1 de dezembro de 2016

TREMPER LONGMAN III - As narrativas patriarcais Gênesis 12—36

danilo moraes tremper longman
As narrativas patriarcais Gênesis 12—36

Gênesis 1—11 apresenta o relato do mundo a partir da criação até Abraão. Esses onze capítulos concentram a atenção no mundo todo durante um período de tempo incrivelmente longo. O relato começa com seres humanos vivendo na presença de Deus e experimentando sua bênção. Prossegue com o relato trágico da ruptura daquela bênção. Mas a esperança continua existindo na incansável busca divina de um relacionamento renovado com suas criaturas humanas.

Com o início das narrativas patriarcais (que começam em Gn 11.27 com a introdução da toledot de Terá), o foco da narrativa passa a se limitar a um único indivíduo, e a velocidade do tempo narrativo também diminui. Aqui Deus inicia uma nova abordagem para alcançar a humanidade e restaurar sua bênção sobre os seres humanos. Ele escolhe um indivíduo por meio do qual alcançará o mundo.

Em resumo, Gênesis 1—11 é o preâmbulo de Gênesis 12 e do que vem em seguida. O relato da criação diz como Deus aben­çoa a humanidade com uma vida rica, ao passo que Gênesis 3—11 informa a respeito da ação humana deliberada de tumultuar o propósito divino. Também instila esperança no leitor, ao descre­ver a procura divina intencional por restaurar o relacionamento. Aliás, conforme expresso com muita propriedade por Gordon J. Wenham, “as promessas a Abraão renovam a visão que Gênesis 1 e 2 estabeleceu para a humanidade”.1

Três homens — Abraão, Isaque e Jacó — são os patriarcas de Israel, os quais Deus usa para estabelecer um povo dedicado ao seu serviço. Os filhos de Jacó, inclusive José, não são conside­rados patriarcas, como se pode ver na referência que, mais tarde, se faz ao “Deus de Abraão, Isaque e Jacó”. Essa distinção não minimiza a importância dos filhos de Jacó, que são os “pais” das doze tribos de Israel. Isso ajuda a explicar por que faço distinção entre as narrativas patriarcais e a história de José.

A narrativa de Abraão

Na condição de aquele a quem Deus escolheu, Abraão é o mais importante dos três patriarcas em termos de desenvolvimento e de uso teológico posterior.[1] [2] Abraão é o pai da fé, aquele com quem Deus, por sua escolha, entrou em aliança. A aliança começa com uma exigência: “Sai da tua terra, da tua parentela e da casa de teu pai e vai para a terra que te mostrarei” (Gn 12.1). Esse é quase como um segundo relato da criação. Em Gênesis 1, Deus, pelo poder da sua ordem, chamou o cosmo e também a humanidade à existência. Agora que o relacionamento divino-humano se rom­peu, ele volta a falar, desta vez a Abraão, a fim de criar um novo povo sobre o qual porá sua bênção.

Para entendermos a força dessa exigência, temos de saber algo sobre Ur e também sobre a terra para a qual Deus dirige Abraão. A cronologia bíblica situa Abraão na primeira metade do segundo milênio (ver cp. 6). Não temos condições de precisar a data em que Abraão esteve envolvido com a história daquela cidade, a qual se tornou turbulenta durante esse período. Entre­tanto, sabemos que Ur era uma cidade extremamente requintada (seus restos se encontram no Iraque). À época de Abraão, Ur já era uma cidade antiga, fundada pelos sumérios muitos séculos antes. Era o auge da civilização. No antigo Oriente Próximo ouvir falar de Ur tinha o mesmo efeito que ouvir falar, em nossos dias, de Nova Iorque, Londres, São Paulo ou algum outro centro importante de civilização. É verdade que, durante essa época, Ur foi destruída pelos bárbaros e, com isso, perdeu prestígio, mas provavelmente vamos pensar em Ur no apogeu. Em outras pala­vras, Ur é uma cidade difícil de se deixar para trás.

Por outro lado, Deus fala sobre “a terra que te mostrarei”. Embora inicialmente não seja especificada, logo se torna claro que aquela terra é Canaã, hoje conhecida como Israel ou Palestina. Comparada com Ur, Canaã era uma região menos desenvolvida. E certo que havia cidades importantes na época — Jerico, Gezer, Siquém e outras, as quais são conhecidas com base na arqueologia e também em textos extrabíblicos, mas não são nada quando com­paradas com Ur e as outras cidades do sul da Mesopotâmia. Por esse motivo, a decisão tomada por Abraão de deixar a cosmopolitana cidade de Ur implicou uma boa dose de confiança. Mas Abraão recebeu promessas, e elas eram impressionantes.

De ti farei uma grande nação, e te abençoarei, e te engrandecerei o nome. Sê tu uma bênção! Abençoarei os que te abençoarem e amal­diçoarei os que te amaldiçoarem; em ti serão benditas todas as famílias da terra. (Gn 12.2, 3)

É difícil aquilatar a importância dessas palavras para a teolo­gia bíblica. Em primeiro lugar, elas voltam o olhar para Gênesis 1—2, quando Deus abençoou Adão e Eva, colocando-os no jardim e lhes dizendo para serem frutíferos e multiplicarem-se e explorarem aquele lugar, mas devido ao pecado foram expulsos do jardim. Agora Abraão fica sabendo que terá numerosos des­cendentes e que eles voltarão a ter domínio sobre a terra e tam­bém serão tanto o recipiente da bênção divina quanto o veículo para sua transmissão a outros.

Essas promessas também olham para o futuro. Elas inspiram o enredo todo, não somente da narrativa de Abraão e do livro de Gênesis, mas do Pentateuco, do restante do Antigo Testamento e, aliás, da Bíblia toda. Aqui Deus promete que Abraão será uma grande nação, será abençoado e será uma bênção para outros.

A promessa de que Abraão será uma grande nação deixa implícitas duas coisas. Primeiramente, terra. Nações controlam território e possuem habitantes. E, desse modo, a promessa de que Abraão será uma grande nação deixa implícito que haverá descendentes — uma porção deles.

A segunda implicação da promessa diz respeito à bênção. À primeira vista, bênção parece um conceito bem amorfo. Sabe­mos que é boa. Afinal, o contrário é maldição, mas o que exata­mente ela envolve é um pouco mais difícil de determinar. A bênção de Deus sobre as pessoas envolve a consideração positiva que ele tem por elas, um desejo de ver que desfrutem as coisas realmente boas da vida. No que diz respeito a Abraão, a bênção certamente tem uma aplicação que volta à idéia de terra e descen­dentes. Ele os terá com abundância, e seus filhos serão eles pró­prios felizes e frutíferos. Quanto a Abraão ser uma bênção para as nações, Deus trará coisas boas para as nações pela mediação de Abraão. Neste texto não fica especificado como essas duas impli­cações gradualmente tomam forma, e isso gera suspense. Faz com que fiquemos virando as páginas para descobrirmos.

De fato, a pergunta inevitável sobre o resto da narrativa de Abraão tem a ver com a resposta dele diante das promessas. Espe­cificamente como Abraão irá reagir aos obstáculos que ameaçam o cumprimento das promessas? Abraão vai ou não revelar confiança na capacidade e desejo divinos de cumprir suas promessas? Quando nos voltamos para o restante do relato, vemos que Abraão tem uma estrada pedregosa à sua frente e se toma tanto um enco­rajamento quanto uma advertência para todos os que o lerem.[3]

A jornada de fé. Em obediência à ordem divina e em busca da promessa, Abraão deixa Ur e parte rumo ao oeste. No antigo Ira­que, viajar para o oeste exigia primeiro viajar para o norte, acom­panhando o rio Eufrates, a fim de dar a volta em torno da perigosa região desértica. A viagem toda leva mais de 1.700 km, mas, depois de viajar na direção noroeste por algum tempo, Abraão (acompa­nhado de Sara, Terá e Ló, respectivamente sua mulher, pai e sobri­nho, que era filho de seu falecido irmão Harã) pararam por algum tempo numa cidade chamada Harã. Não sabemos quanto tempo permaneceram em Harã, mas pode ter sido alguns anos. O sinal para prosseguir viagem foi a morte de Terá, que é descrito em Josué 24.2 como alguém que adorava deuses falsos.

Abraão, Sara e Ló viajaram rumo ao sul até a terra prome­tida. Quando chegam, não criam raízes profundas. Na verdade, nunca o fazem durante toda a sua vida. Para Abraão não é a hora de tomar posse da terra que lhe foi prometida. De fato, numa questão de uns poucos versículos (Gn 12.6-9) Abraão se mudou de Siquém para um local entre Betel e Ai e, finalmente, para bem mais ao sul, no Negueve. Em cada local ele erige um altar. Em suma, Abraão está erguendo monumentos a Yahweh por toda a terra prometida.

Aqui de novo os indicadores de tempo não são precisos, mas ficamos com a impressão de que, logo depois de sua chegada, a terra prometida se torna uma terra de fome. Ou seja, a terra não tem condições de sustentar a vida e Abraão tem de ir para o Egito, para sobreviver. Essa fome é a primeira ameaça ao cumpri­mento das promessas. Devemos nos colocar na posição de Abraão.

Nossa resposta à ordem de Deus se baseia em sua promessa. Vamos à terra e descobrimos que não é nada boa. Parece que Deus é um charlatão, pelo menos para os que não confiam, e aparentemente Abraão tem dificuldades de confiar.

Vemos isso quando, ao ir para o Egito, ele desenvolve uma estratégia de autodefesa. Ele fica preocupado pois poderá perder sua vida em razão da beleza de Sara. Será que confia que Deus cuidará dele e o protegerá? De modo nenhum. Ele pede a Sara que minta sobre a situação do marido, dizendo que ela é sua irmã e não sua esposa. Embora seja verdade que é meia-irmã (ver Gn 20), assim mesmo é uma mentira em todos os sentidos, põe em perigo a futura matriarca. Se ela for tomada por um egíp­cio e ficar grávida ou se Abraão perdê-la, que será feito da pro­messa de que esse casal geraria uma nação?

De qualquer forma Deus intervém. O próprio faraó fica atraí­do por sua beleza e a adiciona ao seu harém. Como compensação, o faraó enriquece Abraão, o suposto irmão de Sara, com rebanhos e manadas, servos e camelos. Mas Deus envia pestes para o Egito, e o faraó descobre o motivo. Ele chama, então, Abraão para que preste contas e manda que arrume as malas e volte para a terra prometida. Não é um início muito especial para uma jornada de fé.

Por intermédio de Abraão descobrimos que tal jornada é repleta de altos e baixos. Gênesis 13 apresenta um novo pro­blema. Ameaça ou obstáculo é, provavelmente, uma palavra forte demais aqui, pois o problema é resultado de prosperidade, mas assim mesmo apresenta uma situação em que Abraão tem de mostrar se irá ou não empregar seus próprios meios para cum­prir a promessa.

Abraão e Ló haviam igualmente prosperado a tal ponto que a terra com sua água e pastos não eram suficientes para sustenta­rem a ambos. Eles têm de dividir a terra entre si. Abraão está na posição de poder. E o tio de Ló e também quem recebeu as pro­messas. Em outras palavras, as bênçãos de Ló vêm por intermé­dio de Abraão. O patriarca podia ter insistido em escolher primeiro a terra, mas não o faz. Em vez disso, dá a Ló a oportunidade de escolha, uma notável demonstração de confiança de que essa terra, toda ela, um dia estará na posse de seus descendentes.

De sua parte, Ló abocanha o melhor da terra ou pelo menos o que parece ser o melhor lote daquela época. Ele escolhe aquela região de pastagens viçosas próxima de duas cidades empolgan­tes, Sodoma e Gomorra. Só alguém que esteja lendo pela primeira vez e nunca tenha ouvido o relato bíblico pode deixar de perce­ber a ironia nessa escolha.

Gênesis 14 é de certa forma um capítulo único na narra­tiva de Abraão. Não ressoa os mesmos temas do restante da his­tória, de modo que o examinaremos separadamente mais adiante. Desse modo vamos para o centro da narrativa de Abraão, em Gênesis 15—17.

Gênesis 15 começa com uma visita divina a Abraão. A inse­gurança do patriarca é assinalada pela fala inicial de Deus, a qual trata do problema. “Não temas, Abrão, eu sou o teu escudo, e teu galardão será sobremodo grande” (Gn 15.1). Contudo, Abraão não é tranqüilizado de imediato e reage de maneira curiosa, pelo menos para leitores modernos. Ele informa a Deus que ainda não tem um filho, de modo que o damasceno Eliézer, um de seus servos, herdará sua riqueza.

Os achados de Nuzi (ver p. 107-112) nos têm ajudado a entender o que Abraão está dizendo. Naquela época os costumes permitiam que um marido e uma mulher sem filhos adotassem um servo para que este cuidasse deles quando envelhecessem, e, como retribuição, aquele servo receberia a herança. E difícil dizer se Abraão está, de fato, indo nessa direção ou se está zombando de Deus por deixar de levar a termo sua promessa. Mas, de um modo ou de outro, isso revela como a mente de Abraão está fun­cionando. Ele se preocupa com a nação prometida que jamais se materializará. Afinal, para ser o pai de uma nação, ele tem primeiro de ter um filho, e, à medida que Abraão vai envelhe­cendo, isso parece cada vez mais improvável. É possível que ele esteja tentando se apoderar da promessa, fabricando um her­deiro conforme os costumes da época.

De qualquer modo, Deus imediatamente garante a Abraão que ele ainda terá um filho. Deus dá essa garantia por meio não apenas de palavras mas também de ação. O que segue é um aconte­cimento estranho que se explica pelos costumes do antigo Oriente Próximo. Vimos algo semelhante em Mari (ver p. 112-114). Quando duas partes chegavam a um acordo, ocasionalmente este era selado por meio de um juramento de automaldição. Por meio de tal juramento os participantes invocavam uma maldição — até mesmo a morte — sobre si, caso rompessem o acordo.

De acordo com este costume, vários animais eram cortados pela metade, e a pessoa ou pessoas que passavam em meio às metades estavam, na prática, dizendo, “Que eu seja morto e cortado ao meio como estes animais, caso eu ouse quebrar minhas promessas”. Surpreendentemente é somente Deus que passa em meio às partes, invocando, por assim dizer, uma automaldição sobre sua própria cabeça. Deus passa por meio das partes na forma de “um fogareiro fumegante e uma tocha de fogo” (Gn 15.17). (Essa forma também parece esquisita para nós, mas devemos recordar que, freqüentemente nas etapas iniciais da história de Israel, Deus apareceu na forma de fumaça e fogo.) Na prática, Deus está dizendo que, se ele quebrar essa promessa, pode ser morto como esses animais. É claro que é absurdo dizer que Deus podia morrer, mas é igualmente absurdo dizer que Deus podia quebrar sua promessa.

Aqui a palavra aliança é empregada pela primeira vez (v. 18) em relação a Abraão. Embora o termo não seja explicitamente utilizado em Gênesis 12.1-3, devemos pensar naquela passagem como um texto que reflete um relacionamento de aliança entre Deus e Abraão, porque o que temos aqui é claramente uma rea­firmação das promessas de descendentes e de terra feitas pela primeira vez a Abraão em Ur.

Desse modo Deus reanima Abraão, que avança, presumivel­mente, da dúvida para a fé. Mas por quanto tempo? Não temos nenhum indicador de tempo em Gênesis 16, mas em Gênesis 17 Abraão está, de novo, tentando assumir o controle, procurando cumprir as promessas à sua própria maneira e usando os recursos humanos ao seu alcance.

Na cultura daqueles dias, o concubinato era normal, o que é, mais uma vez, explicado pelos costumes do Oriente Próximo praticados naquela época. Se a esposa de alguém era estéril, ele podia tomar uma segunda esposa ou concubina e tentar ter uma criança. E funcionou! Hagar, a concubina egípcia de Abraão, deu à luz um menino, que recebeu o nome de Ismael, que significa “Deus ouve”, presumivelmente porque ele parecia uma resposta às orações de Abraão.

Aqui também não sabemos quanto tempo se passou, mas Deus faz uma nova visita e começa a conversa com uma reafir­mação da promessa: “Eu sou o Deus Todo-Poderoso; anda na minha presença e sê perfeito. Farei uma aliança entre mim e ti e te multiplicarei extraordinariamente” (Gn 17.1, 2). Ele prosse­gue reafirmando a aliança com a promessa de descendentes sem fim. Deus até muda o nome de Abraão. Muito embora tenha­mos nos referido a ele pelo seu- nome mais comprido, até aqui seu nome era Abrão, ou “pai exaltado”. Agora seu nome será Abraão, ou “pai de muitos”.

De início, contudo, Abraão não se dá por convencido. Ele duvida que possa ser pai aos cem anos de idade e Sara possa se tornar mãe com noventa anos de idade. Por isso ele ainda olha para Ismael: “Tomara que viva Ismael diante de ti”. Mas Deus não vai aceitar isso. Sara, cujo nome ele mudou nessa ocasião de Sarai (embora não esteja tão claro o significado dessa mudança de uma forma da palavra “princesa” para outra), terá ela própria uma criança, muito embora há muito já tenha passado da idade de ter filhos.

Ao lado dessa reafirmação temos a instituição do sinal da aliança abraâmica. A associação de um sinal a uma aliança foi vista anteriormente quando Deus declarou que o arco-íris seria o sinal da aliança noaica. Mas aqui o sinal é a circuncisão, e, quando refletimos a respeito, podemos ver o quão apropriada a circunci­são é para a aliança abraâmica.

Primeiramente, a esta altura a ênfase recai sobre a promessa de um descendente. A circuncisão envolve a remoção do prepú­cio do pênis, o órgão reprodutor masculino. Essa não é a primeira vez que alguém é circuncidado, e, quando uma cultura não prati­cava algum tipo de circuncisão, o texto trazia alguma observação (“aqueles filisteus incircuncisos”). Aqui Deus faz uso de uma prá­tica conhecida e lhe atribui um novo sentido.[4] A circuncisão era outro juramento de automaldição. Só que desta vez era o parceiro humano que assumia a maldição. O significado era que, se o par­ceiro humano não cumprisse sua parte no acordo, ele seria “cor­tado” e jogado fora da mesma maneira como aquele prepúcio.

Descobre-se que Abraão não é o único a ter dúvidas sobre o cumprimento da promessa. Em Gênesis 18, Sara também expressa reservas durante uma visita feita por três homens, que, conforme se verá, são visitantes celestiais. Quando um deles (tal­vez aquele que mais tarde é identificado com o próprio Senhor) garante a Abraão “certamente voltarei a ti, daqui a um ano; e Sara, tua mulher, dará à luz um filho” (Gn 18.10), Sara ouve essa afirmação e ri, pensando consigo mesma “Depois de velha, e velho também o meu senhor, terei ainda prazer?” (Gn 18.12). Mas esses não são visitantes do tipo de quem se possa ocultar um riso silencioso ou um pensamento não expresso. Eles confrontam Abraão com a pergunta: “Acaso, para o Senhor há coisa demasia­damente difícil?” (Gn 18.14).

Prossegue a pedregosa jornada de fé. Gênesis 18.16—19.38 trata da destruição de Sodoma e do resgate de Ló e suas filhas. Abraão tenta proteger da destruição quaisquer pessoas piedosas que haja em Sodoma. Aqui vemos talvez Abraão agindo como alguém por meio de quem a bênção é levada às nações. Entre­tanto, em Gênesis 20 temos uma reprise da falta de confiança de Abraão, que engana um rei ao mentir sobre a situação da esposa, desse modo causando problemas àquela nação.

Para mantermos a atenção na promessa de que Abraão seria pai de uma grande nação, nos dirigimos rapidamente para Gênesis 21. Finalmente nasce o filho prometido! Ele até mesmo recebe o nome de riso, Isaque, pois “Deus me deu motivo de riso; e todo aquele que ouvir isso vai rir-se juntamente comigo. E acrescentou: Quem teria dito a Abraão que Sara amamentaria um filho? Pois na sua velhice lhe dei um filho” (Gn 21.6, 7).

Talvez indaguemos por que Deus esperou tanto tempo? Afi­nal, Abraão tem cem anos de idade, e Sara, noventa. Com idades assim avançadas é humanamente impossível que um casal tenha um bebê. E, tão logo digamos isso, temos nossa resposta. O nas­cimento de uma criança para uma mãe estéril de idade avançada mostra para o casal (e para nós) que essa criança especial é um presente de Deus. À medida que continuamos lendo em Gênesis (Rebeca e Raquel) e em outras passagens do Antigo Testamento (a mãe de Sansão e Ana), vemos outros exemplos de mulheres estéreis que dão à luz crianças importantes na história da reden­ção do povo de Deus.[5] Podemos considerar esses nascimentos como precursores do mais miraculoso dentre todos os nascimen­tos, quando a virgem Maria deu à luz o Salvador de todos, Jesus.

O derradeiro teste de fé. Voltando à narrativa de Abraão, parece que o enredo chegou à sua devida resolução. O filho prometido nasceu! No entanto, tal reação diante do relato logo se revela pre­matura. Deus aparece com mais uma nova exigência para a vida de Abraão, uma que dificilmente poderia ter sido antecipada. Deus ordena a Abraão que leve Isaque ao monte Moriá e o sacrifique ali.

À primeira vista, essa ordem é absurda. A criança é a criança da promessa. Matar Isaque é, pelo menos aparentemente, matar a promessa. O que está acontecendo aqui? Embora isso não seja dito a Abraão, nós — os leitores — ficamos sabendo que esse mandamento tem um propósito, qual seja, o de testar a fé de Abraão (Gn 22.1).

Já lemos o relato de Abraão como uma jornada de fé e acom­panhamos os altos e baixos que teve ao longo da vida. Com o nascimento de Isaque ele recebeu a confirmação de sua fé, mas agora seu mundo é jogado de pernas para o ar. Entretanto, não é assim que ele reage. Aqui não temos nenhuma descrição do íntimo de Abraão. Não sabemos quais pensamentos, positivos ou nega­tivos, passam pela sua mente. Só ficamos sabendo de suas ações. A ordem divina foi: “Toma teu filho, teu único filho, Isaque, a quem amas, e vai-te à terra de Moriá; oferece-o ali em holo­causto, sobre um dos montes, que eu te mostrarei” (Gn 22.2). Como resposta a essa ordem, ele se levanta cedo, arreia o jumento, corta a lenha e parte rumo àquele lugar.

Podemos gastar nosso tempo questionando a ética divina aqui, mas isso seria pôr nossas energias no lugar errado. Em vez disso, ficamos maravilhados com o nível de confiança que Abraão veio a ter em seu relacionamento com Deus. Ele duvidou durante boa parte da vida, mas, agora que viu o cumprimento da promessa, entende que Deus sabe o que está fazendo.

Não é que Abraão não se importe com Isaque. A ordem de Deus parece enfatizar justamente o quanto Abraão ama seu filho, com toda ênfase dada ao fato de Isaque ser o filho único e amado de Abraão. A propósito, também devemos nos lembrar que, a esta altura, Isaque não é um bebezinho; é um jovenzinho ou até mesmo um homem que tem condições de carregar sobre os ombros a lenha para o sacrifício e fazer perguntas sobre o que estava acon­tecendo. Não é que Abraão não ame Isaque, mas, acima disso, ele confia que Deus, de um modo notável, se sairá dessa situação. Conforme Hebreus fala a respeito:

Pela fé, Abraão, quando posto à prova, ofereceu Isaque; estava mesmo para sacrificar o seu unigénito aquele que acolheu alegre­mente as promessas, a quem se tinha dito: Em Isaque será chamada a tua descendência; porque considerou que Deus era poderoso até para ressuscitá-lo dentre os mortos, de onde também, figuradamente, o recobrou. (Hb 11.17-19)

Quando Abraão ergue a faca sobre seu filho Isaque, Deus o interrompe. Abraão passou pelo teste da fé. Deus sabe e nós tam­bém sabemos que a fé do patriarca é real. Se Deus não tivesse segurado sua mão, o patriarca teria enterrado a faca no corpo do filho. Mas, em vez disso, Deus providencia um substituto, um carneiro cujos chifres estão presos num arbusto.

Esse relato fala a gerações vindouras. Encoraja o povo de Deus ao longo dos tempos a aguardarem o cumprimento de pro­messas divinas. Pensamos naqueles que, depois de Abraão e Isa­que, esperaram a promessa de terra. Pensamos em nossa própria situação, pois recebemos a promessa da volta de Cristo e de um lar celeste. A despeito de obstáculos e de ameaças ao cumpri­mento dessas promessas, o povo de Deus deve continuar vivendo com fé e obediência.

Isaque: a promessa continua

Para sermos honestos, quando comparada com a de seu pai, Abraão, e com a de seu filho Jacó, a história de Isaque é bem sem graça. Pelo menos isso é válido para a parte da história quando ele chega à maturidade e o pai morre. E interessante observar que, se de um lado existe uma toledot de Terá, cujo foco é Abraão, e uma toledot de Isaque, cujo foco é Jacó, não há nenhuma toledot de Abraão, cujo foco estaria em Isaque.[6] Os relatos associados ao Isaque já crescido soam estranhamente familiares. Um exemplo aparece em Gênesis 26, que fala de uma fome que atinge a terra, e, por esse motivo, Isaque se muda para Gerar, que está sob a liderança de um rei filisteu, Abimeleque. Quando se muda para a região, Isaque apresenta a esposa como sua irmã, algo que faz lembrar a tática de seu pai em Gênesis 12 e 20!

A lição mais importante a se tirar da narrativa de Isaque tem a ver com a continuidade da promessa. Ele é o filho da promessa, e por meio dele a promessa passa a outras gerações. Nas próprias palavras de Deus, “por Isaque será chamada a tua descendência” (Gn 21.12), ou seja, Isaque era o filho por meio de quem a des­cendência de Abraão seria contada. Isso é sinalizado por meio da bênção que Deus derrama sobre Isaque (Gn 25.11). Mas o mais importante de tudo é que sabemos que Isaque é o recipiente e o veículo das promessas de aliança porque Deus diz que estará com ele e o abençoará (p. ex., Gn 26.24).

Por isso Isaque é conhecido mais como o filho de Abraão e o pai de Jacó do que como alguém com identidade própria. Vimos como ele desempenhou um papel fundamental no relato sobre a fé de seu pai, agora nos voltamos para o relato do filho de Isaque, o enganador Jacó.

Jacó: Deus age em meio às coisas tolas do mundo

A toledot de Isaque, que esperamos que se detenha no relato acerca de seus descendentes, começa em Gênesis 25.19 e, caracteristicamente, tem início com o relato do nascimento de seus dois filhos, Jacó e Esaú. O caos que cerca o nascimento de Jacó prenuncia a natureza de sua vida.

O nascimento de Jacó. Tal como havia sido o caso de Sara, Rebeca era estéril. Isso sinaliza que o descendente prometido é um presente do Senhor, embora, ao contrário da narrativa de Abrãao, esta não se atenha a esse respeito. Faz a devida observa­ção de que a gravidez de Rebeca é resultado de oração e, então, narra a história do nascimento dos gêmeos.

Desde o início a rivalidade entre irmãos caracteriza o rela­cionamento dos gêmeos. Lutam até mesmo dentro do ventre da mãe. Respondendo à pergunta da mãe, Deus anuncia o motivo para a luta: “Duas nações há no teu ventre, dois povos, nascidos de ti, se dividirão: um povo será mais forte que o outro, e o mais velho servirá ao mais moço” (Gn 25.23). Aliás, quando saem do ventre, Jacó segura firmemente o calcanhar do primogênito, Esaú, como se fosse puxá-lo de volta. Conforme acontece com freqüência na narrativa hebraica, os nomes e descrições que recebem por ocasião do nascimento também prenunciam acontecimentos futu­ros. O mais velho é Esaú, “peludo”, cujos pelos e cabelos eram tão grossos que é como se estivesse usando roupas. Também eram de um vermelho bem forte. Quanto a Jacó, seu nome significa “agar­rar o calcanhar”, com conotação de “ele engana”.

Direito de nascimento. A questão logo se torna de direito de nascimento. Por intermédio de qual dos dois filhos a promessa fluirá até gerações futuras? O texto narra a história do pouco caso de Esaú quanto ao futuro. Ele é uma pessoa do presente, mas Jacó está sempre pensando em como conseguir o melhor do futuro.

Esaú era menino do campo. Amava o ar livre, especialmente caçar. Jacó, por outro lado, preferia ficar em casa. Como acontece tipicamente com tais traços de personalidade, o tosco homem do campo era o favorito do pai, enquanto o que gostava de ficar em casa era chegado à mãe.

Certo dia Esaú voltou do campo e sentiu o cheiro do enso­pado que seu irmão estava cozinhando. Ele quis o ensopado ver­melho, que o texto explica ser o motivo de seu outro nome significativo — Edom, “vermelho”, embora também possamos pen­sar que tinha algo a ver com a cor dos cabelos e dos pelos. De qualquer forma, por impulso ele vende seu direito de nascimento pela simples refeição de um ensopado, um sinal de coisas que viriam.

Qualquer que fosse a significância do ato de Esaú vender seu direito de nascimento a Jacó, isso aparentemente não esclareceu automaticamente a questão da herança, visto que Rebeca e Jacó têm de enganar Isaque a fim de Jacó receber, de fato, a bênção a que o primogênito tinha direito. Em Gênesis 27, chegamos à hora da verdade, quando Isaque irá conferir sua bênção àquele que pensa que é seu primogênito, Esaú.

Rebeca tem, contudo, outras idéias; ela manipula o aconte­cimento de modo que seu filho favorito, Jacó, consegue a bênção. Por que age assim? Qual é sua motivação? Já vimos que Jacó vive em torno dela e da casa, enquanto Esaú, para a alegria do pai, é um homem que gosta do ar livre. Além disso, Esaú aborreceu a mãe quando se casa com mulheres que causavam irritação. Em vez de se casar com alguém do clã, Esaú se casa com pessoas do local, e “ambas se tornaram amargura de espírito para Isaque e para Rebeca” (Gn 26.35). Não devemos, porém, nos esquecer de que Rebeca ouviu o oráculo divino acerca de seus dois filhos, a saber, que o mais velho servirá o mais novo (Gn 25.23). O texto não é explícito, mas parece que há aqui mais do que uma motivação egoísta.

Qualquer que seja o caso, um golpe cuidadoso é tramado para fazer o cego e idoso Isaque pensar que Jacó é Esaú. O pai havia mandado Esaú caçar animais silvestres e tinha lhe pedido que preparasse seu prato predileto. Rebeca ouviu a conversa e disse a Jacó que apanhasse dois bodes, assim ela poderia preparar um prato do jeito como Isaque gostava. Então ela apanhou a pele dos bodes e preparou luvas e um peitoral para Jacó, a fim de que Isa­que pensasse que Jacó era o peludo Esaú.

Jacó não tem tanta certeza de que Isaque será enganado, e podemos ver por quê. Primeiramente, Esaú saiu para apanhar animais do campo. Será que a carne de dois bodes domesticados irá, de fato, tapear Isaque? E que dizer das peças de vestuário com pelos? Será que irão, de fato, enganar Isaque? (Esaú deve ter sido realmente peludo!)

É difícil ler nas entrelinhas aqui, embora com narrativas hebraicas freqüentemente tenhamos de fazê-lo. Será que Isaque estava tão senil que não iria perceber? Ou será que Isaque (que, conforme sabemos, também estava aborrecido com as esposas de Esaú) não está igualmente satisfeito em ver Jacó conseguir a bên­ção, embora, devido a seu jeito de evitar conflitos, não queira confrontar o filho esquentado?

Quaisquer que sejam as motivações, os resultados são os mes­mos. Jacó recebe a bênção, e não há nada que Isaque ou Esaú possam fazer a respeito. Exceto, isto é, se vingar. Isaque não tem nenhum interesse em vingança, mas Esaú tem. Por isso Rebeca ajeita de novo as coisas, de modo que Jacó é enviado para achar uma esposa entre os seus parentes que ainda vivem em Padã-Arã, que é a Síria de hoje. Quando Jacó parte, seu pai o abençoa com palavras que revelam que Jacó é, de fato, aquele por meio de quem passará a promessa dada a Abraão e a Isaque:

Deus Todo-Poderoso te abençoe, e te faça fecundo, e te multi­plique para que venhas a ser uma multidão de povos; e te dê a bênção de Abraão, a ti e à tua descendência contigo, para que possuas a terra de tuas peregrinações, concedida por Deus a Abraão. (Gn28.3,4)

Um sonho em Betel. Na viagem para Padã-Arã, Jacó tem um sonho que confirma ser ele o recipiente das promessas, e, dessa vez, a garantia vem da parte do próprio Deus. Enquanto sonha, ele vê uma escada que desce dos céus até a terra, com anjos subindo e descendo por ela. No alto ele ouve as seguintes palavras, a con­firmação divina de ele ser a pessoa por meio da qual as promessas da aliança passarão às gerações seguintes:

Eu sou o Senhor, Deus de Abraão, teu pai, e Deus de Isaque. A terra em que agora estás deitado, eu ta darei, a ti e à tua descendên­cia. A tua descendência será como o pó da terra; estender-te-ás para o Ocidente e para o Oriente, para o Norte e para o Sul. Em ti e na tua descendência serão abençoadas todas as famílias da terra. Eis que eu estou contigo, e te guardarei por onde quer que fores, e te farei voltar a esta terra, porque te não desampararei, até cumprir eu aquilo que te hei referido. (Gn 28.13-15)

De manhã Jacó reconhece que esse local é sagrado; Deus havia aparecido ali. Em face disso dá ao lugar o nome de Betel, “casa de Deus”. Além disso, faz voto de que, caso sua viagem seja bem suce­dida, fará do Senhor o seu Deus, e estabelecerá Betel como local de adoração. Infelizmente, a história futura de Betel em relação a este voto, ficou maculada pela idolatria de Israel (ver lRs 13).

Em Padã-Arã. Jacó parte de Betel e segue caminho até Padã- Arã. Seu primeiro encontro com a família se dá junto ao poço. Socialmente falando, para quem morava fora de cidades, o poço funcionava de modo análogo ao da porta de uma cidade, como lugar para as pessoas se encontrarem e conversarem. Em narrati­vas hebraicas é freqüente que encontros iniciais aconteçam junto a poços (Gn 24.10-27; Ex 2.15-17). Raquel, futuro amor de Jacó, é a primeira pessoa com quem ele se encontra, e ela o leva até Labão, que afetuosamente lhe dá as boas vindas, chamando-o de “meu osso e minha carne” (Gn 29.14).

Jacó vai trabalhar para Labão, o qual, depois de algum tempo, oferece recompensá-lo pelo seu trabalho. Numa passagem conhe­cida, Jacó pede a mão de Raquel em casamento, o que ocorre de­pois de sete anos, mas desta vez o próprio enganador é enganado. Naquela noite Labão age sorrateiramente, colocando Lia, a filha mais velha e menos desejável, na cama de Jacó. Na manhã seguinte ele explica que esse era o costume do lugar. Conforme assinalado por Robert Alter, quando este texto é lido à luz do engano que o próprio Jacó perpetrou em seu idoso pai, Isaque, vemos que ele é tratado da mesma forma como tratou o pai.[7] Labão permite que Jacó se case com Raquel logo após o término da semana de núpcias, mas exigiu mais sete anos de trabalho em troca da mão de Raquel. Assim é que durante catorze anos Jacó trabalha arduamente para Labão, a fim de poder ter sua amada Raquel.

Embora Labão tenha conseguido forçar Jacó a se casar com Lia, não pôde forçá-lo a amá-la. Entretanto, uma vez que era “desprezada” ou não amada (Gn 29.31), o Senhor permite que tenha filhos, aliás vários filhos. Raquel, por outro lado, não conse­gue engravidar. A rivalidade entre as irmãs degenera numa disputa sobre quem conseguiria dar mais filhos ao marido. Raquel dá início à disputa dando uma concubina a Jacó, e Lia reagiu da mesma maneira quando pareceu a ela que seu ventre já não estava tão fértil. Finalmente Raquel mesma tem um filho, José, sobre quem estará o foco do capítulo final de Gênesis.

É claro que essas crianças, doze quando terminarem de nascer, estão repletas de significado acerca da história futura do povo de Deus. Elas, inclusive José, que aqui representa seus dois filhos — Manassés e Efraim — serão pais das doze tribos de Israel. Logo, conforme observaremos abaixo, o próprio Jacó experimentará uma mudança de nome. No final da vida será chamado Israel. Desse modo Israel é o pai das doze tribos.

A mudança de nome de Jacó ocorre depois de catorze anos de serviços prestados em troca de suas duas esposas. À medida que o caráter de Labão vai se revelando mais e mais na narrativa, vemos que ele explora aqueles ao seu redor, especialmente Jacó. Se há algo com que as esposas de Jacó concordam entre si, é que é do mais alto interesse delas saírem da cidade, por isso incen­tivam Jacó a obedecer aos sinais do Senhor e voltar para sua famí­lia na terra da promessa.

Contudo, antes de partir, Jacó toma providências que o farão enriquecer às custas de Labão. Aparentemente Labão tapeou Jacó em mais do que assuntos de casamento. Jacó trabalhou duro para o tio, sem receber compensação adequada. Diante da ameaça de Jacó ir embora, Labão finalmente concorda em pagá-lo. Afinal, pelo fato de o Senhor estar com Jacó, Labão ficou rico. Conforme já vimos e continuaremos a ver, Deus abençoa os que estão asso­ciados àqueles que têm aliança com ele, o que talvez seja um prenúncio de como Deus abençoará as nações por intermédio de Abraão.

De qualquer modo, Jacó imagina um meio de pagamento que, segundo ele acredita, lhe trará a prosperidade material merecida, mas que Labão enxerga como mais uma oportuni­dade de explorar o sobrinho. Jacó reivindica para si todas as ovelhas não-brancas sejam elas escuras, listradas ou malhadas. Às escondidas, Labão retirou essas ovelhas do seu rebanho e as entregou para que os filhos cuidassem delas e as mantivessem à distância. Assim é que Jacó continuou incumbido do reba­nho de Labão, o qual “milagrosamente” ficou branco da noite para o dia.

Jacó, porém, tinha seu próprio plano. Ele fez varas ou vare­tas que formavam listas, alternando brancas e escuras, como o tipo de ovelha que ele queria. Ele colocou as ovelhas perto da área de beber, e, quando as ovelhas brancas de Labão vinham beber, elas acasalavam e “davam crias listadas, salpicadas e malha­das” (Gn 30.39). A parte de Jacó no rebanho foi crescendo, com as ovelhas sendo cada vez maiores em número e cada vez mais saudáveis, enquanto as de Labão diminuíam.

Como isso aconteceu? O que existia no método de Jacó que levou a esse grande resultado? Nada. Parecia uma superstição rural de que ovelhas que acasalassem em frente de algo listrado teriam crias listradas. Nada na ciência moderna nos leva a pensar que existe algum fundamento no procedimento adotado por Jacó. Isso nos leva a concluir: Deus fez isso acontecer, de modo que Jacó pode conseguir sua justa paga (ver Gn 31.9).

E óbvio que nem Labão nem seus filhos estavam satisfeitos com o rumo das coisas e manifestaram seu desprazer a Jacó. Como reação diante disso, Jacó diz a Raquel e a Lia que devem se preparar para fugir de Padã-Arã. As irmãs não estão muito de acordo, mas aparentemente Labão não é o tipo de pai que promove lealdade, pelo menos entre as filhas. Elas prontamente concordam com o plano de Jacó.

O retorno à terra prometida. O desejo de Jacó de fugir tem por trás um oráculo divino, que lhe deu a seguinte ordem: “Torna à terra de teus pais e à tua parentela; e eu serei contigo” (Gn 31.3). Eles saem às escondidas, mas depois de três dias Labão desco­bre que se foram e parte numa perseguição frenética. Mas, na noite antes de alcançar Jacó, Deus adverte Labão a não maltra­tar o genro. Essa ameaça explica a hesitação demonstrada por Labão, ao não agir com dureza com Jacó. É óbvio que Labão não estava sendo sincero quando diz que sua maior decepção foi nãò ter podido dar uma festa de despedida para todos eles. Durante anos ele se aproveitou de Jacó e das duas filhas. Mas o que faz é acusar Jacó de algo bem sério, a saber, o furto dos deuses do lar.

Esse episódio continua sendo enigmático para os leitores de hoje. Deuses do lar eram um remanescente do que acreditamos ser o passado pagão de Jacó, e ficamos sabendo que ele não teve nada a ver com o furto. Raquel havia roubado essas representa­ções de divindade e vai embora com elas, mas por quê? Em seu comentário, Hamilton analisa as principais opções, que inclui, com base em textos provenientes de Nuzi e Emar, a possibilidade de que a posse determinava direitos de herança. Mas pode ser simplesmente que Raquel estivesse aborrecida com o pai e qui­sesse dar uma retribuição, tirando algo de valor elevado para ele.[8]

De uma maneira ou de outra, Jacó e Labão chegam a um acordo, e a passagem termina com um ritual em que Jacó e Labão celebram um tratado, concordando em respeitar a fron­teira entre eles. Esse acordo antecipa um conflito ainda mais temível que está na iminência de acontecer, a saber, a antiga rivalidade entre Jacó e Esaú.

Na última vez que vimos Esaú, ele estava ardendo por vin­gança contra Jacó, que havia roubado a bênção paterna (Gn 27.41­46). Uma indicação de que Deus aprovava a volta de Jacó pode estar por trás da curta observação de que teve um encontro com anjos num local por ele chamado Maanaim, “dois acampamen­tos”, exclamando “Este é o acampamento de Deus” (Gn 32.1, 2).

Talvez encorajado por esse acontecimento, Jacó faz um alerta a Esaú. Este agora está morando em Edom, local que recebeu esse nome por sua causa e está situado no sudeste do mar Morto, já fora da Palestina. Jacó enuncia sua mensagem com todo cui­dado e humildade. Ele recebe, no entanto, uma resposta inespe­rada na forma do relato de um exército de 400 homens que vêm na sua direção — Esaú e seu bando.

Abalado, Jacó toma providências, começando com oração. Ele divide os bens e a família em duas partes, com a idéia de que uma talvez escape, se a outra for atacada. Então envia à frente dos dois grupos uma série de presentes, esperando apaziguar a pre­sumível ira de Esaú.

Depois de preparar essa resposta, Jacó passa, então, uma noite muito desconfortável em que ocorre um dos encontros mais memoráveis e também mais enigmáticos de toda a Bíblia. Enquanto está sozinho, um “homem” desconhecido entra em luta com o patriarca. Essa luta dura a noite toda. Parece estar empatada. Embora o homem tenha feito a coxa se deslocar do quadril de Jacó (o que, em Gn 32.32, é apresentado como explicação para os israelitas não comerem o tendão que fica na coxa junto ao qua­dril), parece que Jacó tem o homem firmemente imobilizado. O homem suplica a Jacó que o deixe ir antes do alvorecer. O texto não informa o que quer dizer o surgimento da alvorada, desse modo aumentando nossa perplexidade bem como nossa curiosi­dade. Quem é esse homem?

Jacó se recusa deixá-lo ir enquanto o homem não o aben­çoa. Por que Jacó se preocupa com isso? Ainda não sabemos, porque ainda não estamos certos de quem é esse homem. Jacó, porém, deve saber a importância de seu companheiro de luta, embora a próxima troca de palavras mostre que o patriarca não sabe o nome dele.

Nesse diálogo o homem parece abençoar Jacó mediante uma mudança de nome. “Aquele que agarra o calcanhar”, o “engana­dor”, se torna “Israel”. E claro que a importância dessa mudança de nome se torna imediatamente visível. Israel é o nome da nação que surgirá a partir da semente de Jacó. O significado do nome não é tão óbvio, mas a melhor sugestão é a que entende que o nome significa “Deus luta”. Essa interpretação é apropriada tanto para a situação de Gênesis 32 quanto para o futuro da nação de Israel, pela qual Deus freqüentemente luta e contra a qual ocasionalmente luta. Também é apropriada para o contexto imediato porque, embora o homem não diga seu nome, Jacó sabe que é o próprio Deus. Em outras palavras, o homem não dá seu nome, Yahweh, mas Jacó sabe que é seu Deus, o Deus de seu pai Abraão.

Muitas leituras ecoam em nossas mentes após a leitura desta passagem. Por que Deus luta com Jacó? Por que aparentemente lutam até ficarem totalmente imobilizados? Por que Deus não dá o seu nome? Por que Deus tem de ir embora antes da alvorada? Teremos de conviver sem a resposta a muitas dessas indagações. O texto tem, contudo, algo a dizer, quando descreve o Israel futuro como um local por quem e contra quem Deus virá como guer­reiro. Também ensina a outros leitores que Deus é alguém que nos chama a um envolvimento ativo. Alguém que nos honra na luta enquanto não formos negligentes.

Para Jacó a luta divina monta o cenário para a luta humana que vem a seguir. O aparente exército de Esaú, procedente do sul, finalmente se encontra com a comitiva de Jacó, que procede do norte. Jacó dividiu a família com base nas suas prioridades de relacionamento; aqueles na retaguarda são os mais próximos do coração de Jacó. O primeiro a se encontrar com Esaú é o grupo constituído de suas concubinas e respectivos filhos (Bila: Dã, Naftali; e Zilpa: Gade, Aser). Depois veio um grupo que incluía Lia e os filhos (Rúben, Simeão, Levi, Judá, Issacar, Zebulom, Diná) e, finalmente, depois de todos os outros, Raquel e seu filho preciosíssimo, José. Conforme era de se esperar e, assim mesmo, talvez de modo admirável, Jacó vai à frente de todos e se encontra com Esaú. Inesperadamente e de modo definitivamente admirá­vel, Esaú corre e abraça Jacó.

O aspecto mais frustrante dessa narrativa é a falta de explica­ção para as motivações. Embora isso seja típico da prosa hebraica, aqui essa característica torna a narrativa particularmente opaca para o leitor moderno. Por que Esaú abrandou com Esaú? Será que é por causa dos presentes e da humildade de Jacó? Inicial­mente ele recusa o presente, mas isso pode ser um mero proto­colo do antigo Oriente Próximo, o que Jacó entende quando insiste que Esaú o receba.

Mas o que vem em seguida no relato é ainda mais difícil. Esaú diz a Jacó para acompanhá-lo até a sua casa, com isto que­rendo dizer ir para Edom. Jacó responde dizendo que precisa de tempo e que irá mais devagar. Esaú então se oferece para deixar guias com ele, o que Jacó educadamente recusa, dizendo que é desnecessário. Então Esaú parte, e Jacó nunca vai a Edom. Pelo contrário, viaja a Siquém e ali se instala durante o que ele espera que seja algum tempo. A única vez que sabemos que Jacó torna a ver Esaú é quando ambos sepultam o pai, Isaque (Gn 35.29). Este último evento é relatado sem que se lhe atribua maior importância, e não parece existir nenhuma animosidade entre ambos.

O texto permite quaisquer dentre várias reconstruções pos­síveis. Mas esse é o problema. Qual é a mais provável? Jacó foi a Edom por algum tempo, sem que o texto mencione? Quem sabe? O melhor é não especular. Jacó é bem sucedido em seu retorno à terra. E, muito embora Esaú não represente um perigo no momento presente, logo mais ameaças virão.

Na terra. Em Gênesis 34 ficamos sabendo de um episódio com ramificações no futuro tanto imediato quanto distante. A maior parte da atenção tem se concentrado nos filhos e esposas de Jacó, mas a narrativa mencionou uma filha: Diná. O texto narra de um acontecimento da vida de Diná, mas não diz algo acerca das rea­ções dela em relação a estes acontecimentos. O foco da atenção está nas ações de dois dos filhos de Jacó: Simeão e Levi.

Parece que os familiares de Jacó tinham bom relacionamento com os moradores do local. Diná tinha o costume de passar tempo com as moças dali e, com isso, foi objeto da atenção de Siquém, filho de Hamor, o governante local.

A maioria das traduções em português entende que Siquém violentou Diná. Pode ter sido o que de fato aconteceu, mas o texto hebraico é mais ambíguo. A melhor tradução para o verbo em questão é “humilhou”, o que deixa o sentido um pouco mais aberto, quer ele tenha ou não forçado Diná. Pode ser que ele a tenha seduzido, de modo que ela ficou numa situação de humi­lhação, a de uma mulher não casada que dormiu com um homem. Qualquer que tenha sido exatamente a natureza da ofensa come­tida, da perspectiva hebraica foi uma questão de perda de casti­dade e algo que exigia uma resposta (Gn 34.5).

O que, no entanto, se torna bem claro é que, quer ele a tenha ou não forçado, o fato é que “sua alma se apegou a Diná, filha de Jacó, e amou a jovem, e falou-lhe ao coração” (Gn 34.3). Conse­guiu ganhar o coração de Diná? De novo não sabemos, visto que nunca ouvimos a história do ponto de vista de Diná. De qual­quer maneira, Siquém se propôs a casar com Diná por meio dos devidos canais da cultura da época, a saber, o pai e irmãos dela.

O texto, porém, deixa bastante claro que os irmãos estão agitados com a relação sexual ocorrida e com a proposta de casa­mento e desejam vingança. O texto destaca que dois irmãos, Levi e Simeão, se sentiram especialmente ofendidos com o que acon­teceu com a irmã. O plano deles foi tão engenhoso quanto enga­noso e maldoso.

Embora não seja explicitamente declarado, é muitíssimo provável que a família de Jacó era em número bem menor do que os naturais do local, mas Levi e Simeão (irmãos de Diná por parte de pai e mãe, visto que Lia era mãe dos três) arquite­taram uma maneira de eliminar essa desigualdade numérica. Agiram como se concordassem com o casamento, mas impondo uma condição, a de que os naturais da terra se circuncidassem, uma operação dolorosa e debilitante.

Siquém e o pai, em nome de todo seu povo, aceitam essa condição. Sua disposição de se submeter a esse procedimento indica talvez o quão exatamente autêntico era o amor de Siquém por Diná bem como o fato de aceitar que a família de Jacó se integrasse a eles.

Mas a exigência era uma armadilha. Levi e Simeão não tinham absolutamente nenhum interesse em deixar que o casa­mento fosse em frente. Depois da circuncisão, quando os homens de Siquém se encontravam em condições extremamente fracas, Levi e Simeão vasculharam a cidade e os mataram.

Tentar descobrir como a narrativa encara esse ato não é algo assim tão simples. Jacó está irado: “Vós me afligistes e me fizestes odioso entre os moradores desta terra, entre os cananeus e os ferezeus; sendo nós pouca gente, reunir-se-ão contra mim, e serei destruído, eu e minha casa” (Gn 34.30). Acrescente-se que Jacó leva para o túmulo um ressentimento contra esses dois filhos (ver p. 192-194).

Entretanto, o narrador permite que os dois filhos tenham a palavra final quando respondem ao sermão de Jacó: “Abusaria ele de nossa irmã, como se fosse prostituta?” (v. 31). Além disso, o oferecimento de fazer integração entre a família de Jacó e os moradores de Siquém teria diluído a família da aliança de tal maneira que teria minado o cumprimento da promessa de des­cendentes. Talvez devamos pensar em Deus a empregar uma ação má para produzir o bem, neste caso a preservação da pureza da linhagem aliançal.

É claro que Jacó e a família imediatamente partem da cidade de Siquém e, indo pela rota que passa pela região montanhosa central, se dirigem a Betel, o local onde Jacó tinha tido a visão da escada que chegava até os céus. Porém, antes de prosseguir, ele convoca as pessoas de sua casa a se livrarem de seus ídolos pagãos. Agora está se dirigindo a um local sagrado, e ele também enfatiza aquilo que, conforme temos visto, é o tema central da aliança, a saber, de que Deus “me acompanhou no caminho por onde andei” (Gn 35.3). E, assim que chega a Betel, Deus renova as promessas aliançais que haviam sido feitas a Abraão e agora estavam sendo aplicadas a seu filho Jacó (Gn 35.11-13).

Agora com Jacó na terra prometida, a narrativa sobre esse patriarca começa a perder o ritmo. Mas, primeiramente, haverá mais um filho, desta vez tido pela sua esposa favorita, Raquel. Entretanto, essa criança custou a vida dela, sendo que, enquanto desfalecia-se, deu-lhe o nome de Ben-oni, isto é, “filho da minha tristeza” (Gn 35.18). Mas depois da morte e sepultamento da esposa, Jacó mudou o nome deste último filho para Benjamim, “filho da minha mão direita”. Agora todos os doze filhos de Jacó, cujo nome foi mudado para Israel, já são nascidos:

• Os filhos de Lia: Rúben, Simeão, Levi, Judá, Issacar e Zebulom

• Os filhos de Raquel: José e Benjamim

• Os filhos de Bila (concubina da parte de Raquel): Dã e Naftali

• Os filhos de Zilpa (concubina da parte de Lia): Gade e Aser

A toledot de Isaque termina com sua morte depois da volta de seu filho Jacó (Gn 35.27-29). Agora estamos preparados para o próximo na série de descendentes por meio de quem a pro­messa é transmitida, a saber, a toledot de Jacó, que concentrará a atenção em José.

Como transição temos, contudo, a toledot de Esaú (Gn 36). Em Gênesis 25 aparece uma breve narrativa sobre Ismael, e agora temos uma acerca de Esaú, ambos descendentes dos patriarcas, mas não da linhagem escolhida. Ao incluir estas breves listas dos descendentes de Ismael e Esaú (bem como uma lista dos governantes dos edomitas, que descenderam de Esaú), ficamos sabendo que Deus se importa com essas pessoas, muito embora não estejam diretamente relacionados à sua estratégia redentora iniciada em Abraão.

Conclusão

As narrativas patriarcais possuem características diferentes dos capítulos que as precedem. A velocidade da narrativa diminuiu, e o espaço da narrativa se estreitou. Em vez, então, de oferecer um panorama do mundo inteiro e de um longo período de tempo, o foco recai em um só homem e seus descendentes. Deus tem sido persistente na graça com que trata a humanidade como um todo, muito embora os seres humanos continuem a pecar contra ele. Agora ele escolhe uma só pessoa por meio de quem irá restaurar a bênção ao mundo inteiro. A história das narrati­vas patriarcais é o relato de como Abraão, Isaque e Jacó reagem ao Deus que, por meio deles, está em busca de um relaciona­mento com toda a humanidade.

A parte final de Gênesis se volta para a história dos doze filhos de Jacó, narrando a história de um deles, José.







[1] Gordon Wenham, Story as Torah: Reading Old Testment narrative ethically (Grand Rapids: Baker, 2004), p. 37.


[2] Embora seja só mais tarde que o patriarca teve seu nome mudado de Abrão para Abraão, vou me referir o tempo todo a ele usando forma mais conhecida e mais comprida. No momento apropriado do relato explicarei a importância da mudança do nome. A mesma abordagem será feita com Sara, que no início da narrativa é chamada de Sarai.


[3] A idéia de que as narrativas patriarcais, em particular a narrativa de Abraão, devem ser entendidas como a história da resposta do patriarca diante das ameaças e obstáculos ao cumprimentos das promessas divinas foi mais claramente defendida por D. J. A. Clines, The theme of the Pentateuch, 2 ed. (Sheffield: JSOT Press, 2002).


Pudemos observar uma prática semelhante com o arco-íris nos dias de Noé.


[5] Ver, respectivamente, Gn 25.19-26; 30.22-24; Jz 13; ISm 1.


Quanto ao significado e à função de toledot, veja o cp. 3 (p. 68).


[7] Robert Alter, The art of Biblical narrative (New York: Basic, 1981), p. 180. Alter dá a isso o nome de “analogia narrativa”.


[8] Victor Hamilton, The book of Genesis: Chapters 1-15, série New Interna­tional Commentary on the Old Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 1995), p. 294, 295.