15 de janeiro de 2017

R. K. HARRISON -Diferenciando animais limpos e imundos

harrison danilo moraaes antigo testamentoDIFERENCIADOS OS LIMPOS E OS IMUNDOS 

Esta seção trata das questões da vida diária, que teriam uma aplicação importante à pureza cerimonial. Para os hebreus antigos, serem santos, distintivos e sacerdotais no seu caráter não era um ideal abstrato, mas, sim, uma realidade que podia ser atingida, que tinha dimensões práticas na vida de todos os dias. A lei, portanto, ofe­rece diretrizes pormenorizadas para o benefício da comunidade, de tal maneira que todas as formas possíveis de contaminação possam ser evi­tadas.

a. Espécies limpas e imundas (11:1-47)

Visto que o alimento é básico para a sobrevivência humana, é natu­ral que as considerações dietéticas apareçam em primeiro lugar nas ques­tões práticas. A determinação daquilo que é puro ou impuro não re­presenta o acúmulo da sabedoria folclórica, mas, pelo contrário, é rece­bida diretamente de Deus por Moisés. Como tais, estes estatutos estão revestidos do mesmo tipo de autoridade que os regulamentos sacrificiais. Se é que a nação há de ser um reino de sacerdotes e um povo santo, a observância destas regras dietéticas é obrigatória.

1-4. A lista começa numa nota positiva, e trata daquilo que é permissível como alimento entre os animais terrestres. É enunciado um princípio simples que qualquer pessoa pode aplicar, a saber: qualquer animal que tem as unhas completamente fendidas e que rumina, é apro­priado para o consumo humano. Qualquer outro mamífero é imundo, e não deve ser comido. Esta regra é um substituto compreensivo para a enumeração algo mais detalhada das espécies na matéria coresponden­te Deuteronômio 14. A fim de eliminar os casos incertos, a lei declara que se um animal tiver apenas uma das duas exigências declaradas, não se deve comê-lo. Destarte, o camelo é excluído, porque não tem unhas completamente fendidas, pois tem uma almofada de tecidos em baixo que lhe dá tração excelente na areia, mas que impede o animal de ter unhas completamente fendidas.

4-8. Outros animais declarados imundos desta maneira são o arganaz, a lebre e o porco. Concorda-se geralmente que o arganaz é Hyrax syriacus, um animal de cerca do tamanho de um coelho, que tem almofadas macias nos seus pés, que o capacitam a pular com segurança entre as rochas. Seus queixos se movimentam de maneira atravessada quando está comendo, o que dá a impressão que está mastigando, em­bora não seja um ruminante legítimo. O camelo é um ruminante, mas, conforme foi notado supra, é proibido por outros motivos. De acordo com alguns especialistas, a carne de camelo não apetece, por ser seca e dura, embora seja alegadamente estimada por algumas tribos beduínas. A lebre poderia ser qualquer um de vários membros da família Li-dae, talvez Lepus syriacus, que ocorria no norte da Palestina, ou possi­velmente Lepus europaeus connori,[1] sendo que estes dois se asseme­lham à lebre europeia. Como no caso do arganaz, o movimento do quei­xo da lebre sugere uma ruminação (Heb. “trouxe para cima”), mas, não é um ruminante verdadeiro. Embora o coelho não tenha um estômago em quatro partes, mesmo assim, pode fermentar a comida. Ao ingerir seu próprio esterco mole, aumenta seu equilíbrio de nitrogê­nio e proteína, e, ao mesmo tempo, adquire sódio e potássio adicionais. O processo de ingestão fornece ao coelho 100% a mais de riboflavina, 80% a mais de niacina, 160% a mais de ácido pantotênico, e um pouco além de 40% a mais de vitamina B12. A classificação destes animais se­ria empírica mais do que científica, mas serviria o propósito para o qual era destinada.

O porco era outro quadrúpede que não satisfazia as exigências para a limpeza. Este animal era conhecido e criado na Mesopotâmia desde 2500 a.C., no mínimo, sendo que a respectiva espécie era, mais prova­velmente, a Sus scrofa. Restos desta variedade também foram recupera­dos nos níveis da Idade da Pedra das cavernas no Monte Carmelo. Este animal, o javali, era o antepassado do porco doméstico, e era um dos animais de escol nas caças na Mesopotâmia na Idade do Bronze. O porco doméstico parece ter sido criado primeiramente no Egito durante o pe­ríodo do Reino Antigo (c. de 2700-2200 a.C.), embora o javali pareça ter sido conhecido desde os tempos neolíticos. Ossos de porcos recu­perados dos níveis mais antigos de Gezer indicam que o animal era criado e comido pelos colonizadores neolíticos ah. As escavações noutros lo­cais da Palestina tomam claro que os sucessores da população pré-semíti­ca incluíam suínos entre seus animais domésticos.

Parece haver duas razões principais porque os porcos eram criados no Oriente Próximo antigo. A primeira é que quando os animais eram soltos nas áreas arborizadas para procurarem alimentos, escavavam de­baixo da superfície do solo na sua procura de raízes e sementes comes­tíveis, e ajudavam, desta forma, os colonizadores antigos a abrir o terre­no. A segunda, que é de importância ainda maior, é que o porco con­seguia digerir e transformar em carne os tipos de matéria vegetal que outros animais achavam incomestíveis. Destarte, o porco era uma fonte valiosíssima de proteína, visto que chegava à maturidade dentro de um período mais curto do que a maioria dos demais animais. Parece ter havido apenas um uso limitado para o couro dos porcos na antiguidade de modo que fica evidente que o animal era valorizado por cau­sa da sua carne.

Um santuário subterrâneo em Tell el-Far‘ah (séculos XVIII a XVI a.C.) continha certo número de ossos de porcos que evidentemente ti­nham sobrevivido dos ritos sacrificiais. Talvez os adoradores estives­sem sendo influenciados por práticas babilônicas, onde a carne do por­co era considerada como sendo sagrada, e, portanto, somente pode­ria ser comida em certas ocasiões festivas. Uma prática semelhante pare­ce ter sido o costume entre os egípcios antigos também. Embora os os­sos do porco não possam ser usados como implementos de qualquer ti­po, alguns ossos perfurados foram descobertos em Taanaque e também de Megido. Para explicar a presença deles, tem sido sugerido que ou eram usados nos ritos cananeus de adivinhação, ou eram usados como amuletos para conferir àquele que os usava certo grau de proteção. O que parece ter sido uma tentativa deliberada de profanar os cadáveres dos hebreus mortos numa batalha veio à luz quando foi escavado o en­costo noroeste de Laquis. Uma batalha fora travada ali, na qual entre 1500 e 2000 soldados foram mortos, ou pelos assírios em 701 a.C. ou num período subsequente sob o domínio dos babilônios. Os cadáveres tinham sido colocados em túmulos existentes, e quantidades grandes de ossos de animais, predominantemente os de porcos, foram jogados em cima deles, evidentemente como um ato de profanação.

A razão porque as regras acerca da carne pura e impura foram es­tipuladas da maneira em que aparecem na Torá tem sido um tópico para discussão durante muitos séculos. Os animais limpos e imundos como tais eram distinguidos até mesmo antes do dilúvio. (Gn 7:2-3, 8-9), mas somente em Levítico 11 e Deuteronômio 14 é que as várias espécies eram especificadas. A preocupação na presente seção, entre o limpo e o imundo, é com aquilo que pode ser comido como alimento sem incorrer dano ou penalidade. O propósito dos regulamentos tem sido considera­do por vários autores de três maneiras distintas. A primeira via a intenção das diretrizes como sendo um esforço consciente para evitar na vida israelita qualquer semelhança com os ritos sacrificiais pagãos tais como aqueles que se associavam com o consumo da carne do animal na Mesopotâmia, no Egito ou em Canaã.[2] Se este foi o único propósito da di­ferenciação entre as espécies limpas e imundas, não é mencionado em lugar algum nas narrativas, nem sequer é subentendido de qualquer ma­neira, visto que as considerações dietéticas, mais do que as sacrificiais, são a preocupação predominante da passagem. Além disto, semelhante modo de entender não explica por que o novilho, um aspecto destacado dos ritos religiosos pagãos no Egito e em Canaã, não era proibido aos is­raelitas.

O segundo propósito sugerido para a legislação conforme ela tem sido preservada é a separação dos israelitas nas questões dietéticas bem como éticas e espirituais, presumivelmente tendo em vista o relaciona­mento entre uma e outra. A aderência a um regime especial de dieta já há milhares de anos tem se constituído em marca de distinção entre pes­soas religiosas, e até mesmo na sociedade moderna confere algo de uma categoria especial sobre um indivíduo, conforme têm plena consciência muitos aderentes de “planos de dietas.” Ser proibidos de deliciar-se com certos alimentos por causa de considerações religiosas enfatizaria para os israelitas a necessidade de obedecerem implicitamente as diretrizes de Deus, ao passo que reforçava nas suas mentes a convicção de que eram distintivos como o povo de Deus. Esta categoria espiritual lhes fornece­ria uma oportunidade para testemunhar da natureza da sua fé, se alguém fosse perguntar acerca da base lógica do seu comportamento. Na práti­ca, esta última consideração nunca foi mais do que uma possibilidade no período pré-exílico, visto que a conformidade aos modos cananeus de vi­ver ao invés da evangelização do Oriente Próximo pagão revelou ser a di­reção que geralmente era seguida. Mesmo quando a qualidade distintiva foi restaurada à nação no período pós-exílico, as energias espirituais do povo pareciam ser concentradas para dentro, na perpetuação de uma so­ciedade governada pela lei mosaica, e não externamente, na tarefa pro­fética mais ampla de ser uma luz espiritual para as nações.

Uma terceira explicação do significado da distinção entre limpo e imundo tem a ver com considerações especificamente higiênicas e die­téticas. Esta abordagem às vezes é depreciada como sendo uma reflexão da preocupação ocidental atual com questões da saúde pessoal, mas visto que a passagem em consideração trata exclusivamente da carne que pode, ou não, ser comida como alimento, as questões que dizem respei­to a assunto de higiene e dieta são obviamente de grande importância aqui. Conforme esta abordagem, os animais limpos são comparativa­mente seguros como fontes de alimentos, ao passo que os impuros devem ser evitados por causa da possibilidade de que sua came transmitisse in­fecção. Estas preocupações têm sido amplamente justificadas por estu­dos subsequentes na área geral da medicina preventiva. Foi descoberto, por exemplo, que a lebre e o arganaz levam no fluxo sanguíneo um ví­rus que, ao ser ingerido por seres humanos, pode resultar numa doença chamada tularemia. Coelhos e especialmente lebres norte-americanos re­velaram-se portadores do vírus, cujas consequências patológicas incluem resfriados, febres, o mal-estar geral, e glânculas inchadas. Por si mesma, não é uma doença fatal, mas é certamente debilitante, e se for complicada por outras enfermidades, pode muito bem ter um resultado sério.[3]

Comparativamente pouca coisa se sabe acerca do efeito da carne do camelo sobre o corpo humano, à parte do fato de que é supostamente pouco aceitável ao paladar de muitos ocidentais que a tenham comido. O leite da camela, como o doutros animais lactentes, era uma fonte valio­sa de nutrição na Idade de Bronze Média (cf. Gn 32:15), mas mesmo nes­te caso seria necessário para o leite ser drenado em vasilhames limpos e ser bebido antes de azedar-se, senão, poderia causar grandes distúrbios no sistema digestivo, especialmente no caso das crianças.

Como possível fonte de alimento, no entanto, era o porco que apresentava a maior ameaça à saúde. Sabe-se agora que o porco é o hos­pedeiro intermediário para vários organismos parasíticos, alguns dos quais podem resultar na infestação por solitárias. Uma destas solitárias, a Tae­nia solium, cresce até atingir cerca de 2,5 m. de comprimento, e é achada na carne de porco mal cozida que contém o organismo Çysticercus cellu­losae. Uma complicação desagradável desta condição ocorre quando nó­dulos se formam no cérebro e produzem crises que se assemelham à epi­lepsia.

Outro agente de infecção, a Trichinella spirilis, é um pequeno or­ganismo que ocorre em carne ou salsichas de porco, cruas ou mal cozidas. A doença que resulta deste agente é a triquinose, e é marcada inicialmente pela febre, por distúrbios gastro-intestinais e um mal-estar geral. Numa etapa mais desenvolvida, ocorrem o edema do rosto e dos membros infe­riores, mudanças na contagem das células brancas do sangue, a urticária, e dores em vários músculos. Se a enfermidade avançar para a etapa encap­sulada, inchações pequenas, com formato de nós, formam-se nos mús­culos e provocam um mal-estar considerável. Ainda outra doença que é o resultado de comer carne de porco, ou seus produtos, impropria­mente preparada, foi descoberta em anos recentes. É chamada toxoplasmose, e se assemelha à pneumonia, sendo o resultado da infecção por um organismo vigoroso que se acha em forma de cisto e resiste o congelamento, a ação dos sucos gástricos, e a gama normal das tempera­turas de cozimento.

À parte da possibilidade de receber uma intoxicação por causa de comer came de porco, não é incomum certas pessoas terem reações alérgicas depois de ingerir came de porco ou seus sub-produtos. Ima­ginar que os métodos modernos de cozinhar eliminaram o risco de tais infecções, de modo total, é enganar-se. O fato é que não há nenhuma temperatura “segura” em que a came de porco possa ser cozinhada pa­ra garantir que os organismos parasíticos sejam mortos,[4] e mesmo se o cozimento prolongado fosse empreendido, geralmente tomaria a carne dura e sem sabor. Nem sequer podem os métodos ocidentais de abater porcos garantir que a carcaça seja segura para o consumo humano, visto que o organismo da toxoplasmose, por exemplo, sobrevive sem dificulda­de aos procedimentos higiênicos preceituados pelas várias leis sobre pro­dutos alimentícios. Às vezes sustenta-se que os porcos silvestres são muito menos passíveis do que os domesticados de ser hospedeiros inter­mediários de corpos parasíticos, mas, na melhor das hipóteses, este é um julgamento bastante empírico, e não é digno de confiança na prática. É interessante que o fígado do porco é o único tipo de fígado animal a estar completamente livre de germes, e, desta maneira, é a única parte do porco que é suficientemente segura para os seres humanos comerem.

A separação entre as carnes limpas e as imundas não deve ser enten­dida no sentido de subentender que os ruminantes verdadeiros estejam completamente livres de organismos parasíticos. Destarte, o boi é o hos­pedeiro intermediário de uma tênia chamada Taenia sagimta, que tem cerca de 2000 segmentos e que pode crescer até 6 m. de comprimento. A ênfase sobre o não tocar em cadáveres (8) dos animais imundos é mui­to importante para o viver higiênico. A transmissão da infecção dos animais em putrefação mediante o contágio é razoavelmente óbvia, mas às vezes vermes parasíticos podem ser adquiridos por causa de nada mais sinistro do que o estreito contato com alguns animais, inclusive os por­cos. Nesta conexão, estes últimos são hospedeiros intermediários de uma solitária pequena, a Echinococcus Granulosus, que numa forma de larva ou cisto, resulta em tumores pequenos no cérebro, nos pulmões e nou­tros órgãos.

9- 12. As espécies marítimas também devem ser diferenciadas em termos de limpas e imundas, como no caso dos animais, de modo que os israelitas soubessem qual delas era permissível como alimento. As espé­cies limpas são aquelas que têm barbatanas e escamas, quer estas espécies ocorram na água salgada ou na água doce. As variedades limpas mencio­nadas usualmente nadam em várias profundidades da água, ao passo que as espécies imundas tendem a ter seu habitat na água rasa. Os peixes imundos incluiriam os crustáceos comestíveis, tais como a lagosta, o caran­guejo, camarões e espécies semelhantes que se alimentam da carne putreficada quando acontece estar disponível, e podem facilmente transmitir infecções.[5] Algumas das advertências feitas supra acerca das carnes lim­pas são apropriadas aqui também. Por mais cuidadoso que alguém seja ao preparar e servir os crustáceos comestíveis, não pode haver garan­tia alguma de que este alimento não venha a produzir tais efeitos preju­diciais como reações alérgicas de vários graus de severidade, ou até mes­mo complicações mais sérias envolvendo intoxicação alimentar ou infes­tação parasítica. Até mesmo as espécies “limpas” de peixes são apenas relativamente limpas, visto que solitárias podem ser ingeridas ao comer variedades cruas ou imperfeitamente cozidas. Destarte, a solitária para­sítica Diphyllobothrium Latum frequentemente cresce até um compri­mento de 24 m., tendo até 3.000 segmentos, e o organismo que transmi­te a infecção ocorre em muitas espécies de peixes, limpos e imundos igualmente. Mesmo assim, se várias espécies de peixes formam parte da dieta, aquelas com barbatanas e escamas apresentam o menor risco poten­cial à saúde. Mais uma vez, a diferenciação é empírica, mas, mesmo as­sim, é admiravelmente apropriada para as necessidades daqueles para as quais os regulamentos foram feitos e que, como grande número de pes­soas modernas, dificilmente distinguiriam uma variedade de peixe de outra. Destarte, o reconhecimento das espécies proibidas simplesmen­te pela vista, capacitaria os israelitas a terem saúde de corpo e pureza em questões cerimoniais ou rituais. Os efeitos do contato com peixes mortos e putrefatos não eram de natureza contaminante, conforme os contatos com os cadáveres de animais imundos. Talvez isto fosse porque o sangue não era envolvido em qualquer grau relevante.

13- 20. Uma lista de aves imundas é dada para a orientação do po­vo (cf. Dt 14:11-18), e menciona pelo nome algumas espécies, bem co­mo aves individuais. Muitas daquelas que foram mencionadas eram aves de rapina, ou aves que se alimentavam de carne putrefata. A águia era mais provavelmente o poderoso abutre fusco (Gyps fulvus L.), uma ave de aparência distinta, tendo a cabeça coberta de penugem de cor de cre­me que lhe dava um aspecto de calva. O quebrantosso e a águia marinha (ou águia-pescadora) eram espécies relacionadas entre si, sendo o primei­ro nome uma forma obsoleta do último. NEB tem “abutre negro” e “abutre barbudo” respectivamente, ao passo que JB tem “grifo” e “águia- pescadora”. Duas espécies de milhano, uma variedade vermelha e uma preta, eram conhecidas na Palestina antiga, mas eram principalmente migratórias. Até dez espécies de falcão também existiam ali nos tem­pos bíblicos. O avestruz (NEB “coruja dos desertos”) é mais corretamen­te traduzido “coruja” (assim AV) visto que uma ave de rapina parece ser indicada, embora os avestruzes fossem vistos frequentemente no Oriente Próximo antigo, e fossem caçados com afã.[6] A coruja (NEB “coruja de orelhas curtas;” JB “Mocho”), uma ave de identificação in­certa, provavelmente era uma espécie de coruja, ao passo que a gaivota pode ter sido a coruja de orelhas longas (assim NEB). O mocho do v. 17 era provavelmente a coruja parda (NEB), ao passo que corvo marinho (NEB “coruja pescadora”) parece ser uma interpretação razoavelmente correta de um termo algo obscuro. Fica claro que há alusão a uma ave que pescava nos pântanos ou ao longo da praia do oceano, visto que é agrupada com outras aves dos pântanos tais como a íbis (AV “coruja grande;” NEB “mocho”), a galinha d’água (ARA gralha; AV “cisne”; NEB “coruja pequena”) e o pelicano, sendo esta última uma ave que migrava anualmente para a Palestina do seu habitat do inverno, na África central. A cegonha (Gconia albaj era outra migrante familiar, assim co­mo a garça (NEB “corvo marinho”), da qual havia várias espécies. A poupa (AV “ventoinha”) era conhecida na Palestina desde os tempos an­tigos, e sua aparência elegante contrastava-se nitidamente com as condi­ções insanitárias que marcavam seu lugar de nidificação. O morcego foi incluído no fim da lista das aves, embora tecnicamente fosse um mamífero. Cerca de vinte espécies deste bicho têm sido achadas na Palestina. Deve ser lembrado que parte da terminologia desta lista é bem obscura, na melhor das hipóteses, e, portanto, algumas das traduções são, compreensivelmente, conjeturas e possivelmente bem errôneas.

20-23. Os insetos alados imundos não foram especificados con­forme a maneira dos mamíferos e das aves, mas, sim, foram classifica­dos pela descrição daqueles que andam sobre quatro pés. Esta frase di­ficilmente pode ser uma descrição dos insetos como sendo dotados de quatro patas, visto que as Insectae, como classe, normalmente têm seis patas. A referências, evidentemente, diz respeito aos movimentos deles, que se assemelham ao engatinhar ou ao correr dos animais de quatro patas. Os insetos limpos são membros do grupo Orthoptera, e podiam ser identificados pelas pernas traseiras com juntas, que são mais longas que as demais, e que capacitam o inseto a pular livremente (21). É mui­to difícil identificar as espécies mencionadas aqui, embora alguns tradu­tores tentem a tarefa. Destarte, JB diz: “locusta migradora, locustas solham, hargol e hagab”, sendo que estes três últimos termos ligeramente transliteram o Hebraico. O gafanhoto devorador (NEB “de cabeça lon­ga”) talvez pertença á espécie Tryxaline, que tem cabeça longa e lisa que dá a aparência de calvície. O grilo (AV “bezouro”; NEB “locusta ver­de”) não é de fácil identificação, mas, juntamente com o gafanhoto (NEB “locusta do deserto”) parece ser alguma variedade de locusta.

Todos os insetos que não saltavam porque não possuíam as per­nas traseiras alongadas da família das locustas deviam ser considerados detestáveis. Este grupo imundo incluiria todos aqueles insetos que se alimentavam de esterco, lixo ou de carne putrefata e, portanto, eram transmissores em potencial de doenças.

Como alimento, há milhares de anos as locustas estão sendo comi­das no Oriente Próximo. Uma cena de um banquete real do palácio de Assurbanipal (c. de 669-627 a.C.), o último grande rei assírio, retra­ta servos trazendo locustas espetadas em varas para os convidados come­rem. Algumas tribos africanas modernas derivam boa parte da sua pro­teína de locustas cozidas, torradas ou pulverizadas, e os insetos ainda podem ser achados nos bazares dalguns países árabes, com as asas remo­vidas e prontos a serem comidos. Embora sejam um pouco deficientes quanto ao teor de vitaminas, as locustas contêm acima de 50% de pro­teína, e até 20% de gordura, juntamente com sais minerais e algumas calorias. Os pobres, ou os eremitas do deserto tais como João Batista (Mt 3:4), poderiam desfrutar de uma dieta razoavelmente equilibrada ao comerem locustas como também mel. Deve ser observado mais uma vez que estas regras que dizem respeito às espécies limpas e imundas têm em vista primariamente as considerações dietéticas, e o caráter simples, embora inteiramente racional das regras capacita aqueles que têm fami­liaridade com elas a reconhecerem bem prontamente os tipos danificantes de alimentos em potencial.

24-28. A imundícia causada pelo contato com animais mortos (cadáveres) é a questão em pauta aqui, visto que trabalhar com animais tais como camelos que eram impróprios para alimento não resultava em imundícia. Qualquer pessoa que se tornasse imunda por tocar nos ca­dáveres de animais imundos tinha de lavar as suas vestes e permanecer imunda até ao entardecer, quando, então, começava um novo dia. Na­quela ocasião, lavaria seu corpo também, e até que tivesse feito assim, não poderia participar do culto no tabernáculo ou em quaisquer ritos sacrificiais pessoais. As roupas que tinham estado em contato com tais cadáveres também tinham de ser lavadas, pois elas também estavam imun­das. Claramente a legislação visa o controle da doença por meio de redu­zir ao mínimo a possibilidade da infecção por germes, vírus, e outros organismos que possam ser associadas com cadáveres animais em putre­fação. Esta é uma precaução especialmente importante para a saúde em climas tropicais e semitropicais, e é típica das ênfases profiláticas dos regulamentos mosaicos para a saúde.

A atenção a situação de bem-estar físico do cristão é questão de certa solicitude da parte deste, se para ele o corpo realmente é o templo do Espírito Santo (1 Co 6:19). Ainda mais desejável é a necessidade do crente estar livre de obras mortas para servir ao Deus vivo (cf. Hb 9:14). Um exemplo célebre dalguém que tocou o cadáver de um animal que anda nas plantas dos pés (nas patas) (27) é visto em Juízes 14:8-9. Tais animais eram impróprios para alimento quando tinham vida, e produziam imundícia ritual se fossem tocados depois de mortos. Os gatos e os cachor­ros seriam classificados neste título e, portanto, seriam comidos somente nas condições de privação máxima, e talvez nem nestas circunstâncias. Não há referências a gatos na Escritura, e, como consequência, é difícil estimar até que ponto os gatos eram domesticados pelos hebreus. Tais animais, eram um aspecto popular da vida do Egito antigo, no entanto, e ás vezes seus donos os usavam como passarinheiros nas caças nos pân­tanos de papiro. A deusa egípcia, Bastete, usualmente representada na forma de uma gata, pode originalmente ter sido uma leoa, e não uma gata mansa, como seu animal cultual.[7] Embora os cachorros fossem domesticados num período comparativamente antigo, especialmente no Egito, eram geralmente desprezados como proscritos e animais imun­dos nos tempos bíblicos. Sendo selvagens, famintos e implacáveis por natureza, viviam procurando carniça e andando em derredor para achar alguma presa. Das quarenta e tantas referências a cachorros nas Escri­turas, poucas são corteses, e nenhuma é lisonjeadora (cf. SI 22:16; 59: 6; Is 56:10-11; Jr 15:3; Ap 22:15). .

29-38. Além dos insetos detestáveis dos vv. 20-23, vários tipos de criaturas que rastejam ou enxameam são descritos especificamente co­mo imundos como alimento quando vivos, e imundos ao toque quando mortos. Assim como ocorre com os insetos, há problemas de identifi­cação, mas de modo geral, a lista parece ser aquela dos répteis, com al­gum roedor incluído. A doninha (JB “toupeira”) talvez seja corretamen­te identificada, visto que tais animais eram comuns na Palestina antiga, ao passo que o rato (NEB “gerbo”) é mais provavelmente a ratazana, e assim é traduzido em JB. O lagarto (AV “tartaruga”; LXX “crocodilo terrestre”; NEB “lagarto de cauda espinhuda”) era talvez alguma espé­cie de lagarto ou lagartixa, ao passo que o crocodilo da terra (NEB “geco da areia”) era, sem dúvida, outra entre as numerosas variedades de lagarto. O camaleão (30) era bem conhecido na Palestina antiga, e se a tradução for correta, esta é a única referência a ele na Escritura. •

Estes animais, quando mortos, tornam imunda qualquer coisa em que tocam, e tais artigos ou objetos devem ser enxaguados para remo­ver quaisquer impurezas, e devem ser considerados imundos até o entar­decer, sendo que até então quaisquer organismos infecciosos devem ter sido dissipados com o processo de secagem e exposição à luz do sol. Se um vaso de barro fosse contaminado pela presença de um animal ou rep­til, devia ser quebrado, visto que seria muito difícil remover todos os germes da superfície, especialmente se esta última não era vitrificada. Não pode haver dúvida de que os fatores de higiene sejam as únicas con­siderações aqui, visto que uma variedade de doenças sérias poderia ser propagada por vasilhas ou comida infetadas ou contaminadas. O rela­cionamento bíblico entre a saúde física e espiritual nem sempre é notado nem seguido pelo cristão. Para melhor fazer o trabalho de Deus, e para ser um exemplo do poder de Cristo para salvar e curar, o crente deve aumentar ao máximo o potencial do corpo e do espírito, o que requer cuidadosa atenção aos dois aspectos da personalidade humana.

Até mesmo equipamentos da cozinha (35), tais como fornos e fo­gareiros, eram tornados imundos pelos cadáveres das espécies imundas. O fogareiro (Heb. kirayim), ou fogão, era de barro, com dois comparti­mentos em que vasilhas para cozinhar podiam ser colocadas. A única exceção às regras acerca da contaminação consistiam na fonte ou cister­na (36), sendo que esta última era um recipiente artificialmente construí­do para o suprimento da água doméstica. Numerosos exemplares têm si­do recuperados de localidades na Palestina, e indicam que já na Idade de Ferro as cisternas eram revestidas de reboque. Estruturas semelhantes também eram usadas para o armazenamento subterrâneo de grãos. A le­gislação estipulava que onde a água se coletava naturalmente, não era poluída pelos cadáveres de espécies imundas de animais ou insetos, em­bora qualquer pessoa ou objeto que tocava o cadáver era assim tornado imundo. Presume-se que o fato de que tal água estaria num estado ra­zoavelmente contínuo de movimento, dissipando assim quaisquer fontes de infecção potencial ou real, explicaria esta exceção a um regulamento que, de resto, é muito rigoroso e altamente desejável. A semente que estava pronta para ser semeada não era poluída quando estava em conta­to com os cadáveres de espécies imundas, posto que a semente permane­cia seca. Se ficasse molhada enquanto estava contaminada, ficaria imun­da, porque a umidade, seja a água ou dalguma excreção do agente po­luente, agiria como veículo para a infecção.

39-41. O contato com os cadáveres de animais limpos que ti­nham morrido de causas naturais também era proibido, senão o resul­tado seria a contaminação temporária. Comer carne, que era assim po­tencialmente perigosa, era rigorosamente proibido para os israelitas por razões cerimoniais (Dt 14:21), embora fosse perfeitamente permissível para forasteiros e estrangeiros comprar e consumir semelhante carne se assim desejassem.

42-45. Esta seção comenta mais sabre os regulamentos dietéti­cos dosvv. 1-23, e aumenta a classe de enxame de criaturas, para in­cluir insetos, cobras, lagartos, minhocas, lagartas, e similares. Todos es­tes seriam bem conhecidos aos israelitas e, portanto, cuidado extremo era necessário para evitar a contaminação. A base lógica destas leis a respeito da limpeza e da imundícia agora fica sendo explícita. Os isra­elitas são proibidos de ter qualquer contato com qualquer coisa que os tornasse impuros. Pelo contrário, deviam concentrar-se numa aborda­gem positiva à vida, cujo aspecto principal era uma tentativa consciente de imitar a santidade do Deus da aliança. De um modo caracteristicamente proposicional, o Senhor informa Seu povo acerca do Seu alto caráter moral e ético, e exige que os israelitas se consagrem, à altura des­te fato, ao Seu serviço. Lembra-os, também, da grande libertação que Ele conseguiu para eles na ocasião do êxodo, e torna claro que os israeli­tas devem ser um corpo distintivo espiritual, do qual Ele é a cabeça indisputada. A santidade, portanto, deve ser a divisa da vida pessoal e na­cional igualmente.

Embora estas leis entrem em muitos pormenores a respeito da exis­tência diária do povo de Deus, também têm um propósito espiritual. Demonstram que todos os aspectos da vida entram dentro da jurisdição de Deus, visto que Ele tem solicitude com o bem-estar tanto material quanto espiritual dos Seus seguidores. Não há, portanto, qualquer por­menor da vivência de todos os dias que é pequeno demais para ser regu­lado pela vontade de Deus (1 Co 10:31). Tornar-se santo envolve uma submissão completa da personalidade total à obra santificadora do Espi­rito Santo. A santificação não pode ser adquirida mediante o contato periódico com objetos “sagrados”, mas, sim, é essencialmente uma ques­tão do crescimento espiritual pessoal, o que requer grande dose de es­forço consistente. Mas o mesmo Deus que livrou do Egito Seu povo antigo, e que ressuscitou Cristo dentre os mortos, pode revestir o cris­tão de poder para seguir uma vida de santidade como membro daque­la grande comunidade da qual Jesus é a cabeça (cf. Ef 1:22; 4:15; Cl 1:8). Traduzir estes conceitos espirituais altaneiros em vida quotidiana envolve naturalmente a distinção entre o limpo e o imundo, bem como uma ênfase positiva sobre o bem-estar individual, segundo dispõem os estatutos dietéticos. O povo de Deus deve ser visto como sendo distin­tivo no seu modo de viver, e tão livre quanto possível de qualquer po­luição maligna do corpo ou do espírito.

46-47. Estes versículos resumem o propósito da legislação em dois títulos principais, e, até certo ponto, relembram um colofão por­que o “título” do capítulo (“Os animais que se podem comer”) é re­petido no v. 47, fazendo com que o capítulo inteiro seja uma unidade legislativa completa. O caráter profilático dos estatutos higiênicos é sem igual no mundo antigo, e os princípios subjacentes formam uma parte importante da prática médica preventiva moderna.






[1] F.S. Bodenheimer, Animal and Man in Bible Lands, págs. 47-48. 


[2] Cf. M. Noth, The Laws in the Pentateuch and Other Studies (1966), pags. 56 ss. 


[3] Para uma descrição de uma epidemia de tularemia em Vermont, EEUU, em 1S68, ver L. S. Young et. al., The New England Journal of Medicine, Voi. 280, N° 23,1969, págs. 1253-1260, e a bibliografia acompanhante. 


[4] O autor certa vez teve um estudante cujo filho adolescente ficou com uma tênia. A investigação exaustiva revelou que o organismo infetante teve sua ori­gem numa lata de uma marca bem conhecida (norte americana) de ombro de porco cozido. Este produto tinha sido processado em condições corretamente controladas a altas temperaturas, mas até mesmo estas precauções foram insuficientes para matar o organismo parasitico presente na carne. 


[5] A bilharzíase (esquistossomose urinária), embora fosse conhecida entre as culturas ribeirinhas egípcias e outras do Oriente Próximo desde um período re­moto, tornou-se uma ameaça especial para a saúde no Egito desde a construção da barragem superior de Assuã. Esta doença é adquirida ao comer caracóis infectados e beber água contaminada pelos trematódeos (fascíolas). Antes da construção da bar­ragem, o fluxo e refluxo do Nilo limpava os canais de irrigação e liqüidava periodica­mente os caracóis infectados. Agora, permanecem em água estagnada durante a maior parte do ano, e os camponeses que comem os caracóis estão muito mais ten­denciosos à infecção do que antes. A doença, que também é chamada esquistosso­mose, ocorre em formas que afetam o intestino e o sistema urinário, bem como o ba­ço e o fígado, de maneira dolorosa e incapacitante. 


[6] Cf. A. Parmalee, AH the Birds of the Bible (1959), pág. 141. 


[7] J. Cemy, Ancient Egyptian Religion (1952), pág. 25.