19 de fevereiro de 2017

RALPH L. SMITH - Teologia do Antigo Testamento: Introdução

danilo moraes professor
Introdução

Que é teologia do Antigo Testamento?

Como devemos fazer teologia do Antigo Testamento?

Qual a relação do Antigo Testamento com o Novo e com a fé cristã?

Por que o Antigo Testamento faz parte da Bíblia cristã?

Os cristãos devem continuar a chamar de "Antigo Testamento" a primeira divisão da Bíblia, como têm feito através da maior parte da história, ou devem se unir ao crescente número de estudiosos que o chamam "a Bíblia hebraica"?

Quais são os maiores escritores nesse campo? Como eles fizeram teologia do Antigo Testamento? Qual a situação atual dessa disciplina e qual o seu futuro?

O Antigo Testamento tem realmente uma mensagem para nós hoje?

Essas são algumas perguntas de que tratarei em Teologia do Antigo Testamento: História, Método e Mensagem.

O propósito deste livro é pesquisar, não discutir ou debater. Não apresenta nenhum método radicalmente novo de fazer teologia do Antigo Testamento ou de interpretá-lo. Seu alvo é fornecer a alunos de universidades e seminários um livro de texto que proporcione um relato parcial do que os outros têm dito e feito no campo da teologia do Antigo Testamento e, depois, sugira modos pelos quais os dados teológicos no Antigo Testamento possam ser organizados, interpretados e apropriados. 

O capítulo 1 acompanha a história da teologia do Antigo Testamento desde os tempos veterotestamentários até o presente. O capítulo 2 trata, com um pouco mais de detalhes, da natureza e do método da teologia do Antigo Testamento. Não escolhi nenhum tema central, tal como a aliança, para servir de mastro ao redor do qual se deve organizar todo o material. Tampouco selecionei algum tópico mais amplo, como "a promessa" ou "história da salvação", que possa ser seguido cronologicamente através do Antigo Testamento. Antes, escolhi uma abordagem temático-sistemática. Portanto, os capítulos 3 a 11 são exemplos de como se pode fazer teologia do Antigo Testamento usando os seguintes temas teológicos maiores: o conhecimento de Deus; eleição e aliança; quem é Deus como Javé?; que é o homem?; pecado e redenção; adoração; a vida reta; a morte e o além; e naquele dia.

Os perigos dessa abordagem estão bem documentados. Talvez o maior perigo seja que, ao selecionar temas a serem incluídos ou omitidos e ao sistematizar os dados na discussão de cada tema, eu posso dar meu "toque" pessoal na organização e interpretação de cada assunto. Nesse caso, o resultado corre o risco de corresponder ao que coloco em discussão e não ao que o Antigo Testamento realmente diz. Esse perigo, porém, é inerente a qualquer apresentação de teologia do Antigo Testamento.

A disciplina em sua forma moderna teve início no final da década de 1700 como tentativa de libertar o estudo teológico da Bíblia dos grilhões da teologia dogmática e de seu uso incorreto da Bíblia para sustentar suas crenças.1 Toda apresentação da teologia do Antigo Testamento recebe cor própria que depende do ponto de vista, contexto e preparação do autor. Devemos estar conscientes dos perigos da subjetividade e lutar para permitir que os dados do Antigo Testamento falem por si.

Uma fonte de subjetividade nesse campo pode ser a filiação religiosa e/ou o compromisso do autor. Ao longo da história, as teologias do Antigo Testamento têm sido escritas por cristãos principalmente para cristãos. O termo "Antigo Testamento" é um termo cristão. Os judeus não usam esse termo; usam "Bíblia hebraica", "a Bíblia", "a Escritura" ou "Tanakh", acrônimo derivado do nome das três partes da Bíblia hebraica: Torah, Nebi’im e Kethubim (Lei, Profetas e Escritos).

O termo teologia tem sido amplamente usado pelos cristãos. A igreja primitiva adotou a palavra grega theologia quando os cristãos penetraram no mundo ocidental. Os gregos usavam theologia para designar histórias e ensinos acerca de seus deuses. "A igreja a aplicou ao Deus de Israel, revelado de modo definitivo em Jesus Cristo. Para cristãos, ‘teologia’ significa ensino acerca de Deus. A teologia do Antigo Testamento é, portanto, o ensino acerca de Deus na escritura de Israel." 

Os escritores judeus nunca produziram uma teologia abrangente do Antigo Testamento ou do judaísmo. O Antigo Testamento em si é não-sistemático quanto à forma, assim como a Mishná e o Talmude. A literatura rabínica é notoriamente não-holística em sua abordagem. Samuel Sandmel, conhecido estudioso judeu do Novo Testamento, disse que embora os judeus tenham originado eminentes filósofos, eruditos religiosos e brilhantes especialistas em homilética, geraram poucos teólogos de grande valor. "Temos originado homens que têm feito um bom trabalho sobre temas teológicos, mas nenhum teólogo sistemático de primeira linha." 

Μ. H. Goshen-Gottstein dedicou atenção à falta de "teologias judaicas do Antigo Testamento" num trabalho lido no Oitavo Congresso da International Organization for the Study of the Old Testament, que se realizou em Edimburgo em agosto de 1974. Goshen-Gottstein apresentou sua crença em que o fato de os judeus não produzirem uma teologia do Antigo Testamento é resultado direto da falta de participação nos estudos bíblicos acadêmicos da Europa até o século XX. "Do ponto de vista da instituição acadêmica, os estudos bíblicos foram realizados dentro da estrutura das ‘faculdades teológicas’ ou equivalentes. [...] Nenhum judeu do século XIX poderia pensar em se tomar um ‘estudioso da Bíblia’ no sentido europeu, que quase necessariamente acarretava movimento de um lado para outro entre os testamentos." 

Os estudiosos judeus que poderiam ser chamados teólogos de alguma maneira (Heschel, Gordis, Sandmel e Jon D. Levenson) têm atuado quase exclusivamente no contexto dos seminários teológicos americanos. Se acrescentarmos os nomes de alguns filósofos judeus não-americanos (como Buber e Neher), a lista fica quase completa. Goshen-Gottstein pode ser o primeiro professor de Bíblia numa universidade israelense que insiste em ministrar um curso de pós-graduação em teologia bíblica.

Goshen-Gottstein concluiu que se admitirmos que "a teologia é necessariamente" um ramo de estudo restrito ao cristianismo, perceberemos melhor que só a entrada tardia dos judeus na erudição bíblica do século XX tem impedido até agora o desenvolvimento de uma teologia judaica do Antigo Testamento.

Estudiosos judeus estão entrando agora no campo da teologia bíblica em grande estilo. Jacob Neusner e Jon D. Levenson são dois "brilhantes luminares" entre os estudiosos judeus contemporâneos neste campo. Jon D. Levenson da Harvard Divinity School escreveu um artigo, "Why Jews Are Not Interested in Biblical Theology", no qual declarou que a teologia bíblica era uma preocupação protestante e não estava isenta dos pressupostos protestantes acerca da Torá.

A teologia do Antigo Testamento é uma disciplina essencialmente cristã, não por causa do uso do termo "Antigo Testamento" nem porque os cristãos são mais aptos para sistematizar dados bíblicos ou para teologizar sobre eles, mas porque Jesus via a si mesmo e a igreja primitiva também o via como o cumprimento das esperanças e promessas veterotestamentárias. Uma vez que Jesus fez uso teológico do Antigo Testamento para se referir a si mesmo, os cristãos que o seguem têm usado o livro teologicamente. Por outro lado, os judeus, que têm mostrado pouco interesse por teologia ao longo da história, não têm escrito teologias da Bíblia hebraica.

A maioria das teologias do Antigo Testamento tem sido cristológica em certo sentido. Edmund Jacob disse que uma teologia do Antigo Testamento que não esteja fundamentada em versículos isolados mas no Antigo Testamento como um todo "só pode ser uma cristologia, pois tudo o que foi revelado sob a antiga aliança, através de uma longa e variegada história, em eventos, pessoas e instituições, se reúne e se aperfeiçoa em Cristo". No final de seu segundo volume sobre a teologia do Antigo Testamento, von Rad disse: "... todos esses escritos do antigo Israel eram encarados por Jesus Cristo, e com certeza pelos apóstolos e pela igreja primitiva, como uma coleção de predições que apontavam para ele como o Salvador do mundo". Gerhard von Rad usou o método tradicionário-histórico de interpretação ao tentar entender as implicações teológicas do Antigo Testamento. Usando esse método, concluiu que o Antigo Testamento deve ser lido como um livro em que a "expectativa vai se avolumando até atingir grandes proporções". O Antigo Testamento é absorvido no Novo como "fim lógico de um processo iniciado pelo próprio Antigo Testamento". 

Walter Eichrodt acreditava que "aliança" era o tema central do Antigo Testamento. A aliança constituía "a mais profunda camada no fundamento da fé de Israel". Ele tinha por pressuposto que a idéia de aliança estava presente, independentemente de a palavra ser usada ou não. "Aliança" não era um conceito dogmático, mas a "descrição típica de um processo vivo que começou em época e lugar específicos e que se destinava a tomar manifesta uma realidade divina incomparável na história da religião". 

Eichrodt declarou também que qualquer pessoa que estude o desenvolvimento histórico do Antigo Testamento encontrará através dos dados um movimento poderoso e com propósito que exige sua atenção. As vezes a religião pode parecer estática, prestes a enrijecer-se num sistema inflexível, mas sempre que isso acontece o impulso para a frente rompe o impasse e dá continuidade ao movimento. "Esse movimento não cessa até a manifestação de Cristo, em quem se concretizam os mais nobres poderes do Antigo Testamento. O judaísmo com aparência de torso e separado do cristianismo apóia essa declaração de forma negativa.""

Declarações como essas de Eichrodt —de que os "mais nobres" poderes do Antigo Testamento se concretizam em Cristo e que o judaísmo separado do cristianismo tem aparência de torso— têm provocado reações acaloradas. Alguns estudiosos recentes do Antigo Testamento sustentam que não se deve pensar que a teologia do Antigo Testamento só aponta para Jesus Cristo ou termina nele, uma vez que isso denigre o judaísmo moderno.

John H. Hayes fez críticas severas a Eichrodt e von Rad por causa do preconceito "anti-judaísmo" deles. Hayes disse: "Esse preconceito anti-judaísmo tem suas raízes no Novo Testamento e tem sido uma chaga cancerosa na igreja em toda parte". Hayes alega que "o judaísmo deve ser visto como uma continuação tão legítima das escrituras hebraicas quanto o cristianismo. São ambas filhas legítimas da mesma velha genitora".13

Nesse particular, há atritos. O Novo Testamento e o cristianismo histórico alegam que o cumprimento do Antigo Testamento se dá em Cristo. A maioria dos judeus e muitos estudiosos cristãos do Antigo Testamento alegam que os judeus têm tanto direito de acreditar que o Antigo Testamento se cumpre no judaísmo moderno quanto os cristãos de crer que ele se cumpre somente em Cristo. Conseguiremos resolver essa questão? Existe um "centro", "coração" ou "núcleo" no Antigo Testamento que aponta inevitavelmente para Cristo?

Seria a teologia do Antigo Testamento uma disciplina unicamente cristã? Sim, se Eichrodt, von Rad, o Novo Testamento e talvez o próprio Antigo Testamento estiverem corretos em declarar que existe um processo ou movimento que se desenvolve em todo o Antigo Testamento e tem seu alvo ou cumprimento em Jesus Cristo. Isso significa que a teologia do Antigo Testamento deve focalizar apenas esse processo ou movimento e não levar em consideração todos os dados veterotestamentários como história, lei, culto e sabedoria em seu próprio contexto dentro do Antigo Testamento? A resposta a essa questão terá algum peso quando se tentar decidir se a teologia do Antigo Testamento é uma disciplina normativa ou descritiva. Essas e outras questões serão tratadas no capítulo 2 sobre "a natureza e o método da teologia do Antigo Testamento".

Antes, devemos analisar a história da teologia do Antigo Testamento. Como ela começou? Como tem caminhado na condição de disciplina independente? Qual a situação atual dos estudos?