3 de novembro de 2016

TREMPER LONGMAN III - Abraão e Nuzi - costumes patriarcais em seu contexto cultural

tremper longman danilo moraes
Abraão e Nuzi - costumes patriarcais em seu contexto cultural 

Nos capítulos quatro e cinco examinamos as semelhanças e as diferenças entre relatos antigos de criação e de dilúvio. Em nossa última análise do contexto do antigo Oriente Próximo sobre Gênesis, tratamos de um assunto diferente, a saber, como os cos­tumes culturais que observamos em Gênesis se comparam com aqueles em outras regiões do antigo Oriente Próximo. Aqui a per­gunta que clama por resposta é se os patriarcas se encaixam ou não no período em que a Bíblia os situa. Outro benefício deste estudo comparativo é que esclarece ainda mais costumes bíblicos que parecem tão estranhos para nós. 

Podemos atribuir uma data a Abraão? 

E possível situar Abraão numa linha do tempo? Quanto a isso, podemos identificar uma data absoluta em vez de uma relativa de qualquer acontecimento bíblico? Uma data relativa é aquela que é atribuída a algum acontecimento na sua relação com outros acontecimentos. Todas as datas apresentadas na Bíblia são relati­vas a outros acontecimentos. Como exemplo vamos considerar a data do êxodo do Egito. Talvez o dado cronológico mais impor­tante para esta data se encontre em IReis 6.1: 

No ano quatrocentos e oitenta, depois de saírem os filhos de Israel do Egito, Salomão, no ano quarto do seu reinado sobre Israel, no mês de zive (este é o mês segundo), começou a edificar a Casa do Senhor. 

Esse tipo de datação relativa com certeza nos ajuda a ter uma visão da relação cronológica entre acontecimentos bíbli­cos, mas não permite que coloquemos o êxodo em nossa linha do tempo, isto é, não nos permite que atribuamos uma data abso­luta a esse acontecimento. 

Uma data absoluta nos permite saber exatamente há quanto tempo um evento ocorreu. Existe mais de uma maneira de se con­tar o tempo, mas a maioria de nós está familiarizada com um sistema de datação absoluta que emprega o nascimento de Jesus Cristo como ponto fixo de referência. O ano em que estou escre­vendo este livro é 2004 A.D.[1] E, como é bem sabido, datas antes do nascimento de Cristo são contadas para trás e citados como a.C. (“antes de Cristo”). Recentemente surgiram objeções a dar um rótulo “cristão” para o tempo, por isso, em alguns círculos, A.D. e a.C. foram alterados, respectivamente, para E.C. (“era comum”) e A.C.E. (“antes da era comum”). 

A pergunta então é se podemos traduzir as datas relativas da Bíblia em datas absolutas que nos permitam ver quando esses acon­tecimentos se deram em relação ao nosso próprio tempo. 

Para isso nos voltamos para outros textos cronológicos do antigo Oriente Próximo. O Egito, a Assíria, a Babilônia e outros vizinhos de Israel também guardaram registros históricos e cro­nológicos. Esses registros, à semelhança dos registros bíblicos, são relativos e não absolutos. No entanto, a chave para a transfor­mação de uma cronologia relativa numa absoluta vem basicamente de um texto assírio. 

Os assírios mantinham aquilo que é hoje conhecido como listas limu. Essas são listas que registram algum acontecimento que marca determinado ano do reinado de um rei ou de alguma outra autoridade (limu). Essas listas limu são encontradas na lista canônica de epônimos assírios, que cobre o período de 910 a 612 a.C. Num ano específico o acontecimento importante foi um eclipse, permitindo que astrônomos atribuíssem, a esse ano em particular, um ano específico em nosso calendário absoluto: 763 a.C. (15/16 de junho).[2]

Para encurtar essa história longa e complexa, essa única data segura permite que determinemos uma série de outras na his­tória assíria assim que começamos a seguir a trilha de todas as datas relativas estabelecidas em outros textos. Para a cronologia bíblica é importante o fato de que a Bíblia contém alguns indi­cadores cronológicos que cruzam com a história assíria. A his­tória assíria também menciona algum contato ocorrido com reis israelitas. Talvez a menção mais notável seja a referência, na chamada inscrição monolítica, à campanha de Salmaneser III na Síria, onde aquele rei encontrou um rei israelita de nome Acabe (853 a.C.), e pode-se ver no obelisco negro, que é um artefato arqueológico, uma referência a relações entre o mesmo rei assí­rio e o rei Jeú. Situando esses acontecimentos num calendário absoluto, outras datas relativas podem ser colocadas em nossa cronologia absoluta. 

Dessa forma, temos condições de atribuir ao quarto ano de Salo­mão (ver a referência anterior á lRs 6.1) a data de 966 a.C. Se interpretarmos literalmente os 480 anos daquele versículo, então o êxodo teria acontecido no século XV a.C. (966 - 480 = 1446 a.C.).[3]

Enquanto tentamos datar Abraão, a próxima informação importante para nós se encontra em Êxodo 12.40: o povo de Israel havia habitado 430 anos no Egito. 

Sendo assim, se pegarmos a data de 1446, e somarmos 430 anos, temos como resultado a data de 1876 a.C. para a época que Jacó, José e o restante da família deixaram Canaã rumo ao Egito. A seguir, se acrescentarmos mais 290 anos, para representar o tempo que Abraão viveu em Canaã, bem como o tempo dos outros patriarcas, chegamos à data de 2166 a.C. para o nacimento de Abraão, o que nos leva, então, a concluir pela data de 2091 a.C. para sua chegada na Palestina (Gn 12.4, 5). 

Essa data descomplicada não deixa de ter os seus proble­mas, mesmo no texto bíblico. Para começar, os números bíblicos parecem ser arredondados. Mas levar em conta esse fator só alte­raria a data em não mais do que algumas décadas. Segundo, exis­tem variantes textuais no texto hebraico que afetam algumas das datas. Por exemplo, a Septuaginta entende que os 430 anos de Êxodo 12.40 cobrem não apenas o tempo no Egito, mas tam­bém o período patriarcal.[4] Apesar disso, mesmo levando em consideração essas e outras incertezas, parece que a Bíblia situa os patriarcas na Palestina em algum momento entre aproximada­mente 2100-1500 a.C., a primeira metade do segundo milênio. 

A questão 

Mas será que a descrição bíblica dos patriarcas se encaixa no início do segundo milênio? Faço essa pergunta à luz de questionamentos específicos que estudiosos têm feito. Para muitos, a descrição de Abraão, Isaque e Jacó parece forçada demais para ser história pre­cisa. E, mesmo que fossem pessoas de verdade, como essa história poderia ser comprovada? Afinal, não são reis governando impérios nem estão associados a cidades. Não devem ter deixado registros nem é provável que outros tenham escrito acerca deles de modo que fosse preservado por milênios. A única testemunha da existência deles é a própria Bíblia. Não é, então, de surpreender que a confiança nos patriarcas se divide em dois grupos, dependendo do nível de confiança na veracidade histórica da Bíblia. 

Os questionam a existência real dos patriarcas têm de ofere­cer uma explicação para os textos. A resposta costumeira é que as narrativas foram escritas durante o primeiro milênio a.C. para criar uma história antiga acerca das origens de Israel. Se foi isso que aconteceu, é provável que os patriarcas tenham sido descritos de modo familiar para quem viveu no primeiro milênio. Entre­tanto, não temos nenhuma indicação de que os escritores desta época pudessem ou tentassem pesquisar como a vida era, de fato, no segundo milênio. Dessa maneira, caso se possa mostrar que o comportamento dos patriarcas de Gênesis se conforma a costu­mes do segundo milênio, especialmente se esses costumes eram diferentes dos costumes do primeiro milênio, isso propiciaria um argumento indireto forte a favor da exatidão da Bíblia. Isso é especialmente válido se for possível mostrar que o comportamento dos patriarcas, tal como apresentado, seria questionável para um israelita piedoso que vivesse no primeiro milênio. E nesse con­texto que os documentos de Nuzi são importantes.[5]

As descobertas em Nuzi 

Na década de 20 do século passado, arqueólogos escavaram parcialmente o sítio de Tepe Yorgham, localizado onde fica hoje o nordeste do Iraque. O nome antigo desse outeiro era Nuzi, e entre as muitas descobertas importantes feitas nessa localidade estavam cerca de cinco mil tábuas em cuneiforme, a maioria escrita numa forma de acádico, a língua dos babilônios e assírios. 

Os estudiosos concluíram que à coleção de Nuzi, que inclui tábuas provenientes de arquivos situados no palácio bem como nas casas de alguns cidadãos mais abastados, podia ser atribuída uma data a partir da metade do segundo milênio a.C. A essa altura da história, Nuzi era uma cidade provincial do reino de Arrafa, um reino relativamente pequeno com uma população hurrita. Acre­dita-se que os hurritas eram um povo que veio da região do Cáucaso, visto que sua língua (bem como a língua de Urartu) tem semelhanças com outras línguas da região. Os hurritas adotaram o sistema de escrita cuneiforme, e os textos descobertos ali têm desem­penhado um papel importante no estudo do período patriarcal. 

Essas tábuas, em especial aquelas de arquivos particulares, eram textos pessoais e comerciais que refletem os costumes da sociedade hurrita. Barry L. Eichler, um destacado estudioso de Nuzi, relaciona alguns desses costumes: “estipulações contratuais para que uma mulher estéril dê uma jovem escrava ao marido para lhe ser esposa; a posição dos herdeiros e o tratamento prefe­rencial de quem é nomeado o mais velho; a associação dos deuses do lar à distribuição dos bens da família; a situação condicional de filhas nascidas livres e vendidas à escravidão e; a instituição da servidão-habiru”.[6]

Esses costumes sociais e outros atraíram a atenção de estudio­sos da Bíblia para esses textos em particular, os quais sentiram-se imediatamente atraídos para o que lhes pareceu serem semelhan­ças entre vários costumes sociais praticados em Nuzi e as ações dos patriarcas. Pesquisa adicional trazia consigo a promissora possibi­lidade de esclarecer esses costumes e talvez até mesmo oferecer um modo empírico de estabelecer a data dos patriarcas, quer con­firmando quer negando os indicadores cronológicos fornecidos pela própria Bíblia. Em outras palavras, caso os costumes dos patriarcas se conformassem àqueles descritos nos documentos de Nuzi, en­tão isso representaria um argumento extrabíblico de que os patriar­cas foram pessoas de verdade que viveram no período em que a Bíblia os situa. É claro que a força do argumento depende de esses costumes serem exclusivos desse período de tempo. Se um costu­me também existia no primeiro milênio, então pode ser que as histórias foram escritas nesta mesma época sendo consideradas relatos ficcionalizados dos supostos precursores de Israel. 

Semelhanças notáveis. A primeira geração de estudiosos que analisou esses textos estava encantada com as aparentes notáveis semelhanças entre os costumes de Nuzi e os das narrativas patriar­cais. Num primeiro olhar, vários costumes foram alistados como relevantes. Estes incluíam (1) a adoção de um escravo da família para ser o herdeiro de um casal sem filhos (ver Gn 15), (2) o casamento de Abraão com sua “irmã” Sara parecia refletir os chama­dos “contratos esposa-irmã” de Nuzi, (3) a posse dos deuses domés­ticos como indicação de direitos de herança (ver Gn 31.33, 34), e (4) o direito de vender os próprios direitos de primogenitura. Os estudiosos que defenderam essas grandes semelhanças enten­deram que os textos de Nuzi forneciam provas da historicidade fundamental dos patriarcas. Acreditavam que as semelhanças eram reais e que eram peculiares ao período que vai do início à metade do segundo milênio.[7]

Para tornar mais claro esse ponto de vista, irei descrever mais detalhadamente um dos costumes debatidos, a saber, os “contra­tos esposa-irmã” que, pelo que se supõe, esclarecem o relaciona­mento entre Abraão e Sara. 

Com a descoberta daqueles textos, estudiosos como Ephraim Speiser defenderam que as tábuas de Nuzi explicavam a relação de Sara com Abraão como a de uma esposa-irmã.[8] Speiser citou dois contratos: no primeiro contrato, um irmão vendeu sua irmã a um homem, por quarenta ciclos, na condição de irmã; no segundo, um contrato de casamento, esse mesmo irmão vendeu a mesma irmã ao mesmo homem, também por quarenta ciclos, só que agora na consição de esposa. De sorte que em Nuzi, de acordo com Speiser, essa mesma mulher foi tanto irmã quanto esposa da mesma pessoa. Ele acreditava que essa prova clara tinha o apoio de outros contratos menos claros de sororato. Speiser achava que esses rela­cionamentos irmã-esposa eram um meio de fortalecer os víncu­los legais entre o homem e a mulher. 

Speiser fez uso desses textos para entender o relacionamento entre Abraão e Sara. Em duas oportunidades Abraão se protege de perigos que vislumbrava, chamando Sara de irmã e não de espo­sa (Gn 12.10-20; 20.1-18). De acordo com Speiser, o fato de Sara aparecer como esposa-irmã de Abraão é uma indicação de que a sociedade patriarcal funcionava com os mesmos costumes atesta­dos em Nuzi e, por isso, situa a narrativa na primeira metade do segundo milênio. No início, estudiosos de projeção apoiaram esse ponto de vista, e esse otimismo inicial é bem ilustrado por uma declaração bastante citada de John Bright, um famoso historia­dor bíblico de meados do século vinte: “É forçosa a conclusão de que as narrativas patriarcais refletem autenticamente costumes sociais praticados no segundo milênio em vez de costumes do Israel tardio”.[9] Entretanto, não muito depois ficou exposta a fra­queza desse tipo de argumento. 

Distorções iniciais e diferenças de fato. Com o passar do tempo e com mais e mais textos sendo estudados, percebeu-se que era prematura a empolgação inicial quanto às semelhanças. Após os costumes terem sido estudados em seu contexto social individual e, ao contrário do que inicialmente se imaginara, eles não se reve­laram tão próximos dos costumes patriarcais. 

Em termos do costume específico da suposta instituição esposa-irmã, agora está bem claro que as tábuas de Nuzi não nos ajudam a entender a relação entre Abraão e Sara. Para começar, Speiser teve de sustentar que aqueles que transmitiram mais tarde o texto de Gênesis não entenderam o costume antigo e, por esse motivo, trataram o estratagema de Abraão como um engano. Mas é engano sim. Abraão não adotou Sara como irmã e como esposa. Além do mais, agora que temos onze tábuas relevantes de Nuzi acerca do assunto da adoção, podemos ver que as pessoas não faziam contratos de sororidade com mulheres a fim de que pudessem se casar com elas, mas, sim, compravam moças como irmãs de modo que mais tarde pudessem vendê-las como esposas (recebendo o dote, isto é, o preço da noiva, que era presumivel­mente mais alto do que o preço que haviam pago para torná-las sua irmã). A família de origem da moça devia estar com grande necessidade de dinheiro, e, por isso, o comprador adquiria os direitos de vendê-la a fim de que pudesse obter uma compensa­ção maior no futuro, ao passo que o vendedor recebia uma injeção imediata de dinheiro. 

Dessa maneira, no caso deste costume social em particular, o estudo adicional dos textos bíblicos e de Nuzi revelou que o paralelo na verdade não era paralelo. No caso de vários outros costumes, pesquisa adicional tem demonstrado que os costu­mes não são peculiares à primeira metade do segundo milênio, mas também são encontrados no primeiro milênio. Isso impede que se usem os paralelos para determinar uma data mais antiga ou uma mais recente para a produção dos materiais patriarcais, algo que estudiosos como Thomas L. Thompson e John Van Seters, para quem os relatos bíblicos projetam ficções tardias no passado, utilizam em apoio à sua posição.[10]

Aliás, precisamos agradecer àqueles estudiosos que chama­ram a atenção para a falácia de certas comparações falsas entre narrativas patriarcais e os textos de Nuzi. Mas muitos exageram em sugerir que não sobrou nenhum paralelo que seja útil. Pelo contrário, ainda existem textos extrabíblicos, inclusive aqueles de Nuzi, que corroboram a veracidade histórica da apresentação que Gênesis faz dos patriarcais.[11] Encontrar paralelos, sejam ou não singulares à primeira metade do segundo milênio, também nos ajuda a entender algo das motivações das personagens bíblicas. 

O benefício de paralelos antigos 

Antes de nos voltarmos de novo para dados que nos ajudaram a avaliar a verdade histórica das narrativas patriarcais, primeiro ana­lisamos como esses textos antigos fornecem um tipo diferente de benefício para nosso estudo do texto. Ou seja, eles nos ajudam a entender por que os patriarcas fazem aquilo que fazem. A seguir temos três breves exemplos: 

Adotar um servo da casa. Em Gênesis 15, Deus vem reassegu­rar a Abraão de que cumprirá sua promessa, feita a ele e à esposa, de lhes dar um filho na velhice. A resposta inicial de Abraão indica que ele perdeu a confiança na capacidade divina de fazê-lo: 

Senhor Deus, que me haverás de dar, se continuo sem filhos e o herdeiro da minha casa é o damasceno Eliézer? A mim não me con­cedeste descendência, e um servo nascido na minha casa será o meu herdeiro (Gn 15.2,3). 

As tábuas de Nuzi nos ajudam a entender o contexto desta passagem, nos informando que um casal sem filhos podia adotar o servo da casa, que cuidará deles na velhice e os sepultará. Depois disso o servo herda os bens. Em resumo, Abraão emprega um costume social para tentar criar um herdeiro.[12]

Mas Deus tem outros planos para Abraão, que não terá de depender de Eliézer para cuidar dele na velhice. Deus reafirma sua promessa de que Sara e Abraão terão um filho deles mesmos. Para enfatizar a força de sua promessa, Deus realiza um ritual que, de novo, nos choca como algo estranho. 

Passar ao longo de animais divididos ao meio. Como resposta ao pedido de Abraão de que Deus lhe dê certeza de que terá um herdeiro, Deus então instrui o patriarca a trazer “uma novilha, uma cabra e um cordeiro, cada qual de três anos, uma rola e um pombinho” (Gn 15.9). Abraão mata, então, os animais e, com a exceção das aves, os divide ao meio. Então um fogareiro fumegante e uma tocha de fogo passam em meio às metades, enquanto Deus reafirma a promessa da aliança. 

Este episódio nos deixa perplexos. O que está acontecendo? O ritual pode ser elucidado mediante referência a documentos do antigo Oriente Próximo, desta vez não a documentos proce­dentes de Nuzi, mas de Alalakh, Mari e Hatti. Todos esses textos provêm do segundo milênio a.C.[13]

O texto de Alalakh é do século XVII a.C. e foi traduzido assim: “Abban fez juramento a Iarimlim e cortou o pescoço de uma ovelha (dizendo): ‘(Que assim eu morra) se eu tomar de volta aquilo que te dei!’”.[14]

A semelhança com Gênesis 15 se vê na ligação entre um sacri­fício e o estabelecimento de um tratado de aliança. Em particular, vemos a parte superior (Abban no texto de Alalakh), que está assegurando o cumprimento do acordo, assumindo uma maldição sobre si. Deus, que assume a forma de fogo e fumaça em Gênesis, assume tal maldição sobre si mesmo. 

No entanto, o que está faltando aqui é esse passar em meio às partes divididas. Para isso apelamos a outro texto do antigo Oriente Próximo, desta vez dos hititas. Um texto que descreve um ritual depois de uma derrota militar, diz: 

Se as tropas foram derrotadas pelo inimigo, elas realizam um ritual “atrás” do rio, a saber: elas “dividem ao meio” um homem, um bode, um cachorro pequeno e um porco pequeno; elas colocam metade neste lado e metade naquele lado, e em frente dos pedaços fazem um portão de madeira e estendem um [...] sobre ele, e, em frente ao portão, acendem fogueiras deste lado e daquele, e as tro­pas caminham bem pelo meio e, quando chegam ao rio, borrifam água sobre eles.[15]

Quando estes e outros textos semelhantes são estudados em conjunto com Gênesis 19, podemos entender a importância do ritual de sacrificar esses animais e de Deus passar pelo meio deles. Como nos exemplos do antigo Oriente Próximo, Deus está reali­zando um ritual de automaldição, dizendo na prática que será como aqueles animais mortos e partidos ao meio caso não cum­pra suas promessas. Ele está reanimando Abraão, mediante o uso de um costume conhecido em sua época. 

Ter uma segunda esposa. Embora Deus tenha adotado medi­das extraordinárias em Gênesis 15 para dar a Abraão garantias de sua intenção de cumprir a promessa, vemos já bem no capítulo seguinte que Abraão tem dúvidas disso. Ele e Sara estão envelhe­cendo, e para ele não é fácil acreditar que a esposa pode ter um filho. Então, para resolver a situação, eles fazem uso de mais um costume social antigo: ter uma segunda esposa, também conhecida como concubina. O nome dela é Hagar, e no fim ela tem um filho, que recebe o nome de Ismael. 

Nuzi, mais uma vez, fornece paralelo a um costume patriarcal. Num texto de Nuzi citado por Hamilton, lemos: “Se Gilimnimu (a noiva) não tiver filhos, Gilimnimu tomará uma mulher da terra de N/Lullu (de onde se conseguiam os melhores escravos) para ser esposa de Shennima (o noivo)”.[16]

Essa referência confirma o fato de que Abraão utilizou um cos­tume que era praticado na primeira metade do segundo milênio. Com base em nosso conhecimento dos costumes da época, temos uma idéia mais dara daquilo que se passa na mente do patriarca. A essa altura ele se recusa a confiar no Senhor e, com isso, tenta criar um herdeiro de acordo com os costumes do seu tempo.[17]

Conclusão 

Em nosso terceiro estudo comparativo (ver os primeiros estudos nos capítulos 4 e 5) temos uma questão diferente. Aqui estamos examinando a vida dos patriarcas em contraste com o pano de fundo de material cronologicamente relevante. Nosso objetivo é aferir se tais descrições dão a impressão de serem autênticas. A pressuposição é que, se os patriarcas foram pessoas de carne e osso, então agiram como seus contemporâneos. Nossa conclusão é afirmativa. Embora, no passado, tenha havido exagero na iden­tificação de semelhanças, o que na atualidade sabemos estimula a idéia de que os patriarcas são descritos de modo a estarem em consonância com os que viveram naquele tempo. 



Princípios para leitura 

1. Estude Gênesis à luz da literatura comparada do antigo Oriente Próximo. Informações relevantes quanto ao con­texto podem ser encontradas nos melhores comentários e também no The IVP Bible Background Commentary: Old Testament. 

2. Preste atenção nas semelhanças e diferenças entre os rela­tos bíblicos e do antigo Oriente Próximo. 

3. Leia os relatos bíblicos da criação e do dilúvio à luz dos antigos textos paralelos, antes de compará-los com hipó­teses científicas modernas. 

4. Sempre que possível, estude o conteúdo histórico de Gênesis à luz de material mais vasto do antigo Oriente Próximo. 

Leitura Adicional 

Traduções em português de textos relevantes 

Bouzon, Emanuel. O código de Hammurabi. Petrópolis: Vozes, 

2000. 

Bouzon, Emanuel. Uma coleção de direito babilónico pré-hammura- biano. Leis do reino de Esnunna. Petrópolis: Vozes, 2001. 

Bouzon, Emanuel. Contratos pré-hammurabianos do reino de Larsa. Porto Alegre: Edipucrs, 2000. 

W.AA. A criação e o dilúvio segundo os textos do Oriente Médio antigo. Coleção Documentos do Mundo da Bíblia 7. São Paulo: Paulinas, 1990. 

W.AA. Tratados e juramentos no antigo Oriente Próximo. Coleção Documentos do Mundo da Bíblia 12. São Paulo: Paulus, 1998. 

W.AA. Preces do Oriente antigo. Coleção Documentos do Mundo da Bíblia 1. São Paulo: Paulinas, 1985. 

W.AA. Israel e Judá — textos do antigo Oriente Médio. Coleção Documentos do Mundo da Bíblia 2. São Paulo: Paulinas, 1985. 

Anônimo. A epopéia de Gilgamesh. São Paulo: Martins Fontes, 

2001. 

Traduções em inglês de textos importantes 

Arnold, Bill T. e Bryan E. Beyer. Readings from the ancient Near East. Grand Rapids: Baker, 2002. 

Dailey, Stephanie. Myth from Mesopotamia: creation, the flood, Gilgamesh, and others. Oxford: Oxford University Press, 1989. 

Hallo, William W. e K. Lawson Younger Jr. The context of Scripture. 3 vol. Leiden: Brill, 1997-2002. 

Pritchard, James B. Ancient Near Eastern texts relating to the Old Testament with supplement. 3 ed. Princeton: Princeton Uni­versity Press, 1969. 

Literatura secundária 

Clifford, Richard J. Creation accounts in the Ancient Near East and in the Bible. Washington: Catholic Biblical Association, 1994. 

Eichler, Barry L. “Nuzi and the Bible: A retrospective”. In H. Behrens et al., eds. DUMU-È-DUB-BA-A: Studies in honor of Ake W. Sjõberg. Philadelphia: Samuel Noah Kramer Fund, 1989. 

Heidel, Alexander. The Babylonian Genesis. Chicago: University of Chicago Press, 1942. 

Lambert, W. G. e A. R. Millard. Atra-Hasis: The Babylonian story of the flood. Winona Lake: Eisenbrauns, 1999. 

Levenson, Jon D. Creation and the persistence of evil: The Jewish drama of divine omnipotence. Princeton: Princeton University Press, 1988. 

Selman, Martin J. “Comparative customs and the patriarchal age”. In A. Millard e D. J. Wiseman, eds. Essays on the patriarchal narratives. Winona Lake: Eisenbrauns, 1980. 

Tigay, Jeffrey H. The evolution of the Gilgamesh epic. Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1982. 

Walton, John H., Victor H. Matthews e Mark W. Chavalas. The IVP Bible background commentary: Old Testament. Downers Grove: Inter-Varsity Press, 2000. 







[1] AD é uma abreviatura de anno Domini, que é expressão latina que significa “ano do Senhor”. Hoje sabemos que, quando esse sistema de datação foi criado, houve um erro de cálculo quanto ao ano exato em que Cristo nasceu, mas este assunto não é relevante para a idéia que estamos apresentando neste capítulo. 


[2] Ver o artigo de Eugene H. Merril “Chronology”, em Dictionary of the Old Testament: Pentateuch, ed. por T. Desmond Alexander e David W. Baker (Downers Grove: InterVarsity, 2003), p. 117. 


[3] Essa data é objeto de debate entre estudiosos da Bíblia. Para argumentos a favor da data no século 15, ver Iain Provan, V. Philips Long e Tremper Longman III, A Biblical history of Israel (Lopuisville: Westminster John Knox, 2003), p. 131, 13; e a favor de uma data no século XIII, ver Kenneth A. Kitchen, On the reliability of the Old Testament (Grand Rapids: Eerdmans, 2003), p. 307-10. 


[4] Estas e outras ambigüidades são apresentadas por John Bright em A history of Israel, 2 ed. (Philadelphia: Westminster, 1972), p. 120-1. 


[5] Isso não quer dizer que Nuzi seja o único local a ter apresentado relevante para tal estudo. Existem também outros importantes sítios arqueológicos, in­clusive Mari e Emar, e igualmente há outros importantes textos bem antigos da Babilônia. 


[6] Barry L. Eichler, “Nuzi and the Bible: a retrospective”, DUMU-E-DUB- RA-A: Studies in honor ofAke W. Sjöberg, ed. por H. Behrens et al. (Philadelphia: Samuel Noah Kramer fund, 1989), p. 108-9. 


[7] Os estudiosos que, desde a década de 30 até a década de 60 do século passado, defenderam essa posição incluem alguns dos mais influentes do período: William F. Albright, Cyrus Gordon, E. A. Speiser e John Bright. 


[8] Aqui estou descrevendo a posição que E. A. Speiser apresenta em Genesis, série Anchor Bible (Garden Grove: Doubleday, 1964) e em “The wife-sister motif in the patrirchal narratives”, em Oriental and Biblical studies, ed. por J. J. Finkelstein e M. Greenburg (Philadelphia: University of Pennsylvania Press, 1967), p. 62-82. 


[9]John Bright, ví history of Israel, 2a ed (Philadelphia: Westminster, 1972), p. 79. 


[10]Ver Thomas L. Thompson, The historicity of the Patriarchal narratives, série Beihefte zur Zeitschrift für die alttestamentliche Wissenschaft, 133 (Berlin: deGruyter, 1974); John Van Seters, Abraham in history and tradition (New Haven: Yale University Press, 1975). 


[11] Quanto a estudos detalhados a este respeito, veha Martin J. Selman, “Comparative customs and the patriarchal age”, em Essays in the patriarchal narratives, ed. por A. R. Millard e D. J. Wiseman (Leicester: Inter-Varsity, 1980), p. 91-140; Eicheler, “Nuzi and the Bible”, p. 107-19. 


[12] Veja a análise por E. A. Speiser, “Notes to recently published Nuzi texts”, Journal of the American Oriental Society 55 (1935): 435,436, e Cyrus H. Gordon, “Biblical customs and the Nuzi tablets”, Biblical Archaeologist 3 (1940): 2, 3. 


[13] Expresso aqui minha dívida à obra de Victor PI Hamilton, The book of Genesis 1—17 (Grand Rapids: Eerdmans, 1990), p. 430-4. 


[14] D. J. Wiseman, “Abban and Alalah”, Journal of Cunieform Studies 12 (1958): 129. 


[15] O. Gurney, The Hittites (Baltimore: Penguin, 1954), p. 151. 


[16] Gordon, “Biblical customs and the Nuzu tablets”, p. 3. 


[17] No entanto, conforme assinalado também por Hamilton, este costume não pode ser empregado para determinar a data de Abraão no segundo milê­nio, visto que sua ocorrência também no primeiro século mostra que foi uma instituição que teve longa duração.