6 de novembro de 2016

R. K. HARRISON - Regulamentos a respeito do sacrifício (1:1-7:38 - Parte 2)

danilo moraes harrison
d. O sacrifício pelos pecados (4:1 - 5:13)

Esta seção trata dos regulamentos que envolvem ofertas para peca­dos involuntários e por acidente. A posição do malfeitor na sociedade determinava a natureza do animal a ser sacrificado. Ao passo que em Levítico 3:12 nenhuma disposição foi feita para os pobres sacrificarem aves, presumivelmente porque não eram consideradas uma oferta sufi­cientemente grande para uma refeição sacrificial, nesta seção uma cate­goria de ofertas menos dispendiosas é estabelecida para o benefício de pes­soas que não tinham meios de sacrificar um novilho ou uma cabra.

1-2. Uma nova fórmula introdutória (“quando alguém,” cf. 5:1)[1] indica uma mudança da preocupação de Deus com a restauração do bem­-estar, para a preocupação com os meios mediante os quais as transgres­sões acidentais podem ser expiados. Pecar (2) vem do Hebraico hátã, raiz esta que significa basicamente “errar o alvo.” Ao pecar, o transgres­sor realmente perde o objetivo real da existência, que é viver em obedi­ência aos mandamentos de Deus e ser santo conforme Ele é santo (Lv 11:44; 19:2, etc.). O que está envolvido em cometer transgressões por ignorância (NEB “involuntariamente”) é o fazer aquilo que é proibido em qualquer dos mandamentos do Senhor a Israel. A tradução por igno­rância é um pouco enganadora, ainda que somente porque certo grau de desobediência consciente era obviamente envolvido. Destarte, nas transgressões mencionadas em 5:1-4, o pecado por ignorância incluiria tanto os atos conscientes da desobediência quanto transgressões come­tidas como o resultado de fraqueza e fragilidade. Versículos subseqüentes tratam das categorias de pessoas abrangidas por estas disposições.

1. O sumo sacerdote (3-12)

1. Como a única pessoa ungida na nação quando estas leis foram instituídas, o sumo sacerdote exercia uma posição de grande responsa­bilidade espiritual. Qualquer transgressão da parte dele era refletida so­bre a nação como um todo, para escândalo para o povo (3), visto ser ele o representante do povo diante de Deus e assim profanaria o Santo dos Santos por causa da sua iniqüidade. Aqueles que são membros do sacerdócio real de Deus em Cristo (1 Pe 2:9) devem ser revestidos de jus­tiça (SI 132:9), e não devem permitir que o pecado domine em seus cor­pos mortais (Rm 6:12). A oferta pelo pecado (hattà’t) do sumo sacer­dote fazia expiação para ele e atenuava a ira de Deus. Aqui, como nou­tras partes do sistema sacrificial hebraico, ressalta-se alguma coisa que é feita em prol do homem para remover a barreira estabelecida pelo peca­do. A palavra hattã’t é derivada de uma forma verbal que significa “pu­rificar,” de modo que o substantivo significa “um sacrifício que obtém a purificação.” A função desta oferta, portanto, é purificar o local da adoração, tomando-o santo ao Senhor (cf. Zc 14:20), e fazendo com que seja possível para Deus habitar mais uma vez entre Seu povo.

4-7. O procedimento sacrificial segue o padrão geral das ofertas anteriores no fato de o pecador trazer o animal à tenda da congregação, identificar-se com ele, e abatê-lo perante o SENHOR (4). Há, porém, alguma diferença de detalhes, para a purificação do sumo sacerdote, que deve levar parte do sangue sacrificial para a tenda da congregação, onde o sacerdote (5) ungido, asperge o sangue ritualmente na direção do véu do santuário, i.é, a cortina que separava o lugar santo do Santo dos Santos (Êx 26:33). O uso do azeite era generalizado no Oriente Próximo antigo para propósitos de toucador, medicinal e outros, bem como para demonstrar respeito para os hóspedes (cf. Lc 7:46). Como rito religioso, a unção indicava a dedicação a Deus de pessoas ou obje­tos. Uma expressão para um soberano teocrático era “o ungido do Se­nhor” (cf. 1 Sm 12:3; Lm 4:20). A frase “o sacerdote ungido” refere-se ao sumo sacerdote como o funcionário cultual mais alto do povo es­colhido. Arão foi ungido especificamente na sua consagração (8:12), ao passo que ele e seus filhos foram aspergidos com o óleo de unção e o sangue sacrificial (8:30) como parte do ritual da consagração.[2] O ato de aspergir o sangue também é realizado diante do Senhor, ou seja, cons­cientemente como na Sua presença, e não apenas como uma parte casual dalgum ritual requintado. A consciência da presença de Cristo dá uma dimensão aos vários aspectos da vida do crente de uma maneira desco­nhecida aos descrentes, o que contribui para um maior senso de respon­sabilidade diante de Deus e do seu próximo. O cristão agora faz seu trabalho como aquele que vê o Deus invisível (Hb 11:27). A diferença em posição entre o sumo sacerdote e todos os outros membros da con­gregação é enfatizada pelo fato de que, para ele, parte do sangue da ofer­ta pelos pecados era aplicada nas projeções do altar de ouro sobre o qual incenso aromático era queimado. Para o restante do povo, o san­gue era aplicado sobre os chifres do altar do holocausto.

O altar do incenso (cf. Êx 30:1-10) era de um modelo familiar na antiguidade, com projeções (“chifres”) subindo dos cantos.[3] O pro­pósito destas projeções, além de serem puramente decorativas, é incerto, mas intérpretes judaicos têm considerado que dirigiam os pensamentos dos adoradores em direção aos céus enquanto o incenso estava sendo queimado. Visto, porém, que este altar pequeno estava dentro da ten­da da congregação no lugar santo, não estaria aberto à vista da mesma maneira que o altar do holocausto estava visível enquanto o sacerdote estava queimando o incenso aromático duas vezes ao dia. Em Êxodo 30: 34-38, as partes constituintes do incenso oferecido eram “substâncias odoríferas, estoraque, onicha e gálbano; estes arômatas com incenso pu­ro” em proporções iguais. Alguma dúvida existe quanto à natureza dalguns destes ingredientes. Destarte, é impossível dizer exatamente quais eram os ingredientes das “substâncias odoríferas”, se de fato foram com­ponentes separados e não uma descrição do incenso como composto aca­bado. Estoraque, uma resina ou goma fragrante, tem sido identificada ou com a árvore de estoraque (Styrax dfficinalis L. ) ou o opobálsamo (Commiphora opobalsamum L.j. A onicha era um ingrediente mais provavelmente obtido pela moagem das garras ou unhas de certos mo­luscos,[4] ao passo que o gálbano era uma resina aromática de uma es­pécie de funcho, talvez Ferula galbaniflua Boiss. &Buhse, embora isto não seja absolutamente certo. O incenso possuía qualidades antissépticas e adstringentes, e na tradição hebraica veio a ser símbolo da oração fer­vorosa e contrita (cf. SI 141:21.

8-12. Uma vez que o sangue sacrificial tinha sido acabado, todos os tecidos gordurosos eram recolhidos e queimados no altar dos holo­caustos, como se tiram os do novilho do sacrifício pacífico (9). Tudo quanto sobrava do novilho, i.é, sua pele, sua carne e suas entranhas, ti­nha de ser removido fora do arraial, para ser depositado em um lugar limpo (12). 0 fato de que o couro do animal é mencionado demonstra que, na oferta pelo pecado, assim como no holocausto (cf. 1:6) o couro era removido antes das várias partes oferecidas a Deus serem consumi­das pelo fogo. O lugar limpo era situado onde se lança a cinza (Heb. sepek haddesen), sendo que esta última frase ocorre somente aqui no Antigo Testamento. Presumivelmente, a área ao leste do altar do holo­causto, onde lixo (cf. 1:16), cinzas ensopadas de gordura, e detritos seme­lhantes eram depositados, está sendo aludida aqui. O animal não pode­ria ser queimado no altar, porque o ritual não visava obter expiação pa­ra o sumo sacerdote, mas, sim, remover a contaminação causada pelo comportamento ilícito do sumo sacerdote. Logo, a carcaça era desfeita pelo fogo no local do montão de lixo sacrificial fora do arraial. Este procedimento foi referido em Hebreus 11 — 13, onde Jesus foi assemelha­do aos animais cujo sangue tinhà sido trazido ao santuário pelo sumo sa­cerdote como sacrifício pelo pecado. No Calvário, o Salvador sofreu fora do portão (i.é, fora de Jerusalém) a fim de santificar o povo mediante Seu próprio sangue. O cristão é conclamado a “sair a ele, fora do ar­raial”[5] (Hb 13:13) e oferecer sempre por meio dEle “sacrifício de lou­vor a Deus” (Hb 13:15). Para os israelitas, o exterior do arraial era terri­tório imundo, mas porque Jesus foi rejeitado na cidade santa e foi cru­cificado fora das suas muralhas veneradas, os valores antigos tinham si­do completamente invertidos. Qualquer lugar onde Jesus é encontrado agora toma-se sagrado para o cristão, que tem consciência de que o po­der transformador de Cristo altera regras, situações e pessoas da mesma maneira. A fé uma vez entregue aos santos (Judas 3) doravante já não é uma questão tribal ou territorial, mas, sim, é cósmica nas suas dimen­sões, a fim de que Cristo seja tudo em todos (Cl 3:11).

2. A congregação (13-21)

13-15. Esta passagem está tão estreitamente vinculada com a an­terior que as instruções são repetidas numa forma abreviada visando a conveniência. Toda a congregação (13) poderia ter pecado por causa da conduta ou do conselho impróprios do sumo sacerdote, conforme acon­teceu subseqüentemente na história perturbada de Israel, e, destarte, o ri­tual pela oferta pelo pecado dela tem muita coisa em comum com aque­le que é preceituado para a expiação do sumo sacerdote. Na teoria, o povo de Israel era “reino de sacerdotes e nação santa” (Êx 19:6), de mo­do que o sangue da oferta da congregação era manipulado da mesma maneira que o sangue apresentado para o sumo sacerdote. De modo semelhante, a carne do animal sacrificado para as duas partes era quei­mada fora do arraial no montão de cinzas. O pecado por ignorância pe­la congregação parece subentender que um indivíduo tinha quebrado os mandamentos de Deus dalguma maneira, e estava indisposto a confessar seu delito ou fazer expiação por ele mesmo com uma oferta pelo peca­do. Mais cedo ou mais tarde, por processos não especificados, a trans­gressão chega à atenção (aos olhos) da assembléia (Heb. qàhàl). Este grupo era aparentemente restrito a líderes comunitários ou tribais, e é distinguido cuidadosamente da congregação (‘êdâ) à qual davam orienta­ção.

Um novilho jovem da primeira qualidade é trazido à tenda da congregação e a transferência da culpa comunitária é efetuada simbolicamen­te pelos anciãos da congregação (15). Estas pessoas ocupavam um lugar importante na comunidade de Israel desde o tempo da escravidão no Egito, onde aparentemente tinham posições de precedência entre as tribos (Êx 3:16; 4:29). Esta situação era muito provavelmente um de­senvolvimento da tradição patriarcal em que os chefes das famílias tinham poder completo sobre seu lar. Seria esperado de tais pessoas, portanto, que fornecessem coesão para a comunidade, mas além disto alguns an­ciãos talvez tenham sido escolhidos por causa de sua reputação de ho­mens sábios ou conselheiros. Não era incomum na sociedade do Orien­te Próximo antigo os chefes de estado reunirem ao redor deles pessoas deste tipo Como conselheiros, para os quais poderiam voltar-se em tempos de dificuldade ou de emergência. Isto pode ser ilustrado no Antigo Tes­tamento com referências ao Faraó (Gn 50:7), aos midianitas e aos moabitas (Nm 22:7) e aos gibeonitas (Js 9:11), ao passo que, num período posterior, a prática era seguida pelos gregos e romanos. O fato de que os anciãos hebreus no Egito foram as pessoas instruídas acerca da manei­ra segundo a qual a páscoa devia ser celebrada sugere que originalmente eram chefes de famílias. Eram pessoas que podiam exercer liderança em ques­tões religiosas (Ex 24:1, 9) bem como em casos judiciais, e em certo pe­ríodo durante a peregrinação no deserto, setenta deles foram nomeados para ajudar Moisés com questões administrativas gerais (Nm 11:16-17). Em Levítico 4:15-21 os anciãos são vistos oficiando num ambiente cul­tual. A diferença entre os anciãos e a congregação não fica explícita, mas o termo qãhãl parece significar “uma reunião convidada,” o que sugeriria que a assembléia poderia ter consistido de um pequeno grupo eleito de anciãos.

16-21. O ritual que envolve a aspersão do sangue é paralelo àque­le que é preceituado para o sumo sacerdote (w. 7-12), só que a menção da expiação (20) não é igualada por uma declaração semelhante na pas­sagem que trata da oferta pelo pecado do sumo sacerdote. Não há refe­rência a uma refeição comunitária em conexão com este tipo de sacri­fício, sendo a idéia subjacente, evidentemente que aquele em prol de quem a oferta pelo pecado é feita não pode comer qualquer parte dela, visto que o sangue foi aspergido no lugar santo (cf. 6:30). Como resul­tado desta oferta, a congregação recebia a garantia do perdão, porque Deus é “perdoador, clemente e misericordioso, tardio em irar-se, e gran­de em bondade” (Ne 9:17). É incorreto sugerir, conforme faz Noth,[6] que na oferta pelo pecado há um efeito ex opere operato. Embora a nar­rativa esteja em harmonia com a de passagens semelhantes ao enfatizar a importância da decoro exato ritual, um senso de ter cometido um pe­cado involuntário e uma necessidade conseqüente do perdão é uma exi­gência prévia da oferta. Entendido de modo isolado destas condições, o ritual obviamente não poderia fazer expiação por si só. Talvez Noth não se expressou de modo claro neste assunto.



3. Um príncipe (22-26)

22. Precisamente quem está sendo descrito por “príncipe” (Heb. nàst'), é incerto.[7] A falta do artigo definido indica uma referência ge­ral mais do que específica. Claramente tal pessoa era subordinada na sua posição ao sacerdote ungido, mas superior ao povo comum e talvez até mesmo aos anciãos no v. 15. O exegeta bíblico espanhol Ibn Ezra (1092­-1167) pensava nele como sendo um “príncipe de uma tribo,” mas Noth parece ter razão em sugerir que era um dos porta-vozes tribais antigos[8] (cf. Êx 16:22, etc.). Mais uma vez, isto indicaria a antigüidade do siste­ma sacrificial hebraico. Pecar ou, melhor, “tomar-se culpado”, visto que faz parte do processo de cometer pecado, seja deliberado, seja aci­dental. Cristo ensinava que o pecado não consistia em incidentes isola­dos de impiedade, mas, sim, era essencialmente uma questão de motiva­ção , envolvendo a personalidade (Mt 5:28; 15:18-19; Mc 7:21).

23-26. Antes de o príncipe trazer sua oferta, deve ser notifica­do do seu pecado, seja pelo sumo sacerdote, seja por príncipes colegas. O processo de catarse emocional e espiritual é freqüentemente ajudado pela confissão pública da iniqüidade (cf. Tg 5:16), e tem o efeito de tomar mais relevante a ofertà para a expiação. Em contraste com o* animal apresentado pelo sumo sacerdote ou pelo povo inteiro, o prín­cipe oferece um bode sem defeito (23). O ritual era divergente noutros aspectos também, visto que exigia que o sangue fosse passado nos chi­fres do altar do holocausto ao invés de sobre o altar dourado do incenso. A gordura devia receber a destinação como no caso das ofertas do bem- estar (26), sendo que a lembrança neste sentido talvez fosse uma ori­entação ao sacerdote oficiante, quanto ao procedimento. Este sacer­dote fará expiação por ele para obter perdão para ele. A palavra para “expiação” deriva de uma raiz hebraica kpr, que pode ter dois signifi­cados diferentes. Se tem relação etimológica com o acadiano kapãru, “limpar esfregando,” seu sentido seria “esfregar até deixar limpo.” Nos rituais sacrificiais hebraicos, o pensamento de fazer expiação por alguém sempre se destaca, o que resulta na isenção de castigo sobre o indivíduo em questão. A expiação que ocorre tem o efeito de resgatar a pessoa, e este parece ser o melhor sentido de kpr.

Outro significado, “cobrir” (cf. árabe kapparà), era familiar aos hebreus da Idade de Bronze Média, conforme é indicado pela expressão para “aplacar” (lit. “cobrirei a sua face”) em Gênesis 32:21. Embora al­guns sacrifícios visem retratar o “esfregar até ficar limpo” de certos ob­jetos poluídos tais como os chifres do altar do incenso (4:7) ou o propi­ciatório (16:14), outros visam trazer a purificação aos indivíduos ou à comunidade como um todo. Neste último caso, o pecado parece ser “coberto,” e, assim, apagado da vista de Deus. O efeito de semelhante procedimento é reconciliar o homem a Deus, levando a efeito uma ex­piação e assegurando o adorador do perdão.[9] Como nos outros exem­plos, estes ritos foram realizados em prol do príncipe pelo sacerdote (26).

4. Membros comuns da congregação (27-35)

27-35. Ofertas para o pecado acidental por um plebeu seguiam o padrão preceituado para um príncipe. Qualquer pessoa do povo da terra (Heb. ‘am hã’ãres) podia oferecer uma cabra (28) ou uma cordei­ra (32), nenhuma das quais estaria além das posses da família média. Vv. 28-31 e 32-35 são seções paralelas que descrevem os rituais a se­rem seguidos. O sangue é aplicado ao altar do holocausto (v. 30, 34), em contraste com a aspersão realizada pelo sacerdote quando a expia­ção pelo pecado por ignorância da congregação inteira de Israel estava sendo feita (4:17). O queimar dos tecidos gordurosos, como também na oferta pelo bem-estar (31), tem o efeito de produzir um aroma agra­dável ao Senhor, mas este último não é mencionado no v. 35, que se re­fere, ao invés disto, às ofertas queimadas do SENHOR. A expiação é le­vada a efeito como resultado destes rituais, e o pecador arrependido é perdoado. Talvez a carne oferecida por príncipes e plebeus fosse comi­da pelos sacerdotes, embora não haja indicação aqui quanto a isto.

O leitor já deve ter sentido algo da insuficiência do sistema sacrifi­cial do Antigo Testamento para lidar com o pecado. As transgressões des­critas neste capítulo são de uma natureza algo mecânica, para as quais havia disposições apropriadas expiatórias. Não há, porém, qualquer ritual aqui ou noutro lugar no Pentateuco para dar cobertura aos peca­dos da rebelião deliberada e consciente contra Deus, expressada em atos tais como o adultério, a idolatria, o assassinato ou a blasfêmia. Mesmo assim, um momento de reflexão capacitará a pessoa a perceber a base lógica de tal situação. Se o sistema sacrificial levítico tivesse abrangido toda forma de pecado, e cuidado de todas as contingências possíveis da transgressão, não poderia ter havido lugar para a obra de Cristo, visto que em tais condições teria sido desnecessária. No Calvário, porém, o Salvador dispensou a necessidade do sangue de novilhos e bodes, e com Seu próprio sangue introduziu uma redenção sofisticada, que a tudo abrange, para a raça humana, tomando, assim, o sistema sacrificial he­braico completamente obsoleto (Hb 9:11-12). Sua oferta sem mácula de Si mesmo purifica a nossa consciência de obras mortas para servir ao Deus vivo.

5. Transgressões que requerem uma oferta pelo pecado (5:1-13)

1. Os primeiros poucos versículos deste capítulo apresentam ao leitor uma construção sintática um pouco complicada, que se contrasta com a simplicidade e estilo quase mecanicamente direto das seções an­teriores. Estes versículos tratam de três tipos de transgressão, o primeiro dos quais é um caso algo especial que envolve uma pessoa relutante em divulgar informações acerca de um delito que observou, ou acerca do qual ouviu falar por outro meio. Embora o versículo nada diga acerca de involuntariedade, a transgressão é evidentemente tratada como um pecado por ignorância. Uma pessoa que se achasse em tal situação não poderia pressupor que o mero oferecimento de um sacrifício removes­se a culpa em que tinha incorrido mediante sua interferência com os processos da justiça. Primeiramente, tinha de confessar seu pecado (5) e depois fazer a restituição apropriada (6:5). A frase levará a sua ini­quidade é, em efeito, um pronunciamento oficial de culpa. A voz da imprecação (“a adjuração pública”) era freqüentemente conhecida co­mo “a maldição” (Heb. ’àlâ), presumivelmente porque consistia, em de­núncia solene de qualquer testemunha que continuasse a guardai silên­cio acerca da questão. Exemplos nas Escrituras de pessoas que guar­daram seu próprio segredo até que fossem submetidas a algum tipo de adjuração incluem Acâ (Js 7:19), Mica (Jz 17:2) um homem cego (Jo 9:24) e o próprio Jesus (Mt 26:63). Ser uma testemunha leal e fiel era uma consideração importante na antiga aliança (cf. Ex 20:16, visto que a integridade individual e a justiça comunitária dependiam dela em grande extensão.

2-3. A segunda transgressão envolvia contato com animais ou pessoas imundas. A descrição das espécies de animais limpos e imun­dos ocorre em Levítico 11, ao passo que os quatro próximos capítu­los tratam de ocorrências de imundícia humana. Consideração mais detalhada destes regulamentos será empreendida naquela altura, mas aqui deve ser meramente notado que o contato ocorreu, e que inter­feriu com o estado de pureza cultual ou cerimonial do indivíduo. A imundícia é acidental (ainda que lhe fosse oculto), logo, os ritos de puri­ficação não foram empreendidos. Uma vez que o transgressor saiba da sua culpa, é a responsabilidade dele oferecer sacrifício expiatório, visto que a falta de agir assim somente pioraria seu próprio relacionamento com Deus, além de afetar o bem-estar da existência comunitária. Um dos maiores desafios espirituais para o cristão na complexidade da vida social contemporânea é conservar-se imaculado do mundo (Tg 1:27).

4. O terceiro tipo de transgressão que exigia uma oferta pelo pe­cado era aquilo que a pessoa pronunciava em voz alta (“com seus lábios”), qualquer tipo de juramento temerário (4), sem, talvez, reparar plena­mente nas implicações daquilo que estava sendo dito. A combinação mal. . . bem é uma expressão antiga que denota a totalidade. Logo, a frase deve ser traduzida “um juramento temerário para fazer qualquer coisà que seja.” Tais juramentos eram feitos não infreqüentemente no mundo antigo sob a influência de bebidas alcoólicas, e este seria sem dú­vida o caso em que a pessoa teria de ser informada por outrém (e o sou­ber depois) do seu delito. O cristão é relembrado que a língua é um ins­trumento poderoso (Tg 3:5-6), e é especificamente advertido no Sermão da Montanha contra o fazer juramentos (Mt 5:34-36) e nas repreensões de Cristo dirigidas aos escribas e fariseus (Mt 23:16-22). Os servos do Senhor devem ser completamente fidedignos e confiáveis como teste­munhas dEle.

4- 10. Para estes tipos de pecados involuntários, a oferta apro­priada pela culpa (’ãsãm) era uma cordeira ou uma cabrita, que seria aceita pelo sacerdote como uma oferta pelo pecado (hattã’t). Antes de ser possível fazer expiação, a confissão era obrigatória. As ofertas pela culpa e pelo pecado estão estreitamente relacionadas aqui (cf. 4:13, 22, 27; 5:17; 6:4), mas a primeira recebe sua ênfase legislativa apro­priada em Levítico 5:14-16, e pode ser distinguida da oferta pelo peca­do pela exigência adicional da restituição. Destarte, a referência a uma oferta pela culpa no v. 6 pode ser melhor entendida no sentido de “coisa confiscada por castigo.” Para aqueles com posses insuficientes, duas ro­las ou dois pombinhos podiam ser trazidos, um como oferta pelo pecado, e o outro como holocausto (7). A ave abatida para a oferta pelo pecado tinha seu pescoço destroncado, mas a cabeça não era removida como no sacrifício pacífico. (1:15).

Um pouco de sangue era aspergido sobre a parede do altar, e o res­tante na base, conforme o modo das ofertas pelo pecado (9). Esta ofer­ta devia anteceder o holocausto nos procedimentos rituais, pois, de acor­do com o sistema sacrificial hebraico, a reconciliação tinha de ser efetu­ada entre Deus e o pecador antes de o holocausto deste último ser acei­to. O procedimento para o estabelecido (10) é aquele que se descreve em Levítico 1:14-17. Alguns comentaristas procuraram responder à per­gunta de por que eram necessárias duas aves ao sugerir que, visto que era virtualmente impossível separar a gordura da carne numa ave, pri­vando, assim, o sacerdote da porção carnuda da oferta (cf. Lv 6:26), uma ave séria inteiramente queimada para satisfazer as exigências de uma oferta pelo pecado, e a outra seria dada ao sacerdote para seu pró­prio uso. No entanto, uma leitura cuidadosa dos regulamentos para os procedimentos toma clara que a segunda ave devia ser oferecida como holocausto (5:10), de modo que as carcaças das duas aves eram utiliza­das neste tipo de expiação.

11-13. Se uma pessoa fosse pobre demais para trazer rolas ou pombinhos, a décima parte de uma efa de flor de farinha podia ser ofere­cida no lugar (11). É impossível estimar com exatidão quanta farinha de trigo ou cevada seria envolvida, mas pode ter sido até 1,8 kg. de fari­nha. Os pormenores relembram Levítico 2:1-3, mas a diferença é que em Levítico 5:11 a farinha se constitui em oferta pelo pecado, e, por­tanto, deve ser apresentada sem azeite nem incenso. A queima de uma porção memorial (12) dava à oferta a categoria de um sacrifício cruen­to, visto que a amostra era misturada com os demais sacrifícios quei­mados no altar. Não dá, portanto, exceção alguma ao princípio de que sem o derramamento do sangue não há remissão do pecado (Hb 9:22). A farinha serve como substituta de um sacrifício cruento, enfatizando assim o conceito da oferta vicária ou substitutiva, que é básico ao pensa­mento sacrificial hebraico.[10] Uma vez que a expiação e o perdão tinham sido efetuados, o restante da farinha veio a ser a posse do sacerdote, co­mo na oferta de manjares (cf. 2:1-10).

e. O sacrifício pelo sacrilégio (5:14-19)

Esta seção breve de legislação começa com uma fórmula breve de anunciação, e esboça procedimentos a serem seguidos para uma ofensa (15), sendo que o termo hebraico ma‘al significava um ato de infideli­dade diante de Deus. Neste caso, a legislação dizia respeito aos bens do santuário ou dos sacerdotes sendo desviados, talvez porque as ofer­tas tinham sido inferiores quanto ao seu caráter, ou até mesmo tinham sido retidas devido ao esquecimento ou à falta de atenção. A oferta pe­lo sacrilégio ou de reparação (Heb. ’ãsàm) em semelhante caso consis­tia num carneiro sem defeito do rebanho, que ao invés de ser sacrifica­do é avaliado em termos do seu valor monetário. Isto, por sua vez, pressupõe uma capacidade da parte do sacerdote de estimar com exatidão os danos. A palavra be‘erkekã (tua avaliação) adquirira a sílaba final (kà, “tua”) num sentido possessivo que a tomou o termo técnico apro­priado para as coisas santas do Senhor, como em Números 18:16. Noth interpreta a palavra, “se alguém o comparar,”[11] e este dá um bom sen­tido do relacionamento entre o animal e seu valor monetário, que devia orientar os sacerdotes. O siclo de prata do santuário (cf. Êx 30:13) era o padrão para a avaliação, e visto que dinheiro era pago em quantida­des conforme o peso do ouro e da prata na Idade do Bronze (cf. Gn 23: 16) o siclo é uma unidade de peso, e não uma moeda neste período. É impossível ter certeza acerca do peso de um siclo, pois não havia uni­formidade na antigüidade, mas o siclo do santuário talvez pesasse cerca de llg. Seu valor é igualmente incerto, visto que variava em períodos diferentes. O valor monetário precisava ser determinado a fim de avaliar o montante da multa, que era de uma quinta parte da avaliação. Quan­do a soma total tinha sido dada ao sacerdote, este tomava o carneiro e fazia expiação para o transgressor. Este ato não poderia ser empreendido até que a restituição apropriada tivesse sido feita.

Uma classe mais geral de pecados por ignorância consiste em atos proibidos pela legislação da aliança. Aqui há disposições para pessoas que podem ter cometido um delito, mas que não têm certeza total (ain­da que o não soubesse) acerca da questão. Para abranger todas as contin­gências possíveis, uma oferta de indenização sem a multa adicional é requerida, e, assim como na seção anterior, esta consiste de um carneiro sem defeito avaliado em termos do padrão monetário do v. 15. Confor­me a tradição judaica o carneiro devia valer um mínimo de dois siclos,[12] mas esta parece ser apenas uma cifra nominal, e talvez tenha sido estabelecida num período comparativamente tarde para os que achavam mais conveniente fazer sua reparação em dinheiro do que em animais. A relevância desta legislação acha-se na ajuda que oferecia a pessoas de comportamento escrupuloso em se resguardar contra o mínimo delito. 0 sistema sacrificial hebraico parece pragmático e um pouco mecânico à mente ocidental, mas aqui o maravilhoso amor de Deus conforme a aliança, lida com pessoas como personalidades sensíveis, e dá àqueles que correspondem a esta disposição uma oportunidade para aliviar uma consciência delicada. Para cumprir suas obrigações como membro de uma nação santa a pessoa deve visar ser inculpável, doutra forma a re­preensão cairá sobre o povo de Deus. Paulo professava ter como seu al­vo uma consciência limpa diante de Deus e dos homens (Atos 24:16), e evitar colocar qualquer obstáculo no caminho de pessoa alguma (2 Co 6:3). Destarte, conclamava os crentes a não serem um tropeço para as pessoas de modo que não fossem salvas (1 Co 10:32-33), tomando as­sim culposo o ministério cristão. Em Filipenses 2:14, Paulo estabelece um ideal de pureza para o crente, conclamando tal pessoa a ser incul­pável e inocente como filho de Deus num mundo pervertido e corrupto. Tal coisa somente pode ser conseguida quando o indivíduo se apega fir­memente à Palavra viva.



f. As condições que requerem a expiação (6:1-7) 

Esta seção também trata de infrações contra a boa fé, mas estas envolvem danos causados a pessoas em questões de bens pessoais, e não das coisas do tabernáculo. Mesmo assim, o relacionamento estreito en­tre Deus e Seu povo torna um delito contra qualquer uma delas uma ofensa contra o SENHOR (1), visto que Deus é o protetor das posses de uma pessoa. As três ofensas consistem em fraude no que diz respei­to a bens em depósito, roubo, e extorsão, e todos foram feitos ao pró­ximo. A lei ensinava especificamente que não se devia dar falso teste­munho contra uma pessoa (Êx 20:16; Dt 5:20) nem defraudar seu pró­ximo (Lv 19:13), mas, sim, amá-lo como a si mesmo (Lv 19:18), dou­trina esta que foi reforçada por Cristo (Mt 5:43-44; 19:19, etc.; cf. Rm 13:9; G1 5:14; Tg 2:8). O próximo (Heb. ‘amif) era evidentemen­te um membro da comunidade imediata a quem a parte culpada men­tira, ou a respeito dalguma coisa depositada com ele, ou do fato de que não havia prova que um artigo tinha sido deixado como garantia ou penhor. Alternativamente, o vizinho pode ter sido a vítima de roubo ou exploração às mãos dalgum outro membro da comunidade. Ainda outra ofensa envolvia uma pessoa que mentia a respeito de bens perdi­dos que foram achados (3), e isto se constituía numa forma de apro­priação ilícita.

Em cada caso, o fator motivante era a cobiça, juntamente com a esperança de que Deus não notaria a transgressão. Semelhante com­portamento era inapropriado para a família da fé, porque a natureza da comunidade da aliança era tal que se um membro sofria; todos os de­mais eram afetados pela situação (cf. 12:26). Infelizmente, muitas pes­soas religiosas parecem totalmente inconscientes da existência das preo­cupações da ética nos relacionamentos sociais, e, portanto, precisam observar os ensinos do Novo Testamento sobre tópicos tais como a honestidade, a veracidade, o comportamento honroso, o furto, a ex­ploração e similares, conforme são exemplificados na lista de Paulo de frutos espirituais (G1 5:22; cf. Rm 12:17; Ef 4:25, 32; Fp 4:8; Tt 2:10 etc.).

Antes que o transgressor em qualquer destes assuntos especifica­dos pudesse ser perdoado, tinha primeiramente de fazer a restituição apropriada e pagar uma sobretaxa adicional de uma quinta parte dos bens, presumivelmente em quantidades de prata por peso. Este tipo de penalidade obviamente visava inculcar nos transgressores em potencial a importância da honestidade e da veracidade nos relacionamentos sociais, e enfatizar a despesa que poderia ser envolvida numa quebra da condu­ta ética. Somente depois da indenização ter sido adequadamente trata­da é que o transgressor poderia trazer seu carneiro sem defeito, corre­tamente avaliado como oferta pelo sacrilégio (cf. 5:15, 18), e receber a expiação mediante a confissão do pecado, e o sacrifício. A garantia do perdão divino para o pecador arrependido é um tema consistente da legislação sacrificial em Levítico, como também o é no Novo Testamen­to (1 Jo 1:9, etc.).

g. Os holocaustos (6:8-13)

Ao passo que as seções prévias tinham tratado dos tipos de sacri­fícios que Deus requeria do Seu povo, o remanescente do capítulo 6 e a totalidade do capítulo 7, que formam uma unidade distinta no texto hebraico, consistem em um manual de procedimento sacrificial endere­çado ao sacerdócio. Seguindo os padrões sacerdotais normais do Oriente Próximo antigo, esta matéria estaria em forma escrita desde o próprio início. Ao passo que os regulamentos abrangem as categorias de ofer­tas que ocorrem em Levítico 1:1 — 6:7, fazem-no com ênfase especial sobre o comer da carne sacrificial, e até que ponto o adorador podia participar com o sacerdote em tais refeições. Arão e seus filhos (9), co­mo zeladores das tradições sacerdotais, são instruídos na Lei (Heb. tôrâ), termo este que significa “orientação” ou “instrução” (cf. Lat. doctrinà), que ocorre no começo de passagens em Levítico 6:8 — 7:38 que tratam de leis específicas ou grupos de leis.

Os sacerdotes são ordenados a conservar o fogo do altar queimando continuamente (9-13), visto que o holocausto tinha de ser completamen­te consumido no altar. O sacrifício descrito é o holocausto contínuo ou tàmid de Êxodo 29:38-42, oferecido toda manhã e tarde em prol da comunidade como um todo. Esta cerimônia relembrava aos israelitas sua necessidade da adoração contínua do Senhor e os assegurava da Sua vigilância constante em prol deles. O crente em Cristo está libertado da necessidade de observar procedimentos rituais preceituados à medida em que anda com o Senhor, e pode regozijar-se na presença e proteção de Deus onde quer que se achar. Os regulamentos que regem o fogo do altar meramente focalizam a atenção num só aspecto dos deveres do sa­cerdote oficiante, e não visam suplantar as instruções já dadas em Leví­tico 1:1-17. O sacerdote era informado que tinha de conservar o animal sacrificial a noite inteira na lareira (9), sendo que esta última expressão seria melhor traduzida “na sua lenha.” A gordura do sacrifício goteja­ria para baixo sobre o fogo do altar e o capacitaria a queimar até à ma­nhã seguinte, e nesta ocasião o sacerdote devia seguir o ritual preceitua­do para a remoção das cinzas engorduradas. Usava uma túnica e cal­ções de linho para aquela tarefa (cf. Êx 28:39-42), sendo que o linho era o tecido favorecido para as roupas dos sacerdotes do Oriente Pró­ximo antigo, e depois de as cinzas terem sido colocadas ao lado do al­tar, tinha de trocar-se e pôr outras vestes (11) e levar as cinzas para um monturo de lixo, limpo, fora do arraial (cf. 4:12). No interim, ainda era sua responsabilidade conservar queimando o fogo do altar, e acres­centar mais lenha se necessário. Parece improvável que as cinzas seriam deixadas para acumular ao lado do altar por muito tempo, conforme têm sugerido alguns comentaristas. As proibições do sábado acerca de acender fogos (Êx 35:3) não se aplicavam ao tabernáculo. Porque havia duas ofertas diárias, o fogo do altar ardia sempre (13). Uma “chama eterna” pode ser passfyel de grande quantidade de simbolismo, ou ne­nhuma. Para os hebreus antigos tipificava, entre outras coisas, a pre­sença de Deus entre Seu povo (cf. Êx 13:21-22), e Suas próprias exigên­cias de que Sua nação da aliança adorasse a Ele somente. Alguns cris­tãos têm visto neste fogo contínuo a obediência de Jesus Cristo, nosso Sumo Sacerdote que, em obediência até ao ponto da morte (Fp 2:8) ofereceu-Se como o sacrifício perfeito para o pecado humano.

A ênfase sobre o ritual do fogo sem dúvida terá impressionado o leitor com dois fatos interessantes. Em primeiro lugar, mesmo numa tarefa tão aparentemente servil como a remoção das cinzas do altar, era o sacerdote oficiante, e não um assistente, que a realizava. Em segundo lugar, para este trabalho este mesmo homem devia ser vestido de roupas diferentes daquelas que usava no lugar santo. Sempre há uma dignidade e uma importância ligada à realização das tarefas que o Senhor atribui a Seus servos, não importa quão trivial o trabalho pareça ser. A maneira de a pessoa aparecer fisicamente diante de Deus freqüentemente revela sua atitude mental (cf. Mt 22:11-14). A indiferença e o comportamento casual são inaceitáveis quando somos ordenados a ter nossos lombos cin­gidos para o serviço, por mais humilde que esse serviço específico pareça. No que diz respeito ao sacerdote nesta seção, seu ministério numa só oca­sião poderia variar entre o esvaziamento das cinzas do altar e a declara­ção que expiação foi feita. Seja qual for a ocasião, estava disposto tan­to na aparência quanto nas intenções, e, mediante sua versatilidade e disposição, serve como modelo para o ministério cristão no seu sentido mais amplo.

h. As ofertas de manjares (6:14-23)

14-18. Nesta seção, ressalta-se outra vez o papel dos sacerdotes e a destinação que devem dar ao restante da oferta depois de a porção memorial ter sido queimada. Estes regulamentos suplementam a maté­ria em Levítico 2:1-16, com a qual há considerável correspondência ver­bal. Uma vez que a porção memorial (15) tinha sido oferecida, o rema­nescente do sacrifício podia ser comido pelos sacerdotes numa área con­sagrada, neste caso no pátio da tenda da congregação (16). O sacrifício devia ser comido dentro do recinto ou “pátio” do tabernáculo porque era uma oferta santíssima. O mesmo era o caso das ofertas pelo pecado (cf. 5:13) e pelo sacrilégio (cf. 7:10), que também eram reservadas para o uso do sacerdócio arônico. A proibição do fermento em conexão com a oferta de manjares (cf. 2:4, 11) era aplicável ao seu uso pelos sacerdotes também, porque coisa santíssima é (17). O alimento assim designado so­mente podia ser comido pelos sacerdotes no recinto do tabernáculo, em 




contraste com as “coisas santas.” que podiam ser consumidas pelo sacer­dote e pela sua família em condições normais de limpeza cerimonial (cf. 2:3). Todo varão (18) aronita podia comer a oferta de manjares, até mesmo aqueles que exibiam algum defeito físico e que eram, portanto, maculados (cf. 21:18-23). A ênfase dada à santidade cerimonial descre­ve a situação de uma dádiva consagrada a Deus, conforme indicou Cris­to (Mt 23:19), e dá a entender que a santidade ritual podia ser transmiti­da pelo contato, assim como podia ocorrer com a contaminação ritual. Já no período pós-exílico, os sacerdotes no tempo dè Ageu decidiram, em resposta a perguntas, que aquilo que era cerimonialmente santo con­feria sua santidade a um objeto imediato de contato, e nada mais (Ag 2:12), opinião esta que subseqüentemente encontrou considerável discus­são nos círculos talmúdicos (cf. Pesachim 14a ss.).

Os rituais levíticos tornam abundantemente claro que é questão de grande responsabilidade para pessoas estarem no serviço de Deus vi­vo. Pelo seu ato inicial de dedicação, entram num relacionamento de santidade diante de Deus, e devem cumprir a vontade do Senhor confor­me o modo de Ele a preceituar, e não conforme pensam que poderia ser cumprida. Para o cristão, a santidade é o resultado da obra do Espírito Santo na vida do indivíduo, removendo aquilo que é estranho à nature­za de Cristo e capacitando o crente a crescer na graça (cf. Ef 4:15; 2 Pe 3:18, etc.) de tal maneira que possa adaptar-se à estatura de Cristo. Por­que a santidade é uma questão da personalidade, não pode ser transmiti­da mecanicamente por meio do contato com elementos “consagrados,” amuletos e bugigangas semelhantes.

19-23. Do sumo sacerdote exigia-se que apresentasse a Deus uma oferta diária de manjares para si mesmo e para os sacerdotes, que consistia em a décima parte dum efa de flor de farinha (20). Esta pe­quena quantidade era uma oferta simbólica dividida igualmente entre os sacrifícios da manhã e da tarde, e ordenada desde o tempo (no dia em que) em que o sumo sacerdote foi consagrado. A oferta era mistura­da com azeite e assada numa assadeira (ver as notas sobre 2:4-7), depois do que era oferecida em pedaços cozidos, Hebraico tupinim (ler t?pu- tennâ), palavra de significado incerto. Esta oferta era completamente queimada, visto que os sacerdotes não poderiam comer as porções san­tíssimas oferecidas em prol deles mesmos. Estes regulamentos chamam a atenção à integridade do cargo sacerdotal. Aqueles que detêm este cargo, não devem ser presunçosos com ele, nem devem imaginar que, como sacerdotes, estão acima da lei, que é o que aconteceu subseqüen­temente na história de Israel (e.g. ISm 2:12, 16-17, 22). A familiari­dade com as atividades não deve ter licença de criar descaso para com elas (cf. Ml 1:6-7). É um privilégio para o cristão servir Aquele que o comprou com Seu próprio sangue, e ter o fogo do Espírito em semelhan­te ministério (Rm 12:11).

i. A oferta pelo pecado (6:24-30)

Esta seção trata das responsabilidades do sacerdote no ritual (4: 1 — 5:13), enfatizando a natureza santa da oferta. Era sujeita aos re­gulamentos que regiam as demais ofertas santíssimas, e conferia a san­tidade cerimonial às pessoas ou coisas que tocavam nela. A contami­nação acidental das roupas pelo sangue sacrificial requeria a lavagem de­las no lugar santo (27). O texto fala da porção do sacerdote sendo co­zida ao invés de ser assada, e preceitua os rituais da limpeza conforme o caso de o vaso ser de bano ou de bronze. Uma diretriz aos sacerdo­tes lembra-os que certos sacrifícios são considerados sagrados demais até para eles comerem. Os cristãos não devem vangloriar-se da sua po­sição espiritual, mas, sim, devem humilhar-se sob a mão poderosa do Senhor (Tg 4:10; 1 Pe 5:6), e labutar como cooperadores na causa de Cristo.

j. Regras para as ofertas pela culpa (7:1-10)

A oferta pela culpa ou a reparação (5:14-19) era outro sacrifício santíssimo, e o direito de consumi-la era restrito ao sacerdócio arônico. Quando foi descrita pela primeira vez, nenhuma orientação foi dada acerca da destinação da porção do Senhor, e agora o procedimento pas­sa a ser delineado. A ’ãsám, ou oferta, é abatida onde o holocausto é sacrificado, seu sangue é aspergido nos lados do altar (2) e os tecidos gordurosos, que correspondem à lista conservada à parte paia Deus (cf. 3:9-10), são queimados no altar como sacrifício de reparação. O res­tante da oferta passa então a ser a posse dos sacerdotes. O estreito rela­cionamento entre a oferta pelo pecado e a oferta de reparação fica sen­do explícito aqui (7). O sacerdote oficiante também recebe todas as ofertas de manjares que tenham sido assadas, seja no fomo. . . na frigi­deira. . . òü na assadeira (9), e é rèpetida a diretriz de que todos aqueles de posição sacerdotal são elegíveis para tais ofertas (10). Estas instru­ções enunciam claramente o princípio de que aqueles que ministram

no altar devam participar das ofertas sacrificiais (1 Co 9:13; 10:18). Estas se constituem no sustento dos sacerdotes, e os capacitam a dedi­car seu tempo e suas energias ao serviço do Senhor ao invés das ocupa­ções menos importantes (cf. Atos 6:2). É a responsabilidade do povo do Senhor dar sustento econômico apropriado para aqueles que são ministros do evangelho com tempo integral (cf. 1 Tm 5:17-18), a fim de que não sejam distraídos por preocupações puramente materiais da sua tarefa primária de proclamar o Senhor crucificado e ressurreto.

k. Regras para as ofertas pacíficas (7:11-21)

11-18. As várias porções que pertencem ao Senhor, ao sacerdo­te e ao ofertante são enunciadas para suplementar os preceitos de Levítico 3:1-17, que tratava predominantemente com a mecânica do ritual.

O sacrifício pacífico ou de bem-estar (NEB “ofertas repartidas”) podia ser apresentado como ações de graças em conexão com um voto feito a Deus (cf. SI 116:14) ou como oferta voluntária (16), e era o único sa­crifício na tarifa inteira em que o ofertante tinha licença de participar. No judaísmo posterior, a oferta de ações de graça era valorizada Gomo o tipo mais elevado de sacrifício, mas aqui é apenas uma categoria de oferta, que visava promover O bem-estar do adorador. A dádiva de ações de graças (Heb. tôda) representava o reconhecimento do ofertante quan­to às misericórdias de Deus para com ele, [13] ao passo que a oferta voti­va (Heb. neder) era uma oferta para cumprir um voto. A oferta volun­tária (Heb. nedãbâ) consistia em um ato de homenagem e obediência ao Senhor num caso em que nenhum voto tinha sido feito e, juntamen­te com as demais categorias dos sacrifícios de bem-estar, dava substância à convicção em Israel de que Deus dava valor a uma resposta tangível às Suas bênçãos mais do que a uma profissão meramente verbal de gratidão, que pode ser sincera, ou não. De modo semelhante, o cristão é ordenado a amar não somente de palavra, nem de língua, mas de fato e de verdade (1 Jo 3:18). Juntamente com a oferta de ações de graças vários tipos de bolos asmos e levedados deviam ser apresentados (13), um dos quais era a porção do Senhor e era dado ao sacerdote oficiante.

O adorador não tinha licença de deixar qualquer parte da carne do ani­mal sacrificial para outro dia mas, sim, era-lhe exigido que a comesse na ocasião em que foi oferecida. Para uma oferta voluntária, porém, ou uma que era feita para cumprir um voto, no entanto, o ofertante tinha licença de usar um dia adicional para completar a festa (16), e nesta ocasião provavelmente convidaria amigos para participarem (cf. Dt 12:12). Qualquer carne que permanecia depois daquele tempo ti­nha de ser queimada, mais provavelmente como uma medida higiênica. Se esta injunção fosse desobedecida, a oferta do bem-estar seria nula e sem efeito. Longe de ser creditada ao ofertante, seria coisa abominável (18, Heb. piggúl), um termo técnico usado para descrever carne sacrifi­cial que se tornara passada por causa de não ter sido comida dentro do tempo alocado (cf. Lv 19:7; Is 65:4; Ez 4:14). Como resultado, o adorador leigo desobediente levará a sua iniqüidade (18), que em Levtico 19:8 significava a morte às mãos de Deus. Em Gênesis 17:14 e Êxodo 12:15, no entanto, o mesmo castigo talvez tenha apenas envol­vido o exílio, mas isto não é certo.

O sacrifício de bem-estar seguia o padrão geral do holocausto, excetuando-se que nenhuma ave era permitida como oferta e os animais tinham de ser fêmeas. Além de ser o único sacrifício a ser comido pelo ofertante, também era distintivo por ser o único sacrifício de animais que não fazia expiação pelo pecado. A motivação subjacente das ofer­tas pacíficas era de apreciação ou de gratidão, que nem sempre é um elemento destacado da vivência cristã. O crente é instruído a fazer co­nhecidas a Deus as suas petições com ações de graças (Fp 4:6), a perseve­rar na oração, vigiando com ações de graças (Ef 5:20).

19-21. Estes versículos tratam das condições cerimoniais da san­tidade ou da imundícia que afetariam o resultado final da oferta pací­fica. Carne sacrificial que entrava em contato com qualquer coisa imun­da não devia ser comida, e qualquer pessoa que participava da carne en­quanto padecia alguma impureza física corria o risco da morte. Este destino também aguardava qualquer pessoa que comia a carne sacrificial depois de ter tocado em qualquer coisa poluída. A coisa imunda (21), Hebraico seqes, provavelmente era algum tipo de bicho verminoso, mas se o Texto Massorético for lido como seres poderia referir-se a “répteis que rastejam.”

Fica óbvio na linguagem vigorosa destas proibições que a partici­pação do leigo no sacrifício era levada com extrema seriedade. Não se de­ve imaginar, no entanto, que a ênfase principal recaía sobre a santidade circunstancial. O que está consistentemente em vista é a motivação do adorador, pois se sua condição de santidade cerimonial tinha sido uma questão de preocüpação com ele, pode ser tomada como boa indi­cação da sua atitude para com o Deus de Sinai, que era de alto caráter moral e ético.[14]



l. Proibidos a gordura e o sangue (7:22-27)

Esta seção é introduzida por uma fórmula: Falai aos filhos de Israel, que indica que os regulamentos que contém são para a dissemi­nação geral, e não são restritos ao sacerdócio. As estipulações básicas a respeito da abstinência da gordura já tinham sido dadas em forma resu­mida (3:11), e a esta altura uma explicação mais plena é fornecida ao povo como um todo. Nenhuma gordura de qualquer tipo deve ser comi­da (ver notas sobre 3:3-5), embora a gordura de animais que se suici­daram, que morreram de causas naturais, ou que tinham sido rasgados por feras, poderia ser utilizada doutras maneiras, que provavelmente incluiriam um método para tratar das víboras que atacavam as ovelhas que pastavam. Estes répteis emergiam das suas tocas e mordiam o fo­cinho das ovelhas enquanto se alimentavam, causando uma ferida que o pastor teria que banhar com azeite enquanto as ovelhas passavam de­baixo das suas mãos para entrarem no redil no fim do dia (SI 23:5). Na antigüidade, os pastores geralmente enfrentavam a ameaça das víbo­ras por meio de colocar a gordura de animais, normalmente porcos, ao redor da beirada das covas onde viviam os répteis, e de deitar fogo aos pedaços gordurosos, afugentando deste modo as víboras. No tempo pre­sente, a gordura de porcos ainda é usada para este propósito pelos pas­tores da Palestina. No pensamento hebraico geral as porções gordas do sacrifício perfaziam as seções seletas e, portanto, apropriadas para Deus somente.

Embora todas as coisas pertençam a Deus em última análise, Seu relacionamento com o crente exige que este último transfira a Deus uma certa proporção daquelas coisas materiais que foram confiadas a ele (1 Cr 29:14). Esta exigência remove o relacionamento espiritual de um nível puramente verbal, e exige esforço do participante humano para sua dedicação ser posta em prática. É por esta razão que Deus exige Sua porção da oferta sacrificial, e porque aquela exigência deve ser satis­feita antes de o ritual poder continuar, ainda que envolva a queima da totalidade do sacrifício. 0 princípio de devolver a Deus uma porção daquilo que Ele outorgou era formalizado no sistema da dizimação, ou a oferta de uma décima parte, e ele continua a trazer bênçãos àqueles que aplicam as palavras de Malaquias 3:10 à sua própria experiência re­ligiosa.

O pronunciamento enfático no v. 20, acerca da eliminação den­tre o povo de quem violasse esta disposição era aplicado com igual vigor àquele que comia sangue em qualquer forma, seja de animais, seja de aves. Estas duas espécies são mencionadas a fim de abranger a gama de ofertas sacrificiais em Israel. O sangue era a sede da vida (17:11), e visto que a vida era a propriedade e dádiva especiais de Deus, tinha de ser devolvida a Ele somente, e não destinada aos seres humanos. Há óbvias implicações higiênicas bem como teológicas em mente, natural­mente, pois o sangue transmite doença bem como saúde, e se for inge­rido, portanto, pode ser o veículo de uma variedade de enfermidades. A insistência tradicional dos judeus de que é correta sua maneira de abater os animais de tal modo que remova todo o sangue dos tecidos é um dos valores permanentes da cultura deles que deve recomendar-se de modo mais consistente aos gentios. De um ponto de vista higiêni­co e dietético, esta came kosher é aquela que pode ser comida com mais segurança.

m. Regulamentos adicionais para as ofertas pacíficas (7:28-38)

Assim como a seção anterior, esta passagem começa com uma fórmula de aviso, que visa dar orientação geral acerca da oferta pací­fica à congregação de Israel. Trata principalmente com aquilo que pode ser considerado um anexo às regras que governam estas ofertas (3:1-17; 7:11-21), e registra pormenores acerca da participação dos sacerdotes que não foram mencionados anteriormente. Os israelitas agora estão deixados plenamente a par desta situação, e, portanto, sabem exatamen­te o que é envolvido nos rituais. Os bolos asmos e levedados (12-13), uma parte dos quais era doada aos sacerdotes oficiantes, não são referi­dos aqui, visto que o assunto em pauta é a carne dos sacrifícios.

30-34. Seguindo os procedimentos normais, a gordura é atribuí­da a Deus, e quando um peito contendo tecidos gordurosos é oferecido, é movido para frente e para trás na presença do Senhor por oferta movi­da antes de a gordura ser consumida no altar. O peito então era dado aos sacerdotes como a porção deles. O ato de mover enquanto a oferta era apresentada mais provavelmente constituía-se no ato de o sacerdote estender a porção na direção geral do altar e depois retirá-la, como gesto de dedicação. Segundo o falecido Rabino-Mor Hertz, algo mais complexo e significante era envolvido do que aquilo que o presente escritor concebe como tendo sido um simples ato de apresentação ao altar. Ao discutir a porção do sacerdote dos sacrifícios de bem-estar, descreveu o antigo procedimento ritual de “mover” nos seguintes termos: a porção preceituada para o uso do sacerdote era primeiramente colocada sobre as mãos do ofertante. A esta altura, o sacerdote oficiante colocava suas próprias mãos debaixo das mãos da pessoa que oferecia o sacrifício, e as movia primeiramente para a frente e para trás, e depois para cima e para baixo. Este ato simbolizava a consagração da oferta a Deus, o Sobera­no do céu e da terra.[15] Se o Rabino tem razão na sua interpretação, a oferta movida tem um significado ainda mais profundo, porque os mo­vidos fazem, na realidade, o sinal da cruz. Aqui, no coração do sistema sacrificial levítico, há um prenunciar dramático da morte de Cristo no Calvário como o evento mediante o qual a expiação e a reconciliação (Ef 2:13-14) são feitas para todo o sempre. .

Ao sacerdote oficiante (32) era reservada a coxa direita (Heb. sôq hayyãmín), considerada então e agora uma das partes mais seletas do animal. Em 1 Samuel 9:24, era a porção reservada para o hóspede de honra. Embora a coxa fosse provavelmente uma das partes mais ten­ras da carcaça, e, portanto, especialmente apropriada para oferecer à vi­sitas, deve ser lembrado que, no que diz respeito ao valor nutritivo, todas as seções de carne de um determinado animal têm igual valor nutritivo. NEB oferece uma interpretação mais moderna de oferta aqui; “contri­buição”, que é o significado geral de tarumã, e subentende alguma coi­sa “posta de lado, reservada.” 0 peito e a coxa são preceituados por Deus como sendo aquelas porções das ofertas pacíficas que pertencem de direito ao sacerdócio arônico, e que continuarão sendo direito per­pétuo (34) a eles da parte da nação enquanto durar o sistema sacrificial.

Escavações arqueológicas em Laquis descobriram um bem-conservado templo cananeu que tinha sido destruído cerca de 1220 a.C., apa­rentemente pelos hebreus, enquanto estava em pleno funcionamento. Das minas foram reavidos ossos de animais e aves, em grande quantida­de, todos os quais pertenciam à seção superior da perna dianteira di­reita.[16] Este fato indicaria alguma consonância ritual entre as práticas, cultuais de Israel e as dos cananeus, especialmente se a “coxa” dos w. 32-33 fosse traduzida “ombro”. Mediante um exame, pouquíssimos dos ossos indicavam qualquer contato com o fogo, o que sugere que a carne tinha sido fervida (cf. 1 Sm 2:13-14). Este modo de preparo seria mais apropriado para a came do ombro do que para as porções mais tenras da coxa, embora até mesmo estas últimas possam ser estragadas por um preparo descuidadoso.

35-36. A legislação que garantia a integridade e a continuidade dos fornecimentos de alimentos para os sacerdotes era datada oficial­mente a partir do tempo em que o sacerdócio arônico foi constituído e ordenado. Como conseqüência, as ofertas preceituadas para o susten­to do sacerdócio devem continuar no futuro previsível. Assim, portan­to, foi deixado claro que, ainda se uma pessoa está dedicada a atividades tão celestiais como ministrar as coisas de Deus, ainda assim é um traba­lhador que merece, portanto, o seu salário (cf. Lc 10:7). O servo do Senhor, por sua parte, é ordenado a não preocupar-se acerca do alimen­to, da bebida e das roupas para o dia seguinte (Mt 6:31), visto que estas são preocupações impróprias para aqueles que estão procurando o rei­no de Cristo e a Sua justiça.

37-38. Estes versículos perfazem a declaração final do corpo in­teiro de regulamentos que dizem respeito aos sacrifícios (1:1 — 7:38). Esta pequena seção é especialmente interessante por causa da sua forma literária, exemplos da qual destacam-se especialmente no livro de Gêne­sis. Está escrita no estilo de um colofao de uma tábua mesopotâmia, e muitos exemplares deste padrão foram reavidos durante escavações. O emprego da palavra “colofão” em conexão com documentos literários e outros da Mesopotamia não deve ser identificado por demais estreita­mente com seu sentido atual, que meramente descreve a marca da publicadora no fundo da folha de rosto de um livro.

Na Mesopotâmia, o colofão continha tudo quanto se poderia espe­rar que acharia na folha de rosto de um livro impresso, mas ao invés de anteceder a matéria numa tábua, formava o término dela. Tais tábuas, quando intatas, normalmente começavam com um título, que consistia nas palavras iniciais da matéria, e depois continuavam com o corpo de qualquer coisa que estava sendo registrada, e terminavam com o colo­fão. Este padrão frequentemente incluía o título ou a designação do con­teúdo, a data em que a tábua foi escrita e o nome do dono, que também poderia ter sido o escriba. Certos tipos de matéria, tais como o Épico de Gilgamés, eram escritos em mais de uma tábua, e eram ligados por meio de um método de conexão conhecido como “linha de chamada” de tal maneira que seriam lidos na sua ordem correta. Quando este era o caso, o colofão forneceria o número da tábua quando fazia parte de uma série, e também declararia se aquela tábua específica era a última da série,

ou não. '

No que diz respeito à matéria de Gênesis, é possível isolar onze uni­dades literárias na forma de tábuas mesopotâmicas antigas nos caps. 1:1 — 37:2 ao reconhecer que a frase, “estas são as gerações de”, marca a pre­sença de um colofao no texto. Ao ler de trás para a frente,do colofao para o título, a unidade literária completa é recuperada, e demonstra-se que ela se conforma aos padrões típicos mesopotâmios. A primeira des­tas unidades (Gn 1:1 — 2:4) atribui uma data antiga à matéria (“quando foram criados”), que consiste em tudo anterior a Gênesis 2:4. A segunda forma proposta para uma tábua (Gn 2:5 — 5:2) não parece ter conserva­do um título, mas talvez tenha sobrevivido numa forma danificada, visto que muitas tábuas da Mesopotâmia estão quebradas em vários lugares. O colofao em Gênesis 5:2, no entanto, deixa claro que a matéria original consistia em tudo quanto a precedia.[17]

Voltando-nos para Levítico 7:37-38, é possível identificar os se­guintes elementos de um colofao mesopotâmio antigo: o título (“que o SENHOR ordenou a Moisés”), a ser comparado com as palavras iniciais de Levítico; o nome do escriba ou do dono da matéria (“Moisés”), e uma data do registro, colocada por um escriba (“no dia em que ordenou aos filhos de Israel que oferecessem as suas ofertas ao SENHOR, no deserto de Sinai”). Talvez a enumeração dos itens principais (37) tratada na le­gislação sacrificial da seção inteira correspondesse à praxe mesopotâ­mia de indicar num colofao o número de uma tábua quando formava par­te de uma série. Moisés teria perfeita familiaridade com a escrita cuneiforme e práticas dos escribas babilônios, sendo ele mesmo educado em toda a sabedoria dos egípcios (Atos 7:22), visto que nem sequer um século an­tes, na era de Amarna, a babilónica tinha sido a língua franca da diplo­macia do Oriente Próximo. Como a pessoa que era mais provavelmente responsável por combinar a máteria subjacente de Gênesis, escrita em tábuas, com as narrativas de José para produzir o livro conforme o co­nhecemos, Moisés decerto teve familiaridade em primeira mão com as fontes documentárias histpriográficas, conservadas, já nos tempos dele, talvez em papiro ou couro.

É muito provável que ele tenha resolvido apresentar a legislação sacriflcial aos israelitas numa forma literária semelhante àquela que con­servava as tradições escritas mais antigas dos seus ancestrais a fim de lhe dar o tipo clássico de expressão que um corpo tão fundamentalmente importante de regulamentos exigia. De qualquer maneira, a matéria está disposta num estilo que seria facilmente reconhecido pelos literatos do se­gundo milênio a.C.

O colofao em Levítico 7:37-38 marca o térmico de uma seção im­portante de matéria legislativa, autentica-a, e data-a decisivamente no se­gundo milênio a.C. Não pode haver absolutamente qualquer questão deste colofão ser uma falsificação, nem uma retrojeção à era de Moisés por um redator muito posterior. Como outros exemplares do seu tipo da Me­sopotamia, testifica da autoria e data, assim como faz a página de rosto de um livro moderno. O corpo inteiro da legislação dá todas as indica­ções da antigüidade, contendo exemplos da terminologia técnica sacrifi­cial antiga, alguns elementos da qual já se tornaram obsoletos nos tempos de Moisés. A antigüidade e a continuidade das matérias sacerdotais é característica nas nações do Oriente Próximo antigo, e, portanto, não é excepcional nos círculos antigos israelitas. Não somente pode esta seção ser atribuída na sua inteireza, com completa confiança, ao pe­ríodo mosaico, mas, sim, por causa da natureza da matéria, e o grau de veneração atribuído ao escriba que a compilou, deve haver considerável dúvida se quaisquer modificações textuais, a não ser as mínimas, foram feitas no decurso da história inteira da sua transmissão. Este argumento é confirmado pela pureza do texto hebraico, que não contém dificuldade alguma, a não ser um plural em Levítico 6:5 (“suas quintas partes”), que o Pentateuco Samaritano e numerosos manuscritos registram no singular; o termo ininteligível tupiním (6:21 — TM 6:14) e a possível substituição de seres em lugar de seqes em Levítico 7:21, sendo que esta última en­volve a mudança de uma consoante apenas, mas, mesmo assim, uma al­teração um pouco debatível. Segundo quaisquer padrões, estas “dificul­dades” são de natureza mínima, deixando-nos um âmago original, não adulterado de legislação sacrificial hebraico que, a despeito da forma li­terária um pouco estereotipada que ocasionalmente é apresentada, con­segue dar vazão a certa variação de estilo, conforme é indicada pela forma um pouco complexa de Levítico 6:1-5.

Esta matéria jurídica incorporava os meios pelos quais um trans­gressor contra os regulamentos da aliança podia receber o perdão para os pecados da omissão, de inadvertência ou por acidente, e ser reconci­liado ao Deus vivo de Israel. Para o leitor moderno, os pormenores do procedimento sacrificial podem muito bem constituir-se em leitura tediosa e desinteressante, mas para os hebreus antigos era um elemento fundamentalmente importante na sua vida espiritual, e continuou a per­manecer assim até que o sistema sacrificial chegasse a um fim efetivo quando o templo de Jerusalém foi destruído em 70 d.C. Mas o signifi­cado dos vários preceitos não terminava ali, porque, à medida em que os regulamentos são estudados de novo, lembram o leitor de certos aspec­tos fundamentais da auto-revelação de Deus aos homens. Ele é puro e santo por natureza, não meramente num sentido cerimonial envolvendo a propriedade ritual, mas também num sentido ético e moral também. Aque­les que desejam adorá-Lo devem fazê-lo em espírito e em verdade (Jo 4: 23-24), mais do que de uma maneira formal de comportamento, se é que querem ser reconciliados com Ele e conhecer Sua bênção nas suas vidas. Os aspectos éticos e morais da natureza de Deus são a razão para a grande seriedade que Deus atribui ao pecado. Constitui-se em afronta à Sua natureza e uma contaminação da Sua pureza inata, e, como resultado, Deus não pode contemplar a iniqüidade com equanimidade ou compla­cência (cf. Hc 1:13). Odeia o pecado ao passo que ama o pecador, mas antes de este último poder ser restaurado à comunhão, um ato de expia­ção deve ocorrer, mediante o qual o pecado será removido.

É importante lembrar-se'que os únicos tipos de pecado que podiam ser perdoados eram os por ignorância! A lei declarava explicitamente (Nm 15:30-31) que para pecados cometidos “atrevidamente” contra Deus, é, atos realizados em deliberado desafio à legislação explícita da alian­ça, não poderia haver perdão. Ao comportar-se de tal maneira, o trans­gressor ultrajara seu Deus, e sofreria a penalidade de tal rebeldia, que se­ria a extinção pessoal. Conforme é observado nos comentários sobre os versículos correspondentes, esta legislação sacrificial prenuncia a obra expiadora de Cristo ao demonstrar aquilo que poderia ser descrito como a base teorética da expiação. Até mesmo os pecados acidentais ou de omissão não poderiam ser perdoados sem o derramamento de sangue (cf. Hb 9:22), que incorporava os princípios do custo e da dedicação.

Somente quando uma oferta tinha sido apresentada da maneira apropriada, i.é, recte, com uma atitude genuinamente arrependida de coração e mente, ao invés de rito, i.é, mecanicamente, de acordo com os preceitos verbais dalgum formulário cultual, é que o pecador pode­ria ter a garantia de que a expiação fora feita. A obra de Cristo repre­senta um avanço relevante sobre as disposições da legislação mosaica, no fato de que até mesmo atos deliberados de pecado contra Deus po­dem ser perdoados se o transgressor está verdadeiramente arrependido e confessa seus pecados ao Senhor. De acordo com os ensinamentos de Cristo, o único tipo de transgressão que nunca pode ser perdoado é o pecado contra o Espírito Santo (Mt 12:31; Mc 3:29; Lc 12:10). Esta ofensa consistia em “blasfêmia contra o Espírito,” a saber; atribuir a ori­gens demoníacas a influência e a obra do Espírito Santo na vida humana. Uma perversão tão crassa do amor segundo a aliança representa o pon­to além do qual o perdão não pode continuar, por causa da inversão to­tal dos valores espirituais que está envolvida. Nenhum crente verdadeiro poderia em qualquer tempo cometer uma transgressão tão horrenda, que tem suas raízes nos poderes das trevas. Mas para guardar-se con­tra uma queda na tentação e no pecado, os cristãos precisam ficar sem­pre à sombra da cruz, confessando seus delitos, rogando sinceramente o perdão, e experimentando pela fé a certeza de que o sangue de Jesus Cristo, o Filho de Deus, purifica o pecador arrependido de todo o peca­do (1 Jo 1:7).






[1] Esta forma ocorre frequentemente em textos rituais da Mesopotamia, como nas sériesSurpu de sortilégios, que continham listas longas de possíveis contatos impuros que talvez tenham resultado na doença do paciente. 


[2] Somente por meio de tomar por certa, sem críticas, a posição wellhau- siana com sua inversão de seqüências históricas é que J. R. Porter, Leviticus (“Cam­bridge Bible CommentarJ’,” 1976), pág. 37, pode sustentar que não há evidência al­guma de que os sacerdotes eram ungidos originalmente. 


[3] Cf. R. A. Cole, Êxodo, pág. 199. 


[4] W. Walker, All the Plants of the Bible, pág. 158, identifica onicha com uma esteva que produz goma, Cistus ladaniferus. 


[5] O Grego parembolè (“arraial”) é citado da LXX de Lv 16:27. 


[6] M. Noth, Leviticus, pág. 41. 


[7] D. J. Wiseman, Bibliotheca Sacra, 134,1977, págs. 228 ss., argumentou que o termo pode ter descrito o vice-líder, tal como um vice-governador ou um líder subordinado. Em 1 Rs 4:5, 7; 5:7; 22:48, o termo nissàb, sem relacionamento com este, serve ao mesmo propósito. 


[8] M. Noth, Leviticus, pig. 42. 


[9] Para este sentido mais antigo de “cobrir” ver N. H. Snaith, Leviticus and Numbers (1967), pág. 30. 


[10] O. T. Allis, The New Bible Commentary Revised (1970), pág. 146. 


[11] M. Noth, Leviticus, pag. 47. , 


[12] K. Eiliger, Leviticus (1966), pag. 77. Cf. E. A. Speiser, Oriental and Bi­blical Studies (1967), pigs. 124-128. 


[13] Cf. W. Eichrodt, Theology of the Old Testament, (1961), pág. 147. 


[14] D. F.Kinlaw,iteflco/i Bible Commentary (1969), pág. 344. : 


[15] J. H. Hertz (ed.), The Pentateuch andHaftorahs (1940), pág. 434. 


[16] G. E. Wright, Biblical Archaeology (1960), pág. 15. 


[17] Paia uma explicação mais completa deste procedimento confoime é apli­cado a Gênesis, ver P. J. Wiseman, Clues to Oeation in Genesis (1977), págs. 31 ss. Este livro, editado pelo Professor D. J. Wiseman, é uma combinação das obras de P. J: Wiseman, New Discoveries in Babylonia about Genesis (1936) e Creation Revealed in Six Days {1948). Ver também HIOT, págs. 63-64; 545-551.