2 de novembro de 2016

R. K. HARRISON - Regulamentos a respeito do sacrifício (1:1-7:38 - Parte 1)

antigo testamento danilo moraes
Os primeiros quinze capítulos de Levítico contêm listas de regula­mentos que regem os vários tipos de sacrifícios prescritos para a remoção do pecado e da imundícia, a iniciação formal do sacerdócio de Israel nas suas funções religiosas, e uma declaração das diferenças fundamentais en­tre espécies limpas e imundas. Os vários sacrifícios e ofertas chegam ao seu ponto culminante no capítulo 16, onde são prescritos os rituais que devem ser seguidos no dia da expiação. O restante do livro trata de uma variedade de leis cerimoniais, e termina com uma declaração das bênçãos que sobrevirão a Israel se as leis forem guardadas, juntamente com uma declaração dos castigos que serão o resultado de repudiar os estatutos da aliança.

I. REGULAMENTOS A RESPEITO DO SACRIFÍCIO (1:1-7:38)

As leis que regem as ofertas sacrificiais aparecem em duas formas contrastantes nesta seção. Em 1:1 — 6:7, os preceitos rituais são des­critos do ponto de vista da pessoa que faz a oferta, ao passo que em 6:8 —7:38 a narrativa considera os vários sacrifícios conforme os sacerdotes têm de manipulá-los. Seguem a mesma ordem geral, no entanto, exce­tuando-se que em 6:8 — 7:38 a oferta pacífica ocorre no fim (7:11-21) ao invés de ocupar o terceiro lugar na lista (3:1-17) que consiste em 1:1 — 6:17. É difícil dizer exatamente por que a matéria foi organizada desta maneira. É possível que visasse ajudar os sacerdotes ou em memo­rizar a ordem dos vários rituais,[1] ou em dar instruções acerca da nature­za e significado dos procedimentos a serem seguidos. Há uma padroni­zação literária bem como funcional aqui, e se o propósito de tal disposi­ção era de qualquer maneira didático, tal fato subentenderia que a for­ma escrita de Levítico servia pelo menos parcialmente como um manual de procedimento sacerdotal. Como tal, seria comparável quanto à fun­ção com outros manuais cultuais do Oriente Próximo antigo destinados para o uso sacerdotal. Em contraste com as festas prescritas em Levíti­co 23, que eram obrigatórias para a congregação de Israel, as ofertas descritas nesta seção eram de uma natureza mais pessoal e espontânea, e visavam a satisfação de necessidades espirituais individuais. Destarte, refletem a liberdade da abordagem a Deus que o cristão possui, salvo que para este último não é necessário nenhum sacerdote mediador, por causa da obra expiadora do grande Sumo Sacerdote. Além disto, o cren­te pode aproximar-se de um Deus amoroso e perdoador, com arrepen­dimento e fé, independentemente dos formulários cultuais ou estipula­ções denominacionais, e achar graça para auxílio em tempos de neces­sidade.

a. O holocausto (1:1-17)

1. Neste versículo introdutório Chamou, wayyiqrã’, é o nome hebraico para o livro de Levítico. A conjunção wafw) que começa a pa­lavra demonstra que Levítico está ligado com os capítulos finais de Êxo­do para formar uma narrativa contínua. Deve ser notado que o taber­náculo tinha sido preparado e o santuário estabelecido antes de os regu­lamentos detalhados acerca dos sacrifícios específicos terem sido dados a Moisés. A descrição das funções sacerdotais foi então seguida pela or­denação dos sacerdotes e do relato das suas primeiras ofertas. A matéria literária que segue o versículo introdutório, portanto, pertence apropria­damente à constituição sacerdotal original de Levítico, e não é uma inser­ção posterior. A palavra chamou provavelmente deva ser traduzida “conclamou” (cf. Êx 24:16), visto que Deus está instruindo Moisés em co­nexão com os rituais sacrificiais, e não o está chamando no sentido em que Cristo chamou Seus discípulos (Mt 4:19-21; Mc 1:17-20). Com ba­se nessa instrução, Moisés está estabelecido no seu papel de ensinador da lei divina, e é assim que Cristo Se refere a ele (cf. Mt 19:7-8; Mc 10: 3; 12:19; Lc 16:29, 31; Jo 7:19, etc.). A declaração introdutória de 1:1 tem seu paralelo em 6:8 no mandamento que Deus deu a Moisés no sentido de instruir Arão e seus descendentes nos procedimentos rituais, estabelecendo, assim, uma tradição ordenada e recebida. Uma das fun­ções básicas da forma litúrgica é garantir que tudo ligado com a adora­ção seja tratado de modo ordeiro e apropriado. Enquanto os procedimentos litúrgicos são rigorosamente seguidos há pouco risco da ocorrên­cia de excessos, ou da introdução de práticas cultuais esotéricas de dú­bio valor espiritual ou teológico.

Tenda da congregação (Heb. ’òhel mô‘êd) era um dos nomes pelos quais o tabernáculo no deserto era conhecido aos israelitas, lembrando- lhes de que Deus realmente Se encontrou ali com Moisés (cf. Êx 25:22) e revelou-lhe Sua vontade para a nação. A terminologia do tabernáculo apresenta um quadro difícil: a palavra “tabernáculo” é geralmente usada para o arcabouço retangular maior, que era coberto de cortinas, e “ten­da” ou para o santuário (’òhel) que continha o altar do incenso e a arca da aliança, ou a estrutura inteira, òhel mô ‘èd também é traduzido por “tabernáculo da congregação”. O lugar sagrado de reunião onde Deus Se revelou a Moisés era uma pequena área retangular construída por tá­buas de acácia e coberta por cortinas e peles de animais. Dentro dela, uma cortina bordada a dividia em duas seções, a externa, ou lugar santo, e uma interna, ou Santo dos Santos, em que era guardada a arca da ali­ança. Antes de o tabernáculo ter sido construído, Moisés se encontra­va com Deus numa “tenda da congregação” armada fora do arraial is­raelita (cf. Êx 33:7). Esta estrutura interina, que era servida exclusiva­mente por Josué na ausência de um sacerdócio regularizado, tem, com o nome de “tenda da congregação”, uma indicação da ligação entre o pre­cursor e o tabernáculo oficial. Parece-me melhor empregar o termo “ten­da da congregação” para o lugar da revelação divina a Moisés e ao sumo sacerdote, e “tabernáculo” para a área inteira cercada pelas paredes com cortinas. A palavra mô ‘èd foi descoberta numa fonte egípcia com data de cerca de 1100 a.C., e referindo-se à assembléia do povo em Biblos. Em Isaías 14:13 o termo é empregado com referência a uma assembléia dos deuses nas regiões do extremo norte, tema este que é familiar na lite­ratura cananita pagã. No tabernáculo completado, Deus falou a Moisés de cima dos querubins (1 Sm 4:4).[2]

Levítico 1:1 indica que o tabernáculo agora estava plenamente ope­rante, e este fato também serve para ligar Levítico com a seqüência de eventos descrita na parte final de Êxodo.[3] O conceito de um líder co­municando-se com Deus num tabernáculo portátil era bem compreendi­do no Egito na Era de Amarna (séculos XV e XIV a.C.). Os egípcios normalmente levavam consigo tais tendas, e as armavam no centro do arraial. Os sacerdotes cultuais recorriam a elas regularmente para a ado­ração e também para averiguar a vontade divina, e consideravam o santuá­rio de modo muito semelhante à maneira de os habitantes de Tróia trata­rem a imagem de Palas. O santuário portátil trazia a presença da divinda­de para o meio do arraial, e dava a garantia da proteção divina para todos os que estavam perto. Esta linguagem figurada de “tenda” ou “paládio” foi empregada para Jesus Cristo no Quarto Evangelho, onde João falou de Jesus como sendo o Verbo que “se fez carne, e habitou (Gr. “foi tabernaculado;” “armou sua tenda”) entre nós” (Jo 1:14). O fato histó­rico da encarnação de Cristo é, portanto, uma garantia da presença e po­der salvíficos de Deus na vida humana, porque o reino já veio entre os ho­mens (Lc 17:21) na pessoa de Jesus.

2. As ofertas descritas são voluntárias e pessoais na sua nature­za, e a forma literária está em harmonia com a comparativa simplicida­de da ocasião. Sacrifícios em grupo não parecem estar em mira aqui; estes são descritos posteriormente em termos do dia da expiação (16:1-34) e das festas relacionadas com as estações santas (23:1-44). Sacrifícios particulares seriam oferecidos a fim de expressar ações de graças, o dese­jo de uma renovada comunhão com Deus e um aprofundamento da vida de oração, ou para indicar a necessidade do perdão do pecado. Tais sacri­fícios foram oferecidos no decurso do período bíblico. Seguindo o padrão estabelecido por alguns dos profetas (cf. Os 6:6; Am 5:21-24), Jesus ressaltava a motivação que subjazia o ato, e ensinava que a ofer­ta somente era verdadeiramente aceitável a Deus quando a intenção do adorador era da mais alta qualidade (Mt 5:23-24; Mc 12:33). O san­gue de Cristo é infinitamente mais eficaz do que qualquer oferta véterotestamentária para purificar a consciência humana de obras mortas para servir ao Deus vivo (Hb 9:14).

Os sacrifícios tocavam em muitos aspectos da vida israelita, e es­te fato trazia o povo em contato contínuo com as atividades do taberná­culo. Ninguém era impedido de trazer uma oferta a Deus, pois todos os que assim desejavam poderiam vir ao Senhor com arrependimento e fé e serem aceitos. Jesus ainda oferece um convite semelhante (Jo 6:37). Os hebreus, embora fossem leigos, sabiam, conforme se supunha, o sig­nificado do ritual; logo, nenhuma explicação é dada aqui. A oferta (Heb. qorbàn) era algo “trazido perto” (qrb) do altar, e era um termo muito geral que abrangia todos os tipos de dádivas sacrificiais. A palavra apa­rece em Marcos 7:11 com uma glosa explicatória, e em Mateus 27:6 uma palavra grega um pouco diferente, korbanas, descrevia o tesouro do templo como sendo o lugar onde as ofertas eram depositadas. Aquelas que são prescritas em Levítico devem ser feitas especificamente ao Senhor (Heb. YHWH), o Deus de Israel, e não a uma divindade tal como El ou Baal ou qualquer outro deus (cf. ’elôhim em Êx 22: 20). Oferecer sacri­fícios em altares dedicados ao “deus desconhecido” (cf. At 17:23) era inteiramente estranho à tradição hebraica. A verdadeira comunhão com Deus exige algum conhecimento e experiência pessoal da Sua natureza (cf. Hb 11:6).

3. Os w. 3-9 tratam dos holocaustos do gado. A inclusividade de Quando algum de vós agora é tornada específica. O ofertante deve trazer um macho sem defeito para sua oferta de gado. Esta palavra agora é uma designação geral da família Bovidae, embora na antigüidade o ga­do também incluísse cavalos, asnos, camelos, e outros animais. Um uso semelhante também ocorria no Inglês Médio para descrever qualquer animal criado para alimento ou para produtos tais como sua pele, seus pelos ou sua lã. Para o holocausto, somente animais domesticados, que indicam um estado desenvolvido de vida agrícola, deviam ser apresenta­dos, visto que as espécies campestres nada custavam ao ofertante. Além disto, os animais campestres não tinham recebido o trabalho e o cuidado que tinham sido gastos com o gado e o rebanho.

Somente aqui e em 5:18, um animal macho é especificado para o sacrifício. A escolha de um macho talvez refletisse a dominância daque­le sexo nas sociedades que não eram matriarcais, mas muito bem pode­ria ter abrangido um propósito mais pragmático também. Quando se tratava de uma escolha, os animais machos eram mais sacrificáveis do que as fêmeas, numa sociedade em que a criação era o equivalente tanto do capital quanto da renda. Menos machos do que fêmeas eram neces­sários para a sobrevivência do gado e dos rebanhos, visto que o macho era usado apenas periodicamente para os propósitos do cruzamento. Por contraste, a fêmea funcionava como fornecedora contínua do leite e dos seus subprodutos, além de produzir novas crias de vez em quan­do. O preceito concernente a um animal sem defeito coloca diante dos israelitas o ideal de Deus da perfeição para os animais (cf. Lv 22:18-25) e também para os sacerdotes (cf. Lv 21:17-23) que forma uma parte importante do Seu serviço (cf. Ml 1:6-14). Somente um animal ceri­monialmente puro seria contado por Deus como sendo apropriado para receber os pecados do adorador pela transmissão manual.

Um princípio importante que subjaz as tarifas sacrificiais é enun­ciado aqui, a saber: todo e qualquer sacrifício deve representar um cus­to específico para aquele que o oferece a Deus. Por mais pobre que uma pessoa seja, a oferta sacrificial ainda tinha de representar alguma despesa para o ofertante. Destarte, nos w. 14-17, até o tipo mais humilde de oferta, a de rolas ou pombinhos, ainda sustentava este preceito básico. No Calvário, Jesus pagou o preço mais alto possível ao entregar Sua vi­da para o pecado humano (Jo 15:13). Este grande sacrifício é conside­rado o equivalente à extensão máxima do amor de Deus para com o ho­mem caído, e também do cuidado e consideração de um indivíduo para com seus semelhantes.

O holocausto era uma dádiva que visava ganhar o favor divino pa­ra o adorador, conforme é indicado na frase para que o homem seja acei­to. Por contraste, o sacrifício pelos pecados (4:1 — 5:13) visava obter perdão divino para o ofertante. O motivo por detrás do holocausto, portanto, fica sendo explícito. Esta é evidentemente a forma mais anti­ga de sacrifício, e seu nome ‘õlâ indica “subida,” o que sugere que a es­sência do animal dava satisfação a Deus enquanto a fumaça sacrificial su­bia (cf. 1-17). A oferta era voluntária (cf. 1 Sm 7:9; 13:9; SI 20:3), conforme sempre são as ofertas mais altamente motivadas, e era apresentada pelo ofertante à porta da tenda da congregação.

4-5. O ritual do sacrifício é descrito de modo singelo porém cui­dadoso, ressaltando a consistência do procedimento como uma salvaguar­da contra os ritos idólatras. A cerimônia realiza, assim, a intenção do adorador (cf. Js 24:14) e exclui o uso de rituais e ensinos estranhos e errôneos que anulariam o relacionamento entre Deus e o homem. O cris­tão também está aberto a tais tentações na sua adoração, e, portanto, é conclamado a seguir o padrão da sã doutrina (2 Tm l:13) como base pa­ra a devoção verdadeira. Neste procedimento sacrificial, o ofertante não é um observador passivo, mas, sim, um participante ativo. Põe a mão sobre a cabeça do animal, indicando que é seu substituto bem como seu próprio pertence, e que está dando de si mesmo simbolicamen­te no ritual. Nada se diz acerca de declarações verbais pelo adorador ou pelo sacerdote, mas sem dúvida a oferta sacrificial seria acompanhada por alguma declaração de propósito como preliminar. Nos tempos do Templo, um Salmo poderia ter sido recitado ou cantado. Aceito a fa­vor dele, talvez indique um pronunciamento sacerdotal no sentido de que a expiação de fato tinha sido feita. Esta expiação (Heb. kippurim) anula e remove os efeitos do pecado ou dá impureza. (Ver a nota sobre Lv 4:26). Existia um ritual especial de “expiação” (kuppuru) na Mesopotâmia, em que o poder demoníaco considerado responsável pela incidência da doença num paciente recebia como oferta um cabritinho como sacrifício.4 No ensino do Novo Testamento, o cristão é conclama­do a apresentar-se como sacrifício aceitável a Deus (Rm 12:1; Fp4:18).

5-6. O novilho então é sacrificado (Heb. sahat), um termo téc­nico sacrificial comum; diante do Senhor, ou seja, no lado norte do altar localizado perto da entrada da tenda da congregação, e seu sangue ou es­sência vital (cf. 17:11) aspergido pelos sacerdotes ao redor do grande altar de holocaustos (cf. Êx 27:1-8). Este grande altar era feito da ma­deira de acácia revestida de bronze. Media quase 2,5 m. de largura, e cerca de 1,6 m. de altura, e era localizado ao leste da tenda da congre­gação. Ocupava uma posição quase central no recinto inteiro. Os filhos de Arão são mencionados para mostrar o lado especificamente sacerdotal da cerimônia (cf. 1:8, 11; 2:2; 3:2). A oferta era esfolada e cortada em pedaços pelo adorador, presumivelmente para a mais fácil disposição no fogo. Em Levítico 7:8 o couro de qualquer holocausto ficava sendo a propriedade do sacerdote, mas aqui não se menciona a maneira em que o ofertante dispunha dele. Conforme 2 Crônicas 35:11, os levitas esfo­lavam os animais oferecidos no templo pré-exílico, procedimento este que parece ser um desenvolvimento posterior do ritual mosaico. A divi­são em pedaços relembra a oferta de Abraão numa aliança (Gn 15:10), e sem dúvida este aspecto da cerimônia mosaica era derivado desta divi­são. O adorador, portanto, assim se sentiria duplamente arraigado na fé e na prática da aliança. A auto-revelação de Deus na Escritura nem é imaginária nem mítica, pelo contrário, é de uma natureza histórica reco­nhecida que tocava nas vidas de homens e mulheres reais à medida em que o propósito divino para o destino humano ia se desdobrando. A fé do cristão remonta especificamente no tempo a uma Pessoa que veio co­mo parte de uma sequencia conscientemente ordenada para a redenção do homem, e deu-Se como o único sacrifício perfeito pelo pecado do homem (cf. G1 4:4-5).

7-13. O ato de acender um novo fogo para cada sacrifício indica uma etapa muito antiga nas peregrinações no deserto como origem deste estatuto. Uma situação mais sedentária tal qual estava em vigor em Cades (cf. Nm 33:37-38; Dt 1:46; 2:14) é refletida no regulamento de 6:12­13, onde o fogo haveria de queimar continuamente no altar. Somen­te instruções gerais para o processo de acender o fogo são dadas, visto que o costume já era totalmente familiar aos sacerdotes. O fogo devia ser su­ficientemente quente para queimar completamente a oferta, mas o pro­cesso certamente seria ajudado pela presença de tecidos gordurosos colocados em ordem em cima dos pedaços e da cabeça, alimentando as chamas' à medida em que se derretiam. As entranhas e as pernas eram lavadas para limpá-las de excrementos, e também eram acrescentadas aos outros pedaços no altar. A cabeça é mencionada separadamente, porque teriá sido separada do corpo no processo de esfolamento. A tentativa para agrupar “a cabeça e o redenho” como apêndice dos “pedaços”, confor­me faz Noth,5 é forçada e artificial. O aroma agradável do holocausto não deve ser entendido como sendo uma satisfação puramente física, pa­ra Deus mas, sim, como uma sobrevivência linguística arcaica, aqui e noutras partes do Antigo Testamento. A ideia de um “cheiro suave” como algo que aplacaria a ira dos deuses teve sua origem na Suméria an­tiga (cf. o Épico de Gilgamés, XI, 160), mas até que ponto era interpreta­da literalmente nos círculos sacerdotais pagãos sofisticados do segundo milênio a.C. está aberto ao debate. Samuel deixou claro que Deus Se agradava com a obediência acima de tudo (1 Sm 15:22), ao passo que Oséias reiterou a preferência de Deus pela misericórdia ao invés de pelo sacrifício (cf. Mt 9:13; 12:7; Mc 12:33). Salmo 50:13 repudiou o con­ceito antropomórfico grosseiro de a divindade ingerir a oferta sacrificial, e, ao invés disto, enfatizou a aceitabilidade a Deus de valores tais como as ações de graças, posição consistente com a recomendação insistente dos profetas. Em Hebreus 13:15, o cristão é exortado a oferecer a Deus, através da Pessoa do Cristo crucificado, um sacrifício contínuo de lou­vor, que é produzido por lábios que testificam do poder salvífico e pre­servador do Seu nome.

14-17. Estes versículos tratam de aves como holocaustos. Haveria pessoas em Israel que não se poderiam dar o luxo de sacrificar um ani­mal de primeira, ainda que possuíssem um, Para tais pessoas pobres, a lei permitia que aves fossem ofertadas, e abrandava as especificações ao ponto de não estipularem que a ave devesse ser macho e sem defeito (cf. 5:7; 12:8). As aves mais apropriadas para tais ofertas eram rolas ou. . . pombinhos. A rola (Heb. tõr, Turtur communis; yônâ, Columba livia) é uma das aves mais comumente mencionadas na Bíblia. As tradições antigas sustentavam que a rola não tinha bilis,6 e como resultado era con­siderada limpa, mansa, e inofensiva. Embora às vezes fosse atacada por aves mais agressivas, a rola nunca retaliava, e, por esta razão, ficou sendo um símbolo das virtudes cristãs. Em Mateus 10:16, Cristo empregou a pomba como exemplo da inocência. Sua natureza não-agressiva capaci­tou a pomba a ser usada como símbolo internacional da paz. Isaías 60:8 indica que a pomba já tinha sido domesticada, embora rolas campestres vivessem em todas as partes da região montanhosa da Palestina, assim como pombos (Columbae). Os dois tipos de aves continuavam a se; sa­crificados nos tempos do Novo Testamento, e podiam ser comprados num dos átrios do templo (cf. Mt 21:12; Mc 11:15; Jo 2:14-16). Na oca­sião da apresentação de Cristo no Templo (Lc 2:22-24), as disposições sacrificiais de Levítico 12:8 foram citadas para abranger as condições de empobrecimento de Maria e José. A descida do Espírito Santo sobre Cristo no Seu batismo foi descrita em termos da linguagem figurada de uma pomba também (Mt 3:16; Mc 1:10; Lc 3:22; Jo 1:32). O trugón de Lucas 2:24 (“rola”) era o equivalente na LXX do hebraico tõr, ao passo que peristera, “pomba”, “pombo,” aparecia principalmente na LXX como a tradução de yônâ. Tentativas de diferenciar entre as espécies não são muito produtivas em qualquer língua, visto que tanto as rolas como os pombos pertencem à mesma família de Columbae.

O sacerdote realizava a maior parte do ritual que envolvia o sacrifício de uma ave (w. 15-16). A cabeça era destroncada (cf. 5:8), e o sangue era escorrido pelo lado do altar. Depois disto, o ofertante remo­via as penas e o papo da ave, e os colocava no montão de cinzas ao leste do altar. Talvez a razão para desfazer-se das entranhas desta maneira, ao invés de queimá-las, era porque o conteúdo do estômago, sendo ad­quirido indiscriminadamente, não seria tão aceitável a Deus quanto o ali­mento fornecido ao gado através do esforço humano. Se for assim, o fa­tor de custo ainda ficará aparente, mesmo nos casos da pobreza. A verda­deira bênção para o cristão vem através de obedecer o evangelho de Cristo e de contribuir generosamente para as necessidades do outros (cf. 2 Co 9:6-12).

A ave não era cortado em pedaços, conforme era o caso de um animal sacrificial, mas, sim, era segura pelas asas enquanto seu corpo era rasgado delas (v. 17).7 Então, a oferta era colocada sobre o altar para constituir um sacrifício aceitável a Deus. No Calvário, o corpo de Cristo foi quebrado no sacrifício e Seu sangue derramado pelo pecado humano. Esta oferta nunca poderá ser repetida (Rm 6:10; Hb 7:27; 9:12; 10:10), e agora o sacrifício mais desejável, que qualquer pessoa, rica ou pobre, pode trazer a Deus é uma vida consagrada (cf. Rm 12:1; IPe 1:15-16).

b. A oferta de manjares (2:1-16)

Como o holocausto, a oferta de manjares era uma dádiva voluntá­ria a Deus que visava promover ou obter Seu favor. Embora esta seção trate de um sacrifício vegetal em contraste com um animal, a motiva­ção subjacente é idêntica.

1. Quando alguma pessoa (Heb. nepes, literalmente, “alma”). O gênero feminino do substantivo aqui é puramente incidental, e de modo algum conflita nem contradiz a terminologia subsequente mas­culina no versículo. Nepes reflete consistentemente a individualidade, e, portanto, deve ser traduzida por “pessoa” ou “próprio-eu” especial­mente em Mateus 16:26; Marcos 8:37, onde Cristo pergunta o que uma pessoa se propõe a dar em troca da sua identidade-própria. Desta ma­neira, o caráter semítico de nepes é mantido, e a contaminação de for­mas platônicas de pensamento grego, e outras semelhantes, com sua dicotomia resultante entre “corpo” e “alma”, é evitada. A oferta de manjares (minhâ) era de grãos nativos, e é considerada aqui uma ofer­ta separada, embora freqüentemente formasse uma parte regular do ho­locausto (cf. Nm 15:1-16). O termo minhâ significa em geral uma ‘dádiva” seja como expressão de reverência (Jz 6:19; 1 Sm 10:27), de gra­tidão (SI 96:8), de homenagem (Gn 32:14; 43:11, 15, 25) ou de lealdade (2 Sm 8:2, 6; 2 Cr 17:11). Na terminologia sacrificial sempre pa­rece ter tido este sentido lato de “dádiva,” como nas referências véterotestamentárias mais antigas, que abrangiam as ofertas tanto animais quanto vegetais (cf. Gn 4:3-5). Talvez a natureza primitiva da minhâ explique o lugar especial que ocupa no começo da tarifa sacrificial de Levítico. Já nos tempos de Moisés, o termo ficara restrito a ofertas de cereais ou vegetais, i.é, as de natureza insanguínea.

A matéria em questão era cevada ou trigo, moído de modo gros­seiro, e, segundo as autoridades talmúdicas era oferecido como sacrifí­cio independente somente por uma pessoa muito pobre. Mas mesmo neste caso, a motivação era a consideração suprema, e acreditava-se que Deus considerava semelhante oferta como se a pessoa tivesse dado seu próprio-eu (nepes). Da mesma maneira, Cristo levou em conta a moti­vação que subjazia a oferta da viúva pobre, de duas moedinhas de cobre (Mc 12:42; Lc 21:2), que representavam o sustento inteiro dela. A de­dicação total do indivíduo e dos seus recursos é o tipo de sacrifício que Deus mais deseja (SI 40:7; Hb 10:7). O azeite era usado comumente pelo povo do Oriente Próximo antigo na cozinha, como agente para enriquecer bolos, e como meio de ligar a farinha grosseiramente moída do cereal. Como os grãos, o azeite era um produto da labuta humana, de modo que a oferta de manjares simbolizava a dedicação da obra do homem a Deus. Incenso (fbònâ), era uma resina balsâmica obtida de espécies de arbustos que pertenciam ao gênero Boswellia. Não é certo se o incenso era produzido na Palestina, e se B. carterii era o único in­censo usado pelos hebreus, deve ter sido importado de Seba.[4] O incen­so simbolizava a santidade e a devoção (cf. SI 141:2), e era uma das dá­divas apresentadas ao infante Jesus pelos reis magos (Mt 2:11). Por­que a oferta sacrificial visava obter a boa vontade, o incenso devia ser colocado sobre o cereal moído, em contraste com o procedimento reque­rido para uma oferta pelo pecado (5:11), sendo que neste caso era proi­bido o uso do incenso.

2. Tendo misturado a oferta, o adorador a apresentava ao sacer­dote, que assegurava-se de que todo o incenso estava incluído. Esta era a porção memorial (’azkárâ), termo este com significado incerto,usado consistentemente com aquela parte da oferta de manjares que era con­sumida pelo fogo (cf. 5:12; 6:8; Nm 5:26). Não há evidência alguma para apoiar o ponto de vista de que a palavra fosse uma designação se­mítica antiga para “virilidade,” para descrever o elemento mais seleto do sacrifício. Uma sugestão mais provável liga o olíbano como uma das quatro partes constituintes do incenso (Êx 30:34) oferecido diariamen­te pelo sacerdote na hora da oração. Numa época posterior, os Salmos 38 e 70 tinham alguma conexão com a porção memorial, e é bem provável que nos dias do Templo, uma ou outra destas composições fosse recita­da pelo adorador quando uma porção memorial estava sendo oferecida. A referência em Isaías 66:3 a uma porção memorial de olíbano aparen­temente diz respeito a práticas idólatras cananitas. Em Atos 10:4 as ora­ções e as esmolas do centurião devoto Comélio foram descritas pelo mensageiro divino que o visitava como tendo subido “para memória dian­te de Deus.” É incerto se a intenção original da ’azkárâ era para lembrar Deus da existência do adorador empobrecido, ou lembrar o ofertante da majestade, bondade e providência de Deus para com todas as necessida­des humanas, ou uma combinação dos dois. De qualquer maneira, a in­tenção da oferta era engendrar sentimentos positivos (“aroma agradável”) da parte de Deus para com o adorador.

3. O restante do cereal era a gratificação dos sacerdotes, e sendo coisa santíssima seria consumido por eles na área do santuário propria­mente dito, e não usado para sustentar as famílias dos sacerdotes. Aqui, a ênfase sobre a santidade cerimonial visa delinear de modo claro as pos­ses e as prerrogativas dos sacerdotes, para evitar abusos dos privilégios. Tais acontecimentos infelizes realmente ocorriam, no entanto, em perío­dos em que o sacerdócio israelita era corrupto (cf. 1 Sm 2:12, 22). Por­que o sacerdote tinha um relacionamento espiritual especial com Deus, o caráter e o comportamento dele eram questões da máxima importân­cia. O sacerdote verdadeiro é vestido, não tanto com as vestes cultuais ornamentadas quanto com os valores morais da retidão (SI 132:9), que ficam sendo evidentes no seu modo de vida. O crente em Cristo é ainda mais distintivo por ser membro de um “sacerdócio real” (1 Pe 2:9), e, portanto, é conclamado a ser “santo” (1 Pe 1:16) e a oferecer sacrifícios espirituais aceitáveis a Deus mediante Jesus Cristo. A obediência e a santidade são as senhas da nova aliança, assim como também eram as senhas da antiga (cf. Dt 7:6, 11 etc.). [5]

4-7. A seção anterior tratara de uma oferta de grãos crus, sem dúvida o tipo mais primitivo de oferta de manjares, e, portanto, colo­cada de modo apropriado neste capítulo. Formas subsequentes consis­tiam em massa achatada pela mão e depois cozida, ou numa rocha quen­te, ou dentro de Um fogão aquecido ou um forno. O pão resultante era uma oferta de farinha assada da maneira familiar na Palestina desde a Ida­de do Bronze Antigo, e ainda segundo o uso dos camponeses árabes.9 Mais uma vez, até mesmo a mais pobre das pessoas poderia oferecer um bolo de forma achatada, ou uma obreia, feitos em casa, como um sacrifício a Deus, e chegar a conhecê-Lo mais plenamente no partir do pão (cf. Lc 24:35). Os bolos asmos provavelmente seriam mais grossos do que as obreias, sendo que estas talvez correspondam aos pães asmos usados pe­los judeus atuais na festa da Páscoa.

A oferta de manjares também poderia ser preparada numa assadei­ra tanto como num forno ou num fogão portátil. A assadeira (malfbat) poderia ser feita comumente da matéria cerâmica, mas na Idade do Bron­ze Médio (c. de 1950-1550 a.C.) os hebreus mais afluentes estariam usan­do assadeiras de cobre para panquecas. Na monarquia, no começo da Idade do Ferro na Palestina, algumas famílias da classe média até mesmo possuiriam uma assadeira de ferro (cf. Ez 4:3,),[6] embora ainda estariam um pouco caras. Instruções acerca do quebrar em pedaços são dadas apenas nesta forma da oferta de majares. Esta forma talvez visasse servir como o equivalente dos procedimentos mencionados em Levítico 1:6, onde a oferta era cortada em pedaços pequenos. O partir do pão minis­tra na vida normal às necessidades tanto físicas quanto sociais dentro do contexto de uma refeição, seja entre os'membros da família, seja com os amigos. A refeição sacramental que Jesus iniciou para os Seus como memorial da Sua morte foi celebrada num cenáculo (Mc 14:15), onde, como parte do padrão a ser seguido, Cristo tomou o pão, abençoou-o e partiu-o (Mt 26:26; Mc 14:22; Lc 22:19). Este ato simbolizava o rom­per do Seu próprio corpo no Calvário como a única oferta de Si mesmo por meio da qual os homens seriam reconciliados a Deus.

Uma frigideira (Heb. marheset), ou de matéria cerâmica ou de me­tal, era uma caçarola ou panela de cozinha, usada como frigideira profun­da. Somente neste versículo, em contraste com os w.4 e 5, a farinha não é mencionada como sendo sem fermento, mas isto provavelmente tenha a simples intenção de evitar a repetição. Os peritos sugerem que a oferta de majares frita na marheset provavelmente teria uma aparência semelhante a um sonho (rosquinha frita em óleo profundo) moderno.11

8-10. O ofertante leva a oferta ao sacerdote, que a leva ao altar e queima a porção memorial, como no v. 2, embora o incenso não seja mencionado aqui. A função do incenso parece ter sido a de uma subs­tância para fumegação e a de um desodorizante, mascarando ou remo­vendo alguns dos cheiros menos agradáveis do ritual sacrificial, contri­buindo, assim, ao efeito físico de fazer da oferta uma aroma agradável ao SENHOR. Tudo quanto sobrava depois da porção memorial ter sido consumida pertencia exclusivamente aos sacerdotes. A ênfase dada à qualidade santa da oferta é significante, visto que, para ser verdadeira­mente aceitável, o sacrifício consagrado a Deus pelo ofertante deve ter como acompanhante a intenção de viver uma vida igualmente santa e con­sagrada. O termo “santo” não subentende a mera dedicação ao serviço de uma divindade tal como era entendida entre os cananitas pagãos pelo uso da palavra qudsu (“prostituta”), mas, sim, por contraste, denota to­das as altas qualidades morais è espirituais inerentes do Deus de Sinai que exige que Seu povo seja santo (qàdôsj, como Ele é santo (Lc 11:44; 19:2; 20:7, etc.; 1 Pe 1:16; cf. 1 Ts 4:7). As ofertas de manjares fei­tas a Deus através do fogo eram consideradas coisa santíssima. Como meio de sustentar o sacerdócio, Deus permitiu que parte da oferta de manjares, bem como as ofertas pelos pecados (5:13) e pelo sacrilégio (7:6) fosse comida pelos Seus representantes escolhidos, e por eles so­mente. Os adoradores, como contraste, podiam participar das ofertas votivas, voluntárias e de ações de graças (22:18-30).

11-12. As ofertas de manjares não deviam incluir levedura, sen­do que esta última substância é proibida como parte de qualquer holo­causto. O mesmo também era verdade para o mel, o adocicante nor­mal nos tempos antigos. Desconhece-se por que estes dois itens eram proibidos em sacrifícios queimados. Tem sido conjecturado que o mel (Heb. debas, Acad. dispii) era um alimento favorito dos deuses nalguns cultos pagãos, e, como resultado, era importante para os israelitas exer­cerem grande cuidado em conexão com qualquer substância que também era sacrificada a divindades pagãs, a fim de que não houvesse a incorpo­ração no culto hebreu de qualquer coisa duvidosa, seguida por elementos religiosos estranhos à ética da aliança de Sinai. Sem dúvida, boa parte do mel colocado à venda em Corinto tinha sido primeiramente ofereci[7]da aos deuses gregos, e se for assim, o problema com que Paulo lidou em 1 Coríntios 8 era de grande relevância, visto que envolvia a possibilidade muito real de transigir espiritualmente. O cristão está obrigado a evitar qualquer aparência do mal (1 Ts 5:22). O fermento (hãmès) era basica­mente “algo azedo”, e no mundo antigo consistia em um pedacinho de massa guardado de um lote anterior de pão. Deixava-se que esta porção fermentasse, e quando era mistuurada com farinha (cf. Mt 13:33; Lc 13:21) o processo de fermentação presente no pedaço de massa era transferido à mistura, tomando mais leve a textura do produto acabado e melhorando seu sabor e digestibilidade. Tanto o fermento quanto o mel eram agentes de fermentação e, além disto, é possível que o termo “mel” fosse usado como um eufemismo vétero-testamentário para uma ou outra forma de bebida fermentada. Talvez a proibição visasse evitar a interferência com a constituição natural das ofertas, que representa­vam oS resultados da labuta honesta e, portanto, representariam o ado­rador de modo adequado como sendo receptivo e sem adorno na pre­sença do Deus com quem tinha de tratar (cf. Hb. 4:13).

Não deve ser suposto que o fermento e o mel fossem impuros ou simbólicos do mal, visto que os dois faziam parte da oferta das primí­cias (cf. Êx 23:16-17; 34:22-23; Lv 23:17-18). Por atraente que se­ja a sugestão de que o contraste entre o mel (“doce”) e a levedura (“aze­da”) talvez seja um paralelo entre o bem e o mal, não parece ser susten­tável na prática, mesmo por causa do lugar que o fermento ocupava nos rituais sacrificiais. As primícias eram, na realidade, os “começos” da colheita, e a oferta de uma primeira porção simbólica a Deus simboli­zava a dedicação da safra inteira a Ele, o Doador de todas as coisas boas. Na referência messiânica de Isaías 7:15, 22, comer mel simbolizava um período em que o Filho da virgem rejeitaria o mal e escolheria o bem, indicando, assim, Sua maturidade espiritual. No Novo Testamento (Mt 13:33) o reino dos céus era assemelhado por Cristo ao fermento, presumidamente numa tentativa de ilustrar os efeitos permeadores do evan­gelho enquanto operava na sociedade para torná-la cristã. Do outro la­do, a natureza pervasiva do fermento era assemelhada por Cristo ao ca­ráter do ensino indesejável (Mt 16:6, 11-12; 12:1), e por Paulo à propa­gação insidiosa do mal (1 Co 5:6; G1 5:9). Estas referências tomam cla­ro que o que há de importante no fermento é seu efeito permeador. 0 próprio agente é moralmente neutro, mas os resultados da sua atividade podem ser interpretados em termos de simbolismo positivo ou negativo, dependendo das circunstâncias. Não é correto dizer que, conforme fize­ram alguns autores, o fermento é emblemático de um processo de cor­rupção,[8] visto que quando o fermento é acrescentado à farinha, real­ça e melhora o gosto, a textura e a digestibilidade do produto assado, ao invés de levá-lo a deteriorar. Embora pudesse ser argumentado que o fermento acrescentado à farinha não assada deixaria a mistura azeda se fosse deixada crua, o fato é que o acréscimo de fermento à farinha era levado a efeito com a intenção de assar, como na oferta das primícias (Lv 23:17) e no uso doméstico normal.

13. Todas as ofertas de manjares deviam ser acompanhadas com sal. A ação uniformemente preservativa e adstringente deste mineral tipificava a permanência e a pureza, como a “aliança de sal” (Nm 18:19; 2 Cr 13:5) ou no método no Oriente Próximo de estabelecer um víncu­lo de amizade por meio de comer sal. Embora o crente possa ser consi­derado legitimamente “o sal da terra” (Mt 5:13), é possível para tal pes­soa perder a qualidade distintiva da fé e do testemunho, modificando, assim, o caráter, a permanência e a integridade do testemunho cristão individual ao mundo. Paulo conclama o crente a ter sua palavra “tempe­rada com sal” (Cl 4:6), ou seja, temperada pelo bom-senso.[9]

14-16. A oferta de manjares das primícias (NEB “oferta de grãos dos primeiros grãos maduros”) consistia em espigas tostadas de grãos verdes, um item comum de alimento entre os pobres. Depois de tostado; o cereal era esmagado para formar uma farinha grosseira, e apresentado como oferta com o acréscimo de azeite e incenso (cf. 2:2). Os cereais e o azeite eram dois dos três ingredientes básicos da dieta hebréia antiga (cf. Dt 12:17): logo, esta oferta, juntamente com uma libação de vinho que não é mencionada aqui, representaria a apresentação do alimento diário do homem aò Criador. A oração de Davi (1 Cr 29:14) reconhecia que era correto fazer tais ofertas a Deus, mas no Salmo 40:6-8, comumente atribuído a Davi, mostra-se claramente que Deus deseja a obedi­ência sincera e entusiástica à Sua vontade mais do que os sacrifícios e as ofertas de manjares. Cristo aboliu estas últimas na Sua morte a fim de que fizesse da obediência um princípio estabelecido do discipulado cris­tão (Hb 10:5-9). Os elementos do vinho e do azeite na dieta hebraica ás vezes são simbolicamente associados com a alegria e o gozo (cf. SI 104:15; Is 61:3; Hb 1:9).



c. O sacrifício pacífico (3:1-17)

1. Outro na lista dos sacrifícios voluntários era o sacrifício pací­fico, melhor traduzido um sacrifício de bem-estar. A palavra salôm (“paz”) tem numerosos significados, um dos quais envolve a boa saúde. A forma verbal significa basicamente “estar intato”, “estar completo,” e quando é aplicada à humanidade refere-se à integração da nepes hayyâ (Gn 2:7) ou personalidade humana. O sacrifício (zebah) de bem-estar in­dica a comunhão social consciente, na qual aquilo que é deficiente no ofertante será remediado enquanto vem com fé e arrependimento a Deus, Aquele que cura e restaura (cf. Êx 15:26; SI 103:3). O ritual segue de perto o padrão do holocausto.

2. A oferta sem defeito é apresentada segundo a maneira des­crita em Levítico 1, e é sacrificada à porta da tenda da congregação. O termo zebah deriva de uma raiz que denota o abate sacrificial, e descre­via uma oferta que visava promover um senso de comunhão entre o ofer­tante e Deus. Neste capítulo, não se menciona uma refeição como par­te da cerimônia, e a narrativa, ao invés disto, concentra-se na desintegra­ção da oferta pelo fogo. Nenhum detalhe de como o abate ritual era realizado é mencionado aqui, mas o animal obviamente teria de ser fir­memente preso antes de o sangue ser drenado do seu corpo. Como em todos os ritos animais sacrificiais, o sangue representava a vida inerente no corpo (ver sobre 17:11). A imposição da mão do ofertante indica­va, como anteriormente, a dedicação da oferta a Deus e a identificação do adorador com ela como sua própria posse (cf. 1:4). Como o holo­causto, a oferta pacífica ou do bem-estar contém um forte elemento de substituição. Cristo, o príncipe pacífico (Is 9:6), faz a paz para nós mediante Sua morte expiatória, realizando por nós aquilo que nunca poderíamos fazer por nós mesmos, e terminando o estado de alienação entre Deus e o homem (Ef 2:14-16). Ao passo que o adorador leigo desempenha certos deveres tais como o abate do animal, é a responsa­bilidade do sacerdote aspergir o sangue sobre o altar de sacrifício. De­pois de assim ter sido feito, o animal era cortado em pedaços, alguns dos quais eram subseqüentemente oferecidos no altar. Não se mencio­na o processo de esfolamento, mas este, evidentemente, fazia parte do ritual (cf. 1:6), visto que os regulamentos em 7:Í5-36 dispunham que as ofertas pacíficas fossem comidas pelos adoradores, sendo que certas porções eram reservadas para os sacerdotes. Quanto a isto, a oferta do bem-estar era diferente do holocausto, que era consumido completa­mente no altar.

3-5. O ritual agora diverge daquele que rege o holocausto, e so­mente as porções especialmente selecionadas da carcaça do animal ofe­recido a Deus pelo fogo são descritas. Estas partes consistiam na gor­dura que cobre as entranhas, juntamente com outros tecidos adiposos que protegem e nutrem os órgãos internos vitais. No novilho e na va­ca estes tecidos estão distribuídos em derredor dos rins, que são pesa­damente protegidos, e também estão depositados em camadas entre o fígado e o estômago. O redenho assim formado cobre a totalidade do dianteiro do animal com uma grossa camada de gordura que tem seu próprio suprimento de sangue, e que blinda e aquece os órgãos internos contíguos. Em termos anatômicos humanos, este tipo de estrutura adi­poso corresponderia ao redenho maior, uma dobra de peritôneo passan­do da curvatura maior do estômago para o intestino grosso, e este teci­do também contém considerável quantidade de gordura, especialmente em pessoas obesas. A gordura (hèleb), que também incluía os tecidos que cobria, era proibida aos hebreus como alimento, sendo considera­da, geralmente num senso metafórico, uma porção especialmente sele­ta (cf. Dt 32:14), e, portanto, nos rituais sacrificiais a prerrogativa de Deus somente. A proibição da gordura animal para o consumo huma­no parece também ter sido baseada parcialmente em considerações die­téticas. Gorduras animais comidas corisistentemente em montantes significantes no decurso de um longo período de tempo podem elevar o nível de colesterol já presente no sangue e, especialmente em conjun­ção com a hipertensão, podem resultar em condições tais como arteriosclerose e aterosclerose, sendo que as duas provocam acidentes circulatórios. Se o alimentar-se de gordura e sebo tivesse sido permitido, semelhante falta de equilíbrio bem poderia ter sido precipitada entre os hebreus, visto que já estavam ingerindo tais gorduras saturadas como manteiga (i.é, coalhada) e queijo. Mas por meio de restringir a ingestão de gorduras potencialmente danosas, o sistema circulatório seria capa­citado a manter nível razoável de sangue-colesterol, e permitiria que o fator conhecido como lipoproteína de alta densidade protegesse as arté­rias e o coração contra a doença. Alguns pesquisadores modernos de câncer também sustentam que uma dieta com alta quantidade de gor­duras saturadas pode levar ao câncer do cólon e da glândula mamária naqueles que estão predispostos pela sua constituição (e.g. geneticamente). A proibição contra alimentar-se da gordura de animais oferecidos para sacrifício era estendida em Levítico 7:23 a todas as carnes animais comidas num contexto não-sacrificial. Visto que tênias possam às vezes ser achadas nos tecidos gordurosos, até mesmo das espécies bovinas “limpas”, os regulamentos que regem a ingestão da gordura animal seriam outro meio importante de proteger os israelitas contra este tipo de infestação parasítica. A gordura que cobria as entranhas devia ser removida num processo conhecido aos judeus modernos co­mo “porging” (tratamento de tiragem de gorduras, veias, etc., de modo a tornar o animal abatido cerimonialmente limpo) e devia ser queima­da com os dois rins e sua cobertura pesada de gordura. No pensamen­to hebraico os rins (k^làyôtj dos seres humanos eram considerados o centro do desejo e da ira, esta última sendo especialmente apropriada tendo em vista a localização da glândula da adrenalina, cuja medula se­grega adrenalina. Não há, porém, evidência alguma de que quaisquer de tais funções emocionais fossem creditadas a animais, nem sequer há qualquer registro de ter havido consciência alguma da fisiologia normal dos rins. Também era removido para ser queimado o redenho sobre o fígado, sendo que a referência diz respeito à camada de tecido gorduro­so na parte dianteira do animal. A julgar pelo v. 5, pareceria que os sacrifícios do bem-estar fossem usualmente precedidos por holocaus­tos regulares, talvez de uma natureza diária, e que nesta ocasião a gor­dura e as partes não aproveitadas do animal sacrificado para promover a restauração do adorador à comunhão com Deus fossem queimadas no altar.

6-11. Os regulamentos enfatizam outra vez o padrão estabele­cido para as ofertas sacrificiais. Somente os animais mais seletos do gado e do rebanho devem ser apresentados a Deus. Nos procedimentos rituais a gordura mais uma vez é queimada como a porção do Senhor, e no caso de um cordeiro da raça principal palestiniana de ovelhas ori­entais de caudas gordas (Ovis laticaudata) estar sendo sacrificado, a cau­da inteira era removida e queimada. Tais ovelhas têm várias vértebras caudais adicionais, e a cauda serve para armazenar gordura do corpo. Em animais maduros, a cauda gorda pode pesar entre 22 e 33 kg., e des­de os tempos muito primitivos, era estimada como iguaria.[10] Quando estas porções separadas eram queimadas, eram manjar da oferta quei­mada ao SENHOR (11, Heb. “pão da oferta a YHWH”). A palavra “pão” (lehem) aqui tem o significado nomádico antigo de “carne,” e isto testi­fica à grande antiguidade do sistema sacrificial hebraico.

12-16. Os procedimentos a serem seguidos quando uma cabra é oferecida são os mesmos que aqueles para um cordeiro, e a fórmula é re­petida de acordo com este fato. As porções gordas eram queimadas no altar, embora se fossem em conjunção com o holocausto, ou não, não é registrado. A referência a um aroma agradável (5, 16) não obriga o lei­tor a pensar que esta frase antiga era entendida em termos de os hebreus dalguma maneira alimentarem ou nutrirem Deus, conforme muitos escri­tores do século XIX imaginavam que os vizinhos pagãos dos hebreus fa­ziam ao apresentarem ofertas votivas. O Deus que é espírito (Jo 4:24) não pode ser adorado por agentes ou meios materiais, visto que é independente deles. Deseja o amor e a obediência dos Seus seguidores, e de­seja ter comunhão com eles ao entrar nas suas vidas e “cear” com eles (Ap 3:20). A Ceia do Senhor é corretamente designada a “Santa Comu­nhão” na igreja cristã, porque ao proclamar a morte do Senhor (1 Co 11:26) os crentes são reconciliados na confraternidade e na comunhão com Deus através da cruz.

17. A proibição contra o alimentar-se da gordura e do sangue vi­sava ser observada enquanto durasse o sistema sacrificial. A frase Esta­tuto perpétuo será durante as vossas gerações ocorre dezessete vezes em Levítico. As disposições de Deuteronômio 12: 15-16, 21-24, que não mencionam a proibição de alimentar-se da gordura, dizem respeito a um grupo inteiramente diferente de circunstâncias rituais, e não afetam de modo algum as proibições alistadas aqui.






[1] Cf. A. F. Rainey, Bíblica, 51,1970, págs. 485-498. 


[2] Cf. R. A. Cole,Êxodo, Intr. e Com. (1980), pág. 216. 


[3] Para interpretações diferentes do tabernáculo e seleções do grande corpo de literatura, ver G. H. Davies, IDB, 4, págs. 498-506; C. L. Feinberg, ZPEB, 5, págs. 572-583; art. Tenda, NDITNT, vol. 4, por M. J. Harris e C. Brown. 


[4] H. N. e A. L. Moldenke, Plants of the Bible (1952), pags, 56-59; W. Wal­ker, All the Plants of the Bible (1957), pag. 84; R. K. Harrison, Healing Herbs of the Bible (1966), pag. 43; F. N. Hepper, Journal of Egyptian Archaeology, 55, 1969, pags. 66-72. 


[5] Fornos de pão da Palestina são retratados no NDB, págs. 1189, Fig. 167. 


[6] J. L. Kelso, The Ceramic Vocabulary of the Old Testament (1948), pâgs. 

13,23. 


[7] J. L. Kelso t, The Ceramic Vocabulary of the Old Testament, pig. 24. Para o termo, ver tambéii pigs, 12, 13, e figura 16, pâg. 48. 


[8] .E.g.H.F.Beck, IDB, 3, pig. 105. 


[9] Ver F. F. Bruce, Commentary on the Epistles to the Ephesians and Co- bssians (ed. de 1968), pigs. 299-300. 


[10] Fauna and Flora of the Bible, pág. 75.