28 de fevereiro de 2017

R. K. Harrison - O Dia da Expiação - Levítico 16

antigo testamento danilo moraes
O DIA DA EXPIAÇÃO (16:1-34)

Este capítulo perfaz o eixo cerimonial e teológico sobre o qual gi­ra o livro inteiro de Levítico. A legislação anterior já tratou dos tipos diversos dos sacrifícios e em que condições deviam ser oferecidos, sendo que enfatizava as providências para as necessidades individuais. Agora focaliza-se a expiação feita para todas as impurezas e os pecados invo­luntários da totalidade da congregação israelita, a começar com o sacer­dócio. Seis meses depois de a páscoa ter sido celebrada, o povo era or­denado a “afligir-se”, após o que o sumo-sacerdote faria expiação por ele. Como a páscoa, esta cerimônia devia ser observada anualmente, e marcava a ocasião em que a totalidade da comunidade religiosa era mo­bilizada diante de Deus num ato conjunto de confissão e expiação. Era um tempo de grande solenidade, diferente das festas anuais, e se o jejum era envolvido na autodisciplina preparatória, conforme pensam muitos intérpretes, era a única cerimônia que exigia semelhante exercício comu­nitário. Por sua natureza, era uma observância religiosa distintiva, e ocu­pava a parte central da adoração da nação. A importância do sumo-sa­cerdote é tornada clara na posição que ele ocupa nos rituais como o me­diador entre Deus e os homens. O ritual é descrito por inteiro, o que é apropriado num manual de culto público.

Alguns estudiosos têm questionado a natureza lógica da disposi­ção de Levítico em termos da posição dos capítulos 11 — 15 no texto. Visto que Levítico 10:20 termina a narrativa dos eventos associados com a morte dos filhos de Arão, Nadabe e Abiú, e a matéria histórica reco­meça em Levítico 16:1 naquela mesma altura, tem sido sustentado que este último capítulo logicamente segue Levítico 10:20. Esta conclusão leva, então, a perguntas acerca de supostas fontes, do deslocamento do texto, dos processos redacionajs e outros, conforme a predileção do res­pectivo estudioso.

Embora os capítulos 11 — 15 certamente interrompam o fluxo da narrativa histórica, e, quanto a este aspecto, poderiam muito bem ser considerados como uma interpolação, permanece o fato de que foram firmemente integrados no livro como um todo por meio das referências em Levítico 5:2 e 7:21. A passagem antecedente, Levítico 10:10, pre­para o leitor para a distinção detalhada entre as espécies limpas e imun­das no capítulo 11, ao passo que os capítulos 12-15 aplicam o mesmo tema a situações sociais. No decurso do processo da compilação foi con­siderado apropriado inserir um bloco de matéria que tratava de tópicos especiais na narrativa histórica. A seção claramente está em harmonia com a solicitude para com a santidade e a pureza cerimonial expressada noutras partes de Levítico, e embora um compilador moderno talvez colocasse os capítulos 11—15 noutra parte do texto, sua atual posição não danifica a unidade da organização de Levítico de maneira digna de nota.

a. A preparação sacerdotal (1-4)

O fato de que o Senhor instruiu Moisés sobre os procedimentos a serem seguidos neste dia solene indica a categoria exaltada do líder da nação. Era a responsabilidade dele passar estas informações para os aronitas, que ainda precisavam de orientação específica, segundo parece ao julgar pelos eventos do capítulo 10. Para salvaguardar a santidade do Santo dos Santos, Arão foi proibido de entrar nele em todo tempo (2). Esta última frase tem sido entendida por alguns no sentido de “não. . .em tempo algum,” mas com toda a probabilidade a intenção era proi­bir a entrada indiscriminada ou casual na área mais sagrada do taberná­culo e seus sucessores. Esta interpretação parece ser indicada ainda mais pelas disposições feitas quanto ao tempo e ás circunstâncias em que a entrada era permissível. Os regulamentos visavam evitar uma nova ocor­rência da tragédia que sobreveio a Nadabe e Abiú, e tornar o comparecimento anual do sumo sacerdote na presença de Deus uma ocasião solene e inspiradora de santo temor. O véu que separava o lugar santo do Santo dos Santos era realmente uma cortina em que querubins eram bordados em vermelho, roxo e azul, e que era pendurada em quatro suportes feitos de madeira de acácia (Êx 26:31 -3 2).

O objeto sagrado mais importante na adoração hebraica era a arca da aliança com o propiciatório montado sobre ela. As especificações para a arca ocorrem em Êxodo 25:10-20, e indicam que era uma caixa retan­gular de madeira de acácia inteiramente revestida de folha de ouro mar­telado. Era transportada de um lugar para outro por meio de varas de acácia, cobertas de ouro, que se encaixava nos anéis de ouro colocados no lado da arca. Na base dalgumas tentativas modernas de reconstruir a arca, tem sido sugerido que a original tinha uma alta carga de eletricida­de. A sugestão parece duvidosa, mesmo pela razão de que ninguém teria podido em qualquer tempo ter transportado a arca sem receber um cho­que sério, senão fatal, através do contato com o metal nas varas. A tradu­ção nalgumas versões de “assento de misericórdia” (Heb. kappõret) não é totalmente feliz (ARC e ARA têm “propiciatório”). A noção de um assento foi derivada presumivelmente de Salmo 99:1, que falava de Deus assentado entre os querubins como sobre um trono. Uma possível cone­xão etimológica com kipper, “fazer expiação”, deve ter sugerido a idéia de misericórdia aos tradutores, apoiados até certo ponto pela tradução da LXX, hilastèrion, “propiciação.” Se kipper significa “cobrir,” i.é, o pecado, conforme sustentam alguns peritos, não parece haver razão al­guma porque kappõret não seja traduzida “tampa” ou “coberta,” como nalgumas versões modernas em Inglês. A tampa com os querubins mon­tados sobre ela servia de coberta para a arca, e também de localidade da glória de Deus e o lugar onde a expiação pelos pecados involuntários da congregação era feita pelo sumo-sacerdote. Mais importante de tudo, era supremamente um lugar de encontro e comunicação com Deus (Êx 25:22). '

Antes de poder entrar no lugar santo, o sumo-sacerdote tinha de sacrificar, como condição prévia, uma oferta pelo pecado e um holocaus­to ao Senhor, sendo que a primeira devia ser apresentada a fim de garantir a expiação para si mesmo e para a sua família. Precauções esmeradas eram necessárias antes do sumo-sacerdote ser considerado em condições de com­parecer diante de Deus no propiciatório. Devia banhar seu corpo com­pletamente, limpando-se simbolicamente, desta maneira, de toda a im­pureza, mas ao invés de usar as vestes altamente enfeitadas da sua ceri­mônia da consagração, devia ser vestido de roupas simples de trabalho, que consistiam em uma túnica, calças, um cinto de linho e uma mitra (ou “turbante”). Embora o linho não fosse descrito como sendo “branco”, é mais provável que tenha sido alvejado para conformar-se com as tradições sacerdotais no Oriente Próximo antigo. Como tal, retrataria a pureza e o estado de limpeza cerimonial exigidos para aproximar-se ao Deus santíssimo de Israel. Este ritual fornece um contraste dramático entre a santidade e a pureza de Deus e o pecado do homem, o que ressal­ta a necessidade da expiação a fim de que o povo seja santo conforme Deus é santo.

b. Os dois bodes (5-10)

A oferta pelo pecado do povo consiste em dois bodes, ao passo que um carneiro é apresentado como holocausto. Arão começa as ceri­mônias formais ao sacrificar um novilho como oferta pelo pecado dos sacerdotes. Somente depois de ele ter sido purificado e ter feito a expia­ção pela sua casa é que poderia começar a obter o perdão para a congre­gação (cf. Hb. 7:26). As ofertas sacrificiais de Arão eram suas próprias posses, com as quais devia identificar-se da maneira usual. Tendo colo­cado os dois bodes diante do Senhor, Arão lançou sortes sobre eles (8) como preliminar para os ritos purificatórios da comunidade. O lançar das sortes (Heb. gôrãlôt) provavelmente envolvia o uso das pedras sagra­das conhecidas como Urim e Tumim, e eram lançadas de tal maneira que determinariam qual bode deveria ser sacrificado ao Senhor, e qual deve­ria ser atribuído a Azazel (RSV; ARA: para o bode expiatório). O sig­nificado da palavra Azazel está longe de ficar certo, o que é tanto mais triste porque de resto o ritual é conservado de modo claro e simples. Era evidentemente um termo tão familiar no período do deserto e nos perío­dos posteriores que não era considerado necessário conservar seu signi­ficado com o acréscimo de uma glosa explanatória. A palavra pode tal­vez significar “remoção” ou “despedida,” mas visto que ocorre somente neste capítulo em conexão com funções rituais específicas, esta explica­ção é tanto circunstancial quanto inferencial. A tradução desta palavra tem variado consideravelmente, e inclui interpretações tais como: “que será mandado embora” (Wycliffe), “para liberação” (Knox), e “para o precipício” (NEB). A idéia de “precipício” parece ter sido derivada da tradição talmudica, onde nza ’zêl foi traduzido por “montanha íngreme.” A alusão parece ter sido o encosto precipitoso ou rocha no deserto de onde, no período pós-exílico, o bode era arremessado para a morte.

Três explicações principais têm sido sugeridas: primeiramente, que o termo descreve o conceito abstrato da remoção; em segundo lugar, que a palavra é um nome próprio que é sinônimo dos poderes do mal para os quais o bode, carregado com os pecados, muito apropriadamente se encaminhava; e, em terceiro lugar, que era o nome de um demônio do deserto que precisava ser propiciado dalguma maneira. Qualquer expli­cação mitológica pode ser imediatamente desconsiderada, não tendo lu­gar algum na ordenança mais sagrada da adoração cultual hebréia. A no­ção de que os israelitas devessem fazer ofertas propiciatórias ou outras ofertas a tais supostos demônios do deserto como os sátiros foi repudia­da no capítulo seguinte (Lv 17:7), e, portanto, não pode ser associada com o caráter sem igual do dia da expiação. Provavelmente a melhor explicação seja que a palavra era um termo, técnico raro que descrevia a “remoção completa,” i.é, da culpa comunitária, e que personificações posteriores levaram à existência de mitos e lendas acerca de Azazel nos escritos judaicos.[1]

Uma interpretação deste tipo está de acordo com o uso geral da LXX (“aquele a ser despedido”) e da Mishná. Mas seja qual for o signi­ficado exato do termo, o propósito desta porção muito dramática do ri­tual do dia da expiação era colocar diante dos olhos dos israelitas um si­nal inconfundível de que seus pecados involuntários tinham sido remo­vidos do seu meio. Era um símbolo do fato de que tanto o povo quan­to a terra foram purificados da sua culpa, visto que uma confissão do pe­cado comunitário seria feita sobre a cabeça do bode pelo sumo-sacer­dote antes do bode ser enviado para o deserto. O outro bode, escolhi­do por sortes para o Senhor, era apresentado como oferta pelo pecado, a favor do povo (9) e posteriormente imolado (15). Os dois animais conservam o conceito vétero-testamentário de o pecado ser removido por um agente que não fosse o próprio pecador. Este princípio da ex­piação vicária acha sua expressão mais plena em Cristo, o Cordeiro de Deus, que tira o pecado humano mediante a Sua morte (cf. Jo 1:29).

A partir do uso em Levítico, o termo “bode expiatório” ainda é empre­gado para descrever uma pessoa que toma a culpa por alguma má condu­ta doutro indivíduo ou grupo.

c. Os sacrifícios pelo pecado (11 -22)

Esta seção forneceu os procedimentos rituais detalhados que são mencionados em forma resumida nos versículos anteriores. Uma vez que Arão tinha imolado o novilho da oferta pelo pecado, começou a par­te mais séria e responsável da liturgia anual da expiação pela comuni­dade. Um incensário devia ser enchido de brasas de fogo tiradas do al­tar de bronze, e levado, juntamente com dois punhados de incenso bem pulverizado para dentro do Santo dos Santos. O incenso era então colo­cado sobre as brasas de tal maneira que a fumaça resultante cobrisse a tampa ornamentada da arca da aliança, onde a presença de Deus era re­velada. Por causa disto, o sumo-sacerdote não podia ver o Senhor, e es­te fato salvava sua vida (13). A atenção meticulosa à observância dos re­gulamentos que regiam a entrada no Santo dos Santos era claramente da máxima importância, e o intervalo durante o qual o sumo-sacerdote . estava fora da vista da congregação estaria cheio de tensão e drama, ali­viados somente quando os israelitas o viam emergir periodicamente nas etapas diferentes do ritual.

Tendo obtido acesso ao cubículo escuro onde era colocada a arca sagrada, o sumo-sacerdote espargia parte do sangue sacrificial que agora trouxera consigo, em direção à parte da frente da tampa ornamentada que cobria a arca. Este ato era seguido por uma sétupla aspersão de san­gue no ar na frente da arca propriamente dita. Esta era a única ocasião em que o sumo-sacerdote tinha licença de entrar no Santo dos Santos para qualquer propósito, e a única ocasião em que semelhante aspersão era levada a efeito na localidade santa. Nas ofertas pelo pecado descri­tas em Levítico 4, o sacerdote recebeu instruções no sentido de espar­gir sangue sete vezes na presença de Deus (vv. 6, 17), mas isto devia ser levado a efeito em frente da cortina enfeitada, e não além dela. A as­persão sobre a tampa da arca trouxe o sacrifício em contato sem igual com a presença de Deus, e fazia expiação pelo sumo-sacerdote e por outros membros da linhagem sacerdotal. Jesus Cristo, o Sumo-Sacer­dote sem pecado, não precisou fazer expiação por Si mesmo antes de poder morrer pelo pecado humano (Hb 7:27, 28).

Era necessário entrar mais uma vez no Santo dos Santos, para o sangue do bode da oferta pelo pecado do povo ser espargido diante da arca sagrada (15). Este ato era necessário a fim de purificar a totalidade da área do tabernáculo da impureza causada pela própria presença dos israelitas cerimonialmente imundos. Suas transgressões e seus pecados (16) eram os de acidente, de negligência ou por ignorância, e não a rejei­ção do amor segundo a aliança, para o qual não havia perdão (Nm 15: 30). Durante estes atos de expiação, o sumo-sacerdote precisava estar inteiramente sozinho, e não tinha licença de ter qualquer assistência nos seus deveres. Neste mesmo sentido, Cristo também ficou sozinho de modo sem igual quando estava fazendo expiação pelos pecados do mun­do (cf. Mt 27:46; Mc 15:34).

A expiação pelo altar que está perante o SENHOR (18) era o pas­so seguinte nos rituais de purificação. Tanto o sangue do novilho quan­to o do bode eram usados para untar os chifres do altar, e para espargí-lo como modo de purificação e reconsagração. A natureza um pouco vaga da redação tem levado a perguntas sobre qual altar estava em epígrafe. Os comentaristas judaicos têm entendido que a referência indica o altar dourado de incenso no lugar santo (cf. Ex 30:10; Lv 4:7, 18), mas a maioria dos escritores cristãos pensa que a passagem se refere ao altar do holocausto, sobre o qual sacrifícios também eram oferecidos diante do Senhor (Lv 1:3, 5; 4:24; etc.). A primeira interpretação parece mais provável, no entanto, visto que o altar em prol do qual a expiação devia ser feita está em íntimo relacionamento com o santuário e a tenda da congregação (20). O altar era untado com o sangue como parte do ritual das ofertas pelo pecado (Lv 4:7, 18), e, portanto, precisaria de ser puri­ficado.

Uma vez que isto tinha sido feito, o sumo-sacerdote devia trazer o bode para uma área aberta no átrio do tabernáculo, e confessar sobre ele as múltiplas transgressões dos israelitas, que então eram transferidas simbolicamente para o animal mediante a imposição das mãos de Arão. As iniquidades, transgressões e os pecados do povo representavam as con­sequências da ignorância ou de atos involuntários. Mas não era tudo. Porque o termo hebraico pesa'(21) não significa meramente “transgres­são,” como também contém um senso consistente de revolta ou rebeldia contra um suserano, alguns delitos pelos quais a expiação estava sendo feita devem ter sido cometidos a despeito da vontade conhecida de Deus. Estes últimos seriam considerados pecados e erros ou acidente se o peca­dor, mediante o verdadeiro arrependimento, demonstrasse que sua má conduta era principalmente o produto da ignorância. O bode era então enviado para a área do deserto além do arraial, de onde não poderia voltar, o que tipificava a remoção completa do pecado e da culpa da nação. Os rituais estão inteiramente corretos psicológica e espiritualmente em conectar o perdão do pecado e a remoção da culpa. A antiguidade des­ta passagem é indicada pelo fato de que, em períodos posteriores da his­tória de Israel, o bode era arremessado para a morte do topo de uma fa­lésia íngreme no deserto. A natureza amorosa de Deus é tal que Se de­leita em poder purificar o pecador e efetuar a remoção completa do pe­cado, seja na antiga dispensação (cf. SI 103:12; Mq 7; 19), seja na nova (1 Jo 1:7,9).



d. Rituais pela purificação (23-28)

Depois de o bode ter sido enviado ao deserto, Arão devia despir suas roupas de linho e lavar seu corpo inteiro numa área rigorosamente reservada do átrio do tabernáculo. Era-lhe exigido, então, que usasse suas vestes sacerdotais normais enquanto oferecia holocaustos por si mesmo e pelo povo (24). A pessoa que tinha levado o bode para o deser­to era cerimonialmente imunda como resultado do contato com os pe­cados do povo, e devia banhar-se e lavar suas roupas antes de ser readmi­tida à comunidade (26). O mesmo acontecia com o indivíduo que levava para fora os cadáveres do novilho e do bode sacrificados como oferta pelo pecado. Os rituais dos sacrifícios não estão descritos aqui pormeno­rizadamente, visto que seguiam o padrão normal. Como sempre, toda a gordura era reservada como sendo a porção especial de Deus (25). No decurso da cerimônia inteira, a ênfase é dada à santidade de Deus contras­tada com o pecado dos homens, e a necessidade de o adorador, seja ele o sumo-sacerdote ou não, seguir escrupulosamente as orientações para aproximar-se de Deus na adoração. Somente quando tudo for feito de acordo com a vontade de Deus é que se pode esperar que o perdão se seguirá. O ritual do dia da expiação continha um senso real de drama, como, na realidade, todos os antigos rituais hebreus o continham, mas também deixava claras as responsabilidades do adorador no processo in­teiro de purificação do pecado, especialmente no momento em que o su­mo-sacerdote entrava no Santo dos Santos e ficava em pé na presença de Deus. O cristão, cuja vida está oculta com o Salvador em Deus (Cl 3: 3) nada tem para temer quando vier a ficar em pé diante do tribunal de Cristo (Rm 14:10).



e. O estatuto para o dia da expiação (29-34)

Esta seção confirma que este dia especial seria uma instituição en­tre os israelitas para sempre. A cerimônia devia ser observada no décimo dia do sétimo mês, ou seja, seis meses depois da páscoa ter sido celebra­da. A permanência deste estatuto é indicada pelo fato de que até o dia presente esta cerimônia solene, com modificações apropriadas, é realiza­da no décimo dia do sétimo mês, seguindo o calendário tradicional. O sé­timo mês, chamado Tisri (setembro-outubro) no período pós-exílico, fazia parte do outono, quando as chuvas temporãs caíam e a terra era arada e pronta para a semeadura no mês seguinte. Tais nomes antigos cananeus ou fenícios dos meses (cf. Éx 13:4; 1 Rs 6:1, 38; 8:2) tinham sido substituídos até ao fim do período do reino (cf. 1 Rs 6:1; 8:2) com nümeros ordinais tradicionais, como no v. 29, e o começo do ano era colocado em março-abril, quando começava a ceifa da cevada. A au­to-aflição que era uma preparação para a cerimônia tem sido interpreta­da tradicionalmente em termos do jejum, embora este não seja mencio­nado aqui. Parece pelo menos possível que a aflição incluísse alguma variação penal distintiva do comportamento rotineiro, tal como usar pa­no de saco. O verbo hebraico ‘ánâ na forma intensiva tem o significado de “humilhar a si mesmo”, mas sem mais especificação em Levítico. Em Isaías 58:35 o mesmo verbo ocorre dentro do contexto do jejum, mas parece referir-se a alguma outra atividade, tal como o uso de cinzas nas roupas. Embora o natural e o estrangeiro igualmente eram proibidos de trabalhar, o estrangeiro não era obrigado a “afligir-se.”

No Antigo Testamento, o jejum às vezes era empreendido para evi­tar a calamidade (cf. 1 Sm 7:6; 1 Rs 21:9, 12; Jr 36:9, etc.), mas sem­pre era acompanhado, conforme parece, por uma consciência do pecado humano, com o objetivo de evitar a ira de Deus ou de ganhar Sua compai­xão. Embora o próprio Jesus jejuasse periodicamente, não o impôs como disciplina sobre Seus seguidores. Pelo contrário, advertia-os contra o uso do jejum como exibição de piedade como faziam os fariseus, e ressalta­va que o jejum devia ser um ato de devoção a Deus, que procedia de um motivo puro e honesto (cf. Mt 6:16-18; 9:14-17; Mc 2:18-22; Lc 5: 33-39). O sábado de descanso solene (31) capacitaria os israelitas a re­fletirem sobre seu destino como o povo escolhido, e sobre até que ponto estavam vivendo como comunidade espiritual. A permanência da legisla­ção a respeito do dia da expiação é refletida nas instruções para gerações sucessivas de sumos-sacerdotes continuarem a observância solene como meio de fazer expiação anual pelo pecado nacional (32). Tendo em vista esta injunção é curioso que nenhuma referência específica ao dia da expiação ocorre noutras partes do Antigo Testamento, a despeito da ocorrência periódica de certos eventos significantes no sétimo mês (cf. 1 Rs 8:2,65-66; Ed3:l-6; Ne 8:17-18).

As cerimônias do dia da expiação tornavam abundantemente cla­ro que Deus detesta o pecado, que, se continuado, resultaria na conta­minação e na morte (cf. Rm 6:23). Ao povo escolhido era exigido que refletisse a santidade do seu Deus da aliança, e o dia da expiação forne­cia um novo começo, todo ano, para o cumprimento daquele ideal. De­monstrava, também, a universalidade e a onipresença do pecado. Tanto o sumo-sacerdote quanto o leigo tinham transgredido contra a santidade de Deus, e, portanto, a expiação era necessária para todos. Nem sequer os objetos materiais da adoração cultual poderiam escapar à suspeita de serem maculados pelo pecado comunitário; daí a ênfase dada durante os rituais à purificação da totalidade do tabernáculo. A cerimônia intei­ra era levada a efeito com uma solenidade e uma atenção aos detalhes que era característica do sistema sacrificial levítico, sabendo-se que a mínima violação da propriedade divina poderia resultar na morte ins­tantânea para o transgressor.

Além de ressaltarem o contágio e a disseminação do pecado, os rituais demonstram que nenhuma pessoa pode fazer expiação pelos seus próprios pecados. O sangue devia ser derramado (Hb 9:22) por um subs­tituto, sendo que, na antiga dispensação, uma variedade de animais ser­viam. A oferta de dois bodes pelos pecados da comunidade era obvia­mente fora da proporção da necessidade da expiação. Este fato, porém, parece ter sido uma indicação deliberada da natureza temporária e típi­ca da cerimônia. Uma das fraquezas do sistema sacrificial levítico era que não podia providenciar o perdão pleno e definitivo do pecador. Os vários rituais tinham de ser repetidos periodicamente, e um mediador humano, que precisava também da expiação, era necessário para decla­rar a graça absorvedora de Deus.

Para o cristão, o dia solene antegozava um tempo em que um re­presentante da raça humana levaria sobre Si os pecados do mundo (Is 53:6) como o Cordeiro de Deus (Jo 1:29). Este ato era necessário por­que o sangue de novilhos e de bodes não tinha nenhuma possibilidade de remover o pecado (Hb 10:4). Somente Deus, manifestado na Pessoa de Jesus Cristo, poderia reconciliar o mundo a Si mesmo (2 Co 5:19). O sangue é a vida da carne (Lv 17:11), e é mediante o sangue expiador de Cristo que o crente recebe a redenção (1 Pe 1:18-19), o perdão (Ef 1:7), a justificação (Rm 5:9), a paz espiritual (Cl 1:20), e a santificação (Hb 13:12).

Enquanto Cristo estava morrendo na cruz, o véu pesadamente bor­dado do templo foi rasgado pelo meio, o que significava que, daquele tempo em diante, a humanidade estava vivendo sob a nova aliança da gra­ça. Sua instituição pelo perfeito carregador dos pecados tornou eviden­te que as cerimônias da antiga aliança era meros símbolos, tipos e som­bras (cf. Cl 2:17; Hb 8:5; 10:1). O caminho para a santíssima presen­ça de Deus foi aberto pelo pecador mediante o sangue derramado de Cristo (Hb 10:20). O Salvador é agora o grande Sumo Sacerdote sobre a casa da fé, a igreja cristã, e é através dEle somente que nos aproximamos de Deus com arrependimento e confiança para o perdão dos nossos peca­dos. O cristão olha para trás para os eventos do Calvário como sendo a única grande ocasião (Rm 6:10; Hb 7:27; 9:12) quando o dia da expia­ção foi celebrado. Diferentemente dos sumo-sacerdotes israelitas que eram sujeitos à mortalidade humana, Jesus continua para sempre como nosso Sumo-Sacerdote (Hb 7:24) por causa da Sua natureza eterna. Es­tando sem pecado, Jesus Cristo tinha uma vantagem moral imensa sobre os sacerdotes da antiga dispensação, que primeiramente tinham de fazer expiação por si mesmos antes de poder fazer expiação pelo povo. A alian­ça da graça que Cristo introduziu significa que o indivíduo já não tem seu relacionamento com Deus baseado no legalismo (Hb 7:18-19), porque agora o homem pode ter acesso desembaraçado a Deus. Diferentemente dos sacerdotes hebreus que apresentavam sacrifícios animais como meio de fazer expiação pelo pecado, Jesus fez o sacrifício supremo ao oferecer-se a Si mesmo (Hb 7:27), fazendo uma expiação de uma vez para sempre pela maldade humana. Em contraste com a obra dos sumos-sa­cerdotes israelitas, o sacerdócio que Cristo exerceu é supremo.



[1] J. H. Hertz, The Pentateuch and the Haftorahs (1960), pág. 481.