30 de janeiro de 2017

R. K. HARRISON - Leis de Purificação

harrison danilo moraes
b. A purificação depois do parto (12:1-8)

Alguns comentaristas acharam dificuldade com esta seção das leis da purificação, visto que parece designar como impuro o ato do par­to que foi o resultado do mandamento de Deus no sentido de ser fru­tífero e multiplicar (Gn 1:28). Visto que os filhos eram considerados uma herança e dádiva da parte de Deus (SI 127:3), e uma mulher frutí­fera era considerada bendita por Deus (cf. SI 128:3), pareceria algo surpreendente que o nascimento de um filho fosse considerado uma circuns­tância pecaminosa que precisasse, portanto, de expiação. A legislação, porém, trata das secreções que ocorrem no parto, e são estas que tornam imunda a mãe. Logo, o Capítulo deve ser lido no contexto do capítulo 15, que também trata das secreções do corpo.

1-4. Quando uma mulher tiver um menino, é imunda no que diz respeito ao seu lar por um período de sete dias, assim como ocorria com a sua menstruação. No oitavo dia, o filho era circuncidado (cf. Gn 21:4), mas outros trinta e três dias teriam de passar antes de a mulher poder participar mais uma vez da adoração no santuário. A circuncisão tinha sido instituída por Deus como sinal da Sua aliança com Abraão (Gn 17: 12). Era praticada também, por razões diferentes, entre os povos semi­tas ocidentais, inclusive os amonitas, os moabitas, os árabes e os edomitas, mas não ocorria entre os filisteus, os cananeus, os assírios ou os babilônios. O rito era normalmente levado a efeito com uma faca de pe­derneira, pelo pai, mas ocasionalmente a mãe oficiava (Êx 4:25). Por este ato, o filho do sexo masculino era formalmente iniciado no corpo do povo da aliança. Na dispensação cristã, o batismo tem sido consi­derado por muitos como sendo o equivalente neotestamentário da cir­cuncisão, mas os paralelos são por demais superficiais e restritos para serem inteiramente convincentes ou válidos.

A circuncisão no oitavo dia é ideal do ponto de vista da medici­na, sendo que depois daquele período o desenvolvimento nervoso e vas­cular da criança torna a resseção uma intervenção mais dolorosa. Além disto, crianças recém-nascidas são suscetíveis à hemorragia até ao quin­to dia da vida, devido a níveis inadequados no corpo de vitamina K e de protrombina, sendo que estes dois elementos são importantes na coa­gulação. Já no oitavo dia o nível da protrombina estabilizou-se em 100%, fazendo com que seja uma ocasião apropriada para a circuncisão. Sus­tenta-se também que certos benefícios médicos são desfrutados por aqueles que praticam a circuncisão. Por exemplo, a resseção remove a causa da fimose, uma condição dolorosa e embaraçosa, e evita qualquer acúmulo de esmegma que normalmente seria depositado entre a corona glandis e o prepúcio. Smegma praeputti, produzido por homens adultos, tem sido revelado como poderoso agente carcinogênico, e é frequentemente culpado pela incidência do câncer uterino. Os homens circuncida­dos supostamente experimentam um ritmo mais controlado de excita­ção sexual do que os demais, e raras vezes, ou talvez nunca, padecem o câncer raro do órgão masculino.

O ato da circuncisão não purificava a criança, visto que o nenê já era cerimonialmente limpo ao nascer. A purificação à qual se submetia a mãe era rigorosamente o resultado das secreções que acompanhavam o nascimento. Os corrimentos envolvem detritos de tecidos, mucosa e san­gue, e são chamados os lóquios. Duas etapas são normalmente experi­mentadas depois do parto, a primeira (lochia cruenta) sendo manchada com sangue, ao passo que a segunda (lochia alba) tem uma aparência mais pálida, e está livre do sangue. A não ser que haja alguma retenção dos ló­quios no útero, o corrimento é frequentemente de duração comparati­vamente curta, mas pode durar até seis semanas em certas circunstâncias. As leis da purificação depois do parto, portanto, abrangem o período máximo de tempo que os lóquios poderiam continuar.

5. Quando nascia uma menina, a mãe era cerimonialmente imun­da pelo dobro do número de dias que eram exigidos no caso de um meni­no. Nenhuma razão é dada para esta disparidade, e explicações que su­gerem a influência de tabus pré-israelitas ou o temor de ataques por de­mônios[1] são inteiramente especulativas, e destituídas de quaisquer ba­ses nos fatos. A sugestão que o feto feminino fosse considerado mais contaminante do que o masculino não é apoiada pela natureza dos ritos purificatórios, que eram os mesmos para a prole masculina ou feminina. Talvez a diferença tenha a ver com a posição social comparativa dos se­xos numa sociedade patriarcal (cf. Lv 27:2-7), e com o fato das futuras funções menstruais da menina. A presença do sangue no corrimento é claramente o agente contaminante, e merece procedimentos especiais, visto que o sangue e a vida estão intimamente ligados na legislação levítica (Lv 17:11). As cerimônias de purificação dariam uma dignidade apropriada aos aspectos puramente higiênicos do período pós-natal.

6-8. A completação da purificação deveria ser marcada por ofer­tas sacrificiais, que aqui são descritas em ordem inversa daquela que é preceituada na lista dos sacrifícios nos capítulos anteriores. Um pombinho ou uma rola perfazia a oferta pelo pecado, que era primariamente de uma natureza purificadora, ao passo que o holocausto era um cor­deiro de um ano, e este, ao ser sacrificado pelo sacerdote oficiante, res­taurava a nova mãe à comunhão do lugar santo. A mulher que não tinha recursos para um cordeiro seleto tinha de fornecer duas rolas ou dois pombinhos para a oferta pelo pecado e para o holocausto. Era importan­te para os israelitas terem uma escolha entre estas duas espécies estreita­mente relacionadas entre si, visto que aquela era migratória (cf. Cantares 2:12), e passava seus invernos na África; ocorria na Palestina somente ente abril e outubro. Por contraste, os ninhos dos pombos podiam ser achados localmente a qualquer tempo do ano, e, destarte, estas aves eram apropriadas para sacrifícios que ocorriam durante o inverno. Quando José e Maria vieram para o templo para as cerimônias da purificação na ocasião em que Jesus foi apresentado, seguiram os rituais antigos precei­tuados em Levítico (cf. Lc 2:22-24). A menção das aves na narrativa indica que os pais de nosso Senhor eram pobres na ocasião, senão, teriam fornecido um cordeiro.

Há pouca dúvida de que este capítulo leva extremamente a sério o nascimento de uma criança. Para as mulheres da antiguidade a ocasião era frequentemente perigosa, mas quando a mãe e a criança sobreviviam a provação, era um período de felicidade na família. As agonias do parto, que certamente produziriam uma forte impressão sobre todos quantos as testemunhavam, ajudariam a aprofundar o senso de responsabilidade dos pais entre si e para com sua prole.

c. Os regulamentos acerca da lepra (13:1 —14:57)

Uma seção extremamente importante de Levítico trata do tópico que é traduzido na maioria das versões como sendo a “lepra.” O ter­mo hebraico sàra‘at é derivado de uma raiz que significa “receber uma infecção na pele,” e é uma descrição genérica mais do que específica. No uso vétero-testamentário era estendida para incluir mofo ou míldio, bem como erupções minerais nas paredes das construções, e possivelmente a podridão da madeira que formava o arcabouço de tais estruturas. Na LXX o Hebraico foi traduzido pela palavra grega lepra, que também parece ter sido um pouco indefinida quanto à sua natureza e significado. Os autores médicos gregos empregavam a palavra para uma enfermidade que tornava a superfície da pele lamelosa ou escamosa, ao passo que Heródoto a mencionou em conexão com uma enfermidade chamada leukè, um tipo de erupção cutânea que parece ter sido idêntica ao Grego elephan­tiasis, e, portanto, semelhante à lepra clínica moderna (a hanseníase). Os romanos adotaram a palavra grega lepra, e parece que a usaram não somente para designar a doença que conheciam como elephantiasis Graeco­rum, como também, em círculos cristãos um pouco mais tarde, para descrever a enfermidade em Levítico, como na Vulgata. Há obviamente considerável confusão na terminologia, e uma amplidão de uso que au­menta a dificuldade em entender o significado do termo hebraico origi­nal. Se sua raiz, sr‘, tem relacionamento com o Acadiano sinnitu (“erup­ção”), descreveria qualquer forma de lesão cutânea, da qual a lepra clí­nica seria uma. Visto que sãra ‘at descreve uma classe de doenças, é im­portante conservar a designação tão ampla quanto possível, e incluir a hanseníase, que alguns diagnosticadores parecem querer excluir de qual­quer maneira.4?

Decidir sobre uma palavra, ou um grupo de palavras, com a qual se possa traduzir sãra ‘at é o problema principal aqui, assim como no ca­so das demais condições de infecção aqui descritas. O Hebraico é téc­nico no seu caráter, e a passagem do tempo obliterou o significado ori­ginal dos termos empregados. O mesmo se pode dizer, no entanto, dou­tros textos médicos comparáveis do Oriente Próximo antigo, de modo que a dificuldade não é exclusiva á Escritura. Infelizmente, nenhuma tradução é especialmente satisfatória, seja hautkrankheit (“doenças de pele”), seja NEB “dermatite maligna.” Esta última é uma escolha espe­cialmente infeliz, visto que “maligna” dificilmente poderia descrever com exatidão algumas das condições cutâneas mencionadas nesta seção.' Talvez “dermatite suspeita” fosse uma tradução melhor para os propó­sitos de NEB, visto que evitaria julgar de antemão a natureza do diag­nóstico. Qualquer coisa que é maligna ou resiste o tratamento, tende a ocorrer de novo e a degenerar, ou ocorre numa forma já séria. Ne­nhuma destas três qualificações pode ser aplicada apropriadamente a uma doença tal como tinha ou psoríase, sendo que as duas, conforme parece, são descritas neste capítulo. O presente escritor prefere usar o termo tradicional “lepra” para sãra‘at, considerando-o uma designação geral de uma classe de doenças da pele, com vãrios graus de severidade. Uma analogia pode ser tirada entre este uso e o uso de “câncer” como uma designação patológica. “Câncer” realmente é um termo leigo emprega­do para descrever crescimentos malignos, mas os médicos pensam mais especificamente em dois tipos principais de tumores neoplásticos, con­forme a localidade e o tipo de tecido envolvido. Como resultado, há numerosas formas específicas de “câncer”, das quais algumas correspon­dem ao tratamento, ao passo que outras permanecem intratáveis, mas [2] todas elas podem ser abrangidas de modo aceitável tanto para o leigo quanto para o médico pelo único termo genérico.

Das doenças a serem discutidas, a lepra clínica tem uma história longa, e supostamente já estava em evidência na índia e na China cerca de 4000 a.C. A doença era conhecida na Mesopotâmia no terceiro mi­lênio a.C., e pelo menos um exemplar da lepra foi demonstrado numa múmia egípcia. Teríamos esperado que acharíamos muitos outros exem­plos da lepra no Egito, se fôssemos acreditar na declaração de Lucrécio de que a moléstia teve ali a sua origem. Alguns peritos aduziram razões para acreditarem que o leproso egípcio mumificado tinha sido original­mente um imigrante da Síria-Palestina. Parece, portanto, que a lepra clínica era familiar aos povos do Oriente Próximo antigo já no começo do segundo milênio a.C., e, portanto, não há base para a suposição, co­mum entre certos autores, que a lepra era provavelmente desconhecida entre os hebreus até que tivessem estado estabelecidos em Canaã por algum tempo.

A hanseníase, usando o eufemismo moderno para a lepra, é o re­sultado da infecção por um minúsculo bacilo, Mycobacterium leprae, que Hansen descobriu em 1871. A moléstia tem um princípio lento, e tem sido descrita em termos de dois tipos principais. A forma nodular ou lepromatosa é caracterizada por nódulos esponjosos que emergem na pele, e um engrossamento geral dos tecidos cutâneos locais. Onde ocor­rem os inchaços, formam-se às vezes úlceras indolores, com supuração, condição esta que é usualmente resultado do descuido. As membranas mucosas do nariz e da garganta frequentemente exibem a degeneração também, e nas suas etapas mais adiantadas, a moléstia frequentemente envolve os órgãos internos. A variedade anestética ou tuberculóide é menos severa, e é marcada por uma degeneração dos nervos na pele. O resultado disto é o aparecimento de manchas da pele descoloridas ou despigmentadas, em que não há sensação alguma. Úlceras às vezes ocor­rem nestas áreas anestéticas, e em casos severos, porções das extremida­des entram em necrose e decaem (lepra mutilans). A despeito da aparên­cia às vezes medonha das pessoas que são afetadas por esta forma da le­pra, parece ser virtualmente não-infecciosa. É crônica na sua natureza, e tem havido casos que duraram até trinta anos. Infelizmente, este tipo de lepra pode desenvolver-se na forma nodular mais séria. Às vezes uma terceira variedade da hanseníase é descrita em manuais de medicina, que consiste em todos os sintomas supra, combinados em vários graus. O óleo de Chaulmoogra, derivado da semente de um arbusto indiano, era a me­dicação preferida para a lepra e para algumas outras dermatoses crônicas até o advento dos antibióticos. O sucesso terapêutico espantoso tem sido relatado em conexão com o uso da talidomida.



1. O diagnóstico e o tratamento das doenças da pele (1-46)

1. Os procedimentos a serem empreendidos são revelados por Deus a Moisés e Arão, e não são o produto do folclore ou adaptações de procedimentos terapêuticos pagãos. Assim como ocorre com algumas das narrativas que tratam dos sacrifícios, as descrições dos casos clíni­cos tendem a seguir uma forma estereotipada. Esta realmente se consti­tui no método clínico a ser adotado pelos sacerdotes-médicos hebreus ao examinarem pessoas que exibem várias formas de doenças da pele. A diagnose não deve ser intuitiva na sua natureza, mas, sim, deve ser o produto de certos procedimentos padronizados de exame, de ordem rigorosamente racional. Inicialmente, o paciente apresentaria certos sintomas tais como um exantema, uma queimadura, ou uma erupção da pele, e depois disto o sacerdote-médico fazia um exame visual. Seu diag­nóstico devia ser baseado na presença de sintomas específicos de doen­ças, e uma vez que estava convicto que o caso era assim, receitava uma forma de tratamento. Este não envolvia, de modo algum, o emprego de substâncias terapêuticas, mas, sim, exigia uma declaração de limpeza ou de imundícia para as pessoas que eram casos suspeitos, e para roupas ou bens eram necessárias certas precauções sanitárias. Se o paciente não exibisse a moléstia numa forma suficientemente desenvolvida, poderia ser submetido à quarentena por certo período de tempo até que um diag­nóstico apropriado pudesse ser estabelecido.

2. Sintomas que levariam uma pessoa a procurar a ajuda do sa­cerdote incluiriam qualquer inchaço suspeito da pele (Heb. ie'èt; LXX oulé), uma erupção, mancha ou outro tipo de lesão da pele (Heb. sappa- hat; LXX sèmasia) ou uma mancha inchada, seja rosada, seja vermelha (Heb. baheret; LXX têlaugês). Quando qualquer um destes sintomas estava presente, poderia ser o precursor de uma variedade de doenças, das quais a hanseníase poderia ser uma. As duas formas da lepra clínica começam com áreas rosadas ou brancas descoloridas da pele, e estas frequentemente ocorrem na cabeça. Uma patologia razoavelmente bem desenvolvida parece ser indicada pela frase e isto nela se tornar como praga de lepra, e isto facilitaria o diagnóstico. Se o “leproso” antigo era pelo menos um pouco semelhante a muitos modernos, adiaria o exame pelo sacerdote-médico por tanto tempo quanto poderia, mesmo porque não desejaria ouvir a notícia devastadora acerca da sua condição.

3-4. O sacerdote examinador estaria procurando alterações na cutícula ou na epiderme, inclusive a possibilidade da penetração subcu­tânea e uma mudança na cor de quaisquer cabelos na vizinhança da erup­ção. Se estas condições existiam, o enfermo era pronunciado leproso e imundo. Mas se a área lustrosa da pele era branca rosada ao invés de ser inflamada, e se não havia despigmentação dos cabelos locais, o sacer­dote colocava a pessoa em quarentena por uma semana. Os sacerdotes- médicos hebreus parecem ter sido os primeiros no mundo antigo a isolar pessoas suspeitas de moléstias infecciosas ou contagiosas. Este procedimento permitiria um período razoável de incubação para a maioria das doenças tratadas neste capítulo, embora certamente não seria tem­po suficiente para a lepra clínica, que se desenvolve mais lentamente. Seria um intervalo apropriado, no entanto, nas circunstâncias em que o doente não tivesse consultado um sacerdote até que os sintomas pro­dromais fossem bem adiantados. No mundo antigo, em que até os mé­dicos eram geralmente profundamente ignorantes da natureza e das cau­sas da enfermidade, muitos doentes negligenciariam seus sintomas até que uma cura já fosse impossível. Destarte, o rei Ezequias de Judá teria muito provavelmente morrido de edema maligno se Isaías não tivesse feito uma intervenção (2 Rs 20:7; Is 38:21). Sintomas são advertên­cias que nem tudo está bem com o corpo, e aqueles que estendem os atri­butos da saúde e da santidade ao aspecto físico da personalidade não ne­gligenciarão as indicações de distúrbios somáticos. Jesus Cristo, o santo Filho de Deus, traz a cura para o corpo bem como para o espírito, visto que Sua obra de salvação envolve a pessoa inteira.

5-8. Depois de uma semana na quarentena, o paciente era exami­nado de novo, e se a moléstia parecia parada, era ordenado mais um pe­ríodo de sete dias de quarentena. Se, depois daquele período, a área afe­tada estivesse voltando para sua aparência normal, o sacerdote declara­ria a pessoa limpa, e faria o diagnóstico de uma pústula. Esta condição poderia incluir qualquer coisa desde um exantema máculo-papular até as pústulas de uma reação alérgica. O paciente poderia então voltar à vida normal depois de todas as suas roupas terem sido lavadas. Na eventualidade de uma recaída, o enfermo submetia-se a um novo exame, e se a lesão se revelava espalhada dentro da própria pele, era feita um diag­nóstico de lepra. A extensão da infiltração dos tecidos cutâneos era bá­sica para o reconhecimento da lepra clínica, e, de modo diagnóstico apropriado, outras possibilidades patológicas eram incluídas a fim de que fossem excluídas finalmente a favor do diagnóstico considerado.

9-11. Quando havia suspeita de uma forma crônica da lepra, um exame pelo sacerdote era uma necessidade. Se revelava uma vesícula branca nítida na pele, que tornara brancos quaisquer cabelos associados, e se a lesão fosse caracterizada por tecidos ulcerantes, a diagnose da le­pra era confirmada sem a necessidade de um período de quarentena ser imposto sobre o enfermo. Uma ocorrência de hanseníase bem-estabelecida (inveterada; “crônica” RSV, NEB, NIV) parece ser indicada aqui, visto que os cabelos que crescem numa mancha anestética de pele no corpo de um paciente rompem-se, ou racham-se, e ficam despigmentados. Além disto, um dos sintomas precoces de elephantiasis Graeco­rum é o desenvolvimento de vesículas brancas lustrosas que se rompem e supuram uma substância de cor branca. A lepra nodular ou lepromatosa provavelmente seria a moléstia em epígrafe, que poderia ser reconhe­cida naquela etapa do seu desenvolvimento. É importante para o leitor ter em mente que formas adiantadas da moléstia não são discutidas nes­te capítulo, visto que a preocupação predominante da legislação é com a diagnose e o isolamento precoces, a fim de que a comunidade fosse protegida da melhor maneira possível.

12-17. Um tipo diferente de sãra‘at envolvia uma condição cutâ­nea que cobria o corpo da pessoa da cabeça aos pés. Seu aspecto distintivo não era a penetração cutânea por inchações ou úlceras, mas, sim, o que parece ter sido uma despigmentação da pele sobre a maior parte do corpo. Nenhuma ulceração, erupção da pele ou lesão era associada com esta forma específica de condição da pele. A doença que corresponde mais de perto a estes sintomas é a vitiligem (leucodermia adquirida), em que áreas da pele perdem sua cor normal e se tornam brancas. A condi­ção é devida a uma simples perda de pigmentação na pele, e ocorre mais frequentemente nas raças negras do que entre as brancas. À parte da presença de áreas cor de marfim ou brancas, a pele é normal, e esta con­dição, portanto, justificaria uma diagnose de limpo (13). Grande número de doenças da pele exibem vários graus de ulceração, mas qualquer pes­soa que tinha vitiligem e que desenvolvia úlceras depois de ter sido libe­rada pelo sacerdote, era imediatamente suspeita de ter uma doença mais séria. A presença de úlceras tornava a pessoa imunda, e resultava numa diagnose de sara ‘at Se as úlceras saravam rapidamente, no entanto, e a carne voltava para sua cor normal, a condição era considerada benig­na e a pessoa com a infecção era mais uma vez pronunciada limpa. O cui­dado e a solicitude que eram exigidos da parte do sacerdote-médico quando o bem-estar individual era envolvido são aspectos fidedignos desta legislação higiênica. Para a nação verdadeiramente representar a santidade de Deus, suas máculas físicas deviam ser levadas tanto a sério quanto suas máculas morais e espirituais. Muitas doenças comuns da pele são frequentemente psicossomáticas na sua natureza, e, como tais, indicam conflitos emocionais que se estabeleceram e que exigem reconhecimento e tratamento.

18-23. A extensão da penetração na pele e o grau de localização das lesões são considerações importantes para um diagnóstico das formas mais sérias de sãra 'at. Uma inchação branca ou uma pápula cor de rosa que irrompia repentinamente no local de um furúnculo ou úlcera tinha de ser escrutinizada pelo sacerdote. Se fosse percebido que preenchia as condições da infiltração cutânea e da descoloração dos cabelos locais, seria considerada uma condição altamente perigosa, e mais provavelmen­te seria a forma clínica da lepra, mas se a inchação era pálida, e não tinha penetração na pele, a pessoa afetada tinha de ser posta em quarentena durante uma semana. Se a doença se espalhasse neste interim, o indivíduo era pronunciado imundo, mas não leproso. Se a inchação ou pápu­la permanecia localizada, era considerada uma inflamação secundária de antigos tecidos de uma cicatriz. A natureza exata da condição descrita é incerta, mas pode ter sido um quelóide. Esta é uma enfermidade da pe­le caracterizada por áreas de tecidos esbranqueadas ou de cor amarela clara cercadas por uma margem tendo uma cor mais escura. Conhecida às vezes por esclerodermia circunscrita, tem sido descrita em termos de manchas brancas, atrofiadas ou pigmentadas. O termo hebraico sehín, normalmente traduzido “furúnculo”, muito bem poderia ser uma desig­nação de uma úlcera. Esta última é uma lesão cutânea que pode supurar em grau maior ou menor, ao passo que o furúnculo é uma inflamação dos tecidos que cercam uma folícula de pele, e é o resultado da infec­ção por estafilococos. O furúnculo maduro tem um âmago bem-definido que supura e se desfaz por necrose. Uma inflamação mais servera causa­da por estafilococos numa área da pele e dos tecidos subcutâneos é conhe­cida como pústula maligna. Esta geralmente forma vários focos distintos, e quando se rompem, há liquefação e necrose dos tecidos envolvidos.

24-28. Uma queimadura que ficou infectada e que produziu uma pústula também é uma condição potencialmente imunda: Se os cabelos locais mudaram de cor e o cório era infiltrado, o enfermo era pronuncia­do imundo, visto que o sacerdote suspeitaria a presença de uma condi­ção cutânea degenerativa. Se não havia esbranqueamento dos cabelos no local da mancha, e a própria lesão era pálida, era imposto um períodonde quarentena de sete dias. No novo exame, a pessoa afetada era decla­rada imunda se a condição se espalhara na pele, mas se a pústula perma­necia pálida e localizada, o caso era diagnosticado como sendo inchação da queimadura (28), e a pessoa era pronunciada limpa. O médico moderno sem dúvida faria a objeção de que o período de quarentena para casos suspeitos era curto demais para discernir mudanças mórbidas num paciente em que uma condição que se desenvolvia lentamente, tal como a hanseníase, era envolvida. Embora isto talvez seja a verdade, deve ser lembrado que o sacerdote-médico israelita tinha suas próprias orienta­ções reconhecidas para a diagnose, e quaisquer diagnoses que resultas­sem, certamente erravam no lado da cautela. Até mesmo médicos mo­dernos, conforme tem sido conhecido, seguiram este padrão visando os interesses da saúde pública quando doenças transmissíveis estão envolvidas, na convicção de que tais questões não deviam ser deixadas ao léu da sorte. .

29-37. Uma sãra'at que dá coceira agora passa a ser descrita; ata­cava a cabeça das pessoas, e no caso dos homens podia espalhar-se para baixo, para a barba. A condição da pele e dos cabelos era averiguada, à procura de sinais precoces de morbidez, e se tivesse havido penetra­ção na pele e os cabelos superficiais eram descoloridos, a doença era diagnosticada como sendo tinha (30). A condição inteira era considera­da séria, sendo definida pelo Hebraico nega \ que frequentemente quer dizer “praga.” Nos casos em que a pele não fora rompida pela doença sarnenta, era imposto um período de sete dias de quarentena, e se não houvesse mais indicações degenerativas, o homem teria licença de fazer a barba nas áreas não infetadas. Depois de um período adicional de iso­lamento, uma pessoa poderia ser declarada limpa se a condição não se espalhara. Se uma recaída ocorria subsequentemente, aquela eventuali­dade era suficiente para o sacerdote declarar imundo o indivíduo, ha­vendo ou não a presença de cabelos amarelos. O crescimento de novos cabelos escuros era uma das indicações de que tinha havido cura (37).

A natureza deste estado é um pouco incerta, mas talvez tenha sido uma das doenças do grupo das tinhas (Tinea), talvez tinea tonsurans ou tinea favosus (tinha favosa). A tinha normalmente é uma moléstia da infância que pode ser adquirida pela mera proximidade ao gado infeta­do, e é causada por um fungo, Achorion sKònleinii Este organismo invade principalmente o couro cabeludo da cabeça, e penetra na pele, formando crostas amarelas, como pires, ao redor dos folículos dos cabe­los. Podem desenvolver-se tecidos de cicatriz, e nas pessoas mais velhas às vezes resulta em áreas de calvície. A doença é tanto irritante quanto debilitante, e, sendo infecciosa, requer tratamento cuidadoso.[3] Uma diagnose alternativa pode ser a da psoríase, que é uma doença não-infecciosa. Irrompe na forma de manchas redondas vermelhas cobertas de escamas brancas, e embora seja achada principalmente na cabeça, ocor­re também nos cotovelos, nos joelhos e noutras partes do corpo. A pso­ríase é mais comum nos climas frios do que nos climas mais quentes, e uma vez adquirida, é de difícil remoção. O controle de doenças transmissíveis entre pessoas que vivem em estreito contato entre si em condi­ções semitropicais ou tropicais requer o manejo cuidadoso e a insistên­cia contínua nos procedimentos higiênicos. Embora o sacerdote israeli­ta não receitasse medicamentos como tais, podia exercer algum controle sobre a propagação da infecção por meio de isolar casos suspeitos duran­te o período de incubação.

38-39. A presença de manchas ou salpicos brancos na pele exi­gia um exame pelo sacerdote. Se eram de cor pálida, e não as vesículas brancas inflamadas da lepra clínica, eram descritos como sendo bõhaq. Exatamente qual moléstia está sendo indicada por este termo é incerto. Pode aplicar-se à impigem, ao eczema e à acne. O estado referido pode ter envolvido pápulas ou herpes simples.

40-44. A calvície comum (alopecia) não era um estado imundo, mas uma doença leprosa era suspeitada quando estava presente uma ve­sícula branco-avermelhada. Se a erupção tinha as características da lepra clínica conforme se via noutras partes do corpo, a pessoa era pronuncia­da imunda.

45-46. Uma diagnose de sãra ‘at. era tanto uma sentença de morte para os israelitas antigos como notícias acerca de um câncer maligno se­riam para um paciente moderno. As orientações diagnósticas forneci­das ao sacerdote-médico o impediriam de levar tristeza e privação des­necessária aos seus compatriotas enquanto, ao mesmo tempo, garantia a saúde da comunidade. Uma vez que um homem fosse estigmatizado como ‘leproso”, devia adotar a postura de quem está de luto, deixando desgrenhados os seus cabelos, cobrindo a barba ou o bigode, e clamando: “imundo!” Devia viver fora do arraial, ou talvez em companhia doutros “leprosos” (cf. 2 Rs 7:3), mas sua existência nada mais era do que uma morte viva. A não ser que houvesse uma rápida diminuição da moléstia, a vítima da lepra clínica saberia que seu estado seria de considerável dura­ção, e que sua natureza repugnante proibiria qualquer contato significante com a sociedade. Acima de tudo, o “leproso” seria cortado da comu­nhão espiritual com o povo da aliança, e, num sentido real, estaria sem esperança e sem Deus no mundo.

2. Condições malsãs de roupas (47-59)

Os princípios da transmissão de moléstias mediante o contágio, que subjazem a legislação de Levítico 11:24-40, são aplicados a artigos de vestuário ou outras roupas que talvez tenham sido infetados por vítimas das moléstias classificadas como sàra ‘at, ou pode ser que exibam mudan­ças degenerativas deles próprios. A mente ocidental considera estranha a noção de uma ‘lepra das roupas”, mas vale a pena lembrar-se que os gre­gos usavam o termo lepros para descrever os couros com textura áspera dos quais se faziam as melhores correias e rédeas.[4] Tanto as pessoas quan­to suas roupas podem ser passíveis de agentes físicos que deformam ou desfiguram o exterior. Os processos resultantes de deterioração são anor­mais nos dois casos, e em cada situação levam a superfície a inchar-se, for­mar escamas, ou descascar-se. Finalmente, tanto as pessoas quanto as ves­tes podem ser afetadas desta maneira por organismos bacteriais ou por fungos.

47-58. A sãra'at de roupas de lã ou de linho seria indicada pela presença de mofo esverdeado ou avermelhado na urdidura ou na trama. Vestes de peles também poderiam ostentar tais mofos, e, naquela eventua­lidade, elas também seriam infectadas. Mofos são crescimentos fungosos em matéria animal ou vegetal morta ou em decomposição, e ocorrem em manchas de várias matizes. Se forem ingeridos por acidente, poderão provocar reações tóxicas violentas. A relevância da frase ou na urdidu­ra, ou na trama nesta conexão tem deixado os comentaristas perplexos. À parte deste capítulo (vv. 48, 49, 51, 52, 53, 56, 57, 58, 59), a expres­são não ocorre em nenhum outro lugar na Escritura. Alguns pensaram que descrevesse dois tipos de fio empregados para fazer o tecidos, mas é improvável, pois os hebreus eram proibidos de misturar fios ou tecidos nas suas roupas (Dt 22:11). Outro ponto de vista pensava no fio torci­do e no tecido trabalhado como etapas diferentes no processo de fabricação. [5]O presente escritor prefere vê-la como uma expressão com­preensiva que denota a totalidade de uma roupa tecida. O crescimento fungoso afeta o artigo inteiro pela sua presença, assim como a mácula do pecado original atinge todas as áreas da personalidade humana.

Os princípios de isolamento que eram aplicados às pessoas sus­peitas de uma ou outra das doenças sàra ‘at também eram aplicados a roupas. Os artigos afetados eram inspecionados pelo sacerdote, e, por­que existia dúvida naquela etapa eram encerradas (50) por uma semana. Mediante novo exame, a roupa era declarada imunda se o mofo ou o míl­dio tivesse se espalhado, e era queimada. Se o mofo parecia que já não crescia mais, o artigo era lavado e encerrado por outra semana. Depois daquele período, o sacerdote fazia ainda outro exame, e se descobria que o mofo ou o míldio não tinha mudado de cor, condenava a roupa como sendo imunda, ainda que o crescimento fungoso não tivesse se espalhado. Nestas condições, a ferrugem tornaria imundo qualquer arti­go, e tornaria necessário que fosse queimado. Se a área afetada da rou­pa parecia ter cor mais fraca após a lavagem, aquela parte poderia ser arrancada e o restante do artigo conservado. Se, porém, o mofo volta­va a ocorrer, a roupa inteira era obviamente infectada por corpos bacteriais, e tinha de ser destruída (57).

59. O versículo final recapitula o tema do capítulo (“praga da le­pra”, 13:2) com referência às leis da pureza e da impureza. O sacerdo­te estava fornecido com as informações necessárias, que ele sem dúvida passaria adiante para o povo como parte dos seus ensinos sobre a vida na aliança, embora não receba aqui instruções para assim fazer. Sua preocupação principal é conservar a unicidade espiritual do povo da ali­ança, e um dos aspectos da sua separação para Deus envolvia um modo de vida distintivo. Este era caracterizado por uma ênfase sobre a santi­dade, que tinha dimensões práticas bem como éticas e espirituais. A se­paração da contaminação física era tão importante para os israelitas quanto a observância escrupulosa dos regulamentos para os sacrifícios.

A lei não fazia distinção alguma entre o bem-estar físico e a vita­lidade espiritual, exaltando um às expensas da outra, mas, sim, exigia que o verdadeiro israelita fosse uma pessoa integrada cuja espiritualida­de envolvesse todas as áreas da vida. A santidade, portanto, era expres­sada de modo negativo no evitar daquelas coisas que possam contami­nar uma pessoa, e positivamente na concentração da personalidade num relacionamento com Deus que era marcado pela obediência e pela fé.

A não ser que os dois aspectos da santidade estivessem sendo ostentados, os israelitas não poderiam esperar que Deus habitasse no meio deles, pois Sua presença era incompatível com a impureza de qualquer tipo. A vida cristã faz estas mesmas exigências do crente, com a diferença adicional de que a contaminação pode resultar do motivo bem como do ato (Mt 5:28; 15:19-20). A busca da santidade sob a orientação do Espírito Santo de Deus é obrigatória para o cristão crescer verdadeiramente na plenitude de Cristo.






[1] Cf. C. J. Vos, Woman in Old Testament Worship (1968), págs. 62-69; K. Eiliger, Leviticus (1966), págs. 167-168. 


[2] E.g. R. G. Cochrane, Biblical Leprosy: A Suggested Interpretation (1961), pag. 3; S. G. Browne, Leprosy in the Bible (1970), pags. 5-6; J. Wilkinson, Scottish Journal of Theology, 31, 1978, pags. 153-166. 


[3] Cf. E. V. Hulse, Palestine Exploration Quarterly, 107, 1975, págs. 96­97, 100. 


[4] R. K. Harrison em C. Brown (ed.), O Novo Dicionário Internacional de Teologia do Novo Testamento, (1983, Edições Vida Nova), art. Lepra, vol. 3. 


[5] N. H. Snaith, LeviticusandNumbers (1967), pág. 98.