8 de fevereiro de 2017

VICTOR P. HAMILTON - O Dia da Expiação: Levítico 16

victor p hamilton danilo moraes
O Dia da Expiação 

Um capítulo inteiro é dedicado à descrição do Dia expiação. Levítico 23.26-32, parte de um calendário sagrado, mais uma referência a esse dia em especial, aqui chamado de “o Dia da Expiaçã” (hak) kippûrîm. Na literatura rabínica, chama-se simplesmente “o dia” ou “o grande dia” (ver o tratado Yomada Mixná). O Novo Testamento é semelhantemente conciso no título que utiliza: “Dia do Jejum”; “já passado o tempo dodia do Jejum” (At 27.9 — ARA). 

Em Levítico 23.26-32, encontramos duas novas informações a respeito do Dia da Expiação que não são encontradas em Levítico 16. Uma é a expressão bastante enérgica acerca de possíveis conseqüências, caso esse dia não fosse observado de modo correto, com jejuns e renúncias: “Também toda alma que, naquele mesmo dia, fizer alguma obra, aquela alma eu destruirei do meio do seu povo” (23.30). 

No código sacerdotal, é raro atribuir punições diretamente a Deus. O texto que mais se aproxima é quando o incomum “eu [...] [Deus] a extirparei do seu povo” (17.10; 20.3,5,6) substitui a for­ma passiva mais encontrada: “aquela pessoa será extirpada do povo” (Lv 7.20,21,25,27; 17.4,9; 18.29; 19.8; 20.17,18; 22.3; 23.29). 

O segundo elemento singular é a menção, em 23.32, de que esse dia deveria ser observado “Desde o entardecer do nono dia do mês até o entardecer do dia seguinte” (NVI). E o único dia especi­al, incluindo o Sábado, que o Antigo Testamento descreve assim. Esse registro cronológico estabeleceu as bases do que se tornaria um padrão para o início dos dias santos no judaísmo: o entardecer do dia anterior. 


A Visão dos Críticos sobre o Dia da Expiação 

A maioria dos comentários se dedica a dissecar a estrutura literária do capítulo 16, mas duas conclusões acerca de seu texto são aceitas por quase todos os críticos. A primeira é que o Dia da Expiação, como tal, não existia na época de Moisés. Ou seja, sua localização no texto é flagrantemente anacrônica. Equivaleria a afirmar que existia um dia em memória de Martin Luther King Jr. na época de Abraão Lincoln. É muito provável, afirmam os críticos, que o Dia da Expiação tenha surgido bem mais tarde na história de Israel — não apenas após o exílio, mas após a época de Esdras e Neemias! 

Essa interpretação em particular se baseia principalmente no argumento do silêncio (ver de Vaux). Nenhum texto anterior ao exílio, nada nos livros históricos ou nos textos proféticos, mencio­na esse dia. Ele, portanto, não existia naquela época. E possível, contudo, considerar esse argumento de forma hesitante, e, nesse caso, um leitor curioso recorreria aos comentários de Yehezkel Kaufmann2 e Jacob Milgrom3. Isso não significa negar que o Dia da Expiação tenha passado por modificações ao longo do tempo e que Levítico 16 representa uma prática religiosa já próxima do fim do período bíblico. Lembremo-nos, por exemplo, de quanto a tradição do Natal e da Páscoa mudaram ao longo dos séculos, sem. entretanto, jamais alterar sua essência. 

A segunda conclusão amplamente aceita é a de que Levítico 16 forma uma unidade bastante heterogênea, divisível em diversas tendências literárias. O comentário de Martin North4 ilustra bem esse aspecto: 

Fica evidente, já à primeira vista, que o capítulo, em sua forma atual, é resultado de uma longa história. Uma história que deixou suas marcas na curiosa falta de continuidade e unidade do todo. É um material de tal forma complexo que, até aqui, análises da es­trutura literária e dos fatos não foram capazes de produzir nenhum resultado satisfatório. Ainda assim, o fato em si de que o capítulo esteve envolvido em um elaborado processo de crescimento é geralmente reconhecido e aceito. 

Dentre as razões que levaram a essa idéia, há a ocorrência de repetições ou palavras com diferentes origens. Por isso, lemos o versículo 6: “Arão oferecerá o novilho da oferta pela expiação, que será para ele; e fará expiação por si e pela sua casa”, o que é repe­tido no verso 11. A repetição comprova, sem sombra de dúvida, a existência de duas tradições? Não seria possível considerar os versículos 6-10 como um esquema geral dos acontecimentos? As­sim, os versos 11-28 seriam uma descrição mais detalhada dos mesmos eventos. 

Uma segunda razão para discernirmos uma mescla de fontes nesse capítulo é a conclusão, nos versículos 29-34, que parece ser uma adição posterior. Além das outras informações, o leitor é infor­mado de que o Dia da Expiação deve ser observado anualmente, no décimo dia do sétimo mês, que é Tishrei5 (v. 29). Em geral, a data ou o dia em que o ritual deve ser realizado aparece no início da seção, mas aqui encontramos no fim. A que conclusão isso nos leva? O autor dessa última parte é, no mínimo, outro que não aquele que descreve os festivais de Levítico 23. (Tomando um exemplo do Novo Testamento, poderia alguém argumentar de forma convincente que, como as orações de Paulo costumam aparecer no início e no meio das epístolas, a oração registrada em 1 Téssalonicenses 5.23,24 foi provavelmente escrita por outra pessoa? Seqüência ou localização não parecem ter muito a ver com autenticidade.) 

Aspectos da Expiação 

Talvez não seja incidental o fato de que a expressão hebraica para “Dia da Expiação” é literalmente “dia de expiações”. A expi­ação se aplica a três áreas nesse capítulo: o sumo sacerdote, o santuário e o povo. 

Utilizando-se de repetições, pelo menos no que diz respeito às frases principais, Levítico 16 enfatiza alguns conceitos de extre­ma importância. Antes que ocorra qualquer cerimônia relaciona­da à redenção, o sumo sacerdote deve tratar de seus próprios pe­cados. “Arão oferecerá o novilho da oferta pela expiação, que será para ele [...] e fará expiação por si [...] que será para ele, e fará expiação por si [...] oferta pela expiação, que é para ele [...] fará expiação por si mesmo [...] e fará expiação por si” (vv. 6,11,17,24). 

Dessa forma, a frase “por si”, repetida sete vezes, insiste na abso­luta necessidade de o sacerdote graduado sanar em primeiro lu­gar seus próprios erros. Considerar um sumo sacerdote acima disso seria impensável e herético. 

Hebreus 9 afirma que Jesus rompeu esse modelo. Não anual­mente, mas apenas uma vez Ele entrou no lugar santo, e munido de seu próprio sangue, não do sangue de algum animal (Hb 9.11­14). Jesus não tinha pecados a serem confessados, nem precisava fazer expiação por si mesmo. 

E interessante observar que não somente pessoas, mas até ob­jetos inanimados precisam de expiação nesse dia. Veja os seguin­tes versículos: “Assim, fará expiação pelo santuário” (v. 16); “En­tão, sairá ao altar [...] e fará expiação por ele” (v. 18); “e o purifica­rá [...] e o santificará” (v. 19); “Havendo, pois, acabado de expiar o santuário, e a tenda da congregação, e o altar” (v. 20); “expiará o santo santuário; também expiará a tenda da congregação e o al­tar” (v. 33). 

O julgamento, portanto, começa efetivamente pela casa de Deus (1 Pe 4.17). O santuário precisava ser limpo, o que Jesus fez. Es­taria o Antigo Testamento sugerindo que o pecado é quase tangí­vel, como algo que rasteja até a presença divina por causa dos pecados do povo de Deus, envolvendo e encardindo os utensílios sagrados do santuário? 

O uso do verbo hebraico kâpar, “expiar, fazer expiação”, é notá­vel. Entre os estudiosos do hebraico, há grande discordância quan­to às nuanças do verbo. Uma sugestão não tão extravagante pro­põe que o seu significado seja “esfregar”. Algo pode tanto ser lim­po (por exemplo, apagado ou purificado) como polido (por exem­plo, quando o pecado é coberto). Importante observar que o Targum6 de Levítico, encontrado em Qumrari7 (século II a.C.?). no qual se encontram apenas uns poucos versículos de Levítico 16, traduz a palavra hebraica kappôret (“propiciatório”) como a palavra aramaica ksy\ que significa “tampar, cobrir” (ver Fitzmyer8). Os atuais estudiosos da língua hebraica preferem “lim­par” a “cobrir”. 

O que mais nos interessa aqui é a forma como a língua hebraica lida com o objeto que vem após esse verbo. Principalmente na literatura litúrgica, vemos de modo raro uma pessoa como objeto do verbo kapâr. Em Levítico, pelo menos, o objeto desse verbo é o sacerdote, nunca Deus. Quando o objeto é uma pessoa, o substan­tivo é precedido por alguma preposição ou locução prepositiva: “por”, “em benefício de”, “com respeito a”. A pessoa não é o objeto dos rituais de expiação — o sangue não é derramado ou lançado sobre a pessoa —, mas sua beneficiária. 

Objetos inanimados, por outro lado, podem ser objetos diretos do verbo kapâr sem preposição alguma. Levítico 16.33 ilustra a diferença entre os dois casos: 

“expiará o santo santuário [...] expiará a tenda da congregação e o altar \kapâr seguido de objeto direto, indicado pela partícula et, intraduzível]; semelhantemente fará expiação pelos sacerdo­tes e por todo o povo da congregação” (kapâr seguido pela preposi­ção ‘al, logo antes de “sacerdotes” e “todo o povo”). 

B. A. Levine9 considera que Levítico e escritos correlatos evi­tam construções com o verbo kapâr acompanhado de um objeto direto, no caso de uma pessoa, a fim de evitar a idéia de que o ritual em si é, de modo automático, eficaz. A cerimônia é um pré-requisito, mas não a força causadora. São apenas meios para se alcançar um fim. E o próprio Deus que perdoa e concede expiação. 

O Uso do Sangue 

Ao examinarmos Levítico 1—7, verificamos referências freqüentes ao uso do sangue em sacrifícios para expiação. O que temos de diferente em Levítico 16 é que, no Dia da Expiação, e somente neste dia, o sangue é levado ao Santo dos Santos, a parte mais reservada do Tabernáculo. As expressões bíblicas são “dentro do véu [...] sobre a face [...] perante a face do propiciatório” (vv. 12­15). 

Poder-se-ia tentar imaginar o porquê de, naquele dia em espe­cial, o sangue ser levado à parte mais sagrada do Tabernáculo. Talvez a resposta esteja em uma palavra fundamental que apare­ce nesse capítulo: “transgressões”, nos versículos 16 e 21. Gerhard von Rad10 observa que, das 86 ocorrências dessa palavra no Anti­go Testamento, apenas duas encontram-se nesse trecho um tanto extenso das Escrituras, considerado pelos críticos como P. Essas partes são Levítico 16.16 e 21, e não aparecem em nenhuma ou­tra parte desse livro. A palavra é extraída de uma linguagem re­lativa à política e a relacionamentos internacionais. Como tal, carrega consigo uma idéia de revolta ou rebelião. Von Rad tam­bém afirma que “ela \pesha\ é inegavelmente a palavra mais gra­ve para o pecado, em especial nos lábios dos profetas”. 

Esse tipo de pecado é exatamente o oposto do pecado cometido de modo inadvertido. Por esse motivo, no Dia da Expiação, visto que se lida com o pecado em sua mais evidente manifestação, o sangue é levado o mais perto possível da presença de Deus. Nem o altar de bronze externo nem o altar interno para o incenso po­dem ser usados como principal receptáculo para o sangue. 

Assim como em Levítico 16 temos o único capítulo da literatu­ra sacerdotal no qual a palavra “transgressão” aparece por duas vezes e próximas uma da outra (16.16, 21), a história de José apre­senta um outro exemplo em que o termo surge por duas vezes sucessivas (embora a NVI encubra esse aspecto). Seus irmãos, afirmando citar seu falecido pai, Jacó, dizem: “Perdoa, rogo-te. a transgressão [NVI: erros] de teus irmãos e o seu pecado, porque te fizeram mal; agora, pois, rogamos-te que perdoes a transgres­são [NVI: pecados] dos servos do Deus de teu pai” (Gn 50.17). Como registra Carmichael11, foi possivelmente essa semelhança que elevou a tradição judaica mais recente (como, por exemplo, nos Jubileus12} a relacionar a história de José ao Dia da Expia­ção. Assim como naquele dia os irmãos de José buscaram seu per­dão para seus pecados e transgressões, os israelitas devem bus­car o perdão para seus pecados de transgressão no Yom Kippur. José fora enviado ao Egito, como o bode expiatório era enviado ao deserto. 

Na verdade, trata-se de um dia em que se remove, quer por sacrifício quer por libertação, praticamente todo tipo de pecado. Observe a freqüência da palavra “todas” antes de palavras relacionadas ao pecado: “todas as iniqüidades dos filhos de Israel e todas as, suas transgressões [...] todos os seus pecados” (v. 21); “sereis purificados de todos os vossos pecados” (v. 30); “de todos os seus pecados” (v. 34). Deus, em sua misericórdia, separou um dia do ano para as pessoas descarregarem todo lixo e sujeira de suas vidas; tal qual muitas comunidades que, uma ou duas vezes por ano, permitem que se joguem no lixo coisas que normalmente não seriam permitidas. O Dia da Expiação é o que Kawashima13 cha­mou de “sistema de escoamento cultual”. Como disse Brueggemann14, “Jeová providenciou um dispositivo legítimo e confiável para que Israel pudesse ser restaurado a um relaciona­mento pleno com Jeová”. 

O Bode Emissário (Expiatório) 

A apresentação do sangue da oferta imolada pelo pecado é ape­nas metade da cerimônia do Dia da Expiação. A outra metade é mais uma vez exclusiva dessa ocasião especial. Um dos bodes para expiação do pecado era mantido vivo (vv. 5,10,20). Ao contrário dos procedimentos descritos em 1—7, nesse ritual, é Arão e não o adorador que coloca suas mãos sobre a cabeça do bode (v. 21). O sacerdote então “confessa” as transgressões e pecados de Israel. Temos mais uma vez um procedimento que difere de Levítico 5.5, quando o adorador “confessa” seus pecados pessoais. O bode en­tão “leva sobre si” as iniqüidades para o deserto. (O leitor deve notar que o conceito de “levar ou carregar” e “perdoar” são ex­pressos pelo mesmo verbo em hebraico.) Essa idéia de carregar o pecado para longe é o precedente do discurso de Isaías sobre o Servo Sofredor, que “nossas dores levou sobre si” (Is 53.4) e “levou sobre si o pecado de muitos” (Is 53.12). E com a mesma idéia que surge a exclamação de João Batista: “Eis o Cordeiro de Deus, que tira o pecado do mundo!” (Jo 1.29). A importância tipológica desse evento é esclarecida em Hebreus 6.19,20; 9.7-14. 

O problema da interpretação pode ser identificado ao compa­rarmos as traduções da ARC e da NVI nos seguintes versículos: 

16.8: “E Arão lançará sortes sobre os dois bodes: uma sorte pelo Senhor e a outra sorte pelo bode emissário” (ARC). 

“E lançará sortes quanto aos dois bodes: uma para o Senhor e a outra para Azazel” (NVI). 

16.10: “Mas o bode sobre que cair a sorte para ser bode emissá­rio apresentar-se-á vivo perante o Senhor, para fazer expiação com ele, para enviá-lo ao deserto como bode emis­sário” (ARC). 

“Mas o bode sobre o qual caiu a sorte para Azazel será apre­sentado vivo ao Senhor para fazer propiciação, e será enviado para Azazel no deserto” (NVI). 

A diferença entre as duas versões é óbvia. Para a NVI, a pala­vra hebraica azazelé a denominação de um indivíduo (ou lugar?), para o qual o bode vivo é enviado. Para a ARC, a palavra hebraica se refere ao próprio bode. 

A tradução da NVI leva a melhor entre a maioria dos estudio­sos. Assim, a interpretação mais aceita descreve Azazel como um poder sobrenatural, provavelmente demoníaco, cujo reduto é o deserto. A idéia é que a forma mais eficiente de se livrar do mal é banindo-o de volta para sua origem. 

São dois os lugares onde em geral encontramos apoio a essa idéia. Em primeiro lugar, temos alguns poucos versículos no Anti­go Testamento que sugerem a crença de que o deserto era habita­do por demônios. Levítico 17.7 se refere à oferta de sacrifícios a “demônios” iseirirri) em campo aberto. A passagem citada com mai­or freqüência é Isaías 34.14, na qual o profeta, ao falar sobre a destruição que Deus traria sobre Edom, afirma que a terra se tornaria um deserto povoado por pássaros e feras selvagens. Den­tre as criaturas mencionadas, temos “demônios” [NTLH] (mesma palavra utilizada em Levítico 17.7) e a “bruxa do deserto” [NTLH] (“fantasmas” ARC): um demônio noturno e feminino conhecido por seus encantamentos. Uma terceira referência a demônios como alvo de adoração é verificada em 2 Crônicas 11.15. A visão do de­serto como habitação de espíritos malignos também aparece no Novo Testamento, em Mateus 12.43 e Lucas 11.24. 

A segunda fonte de apoio para a identificação de Azazel como uma força demoníaca é encontrada na literatura apócrifa. Em 1 Enoque, Azazel é identificado como o líder dos anjos que, como está registrado em Gênesis 6, desejou as filhas dos homens (ver 1 En 8.1; 9.6; 10.4-8; 13.1). Em certo momento, Azazel é preso por Rafael e lançado em um deserto sombrio. 

Não estaríamos, portanto, lidando com vestígios de um mito que jamais foi censurado pela história religiosa de Israel? E pos­sível crermos que parte crucial de um acontecimento tão impor­tante, independente de sua origem, incluía despachar um animal para o esconderijo do demônio? 

A esse respeito, Gordon Wenham15 cita uma observação de J. H. Hertz, que acredito ser bastante precisa: “A oferta de sacrifícios a “sátiros” [demônios] é mencionada como um crime odioso no capí­tulo imediatamente seguinte (17.7). Não se pode, portanto, vincu­lar homenagens a demônios do deserto com o mais sagrado dos rituais realizados no templo. Poderiam as Escrituras, em determi­nado capítulo, falar acerca da ação de Baal sobre a tempestade e, no capítulo seguinte, apresentar o Shemá16? 

Então, de onde a ARC tira o termo “bode emissário [expiatório]”? Em primeiro lugar, a palavra hebraica azazel é formada por duas palavras semíticas: o termo hebraico para “bode” e o verbo aramaico para “ir”. Azazel, portanto, é o bode que vai, o bode expiatório, o bode que parte. A tradução “bode emissário” surge pela primeira vez na tradução inglesa das Escrituras de Tyndale, em 1530, onde ele apresenta o termo “bode emissário”. Em certo sentido, trata-se de uma excelente tradução no que diz respeito ao contexto. Ao contrário do outro bode, que não sobrevive, mas é sacrificado, esse sobrevive. Não é sacrificado e escapa à morte, sendo libertado no “deserto”, um lugar onde o bode pode sobrevi­ver muito melhor que a ovelha (ver Douglas17). Em segundo lu­gar, essa foi a compreensão de muitas das versões mais antigas, como a Septuaginta e a Vulgata. A Septuaginta, por exemplo, tra­duz a palavra hebraica nos versículos 8, 10 e 26 de três formas diferentes, porém, semelhantes: “aquele mandado embora” (vv.8, 10; “aquele mandado embora em liberdade” (v. 10); “o bode separado para ser liberto” (v. 26). 

Como Kaufmann18 constata, Azazel, em sendo o destino do bode, não desempenha papel algum. “A menos que o pecado seja expur­gado, a ira mortal de JHWS/pode ser despertada, mas sem que Azazel produza mal algum [...] o valor do ritual não está em exorcizar al­gum poderoso poder demoníaco, porém em cumprir um manda­mento de Deus”. (Em relação à interpretação dada por Kaufmann a Azazel, a crítica de Levine baseia-se principalmente na tradução de Levítico 16.10 e defende uma finalidade muito mais mágica e misteriosa que a destacada por Kaufmann no ritual.) 

A Função do Povo 

A congregação desempenhava apenas uma parte mínima nas cerimônias. E Arão que seleciona os dois bodes, impõe sua mão sobre a cabeça do bode vivo e imola o outro bode como oferta pelos pecados do povo. Arão é o único a entrar no santuário. 

E quanto ao povo? Mantém-se numa postura passiva, sem qualquer envolvimento? Certamente que não. A idéia dos versículos 29 e 31 é de que o Dia da Expiação deve funcionar como um Sába­do. As pessoas não apenas devem se abster de trabalhar, mas tam­bém “afligir/negar a si mesmas”. E claro que isso não significa autoflagelação nem nada parecido. Significa que o Dia da Expia­ção, para os leigos, devia ser um dia nacional de oração, jejum e arrependimento, juntamente com auto-exame e transparência. Leia também Levítico 23.27-32, quanto ao conceito de “afligir" a própria alma no Dia da Expiação. 

As cerimônias no Tabernáculo eram corretas e determinadas por Deus, mas sua eficiência dependia de serem acompanhadas com verdadeira contrição por parte da comunidade. Em parte al­guma vemos a Bíblia aceitar a idéia de que seus rituais são ex opere operato. 

O caminho para Deus, contudo, não é uma religião que se limi­ta à abnegação e autodisciplina. Tais aspectos fazem parte do todo. porém há mais que isso. Com certeza, não é à toa que, no calendá­rio sagrado descrito em Levítico 23, o Dia da Expiação (23.26-32) é imediatamente sucedido pela Festa dos Tabernáculos (23.33­44), ambos no sétimo mês. Nesse evento, lemos “vos alegrareis perante o Senhor, vosso Deus, por sete dias” (v. 40). E o único festival em Levítico 23 que apregoa alegria. Portanto, afirma Levítico, acerte-se com Deus e deixe-o remover tudo que se opõe a Ele, tudo o que você estragou, e, então, aproveite a festa! 

Levítico 16 

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2 The Religion of Israel. Traduzido por M. Greenberg, Chicago: University of Chicago Press, 1960, p. 210, nc 17. 

3 “Atonement, Day of’. IDBSup , 1976, pp. 82,83. 

4 Leviticus. Traduzido por J. E. Anderson. Edição revista. OTL. Filadélfia: 

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5 Primeiro mês do calendário hebraico. (N. do T.) 

6 Cada uma das traduções ou paráfrases do Antigo Testamento feitas em 

aramaico. (N. do T.) 

7 Manuscritos do Mar Morto. (N. do T.) 

8 “The Targum of Leviticus from Qumran Cave 4”. Maarav nc 1(1), 1978. 

pp. 15-17; “The Aramaic Language and the Study of the New Testament”. JBL nc 99, 1980, pp. 17,18. 

9 In the Presence of the Lord: A Study of Cult and Some Cultic Terms in Ancient Israel. SJLA n° 5. Leiden: Brill, 1974, p. 66. 

10 Old Testament Theology. Traduzido por D. M. G. Stalker. 2 vols. Nova York: Harper & Row, 1962. Vol. 1, p. 263, n° 177. 

11 “The Origin of the Scapegoat Ritual”. VTrl° 50, 2000, p. 171. 

12 Antiga festa hebraica, festejada a cada 50 anos, quando dívidas eram perdoadas e escravos libertos. (N. do T.) 

13 “The Jubilee Year and the Return of Cosmic Purity”. CBQrl 65, 2003, p. 372. 

14 Theology of the Old Testament: Testimony, Dispute, Advocacy. Minneapolis: Fortress, 1997, p. 666. 

15 The Book of Leviticus. NICOT. Grand Rapids: Eerdmans, 1979, p. 234. 

16 Prece judaica que resume sua confissão de fé e baseia-se em três textos: Dt 6.4-9; 11.13-21 e Nm 15.37-41. (N. do T.) 

17 “The Go-Away Goat”, em The Book of Leviticus: Composition and Reception. Editado por R. Rendtorff e R. A. Kugler. VTSup nc 93. Leiden: Brill, 2003, pp. 121-141. 

18 The Religion of Israel. Traduzido por M. Greenberg. Chicago: University of Chicago Press, 1960, p. 114.