituras. Ele defendia seu modo de ver argumentando que, da mesma forma que não se jogam pérolas aos porcos, as verdades bíblicas são vedadas às pessoas não-espirituais. Portanto, os antropomorfismos auxiliam os leigos, mas existem outros indivíduos que conseguem enxergar além, percebendo os significados mais profundos das Escrituras. Mas Euquério também percebia nas Escrituras uma “discussão histórica”, isto é, um sentido literal.
Adriano de Antioquia elaborou um manual de interpretação chamado “Introdução às Sagradas Escrituras”, por volta de 425 d.C. Nesse trabalho, ele afirma que os antropomorfismos não devem ser interpretados ao pé da letra. Tratou também de expressões metafóricas e estilos de retórica. Ressaltou que o literalismo é um processo primário e que os intérpretes da Bíblia precisam transcender o entendimento literal para atingirem os significados mais profundos.
Junílio redigiu um manual de interpretação intitulado “As Regras da Lei Divina", em 550 aproximadamente. Ele afirmou que a fé e a razão não são polos opostos. A semelhança de Adriano, declarou que a interpretação da Bíblia deve partir da análise gramatical, mas não pode limitar-se a ela.
Ele via quatro espécies de tipos nas Escrituras, as quais podem ser ilustradas com os seguintes exemplos: a ressurreição de Cristo é um alegre tipo de nossa alegre ascensão futura; a triste queda de Satanás é tipo da nossa triste queda; a triste queda de Adão é tipo (por contraste) da alegre justiça de nosso Salvador e a alegria do batismo é tipo da tristeza da morte do Senhor.
A partir do exemplo desses pais da igreja dos séculos V e VI, fica evidente que Jerônimo, Vicente e Agostinho abriram caminho para duas tendências que haveriam de durar mais de mil anos: a alegorização e a autoridade da igreja. Cassiano, Euquério, Adriano e Junílio apoiaram-se no método alegórico de Agostinho, fortalecendo assim tal método de interpretação bíblica, para que perdurasse durante os séculos seguintes da Idade Média.
A Idade Média
A Idade Média foi um deserto vasto no tocante à interpretação bíblica. Não houve concepções novas e criativas acerca das Escrituras. A tradição da igreja ocupava lugar de relevo, juntamente com a alegorização das Escrituras.
Na Idade Média, era comum o emprego de encadeamentos — cadeias de interpretações formadas a partir dos comentários dos pais da igreja. A maior parte dos encadeamentos medievais estava baseada nos pais latinos Ambrósio, Hilário, Agostinho e Jerônimo.
Normalmente, o início da Idade Média é associado a Gregório, o Grande (540-604), que foi o primeiro papa da Igreja Católica Romana. Ele fundamentava suas interpretações da Bíblia nos pais da igreja. Não é de surpreender que tenha defendido a alegorização nos seguintes termos: “Que são as palavras da verdade se não fizermos delas alimento para a alma? [...] A alegoria equipa a alma que está longe de Deus, alçando-a até ele” (Exposição Sobre Cantares). Vejamos alguns exemplos de sua alegorização: no livro de Jó, os três amigos são os hereges, os sete filhos de Jó são os 12 apóstolos, as 7 000 ovelhas são pensamentos inocentes, os 3 000 camelos são as concepções vãs, as 500 juntas de bois são virtudes e os 500 jumentos são tendências lascivas.
Beda, o Venerável (673-734), teólogo anglo-saxão, escreveu comentários que, em grande parte, eram compilações dos trabalhos de Ambrósio, Basílio e Agostinho; além disso, tinham forte caráter alegórico. Segundo o entender de Beda, na parábola do filho pródigo, o filho representava a filosofia mundana, o pai simbolizava Cristo e a casa do pai era a igreja.
Alcuíno (735-804), de Iorque, na Inglaterra, também adotou o sistema alegórico. No comentário que elaborou sobre João, ele seguiu os passos de Beda e reuniu os comentários de Agostinho e Ambrósio, entre outros.
Rabano Mauro foi aluno de Alcuíno e redigiu comentários sobre todos os livros da Bíblia. Valendo-se da alegorização, escreveu que as quatro rodas da visão de Ezequiel representavam a lei, os profetas, os evangelhos e os apóstolos. O significado histórico da Bíblia é leite, o alegórico é pão, o anagógico é alimento saboroso e o tropológico é vinho que alegra.
Rashi (1040-1105) foi um literalista judeu da Idade Média que exerceu grande influência sobre as interpretações judaica e cristã, dada a ênfase que colocava na gramática e na sintaxe do hebraico. Ele elaborou comentários sobre o Antigo Testamento inteiro, à exceção de Jó e Crônicas. Afirmou que “o sentido literal precisa ser conservado, a despeito de como possa afetar o sentido tradicional”.
Três autores da Abadia de São Vítor, em Paris, adquiriram o mesmo interesse de Rashi pelo aspecto histórico e literal das Escrituras. Esses homens — Hugo (1097-1141), Ricardo (m. 1173) e André (m. 1175) — eram conhecidos como os vitorinos. Ricardo e André eram alunos de Hugo. A ênfase dos vitorinos no sentido literal das Escrituras foi uma luz brilhante na Idade Média. André discordava de Jerônimo, que afirmara que a primeira parte de Jeremias 1.5 falava de Jeremias, mas a última parte do versículo falava de Paulo. André disse: “Que tem isso que ver com Paulo?”. Ricardo, por sua vez, preocupou-se mais com o aspecto místico da Bíblia do que os outros dois.
Bernardo de Claraval (1090-1153) foi um monge proeminente que elaborou inúmeros trabalhos, dentre os quais figuram 86 sermões apenas sobre os dois primeiros capítulos de Cantares! Sua forma de interpretar a Bíblia caracterizava-se por uma alegorização e um misticismo exagerados.
Um exemplo disso é que as virgens de Cantares 1.3 eram anjos, e as duas espadas em Lucas 22.38 representavam os aspectos espiritual (o clero) e material (o imperador).
Joaquim de Flora (1132-1202), monge beneditino, escreveu que a época desde a Criação até Cristo foi a era de Deus Pai, que a segunda era (de Cristo até o ano 1260) foi a de Deus Filho, representada pelo Novo Testamento, e que a era futura (a começar em 1260) seria a do Espírito Santo. Joaquim também escreveu uma harmonia dos evangelhos e elaborou comentários sobre diversos profetas.
Stephen Langton (c. 1155-1228), arcebispo da Cantuária, sustentava que a interpretação espiritual é superior à literal. Assim sendo, no livro de Rute, o campo simboliza a Bíblia, Rute representa os estudantes e os ceifeiros são os mestres. Foi Langton quem dividiu a Vulgata em capítulos.
Tomás de Aquino (1225-1274) foi o teólogo mais famoso da Igreja Católica Romana da Idade Média. Ele acreditava que o sentido literal das Escrituras era fundamental, mas que outros sentidos apoiavam-se sobre este. Como a Bíblia tem um Autor divino (bem como autores humanos), ela tem um lado espiritual. “O sentido literal é o que o autor pretende transmitir, mas, como o Autor é Deus, podemos esperar encontrar na Bíblia um manancial de significados. [...] O Autor das Sagradas Escrituras é Deus, que tem o poder de expressar o que quer dizer não apenas por meio de palavras (como também o homem pode fazer), mas também por meio de elementos. [...] Esse significado, que confere sentido aos próprios elementos representados pelas palavras, é chamado de sentido espiritual, que por sua vez se apoia no literal e o pressupõe” (Summa Theologica, 1.1.10). Aquino também considerava os sentidos histórico, alegórico, tropológico e anagógico.
Nicolau de Lira (1279-1340) foi figura de relevo na Idade Média por ter sido o elo entre as trevas daquela era e a luz da Reforma. Em seus comentários sobre o Antigo Testamento, ele rejeitou a Vulgata e retomou para o hebraico, mas não conhecia grego. Lutero sofreu forte influência de Nicolau.
Apesar de Nicolau aceitar o sentido quádruplo das Escrituras, tão comum na Idade Média, pouca importância lhe dava, enfatizando o aspecto literal. Neste sentido, foi intensamente influenciado por Rashi.
João Wycliffe (c. 1330-1384) foi um extraordinário reformador e teólogo, que acentuava fortemente a legitimidade das Escrituras como fonte de doutrinas e de vida cristã. Portanto, contestava a posição tradicional da Igreja Católica. Ele propôs várias regras de interpretação bíblica: a) consiga um texto confiável; b) entenda a lógica das Escrituras; c) compare os trechos da Bíblia entre si; d) mantenha uma atitude humilde, de busca, para que o Espírito Santo possa ensiná-lo (The Truth of Holy Scripture [A Verdade das Sagradas Escrituras], 1377, p. 194-205). Sublinhando a interpretação gramatical e histórica das Escrituras, Wycliffe escreveu que “tudo o que é necessário na Bíblia está contido em seus devidos sentidos literal e histórico”. Ele foi o primeiro tradutor inglês da Bíblia. E chamado de “a estrela-d’alva da Reforma”.
A Reforma
Durante a Reforma, a Bíblia passou a ser a única fonte legítima a nortear a fé e a prática. Os reformadores basearam-se no método literal da escola antioquina e dos vitorinos. A Reforma foi uma época de distúrbios sociais e eclesiásticos, foi essencialmente uma reforma hermenêutica, uma reforma da maneira de ver a Bíblia.
 A Renascença, que iniciou no século XIV na Itália e invadiu o século XVII, consistiu no reavivamento do interesse pela literatura clássica, até mesmo pelo hebraico e pelo grego. Johannes Reuchlin escreveu diversos livros sobre a gramática hebraica, entre eles “Interpretação Gramatical dos Sete Salmos Penitenciais”. Desidério Erasmo, humanista proeminente da Renascença, revisou e publicou, em 1516, a primeira edição do Novo Testamento grego. Foi também ele que escreveu e publicou Anotações sobre o Novo Testamento, além de paráfrases de todo o Novo Testamento, com exceção de Apocalipse. “Essas publicações inauguraram uma nova era de aprendizado bíblico e muito contribuíram para suplantar o escolasticismo das eras anteriores com melhores métodos de estudo teológico”.
Martinho Lutero (1438-1546) escreveu: “Quando monge, eu era perito em alegorias. Eu alegorizava tudo. Mas, depois de fazer preleções sobre a Epístola aos Romanos, passei a conhecer a Cristo. Foi assim que percebi que ele não é nenhuma alegoria e aprendi a saber o que Cristo realmente é”.
Lutero denunciou energicamente o método alegórico de interpretação das Escrituras. “Alegorias são especulações vãs, são como que a escória das Escrituras Sagradas. Até a imundícia vale mais que as alegorias de Orígenes.” “Alegorizar é manipular o texto bíblico.“ “A alegorização pode degenerar em mera fraude”. “As alegorias são coisas estranhas, absurdas, fantasiosas e obsoletas que não valem um centavo”.
Lutero rejeitou o sentido quádruplo das Escrituras, que predominara na Idade Média, e ressaltou o sentido literal (sensus literalis) da Bíblia. Ele disse que as Escrituras “devem ser mantidas em seu significado mais simples possível e entendidas de acordo com seu sentido gramatical e literal, a menos que o contexto claramente o impeça” (Luther's Works, 6:509). A importância que dava ao aspecto literal levou-o a elevar os idiomas originais das Escrituras. “Sem os idiomas, não preservaremos o evangelho por muito, tempo. Eles são a bainha onde a espada do Espírito fica guardada” (Luther’s Works, 4:114-5). Mas o estudante da Bíblia, declarou Lutero, precisa ser mais do que um filólogo. Precisa ser iluminado pelo Espírito Santo. Além disso, a abordagem gramatical e histórica não é um fim em si mesma; seu objetivo é conduzir-nos a Cristo.
À semelhança de Agostinho, Lutero afirma, em sua obra “Analogia Scripturae” [Analogia da Fé] que as passagens obscuras devem ser entendidas com base nas de sentido nítido. “O texto bíblico interpreta a si próprio”, costumava dizer. “Esse é o verdadeiro método de interpretação, que compara passagem bíblica com passagem bíblica da forma certa, adequada” (Luther’s Works, 3:334).
Na opinião de Lutero, qualquer cristão devoto pode entender a Bíblia, “Não existe na terra livro mais translúcido que as Sagradas Escrituras” (exposição do salmo 37). Com tal ênfase, ele estava contrapondo-se à dependência que as pessoas comuns tinham da Igreja Católica Romana.
Embora Lutero fosse inimigo ferrenho da alegorização das Escrituras, vez por outra ele também empregava esse estilo. Ele afirmou, por exemplo, que a arca de Noé era uma alegoria da igreja.
Para ele, a interpretação bíblica deve estar centrada em Cristo. Em vez de alegorizar o Antigo Testamento, com frequência Lutero via nele a figura de Cristo, muitas vezes além do que legitimamente permite uma interpretação correta.
O fato de Lutero ter rejeitado a alegorização das Escrituras causou uma revolução. O estilo alegórico estivera arraigado na igreja havia séculos. Embora tivesse sido fruto da tentativa de solucionar a questão dos antropomorfismos e supostas imoralidades da Bíblia, esse estilo continha inúmeros problemas. A alegorização passa a ser arbitrária. É um processo que carece de objetividade e que não refreia a imaginação. Ela encobre o verdadeiro sentido dos textos bíblicos. Sua mensagem não se impõe, pois alguém pode dizer que certa passagem ensina determinada verdade em termos alegóricos, ao passo que outra pessoa é capaz de enxergar um significado completamente diferente. É uma forma de despojar as Escrituras de qualquer autoridade. “A Bíblia analisada pelo prisma alegórico toma-se massa de modelar nas mãos do exegeta.” A alegorização também pode provocar orgulho quando alguns procuram enxergar nas Escrituras o que pensam ser um sentido espiritual, místico, mais “profundo” do que aquele visto pelos outros.
Mas o apóstolo Paulo não fez uso da alegorização? Ele escreveu, em Gálatas 4.24-26: “Estas cousas são alegóricas: porque estas mulheres são duas alianças; uma, na verdade, se refere ao monte Sinai, que gera para escravidão; esta é Hagar. Ora, Hagar é o monte Sinai na Arábia, e corresponde à Jerusalém atual que está em escravidão com seus filhos. Mas a Jerusalém lá de cima é livre, a qual é nossa mãe...”. Existe, porém; uma diferença entre a interpretação de alegorias assim chamados na Bíblia. Quando Paulo utiliza alegorias em Gálatas 4, ele deixa claro o que está fazendo, como acontece com os outros autores bíblicos que empregaram esse estilo. O apóstolo escreveu literalmente: “Estas cousas são alegóricas...”. Ele empregou o verbo allêgorêo, que significa “dar a entender um sentido diferente do que é expresso pelas palavras”. É um complemento, não um substituto do sentido claro, gramatical das palavras.
O apóstolo utilizou a alegorização como forma de ilustração ou analogia, para destacar que certos fatos relativos a Hagar estão associados aos não-cristãos e que certos fatos relativos a Sara estão associados aos cristãos.
Philip Melanchthon (1497-1560), companheiro de Lutero, era profundo conhecedor do hebraico e do grego. Esse conhecimento, aliado a “seu caráter judicioso e à prudência de seu método de trabalho, possibilitou que ocupasse uma posição de relevo na exegese bíblica“. Apesar de às vezes recair na alegorização, no cômputo geral ele também seguia o método gramatical e histórico.
João Calvino (1509-1564) é chamado de “um dos maiores intérpretes da Bíblia“. Como Lutero, Calvino rejeitava as interpretações alegóricas. Declarou que eram “jogos fúteis“ e que Orígenes e muitos outros eram culpados de “desfigurar as Escrituras em todos os sentidos possíveis, destituindo-as do sentido original”. Calvino ressaltava a natureza cristológica dos textos bíblicos, o método gramático e histórico, a exegese em vez da eisegese (deixar o texto falar por si mesmo, e não ler o que ele não diz), o ministério esclarecedor do Espírito Santo e um tratamento equilibrado da tipologia.
Da mesma forma que Lutero, Calvino frisava que “o texto bíblico interpreta a si mesmo“. Assim sendo, deu extrema importância à exegese gramatical e à necessidade de examinar o contexto de cada passagem.
Embora seja mais famoso por sua teologia (delineada nos dois volumes da obra Institutos da Religião Cristã), ele fez comentários sobre todos os livros da Bíblia, com exceção de 14 do Antigo Testamento e três do Novo. São eles: Juízes, Rute, 1 e 2 Samuel, 1 e 2 Reis, 1 e 2 Crônicas, Esdras, Neemias, Ester, Provérbios, Eclesiastes, Cantares, 2 e 3 João e Apocalipse.
No prefácio de seu comentário sobre Romanos, Calvino escreveu que “a primeira preocupação do intérprete é deixar o autor dizer o que realmente diz, em vez de atribuir-lhe o que achamos que ele deveria dizer”. Calvino conhecia profundamente as Escrituras, o que fica evidente no fato de que suas Instituías continham 1 755 citações do Antigo Testamento e 3 098 do Novo.
Ulrich Zuínglio (1484-1531) foi o cabeça da Reforma em Zurique, enquanto Calvino o foi em Genebra. Tendo cortado os laços com o catolicismo romano, pregava sermões expositivos, muitos dos quais sobre os evangelhos. Ele repudiava a autoridade da igreja e escreveu que “todos aqueles que afirmam que o evangelho de nada vale sem a aprovação da igreja estão incorrendo num erro e desacreditando Deus” (Sessenta e Sete Teses).
Zuínglio salientava a importância de interpretar passagens bíblicas tendo em mente seus contextos. Remover um texto de seu contexto “é como separar uma flor da raiz”. Ao abordar o papel do ministério esclarecedor do Espírito Santo, ele declarou que “a certeza vem pelo poder e pela nitidez da atuação criadora de Deus e do Espírito Santo”.
William Tyndale (c. 1494-1536) é famoso por sua tradução do Novo Testamento para o inglês, em 1525. Ele também traduziu o Pentateuco e o livro de Jonas. Tyndale era outro que defendia o sentido literal da Bíblia. “As Escrituras têm apenas um sentido, que é o literal.”
O movimento anabatista começou em 1525 em Zurique, na Suíça, com os seguidores de Zuínglio. Estes achavam que ele não cortara de vez os laços com o catolicismo no tocante às questões do controle da igreja por parte do Estado e do batismo de crianças. Os três “pais fundadores” do movimento anabatista foram Conrad Grebel, Felix Mantz e Georg Blaurock. Dentre outros líderes famosos figuram: Balthasar Hubmaier, Michael Sattler, Pilgram Marpeck e Menno Simons. Os menonitas de hoje recebem esse nome graças a Menno Simons.
Os anabatistas acreditavam que, se uma pessoa tivesse sido batizada quando bebê pela igreja reformada (zuingliana) e depois de adulta aceitasse Cristo, deveria ser rebatizada. Foi por isso que seus inimigos apelidaram-nos de “anabatistas”, que significa “rebatizadores”, Os primeiros líderes na Suíça autodenominavam-se “irmãos suíços”. Eles também ressaltavam a importância de cada um interpretar as Escrituras com o auxílio do Espírito Santo, a primazia do Novo Testamento sobre o Antigo, a separação entre a igreja e o Estado e a disciplina e a disposição fiéis de sofrer pelo nome de Cristo. Preocupavam-se intensamente com a necessidade de uma igreja neotestamentária pura, uma lealdade à Bíblia e uma vida de humildade, pureza, disciplina e obediência a Cristo.
Em resposta à Reforma protestante, a Igreja Católica Romana convocou o Concílio de Trento, que se reuniu várias vezes de 1545 a 1563. As reformas empreendidas na Igreja Católica ficaram conhecidas como Contra-Reforma. Esse Concílio declarou que a Bíblia não é a autoridade suprema, mas que a verdade encontra-se “em livros escritos e em tradições não-escritas”. Essas tradições incluem os pais da igreja da antiguidade e os líderes da igreja de hoje.
O Concílio afirmou ainda que uma interpretação precisa só se toma possível por meio da Igreja Católica Romana — a fornecedora e guardiã da Bíblia — e não mediante indivíduos. Nele se registraram as seguintes palavras: “Ninguém, apoiando-se na própria capacidade, poderá, ‘nas questões de fé e de palavras concernentes à edificação da doutrina cristã, distorcendo as Escrituras Sagradas para seu próprio sentido, presumir que as interpretará em conformidade com o que a Santa Madre Igreja [...] sustentou e sustenta; nem mesmo em contrariedade ao que os pais estabeleceram unanimemente.”.
O pós-Reforma
Os 200 anos dos séculos XVII e XVIII caracterizaram-se por vários movimentos e atividades marcantes. Figuram, entre outros, a consolidação e disseminação do calvinismo, as reações ao calvinismo, os estudos textuais e linguísticos e o racionalismo.
A consolidação e a difusão do calvinismo
A Confissão de Westminster, aprovada pelo parlamento inglês em 1647 e pelo parlamento escocês em 1649, apresentou as doutrinas que norteariam o calvinismo na Inglaterra. A postura da Confissão de Westminster em relação às Escrituras foi a seguinte: “A regra infalível de interpretação bíblica está nas próprias Escrituras; portanto, quando houver dúvida sobre o significado verdadeiro e completo de qualquer passagem (que é apenas um, e não muitos), deve ser pesquisado e conhecido em outros trechos que sejam mais claros”.
Francisco Turretin (1623-1687) ensinava teologia em Genebra. Como Calvino, pregava que as Escrituras eram fonte infalível e confiável e reforçava a importância de conhecer o texto original. Esses tópicos são tratados em sua obra “Institutio Theologicae Elenctiacae”. Nesse trabalho, ele discute quatro aspectos principais das Escrituras: sua indispensabilidade, autoridade, perfeição e clareza.
Jean-Alphonse Turretin (1648-1737), filho de Francisco Turretin, escreveu “De Sacrae Scripturae Interpretandae Methodo Tractatus” (1728), onde enfocou os seguintes aspectos relativos à exegese gramatical e histórica:
1. As Escrituras devem ser interpretadas como qualquer outro livro.
2. O intérprete precisa atentar para palavras e expressões nas Escrituras.
3. O objetivo do exegeta é descobrir o propósito do autor no contexto.
4. O intérprete deve utilizar a luz natural da razão (nesse aspecto, ele seguiu o pai, que concordava com Aquino no tocante ao papel da razão), não devendo perceber nas Escrituras nenhuma contradição.
5. As “opiniões dos autores sagrados” precisam ser compreendidas sob o aspecto das épocas em que viveram (ou seja, os cenários cultural e histórico devem ser levados em conta).
Johann Ernesti (1707-1781) é “provavelmente o nome mais notável da história da exegese do século XVIII”. Seu trabalho “Institutio Interpretis Nove Testamenti” [Princípios de Interpretação do Novo Testamento] foi um manual de hermenêutica durante mais de cem anos. Ele acentuou a importância da gramática na compreensão das Escrituras e repudiou a alegorização, ressaltando um tratamento literal da Bíblia.
As reações perante o calvinismo
O teólogo holandês Jacobus Arminius (1560-1609) rejeitou uma série de ensinamentos de João Calvino e pregava que o homem possui livre-arbítrio. Em 1610, seus seguidores expuseram suas concepções num tratado de nome Contestação.
O misticismo — a concepção de que o homem pode adquirir conhecimento diretos sobre Deus e ter comunhão com ele por meio de uma experiência subjetiva, à parte das Escrituras — desenvolveu-se no pós-Reforma, sob a influência de Jacob Boehme (1635-1705). Boehme preparou o caminho para o pietismo e sua ênfase na espiritualidade interior.
Após o Concílio de Trento, os protestantes puseram-se a delinear suas próprias doutrinas, a fim de defender seus ensinamentos. Assim, o pós-Reforma foi uma época de dogmatismos teológicos, “uma época de caça às heresias e de um rigoroso protestantismo doutrinário”.
O pietismo surgiu como reação ao dogmatismo doutrinário. Philipp Jakob Spener (1635-1705) é considerado o fundador do pietismo do pós-Reforma. Luterano que era, repelia o formalismo morto e a teologia de meras palavras e credos. Em suas obras “Pia Desideria” [Desejos Piedosos] (1675) e “Prieslertum” [O Sacerdócio Espiritual], (1677) ele destacou a necessidade de uma vida santa, do sacerdócio de cada cristão e de uma vida de estudo bíblico e oração.
August H. Francke (1663-1727) sublinhou a filologia e as implicações práticas das Escrituras na vida. “Francke insistia em que se lesse a Bíblia inteira com frequência; em que os comentários deviam ser usados com prudência, para que não tomassem o lugar do estudo das Escrituras; e em que somente os regenerados podiam entender a Bíblia”.
Spener e Francke repeliam o tratamento textual das Escrituras, que, como diziam, só tratava da “camada exterior”. 
O pietismo influenciou os morávios, que por sua vez influenciaram John Wesley (1703-1791). Wesley sustentava que o significado da Bíblia é claro e que seu intuito é conduzir o leitor a Cristo. Reagindo ao racionalismo, ele desacreditava do raciocínio humano.
Os estudos textuais e linguísticos
Nos séculos XVII e XVIII, “largos passos foram dados no sentido de descobrir o texto original da Bíblia”. Louis Cappell é considerado o primeiro crítico textual do Antigo Testamento, como se vê em sua obra “Critica Sacra”, publicada em 1650. Johann A. Bengel (1687-1752) é conhecido como “o pai da crítica textual moderna”. Ele foi o primeiro erudito a identificar famílias ou grupos de manuscritos, com base em características comuns. Em 1734, publicou uma edição crítica do Novo Testamento grego, juntamente com um comentário crítico. Em 1742, escreveu um comentário sobre o Novo Testamento que tratava de versículo por versículo. Nessa obra, salientou os aspectos filológico, espiritual e devocional.
Johnann J. Wettstein (1693-1754) corrigiu muitos manuscritos do Novo Testamento e publicou um Novo Testamento grego em dois volumes com um comentário, em 1751.
O racionalismo
Esse movimento sustentava que o intelecto humano sabe discernir o que é verdadeiro e o que é falso. Portanto, a Bíblia está certa se corresponde à razão humana, e o que não corresponde pode ser ignorado ou rejeitado.
Thomas Hobbes (1588-1679) foi um filósofo inglês que pregava o racionalismo com tendências políticas. Hobbes interessava-se pela Bíblia como um livro que continha regras e princípios para a república inglesa.
O judeu Baruch Spinoza (1632-1677) foi um filósofo holandês que ensinava que a razão humana está desvinculada da teologia. A teologia (revelação) e a filosofia (razão) pertencem a campos distintos. Assim sendo,  ele contestava os milagres bíblicos. No entanto, ele determinou várias regras de interpretação das Escrituras, incluindo a necessidade de conhecer o hebraico e o grego e o contexto de cada livro das Escrituras. A razão é o critério absoluto para julgar qualquer interpretação de uma passagem bíblica: “A regra da exegese bíblica só pode ser a luz da razão, para todos” (Tractatus theologico-politicus, 1670). A Bíblia só deve ser estudada em virtude de seu interesse histórico.
A Era Moderna
O século XIX
Três elementos do século XIX podem ser examinados: o subjetivismo, a crítica histórica e os trabalhos exegéticos.
No movimento que ficou conhecido como subjetivismo, dois nomes se destacam: Friedrich D. E. Schleiermacher (1768-1834) e Soren Kierkegaard (1813-1855). O subjetivismo é a ideia de que o conhecimento é fruto da experiência individual ou de que o bem supremo decorre de uma experiência ou sentimento subjetivo.
Schleiermacher rejeitava a autoridade da Bíblia e salientava o papel do sentimento e da percepção individual na religião. Foi uma reação ao racionalismo e ao formalismo. Como escreveu em sua obra Monólogos, publicada em 1800, o cristianismo devia ser encarado como uma religião de emoções, não como uma série de dogmas ou um conjunto de princípios morais.
O filósofo dinamarquês Kierkegaard, conhecido como “o pai do existencialismo moderno”, relegava a razão ao nível mais elementar do ser humano, rejeitava a cristandade, com seu racionalismo formal e dogmatismo frio, e pregava que a fé é uma experiência subjetiva vivida em momentos de desespero.
A crítica bíblica alcançou uma posição de relevo no século XIX. Sua perspectiva era racionalista e seu relevo estava na autoria humana da Bíblia e nas circunstâncias históricas que cercaram o desenvolvimento do texto bíblico. Como racionalistas, os estudiosos da Bíblia contestavam sua natureza sobrenatural e sua inspiração. Em virtude de sua inclinação filosófica para o naturalismo, eles modificavam os milagres registrados nas Escrituras mediante explicações.
Benjamin Jowett (1817-1893) escreveu em “Dissertações” e Críticas que “a Bíblia deve ser interpretada como qualquer outro livro”, o que exigia que se conhecessem as línguas originais. Mas, em seu entender, isso significava que a Bíblia não tinha caráter sobrenatural, pois possuía “uma intrincada malha de fontes, redatores e interpoladores” que não a faz em nada diferente “de qualquer outra produção literária”.
De acordo com Ferdinand C. Baur (1792-1860), fundador da Escola de Tübingen, o cristianismo evoluiu gradativamente do judaísmo, até se transformar numa religião mundial. Sofrendo forte influência da filosofia de Hegel quanto a tese, antítese e síntese. Baur ensinava que Pedro e Paulo encabeçavam dois grupos antagônicos, mas que por fim vieram a unir-se na igreja católica (universal) primitiva.
David F. Strauss (1808-1874) adotou uma perspectiva mitológica da Bíblia, que o levou a rejeitar a interpretação gramatical e histórica e os milagres. Strauss foi discípulo de Baur.
Julius Wellhausen (1844-1918) desenvolveu a concepção de Karl Graf, denominando-a “hipótese documental”. Nessa perspectiva, o Pentateuco é tido como o trabalho de vários autores — um autor, chamado “J”, elaborou as partes onde Deus é chamado de “Jeová” (daí “J”), o autor “E” compilou os trechos que dizem “Eloim” (daí “E”), “D” foi o deuteronomista e “P” — o último — representa o regimento sacerdotal [priestly, em inglês]. Wellhausen acreditava que o povo do Antigo Testamento evoluiu do politeísmo para o animismo, e daí para o monoteísmo. Adolf von Hamack (1851-1930), outro crítico da Bíblia, examinou-a como um biólogo disseca o cadáver de um animal.
Em contraste com a crítica histórica racionalista desses e de outros líderes do século XIX, muitos eruditos conservadores vinham escrevendo comentários exegéticos sobre a Bíblia. Mickelsen afirma que entre esses figuram:
W. Hengstenberg, Cari F. Keil, Franz Delitzsch, H. A. W. Meyer, J, P. Lange, Frederic Godet, Henry Alford, Charles J. Ellicott, J. B. Lightfoot, B. Westcott, F. J. A. Hort, Charles Hodge, John Albert Broadus e Theodor Zahn. A essa lista podem ser acrescentados J. A. Alexander, Albert W. Bames, John Eadie, Robert Jamieson e Richard C. Trench.  
O século XX
O século XX abriga muitas correntes de interpretação bíblica. O liberalismo deu continuidade a uma boa parcela da abordagem racionalista e mais crítica do século XIX. A ortodoxia adotou uma concepção tanto literal quanto devocional da Bíblia. A neo-ortodoxia diz que a Bíblia torna-se a Palavra de Deus nos encontros existenciais do homem. O bultmannismo adotou uma perspectiva mitológica da Bíblia.
O liberalismo, que teve grande influência no século XIX, entrou pelo século XX. Nele, a Bíblia é vista como um livro humano não dado pela inspiração divina. Além disso, prega que os elementos sobrenaturais das Escrituras podem ser explicados de forma racional. Dentre os líderes liberais estão: Nels Feré, Harry Emerson Fosdick, W. H. Norton, L. Harold De Wolf e outros.
“As doutrinas de pecado, depravação e inferno ofendem a sensibilidade moral dos liberais, daí o fato de as rejeitarem.” A teoria da evolução de Charles Darwin também é aplicada à religião de Israel, por se entender que Israel evoluiu do politeísmo para o monoteísmo. Jesus é considerado um mestre moral e ético, em vez do Salvador que nos tira do pecado.
O fundamentalismo reagiu fortemente ao liberalismo e incentivou uma abordagem literal da Bíblia, como livro sobrenatural que é. Atualmente e em décadas anteriores deste século, muitos estudiosos evangélicos têm-se apegado a uma concepção ortodoxa da Bíblia, enfatizando a interpretação gramatical e histórica, participando assim do legado da escola antioquina, dos vitorinos e dos reformadores.
Karl Barth (1886-1968) condenou vigorosamente o liberalismo morto, em sua obra “Comentário sobre Romanos”, de 1919. Ele discordava dos liberais, que consideravam a Bíblia um documento meramente humano. Ao contrário, nela Deus fala por meio de contatos entre o divino e o humano. Nesses encontros, há revelação e a Bíblia transforma-se na Palavra de Deus. A Bíblia registra e dá testemunho da revelação; em si mesma, não é a revelação. Emil Brunner (1889-1966) e Reinhold Neibuhr (1892-1971) são outros líderes neo-ortodoxos.
Os teólogos neo-ortodoxos negam a inerrância e a infalibilidade da
Bíblia. A criação do universo, a criação do homem, a queda do homem, a ressurreição de Cristo e sua segunda vinda são interpretadas em termos mitológicos. A queda é um mito mostrando que o homem corrompe sua natureza moral. A encarnação e a cruz ensinam-nos que a solução do problema da culpa do homem só pode vir de Deus. Esses acontecimentos se deram num nível histórico diferente, num nível mitológico, e não na história de fato.
Rudolf Bultmann (1884-1976) ensinava que o Novo Testamento devia ser compreendido em termos existencialistas pela “demitização”, ou seja, pela destituição de elementos mitológicos “estranhos” — tais como os milagres, entre os quais a ressurreição de Cristo — que, em seu entender, são inaceitáveis atualmente. Esses “mitos” representavam uma realidade para as pessoas nos tempos da Bíblia, mas hoje esses elementos bíblicos não têm sentido literal. Trata-se de recursos poéticos pré-científicos para expressar verdades “espirituais” transcendentes. Jesus, por exemplo, não ressuscitou literalmente dos mortos. O que sua “ressurreição” simbolizou foi a nova liberdade que os discípulos experimentaram.

Influenciado pelo existencialismo do filósofo alemão Martin Heidegger (1889-1976), o bultmannismo adota uma perspectiva existencialista da Bíblia. Isso significa que a preocupação dos líderes desse movimento é alcançar o âmago da experiência religiosa das Escrituras. Chamado de “nova hermenêutica”, o movimento tem por patrocinadores Emest Fuchs, Gerhard Ebeling e Hans-Georg Gadamer. Na nova hermenêutica, o texto bíblico pode ter o sentido que o leitor desejar. À semelhança da neo-ortodoxia, a nova hermenêutica contesta as verdades proposicionais. A verdade existe no campo existencial, ou seja, é uma experiência, não uma proposição escrita. Portanto, no ensino de Fuchs, não devemos tentar descobrir o sentido dos textos bíblicos. Devemos apenas deixá-los falar conosco, permitir que modifiquem o entendimento que temos de nós mesmos. Assim sendo, a hermenêutica é o processo de entender a si mesmo. Nesse “encontro com o verbo”, como o chamou Ebeling, ou vislumbre de percepção, o texto fala à nossa situação. Gadamer sustenta que o sentido da Bíblia nunca pode ser totalmente desvendado. Como foi escrita há muitos séculos, o homem moderno não tem condições de penetrar naquele mundo. Portanto, nosso mundo e o mundo bíblico estão contrapostos.