25 de janeiro de 2017

TREMPER LONGMAN III - A vida de José - Gênesis 37—50

tremper longman danilo moraes
A vida de José  - Gênesis 37—50 

Chegamos agora ao último toledot de Gênesis, o toledot (ou “história da família”) de Jacó (Gn 37.2). Mantendo o padrão que já vimos até agora, o toledot de Jacó tem como foco os filhos de Jacó. Dentre todos os filhos de Jacó, é a história de José que ouvimos de modo mais completo, embora observaremos uma curta interrupção com um relato sobre Judá (Gn 38). Denominarei esta secção de história ou relato de José, pelo fato de ele ser seu prin­cipal protagonista. Uma das primeiras coisas que os estudiosos observam quando começam a ler a história de José é a mudança no estilo e na qualidade literários. Enquanto as narrativas patriar­cais consistem de episódios curtos e vagamente ligados entre si, a história de José tem a característica de um conto ou pequeno romance. Embora existam cenários diferentes, o enredo é mais coerente do que aquilo que vimos até agora. Também há uma coerência temática, o que se observa, em parte, pelo emprego frequente do termo “abençoar”/“bênção” ao longo do relato. Não somente José é abençoado, mas aqueles ao seu redor também o são. Afinal, Deus estava com ele. 

Lembre-se, José não é um dos patriarcas. Mais tarde gera­ções irão se referir ao “Deus de Abraão, Isaque e Jacó”. Note que José não é incluído nesta lista. A história de José provê uma ponte entre os patriarcas e o relato do êxodo, oferecendo uma explica­ção sobre, antes de mais nada, como os israelitas chegaram ao Egito. Embora não seja ele mesmo um patriarca, José é, clara­mente, o recipiente das promessas patriarcais feitas a Abraão. Frequentemente leremos que Deus esteve “com ele”, abençoan­do-o e àqueles que estavam em sua presença. 

O tema do relato de José (Gn 50.19-20). Para realmente enten­dermos a história de José, temos de começar perto do fim, pois ele próprio pronuncia o tema de sua vida. Depois da morte de Jacó, os onze irmãos, que anteriormente haviam maltratado o agora poderoso irmão José, estão preocupados que José tenha esperado até esse momento para se vingar deles. Eles se ofere­cem para servi-lo, desde que não lhes faça mal. José fica ofendido e responde, dizendo: “Não temais; acaso, estou eu em lugar de Deus? Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o tornou em bem, para fazer, como vedes agora, que se conserve muita gente em vida” (Gn 50.19, 20). Aliás, na medida que refletimos sobre a vida de José tal como é narrada em Gênesis 37—50, ficamos impressionados com a verdade dessa declaração. De uma perspectiva humana, a vida de José se parece com uma série de golpes duros sem nenhum sentido. José, porém, enten­de que sua vida tem um significado imenso. 

José em Canaã. Vemos o padrão se desenrolar desde o início. Em Gênesis 37, José está com 17 anos de idade e é o filho favo­rito de Jacó. Era o filho de Raquel, a esposa preferida de seu pai, enquanto os outros eram rebentos de Lia ou de uma das concubinas. O tratamento preferencial que José recebia foi simbolizado pelo presente de uma veste. No entendimento popular, essa capa é “multicolorida”, ao passo que a palavra hebraica sugere que na verdade ela tinha “mangas compridas”. De um modo ou de outro, era algo especial e indicava que José era o favorito. Consequentemente, os irmãos o odiavam. 

Pelo que ficamos sabendo sobre ele nessa época, José aparente­mente não fez nada para melhorar sua situação diante dos irmãos. Por exemplo, ele teve dois sonhos que, em sua interpretação, falam do papel que no futuro terá sobre eles. É verdade que esses sonhos são de origem legitimamente divina, e José honestamente os relata. 

Mas para os irmãos tais sonhos sugerem menosprezo, de sorte que até mesmo Jacó é ofendido pelos sonhos de José. 

No primeiro sonho todos os irmãos estão atando feixes de cereais. Aquele que José está atando se ergue de repente, e todos os outros irmãos se encurvam diante do feixe. O segundo sonho assume dimensões cósmicas. Aqui o sol (representando o pai), a lua (representando a mãe) e onze estrelas (representando os irmãos) se curvam diante dele. Para um jovem por quem os irmãos já tinham uma intensa aversão devido ao favoritismo paterno, essas falas foram quase que literalmente o beijo da morte. 

A cena seguinte começa quando os irmãos vão pastorear o rebanho do pai perto de Siquém, enquanto José fica em casa, pro­vavelmente outra indicação de favoritismo. Depois de um tempo Jacó envia José até eles. Quando os irmãos o veem à distância, rapidamente tramam se livrar dele. A maioria quer jogá-lo num poço e deixá-lo morrer ali. Rúben, o mais velho, planeja retornar e tirá-lo dali, mas aparentemente ele não está ali mais tarde, quando um grupo de comerciantes ismaelitas aparece. Judá, percebendo aí uma oportunidade de ganho econômico, convence os irmãos de que lucrariam vendendo José. Assim os ismaelitas compram José, e lá vai ele para o Egito. 

De fato, para o Egito, onde estará em posição de ajudar os descendentes de Abraão numa crise futura. Os irmãos intentaram o mal, mas Deus o tornou em bem, para salvar a muitos. 

Nesse ínterim os irmãos inventam a história da morte de José, de maneira que para Jacó vai parecer que ele foi comido por um animal selvagem. Quando fica sabendo disso, Jacó desaba numa imensa tristeza. 

Um breve interlúdio: Judá e Tamar 

Logo após o primeiro capítulo dedicado a José, temos uma momentânea interrupção de sua história. Depois da venda de José a Potifar, que era um oficial do faraó, a cena muda para um relato acerca de seu irmão Judá. Essa transição abrupta (e, depois dela, o igualmente abrupto retorno a José) é estranha para leitores moder­nos e requer explicação. O fato de um relato acerca de Judá ser encontrado no toledot de Jacó não é nenhum problema, mas por que aqui e por que agora? Não sabemos. Judá, é claro, é o pai de uma tribo importante, e José será o progenitor de duas tribos: Efraim e Manassés.Talvez esteja sendo estabelecido um contraste, mas não está nada claro qual seria o propósito de tal contraste. 

O relato não apresenta Judá de forma positiva. Em primeiro lugar Judá se casou com uma cananéia, o que nos relembra Esaú, cujo casamento com mulheres de origem hitita e cananéia (ver particularmente Gn 28.7) causou tanto desgosto aos pais. Talvez não surpreenda que três filhos bem perversos foram fruto dessa união. Er, o primogênito, morreu devido à sua impiedade, dei­xando sua esposa Tamar viúva. De acordo com a lei, que é enun­ciada mais tarde na época de Moisés (ver Dt 25.5-10), o irmão de um homem que viesse a morrer tinha o dever de se casar com a viúva e ter um filho com ela, e a criança ficaria com o nome do falecido e, no final, herdaria suas terras e bens. Essa lei, às vezes chamada de levirato devido à palavra latina para cunhado, é apre­sentada de uma forma gráfica no livro de Rute, quando Boaz assume esses deveres no que diz respeito a Rute. 

Inicialmente Judá obedeceu à lei, ordenando a Onã que cum­prisse essa obrigação. Entretanto, por motivos egoístas, Onã se recusou a engravidá-la (Gn 38.9). Por essa razão Deus tirou a vida de Onã. O próximo na linha era Selá, mas agora Judá recua. Com o objetivo de enganá-la, diz a Tamar que dará Selá a ela assim que ele ficar suficientemente crescido, mas na verdade Judá não tem nenhuma intenção de fazê-lo, uma vez que agora teme pela vida do filho. Ele atribui a morte dos filhos a Tamar, a quem considera uma espécie de viúva negra, quando, na verdade, a culpa tem é de ser atribuída aos filhos perversos de Judá. 

O relato dá, agora, uma reviravolta inesperada. Assim que Tamar chega à conclusão de que Judá não tem nenhuma inten­ção de lhe dar Selá, ela toma providências drásticas. O que ela tinha realmente a perder? O destino de uma viúva sem filhos não é muito agradável no Israel antigo. Ela se veste como uma prosti­tuta, o que incluiu um véu que escondia sua identidade. Ela vai para um lugar na estrada que leva à cidade, e, surpresa!, Judá acaba contratando os serviços de Tamar. Tendo “esquecido a carteira em casa”, Jacó promete mandar o pagamento a essa mulher, cujo nome ele desconhece. Como garantia Judá deixa com ela seu selo de identificação, seu cordão e seu cajado. Entretanto, quando mais tarde ele tenta pagá-la, ela não está mais ali. 

Como resultado dessa relação, Tamar engravida. Ao saber disso, Judá quer que Tamar seja castigada com pena máxima. Ela desgraçou o nome da família e, por esse motivo, tem de morrer. Entretanto, quando confrontada, ela apresenta a identificação (o selo e o cajado) do homem que a havia engravidado. Judá imediatamente reconhece que ele é o homem e que incorre em erro ao não dar seu filho à nora. 

O texto termina, então, com o nascimento dos filhos daquela união, os gêmeos que darão continuidade à linhagem de Judá. Seus nomes se baseiam nas circunstâncias que cercam seu nascimento. Uma das crianças estica a mão para fora primeiro, e a parteira amarra um fio vermelho vivo em torno do pulso, mas, então, ele recolhe a mão para dentro do ventre, e a outra criança nasce primeiro. Este último recebe o nome de Perez, “rompendo”, visto que foi o pri­meiro, e o segundo foi Zera, “encarnado”, pois nasceu com um fio encarnado, ou vermelho vivo, em volta do pulso. 

José no Egito 

Logo antes de o relato de Judá e Tamar “interromper” a narrativa de José, ficamos sabendo que os comerciantes ismaelitas/midianitas venderam José para Potifar, descrito como “oficial de Faraó, comandante da guarda” (Gn 37.36). Em Gênesis 39 vemos como Deus faz sua presença conhecida de José por meio da prosperi­dade que alcança a casa de Potifar. O relato começa com uma declaração nesse sentido: “O Senhor era com José, que veio a ser homem próspero; e estava na casa de seu senhor egípcio. 

Vendo Potifar que o Senhor era com ele e que tudo o que ele fazia o Senhor prosperava em suas mãos...” (Gn 39.2, 3). Devi­do à bênção que veio por meio da presença de José em sua casa, Potifar lhe deu responsabilidades cada vez maiores e também o tratou com grande confiança. 

José atirado na prisão. Tudo estava indo bem até que a mu­lher de Potifar começou a demonstrar um grande interesse em José. Leitores atentos sabem que algo está para acontecer quando ouvem que um narrador discreto muda o estilo que lhe é carac­terístico e apresenta a descrição física de uma personagem (ver p. 74-77). José é descrito como um jovem “formoso de porte e de aparência” (Gn 39.6). 

Ficamos sabendo em seguida que a esposa de Potifar está tentando atraí-lo para sua cama. José reage precisamente da ma­neira certa. Ele recusa as atenções da mulher. Sua motivação é expressa de um modo muito bonito: “Tem-me por mordomo o meu senhor e não sabe do que há em casa, pois tudo o que tem me passou ele às minhas mãos. Ele não é maior do que eu nesta casa e nenhuma coisa me vedou, senão a ti, porque és sua mulher; como, pois, cometeria eu tamanha maldade e pecaria contra Deus?” (Gn 39.8, 9). Em outras palavras, José é a síntese do homem sábio descrito em Provérbios 5—7! 

Lendo a narrativa de José à luz desses versículos, teríamos todos os motivos para esperar que José colhesse a recompensa de um comportamento sábio. Sofre o tolo que cede a tais seduções. O sábio que evita a mulher promíscua é abençoado com vida e riquezas. Mas não é isso o que acontece. A mulher enjeitada volta sua ira contra José, inventando uma história de que ele teria tentado violentá-la. 

Confrontado com o relato que ela faz dos acontecimentos, Potifar extravasa sua ira em José, mandando-o para a cadeia. O fato de José ser sentenciado à prisão, em vez de ser executado, pode ser uma indicação de que Potifar sabia que algo não soava bem na história contada pela esposa. Entretanto, a questão impor­tante é que José é mandado para a prisão do rei, o que o coloca diante de com presos que tiveram contato com o faraó, deixando o leitor com impressão de que algo positivo poderá resultar dessa situação aparentemente negativa. 

0 copeiro e o padeiro. Tal como havia acontecido com a casa de Potifar, a prisão prosperou com a chegada de José ali (Gn 39.23), e José veio a conhecer dois oficiais da corte do faraó que esta­vam presos por alguma acusação não especificada contra o seu senhor. Embora tendo títulos que pareçam bem caseiros (copeiro e padeiro), seria errado pensar que eram oficiais sem impor­tância. Essas funções eram bem importantes e estavam intima­mente ligadas ao rei. (Isso certamente é válido no caso do copeiro, ver Ne 1.11.) O copeiro era um confidente do rei, que nele confia a ponto de tê-lo como responsável por provar sua comi­da, protegendo o rei de ser envenenado. 

Em seu relacionamento com o copeiro e o padeiro, o talento de José como adivinhador ganha importância. Especificamente, ele é um intérprete de sonhos. Já vimos a propensão de José de receber mensagens da parte de Deus por intermédio de sonhos, mas agora ele interpreta os sonhos de outros. 

A adivinhação é desaprovada em outra passagem das Escri­turas (Dt 18.10), mas o que está proibido é o tipo de adivinhação que não depende de Deus para a interpretação. Observamos isso no contraste entre os sábios da Babilônia e Daniel, quando inter­pretam o sonho em que Nabucodonosor vê uma estátua feita de vários metais (Dn 2). Daniel deixa claro que interpretar sonhos é coisa de Deus (Gn 40.8); neste caso ele é simplesmente o veículo da sabedoria de Deus. 

O copeiro vai primeiro. Ele vê três videiras que florescem. Ele espreme as uvas e dá o suco ao faraó. Na interpretação de José o significado é que dali a três dias o copeiro será restaurado a seu cargo. O padeiro se anima com essa mensagem positiva e conta seu próprio sonho. Ele também teve um sonho em que aparece o número três, em seu caso três cestos de pães estavam sobre sua cabeça. O cesto de cima era para o faraó, mas os pássaros vieram e comeram os pães. José entrega, então, a má notícia ao padeiro. 

Em seu caso a mensagem é que o rei o decapitará e empalará seu corpo numa estaca. Os pássaros virão e comerão o seu cadáver. 

Tudo se deu exatamente como interpretado por José. Três dias depois foi o aniversário do faraó. Ele soltou seus dois servos da prisão. O copeiro foi restaurado à sua função anterior, mas o padeiro foi degolado. 

Quando interpretou o sonho do copeiro, José lhe implorou: “lembra-te de mim, quando tudo te correr bem; e rogo-te que sejas bondoso para comigo, e faças menção de mim a Faraó, e me faças sair desta casa” (Gn 40.14, 15). Mas, mais uma vez, José recebe um tratamento ruim, quando o copeiro imediatamente “não se lembrou de José, porém dele se esqueceu” (Gn 40.23). Parece que as pessoas intentam o mal contra José ou, neste caso, sim­plesmente o ignoram, o que tem o mesmo resultado. 

O sonho do faraó. Quando avançamos para o capítulo 41, fica­mos sabendo que o faraó tem um sonho. O narrador não comenta que Deus havia feito o faraó ter esse sonho. (Referência explícita a Deus se limita ao mínimo nesta narrativa.) Mas as circunstâncias nos levam à conclusão de que esse sonho é da parte de Deus. 

O sonho do faraó começa com um cenário tranquilo de pros­peridade. Sete vacas saudáveis e bem alimentadas estão pastando às margens do rio Nilo. Porém, de repente, sete vacas bem magras surgem do meio do rio e comem as gordas! Um segundo sonho teve um padrão parecido. Sete espigas de cereais em uma única haste eram saudáveis e viçosas. Mas, então, sete espigas murchas aparecem repentinamente e consomem as saudáveis. 

Os sábios do Egito não têm nenhuma ideia sobre como inter­pretar esses sonhos. A essa altura o copeiro repentinamente se recorda daquele que havia conhecido na prisão, José, o intérprete de sonhos! José é convocado e exclama com toda piedade acerca da capacidade de interpretar sonhos: “Não está isso em mim; mas Deus dará resposta favorável a Faraó” (Gn 41.16). 

Os dois sonhos têm mesmo significado. E provável que Deus tenha usado dois sonhos diferentes com a mesma mensagem a fim de confirmar ao faraó que a mensagem era, de fato, intencional.


Uma vez apresentada, a interpretação não parece nada complexa. Sete anos de abundância serão seguidos de sete anos de fome. 




Saber que tinham sete anos antes da chegada da fome deu ao faraó tempo para se preparar e, na prática, transformar a catástrofe em vantagem. Como resposta ao conselho de José de deixar a pes­soa mais sábia no Egito encarregada de cuidar dos preparativos, o faraó escolhe o próprio José. O faraó põe José num cargo elevado no país e transforma o hebreu num egípcio. Dentre outras coisas José adquire um nome egípcio (Zafenate-Panéia) e como esposa lhe dá Asenate, filha de Potífera, sacerdote de Heliópolis. 

Durante os sete anos de fartura, José cuida para que os celei­ros do rei estejam cheios. Então, quando chega a fome, o rei está em posição de vender cereais àqueles que precisam. Em troca de cereal os egípcios dão ao faraó não apenas dinheiro mas, no final, as suas terras, o que lhes permite sobreviver à fome. Essa estraté­gia permite que o rei do Egito alcance um poder despótico. Ima­gine-se o efeito que essa história terá na geração do êxodo. Por meio dessa narrativa ficamos sabendo que o faraó que os oprimiu chegou a ser assim tão poderoso devido apenas à inteligência de um de seus ancestrais. 

Perto do fim do capítulo 41, tomamos conhecimento de que a fome não se restringiu ao Egito, mas ultrapassou as suas fron­teiras. Começamos a ter uma noção do rumo que a narrativa está tomando, e não ficamos surpresos de que o capítulo 42 volte a atenção para as agruras de Jacó e toda sua família lá em Canaã. 

Reconciliação. Jacó ouve acerca da disponibilidade de cereais no Egito e ordena aos filhos que vão para lá para obterem comida para sobreviverem. A maneira como fala aos filhos indica uma certa atitude de frieza com eles e contrasta com o modo como protegia José e agora protege Benjamim. Ele não deixa que Ben­jamim acompanhe os irmãos ao Egito. 

Os pedidos de cereal tinham de passar por José, e, desse modo, os irmãos acabam fazendo a solicitação diretamente a ele. O tem­po e as circunstâncias tinham transformado José, que provavel­mente havia adotado um estilo totalmente egípcio. Ele os reconheceu, mas eles não sabiam que o governador egípcio com quem estavam falando era o irmão que haviam vendido como escravo. Como consequência José os trata com rudeza, subme­tendo-os a um interrogatório intenso e até mesmo acusando-os de serem espiões. 

Como resposta à acusação de José, afirmaram com veemência que não eram espiões. Embora não tenham consciência disso, esse oficial “egípcio” tem bom motivo para confiar na integridade deles, por isso prepara-lhes um teste. Durante o interrogatório, eles reve­lam que existe ainda outro irmão, Benjamim, o qual permanece em casa. Agora José exige que vão e retornem com esse irmão, mostrando dessa maneira que não estavam mentindo para ele. Ele insiste que um deles fique retido até os outros retornarem. 

Simeão é escolhido, e os demais partem de volta com o cereal. A caminho de casa, os irmãos descobrem que estão levando não apenas o cereal mas também dinheiro. Não sabem como isso aconteceu, mas, uma vez que poderiam ser acusados de terem roubado este montante, não consideraram boa coisa. 

Quando voltam para casa e informam Jacó acerca da situação, o pai demonstra mais uma vez o favoritismo que tem por Benja­mim, o filho nascido da sua amada Raquel, recusando-se a deixar que o levem ao Egito, muito embora com a implicação da perda de Simeão, o qual não tinha boa reputação com o pai (Gn 34; 49.5-7), e Benjamim era simplesmente de extremo valor. Os irmãos tentam persuadir o pai a fazer algo, Rúben oferece até mesmo seus próprios dois filhos como resgate para Jacó, mas assim mesmo o patriarca recusa. Entretanto, quando acabou a comida que trouxeram, Jacó cede. Judá deixa claro ao seu pai que todos morrerão a menos que voltem ao Egito junto com Benjamim. Quando dá garantias pessoais da segurança de Benjamim, Jacó relu­tantemente deixa que levem Benjamim para o Egito. 

Quando José percebe que seus irmãos haviam chegado com Benjamim, ele ordena a seu ajudante que prepare um almoço de negócios com ele. O convite para terem uma refeição com José, que os irmãos somente sabiam que era uma autoridade egípcia de muito poder, os encheu de medo. Mas, quando chegaram, recebe­ram garantias de que não estavam sendo levados à sua presença por suspeita de roubarem o dinheiro. Simeão é solto e levado até eles. 

Quando José chega para a refeição, Benjamim é apresentado a ele. Essa apresentação é forte demais para José. Afinal, esse era seu irmão por parte de pai e de mãe. Ele tem de sair da sala para controlar as lágrimas. Depois de se recompor e voltar à sala, a refeição começa, e os irmãos percebem algo que é difícil explica­rem. Os egípcios estão sentados em uma mesa à parte, de acordo com preconceitos raciais bem documentados na literatura egípcia antiga; os irmãos estão sentados numa segunda mesa. Mas o que os surpreendeu é que estavam sentados na devida ordem de idade, e Benjamim tinha recebido cinco vezes mais do que qualquer outro deles. Com certeza isso os deixou pensando sobre o que estava acontecendo. 

Contudo, talvez por temor, não fazem nenhuma pergunta e pedem licença a José para voltarem a Jacó em Canaã. Mas José planeja outro teste. Junto com o cereal que pediram, ele deu ordens ao administrador do palácio que, às escondidas, colocasse o dinheiro de volta nos sacos de cereal e também colocasse a pró­pria taça de prata de José no saco de Benjamim. 

De início podemos ser tentados a crer que, assim como ocor­reu anteriormente, esse é um ato de generosidade, mas José tam­bém ordena a seu administrador que os intercepte na viagem de volta para casa e os acuse de roubo, especificamente Benjamim. 

Qual pode ser o objetivo dessa estratégia? O texto não nos diz, mas nos permite inferir o que José está pretendendo. Quando refletimos sobre o formato da história, vemos que José criou uma situação o mais próximo possível parecida com a sua própria. José tinha sido o filho favorito de Jacó; agora Benjamim é que era. Isso levanta a pergunta: será que os irmãos venderão seu meio- irmão para se salvarem? 

A resposta vem rapidamente. Não. Os irmãos estão dispostos a se sacrificarem por Benjamim e pelo bem-estar de seu pai, Jacó. Em particular Judá, cujo comportamento, conforme vimos, nem sempre foi da mais elevada integridade (ver Gn 38), se oferece para receber o castigo em lugar de Benjamim. 

José agora tem a resposta. Ele revela a sua identidade aos irmãos. Eles estão perplexos, mas José já demonstra ter consciên­cia de que seu sofrimento não foi sem razão, “...para conservação da vida, Deus me enviou adiante de vós. [...] Deus me enviou adiante de vós, para conservar vossa sucessão na terra e para vos preservar a vida por um grande livramento. Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, e sim Deus...” (Gn 45.5, 7, 8). Uma família reunida e resgatada de uma grande fome! 

Jacó recebe a notícia maravilhosa e, a convite do faraó e junto com toda sua família de cerca de 70 pessoas, se muda para o Egito, para sobreviver à fome. Na medida que os aconteci­mentos se desenrolam, a família permanece no Egito por muitos anos, na verdade séculos. Mas, por enquanto, Jacó está satisfeito com o reencontro e com a promessa de abundância durante uma escassez prolongada. 

As palavras finais de Jacó. Antes de Jacó morrer, ouvimos suas palavras finais, na prática sua última vontade e seu testamento, dirigi­das a seus descendentes. Primeiramente, em Gênesis 48 o patriarca abençoa os dois filhos de José, Manassés e Efraim. Num gesto sur­preendente e para aborrecimento de José, seu pai abençoa este último, que é o mais novo, em vez do primeiro. Inicialmente José acha que o pai cometeu um erro, mas não é o caso. Como havia acontecido com o próprio Jacó, o mais novo recebe a bênção da mão direita, embora neste caso os dois filhos recebam diferentes graus de bênção. A bênção dos filhos de José indica que José rece­berá uma espécie de bênção dobrada em relação a seus irmãos. Os filhos de Jacó, agora chamado Israel, são os pais das tribos de Israel. Quando a poeira assenta anos depois (na época de Josué), vemos que as tribos de Manassés e Efraim, não uma tribo única de José, recebem terras juntamente com os irmãos de José. 

Assim mesmo, Gênesis 49 apresenta bênçãos e maldições de Jacó sobre seus doze filhos, e estas são, na verdade, agouros de acontecimentos e relacionamentos futuros. Ele inicia pelos filhos de Lia. Rúben é o mais velho, e seria de se esperar que recebesse uma grande bênção. No entanto, Rúben havia maculado o relacio­namento com seu pai quando dormiu com Bila, concubina do próprio pai (Gn 35.22). Por cometer algo assim tão vergonhoso, perdeu sua posição de primogênito. A tribo de Rúben não terá nenhuma posição de destaque no futuro de Israel. 

Poderíamos achar que o mesmo destino aguardava tanto Simeão quanto Levi, pois eles também envergonharam o pai ao massacrarem os siquemitas (ver p. 176-178). Agora Jacó amal­diçoa esses dois filhos de Lia a ficarem dispersos pela terra de Israel. E, de fato, na segunda metade do livro de Josué, ambas as tribos deixam de receber terras. O destino de Simeão é ser absorvido na tribo maior de Judá, recebendo algumas cidades dentro das fronteiras da tribo. De outro lado, Levi, ainda que disperso, comprovadamente se toma a mais peculiar de todas as tribos. É a tribo sacerdotal. Qual a diferença? Por lealdade a Yahweh os levitas vêm em auxílio de Moisés e se vingam da rebelião dos seus compatriotas israelitas que estão adorando o bezerro de ouro (Ex 32—34). 

Judá é o primeiro a receber uma bênção de seu pai, e é bên­ção impressionante. Judá recebe a promessa de liderança. “O cetro (um símbolo da autoridade dos reis) não se arredará” dessa tri­bo. Embora o primeiro rei seja um benjamita (Saul), a promes­sa de dinastia é feita a um rei de Judá, a saber, Davi (2Sm 7), e dessa linhagem procederá o Messias. 

Jacó também fala coisas positivas a respeito de Zebulom e Issacar, mas certamente não tanto quanto havia acabado de se refe­rir sobre Judá. O mesmo se pode dizer das tribos que descendem dos filhos das concubinas, Bila e Zilpa: Dã, Gade, Aser e Naftali. 

A bênção final recai sobre os filhos de Raquel, José e Benja­mim. Conforme é de se esperar, a melhor é para o primeiro, e nela Jacó fala de grande prosperidade. A bênção de Benjamim tam­bém parece positiva, mas diz respeito à vitória na guerra. 

Depois de pronunciar essas palavras finais, a narrativa diz que Jacó morre. De conformidade com seus desejos, ele não é enterrado no Egito, mas, sim, levado para Canaã, onde é colocado no túmulo perto de Hebrom, o qual Abraão havia comprado anos antes quando Sara tinha morrido. Este é, com certeza, um lembrete, de que embora tenham encontrado felicidade e sobrevivência tempo­rárias no Egito, essa não é a sua terra, a terra da promessa. 

Agora nos encontramos numa posição melhor para entender o peso das palavras que José pronuncia no final de sua vida, embora as tenhamos anunciado quando começamos a recontá-la. Os irmãos planejaram o mal para José, mas Deus o transformou em bem. A mulher de Potifar agiu com más intenções com José, mas Deus as transformou em bem. O copeiro-chefe não agiu corretamente com José, mas Deus criou as circunstâncias que levaram José à presença do faraó. 

Qual é esse bem que Deus operou? A sobrevivência do povo da promessa. A aliança não vai fracassar. 

Em direção ao futuro. O livro de Gênesis tem, desse modo, um final feliz, mas sem dar uma forte sensação de ter terminado. É verdade que a marca da conclusão do livro é o fim da vida de José. Mas, na narração da sua morte, ficamos com uma forte sensa­ção de que essa é uma pausa narrativa e não o objetivo final do texto. O livro conclui com um pedido de José: “Certamente Deus vos visitará, e fareis transportar os meus ossos daqui” (Gn 50.25). Assim fecham-se as cortinas, não no final da peça, mas entre os dois primeiros episódios. A história prosseguirá no livro de Êxodo. 

A bênção divina ainda não foi totalmente restaurada, mas, ao final do livro de Gênesis, vemos que de um único indivíduo foi para uma família inteira. O livro termina com os doze filhos de Israel olhando para o futuro. Esses doze filhos são os antepas­sados das doze tribos de Israel (Gn 49), e, assim, podemos ver como Gênesis, embora seja uma história de família, é o preâm­bulo de uma história nacional.