24 de outubro de 2016

TREMPER LONGMAN III - Nóe e Utnapishtim

antigo testamento danilo moraes
Nóe e Utnapishtim
em qual relato do dilúvio devemos acreditar? 

Uma história, talvez apócrifa, narra a agitação que uma descoberta provocou em um dos grandes pioneiros do estudo da literatura mesopotâmica, o inglês George Adam Smith, o qual, em outras circunstâncias, seria bem pacato. O ambiente é o final do século 19, quando milhares de tábuas de barro provenientes da Mesopotâmia foram acrescentadas à coleção do museu britâ­nico. Por estar fazendo a leitura inicial dessas tábuas, tornou-se a primeira pessoa desde a antigüidade a ler a décima primeira tábua do épico de Gilgamesh a qual é a parte que narra acerca do grande dilúvio. Diz a história que quando Smith leu a tábua e notou a incrível similaridade com o relato bíblico do dilúvio, ele subiu em cima de uma mesa de biblioteca e começou a rasgar as roupas por estar tão empolgado.[1]

Se essa história é verdadeira ou não, certamente reflete a realidade da empolgação que estudiosos sentiam quando viram a intima ligação entre as várias e antigas tradições do dilúvio. 

Em resumo, acharam que haviam encontrado a origem do relato bíblico. Este era simplesmente uma reescrita do relato do antigo Oriente Próximo! Frederick Delitzsh, filho do grande comenta­rista luterano Franz Delitzsch, e figura de peso na disciplina relativamente recente de estudo da antiga Mesopotâmia (assirio- logia), bem como outros estudiosos, defenderam a idéia de que a Bíblia era, em essência, um débil reflexo desses grandes mitos e lendas.[2] Mas será que essa é a única explicação? Antes de poder­mos responder a essa pergunta, precisamos apresentar com mais detalhes o que, exatamente, a literatura antiga extrabíblica diz sobre o dilúvio. 

Relatos mesopotâmicos sobre o dilúvio 

A antiga Mesopotâmia (que é a combinação das tradições suméria e acádica) nos legou três importantes relatos de dilúvio (Gêne­sis Eridu, Gilgamesh e Atrahasis) mais outros textos que mencionam o dilúvio (p. ex., a lista de reis sumérios). Em outras palavras, pare­ce que o dilúvio foi uma tradição bem atestada na Mesopotâmia antiga. Apesar do fato de que o herói do dilúvio (o equivalente a Noé no texto bíblico) tinha um nome diferente nessas composi­ções (Ziusudra, Utnapishtim e Atrahasis), a história basicamente continua a mesma,[3] ainda que o relato mais completo esteja no épico de Gilgamesh. Tendo em vista o nosso propósito aqui, nós nos concentraremos apenas no épico de Gilgamesh, uma vez que proporciona o paralelo mais claro com o texto bíblico. 

0 épico de Gilgamesh. Com certeza a mais conhecida das anti­gas composições mesopotâmicas, o épico de Gilgamesh não traz nenhum relato de criação, mas sua história de dilúvio é aquela com as mais relevantes semelhanças com o relato bíblico do dilú­vio. Mas Gilgamesh apenas narra o dilúvio no contexto de um enredo maior, que aqui vou narrar apenas de modo resumido. 

Gilgamesh é o rei de Uruk, e no início do conto ele é bem impopular entre seus súditos.[4] Como conseqüência, eles vão se queixar ao deus Anu, o qual responde, criando Enkidu. Este iria, presumivelmente, ser rival de Gilgamesh e distraí-lo para que deixasse de lado seu comportamento opressivo com os cidadãos de Uruk. De início, contudo, Enkidu não entrou na cidade de Uruk. Ele é um homem primevo, e, para ele, a companhia de animais no campo é mais o seu estilo. Isto, é claro, não atende aos interesses do povo, de modo que enviam uma prostituta para fora da cidade com o objetivo de “civilizar” Enkidu. 

A prostituta tem sucesso em seduzir Enkidu, de cuja compa­nhia os animais já não gostam mais, de modo que é com relutân­cia que a acompanha até Uruqye. Uma vez ali, Enkidu se encontra com Gilgamesh, e eles lutam. Em meio à luta ambos se tornam firmes amigos e embarcam juntos numa série de feitos. 

Entre outras aventuras, derrotam Huwawa, o protetor da flo­resta de cedros do Líbano. Durante esse período a grande capaci­dade e beleza de Gilgamesh atraem a deusa Ishtar, que propõe se casar com ele. Gilgamesh, conhecedor do destino que tiveram seus amantes anteriores, a rejeita, o que faz com que ela procure o pai, o deus Anu, em busca de vingança. Anu não deseja matar Gilgamesh, mas, em vez disso, o castiga matando Enkidu. 

Gilgamesh é bastante tocado pela morte de Enkidu, não ape­nas porque é seu amigo, mas também, ao que parece, porque a morte de Enkidu o confronta com sua própria mortalidade. O restante do conto é a história da procura, por Gilgamesh, de uma resposta para a morte. 

E essa indagação que o leva até Utnapishtim, visto que Utnapishtim é o único ser humano a não experimentar a morte. A pergunta de Gilgamesh a Utnapishtim sobre por que ele não morreu é o que leva este último a relatar sua experiência com o dilúvio (tábua 11 do épico). 

Respondendo a Gilgamesh, Utnapishtim narra o tempo em que os deuses decidiram trazer um dilúvio contra a humanidade. O deus Ea, no entanto, se comunicou com um dos seus devotos e lhe disse para construir uma embarcação que transportaria os moradores da terra em meio à devastação causada pelo dilúvio. As dimensões dessa arca foram as de um grande cubo. Tendo terminado de construir a arca em apenas sete dias, Utnapishtim carregou o barco com provisões, mas, mais importante ainda, tam­bém levou sua família e animais dentro. Quando todos estavam seguros dentro da embarcação, chuvas terríveis começaram. Até os deuses “ficaram assustados com o dilúvio”. A tempestade durou sete dias, e a embarcação veio a parar sobre o monte Nimush. A essa altura Utnapishtim soltou algumas aves em sequência — duas pombas e, em seguida, uma andorinha — para ver se terra firme já tinha aparecido. O truque deu certo com a última ave, e desembarcaram. Sua primeira providência foi ofe­recer um sacrifício, o que foi um grande prazer para os deuses, que estavam esfomeados devido à falta de atenção dispensada pelos seres humanos. Enlil, no entanto, não ficou nada satisfei­to e acusou Ea por falta de lealdade com os colegas deuses. Mesmo assim Ea conseguiu acalmar Enlil, e este último então decidiu outorgar imortalidade a Utnapishtim e sua esposa. Para Gilgamesh a história é fascinante mas também deprimente, pois descobriu que a imortalidade de Utnapishtim não se repetiria. Assim sendo, o próprio Gilgamesh não irá encontrar resposta para seu dilema. 

Ele, contudo, não está convencido de que o lugar em si não o proteja da morte até descobrir que não é capaz nem mesmo de evitar o sono, o primo distante da morte. Ele dorme, e isso o convence de que a morte não está muito longe. 

Apesar disso, a caminho de casa, Utnapishtim informa Gilgamesh acerca de uma planta no fundo da água, a qual parece ter o poder de preservar a vida. A despeito de Gilgamesh ter tido sucesso em apanhar a planta, uma serpente a rouba dele. (Esse episódio provavelmente é uma explicação do porquê de as ser­pentes renovarem a própria vida ao se desfazerem de sua pele.) No final da história, Gilgamesh veio a aceitar o fato de que não viverá para sempre, a não ser por meio de seus grandes feitos.[5]

Ligações com Gênesis 6—9. Não podemos negar as semelhan­ças entre o épico de Gilgamesh e o relato bíblico do dilúvio. De outro lado, claras diferenças vêm à tona, quando comparamos os relatos. Trataremos de ambos, agora enquanto acompanhamos o enredo do relato bíblico. 

Tal qual Enlil, Yahweh decide usar uma inundação catas­trófica para trazer juízo sobre suas criaturas. No entanto, o que os motiva é de uma diferença muito importante. Enlil estava cansado do “barulho” da humanidade, provavelmente como resul­tado de superpopulação. O relato bíblico é colocado no contexto da criação da humanidade, que encorajava a multiplicação da raça humana (Gn 1.28). E a motivação bíblica para o dilúvio foi moral e não uma questão de inconveniência causada à divindade. O rela­to bíblico do dilúvio começa com a afirmação de que “Viu o Senhor que a maldade do homem se havia multiplicado na terra e que era continuamente mau todo desígnio do seu coração” (Gn 6.5). A dimensão moral do relato do dilúvio está ausente na versão mesopotâmica. Aliás, se há algo que podemos dizer é que o épico de Gilgamesh descreve Enlil e os deuses a fazer algo errado e pagando as consequências. 

A escolha do “herói do dilúvio” também ressalta uma dife­rença significativa entre os relatos. Na Mesopotâmia o deus da sabedoria se disfarça e alerta secretamente seu seguidor acerca do dilúvio que estava para vir. No relato bíblico, Yahweh, o Deus que traz o dilúvio, também é o Deus que assegura a continuação da raça humana após o dilúvio, quando alerta Noé, que era um “homem justo” (Gn 6.9). 

Em vários pontos da história existem diferenças em meio às semelhanças. As duas histórias registram a construção do barco, a duração do dilúvio, a entrada de animais e outros seres humanos na embarcação, mas os detalhes são diferentes. 

Para ilustrar um episódio que é parecido mas ao mesmo tempo extremamente diferente, podemos comparar os dois relatos da oferta de sacrifícios. A semelhança é que nos dois casos o herói do dilúvio oferece sacrifícios a seu Deus ou deuses como o primeiro ato depois de desembarcar. No entanto, a descrição da reação dos deuses no relato mesopotâmico é radicalmente diferente do relato bíblico. Afinal, os deuses mesopotâmicos dependiam do sacrifí­cio oferecido pelos humanos para se alimentarem. Em suma, os deuses passam fome por causa da destruição da humanidade, de forma que, depois que o fogo do altar é aceso, o épico diz: 

Os deuses sentiram o aroma. 

Os deuses sentiram o doce aroma. 

Tal qual moscas, os deuses se aglomeraram em torno daquele que oferecia sacrifícios.[6]

Talvez a semelhança mais notável entre os dois relatos seja o emprego de aves para determinar se as águas do dilúvio haviam ou não baixado. De acordo com o texto bíblico : 

Ao cabo de quarenta dias, abriu Noé a janela que fizera na arca e soltou um corvo, o qual, tendo saído, ia e voltava, até que se secaram as águas de sobre a terra. Depois, soltou uma pomba para ver se as águas teriam já minguado da superfície da terra; mas a pomba, não achando onde pousar o pé, tornou a ele para a arca; porque as águas cobriam ainda a terra. Noé, estendendo a mão, tomou-a e a recolheu consigo na arca. Esperou ainda outros sete dias e de novo soltou a pomba fora da arca. À tarde, ela voltou a ele; trazia no bico uma folha nova de oliveira; assim entendeu Noé que as águas tinham min­guado de sobre a terra. Então, esperou ainda mais sete dias e soltou a pomba; ela, porém, já não tornou a ele (Gn 8.6-12). 

No épico de Gilgamesh a arca veio a pousar sobre o monte Nimush, e, depois que passaram seis dias, lemos o seguinte relatório: 

Quando chegou o sétimo dia, 

Soltei uma pomba para que se fosse, 

A pomba foi e voltou, 

Não apareceu nenhum lugar para pousar, então retornou. 

Soltei uma andorinha para que se fosse, 

Não apareceu nenhum lugar para pousar, então retornou. 

Soltei um corvo para que se fosse, 

O corvo partiu, viu o baixar das águas, 

Comeu, voou em círculos, não retornou. 

Conquanto a ordem das aves seja diferente em cada relato (corvo, pomba; pomba, pomba, andorinha, corvo), não é possível explicar a semelhança desse episódio como resultado do acaso ou de um antigo costume cultural comum. Teremos de buscar outra explicação, e é para isso que nos voltamos agora. 

Relações entre relatos do antigo Oriente Próximo e Gênesis 

Qual a melhor maneira de entendermos a relação entre os relatos do dilúvio do antigo Oriente Próximo, em particular na sua rela­ção com o relato de Gênesis? Embora haja diferenças, as semelhan­ças são suficientemente grandes para deixarem de ser consideradas, mas será que são tão grandes a ponto de a única explicação ser que Gênesis simplesmente tomou emprestado e adaptou um mito da antiga Mesopotâmia? 

Primeiramente, temos de reconhecer uma coisa, algo que deve ser feito por qualquer um que trate deste assunto. Não podemos ser dogmáticos na nossa avaliação da relação entre esses textos. Em outras palavras, não temos como provar, além de qualquer dúvida, nossa interpretação desta questão. Aliás, a forma como determinamos a relação é, em grande parte, determinada por nossas pressuposições. Existem limites sobre como podemos entendê-la, e certas interpretações são eliminadas ou consideradas imprová­veis devido à natureza de nosso conhecimento. Por exemplo, é muito improvável que o épico de Gilgamesh tenha feito uso do relato escrito do dilúvio na Bíblia. Em primeiro lugar, a tradição mesopotâmica tem suas raízes na literatura mesopotâmica muito antes do relato escrito de Gênesis. Além do mais, é raro uma cul­tura avançada se apossar de algo de uma cultura inferior. Ê mais provável que uma cidadezinha de fim de mundo seja influen­ciada culturalmente por São Paulo do que o contrário, e, no mundo antigo, Israel era a cidadezinha de fim de mundo, e Babilônia era a cidade de São Paulo. 

Entretanto, existem mais opções do que simplesmente con­cluir que a Bíblia se apossou do material babilónico. Uma expli­cação igualmente plausível é que ambas as tradições remontam a um acontecimento real. Nesta altura evitarei perguntar sobre a natureza do dilúvio, ou seja, se o dilúvio foi uma inundação local excepcionalmente grande ou se foi global. Qualquer que tenha sido o caso, o dilúvio deixou sua marca nas lembranças dos sobre­viventes. O relato do dilúvio e sua interpretação devem ter sido transmitidos ao longo de gerações. Examinando a situação a par­tir do modo como a Bíblia encara a humanidade, é possível fazer a seguinte reconstrução hipotética. 

Depois do dilúvio, a humanidade descendeu de Noé e sua família da mesma maneira como a humanidade havia, anterior­mente, descendido de Adão. Tal como os descendentes de Adão, os de Noé se dividiram, mais tarde, em duas comunidades, uma que seguia a Deus, e outra que o rejeitava. Esta última adotou sua própria perspectiva religiosa, de idolatria politeísta. A história do dilúvio continuou sendo transmitida de geração em geração, mas sua explicação foi alterada para se adaptar à sua nova perspectiva religiosa. O épico de Gilgamesh e as outras tradições de dilúvio do antigo Oriente Próximo representavam a tradição que se recor­dava do dilúvio através da lente de um sistema religioso poli­teísta, ao passo que o relato de Gênesis é uma forma escrita posterior da interpretação daqueles que adoravam Yahweh. 

Quer a pessoa aceite um relato ou outro ou mesmo nenhum, essa é uma questão de sua perspectiva religiosa, inclusive uma avaliação da natureza da autoridade bíblica. Não é provável que se consiga provar algum modelo específico de compreensão das simila­ridades e diferenças entre as tradições bíblica e mesopotâmica. No entanto, esta análise demonstra que a posição de que Israel sim­plesmente tomou emprestado o relato mesopotâmico e o adaptou às suas próprias convicções não é a única conclusão possível. 

A perspectiva adotada neste capítulo favorece nossa com­preensão do relato. Se estudarmos o relato bíblico à luz do relato mesopotâmico, o contraste entre as respectivas divindades é gri­tante. Embora Yahweh se revele como um Deus que julga, ele não é como a divindade imprevisível Enlil. No contexto do juízo, nos deparamos com a graça no relato bíblico, a qual está faltando no relato do antigo Oriente Próximo. 

[Princípios interpretativos e leitura adicional para o capítulo cinco se encontram no final do capítulo seis (ver p. 116-117).] 







[1] Mais recentemente o relato volta a ser narrado por Karen Rhea Nemet-Nejat, Daily life in Mesopotamia (Peabody: Hendrickson, 1998), p. 5 e 6. 


[2] Franz Delitzsch, Babel und Bibel (Leipzige: Hinrichs, 1903). 


[3] Essa é uma constatação feita por John H. Walton, yíncient Israelite litera­ture in its cultural context (Grand Rapids: Zondervan, 1989), p. 20. 


[4] Sabemos que Gilgamesh foi um rei que existiu e em torno de quem cresceram essas lendas. Veja Jeffrey Tigay, The evolution of the Gilgamesh epic (Phildelphia: University of Pennsylvania Press, 1982), p. 13-6. 


[5] A última tábua do épico de Gilgamesh, tal como o temos hoje, é a de número doze, mas a maioria dos estudiosos está convencida de que foi acres­centada posteriormente e não tem nenhuma ligação com a o relato apresen­tado até ali. 


[6] A tradução do épico de Gilgamesh que é utilizada aqui e em outras partes deste capítulo é a feita por Benjamin R. Foster e tirada de The context of Scripture, ed. por William W. Hallo e K. Lwson Younger Jr. (Boston: Brill, 1997), v. 1, p. 460. ,