29 de novembro de 2016

R. K. HARRISON - A consagração dos sacerdotes (8.1 - 20.20)

antigo testamento danilo moraes
A CONSAGRAÇÃO DOS SACERDOTES (8:1 - 10:20)

A primeira seção de Levítico estava em estreito relacionamento com as passagens em Êxodo que tratavam da seleção dos aronitas como a fa­mília sacerdotal oficial (Êx 28:1), as vestes que deviam usar (Êx 28:2­43), e o modo da sua consagração (Êx 29:1-46). Esta matéria seguiu as instruções acerca da planta e a edificação do tabernáculo do deserto (Êx 25-27), e, por sua vez, era seguida pela legislação da aliança (Êx 30-34) e pelas descrições da maneira segundo a qual o tabernáculo foi finalmen­te construído e mobiliado (Êx 35-40). Agora, uma grande seção de Levítico trata da consagração dos sacerdotes ao seu importante cargo medianeiro, e narra como as instruções de Êxodo 29 foram executadas. Poderia parecer à primeira vista que um sentido melhor de ordem pode­ria ter sido realizado por meio de descrever a consagração dos sacerdotes em conjunção com estes preceitos rituais, mas a organização interna do sistema sacrificial exigia que as várias classes de ofertas fossem enumera­das antes de os sacerdotes serem consagrados de fato e os cultos do Ta­bernáculo instituídos. A seqüência que foi adotada revelou-se bem apro­priada, tendo em vista que o sacrifício devia primeiramente ser ofereci­do por Moisés em prol destes sacerdotes como parte dos seus ritos de consagração, e somente quando os sacerdotes possuíssem o manual sacrificial na sua inteireza, e a autoridade de levar a efeito as suas instru­ções, é que poderiam oficiar segundo a sua vocação.[1] Em etapa algu­ma nestas narrativas há qualquer desvio da propriedade ritual.

a. A preparação para a unção (8:1-5)

1-2. Assim como no caso das informações a respeito das várias ofertas do sistema sacrificial, as instruções para a consagração vieram da parte de Deus, e, portanto, levavam consigo o mais alto grau da autori­dade moral e espiritual. A narrativa relembra Êxodo 29:4-37, e descre­ve a maneira segundo a qual aquela matéria foi implementada. As vestes consistiam em um peitoral, uma estola sacerdotal, uma sobrepeliz, uma túnica bordada, mitra e cinto (Êx 28:4). As respectivas vestes são as que devem ser usadas por Arão, o primeiro Sumo Sacerdote de Israel, e pelos seus sucessores, e seu estilo ornamentado teria honrado qual­quer templo ou corte real na antigüidade. É importante notar, no entanto, que à parte de serem designadas como sendo santas (Êx 28:2), a saber: reservadas especificamente para o serviço no tabernáculo e, mais tarde, no templo; nenhum significado específico cultual ou litúrgico era atribuído às várias vestes. O decorrer do tempo tornou difícil entender o que alguns dos termos realmente descreviam, e o resultado é que algumas das interpretações devem ser consideradas, na melhor das hipóteses, um pouco conjecturais. Porque o registro original era de origem contemporânea, o escritor pressupunha uma familiaridade da parte dos leitores e seus descendentes com os respectivos objetos. Esta familiaridade seria reforçada no decurso dos séculos mediante o con­tato visual com eles, vantagem esta que infelizmente não possuímos.

Tal é a situação da estola sacerdotal, que no caso de Arão era uma veste feita de tecido ricamente bordado, em comparação com as estolas sacerdotais mais simples de linho usadas pelos demais sacerdotes (cf. 1 Sm 2:18). Era segurada na sua posição certa por cima dos om­bros com duas correias, mas se a estola sacerdotal cobria o peito, o ab­dômen, ou ambos, não se sabe. Nas ombreiras havia pedras de ônix, gra­vadas com os nomes das tribos de Israel. Por cima da estola sacerdo­tal havia uma bolsa ou “peitoral” (Hebraico hóseri) que continha o Urim e o Tumim, que eram aparentemente objetos sagrados usados para lançar sortes. 0 termo “estola sacerdotal” também era usado ocasional­mente para descrever um ídolo (cf. Jz 8:27; 17:5) que era empregado no culto familiar, mas exatamente porque tal imagem era descrita por um nome usado para um objeto bem-atestado no culto israelita no taber­náculo não se sabe. O “peitoral” era uma quadra de tecido esmerada­mente bordado, engastada com quatro fileiras de pedras. Visto que era essencialmente um saquinho, a tradução de hòsen por “peitoral” é intei­ramente conjetural. O artigo talvez possa ser considerado um paralelo do peitoral ornamental de ouro que foi descoberto no túmulo de um so­berano da Idade de Bronze em Biblos.[2]

A sobrepeliz de Êxodo 28:4, 31-34 tinha a cor violeta, e aparente­mente era usada debaixo da estola sacerdotal. Era primorosamente enfei­tada com romãs bordadas, e tinha pequenas campainhas de ouro em derredor da parte inferior. O tecido parece ter sido trabalhado de uma só peça, um pouco como a túnica que Cristo estava usando na Sua crucifi­cação. Se for assim, a referência em João 19:23 pode ser interpretada como uma alusão a Cristo como o grande Sumo Sacerdote, no momen­to de apresentar-Se como a oferta suprema para o pecado humano. A sobrepeliz, normalmente usada no Oriente Próximo por pessoas de certa posição social, era feita de tecido listrado ou de estofo tecido numa for­ma configurada. O cinto era mais corretamente uma faixa que era freqüentemente usada no Egito pelos faraós e pelos oficiais nacionais, bem como por membros do sacerdócio. A mitra, ou turbante, era um longo pedaço de tecido que era enfaixado ao redor da cabeça, conforme se faz até aos dias de hoje, e havia ligada na frente dela uma pequena placa de ouro gravada com a inscrição “Santidade ao SENHOR” (Éx 28:36).

Por mais esmeradas que fossem estas vestes, mormente tendo em vista sua origem no ambiente do deserto, sua própria função era lembrar os israelitas de que um Deus poderoso, santo e justo estava realmente presente com eles, à medida em que se sustentava que quem usava as vestes estava ligado com Ele. Esta associação de vestes elaboradas com uma divindade também era um aspecto tradicional da adoração cultual cananéia, como, por exemplo, em Ugarite, onde o manto de deusa Ana­te era descrito como sendo ’epod. Não serviam para glorificar o cargo do sumo sacerdote ou doutros oficiais do culto, mas, pelo contrário, indi­cavam que havia certos padrões claramente definidos ligados à adoração dAquele que criara o universo, e caminhos específicos e exclusivos pelos quais se podia abordar a Deus.[3] O culto apressado, casual ou desordei­ro não tinha lugar algum na vida religiosa hebraica antiga, seja qual tenha sido a situação nos ritos cultuais doutras nações do Oriente Próximo. A adoração do Deus de Sinai era uma questão muito séria, visto ser Ele o único Deus vivo e verdadeiro, que podia lidar de modo rápido e certeiro com os transgressores, conforme até mesmo alguns membros da linhagem sacerdotal logo haveriam de descobrir. As formas preceituadas dos rituais hebraicos e as vestes dos sacerdotes serviam o propósito impor­tante de manter o caráter distintivo da adoração entre o povo da alian­ça, e resguardavam contra a possibilidade de inovações sendo introduzi­das de origens pagãs. Infelizmente, até mesmo estas precauções foram contornadas em períodos posteriores da história hebraica.

O óleo da unção (cf. Êx 30:22-33) para a consagração de Arão e dos seus descendentes era misturado por um perfumista (AV “farmacêu­tico’ ) de certo número de especiarias caríssimas, a maioria das quais de­certo vinha da Arábia ou da Índia. Esta mistura específica era limitada à unção dos sacerdotes, e qualquer outro uso constituía-se em delito ca­pital (Êx 30:32-33) porque a substância era santa. Os ingredientes con­sistiam em mirra fluida, provavelmente tirada do arbusto Commiphora myrrha; cinamomo odoroso (Gnnamomum zeylanicum); cálamo aro­mático, uma das espécies de planta do gênero Çymbopogon, talvez C. schoenanthus L., que tem sido descoberta nos túmulos do Egito; a cás­sia, mais provavelmente Gnnamomum cassia, árvore esta que está estrei­tamente relacionada com o cinamomo odoroso; e azeite como o veículo. Os animais a serem oferecidos para o sacrifício eram o novilho da ofer­ta pelo pecado (cf. Êx 29:10-14) e os dois carneiros (cf. Êx 29:15-22), sendo que a descrição destes últimos em Êxodo indicava que eram de uma espécie de ovelhas de cauda gorda. O elemento final na preparação para a unção era o cesto dos pães asmos, descritos em Êxodo 29:2 como bolos asmos misturados com azeite, e obreias asmas untadas com azeite, todos feitos de farinha de trigo finamente moída.

3-5. Uma vez feitos os preparativos, Moisés passou a ajuntar toda a congregação à porta do tabernáculo. Visto que o rito da ordenação e da consagração do sacerdócio ao serviço divino haveria de afetar todos em Israel, a cerimônia era pública. Os deveres de Moisés, o oficiante, seriam levados a efeito dentro do recinto do tabernáculo, talvez na pre­sença dos anciãos. Os demais israelitas teriam de obter a melhor vista que podiam, dos procedimentos, talvez por meio de ficarem de pé nalgum ponto alto no sopé do Monte Sinai, onde estavam acampados neste pe­ríodo.

E importante notar a posição de Moisés em relação às atividades de Deus aqui. Embora funcionasse como um servo, Moisés ainda esta­va encarregado da família de Deus (Nm 12:7; Hb 3:2), e assim forma um paralelo com a obediência e a fidelidade de Cristo, que também Se tornou servo (Fp 2:7) a fim de mediar a nova aliança. A comunhão dos crentes cristãos é tal que é possível para a pessoa principal tornar-se ser­vo de todos (cf. Mt 20:27; 23:11; Mc 10:44), conceito este que torna qualquer hierarquia dentro da comunidade uma questão algo artificial. A Moisés foi dada a revelação no Monte Sinai, e como o líder escolhido por Deus, a ele foi confiada a tarefa de organizar a vida religiosa e co­munitária do povo durante o período do deserto. Como oficial execu­tivo principal em Israel, agiu como representante visível de Deus na ce­rimônia impressionante de consagração que estava para se seguir.

Nesta capacidade, suas atividades estão totalmente de acordo com o gênio distinto do sistema sacrificial ao qual os sacerdotes estavam para ser dedicados, visto que a mediação da graça divina haveria de ser sua função básica. A ênfase sobre a qualidade correta com a qual todos os procedimentos e outros regulamentos haveriam de ser seguidos é suben­tendida pela declaração de que Moisés levou a efeito todos os seus de­veres conforme o Senhor lhe ordenara. O povo foi chamado à ordem imediatamente antes da cerimônia da consagração, por uma declaração solene de Moisés: “Isto é o que o SENHOR ordenou que se fizesse.” A proclamação toma claro, portanto, que a iniciativa para a atividade inteira viera da parte de Deus. Destarte, nenhuma acusação de favo­ritismo poderia ser feita contra Moisés ao consagrar um parente pró­ximo como sumo sacerdote, visto que a escolha fora do Senhor. Uma vez que aquele fato tinha sido claramente estabelecido, a cerimônia po­deria continuar de um modo totalmente democrático, e, por recomen­dar-se a todas as pessoas presentes como sendo legítima e autoritativa, poderia então reivindicar sua lealdade ao sacerdócio assim constituído e seu apoio a ele. A despeito destas precauções, no entanto, dentro em breve haveria de ocorrer um protesto contra a posição privilegiada dos aronitas (cf. Nm 16:1-35).

b. A cerimônia propriamente dita (8:6-13)

6. 0 grande rito da consagração começou quando Moisés levou Arão e seus filhos à porta da tenda da congregação, ao leste da qual havia a bacia de cobre feita dos espelhos das mulheres que serviam na porta do santuário nalguma atividade não especificada (Êx 38:8). Aqui, os aro­nitas foram lavados com água, a fim de purificá-los simbolicamente do pecado. Seria comparável ao batismo de adultos no Novo Testamento, um dos dois sacramentos que Cristo ordenou aos crentes. Alguns intér­pretes judaicos têm sustentado que a lavagem de Arão e dos seus filhos foi por imersão, conforme se exigia do sumo-sacerdote no dia da expia­ção (Lv 16:4), mas isto não fica claro na passagem. Numa terra em que bons suprimentos de água eram poucos, e distantes entre si, a lavagem do corpo inteiro era um evento comparativamente raro, e não menos num deserto ou ambiente ermo onde a água seria escassa a não ser nos oásis. Na prática, uma lavagem perfunctória das áreas expostas bastava, sob condições normais, para os nômades ou semi-nômades, ajudada pe­lo uso liberal de perfumes e ungüentos, especialmente no que diz res­peito às mulheres. Ao passo que os sacerdotes egípcios estabeleceram um padrão de higiene para seu povo ao lavar o corpo inteiro três vezes por dia, os sacerdotes hebreus usualmente enxaguavam somente as mãos e os pés quando começavam seus deveres no tabernáculo (Êx 30:19-21).

7. Uma vez que a purificação simbólica de Arão e dos sacerdotes tinha sido levado a efeito, realizou-se a cerimônia de vestir o sumo-sacer­dote. As vestes aqui mencionadas são alistadas na ordem em que parece que foram vestidas, e isto talvez indique que um relato de testemunha ocular tivesse sido preservado com bastantes pormenores. O processo formava uma parte importante do procedimento mediante o qual o su­mo-sacerdote era empossado no seu cargo elevado, pois por estes meios os emblemas do serviço foram formalmente outorgados a ele na presen­ça da nação inteira. Vestido desta maneira, intercederia anualmente no Santo dos Santos do tabernáculo em prol dos pecados involuntários do povo israelita no dia da expiação. Suas vestes cerimoniais retratavam as­sim as funções que, conforme a designação divina, era privilegiado a exer­cer em prol do povo da aliança. Por mais esmeradas que fossem, suas vestes não deveriam tomar-se motivo de orgulho pessoal, mas, sim, deve­riam permanecer como lembrança a ele e ao povo da sua posição como o principal servo sacerdotal de Israel.

As vestes conferiam a Arão uma qualidade distintiva visível entre seus pares como o líder espiritual e guia moral da nação. Por mais atra­ente que semelhante posição fosse, no entanto, traria suas próprias res­ponsabilidades em termos de consistência do testemunho e da santida­de da vida, e este fato tem apresentado um desafio a crentes em todas as eras. O selo visível da dedicação de Arão ao seu cargo era suprido de modo apropriado pela lâmina de ouro na frente da mitra, inscrita com o lema “Santidade ao SENHOR.” Os sacerdotes do Senhor devem ter certeza de que seu modo de vida está em harmonia contínua com a vontade de Deus (Hb 13:21), e devem procurar exemplificar os dons do Espírito na vida diária.

8. Neste versículo, as pedras oraculares são descritas pelos seus nomes oficiais. A palavra Urim é um termo plural de derivação desco­nhecida, mas tem sido ligado com o substantivo hebraico que significa “luz,’ ’ e também com a raiz Tirar, que significa “amaldiçoar.’ ’ Igual­mente desconhecida é a origem da palavra Tumim, que sempre se acha em conjunção com Urim na Escritura. Tem sido associada, quanto ao seu significado, com a raiz tãmam, “ser perfeito,” e como resultado, alguns intérpretes têm entendido que estes dois objetos indicam “luzes” (ou “maldições”) e “perfeições.” Na melhor das hipóteses, no entanto, es­tes significados são altamente conjecturais, e até mesmo podem enga­nar. É provavelmente melhor tomar por certo que os termos designavam as sortes sagradas sem mais especificação. O fato de que uma das pala­vras começava com a primeira letra do alfabeto hebraico, e a outra com a última letra, indicando, assim, algum tipo de totalidade como alfa-ômega, é, provavelmente, pura coincidência. Estes dois objetos foram usa­dos até ao período da monarquia antiga como meios de descobrir a von­tade de Deus (cf. 1 Sm 14:41), mas exatamente como eram emprega­dos para obter informações não é declarado. Tem sido sugerido que eram usados da mesma maneira que dados ou pequenos palitos marca­dos, e que a maneira deles cairem ou sua aparência no chão revelava a vontade divina dalguma maneira. Uma explicação mais cultual tem visto os objetos como símbolos da autoridade do sumo-sacerdote para buscar o conselho direto de Deus a respeito de questões que precisavam de ser resolvidas. É provavelmente melhor ver o propósito dos Urim e Tumim como meio oracular de fornecer ao inquiridor aquilo que, conforme se esperava, seria uma resposta direta, positiva ou negativa. Havia ocasiões, no entanto, quando o oráculo simplesmente não dava uma resposta (1 Sm 14:37; 28:6). A primeira menção destes objetos cultuais (Êx 28:30) toma por certo que os israelitas já tinham familiaridade com eles, visto que nenhuma explicação é dada acerca da sua natureza e função. Se­gundo parece, eram posses hereditárias do sumo-sacerdote, visto que passaram de Arão para Eleazar (Nm 20:28). A última referência a eles no Antigo Testamento acha-se em Neemias 7:65.[4] Na dispensação cristã, o “lançar de sortes” foi substituído pela orientação direta de Deus, o Espírito Santo.

9- 12. O vestir de Arão foi seguido pela unção e consagração do tabernáculo e dos seus móveis, como prelúdio à unção do próprio Arão. Moisés agiu como oficiante, espargiu o altar sete vezes, e ungiu seus uten­sílios bem como a bacia com o santo óleo da unção, cujo uso, conforme foi notado supra, era restrito à consagração dos sacerdotes. Depois, ocor­reu a unção de Arão, e nesta ocasião Moisés derramou parte do óleo sagra­do na cabeça do sumo-sacerdote. Precisamente por que a cabeça era ungida na antigüidade, e não as mãos, não se sabe a razão. A sugestão moderna de que a cabeça era ungida como símbolo de serem dedicados a Déus a mente e o intelecto do indivíduo não faria sentido aos hebreus antigos, visto que não entendiam a natureza nem o funcionamento do cérebro, e, pelo contrário, consideravam que o coração era a sede da inteligência, do propósito e da vontade. A unção de Arão era uma indicação de que tinha sido selecionado por Deus e designado para cumprir uma função específi­ca. A lâmina de ouro (NEB “roseta de ouro”) que era colocada na frente da mitra era provavelmente uma fita de ouro que circundava o ornato da cabeça ao nível da testa, para formar uma coroa sagrada (9), traduzida de modos variados como “diadema sagrado” (JB;NIV) e “símbolo de san­ta dedicação” (NEB). Certamente o ornato da cabeça era um símbolo alta­mente visível da consagração do sumo-sacerdote ao seu cargo em Israel. O procedimento da unção e a coroa eram emblemáticos da realeza, e ainda fazem parte das cerimônias de coroação dos monarcas britânicos. A ceri­mônia da consagração era impressionante, cheia de dignidade e solene, apropriada à posição e às responsabilidades daquele que a recebia. Não há registro de quaisquer palavras de instituição sendo trocadas entre Moisés e Arão, ou de qualquer bênção pronunciada sobre o novo sumo-sacerdote de Israel ,

13. Seguiu-se então uma parte menos minuciosa da cerimônia da consagração, em que Moisés chamou os filhos de Arão e os vestiu de túnicas. . . cinto. . . e tiaras. Os dois primeiros itens provavelmente se­riam vestes menos esmeradas do que aquelas preceituadas para o sumo-sa­cerdote, mas muito apropriadas para a gama usual de atividades sacerdo­tais, que incluíam o ensino (Dt 33:10), o lançar de sortes (Êx 28:30), e o pronunciar de decisões nos santuários (Êx 22:8), bem como o ofi­ciar no altar de sacrifícios. Ao passo que o sumo-sacerdote usava uma mitra, os sacerdotes inferiores usavam um boné simples (tiaras), prova­velmente feito de um pano dobrado, e com laços para fixá-lo na sua po­sição na cabeça. Este item pequeno servia a um propósito prático muito importante: proteger a cabeça do sacerdote do calor do sol enquanto oficiava ao ar livre, às vezes por horas em seguida.

Nesta parte da cerimônia, a unção tem implicações que são da máxima importância para o leitor cristão. Além do sacerdote, o profe­ta (cf. 1 Rs 19:16) e o rei (cf. 16:13, etc.) também eram ungidos enquan­to assumiam seus cargos. Estas três funções foram finalmente unidas na pessoa do Messias, título este que é derivado da raiz para “ungir.” O termo “Cristo” é o equivalente grego {Christos) da palavra hebraica para “Messias.” Falar, portanto, de Jesus como sendo “Cristo” é reco­nhecê-Lo como sendo o Servo escolhido de Deus, o Messias que fora prometido havia muito tempo, que seria ungido não somente com óleo (Is 11:2; 42:1), na tradição da antiga aliança, mas, mais especialmente, com o Espírito Santo (Mt 3:16; Lc 4:1, 18, 21; Jo 1:32-33), que O sustentou enquanto Ele veio a ser nosso grande Sumo-Sacerdote.

c. A oferta da consagração (8:14-36)

Embora o tabernáculo e seu conteúdo tivessem sido ungidos com o óleo sagrado, fazendo-o, assim, um lugar consagrado, era necessário serem oferecidos três sacrifícios como expiação para Arão e seus filhos de modo que fossem completamente purificados do pecado. Estes ri­tos faziam parte integrante da cerimônia inteira da unção e da consa­gração, e todos tinham igual relevância. Visto que o propósito de Deus para Israel, conforme é expresso em Levítico, é que este seja uma na­ção santa; qualquer sugestão de contaminação, ou no culto ou na vida comunitária, deve necessariamente ser removida a fim de que aquele objetivo seja atingido. Logo, a área inteira do tabernáculo tinha de ser consagrada antes de adoração aceitável a Deus poder ser oferecida ali. Arão, portanto, foi consagrado num lugar cerimonialmente limpo, e seus filhos foram instalados no seu sagrado cargo no mesmo ambiente. O. próprio altar foi purificado de modo que nenhuma profanação das ofer­tas sacrificiais ocorresse para desfazer a santidade do santuário e da co­munidade. Numa época posterior, Deus haveria de censurar Seus sacerdotes por oferecerem sacrifícios imundos no Seu altar (Ml 1:7), invali­dando, assim, o conceito total da adoração. A importância da proprie­dade ritual é ressaltada mais uma vez aqui, sendo que os sacerdotes de­vem primeiramente obter a expiação para si mesmos antes de poderem pretender obtê-la em prol doutros israelitas. Nenhum sacerdote em qualquer era pode levar seus seguidores a um ponto de desenvolvimen­to espiritual que ele mesmo não atingiu.

14-17. Os aronitas puseram as mãos sobre o novilho da oferta pelo pecado (14), identificando-se com o animal que haveria de ser. aba­tido em prol deles, e depois disto Moisés, na sua função de oficiante, se­guiu os procedimentos estipulados para sacrificar a oferta pelo pecado (4:1 — 5:13). Untou os chifres do altar do holocausto (cf. 4:25, 30, 34), purificou o altar, e depois derramou o resto do sangue à base do altar, para o consagrar e fazer expiação por ele. Consumir os tecidos gordurosos seguiu o padrão normal das ofertas pacíficas e pelo pecado (cf. 3:9-10, 14-15; 4:8-9, etc.), com uma correspondência verbal apro­priada no texto. O resto do animal era levado para fora do arraial para um lugar limpo, i.é, consagrado, onde era queimado de acordo com os regulamentos que regiam a oferta pelo pecado (cf. 4:12).

18-21. O holocausto de um carneiro seguiu a orientação de Le­vítico 1:3-13, que os sacerdotes recém-consagrados dentro em breve estariam observando pessoalmente. Moisés imolou o animal, espargiu seu sangue, e queimou a cabeça e outras partes juntamente com a gor­dura. Depois de terem sido lavadas as entranhas e as pernas, elas também foram queimadas como holocausto ao Senhor (21). Neste sacrifício os sacerdotes demonstraram sua completa obediência à vontade de Deus, e proclamaram seu desejo de renovar e manter a comunhão com Ele.

22. Depois desta oferta veio um sacrifício restrito a um ato de consagração (cf. Êx 29:19-20). Nesta cerimônia, Moisés tomou o se­gundo carneiro da consagração (22), e depois de os sacerdotes terem posto as mãos sobre ele, imolou-o, e untou com parte do sangue a ore­lha direita da Arão, e o polegar da sua mão direita, e o polegar do seu pé direito. O mesmo procedimento foi seguido para os filhos de Arão, e depois disto o restante do sangue foi espargido sobre o altar do holo­causto. O termo para “consagração” (modemamente “ordenação”) é derivado de uma raiz que significa “encher,” e em Êxodo 29:9 é tradu­zido pela expressão técnica “encher a mão.” Esta frase também ocor­re na tradição mesopotâmica nalguns textos de Mari, datados em cerca de 1750 a.C., onde a alusão parece ter sido à divisão dos despojos entre os vitoriosos. O texto hebraico pode dar a entender que os sacerdotes do santuário tinham o direito de participar das ofertas sacrificiais que eram trazidas para o tabernáculo, mas, conforme já foi deixado claro, a provisão para as necessidades deles era um elemento importante no sistema sacrificial. Em Levítico 8:22 NEB diz: “o carneiro para a insta­lação dos sacerdotes,” e esta expressão transmite o sentido de admissão aos direitos e privilégios do cargo. Parece um pouco diferente do signi­ficado original de “encher a mão” que, segundo parece, referia-se àque­las ofertas que eram colocadas nas mãos dos sacerdotes na ocasião da sua consagração, que lhes conferiam a autoridade de realizar deveres sacer­dotais. A diferença é aquela entre colocar uma Bíblia na mão de um can­didato na ocasião da ordenação, e a subseqüente nomeação daquela pes­soa a alguma função pastoral com seus respectivos direitos e emolumentos.

23-25. Colocar sangue sobre partes específicas dos corpos de Arão e seus filhos era um gesto altamente simbólico, com aplicação di­reta ao sacerdote e sua obra. De modo simbólico o corpo inteiro foi consagrado ao serviço do Senhor, e, ao aceitar a aplicação, o sacerdote reconhecia as obrigações inerentes no simbolismo. A partir de então, deve escutar cuidadosamente os pronunciamentos de Deus de modo que possa proclamá-los devidamente. Suas mãos devem ser dedicadas intei­ramente àquelas coisas que têm conexão com a obra do Senhor, de tal maneira que não seja tentado a realizar atos malignos. Seus pés devem sempre ser dirigidos de tal maneira que andarão continuamente nos ca­minhos do Senhor. O uso do sangue neste ritual separava o sacerdote das preocupações mundanas e dedicava-o completamente ao serviço de Deus. Este procedimento específico é rico em sentido para o sacerdócio cristão de todos os crentes consagrados pelo sangue de Jesus Cristo para ouvir a Palavra de Deus, para realizar obras de graça e misericórdia, e para andar segundo a orientação do Senhor.

26-29. Um procedimento restrito à oferta da consagração ocor­reu quando Moisés tomou toda a gordura do carneiro, juntamente com sua coxa direita, e as colocou nas mãos de Arão e dos seus filhos. Este era um “encher das mãos” formal que todos podiam ver, e a santidade do cargo ao qual os sacerdotes tinham sido nomeados foi proclamada pe­lo fato de que as ofertas colocadas na custódia deles incluíam as partes mais santas do sacrifício que pertenciam exclusivamente a Deus. Em conjunção com estas porções sacrificiais havia ofertas do cesto dos pães asmos (26), do qual foram tirados um bolo asmo, um que tinha sido mis­turado com azeite, e uma obreia. Estes foram colocados sobre a gordu­ra e a coxa direita do animal sacrificial, e os sacerdotes passaram então a fazer o gesto de apresentação da oferta movida em direção ao altar an­tes de devolver estas partes seletas a Moisés. Este último passou então a queimá-las no altar em conjunção com o holocausto para produzir, conforme a fraseologia antiquada do ritual, um aroma agradável. . . ao SENHOR (28).

Porque Moisés tinha, pelo momento, oficiado como um substitu­to do sumo-sacerdote, era-lhe necessário apresentar uma oferta a Deus por si mesmo. A porção que tocava a Moisés do carneiro da consagração consistia na dianteira, e esta, também, foi apresentada ao Senhor como oferta movida antes de ser queimada. A oferta da consagração, como a oferta pacífica (cf. 7:15-18), podia ser comida por aqueles em prol dos quais tinha sido sacrificada, mas, mais uma vez, a regra de que os sacer­dotes não podiam comer daquilo que tinha sido oferecido em prol deles tinha de ser inculcada. A coxa representava a porção atribuída aos sacerdotes, ao passo que a parte dianteira era aquilo que pertencia a Moisés na sua capacidade de oficiante temporário. Uma vez que estas porções tinham sido queimadas, o restante do sacrifício poderia ser comido por Arão e seus filhos. Assim como ocorria com outros aspectos do ritual, estes procedimentos foram seguidos meticulosamente, como o SENHOR ordenara a Moisés (29).

30-36. Moisés já levara a efeito os ritos de untar os corpos de Arão e dos sacerdotes, separando-os simbolicamente para coisas santas e as­segurando-se de que a plenitude das forças deles seria dedicada ao servi­ço do Senhor. Ainda na sua capacidade como oficiante, Moisés espar­giu uma mistura de óleo da unção e de sangue sobre as vestes cerimo­niais de Arão e seus filhos como um ato adicional de consagração. Os sacerdotes estavam, portanto, espiritualmente seguros nos seus cargos, porque foram protegidos pelo sangue do animal sacrificial, assim como os próprios israelitas tinham sido quando a primeira páscoa foi celebra­da no Egito (Êx 12:23). Porque Cristo foi sacrificado como nosso cor­deiro pascal, Seu sangue remove os pecados dos crentes e lhes dá a certe­za da salvação eterna, vivendo eles de acordo com a Sua vontade.

A cerimônia da consagração terminou com instruções dadas por Moisés a Arão no sentido de a carne sacrificial ser cozida, e os pães asmos serem comidos, fora da porta do santuário propriamente dito. (31). Este era um meio simbólico mediante o qual a aliança estabelecida en­tre Deus e o sacerdócio seria selada na presença da congregação inteira. A partir de então, os sacerdotes deviam dedicar-se exclusivamente ao serviço do Senhor ao ministrar à nação de Israel. Não deviam ocupar-se com trabalhos manuais, nem ser sujeitados a outras considerações mun­danas que poderiam desviar sua atenção e energias das coisas de Deus. Seu sustento deveria vir inteiramente do altar do tabernáculo, e deviam ser separados para ministrar coisas espirituais. Paulo deu um exemplo aos crentes ao declarar como sua vocação a convicção de que era sepa­rado para o evangelho de Deus (Rm 1:1). A separação futura dos sacer­dotes hebreus das atividades seculares e sua consagração ao tabernáculo era simbolizada pela exigência de que, durante os sete dias seguintes, não deviam sair da porta da tenda da congregação (33). Somente de­pois do decorrer de uma semana é que o sumo-sacerdote e seus filhos po­deriam considerar-se verdadeiramente ordenados. Ao serem limitados a uma só área pequena do átrio do tabernáculo, era impossível para os sacerdotes ficarem contaminados de qualquer maneira, ou de serem distraídos das atividades sacerdotais que faziam parte do processo da ordenação.

O v. 35 indica que em cada um dos sete dias seguintes, Moisés de­veria oferecer, em prol de Arão e seus filhos, os mesmos sacrifícios que tinham marcado a grande cerimônia da consagração (cf. Êx 29:35-36). Este procedimento envolvia alguma modificação nos procedimentos es­tipulados para as ofertas pacíficas ou do bem-estar, que permitiam que a carne fosse comida no dia depois daquele em que fora sacrificada (7:14-16). Nas circunstâncias especiais ligadas com a ordenação e a consa­gração, tudo quanto sobrava da carne ou dos pães asmos devia ser queimado no dia em que era oferecido (32). Não há qualquer registro dal­guma oportunidade ser dada aos sacerdotes para meditarem sobre a na­tureza da vocação para a qual foram escolhidos, mas o caráter dos ritos sacrificiais, por si só, lhes daria oportunidades para o arrependimento, a confissão do pecado, e a adoração de um Deus cujas misericórdias estão continuamente sobre todas as Suas obras (SI 145:9). Tudo quanto foi preceituado para os sacerdotes deve ser observado meticulosamente, para que estes não morram por causa da desobediência. O cargo de sa­cerdote era de natureza muito responsável, pois aqueles que o detinham poderiam influenciar a nação para o bem ou para o mal, conforme se tornou evidente subseqüentemente na história dos hebreus. Por esta razão, os sacerdotes eram advertidos periodicamente quanto às conseqüências sérias que lhes adviriam se desconsiderassem os regulamentos de Deus. A obediência está no coração tanto da antiga aliança quanto da nova, e esta, mais do que o amor, é a exigência primária que Deus faz dos Seus seguidores. O cristão é conclamado a trazer todo pensa­mento à obediência de Cristo (2 Co 10:5), e a ver a obediência como uma das marcas de uma personalidade santificada (1 Pe 1:2). A esta altura, Arão e os sacerdotes estão unidos numa disposição para seguir as instruções divinas, e para dar início à história longa e às vezes tur­bulenta do serviço sacerdotal à nação.



d. Regras para as ofertas (9:1-7)

1-2. Tendo decorrido o período da consagração, o novo sacerdó­cio israelita entrou no seu ministério público. Até esta altura, os sacri­fícios tinham sido oferecidos por Moisés, mas agora o trabalho é atri­buído àqueles que foram escolhidos e dedicados a ele. Na sua-capaci­dade de líder do povo, Moisés chamou, ou, melhor, “conclamou’ ’ (cf. 1:1), os aronitàs e os anciãos de Israel, sendo que talvez estes últimos tivessem estado dentro do recinto do tabernáculo durante o período da consagração, embora não estivessem no mesmo estado de santidade cerimonial que os próprios sacerdotes. Nesta ocasião específica, os aronitas são responsivos a toda ordem de Moisés, mas não passaria muito tempo antes de algo menos do que a obediência completa ser prestada às suas instruções (cf. Lv 10:16-18). O ministério mediador de Arão começa quando Moisés o ordena a tomar um bezerro sem defeito, de dois anos, como oferta pelo pecado, e um carneiro para um holocausto (2), e sacrificá-los diante do SENHOR. Estes dois animais deviam ser oferecidos em prol de Arão e o sacerdócio, e é significante que eram ofertas pelo pecado. Até mesmo a pessoa mais dedicada e consagrada ainda peca e fica muito aquém da glória de Deus (Rm 3:23; 5:12). Quan­to mais perto as pessoas vivem da vontade do Senhor, tanto mais têm consciência deste corolário da existência humana real.

3-5. Arão é ordenado a requerer da parte da congregação um bo­de, um bezerro e um cordeiro, sem defeito e de um ano de idade. A atenção consistente a detalhes que o sistema sacrificial lèvítico requer é ilustrada pela menção do cordeiro que, para ser considerado como tal, deve ter menos de um ano de idade; depois deste tempo fica sendo car­neiro. Os w. 2 e 3 consistem das únicas ocasiões na tarifa sacrificial em que um bezerro é preceituado para o sacrifício. Intérpretes judaicos pos­teriores sugeriram que o bezerro foi incluído aqui como uma expiação pelos eventos de Êxodo 32, mas embora isto seja possível, é, na melhor das hipóteses, incerto. Além disto, o povo devia trazer animais para sacrifícios pacíficos ou de bem-estar, e fornecer uma oferta de manjares misturada com azeite. Estas exigências abrangiam as formas principais de sacrifícios, e marcam a altura em que o povo começou a participar do sistema de ofertas. As exigências feitas aos israelitas nesta etapa das peregrinações no deserto são modestas, e bem dentro das capacidades deles para cumpri-las. Ilustra-se, assim, um princípio importante da vi­da espiritual, a saber: Deus não impõe sobre o crente qualquer fardo que é pesado demais para suportar, em contraste com as práticas dos fariseus (Mt 23:4; Lc 11:46) e dos seus sucessores espirituais.

6- 7. A razão porque o povo deve ser purificado bem como os sacerdotes agora fica aparente. A glória do Senhor deve ser revelada à comunidade, e Sua presença acrescentará um selo visível de aprovação às cerimônias de consagração que acabaram de ser concluídas. Para aque­les que passaram pela experiência do estremecer do Monte Sinai (Êx 19: 18), esta seria uma perspectiva ao mesmo tempo emocionante e amedrontadora.

A palavra aparecerá está no tempo perfeito em Hebraico, sendo falada como se já tivesse acontecido, porque não havia dúvida na mente de Moisés de que ocorreria. Quando tudo estava em estado de pronti­dão, Moisés mandou Arão começar seus deveres sacerdotais ao fazer ex­piação por si mesmo e pelo povo, de acordo com as instruções do Senhor. Até que isto tivesse sido feito, a presença de Deus não honraria nem os procedimentos nem os participantes. Sua glória já tinha descido sobre o tabernáculo acabado (Êx 40:34), e agora ela estava a ponto de ratifi­car o ministério a ser realizado ali.

e. Os sacrifícios de Arão (9:8-24)

Esta seção apresenta aquilo que era o padrão normal da adoração sacrificial israelita, em que o ritual da oferta pelo pecado precede natu­ralmente o holocausto,[5] e indica o modo segundo o qual Deus deseja que os adoradores se aproximem dEle. Antes de mais nada havia a ne­cessidade de purificação do pecado, de tal modo que o transgressor pudes­se ficar imaculado diante de Deus. O holocausto simbolizava a obedi­ência e a submissão da pessoa que já se identificava manualmente com seu sacrifício como meio de obter o favor divino, ao passo que a oferta pacífica ou de bem-estar visava promover o bem-estar do ofertante en­quanto continuava em comunhão com seu Senhor. Há uma pequena variação dos detalhes dos regulamentos que regem a oferta pelo pecado do sumo sacerdote (4:5-7), onde todo o sangue foi jogado na base do altar ao invés de parte ser espargido diante do véu do santuário e unta­do nas projeções do altar de incenso. Esta divergência pode ser esclare­cida ao relembrar que Arão ainda teria que entrar na tenda da congrega­ção pela primeira vez (23). Além disto, os procedimentos descritos em conexão com a oferta pacífica (cf. 3:1-17) variam um pouco, pois o peito, que normalmente ficava sendo a posse do sacerdócio (7:31) e a coxa direita, que era a prerrogativa do sacerdote oficiante (7:32), nesta ocasião foram apresentados como oferta movida (NEB “uma dádiva especial”) a Deus.

8-11. Arão sacrificou primeiramente sua própria oferta pelo pe­cado, visto que sua pureza estava estreitamente ligada com a da congre­gação, da qual ele era o exemplo. Este fato reflete os padrões de obe­diência, de pureza e de santidade estabelecidos por Jesus que o cristão é conclamado a seguir (1 Pe 2:21-24). Os filhos de Arão ajudaram no ritual de untar o sangue nas projeções do altar do holocausto; depois, o resto do sangue foi derramado à base do altar, e os tecidos gordurosos foram queimados da maneira normal. Os pedaços da carne e do couro também eram queimados fora do arraial, de acordo com os procedimen­tos exigidos para a oferta pelo pecado (Lv. 4:11-12).

12-14. Tendo sido imolado o holocausto, seu sangue foi espargi­do sobre o altar, sendo que, mais uma vez, Arão foi ajudado pelos seus filhos neste processo. Os deveres destes eram passar para ele as várias seções do animal sacrificial. Estes pedaços foram então queimados jun­tamente com a cabeça, as entranhas e pernas lavadas, conforme a ma­neira preceituada (Lv 1:6-9). A cerimônia de passar o sacrifício para Arão, pedaço por pedaço, era sem dúvida uma parte impressionante do ritual, mas também indicava que, à medida em que os pedaços compo­nentes eram abrangidos pela totalidade, assim também o sacerdócio in­teiro era representado pelo sumo-sacerdote oficiante.

15-17. O bode para a oferta pelo pecado do povo foi então imo­lado e apresentado ao Senhor. Seguiu-se, então, o holocausto, que tam­bém foi sacrificado de acordo com as diretrizes (o rito; RSV “ordenan­ça”). Os rituais que envolviam as ofertas de manjares foram cuidadosa­mente observados, sendo que a narrativa menciona a queima das porções memoriais (cf. Lv 2:2) no momento apropriado na cerimônia. Embora a recapitulação tediosa dos regulamentos seja evitada nos resumos de procedimentos apresentados aqui, fica sendo óbvio que os vários sacri­fícios são oferecidos de rigoroso acordo com os procedimentos precei­tuados. A obediência explícita, e não o individualismo ou a inovação, era o que Deus requeria do adorador.

18-21. Os sacrifícios pacíficos ou de bem-estar foram imolados em seguida, e mais uma vez, os filhos de Arão entregaram a ele o sangue do boi e do carneiro para espargir no altar. Todos os órgãos que eram cobertos de gordura foram consumidos pelo fogo, mas o peito e a coxa direita foram dedicados a Deus, empregando os gestos apropriados de apresentação.

A ordem dos sacrifícios descritos nos preceitos rituais constitui-se em guia importante para os cristãos no que diz respeito aos princípios da espiritualidade que subjazem o culto divino. Dos três conceitos enun­ciados, aquele que tinha prioridade dizia respeito à purificação do peca­do, denotada pela oferta pelo pecado. Quando a expiação apropriada tivesse sido feita, o adorador devia entregar sua vida e obra a Deus, con­forme é indicado pelo holocausto e a oferta de manjares. Finalmente, devia desfrutar da comunhão com Deus dentro do contexto de uma refeição de comunhão, que era fornecida pela oferta pacífica. Não há conflito de interesse aqui com os rituais de Levítico 1—5, visto que, dos cinco tipos enumerados, nada menos que três dizem respeito, dal­guma maneira, à remoção do pecado e da culpa. Oportunidades também são fornecidas mediante os preceitos sacrificiais para a dedicação, ações de graças e comunhão pessoais. Alguns cristãos gentios primitivos em Corinto, que não tinham familiaridade com as condições espirituais que regiam a adoração judaica, não observavam esta ordem, e, portanto, não conseguiram discernir o corpo do Senhor (1 Co 11:20-21,29).

22-24. Arão agora exerce sua prerrogativa sacerdotal ao invo­car a bênção de Deus sobre o povo. A tradição judaica posterior susten­tava que ele empregou a fraseologia magnífica da bênção sacerdotal em Números 6:24-26, em que o poder, a presença e a paz de Deus para os que estavam sendo abençoados perfazem a intenção do pronunciamento. Depois disto, tanto Moisés quanto Arão entraram no lugar santo da tenda da congregação. Talvez nesta ocasião Moisés formalmente transferisse as responsabilidades do santuário a Arão, e lhe desse instruções na reali­zação daquelas tarefas que ele mesmo empreendera anteriormente. Quan­do saíram para o átrio do tabernáculo, os dois oraram, pedindo a bên­ção de Deus sobre a nação de Israel. Como resposta a isto, a glória do Se­nhor tomou-se visível ao povo, provavelmente da mesma maneira que em Êxodo 40:34, em que uma nuvem e a “glória” (esta última palavra deriva de uma raiz “ser pesado’) continuava a indicar a presença de Deus. Parece haver pouca dúvida que os fenômenos da nuvem e do fogo, destacados no tempo do êxodo (Êx 13:21), desceram sobre o tabernácu­lo a esta altura. O fogo flamejou do meio da nuvem e consumiu os pe­daços sacrificiais que pertenciam a Deus, colocando, assim, um sinal in­confundível de aprovação divina nos procedimentos (cf. Gn 15:17; Jz 13: 19-20; 1 Rs 18:38; 2 Cr 7:1). Um conceito de larga aceitação nos cír­culos liberais, de que este fenômeno milagroso foi um acréscimo poste­rior, visto que os sacrifícios tinham sido queimados no altar, já foi repu­diado por Porter como sendo “de mentalidade por demais literalista.”[6] O que parece ter acontecido é que o fogo de Deus consumiu totalmente os sacrifícios que já estavam em processo de queima. O aspecto impor­tante e assustador que chamou a atenção, no entanto, foi a origem divina do fogo que queimou no altar dos sacrifícios.

Nas Escrituras, o fogo é freqüentemente empregado como símbo­lo da presença e das atividades de Deus (cf. Dt 4:24; SI 18:8-14; Ez 1: 4; Ap 1:14). Em Malaquias 3:2, o Messias vindouro foi assemelhado a um fogo de ourives que removeria as escórias e refinaria o metal até ele ter alto grau de pureza. João Batista levou esta idéia uma etapa adiante ao prometer que, ao vir, o Messias batizaria com o Espírito Santo e com fogo (Mt 3:11; Lc 3:16). A manifestação do Espírito Santo no Pentecoste foi descrita como sendo “línguas de fogo” pairando sobre os após­tolos, e assim foram cumpridas de modo espetacular as predições de João. A linguagem figurada em Malaquias está relacionada no pensa­mento de Paulo ao aquilatamento final das atividades do crente no dia do juízo (1 Co 3:13-15), quando, então, será examinado em termos dos padrões mais exigentes. O fogo que Cristo veio lançar sobre a terra (Lc 12:49) deve consumir tudo quanto é iníquo e indigno no crente se é que os ministros do Senhor realmente vão tomar-se em chamas de fogo (Hb 1:7).

A natureza dramática da teofania levou o povo a gritar alto, rea­ção esta que, sem dúvida, foi induzida por uma mistura que incluía o medo, a surpresa, a alegria e as ações de graças. Prostraram-se sobre os seus rostos (24) diante de Deus, adotando um método característico do Oriente Próximo de demonstrar submissão total a um suserano. Além do holocausto e o sacrifício de bem-estar que acabaram de ser apresen­tados a Deus em prol do povo pelo sacerdócio recém-ordenado, aos is­raelitas foi oferecida uma oportunidade totalmente inesperada para a ado­ração espontânea e uma expressão de gratidão a Deus.

f. Nadabe e Abiú (10:1-7)

Mal tinham terminado as cerimônias da consagração, e os sacerdotes entrado nas suas funções sagradas, e um ato de sacrilégio foi perpetrado pelos filhos mais velhos de Arâo, Nadabe e Abiú. O capítulo 9 mostra a maneira segundo a qual o povo devia aproximar-se de Deus na adora­ção, e as bênçãos e os benefícios que resultariam. O capítulo 10 torna claro quão rapidamente a retribuição divina veio sobre aqueles que se re­cusaram a seguir a orientação, e que insistiram, ao invés disto, em seguir um curso independente. O que tão recentemente tinha sido um tempo de felicidade e esplendor para a nação é estragado por uma tragédia des­necessária. A situação ficou sendo ainda mais lastimável por causa da posição privilegiada que estes dois homens tinham desfrutado quando, juntamente com Moisés, com o pai deles, Arâo, e setenta dos anciãos de Israel, tiveram licença de ver uma manifestação do Deus de Israel no Monte Sinai (Êx 24:1, 10). Os abusos que se permitiram foram de natureza muito séria, visto que foram induzidos pela desobediência.

1-2. Os dois homens começaram seus deveres no tabernáculo ao tomarem seus próprios incensários, que consistiam em panelas de forma achatada em que eram lavados carvões em brasa, e lhes deitaram fogo. Depois, colocaram incenso sobre as brasas, e, segundo parece apresenta­ram êste fogo estranho a Deus, de uma maneira que não tinha sido precei­tuada. Há vários elementos deste' procedimento que violavam todas as instruções para o sacrifício que Moisés recebeu da parte de Deus. Em primeiro lugar, não há indicação alguma de que as brasas foram tiradas do altar do holocausto (cf. Lv 16:12), cujo conteúdo fora aceso pelo fogo divino quando o Senhor santificou o tabernáculo na ocasião das cerimônias de consagração dos sacerdotes. Até este ponto, portanto, uma mudança significante tinha sido feita nos rituais sacerdotais, e algo que não era santo, i.é, não consagrado ao serviço de Deus tomou-se um intruso entre os demais elementos consagrados. Em segundo lugar, nada há nos preceitos pormenorizados do sacrifício que declarasse que qual­quer pessoa senão o próprio sumo-sacerdote devesse colocar incenso num incensário de brasas e apresentá-lo a Deus. Até mesmo aquela cerimônia era restrita ao dia da expiação quando, uma vez por ano, o sumo-sacer­dote entrava no Santo dos Santos do santuário para cobrir o propiciató­rio com uma nuvem de incenso. Logo, ao se comportarem assim Nadabe e Abiú estavam usurpando de maneira espalhafatosa e imperdoável as responsabilidades da pessoa principal da hierarquia sacerdotal. Suas ações podem ter sido o resultado do orgulho, da ambição, dos ciúmes, ou da impaciência, e, se for assim, sua motivação estava muito longe da intenção de quem procurava viver uma vida de santidade ao Senhor.

Em terceiro lugar, fica óbvio que nem Moisés nem Arão tinham sido consultados acerca da mudança repentina de procedimento, e, por­tanto, as ações de Nadabe e Abiú consistiram de um ato de desobediên­cia aos desejos conhecidos dos seus superiores, conforme são expressos na legislação sacerdotal, sem nada dizer quanto ao fato de constituir-se em ato de desafio contra Deus. Logo, a penalidade de ser “cortado”, preceituada em Números 15:30 para os pecados de intenção deÜberada contra os regulamentos da aliança, entrou em vigor de modo dramático. Além disto, o ato de colocar incenso sobre as brasas vivas poderia muito bem ter sido interpretado como sendo parte de um ritual simples de ofe­recer insenso a um deus pagão, tal como aquele em que se ocupavam as mulheres de Jerusalém nos tempos de Jeremias (Jr 44:25). Porque ser santo ao Senhor envolvia uma separação de todas as formas de mundanismo (cf. 2 Co 6:14-17), este tipo de inovação ritual era a própria antí­tese daquilo que Deus preceituara para a adoração a Ele.

Outros fatores que podem muito bem ter entrado na transgressão incluíam a possibilidade de que o incenso não tinha sido composto de acordo com as instruções dadas por Deus a Moisés (Êx 30:34-38); que os dois homens usaram seus incensários domésticos ao invés daqueles que tinham sido consagrados especificamente para o uso no tabernácu­lo; ou que a oferta fora feita de modo impróprio, de modo que usurpas­se as funções do altar de incenso (Êx 30:7-8). Talvez o mais importan­te de tudo seja a possibilidade de que Nadabe e Abiú estivessem num es­tado ébrio ao entrarem nos seus deveres, e que esta condição influísse rio seu são juízo. Nesta conexão, a proibição no v. 9 é muito relevante.

À luz do que foi dito supra, parece difícil acreditar que o delito cometido fosse puramente acidental na sua natureza. A inversão de valo­res, mediante a qual aquilo que era profano foi oferecido ao Senhor co­mo se fosse algo sagrado e consagrado é totalmente oposta a tudo quan­to a aliança do Sinai representava. Ironicamente, foi pelo fogo que os transgressores morreram (2), mortos por uma chama consumidora que é característica da natureza de Deus (Hb 12:29), que exige a adoração aceitável com reverência e santo temor. Não se sabe exatamente como o fogo matou Nadabe e Abiú, ou se a palavra “fogo” era um sinônimo para um raio de relâmpago.

Muitos daqueles estudiosos que atribuem uma data pós-exílica de composição a Levítico têm pressuposto que durante o exílio houvesse uma migração a Jerusalém de “grupos sacerdotais” da área do norte, pre­sumivelmente numa tentativa para estabelecer um sacerdócio do norte no reino do sul. Embora estes sacerdotes alegassem estar na tradição arônica, esta narrativa deixou claro que somente os filhos obedientes, Eleazar e Itamar, realmente transmitiram o sacerdócio legítimo de Arão, ao qual os sacerdotes israelitas apóstatas claramente não pertenciam. Para aque­les que sustentam este ponto de vista, a presente narrativa consiste de uma “história etiológica” 'que procura explicar a base lógica das condições que existiam num período subseqüente. Uma suposição deste tipo depen­de de atribuir, arbitrariamente, uma data na era do segundo templo a Levítico, proposição esta que foi asseverada muitas vezes por estudiosos liberais, mas ainda falta uma demonstração pelos fatos.

Mais significante de tudo é a falta total de evidência no Antigo Testamento para qualquer movimento de sacerdotes de santuários fora de Jerusalém para a capital de Judá a fim de substituir aqueles sacerdo­tes que foram levados para o cativeiro. Depois de 581 a.C. a área em derredor de Jerusalém ficou desolada, e a própria cidade era uma ruína, se é que se pode acreditar na evidência dé Lamentações. Quando os ca­tivos voltaram do exílio entre 538 a.C. e cerca de 525 a.C., a oposição que encontraram não vinha de círculos sacerdotais rivais, que se desta­cam pela sua ausência das narrativas relevantes, mas, sim, de indivíduos ou grupos com interesses políticos, tais como Sambalá, os árabes, os amonitas e os asdoditas (Ed 4:4;Ne 4:7).

3. Moisés empregou este incidente para ilustrar exatamente aqui­lo que Deus queria dizer por santidade e separação, a fim de que o pai desolado e o povo como um todo compreendesse. Ao passo que para os povos pagãos contemporâneos o conceito da santidade significava na­da mais do que uma pessoa ou um objeto ser consagrado ao serviço de uma divindade, para os israelitas a santidade era um atributo ético do caráter divino que tinha de ser refletido nas suas próprias vidas e no seu próprio comportamento, visto que eram ligados pela aliança ao Deus de Sinai. Há dois aspectos básicos deste relacionamento que deveriam estar sempre em primeiro plano nas mentes dos israelitas: o primeiro era que a aliança procedia do amor de Deus (hesed); o segundo, que exigia dos israelitas uma resposta de obediência sem hesitação e sem qualificações. Visto que certos membros da linhagem sacerdotal aparentemente se re­cusaram a levar a sério a resposta humana ao amor de Deus conforme a aliança, todos deveriam aprender uma lição que, pela sua natureza vi­sual, faria uma impressão duradora sobre as mentes individuais. Daí a declaração de Moisés de que Deus demonstrará a natureza e o significa­do da santidade. .

As palavras de Moisés não consistem de uma citação literal de pronunciamentos registradas na Torá, mas, sim, refletem seus ensinos acerca dos requisitos da santidade para o cargo de sacerdote (cf. Êx 19: 22; 29:1, 44, etc.) e o aforismo de Samuel de que a obediência é pre­ferível ao sacrifício (1 Sm 15:22). Porque a santidade é um dos atribu­tos espirituais mais característicos de Deus, forçosamente há de ser mani­festada entre aqueles que estão associados com Ele. O Novo Testamento está em harmonia com esta proposição na sua insistência em que os cren­tes em Cristo vivam vidas de consagração e santidade (Rm 12:1; Ef 5: 27; 1 Pe 1:15-16, etc.). Quanto mais estreitamente a pessoa está asso­ciada com a obra de Deus no mundo, tanto mais necessário é assegurar-se de que o relacionamento com Deus não é estragado por máculas espiri­tuais, senão, o crente não pode funcionar adequadamente como canal para a graça saneadora de Deus.

Uma situação deste tipo também exige que aqueles que têm dons especiais, ou que ocupam posições de grande responsabilidade na so­ciedade, devem ser especialmente escrupulosos no que diz respeito à sua conduta geral. Um número grande demais de pessoas que vivem em todos os níveis da vida comunitária imaginam que o destaque social ou político isenta, dalguma maneira, o indivíduo das exigências da lei moral. Em contraste, o Novo Testamento ensina que o juízo será aplicado mais rigorosamente àqueles que foram ricamente dotados com capacidade e conhecimento do que a outros numa situação menos afortunada (cf. Lc 12:48). O fato de que este julgamento começará pela casa de Deus (1 Pe 4:17) exige que cada crente deva confirmar sua vocação e eleição (2 Pe 1:10). Os filhos de Arão tinham ocupado por um período muito breve uma posição privilegiada como líderes espirituais da nação, mas não tinham levado suas responsabilidades tão a sério quanto exigia um Deus justo e santo. Como resultado, era impossível para Deus ser glo­rificado diante. de todo o povo. A consistência do testemunho cristão pelos lábios e pela vida é vista na insistência de que os crentes individuais glorificassem a Deus nos seus corpos (1 Co 6:20), i.é, com suas personalidades inteiras.

O impacto desta virada dramática dos eventos sobre Arão é per­cebido no seu silêncio enquanto a lição estava sendo assimilada. Sem dúvida, estava numa condição de choque severo, mas de qualquer ma­neira, dificilmente poderia ter justificado o comportamento dos seus filhos por qualquer motivo que fosse. Se no seu coração reconhecia que o castigo fora justo, embora fosse rápido e severo, sua única respos­ta poderia ser a da aceitação humilde da vontade de Deus (cf. SI 39:9).

4- 5. Para a tarefa de remover os cadáveres da área do tabernácu­lo, Moisés chamou dois primos em primeiro grau de Arão; Misael e Elzafã, acerca dos quais nada mais se sabe senão que não eram sacerdotes. Nenhuma pessoa consagrada poderia ter tocado nos mortos sem ficar contaminada, e este fato proibiu o pai desolado de entrar em contato físico com seus filhos mortos. Presumivelmente os primos de Arão eram os parentes mais próximos, e, portanto, podiam tratar dos ritos do enter­ro. Os cadáveres deveriam ser enterrados nalgum local além do arraial israelita propriamente dito, porque assim seria evitada a contaminação cerimonial de qualquer pessoa que acidentalmente chegasse ao local do enterro. Em terreno rochoso o sepulcro seria marcado por um monte de pedras empilhado sobre os corpos para evitar que estes fossem mu­tilados por animais ou aves predatórias. Os mortos estavam sendo apa­rentemente enterrados envoltos nas suas túnicas sacerdotais de linho (Heb. kfitõnet) tecidos com obra bordada (Êx 28:39), o que indica que, qualquer que fosse o dano feito a eles pelo fogo na ocasião da morte, não tinha queimado suas roupas externas até consumi-las.

6-7. Moisés proibiu Arão e seus dois filhos sobreviventes, Eleazar e Itamar, de lamentarem a morte súbita de Nadabe e Abiú. Deixar os cabelos desgrenhados e rasgar as vestes eram indicações comuns de gran­de pesar entre os israelitas (cf. Gn 37:29-30; 44:13). Outros membros da congregação poderiam lamentar a calamidade desta maneira se assim desejassem, mas se os sacerdotes consagrados sobreviventes fizessem as­sim, dariam a entender que não estavam dando prioridade às suas res­ponsabilidades sacerdotais. Tal atitude traria sobre eles o mesmo tipo de castigo da parte de Deus, porque pareceria que estavam disputando ou desafiando, dalguma maneira, o julgamento que fora executado. Esta proibição deve ter colocado uma pressão tremenda sobre o controle-próprio de Arão e dos seus dois filhos sobreviventes, especialmente porque os israelitas respondiam de modo muito emotivo à incidência da morte. Os demais aronitas também foram proibidos de deixar a área do santurio, porque estavam num estado de consagração ritual. Violar esta con­dição santa traria a morte sobre eles, e a ira punitiva sobre o povo de Israel. Mesmo num tempo de grande calamidade, os sacerdotes do Se­nhor deviam dar um exemplo à nação, de rigorosa obediência à vontade de Deus, e da fidelidade sem desvios às leis que regiam os rituais do ta­bernáculo. Fossem quais fossem seus sentimentos pessoais, não deviam per­mitir que coisa alguma interferisse com a obra do ministério. Ao cumprir a vontade do Seu Pai, Jesus Cristo não permitiu que considerações pessoais de qualquer tipo se pusessem no caminho da Sua obra redentora do Calvá­rio. Como tal, Ele fica sendo um modelo da dedicação e devoção que espe­ra-se que o cristão exemplifique.

g. Proibidos os sacerdotes bêbados (10:8-11)

8. Esta seção começa com uma declaração direta de Deus para Arão, ao invés de para Moisés, acerca de ingerir bebidas inebriantes. No futuro, sejam quais forem as circunstâncias, os sacerdotes oficiantes estavam proibidos de beber inebriantes antes de empreenderem seus de­veres sacrificiais no tabernáculo. A desobediência a esta proibição resul­taria na morte do transgressor. A santidade cerimonial e a auto-disciplina deviam, portanto, ir de mãos dadas. A presença de uma delas não garan­tiria que a outra estaria ali automaticamente. O fato de que o sacerdote foi consagrado de acordo com os rituais divinamente revelados não o im­pedia de fazer suas próprias decisões, para o bem ou para o mal. O de­senvolvimento do caráter cristão exige que a vontade do indivíduo seja entregue para o propósito de Deus para sua vida, seguindo o exemplo dado por Cristo (Jo 4:34; 5:30). Baseado nestes fatos, a tradição rabínica de que os dois filhos de Arão cometeram sacrilégio ao oficiarem no ta­bernáculo enquanto estavam sob a influência do álcool parece ter consi­derável substância.

9. Vinho e bebida forte parecem ter sido as bebidas principais para os adultos no Oriente Próximo antigo, visto que nem chá nem café tinham sido introduzidos naquela área neste período. O vinho (Heb. yayiri) era feito do suco espremido e fermentado das uvas, que bém possi­velmente foram cultivadas primeiramente na região de Ararate. [7] A bebi­da forte (Heb. Sekar) era um termo frequentemente usado em associação com o vinho, e as duas palavras parecem ter descrito bebidas alcoólicas de potência variada. Talvez a “bebida forte” fosse o produto da destilação, e como tal, fosse um licor alcoólico e não uma bebida fermenta­da tal como o vinho ou a cerveja. Esta última era fermentada tanto da cevada quanto das tâmaras, e era especialmente favorecida pelos egíp­cios e pelos filisteus. Porque os fornecimentos de água apropriada para o consumo humano não eram de modo algum abundantes no Oriente Próximo, parece ter havido pouca coisa disponível para beber à parte das bebidas alcoólicas dalgum tipo. Em tais condições, não era fácil, de modo algum, controlar a embriaguez, e somente os mais disciplina­dos, tais como os nazireus (Nm 6:3), conseguiam abster-se de bebidas inebriantes por períodos consideráveis de tempo. Nos dias de Isaías, parece que os sacerdotes se submetiam cada vez mais à influência do álcool (cf. Is 28:7), ao passo que o livro de Provérbios dá advertências freqüentes acerca dos perigos da embriaguez (cf. Pv 20:1; 23:30-31).

O álcool etílico é uma substância que não ocorre naturalmente nos tecidos constituintes do corpo humano. Quando é ingerido, é dis­tribuído rapidamente pelo intestino delgado, embora uma pequena quan­tidade passe do estômago diretamente para a corrente sangüínea. Um máximo de 10% do álcool consumido é desfeito pelos processos nor­mais físicos, sendo que o restante é metabolizado por certos órgãos do corpo, principalmente o fígado. Aqueles que bebem pequenas quan­tidades de álcool regularmente durante um período prolongado de tem­po não parecem sofrer maus efeitos significantes, provavelmente por­que, quando o álcool é ingerido, é grandemente diluído pelos fluidos do próprio corpo como parte do processo de absorção. O álcool opera di­retamente sobre o sistema nervoso central, e embora seu efeito em do­ses grandes e sempre mantidas seja o de um depressível, pode produzir certas formas de excitação quando é ingerido em quantidades peque­nas. Neste último estado, a perda de inibições é claramente notada, o que indica que o efeito imediato do álcool influi em funções mentais avan­çadas como o pensar e o fazer julgamentos. Desde os tempos muito antigos, o álcool tem sido bebido para aliviar a tensão ou o grande pesar, acreditan­do-se que as tristezas pudessem ser “afogadas” (cf. Pv 31:6-7), ou para agir como carminativo em casos de dispepsia ou de gastrite branda (cf. 1 Tm 5:23), além de servir como a bebida normal em várias culturas.[8] Oca­sionalmente, médicos modernos receitam a ingestão oral de álcool em doses semelhantes às clínicas, mas esta prática é rigorosamente uma so­brevivência da medicina folclórica.

Suprimentos abundantes de vinho eram considerados no Antigo Testamento como uma das bênçãos de Deus. (cf. Gn 27:28, etc.), tra­zendo alegria ao coração e alívio aos tristes (SI 104:15; Pv 31:7). O que, no entanto, era encarado com reprovação, era a embriaguez que forma­va uma parte integrante dos ritos religiosos pagãos em Canaã e noutros lu­gares, e embora os sacerdotes hebreus tivessem licença de ingerir bebidas alcoólicas como parte de uma refeição, eram proibidos de imitar as ativida­des ébrias dos seus pares cananeus, ou o comportamento de profetas cul­tuais tais como os muhhu, cujos pronunciamentos oraculares, segundo pa­rece, eram inspirados pelo menos parcialmente pelo álcool.

Os Nazireus refletiam as práticas antigas da separação e de uma abs­tinência auto-imposta, a fim de realizar algum tipo especial de dever re­ligioso (Nm 6:1-21). Um dos três aspectos distintivos principais dos na­zireus era a total abstinência do vinho e das uvas. Conforme Amós 2:11-12, Deus dera os nazireus ao Israel apóstata como exemplos e instru­tores espirituais, mas o povo comprometera o testemunho deles. Outro grupo que parece ter surgido contra o luxo e a corrupção da Judá dos sé­culos VIII e VII a.C. era conhecido como os recabitas, uma ordem fun­dada por Recabe, da tribo de Judá. O descendente de Recabe, Jonadabe, impusera uma proibição contra a ingestão do vinho, sem dúvida co­mo parte da tradição familiar, e os membros do grupo foram ferrenhos quanto à sua posição quando Jeremias, mediante a ordem recebida de Deus, testou a autó-disciplina deles (Jr 35:1-11). O profeta passou, en­tão, então, a usar a obediência deles ao seu ancestral como exemplo de fidelidade verdadeira, e demonstrou o forte contraste com a apostasia e desobediência dos israelitas ao seu Pai espiritual (Jr 35:12-19).

O cristão é advertido de modo semelhante contra o uso intempé­rante de bebidas alcoólicas (1 Co 6:10; Ef 5:18), visto que a personali­dade deve estar em todos os tempos sob o controle completo de Cristo.

10-11. Porque os sacerdotes precisam dar conselhos que afetam as vidas dos israelitas, devem ter plena posse das suas faculdades enquan­to cumprem seus deveres. Nada deve ter licença de interferir com seus processos mentais, senão, serão incapazes de discernir e mediar a vonta­de de Deus para Seu povo. Se estiverem sob o efeito do álcool, a distin­ção entre o santo e o profano logo ficará ofuscada, talvez até ao ponto de perder seu significado. Tal coisa frustraria um propósito importante do relacionamento da aliança, que visava, entre outras coisas, tornar os israe­litas o grupo mais distintivo no mundo antigo (cf. Dt 7:6; 14:2). Teori­camente, este aspecto distintivo capacitaria o povo, ao receber perguntas, a testificar da sua fé no Deus vivo do Sinai, que, acima de todas as demais divindades no Oriente Próximo antigo, era único e sem igual. Destarte, o povo da aliança poderia testificar àqueles ao seu redor quanto ao signi­ficado verdadeiro da santidade. Enquanto este povo se conformava pro­gressivamente ao mundo da cultura secular (cf. Rm 12:2), sua qualidade distintiva desapareceu, e seu testemunho foi transigido de modo corres­pondente.

Visto que o sacerdote também era um mestre da Torá, era questão de grande importância para ele não meramente saber os regulamentos cerimoniais e rituais, mas também ser convencido na sua própria mente quanto à diferença entre o bem e o mal, o comportamento moral e imo­ral, o sagrado e o profano. Jesus no Seu ensino tinha conselhos seme­lhantes para Seus discípulos (cf. Mt 7:6), de modo que, tendo a capaci­dade de distinguir entre o santo e o comum, não profanarias as coisas sagradas. Como resultado de uma visão (At 10:10-16), o apóstolo Pedro foi relembrado da capacidade de Deus de purificar aquilo que era comum, atividade esta que é característica do evangelho cristão. As leis a respei­to do imundo e o limpo são citados com pormenores em Levítico 11-15.

O dever do sacerdote como instrutor do povo nos caminhos do Senhor é inculcado em Arão (11). O sacerdote não é um oficiante me­cânico, programado para seguir automaticamente uma série de regula­mentos cultuais, mas, sim, é uma pessoa auto-consciente, consagrada ao serviço do Senhor, e, conseqüentemente, encarregado de responsabi­lidades espirituais importantes. Ao invés de pronunciar blasfêmias ou profanidades, seus lábios ensinarão o conhecimento de Deus. Longe de ser influenciado pelo gênio distinto do mundo pagão, o sacerdote se de­leitará em fazer a vontade de Deus (SI 40:8), e conhecerá tão bem a lei de Deus que poderá indicar aos outros a direção que suas vidas devem se­guir (cf. Ml 2:7). Não é, portanto, por acidente que o Novo Testamento emprega o conceito do sacerdócio para descrever o grupo dos crentes em Cristo, porque fala da dedicação, da entrega, da santidade, e comu­nhão estreita e contínua com o Senhor.



h. Regras para comer alimentos consagrados (10:12-20).



12-13. Estas instruções devem ser lidas em conjunção com os eventos descritos no capítulo 9, visto que tratam do modo de dispor das porções sacerdotais das ofertas. A oferta de manjares era aquela que se misturava com azeite (Lv 9:4), e que tinha sido apresentada na ocasião do holocausto. Porque era coisa santíssima tinha de ser comi­da junto ao altar, e sendo parte da oferta do povo (Lv 9:17), era a prerrogativa dos sacerdotes somente, mediante a especificação divina.

14-15. Em contraste com as restrições impostas sobre o comer da oferta de manjares, os sacerdotes têm licença de compartilhar com os membros das suas famílias o peito (“da dádiva especial” NEB) e a coxa (“da contribuição” NEB), apresentados como ofertas pacíficas. Estas porções não eram descritas como “coisas santíssimas” e, portan­to, podiam ser comidas em qualquer lugar limpo. A carne tinha sido consagrada pela forma especial de apresentação diante de Deus (ver no­tas sobre Lv 9:18-21), e, portanto, devia ser restrita aos sacerdotes. Era apropriado que tais pedaços seletos fossem a recompensa das pessoas que confiavam totalmente em Deus para seu sustento.

16-20. A referência ao bode da oferta pelo pecado obviamente diz respeito ao sacrifício apresentado pelo povo no término das cerimô­nias da consagração (Lv 9:3, 15). Parece, por estas palavras, que este último sacrifício acabara de ser completado antes de morrerem Nadabe e Abiú. O bode deveria ter sido oferecido segundo os procedimentos de Levítico 9:8-11, onde os pedaços que não foram queimados no al­tar de bronze foram destruídos fora do arraial israelita. Não fica claro na narrativa se foram envolvidas duas queimadas separadas, mas certamen­te havia outras irregularidades rituais. Em Levítico 9:15, Arão tinha apre­sentado esta oferta e, portanto, era tecnicamente responsável para super­visionar o seguimento correto dos procedimentos. Mas foi provavelmen­te por respeitar a grande tristeza do sumo-sacerdote que Moisés chamou a atenção dos dois filhos sobreviventes. Segundo as regras estipuladas em Levítico 6:26, a oferta pelo pecado devia ser comida dentro do re­cinto do lugar santo. O que não foi declarado naquela passagem foi a razão que subjazia o fato de os sacerdotes comerem a oferta, a saber: para levardes a iniquidade da congregação, para fazerdes expiação por eles. Fica sendo claro, portanto que os sacerdotes são mediadores da graça divina, ajudando o povo a fazer expiação pelo pecado e depois participando da oferta, indicando assim sua plena aceitação por Deus e a restauração do povo à comunhão com Ele. Nalgumas versões, do v. 18, (incl. ARC e ARA) o Hebraico é traduzido como uma declaração direta, ao passo que NEB introduz um elemento condicional: “Se o sangue não for trazido para dentro do recinto sagrado, comereis a oferta pelo peca­do ali conforme me foi ordenado.” Esta interpretação do Hebraico é difícil de se sustentar.

A quebra dos procedimentos litúrgicos pelos dois filhos talvez não tenha sido especialmente obstinada. Devido à tragédia que tinha sobrevindo à família tão pouco tempo após as cerimônias da consagra­ção, os filhos sobreviventes talvez tenham sentido que realmente não poderiam comer, por causa do choque e da tristeza. É também possível que tenham pensado que fossem dalguma forma maculados pela trans­gressão pelos irmãos deles, e, portanto, que tivessem medo de serem eles também abatidos de repente. Do outro lado, é possível que tenha segui­do o exemplo do próprio Arão na sua abstinência da oferta pelo pecado. Parece que Arão estava totalmente desnorteado pela incidência da cala­midade, especialmente tendo em vista que parecia que as regras de pro­cedimento foram seguidas de perto (19). Por motivos de decoro, descul­pou seu próprio comportamento e o dos seus dois filhos sobreviventes, explicação esta que foi aceitável a Moisés.

Com este evento trágico, terminou a segunda seção principal de Levítico. Os sacerdotes foram consagrados, e os três membros sobre­viventes da família já agora estão dolorosamente conscientes das con­dições rigorosas de comportamento que governam seu cargo. O restan­te de Levítico consiste em regulamentos, procedimentos cerimoniais e leis rituais, que o sacerdócio tinha a responsabilidade de administrar. O caráter destas ordenanças demonstra que todos os aspectos da vida submissa a Deus são sagrados.






[1] Cf. O. T. Allis, The New Bible Commentary Revised, pág. 148. 


[2] Para este artefato ver P. Montet, Byblos et VEgypte (1928-29), págs. 162-163 e Figs. 93, 94. 


[3] Para o significado simbólico das vestes sacerdotais, ver S. H. Kellogg, The Book of Leviticus (Expositor’s Bible), 1891, págs. 192-201; A. E. Crawley, Ency­clopaedia of Religion andEthics, 5 (1912), págs. 65-66; J. R. Porter, Leviticus, pig. 63. Para o simbolismo das cores na antiguidade, ver Filo, De Vita Mosis, 3:6; Josefo, Ant. III. 7.1. 


[4] Sobre os Urim e Tumim, ver A. Jeremias em H. V. Hilprecht Anniversary Volume (1909), págs. 223-242; H. G. May, American Journal of Semitic Languages and Literatures, 56, 1939, págs. 44-69; R. de Vaux, Ancient Israel (1961), pág. 352; J. Lindblom, VT, 12, 1962, págs. 164-178; E. Robertson, VT, 14, 1964, págs. 67­74; I. Mendelsohn, IDB, 4, págs. 739-740; G. Fohrer, História da Religião delsrael (1983). 


[5] W. F. Lofthouse em A. S. Peake (ed.), Commentary on the Bible (1937), 

pág. 201. , 


[6] J. R. Porter, Leviticus, pág. 75. 


[7] Cf. R. K. Harrison, A£)S, págs. 1661-2. 


[8] Certo texto médico babilónico descreveu uma condição por demais co­mum naqueles tempos: “Se um homem tiver bebido demais de vinho forte, e se sua cabeça estiver confusa, se se esquecer das suas palavras e se sua fala ficar embaraçada, se seus pensamentos divagarem e seus olhos ficarem vidrados...” F. Küchler, Beitrã ■ ge zur Kenntnis der Assyrisch-Babylonischen Medizin (1904), pág. 33, citado por R. 

C. Thompson, Encyclopaedia of Religion and Ethics, 4 (1912), pág. 745. A diagno­se indicada pelos sintomas deve ficar razoavelmente óbvia.