27 de janeiro de 2017

ROY B. ZUCK - A interpretação bíblica — o que é e por que fazê-la

exegese hermeneutica danilo moraes

A interpretação bíblica — o que é e por que fazê-la


Certo executivo estava de viagem bem longe de casa. Solteirão, trabalhava como alto funcionário num importante órgão do governo. Para ser mais exato, era o tesoureiro encarregado de todos os recursos financeiros daquele departamento.
Retomando da Palestina, seguia por uma estrada deserta a sudoeste de Jerusalém. Como havia quem conduzisse o veículo, pôde ir lendo. Enquanto em voz alta, reparou que um homem a seu lado escutava a leitura. O homem perguntou ao viajante se compreendia o que estava lendo.
O leitor era um etíope, oficial da corte de Candace, rainha da Etiópia (At 8.27). Filipe, a quem Deus havia orientado que se encontrasse com o oficial, juntou-se a ele no caminho de volta à Etiópia (vv. 26-29). Filipe iniciou um diálogo com o homem fazendo uma pergunta ligada à interpretação bíblica: “Compreendes o que vens lendo?” (v. 30). O tesoureiro respondeu: “Como poderei entender, se alguém não me explicar?” (v. 31). Depois de convidar Filipe a subir na carruagem, o africano perguntou se, em Isaías 53.7, 8, o profeta estava referindo-se a si mesmo ou a outra pessoa. Sua pergunta revelou que precisava de ajuda para interpretar a passagem. Filipe explicou que o trecho falava de Jesus. No final da conversa, o africano aceitou o Senhor como seu Salvador.
Esse diálogo no deserto acentua duas coisas. Primeiramente, a mera leitura das palavras de uma página da Bíblia não significa necessariamente que o leitor compreende seu significado. Dentre as muitas etapas do estudo bíblico, a primeira é a observação do que a Bíblia diz. É importante saber o que o texto afirma de fato. Mas, às vezes, essa observação pode gerar dúvidas sobre o sentido do que foi lido. Muitas pessoas ficam confusas quando leem trechos da Bíblia, sem saber ao certo qual o significado do texto, ou então acabam interpretando-o erroneamente.
Em segundo lugar, o episódio do evangelista e do eunuco mostra que uma orientação adequada ajuda as pessoas a interpretar o que leem na Bíblia. A pergunta “compreendes o que vens lendo?” indicava a possibilidade de o leitor não estar entendendo, mas, também, que era possível entender. Aliás, quando o tesoureiro pediu que lhe explicasse a passagem, estava reconhecendo que, sozinho, não era capaz de entendê-la corretamente e que sentia necessidade de ajuda para interpretá-la.
Vários meses depois que Neemias concluiu a reconstrução dos muros de Jerusalém e os israelitas haviam-se instalado em suas cidades, o escriba Esdras leu para a congregação no “livro da lei de Moisés” (os cinco primeiros livros da Bíblia). O povo  havia-se reunido em frente à Porta das Águas (Ne 8.1). Esdras leu na lei desde o amanhecer até o meio-dia (v. 3). Os levitas também leram na lei em voz alta, “claramente, dando explicações, de maneira que entendessem o que se lia” (vv. 7.8). Em consequência, todos do povo alegraram-se, “porque tinham entendido as palavras que lhes foram explicadas” (v. 12).

Por que a interpretação bíblica é importante

É essencial para a compreensão e para o ensino correto da Bíblia.
Precisamos conhecer o significado da Bíblia a fim de podermos descobrir sua mensagem para nossos dias. Devemos compreender seu sentido para a época antes de percebermos seu significado para hoje. Se descartarmos a hermenêutica (ciência e arte de interpretar a Bíblia), estaremos passando por cima de uma etapa indispensável do estudo bíblico e deixando de nos beneficiar dela.
Certas pessoas “adulteram a Palavra de Deus” intencionalmente (2 Co 4.2). Outras há que até mesmo “deturpam” as Escrituras “para a própria destruição deles” (2 Pe 3.16). Outros, por sua vez, interpretam a Bíblia erroneamente sem o saber. Por quê? Por não darem a devida atenção aos princípios em causa na compreensão das Escrituras. Nos últimos anos, vemos um interesse crescente pelo estudo bíblico informal. Muitos grupos pequenos reúnem-se em casas ou nas igrejas para debater a Bíblia — o que quer dizer e como aplicar sua mensagem. Será que os integrantes desses grupos sempre chegam ao mesmo entendimento da passagem estudada? Não necessariamente. Alguém pode afirmar; “Para mim, este versículo quer dizer isto”; já outro pode retrucar: “Para mim, o sentido não é esse; é este aqui”. Estudar a Bíblia dessa forma, sem as diretrizes apropriadas da hermenêutica, pode gerar confusão e interpretações que se encontram até em inequívoco desacordo.
Será que Deus pretendia que a Bíblia fosse tratada dessa forma? Se conseguimos manipulá-la para extrairmos o sentido que desejamos, como pode ser um guia confiável?
O que não falta são interpretações divergentes de inúmeras passagens. Por exemplo, uma pessoa lê João 10.28 — “Eu lhes dou a vida eterna; jamais perecerão, eternamente, e ninguém as arrebatará da minha mão” — e entende que esse versículo está ensinando a segurança eterna. Já a explicação que outros oferecem sobre o mesmo versículo é que, apesar de não se poder retirar um cristão das mãos de Deus, o próprio crente pode fazê-lo se persistir no pecado. Alguns são de opinião que a declaração de Paulo, em Colossenses 1,15, de que Cristo é “o primogênito de toda a criação”, significa que ele foi criado. Outros, por sua vez, entendem por esse versículo que, como acontece com o primogênito de toda família, ele é o Herdeiro. Alguns cristãos praticam o chamado “falar em línguas” com base em 1 Coríntios de 12 a 14. Já outros leem os mesmos capítulos e entendem que tal prática limitava-se à era apostólica sem aplicar-se à atualidade. Naum 2.4 — “Os carros passam furiosamente pelas ruas, e se cruzam velozes pelas praças...” — já levou à conclusão de que se trata de uma profecia sobre o trânsito intenso de automóveis em nossas cidades modernas. Alguns procuraram atribuir um sentido “espiritual” à parábola do bom samaritano (Lc 10.25-37), explicando que a hospedaria para onde o samaritano levou o ferido simboliza a igreja e que as duas moedas de prata dadas ao hospedeiro representam a ceia do Senhor e o batismo nas águas.
O líder mórmon Brigham Young quis dar razão ao fato de ter mais de 30 esposas lembrando que Abraão possuía mais de uma; Sara e Hagar. A prática mórmon de batizar por causa de parentes mortos e de outras pessoas fundamenta-se, afirmam eles, em 1 Coríntios 15.29. Há quem segure cobras venenosas porque leu Marcos 16.18. A questão de as mulheres ensinarem ou não os homens depende de como se interpretam 1 Coríntios 11.5; 14.34, 35 e 1 Timóteo 2.12. Alguns pregam que o reinado atual de Cristo nos céus indica que ele não vai estabelecer um reinado de mil anos na terra após sua volta. Para outros, a Bíblia ensina que Cristo, apesar de governar o universo atualmente, haverá de manifestar seu reino no plano físico quando vier para reinar como o Messias sobre a nação de Israel, no Milênio.
Todas essas — como tantas outras — são questões de interpretação. Evidentemente, essa discrepância de concepções ressalta que nem todos os leitores seguem os mesmos princípios para compreender a Bíblia.
A ausência de uma hermenêutica correta também é a causa dos enormes desmandos e da difamação que sofre a Bíblia. Até mesmo alguns ateus tentam defender seu posicionamento com Salmos 14.1; “Não há Deus”. É claro que eles pularam a introdução de tais palavras; “Diz o insensato no seu coração; Não há Deus”. Certas pessoas afirmam que é possível fazer a Bíblia dizer o que se queira. No entanto, quantos desses mesmos indivíduos afirmam que é possível fazer Shakespeare dizer o que se queira? Não resta dúvida de que as pessoas podem fazer a Bíblia dizer o que querem ouvir, desde que descartem os métodos normais para a compreensão de documentos escritos.
Observando o que vemos no texto bíblico, devemos então manejá-lo corretamente (2 Tm 2.15). A oração adjetiva “que maneja bem” é a tradução da palavra grega orthotomounta, que é a combinação de “reto” (ortho) com “cortar” (tomeo). Um autor fornece a seguinte explicação:
Como Paulo fabricava tendas, é possível que estivesse empregando um termo relacionado a seu ofício. Quando fazia as tendas, usava determinados moldes. Naquela época, as tendas eram feitas de retalhos de peles de animais costurados uns aos outros. Cada pedaço teria de ser cortado de tal forma que se encaixasse bem com os outros. Paulo estava simplesmente dizendo: “Se os pedaços não forem bem cortados, o todo ficará desconjuntado”. O mesmo ocorre com as Escrituras. Se as diferentes partes não forem interpretadas corretamente, a mensagem como um todo resultará errônea. Tanto no estudo da Bíblia quanto na interpretação, o cristão deve ser preciso. Deve ser minucioso [...] e exato.
A interpretação é a etapa que nos transporta da leitura e da observação do texto para a aplicação e a prática. O estudo bíblico é uma atividade intelectual por meio da qual procuramos compreender o que Deus diz. Contudo, deve ir, além disso, e incluir a disciplina espiritual, por meio da qual procurados colocar em prática o que lemos e compreendemos.
O verdadeiro objetivo do estudo da Bíblia é a assimilação íntima, não a simples percepção mental. Somente assim o crente pode crescer espiritualmente. A maturidade espiritual, que nos torna mais semelhantes a Cristo, não decorre apenas de um conhecimento mais amplo da Bíblia. Resulta de um conhecimento mais amplo da Bíblia e de sua aplicação às nossas necessidades espirituais. Paulo visava a esse objetivo para que pudesse incentivar e ensinar outros a se tomarem maduros em Cristo (Cl 1.28). Pedro também escreveu que devemos desejar “ardentemente [...] o genuíno leite espiritual, para que por ele [nos] seja dado crescimento para [nossa] salvação” (1 Pe 2.2). Paulo escreveu que “o saber ensoberbece” (1 Co 8.1). Jesus disse aos líderes judeus de sua época: “Examinais as Escrituras...” (Jo 5.39); mas logo acrescentou que todo aquele estudo era inútil, porque eles se recusavam a chegar a ele para terem vida (v. 40).
Uma passagem clássica sobre a inspiração das Escrituras é 2 Timóteo 3.16. Entretanto, quase todo esse versículo e o seguinte falam da utilidade das Escrituras. Elas devem ser usadas “para o ensino, para a repreensão, para a correção, para a educação na justiça, a fim de que o homem de Deus seja perfeito e perfeitamente habilitado para toda boa obra”.
A interpretação é fundamental à aplicação. Se nossa interpretação não for correta, podemos acabar aplicando a Bíblia da forma errada. A forma como você interpreta diversas passagens afeta diretamente seu comportamento e também o de outras pessoas.
As questões de ser o aborto correto ou errado, de como descobrir a vontade de Deus, de como levar uma vida dotada de sentido, de como ser um marido, uma esposa, um pai ou uma mãe eficiente, de como reagir ao sofrimento — tudo isso depende da hermenêutica e da forma como se interpretam diversas passagens, estando-lhes intimamente ligado. “A interpretação da Bíblia é uma das questões mais importantes que os cristãos enfrentam hoje. Dela resulta o que cremos, como vivemos, como nos relacionamos e o que temos a oferecer ao mundo”.

Os problemas da interpretação bíblica
Um dos maiores motivos por que a Bíblia é um livro difícil de entender é o fato de ser antigo. Os cinco primeiros livros do Antigo Testamento foram escritos por Moisés em 1400 a,C. aproximadamente. Apocalipse — o último livro da Bíblia — foi escrito pelo apóstolo João por volta de 90 d.C. Portanto, alguns dos livros foram escritos há mais ou menos 3 400 anos, sendo que o último deles há cerca de 1 900 anos. Isto mostra que, na hermenêutica, precisamos tentar transpor vários abismos que se apresentam pelo fato de termos em mãos um livro tão antigo.
O abismo do tempo (cronológico)
Devido à gigantesca lacuna temporal, um abismo enorme separa-nos dos autores e dos primeiros leitores da Bíblia. Como não estávamos lá, não podemos conversar com os autores e com os primeiros ouvintes e leitores para descobrir de primeira mão o significado do que escreveram.
O abismo do espaço (geográfico)
Atualmente, a maior parte dos leitores da Bíblia vive a milhares de quilômetros de distância dos países onde se deram os fatos bíblicos. Foi no Oriente Médio, no Egito e nas nações mediterrâneas meridionais da Europa de hoje que as personagens bíblicas viveram e peregrinaram. A área estende-se desde a Babilônia, no que é hoje o Iraque, até Roma (e talvez a Espanha, se é que Paulo foi até lá). Essa distância geográfica deixa-nos em desvantagem.
O abismo dos costumes (cultural)
Existem grandes diferenças entre a maneira de agir e de pensar dos ocidentais e a das personagens das terras bíblicas. Portanto, é importante conhecer as culturas e os costumes dos povos dos tempos bíblicos. Muitas vezes, a falta de conhecimento de tais costumes gera interpretações errôneas. Por essa razão, dedicamos um capítulo inteiro deste livro a essa questão.
O abismo do idioma (linguístico)
Além dos abismos temporal, espacial e cultural existe ainda enorme lacuna entre nossa forma de falar e de escrever e a dos povos bíblicos. Os idiomas em que a Bíblia foi escrita — hebraico, aramaico e grego — têm singularidades estranhas à nossa língua. Por exemplo, no hebraico e no aramaico dos manuscritos originais do Antigo Testamento só havia consoantes. As vogais estavam subentendidas e, portanto, não eram escritas (embora os massoretas as tenham acrescentado séculos mais tarde, por volta de 900 d.C.). Além disso, tanto o hebraico quanto o aramaico são lidos da direita para a esquerda, e não da esquerda para a direita. Ademais, não havia separação entre as palavras. As palavras escritas nessas três línguas bíblicas emendavam-se umas às outras.
O abismo da escrita (literário)
Existem diferenças entre os estilos e as formas de escrita dos tempos bíblicos e os do mundo ocidental moderno. Dificilmente nos expressamos com provérbios ou parábolas, no entanto grande parte da Bíblia foi escrita em linguagem proverbial ou parabólica. Além disso, o fato de os livros bíblicos terem sido escritos por cerca de 40 autores humanos pode representar um problema para os intérpretes da Bíblia. Por exemplo: o autor de um dos evangelhos afirmou que havia um anjo no túmulo vazio de Jesus, ao passo que outro fez menção de dois anjos. A linguagem figurada, que era usada com frequência, às vezes dificulta nossa compreensão. Vejamos por essas declarações de Jesus: “Eu sou a porta” e “Eu sou o Pastor”. Evidentemente, ele não quis dizer que era literalmente feito de madeira com dobradiças, nem que possuía ovelhas de verdade e as apascentava no campo. Cabe ao intérprete tentar apurar o que Jesus de fato quis dizer com tais afirmações.
O abismo espiritual (sobrenatural)
É importante ressaltar também que existe um abismo entre a maneira de Deus agir e a nossa. O fato de a Bíblia ser um livro sobre Deus coloca-a numa posição sem-par. Deus, que é infinito, não pode ser plenamente compreendido pelo que é finito. A Bíblia relata os milagres de Deus e suas predições sobre o futuro. Ela também fala de verdades difíceis de ser assimiladas, tais como a Trindade, as duas naturezas de Cristo, a soberania de Deus e a vontade humana. Todos estes fatores, somados a outros, agravam a dificuldade que temos de entender plenamente todo o conteúdo das Escrituras.
Esses seis abismos representam problemas graves quando se tenta compreender a Bíblia. Se por um lado a maior parte da Bíblia é simples e fácil de entender, por outro é inegável que existem trechos mais difíceis. O próprio Pedro relatou: “... como igualmente o nosso amado irmão Paulo vos escreveu [...] há certas cousas difíceis de entender...” (2 Pe 3.15, 16). Existem versículos da Bíblia que continuam sendo um mistério até para os mais hábeis intérpretes.

Definições de hermenêutica
Que exatamente vem a ser hermenêutica? E em que difere de exegese e exposição? A palavra “hermenêutica” deriva do verbo grego hermêneuo do substantivo hermêneia. Esses termos estão relacionados a Hermes — o deus-mensageiro de pés alados da mitologia grega. Cabia a ele transformar o que estava além do entendimento humano em algo que a inteligência humana pudesse assimilar. Afirma-se que foi ele quem descobriu a linguagem verbal e a escrita, tendo sido o deus da literatura e da eloquência, dentre outras coisas. Ele era o mensageiro ou intérprete dos deuses e principalmente do pai, Zeus. Assim, o verbo hermêneuo passou a significar o ato de levar alguém a compreender algo em seu próprio idioma (logo, “explicar”) ou em outra língua (logo, “traduzir”). Em nossa língua, o verbo “interpretar” às vezes é empregado com o sentido de “explicação”; outras, com o sentido de “tradução”. Nas 19 vezes em que os termos hermêneuo e hermêneia aparecem no Novo Testamento, o sentido quase sempre é de tradução. O verbo diermêneuo é empregado em Lucas 24.27: “E, começando por Moisés, discorrendo por todos os profetas, expunha-lhes o que a seu respeito constava em todas as Escrituras”. Em certo sentido, uma tradução é uma explicação; é explicar numa língua o que foi expresso em outra. Portanto, interpretar incluí esclarecer e tomar inteligível o que era obscuro ou desconhecido.
A hermenêutica, como já foi dito, é a ciência e a arte de interpretar a Bíblia.
Assim, a hermenêutica é tanto ciência como arte. Na qualidade de ciência, enuncia princípios, investiga as leis do pensamento e da linguagem e classifica seus fatos e resultados. Como arte, ensina como esses princípios devem ser aplicados e comprova a validade deles, mostrando o valor prático que têm na elucidação das passagens mais difíceis. Portanto, a arte da hermenêutica desenvolve e constitui um método exegético válido.
Em que consistem, então, a exegese e a exposição? A exegese pode ser definida como a verificação do sentido do texto bíblico dentro de seus contextos histórico e literário. A exposição é a transmissão do significado do texto e de sua aplicabilidade ao ouvinte moderno. A exegese é a interpretação propriamente dita da Bíblia, ao passo que a hermenêutica consiste nos princípios pelos quais se verifica o sentido.
A exegese consiste no estudo individual, e a exposição, na apresentação em público. A exegese é feita na sala de estudo, ao passo que a exposição é feita detrás de um púlpito, da mesa do professor ou da plataforma. A grande preocupação da exegese é a compreensão de uma passagem bíblica, enquanto na exposição o interesse básico é a transmissão do sentido do texto.
Um bom expositor é antes de mais nada um bom exegeta. A exegese precede a exposição, assim como se assa um bolo antes de servi-lo. O processo exegético se dá na oficina, no depósito. Trata-se de um processo individual, de um trabalho diligente por meio do qual o estudioso da Bíblia examina os contextos, os significados e as formas das palavras; analisa a estrutura e os elementos das frases; busca descobrir como o texto original foi escrito (crítica textual); etc. Contudo, ele não transmite todos esses detalhes ao pregar ou ensinar a Bíblia.
Para ser válida, a exposição deve ser firmemente baseada na exegese: o significado do texto para os ouvintes de hoje deve estar relacionado com o seu significado para os ouvintes aos quais foi originalmente dirigido.
A hermenêutica é como um livro de culinária. A exegese é o preparo e o cozimento do bolo; a exposição, o ato de servi-lo.
Tanto num jogo de futebol quanto num jogo de cartas é necessário conhecer as regras e obedecer-lhes. Se os jogadores de futebol estão no campo, com a bola, mas não conhecem as regras do jogo, não podem fazer nada. Pode-se ter também um baralho completo em mãos e não se saber o que fazer com as cartas, São as regras que permitem aos jogadores darem andamento ao jogo. Da mesma forma, a hermenêutica fornece as regras ou as diretrizes, os princípios e a teoria que regem a maneira correta de compreender a Bíblia.

Restrições na interpretação da Bíblia
Quem não for regenerado não pode compreender totalmente o significado da Bíblia. Quem não é salvo está cego espiritualmente (2 Co 4.4) e morto (Ef 2.1). Paulo escreveu: “Ora, o homem natural não aceita as cousas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las porque elas se discernem espiritualmente” (1 Co 2.14). Isso significa que quem não é salvo não tem condições de entender o que as Escrituras dizem? Não. Antes, significa que ele não tem a capacidade espiritual de receber e assimilar as verdades espirituais. Como disse Martinho Lutero certa vez, os irregenerados podem entender a gramática de João 3.16, mas eles não agem em decorrência dos atos ali descritos. E nesse sentido que são incapazes de conhecer as coisas do Espírito de Deus.
Quem não é salvo não acolhe a verdade das Escrituras porque ela atinge em cheio sua natureza pecaminosa. O verbo grego traduzido por “aceitar”, em 1 Coríntios 2.14, é dechomai, “acolher”. Uma pessoa que não é salva, em quem o Espírito Santo não habita, pode entender mentalmente o que a Bíblia diz, mas ela rejeita a mensagem e se recusa a assimilá-la e praticá-la. Em contrapartida, lemos que os de Beréia “... receberam [dechomai] a palavra com toda a avidez...” (At 17.11) e que os tessalonicenses receberam a Palavra "... com alegria do Espírito Santo” (1 Ts 1.6).
A passagem de 1 Coríntios 2.14 também afirma que o irregenerado não entende as coisas espirituais. O verbo grego ginosko (“compreender”) não significa entender com o intelecto; significa compreender por experiência. Evidentemente, os irregenerados não experimentam a Palavra de Deus, porque não a acolhem. Só os regenerados têm a capacidade de acolher e experimentar as Escrituras mediante o Espírito Santo.
É preciso mais do que regeneração. Reverência e interesse por Deus e por sua Palavra também são fundamentais para a interpretação correta das Escrituras. Uma atitude de apatia ou arrogância em relação à Bíblia não colabora para o entendimento correto da verdade de Deus. As Escrituras são chamadas de santas e devem ser tratada como tal (2 Tm 3.15).
Outros requisitos espirituais são o espírito de oração e a humildade. Um intérprete precisa reconhecer que, ao longo dos séculos, outros leitores da Bíblia lutaram para descobrir o sentido de muitas das mesmas passagens bíblicas e, por isso, talvez tenham adquirido conhecimentos sobre esses textos das Escrituras. Nenhum intérprete é infalível. Portanto, ele precisa admitir a possibilidade de sua interpretação de determinada passagem não estar certa.
Ao ler as Escrituras, deve haver também a disposição de obedecer-lhes, de colocar em prática o que foi aprendido na Palavra. Quando uma pessoa verifica como o Senhor atuou na vida das personagens bíblicas que lhe obedeceram ou desobedeceram e quando compreende os preceitos e as instruções bíblicas para a vida de cada um, ela deve dispor-se a seguir tais exemplos e orientações. A não-reverência pela Palavra, a falta de oração, o orgulho ou a relutância em obedecer às verdades bíblicas são empecilhos para o entendimento do que a Bíblia diz.
O intérprete também precisa depender do Espírito Santo. “O Espírito bendito não é apenas o Autor legítimo da Palavra escrita; é também seu Expositor supremo e autêntico”.  A participação do Espírito Santo na interpretação bíblica indica várias coisas. Em primeiro lugar, sua participação não significa que as interpretações de alguém serão infalíveis.
Inerrância e infalibilidade são características dos manuscritos originais da Bíblia, não de seus intérpretes. As pessoas têm o direito de interpretá-la, mas isso não significa que todas as conclusões da interpretação individual serão precisas.
Em segundo lugar, a obra do Espírito na interpretação não quer dizer que ele desvende para alguns intérpretes um sentido “oculto”, diferente do significado normal e literal da passagem.
Em terceiro lugar, como já dissemos, o cristão que esteja vivendo em pecado é suscetível de interpretar erroneamente a Bíblia, pois seu coração e sua mente não estão em harmonia com o Espírito Santo.
Em quarto lugar, o Espírito Santo guia-nos a toda a verdade (Jo 16.13). O verbo guiar significa “ir na frente ou conduzir ao longo do caminho ou estrada”. Jesus prometeu aos discípulos que o Espírito Santo haveria de esclarecer e expandir o que ele lhes havia dado. Depois da ascensão de Cristo, o Espírito Santo desceu no dia de Pentecoste para habitar nos fiéis; os discípulos entenderam, então, o significado das palavras de Jesus com relação a si próprio e à sua morte e ressurreição. Embora o versículo 13 visasse aos 12 especificamente (v. 12), todos os cristãos podem ser assim conduzidos à verdade sobre Cristo. Entretanto, o crente não é automaticamente guiado pelo Espírito Santo para que compreenda a verdade das Escrituras, pois, como já foi dito, é preciso obediência. Orientação pressupõe obediência ao Guia e desejo de ser guiado. O crente só tem condições de aplicar, isto é, assimilar pessoalmente as Escrituras pela capacitação do Espírito Santo.
Em quinto lugar, o papel do Espírito Santo na interpretação da Bíblia significa que ele não costuma conceder vislumbres intuitivos e repentinos sobre o sentido dos textos bíblicos. Muitas passagens podem ser entendidas à primeira vista; já o sentido de outras às vezes só é esclarecido gradualmente, depois de estudo cuidadoso. A participação do Espírito na hermenêutica não pressupõe uma atuação misteriosa, que não se pode explicar nem averiguar.
Em sexto lugar, o papel do Espírito na interpretação indica que a Bíblia foi dada para que todos os crentes a entendessem. Sua interpretação não pertence a uma elite minoritária de eruditos. 
Entretanto, essas exigências espirituais não garantem automaticamente que qualquer interpretação da Bíblia estará correta. Estamos falando de pré-requisitos, não de garantias.
Além dessas restrições espirituais, existem outras que facilitam a leitura e o estudo da Bíblia. A vontade de estudar é fundamental. Pode-se incluir aí, entre outras coisas, o conhecimento dos contextos bíblicos, da história da Bíblia e de teologia. Conforme Ramm explicou, “As questões de ordem prática não podem ser resolvidas exclusivamente por meios espirituais. Não se pode orar a Deus pedindo informações sobre a autoria de Hebreus e ter por certa uma resposta clara. Não cabe também orar a respeito de outras questões elementares relativas à Bíblia e crer que receberá uma revelação sobre a revelação”.
O estudante da Bíblia também precisa aproximar-se das Escrituras com equilíbrio e bom senso, procurando ser o mais objetivo possível, sem prevenções nem opiniões preconcebidas.
Então, tudo isso quer dizer que a média dos leigos não tem condições de entender a Bíblia? Eles precisam cursar uma escola bíblica ou um seminário para poderem interpretar as Escrituras corretamente? Não, o significado de suas páginas não é restrito a uma minoria. O homem, feito à imagem de Deus, é um ser racional (além de emotivo e volitivo). Ele possui a capacidade intelectual de compreender as Escrituras. Como revelação de Deus escrita nas línguas humanas, a Bíblia é passível de ser entendida.
Por outro lado, isso não elimina a necessidade de professores e não quer dizer que uma pessoa munida da Bíblia pode aprender sozinha sem atentar para o que outros creem sobre as Escrituras. Certas pessoas receberam o dom de ensinar (Rm 12.7; 1 Co 12.28; Ef 4.11). Os 3 000 discípulos que receberam a salvação no dia de Pentecoste “perseveravam na doutrina dos apóstolos...” (At 2.42). Pedro e João “entraram no templo e ensinavam” (5.21). Eles continuaram “... ensinando o povo” (v. 25) e “todos os dias [...] não cessavam de ensinar...” (v. 42). Barnabé e Saulo “... ensinaram numerosa multidão...” em Antioquia (11.26). Paulo permaneceu em Corinto um ano e meio "... ensinando entre eles a palavra de Deus” (18.11). Em Éfeso, Paulo ensinava publicamente e também de casa em casa” (20.20). Ele foi acusado de ensinar a todos em toda a parte (21.28). Até mesmo quando estava em Roma, sob prisão domiciliar, com toda a intrepidez [...] ensinava as cousas referentes ao Senhor Jesus Cristo” (28.31). Se cada crente fosse capaz de entender completamente as Escrituras por conta própria, sem a ajuda de ninguém, então por que os apóstolos estavam envolvidos em ensinar os crentes e por que o dom do ensino é dado a certas pessoas na igreja de hoje? Esse ensinamento pode ser transmitido pessoalmente ou mediante instruções escritas, nos comentários. A atitude de manter-se aberto para receber a direção do Espírito por meio de outros pode ajudar o estudioso da Bíblia a evitar alguns dos perigos já mencionados. A questão agora é se as Escrituras são claras.

A Bíblia pode ser compreendida?
Os estudiosos da Bíblia referem-se, às vezes, à perspicuidade — ou clareza  — das Escrituras. Mas, se a Bíblia é clara, por que necessitamos de regras ou princípios de interpretação? Por que um cristão que vá ler a Bíblia precisaria da ajuda de mestres ou de escritos como os comentários bíblicos, conforme acabamos de discutir?
Certas pessoas respondem que é impossível entender as Escrituras. Elas se põem a ler uma passagem bíblica decididas a desvendar seu significado, mas acabam descobrindo que este lhes foge ao alcance. Chegam à conclusão de que, se os peritos que estudam a Bíblia durante anos não conseguem chegar a uma mesma interpretação de certas passagens, como elas, que são leigas, o conseguiriam? Para elas a Bíblia parece poder ser tudo, menos clara.
Se as Escrituras são claras, então, para que discutir a interpretação?
Realmente, há certas passagens da Bíblia que são difíceis de entender, como já foi dito. Mas sua mensagem básica é suficientemente simples para qualquer indivíduo compreender. As Escrituras em si não são obscuras.  Os ensinamentos bíblicos não estão fora do alcance de uma pessoa comum, como já afirmamos. E a Bíblia também não foi escrita para ser um quebra-cabeça, um livro de segredos e enigmas escrito de forma confusa e incompreensível. O fato de a Bíblia ser um livro é sinal de que foi feita para ser lida e entendida. Na qualidade de revelação escrita de Deus, a Bíblia revela-nos seu caráter, seus planos e suas regras. Os autores humanos, cujos escritos foram dados pela inspiração do Espírito Santo, pretendiam ser compreendidos, não confundir ou atrapalhar. Como disse Martinho Lutero, o sacerdócio de todos os crentes (1 Pe 2.5) significa que a Bíblia é acessível é pode ser entendida por todos os cristãos. Esta afirmação contrapunha-se à pretensa obscuridade da Bíblia sustentada pela Igreja Católica Romana, que; asseverava que só a Igreja podia desvendar seu significado.

Mesmo assim, existem problemas de comunicação. O que para o autor era nítido pode não ficar tão claro para o leitor de imediato. Daí a necessidade da interpretação para se removerem os obstáculos à comunicação e ao entendimento. A exegese e a interpretação, portanto, são necessárias para ajudar a expor a clareza que as Escrituras possuem em si mesmas. Como livro divino pelo qual Deus se comunica com o homem, a mensagem é essencialmente clara; mas, como Palavra de Deus, ela tem uma profundidade que pode desafiar os eruditos mais diligentes.