7 de outubro de 2016

TREMPER LONGMAN III - Compreendendo o livro das “origens”

antigo testamento danilo moraes
Este livro não é um comentário, embora vá oferecer uma interpretação geral de Gênesis, especialmente nos capítulos 7—9. A semelhança dos livros precedentes de minha autoria, que exa­minam Salmos e Provérbios,[1] Como ler Gênesis explora uma abor­dagem interpretativa adequada do livro de Gênesis. Uma vez que muitos de nós crescemos ouvindo as histórias de Gênesis (criação, queda, dilúvio), elas soam bem familiares. Entretanto, preci­samos ser lembrados de que foram escritas num contexto antigo. Talvez as interpretações que ouvimos quando éramos crianças e jovens estejam corretas, mas, com um estudo mais aprofundado, podem necessitar de ajustes. 

A verdade é que a interpretação apropriada de qualquer peça literária e, em particular, de um texto tão antigo e tão importante quanto a Bíblia, merece uma reflexão cuidadosa de nossa parte. O capítulo um fornecerá as ferramentas interpretativas que permi­tirão que aperfeiçoemos nossa compreensão de Gênesis. E, na medida que o fizermos, vamos notar que Gênesis é um tipo de livro diferente de Salmos e Provérbios e, por esse motivo, teremos de fazer a sintonia fina de nossa estratégia interpretativa. 

A estratégia se concentrará em descobrir a intenção do autor humano. Caso contrário, corremos o risco de levar para dentro do texto todo tipo de idéias alheias. No entanto, não devemos jamais nos esquecer de que Gênesis faz parte do cânon e, por esse motivo, reivindica, em derradeira instância, autoridade divina. Deus empregou autores humanos para produzirem a Bíblia, mas ele é o derradeiro autor. Embora fundamentemos nossa interpretação naquilo que, conforme propomos, é o sentido do autor humano, também acreditamos que a intenção divina pode transcender a do autor humano. Contudo, só podemos reconhecer esta última caso um autor posterior traga esse sentido à tona. Este será o tema do capítulo dez. 


Talvez, com base no que segue, você fique com a impressão de que a interpretação é apenas uma questão do intelecto, envolvendo pesquisa e pensamento analítico. Ainda que, entre os cristãos, ocorra excessiva leitura bíblica sem maior reflexão, a interpretação não é um mero exercício intelectual. E uma disciplina espiritual. Afi­nal, para aqueles que crêem que Deus é o autor último da Bíblia a mensagem de ICoríntios 2.14 é relevante: “O homem natural não aceita as coisas do Espírito de Deus, porque lhe são loucura; e não pode entendê-las, porque elas se discernem espiritualmente”. Em outras palavras, só aqueles que são espirituais conseguem entender aquilo que o Espírito quer dizer. Lemos a Bíblia para ouvir as palavras de Deus. Para evitar que isso se torne uma con­versa de mão única, o estudo bíblico deve ser acompanhado de oração, pedindo a Deus que abra nossos olhos para a verdade do texto. Afinal, a verdade envolve mais do que declarações inte­lectuais; inclui agir com base naquilo em que cremos, tornando o ensino da Bíblia parte de nossas vidas. Muitos cristãos precisam ouvir esta mensagem. 

O capítulo um apresenta os princípios importantes de inter­pretação mediante perguntas a serem feitas ao texto. (Há um sumário dessas perguntas no final do capítulo.) 



Compreendendo o livro das “origens” 



Gênesis não é um livro fácil de se entender. Exige trabalho árduo tratar com seriedade este livro antigo e enigmático. Para não ficarmos na superfície de Gênesis, podemos, com proveito, fazer uso do trabalho de profissionais, os quais Deus cha­mou a dedicarem suas carreiras ao estudo das Escrituras. 

Quando digo isso, já posso prever a resistência por parte de 

alguns leitores. É possível que protestem: “Não. Deus nos fala claramente em sua Palavra. Tudo o que precisamos fazer é apanhá-la e lê-la. Não precisamos passar um tempo longo pensando em princípios de interpretação. Em vez de aclarar o sentido simples e literal da Bíblia, o trabalho de estudiosos o obscurece.” 

Dou razão a muito do sentimento expresso nessa reação hipotética. Mesmo que essas pessoas não estejam realmente cons­cientes disso, o 

Protesto se baseia em doutrinas importantes sobre o sacerdócio universal dos crentes e perspicuidade e suficiência das Escrituras 

O sacerdócio universal dos crentes (baseado mais explici­tamente em passagens como Jr 31.33-35 e lPe 2.9) nos ensina que todos nós podemos ter um relacionamento pessoal e íntimo com Deus sem algum tipo de intermediário humano. Os refor­madores, pessoas como Lutero e Calvino, declararam essa ver­dade em oposição aos ensinos tradicionais da igreja que insistiam na necessidade de clérigos profissionais. Esse ponto de vista também ajuda a explicar por que, durante muitos anos, a Igreja Católica romana resistiu à tradução da Bíblia na linguagem que as pessoas usam no dia-a-dia e a manteve em latim, língua que só os sacerdotes conseguem ler e entender. Na Igreja Católica o relacionamento de um leigo com a Bíblia só mudou nos anos 60 do século passado, por ocasião do Concílio Vaticano II. Por isso, talvez seja por defenderem a importante idéia do sacerdócio universal dos crentes que alguns leitores estarão céticos com minha insistência de que se aceite a ajuda de intérpretes profissionais. 

Os reformadores defenderam energicamente a clareza (perspicuidade) das Escrituras. Estavam certos em sustentar que a Bíblia não foi escrita em código. Além do mais, defenderam o ponto de vista de que a Bíblia pode ser entendida por ela própria (suficiência das Escrituras). Não precisamos da tradição dos pais da igreja para entender a Bíblia. 

Quando essas doutrinas são corretamente entendidas, é de importância fundamental que sejam defendidas. O problema é que o sacerdócio universal dos crentes bem como a perspicuidade e suficiência das Escrituras têm sido erroneamente entendidos e aplicados em áreas nas quais nunca houve o propósito de tal apli­cação. Em resumo, os reformadores entenderam que a própria Bíblia ensina que sua mensagem de salvação é clara e compreen­sível para todos, sem necessidade da mediação de um sacerdote nem das informações de um erudito. E é bastante claro nas Escrituras que os seres humanos são pecadores necessitados de um salvador, o qual é nenhum outro senão Jesus Cristo. 

Entretanto, nem tudo é igualmente claro. Qual a duração dos “dias” de Gênesis 1. O dilúvio foi universal? Quem são os “nefilins”? Por que alguns versículos dizem que os ismaelitas leva­ram José para o Egito enquanto outros afirmam que foram os midianitas? Quem estava ao lado de Deus quando o próprio Deus diz: “Façamos o homem à nossa imagem”? Quem foi Melquisedeque, e o que o dízimo dado por Abraão a essa personagem enigmática tem a nos ensinar sobre contribuições à igreja hoje em dia? A lista podia ir longe. Uma leitura de Gênesis vai levantar, em nossas mentes, muitas perguntas que não são solucionadas com rapidez nem com facilidade. Aliás, várias perguntas continuam sem resposta mesmo depois de estudo intenso. Um princípio importante de interpretação que temos de reconhecer é que nem todas as nossas perguntas podem ser respondidas. 

Bem poucas pessoas jamais conseguiriam ler Gênesis sem a participação de estudiosos. Não são muitos os que estudaram hebraico ou que leram as traduções que estudiosos fizeram com tanto suor e, às vezes, com tremendo empenho, estudiosos estes que não apenas estudaram hebraico, mas também outras línguas aparentadas, como aramaico, acádico, ugarítico e árabe, para não falar das línguas das primeiras traduções, como grego e latim. 

Embora alguns possam protestar, meu palpite é que a maio­ria está bem consciente de que existem perguntas de interpreta­ção e da natureza de Gênesis que nem sempre estão à superfície. Com isso em mente, passemos a uma consideração dos princípios que são os mais promissores para nos ajudar a entender a mensa­gem do livro de Gênesis. 

Onde está o significado? 

O que significa interpretar um texto bíblico como Gênesis? Qual é o nosso objetivo de interpretação? 

Aqueles que estudam hermenêutica, o nome técnico de inter­pretação, sabem que essa pergunta gera acalorados debates. Nesta era pós-moderna algumas pessoas até mesmo negam a própria existência de sentido. Deixo os detalhes sobre esse debate para serem analisados em outro livro.[2] Aqui vou agir na confiança de que aquilo que estamos procurando é a intenção do autor que está nos escrevendo um texto. O autor tem um objetivo, uma mensagem, que ele ou ela está tentando comunicar a um público. 

Somos parte desse público, e por meio daquilo que escreveu entra­mos em contato com o pensamento dessa pessoa.[3]

No entanto, ler os escritos de outras pessoas é diferente de ter uma conversa com elas. Nos dois casos ocorre um ato de comu­nicação, mas numa conversa podemos pedir que a pessoa escla­reça o que está dizendo ou fale mais a respeito. De forma bem simples e quando algo não está claro, podemos perguntar “O que você quer dizer?”. Não temos essa mordomia quando a questão é o que outra pessoa escreveu, e a questão pode se tornar ainda mais complicada quando o texto analisado foi escrito séculos ou até milênios atrás num idioma que hoje não é falado por ninguém, como é o caso do hebraico do livro de Gênesis.[4]

Estamos “distanciados” do autor de Gênesis. O livro foi escrito eras atrás numa língua que ninguém fala hoje em dia numa cultura que é misteriosa para nós.[5] Este último detalhe significa que existem costumes que são estranhos a nós, que não são parte de nossa experiência. Isso também tem repercussões quando a questão é entender a própria forma de literatura. Robert Alter, pessoa destacada nos estudos modernos de antigas formas literá­rias hebraicas, nos lembra que “cada cultura, até mesmo cada período numa cultura em particular, desenvolve códigos distinti­vos e às vezes intricados de narrar suas histórias”.[6]

A distância histórica, cultural e literária em que nos encontra­mos em relação à época do autor torna difícil de entender Gênesis sem estudá-lo. Aliás, um dos maiores erros que podemos come­ter na interpretação é ler o texto como se tivesse sido escrito para nós hoje. Por exemplo, mais tarde iremos criticar aqueles que lêem Gênesis 1—2 como se fosse um texto apologético contra a maneira como a ciência moderna entende a origem do mundo (Darwin), quando, na verdade, era uma apologética contra for­mas antigas e rivais de se entender a criação {Enuma Elish). 

Contudo, muito embora esses sejam temas que precisamos reconhecer, ainda não mencionamos a razão mais importante de nossa percepção de que Gênesis descreve um mundo estranho para nós — sua teologia. O mundo de Gênesis inclui, o máximo possível, realidades espirituais. As personagens podem lutar com Deus, mas com certeza nunca questionam sua existência. Deus age no tempo e no espaço; aliás, ele cria o tempo e o espaço. Deus fala com as pessoas e as orienta a agir de formas bem específicas. 

Para leitores cristãos modernos de Gênesis, existe uma sen­sação de que estamos entrando num mundo estranho que é difí­cil de entender. Temos um “fosso testamentário”. Em Gênesis, retrocedemos ao início do relacionamento do homem com Deus. Lemos acerca de sacrifícios de animais, de ordens divinas para sacrificar seres humanos, de Deus guerrear em lugar de seu povo, de ele eliminar quase toda a humanidade, e coçamos a cabeça indagando o que isso tem a ver com o evangelho de Jesus Cristo. 

Por esses motivos, e se é que realmente desejamos descobrir o sentido do texto, para nós é importante estar conscientes do que estamos fazendo como intérpretes. Com esse espírito apre­sento os seguintes princípios de interpretação que são relevantes para o estudo de Gênesis. Aqui não farei praticamente mais nada além de relacioná-los, ao passo que nos capítulos a seguir, faremos uso desses princípios em nosso estudo do texto em si. 

Princípio 1. Reconheça a natureza literária do livro de Gênesis 

A Bíblia é um livro sagrado, mas é um livro. Deus não criou um meio de comunicação exclusivo para falar com seu povo. A língua hebraica não foi inventada especialmente para uso divino. Deus falou numa língua que as pessoas já conheciam. A Bíblia é pare­cida com outros livros e, por isso, devemos estudá-la, tendo em mente muitas das mesmas questões que temos quando estuda­mos literatura em geral. 

Pergunta 1. Que tipo de literatura é Gênesis? Esta é uma das perguntas mais fundamentais e importantes a se fazer acerca de qualquer livro, inclusive livros bíblicos. E a questão de gênero lite­rário, e o gênero ativa nossa estratégia de leitura. Faz toda diferença do mundo saber se devemos tratar Gênesis como mito, parábola, história, lenda ou como uma combinação desses e de outros gêne­ros. Além do mais, se concluirmos que, em algum sentido, Gênesis é história, isso não acaba com o assunto de gênero, pois existem diferentes formas de escrever história. A questão do gênero lite­rário de Gênesis não é fácil de ser resolvida e é altamente contro­versa. Contudo, nenhuma leitura do livro pode prosseguir sem fazer a identificação do gênero. A maioria das pessoas o faz sem reflexão, um procedimento perigoso visto que um erro nessa área terá como resultado erros básicos de compreensão da mensagem do livro. Consideraremos o gênero de Gênesis no capítulo 3. 

Pergunta 2. Como os antigos hebreus contavam histórias'? Não podemos ler Gênesis sem reconhecer que estamos sentados aos pés de um contador de histórias excepcional. Por enquanto, dei­xaremos em aberto a questão de que se essas histórias são fictícias ou verdadeiras, mas tanto num caso quanto noutro são narrativas cativantes e tocantes. Entretanto, conforme sugerido por Robert Alter, culturas diferentes narram suas histórias de maneiras dife­rentes. A fim de enriquecermos nossa compreensão da mensa­gem de Gênesis, precisamos estar conscientes da arte do antigo contador de histórias hebreu. Incluso neste estudo há um exame da estrutura e estilo do livro. (Também dirigiremos nossa aten­ção para este assunto no capítulo 3.) 

Pergunta 3. Gênesis foi escrito numa determinada época por uma só pessoa? Esta pergunta é sempre importante no estudo de uma composição literária, mas se tornou muito mais crucial por causa da história de como estudiosos vêm interpretando Gênesis na era moderna. Muito embora a questão da unidade literária de Gênesis esteja atrelada à natureza de todo o Pentateuco, manteremos nossa atenção em Gênesis. 

A história da interpretação indica que, durante séculos, o livro de Gênesis foi satisfatoriamente lido como uma unidade literária e autoral. De fato, é provável que, hoje em dia, a imensa maioria de leitores ao redor do mundo ainda leia o livro dessa forma. 

No entanto, para sermos honestos, uma leitura cuidadosa do livro levanta perguntas. Podemos indagar por que existem dois relatos da criação (Gn 1.1—2.4a; 2.4b-25), os quais, quando comparados, parecem afirmar uma seqüência ligeiramente dife­rente de acontecimentos. Podemos reparar que existem histórias vagamente parecidas uma com a outra, por exemplo, os três rela­tos em que um patriarca mente acerca do estado civil de sua esposa (ver Gn 21.10-20; 20.1-18; 26.1-11), e perguntar se tal coisa de fato aconteceu em três ocasiões distintas. Talvez, dizem alguns, sejam variações do mesmo relato básico. Além disso, o leitor atento talvez questione por que os membros do grupo que leva José para o Egito são ocasionalmente chamados midianitas (Gn 37.28) em vez de ismaelitas, como geralmente acontece. Esta é apenas uma amostra do tipo de pergunta que nos faz pensar se foram uma ou mais forças literárias que atuaram na produção do livro de Gênesis. 

Mesmo que nossa própria e atenta leitura do livro não exija tal investigação, é possível que o atual ponto de vista majoritário de estudiosos bíblicos faça tal exigência. Hoje em dia, nas aulas sobre Gênesis na maioria das faculdades e seminários, uma das primeiras empreitadas é descrever as fontes do livro. De fato, muitos leitores que assistiram a tais aulas têm uma noção do que estou falando quando relaciono as seguintes letras: J, E, D e P (ver p. 54-65). 

Pergunta 4. O que podemos aprender sobre Gênesis com base na literatura comparada do antigo Oriente Próximo? Os relatos de Gênesis possuem análogos em outras culturas do antigo Oriente Próximo. Israel não foi o único povo dessa vasta região e desse período de tempo a apresentar um relato de criação ou mesmo de um dilúvio devastador. 

Existem muitas dimensões na comparação de literatura antiga, mas, assim que tomamos consciência da existência de literatura escrita em outras línguas semíticas (p. ex. acádico e ugarítico) e não-semíticas (p. ex. egípcio, sumério e hitita) do Oriente Pró­ximo, o ponto principal que se torna óbvio é que Deus não criou uma forma única de literatura assim como também não criou um idioma único para comunicar suas verdades. 

Devemos, porém, andar com cuidado aqui. Com demasiada freqüência as semelhanças têm atraído estudiosos e outros a pen­sar que a Bíblia não passa do resultado de reescrever superfi­cialmente, por exemplo, a literatura mesopotâmica. Deixam de ver as significativas diferenças entre relatos rivais da criação — ou seja, entre o relato bíblico e aqueles do antigo Oriente Próximo. Quando estudarmos literatura do antigo Oriente Próximo per­maneceremos atentos tanto para as semelhanças quanto para as diferenças. Também examinaremos os motivos tanto para estas quanto para aquelas. A importante constatação que se faz por meio desse tipo de estudo é que a Bíblia é literatura da Antigüidade e não da modernidade. Essa verdade terá grande impacto em nosso estudo. Por exemplo, perceberemos que os relatos bíbli­cos da criação não foram escritos para se opor ao darwinismo, mas, sim, à Enuma Elish e a outras ideias antigas acerca de quem criou a ordem existente. 

Princípio 2. Examine o contexto histórico do livro 

Conforme continuaremos vendo, os assuntos que exploramos dentro do primeiro princípio, ou seja, a respeito da natureza literária do livro, estão entrelaçados com aqueles associados ao segundo princípio. No entanto, aqui concentraremos a atenção em assuntos relacionados a acontecimentos fora de Gênesis no tempo e no espaço. 





O meu interesse aqui expõe minha crença de que textos li­terários apontam para um mundo fora de si mesmo. Em outras palavras, negamos que textos sejam puramente auto-referentes. Em primeiro lugar, são o produto da época que os produz. Por isso é importante investigar aquele período e obter o máximo de conhecimento possível. Além do mais, creio ser possível que um texto literário nos informe, de modo preciso ainda que não exaus­tivo, a respeito de eventos passados. 

Existem três perguntas críticas que podemos fazer a respeito de Gênesis (e de outros textos antigos) no que diz respeito a seu contexto histórico: 

Pergunta 5. Quando Gênesis foi escrito? A resposta a esta per­gunta pode ser encontrada com pouca ou com grande dificul­dade. Podemos terminar com certezas ou com dúvidas sobre nossas conclusões. Podemos ser capazes de descobrir uma data exata ou uma data geral. No entanto, em todos os casos é importante fazer­mos o melhor com os dados que nos são apresentados. 

Podemos ver como essa pergunta está ligada a nossas con­clusões (princípio 1, pergunta 3) acerca da unidade do livro. É concebível que Gênesis não tenha sido escrito num momento particular, mas sim durante um longo período de tempo. Será importante investigar essa questão e então tentar entender os pro­cessos históricos por trás das diferentes etapas de produção do livro. Mesmo que nossa conclusão termine sendo vaga (p. ex., Gênesis é um produto do período todo do Antigo Testamento), ainda tem seu valor como lembrete importante: precisamos ler o livro tendo o antigo Oriente Próximo como pano de fundo e não interpretá-los inconscientemente tomando por base os costumes e acontecimentos de hoje. 

Pergunta 6. 0 que Gênesis nos diz sobre o passado? Um livro como Gênesis não é apenas produzido no passado, mas também pode nos dizer algo sobre o passado. A extensão com que um livro procura transmitir informação sobre sua época depende de seu gênero, o que de novo mostra uma ligação entre preocupa­ções literárias e históricas na interpretação. Se Gênesis se revelar uma parábola ou mito, não devemos esperar que nos informe sobre o que de fato aconteceu. 

No entanto, mesmo que um livro tenha o propósito de ser histórico, isso não nos dá garantias de que o seja com tanta exati­dão. Nem todo escrito histórico da Antigüidade suportou o escru­tínio da análise crítica. Aliás, existe uma escola de pensamento (minimalismo) que sugere que todos os escritos antigos, particu­larmente a Bíblia, são ideologicamente tendenciosos e que nin­guém deve confiar que possam servir de janela e nos ajudar a ver acontecimentos reais. ' 

Entretanto, mesmo entre aqueles que são menos céticos quanto à ligação entre textos antigos e história, há indagações sobre a veracidade histórica de um livro como Gênesis. Por que se deve confiar que esse livro nos conte o que de fato aconteceu na época dos patriarcas ou de José no Egito, e como é que pode acontecer de um autor humano saber qualquer coisa sobre a criação? Essas indagações levantam ainda outras indagações sobre como apren­demos sobre o passado, a ligação entre o texto e a pesquisa arqueo­lógica, e assim por diante. 

Pergunta 7. Nosso conhecimento do antigo Oriente Próximo nos ajuda a compreender Gênesis? Anteriormente levantamos a possi­bilidade de materiais do antigo Oriente Próximo ajudarem na área de análise literária. Também obtemos informações acerca da história da região com a ajuda de textos seletos que têm sido descobertos por meio de exploração arqueológica. Tais informa­ções podem dizer respeito tanto à época em que o livro foi escrito quanto à época que o livro descreve. 

Estamos interessados não apenas em conseguir confirmação extrabíblica, mas também em situar o relato de Gênesis à luz de um contexto histórico mais amplo. Para fazê-lo, teremos de fazer o melhor para situar o relato bíblico dentro da história da região e esperamos dar uma idéia geral de quando essas coisas acontece­ram em termos absolutos. 

Uma leitura despretenciosa de Gênesis nos dá alguma espe­rança de que tal estudo será proveitoso. Afinal, lemos acerca de Abraão partindo de Ur, uma cidade cujos registros do antigo Oriente Próximo a tornaram bem conhecida. Mais tarde ficamos sabendo que ele luta contra quatro reis do oriente (Gn 14). José alcança proeminência na corte egípcia. Talvez seja possível esta­belecer ligações, pelo menos até certo ponto. 

Existe ainda um terceiro modo de materiais do antigo Oriente Próximo nos ajudarem a compreender melhor as narrativas de Gênesis, e esse modo é a comparação de costumes. Quando tra­tarmos dos patriarcas analisaremos a bastante discutida relação entre os costumes dos patriarcas e os descobertos a partir dos tex­tos antigos de Nuzi e Mari (ver cp. 6). 

Finalmente, um estudo da literatura do antigo Oriente Pró­ximo nos aproxima da antiga cosmovisão partilhada por Israel. Tal estudo nos ajuda a recapturar aquelas características incomuns do mundo do Antigo Testamento, lembrando-nos que não foi escrito ontem mas séculos atrás. 

Princípio 3. Reflita sobre o ensino teológico do livro 

A Bíblia afirma ser a auto-revelação de Deus ao seu povo. Desse modo não seria errado descrever a mensagem teológica do livro como seu aspecto mais importante. Em essência, o objetivo básico da Bíblia é oferecer uma representação clara de Deus e de nosso relacionamento com ele. 

Entretanto, devemos imediatamente deixar bem claro o que foi dito logo acima para que não haja distorções. Hoje em dia não é incomum que estudiosos declarem isso a fim de minimizar ou até mesmo ignorar a importância histórica do texto. Dizer que a teologia é o aspecto mais importante do texto não é a mesma coisa que dizer que a história não seja importante. Na verdade, o testemunho consistente da Bíblia é que o Deus da Bíblia age na história. O livro de Gênesis não é conto em formato de história, mas história em formato de conto. 

Embora aqui eu os esteja separando a fim de facilitar nosso estudo, os aspectos literário (princípio 1), histórico (princípio 2) e teológico (princípio 3) do texto estão todos entrelaçados. O Deus de Gênesis é aquele que se revela ao seu povo (teologia), no tempo e no espaço (história) e que escolhe inspirar escritos que sirvam de memorial daqueles acontecimentos (literário). 

Visto, porém, que nesta secção estamos especialmente inte­ressados em questões teológicas, indagaremos como Deus se apre­senta no relacionamento com seu povo. 

Pergunta 8. Como Gênesis descreve Deus? Teoricamente Deus poderia ter escolhido várias formas diferentes de se revelar a nós num texto escrito. O texto poderia ter assumido a forma de uma descrição dos atributos de Deus. Tal qual uma teologia sistemá­tica tradicional, poderia ter refletido acerca da onisciência, oni­presença e onipotência de Deus. Poderíamos ter recebido uma análise erudita e abstrata da natureza do ser de Deus. Mas nada disso aconteceu. O que temos na Bíblia (e em Gênesis) são rela­tos e poemas que nos falam sobre o envolvimento de Deus no mundo. Reconhecendo-se que Gênesis é, em sua maior parte, prosa e não poesia (embora se observem Gn 49 e vários trechos poéticos menores), à semelhança de grande parte do restante da Bíblia, Gênesis não descreve Deus de maneira abstrata, mas nos relata como Ele age no mundo. 

Ê assim que aprendemos que Deus não é uma força mas uma pessoa. Deus é uma pessoa que cria, se envolve com sua criação, resgata e julga suas criaturas humanas. Para descobrir­mos acerca de Deus e de seu relacionamento com o seu povo, ouvimos como ele age. 

Assim mesmo parece que o livro de Deus se esforça diante da tarefa de revelar Deus a nós. Afinal, como se pode descrever o indescritível? A resposta sugerida em Gênesis 1 é que seres huma­nos são criados exatamente à imagem e semelhança de Deus (Gn 1.26, 27). Uma imagem não é a mesma coisa que aquilo que ela representa. Por isso é errado pensar que a expressão “imagem de Deus” deixe implícito que seres humanos partilhem da natu­reza divina. Mas mostra, isto sim, que, da mesma maneira como a estátua de um rei reflete sua imagem, os seres humanos refletem algo da natureza divina. Por isso não nos surpreende o fato de que, em Gênesis e em outras partes da Bíblia, Deus seja, freqüentemente, descrito como se fosse um ser humano. 

Gênesis 3, por exemplo, descreve Deus a “andar” no jardim. Será que isso significa que o autor pensava que Deus tinha pernas? Não penso assim. Pelo contrário, foi uma maneira de transmitir a idéia de que Deus tinha um relacionamento profundo com o pri­meiro casal. Em outras palavras, é um antropomorfismo, uma des­crição de Deus em termos humanos, termos que conhecemos. 

Antropomorfismos pertencem a uma categoria mais ampla que é relevante para o nosso estudo de como Gênesis (e a Bíblia em geral) oferece uma representação de Deus: metáfora (uma expressão em que incluo a símile). Uma metáfora é uma compa­ração entre duas coisas que, em essência, são diferentes, embora a comparação seja feita para ressaltar algo semelhante. Dizer que alguém tem olhos de águia não é afirmar que os olhos da pessoa tenham o formato dos de uma águia, mas elogiá-la por ter uma visão agudíssima. Dizer que Deus é um soldado sob o efeito de álcool (SI 78.65) não é dizer que ele beba vinho nem que se embriague. O contexto sugere que, tal como um soldado embria­gado que desperta de um sono provocado pelo álcool, Deus estará irritado e perigoso. 

Estudar a teologia de Gênesis inclui estar à procura de metá­foras acerca de Deus. Quais são as implicações de ele ser descrito como rei, guerreiro, pastor, hóspede ou viajante? Para determinar tais implicações, temos de desembrulhar as metáforas. Embora este não seja o livro para esgotar o assunto, prestaremos atenção a muitas das principais, inclusive aquela do rei que entra em aliança com seu povo, o que nos conduz à nossa próxima pergunta. 

Pergunta 9. Como Gênesis descreve o relacionamento de Deus com seu povo? Pois bem, Deus é pessoal, e sua natureza e ações são, com freqüência, descritas por meio de metáforas. Das principais metáforas usadas na Bíblia para descrever a Deus, muitas delas são relacionais. Um guerreiro implica um exército, um pastor implica um rebanho de ovelhas, um hóspede implica um anfitrião, e um rei implica súditos. A tarefa da teologia é não apenas fazer perguntas sobre a natureza e as ações de Deus, mas também sobre a qualidade do relacionamento de Deus com seu povo. Por isso exploraremos também o lado humano do relacionamento. 

Quanto a isto, uma metáfora em particular merece especial atenção: a aliança. Aliança é um tema particularmente importante e disseminado em Gênesis. Torna-se explícito pela primeira vez em Gênesis 9 quando o vocábulo designa o relacionamento esta­belecido entre Deus e Noé, e mais tarde a palavra é empregada para se referir à associação entre Deus e Abraão (Gn 15 e 17). O conceito também pode estar implícito em outros textos, mas ape­nas com base em seu uso com Noé e Abraão já fica claro que a aliança é uma idéia importante. Quando se percebe que a aliança é usada extensamente por todo o Antigo Testamento, para não se falar do Novo Testamento, entendemos ainda mais profundamente a importância dessa idéia. 

Quando entendemos adequadamente o conceito de aliança à luz de seu contexto na antigüidade, reconhecemos que possui a forma de um tratado político. A aliança é, em essência, como um tratado antigo entre um rei e seu povo. Ela não apenas deixa clara a estrutura de poder do relacionamento, como também é o veí­culo por meio do qual o rei expressa sua vontade (lei) ao seu povo. Daremos atenção ao desenvolvimento dessa idéia teológica bem como de outras no livro de Gênesis. 

Pergunta 10. Como Gênesis se encaixa nas Escrituras como um todo? Conforme foi recebido pela igreja cristã, o livro de Gênesis não é uma entidade isolada. Aliás, nunca foi, considerando-se que, na verdade, é o primeiro capítulo de uma obra literária em cinco partes conhecida como Torá ou Pentateuco. No entanto, a idéia que apresento envolve mais do que o fato de que é parte da Torá. 

Cânon se refere à posição de certos livros que, ao longo dos séculos, a igreja tem reconhecido como providos de autoridade. Esses livros são considerados padrão de fé e prática para a comu­nidade que crê. A crença se baseia no fato de que esses livros dão testemunho de que eles próprios são, em última instância, de autoria divina.[7] Essa afirmativa não nega que existe uma varie­dade de autores, estilos e mensagens humanos, mas a autoridade última se baseia numa origem com o próprio Deus. Por isso temos uma expectativa legítima de que a mensagem do todo é coerente, formando uma unidade orgânica. Um aspecto empolgante do estudo da Bíblia é reconhecer a rica diversidade bem como a atordoante coerência de sua mensagem. 

A realidade, natureza e conseqüências dessa coerência são muito debatidas entre os estudiosos de hoje.[8] Contudo, este livro não é o lugar para entrar nessa complexa discussão. Por esse motivo, sim­plesmente apresentarei a perspectiva que considero ser a mais persuasiva e frutífera e deixarei que você julgue seus méritos em si. 

A coerência da Bíblia se baseia na derradeira autoridade divina do todo. Desse modo, apesar de uma variedade de estilos, gêneros, assuntos e temáticas, é importante indagar como a parte (neste caso o livro de Gênesis) se encaixa no todo (o Antigo e o Novo Testamentos). Nosso ponto de partida é o reconhecimento de que Gênesis fornece o alicerce. O restante da Bíblia é cons­truído sobre esse alicerce. Em outras palavras, Gênesis lança os alicerces para a história da redenção divina do mundo. Não é somente o primeiro capítulo do Pentateuco, mas é o primeiro capítulo de todos os livros que narram os caminhos de Deus no mundo. Reconhecemos isso no fato de que Josué retoma onde o Pentateuco termina. Aliás, o Pentateuco termina sem oferecer uma forte sensação de ter terminado. O relato tem de prosseguir e prossegue em Josué e é levada ainda mais adiante em Juízes, Rute, Samuel, Reis, Crônicas, Esdras, Neemias e Ester. Em outras pala­vras, no Antigo Testamento Gênesis dá início a uma história de redenção que começa na criação e termina com a volta do exílio e uma descrição da primeira diáspora. 

O próprio Antigo Testamento, porém, conclui com uma forte sensação de não ter terminado e também com abertura para o futuro. O testemunho de Esdras, Neemias e Ester bem como os livros de profetas não-históricos como Daniel, Zacarias e Malaquias descrevem o povo de Deus vivendo sob opressão. Mas também descrevem aqueles que estão oprimidos como pessoas que vivem na luz da esperança certa de uma redenção futura. O Novo Testamento descreve o advento daquele que era aguar­dado para realizar a redenção. 

Tendo isso como pano de fundo, agora nos voltamos para as palavras do próprio Jesus Cristo. De modo claro e direto ele instrui seus discípulos na interpretação do Antigo Testamento. Talvez não devamos nos surpreender que Jesus instrua seus dis­cípulos acerca desse importante detalhe hermenêutico. O que nos pega de surpresa é que, hoje em dia, tão poucos seguidores de Jesus acolham a perspectiva que o seu Senhor tinha da interpretação do Antigo Testamento e, conseqüentemente, de Gênesis. Após a ressurreição, Jesus, sem ser reconhecido, caminha com dois discípulos pela estrada para Emaús. Ambos estão atordoa­dos com o que acabara de acontecer em Jerusalém. Estão incré­dulos de que Jesus tenha morrido na cruz. Então Jesus lhes diz: “O néscios e tardos de coração para crer tudo o que os profetas disseram! Porventura, não convinha que o Cristo padecesse e entrasse na sua glória? E, começando por Moisés, discorrendo por todos os Profetas, expunha-lhes o que a seu respeito cons­tava em todas as Escrituras” (Lc 24.25-27). 

E, então, pouco depois, falou de modo parecido a um grupo maior de discípulos: 

São estas as palavras que eu vos falei, estando ainda convosco: 

importava se cumprisse tudo o que de mim está escrito na Lei de 

Moisés, nos Profetas e nos Salmos. Então, lhes abriu o entendimento para compreenderem as Escrituras; e lhes disse: Assim está escrito que o Cristo havia de padecer e ressuscitar dentre os mortos no terceiro dia e que em seu nome se pregasse para remissão de peca­dos a todas as nações, começando de Jerusalém. Vós sois testemu­nhas destas coisas. Eis que envio sobre vós a promessa de meu Pai; permanecei, pois, na cidade, até que do alto sejais revestidos de poder (Lc 24.44-49). 

A lição que Jesus quer passar é clara. O Antigo Testamento antecipa o sofrimento e glorificação vindouros de Jesus. Nas duas passagens Jesus instrui os discípulos de que o Antigo Testamento todo anuncia sua vinda. Na primeira passagem ele cita “Moisés e todos os Profetas” e na segunda passagem se refere ao que está “na Lei de Moisés, nos Profetas e nos Salmos”. Ambas as expressões eram usadas para se referir àquilo que chamamos Antigo Tes­tamento (que não era empregado como título até que surgiu o Novo Testamento). 

Neste livro nosso interesse está em Gênesis, o primeiro livro da lei de Moisés. Assim, Jesus nos convida a considerar a possibili­dade de que a mensagem de Gênesis antecipa, de alguma maneira, seu ministério futuro. 

Essa passagem de Lucas 24 levanta a debatida questão sobre o papel do Novo Testamento na interpretação do Antigo. Muitos estudiosos defendem a idéia de que a interpretação cristã do Antigo Testamento não deve jamais recorrer ao Novo Testamento. Acham, com toda honestidade, que essa abordagem distorce o sentido do texto mais antigo. Pelo contrário e com base na ins­trução de Jesus em Lucas 24, submeto a idéia de que, no ato de interpretar o Antigo Testamento e (no que nos diz respeito) o livro de Gênesis, é errado um cristão ignorar as boas notícias de Cristo. 

A bem da verdade, quando começamos nossa interpreta­ção, é importante indagar como os leitores originais teriam entendido a passagem do Antigo Testamento que está sendo estudada, e não defendo que o leitor antigo (ou, neste aspecto, o autor) teria reconhecido o significado pleno da relação entre o texto e Cristo.[9] Embora seja verdade que havia uma expectativa messiânica à época de Cristo, a forma concreta de seu advento foi uma surpresa para a maioria, até para o mais fervoroso leitor da Bíblia hebraica. Entretanto, uma vez que Cristo havia cumprido o Antigo Testamento, um cristão não pode nem deve resistir a ver como ele cumpriu. O evento Cristo enriquece nossa com­preensão da mensagem do Antigo Testamento. Uma analogia talvez ajude. Quando, pela primeira vez, lemos uma boa história de mistério (ou assistimos, num cinema, a um bom filme desse gênero), podemos achar que os acontecimentos e diálogo iniciais têm um sentido que não fica claro senão quando chegamos à conclusão. Não conseguimos ler uma boa história de mistério da mesma forma na segunda vez. Sempre existirá uma sensação de “Ah, é isso mesmo. Agora percebo a importância daquele acontecimento.” Ou, quanto ao Antigo Testamento, “É mesmo. Isso aponta de fato para a vinda de Cristo”. 

Agora mesmo, nossa análise é toda ela bem genérica e vaga. No entanto, quando começarmos a tratar do texto de Gênesis, demonstrarei como é possível ver que, quando lido no contexto do cânon já encerrado, aponta para Cristo. Esse livro certamente estabelece o alicerce da história redentora que se cumpre com sua vinda (ver, por exemplo, o capítulo 10). 

Pergunta 11. O que, em Gênesis, é teologicamente normativo para hoje? Muitos leitores e leitoras da Bíblia começam com essa indagação. Isso é compreensível. Afinal, é o alvo real de nossos esforços. Queremos saber como a Palavra de Deus afeta nossas vidas. Como uma passagem afeta minhas crenças e como molda minhas ações hoje? 

Entretanto, esse entusiasmo admirável por conhecer, nos dias de hoje, a Deus e sua vontade pode conduzir a um sério erro de interpretação da mensagem de Deus. Sem o trabalho árduo envol­vido nas perguntas e princípios anteriores, estamos muito mais propensos a ouvir incorretamente a Palavra de Deus. 





Esse é particularmente o caso do Antigo Testamento. Para leitores cristãos modernos, o Antigo Testamento é muito mais difí­cil de ler do que o Novo. Comparando-se com o Novo Testamento, é ainda maior a distância cronológica, cultural e histórico-reden­tora existente entre nós e os acontecimentos do Antigo Testamento. Aliás, mesmo estudando cuidadosamente e estando conscientes dos princípios de interpretação, nosso estudo de Gênesis não ficará li­vre de dificuldades. Devemos estar preparados para reconhecer quan­do nossas interpretações forem certas, apenas prováveis ou mesmo frágeis. Quanto mais certos estivermos de que Gênesis ensina algo que continua normativo para nossas crenças e comportamento nos dias de hoje, com mais firmeza devemos acolhê-lo. De outro lado, se nossa compreensão de determinado assunto for frágil, não deve­mos considerá-la. Mais tarde veremos que alguns dos debates mais veementes sobre Gênesis (por exemplo, a duração dos dias da cria­ção) se baseiam em interpretações bem frágeis. E um bom princí­pio trabalhar com a crença de que aquilo que Deus considera essencial para nosso relacionamento com ele está ensinado de modo claro e em muitas passagens; em outras palavras, não teremos como errar, caso tentemos. Por outro lado, embora ainda tenha valor tentar descobrir tudo que podemos daquilo que a Bíblia ensina, da mes­ma forma temos de, no dia-a-dia, aprender a não perder tempo com detalhes inúteis na interpretação bíblica. 

Princípio 4. Reflita sobre sua situação, a situação de sua sociedade e a situação global 

Para saber como aplicar a Bíblia a nossas vidas e a nosso mundo, temos de ter consciência de nós mesmos e daquilo que nos cerca. É certo que é possível exagerar nisto, mas a maior parte de nós não reflete tanto quanto deveria. Sem dúvida sabemos onde expe­rimentamos prazer e sofrimento em nossas vidas, mas a maioria de nós precisa se aprofundar no autoconhecimento. Como são meus relacionamentos, e posso discernir padrões em meus relacio­namentos com os outros? O que admiro em outras pessoas, e que coisas detesto ou por quais sinto indiferença? Por quê? E o que dizer do passado? Tem havido acontecimentos que me têm mol­dado para melhor ou para pior? 

A lista pode prosseguir, mas a verdade simples e freqüentemente negligenciada é que os melhores intérpretes da Bíblia são aqueles que conseguem ler não somente a Bíblia mas também a si mesmos, a outros e ao mundo em geral. Sem esse conhecimento é impossível estabelecer uma ponte entre o mundo antigo do texto e o mundo moderno em que vivemos. Sem a construção dessa ponte não temos terminado a tarefa hermenêutica ou interpretativa. A pergunta de vital importância é: o que Gênesis significa para nós hoje em dia? Mas, primeiramente, precisamos descobrir o que significava para Moisés, antes de podermos avançar até aquele passo final. 

Pergunta 12. Qual é meu relacionamento histórico-redentor com os acontecimentos de Gênesis. O livro de Gênesis registra aconte­cimentos que se deram no passado bem distante. Sua abrangên­cia vai desde a criação até a época dos patriarcas. Conquanto a Bíblia não nos ofereça as informações de que necessitamos para estabelecermos a data da criação, podemos, com segurança, situar os patriarcas aproximadamente na primeira metade do segundo milênio a.C. 

Gênesis foi escrito muito tempo atrás, e um bocado de água passou por debaixo da ponte. A estratégia divina para a redenção tem fluído a partir desses acontecimentos, passando pelo êxodo e pela conquista, depois pelo período dos juízes e dos reis, e então pelo período exílico e pós-exílico. O Novo Testamento dá teste­munho tanto do acontecimento supremo da morte e ressurreição de Cristo quanto da fundação e do início da história da igreja. Vivemos bem no lado oposto de todos esses acontecimentos. Como parte de nossa tarefa de nos apropriarmos da mensagem de Gênesis, devemos perguntar como os relatos do livro têm a ver conosco hoje em dia. Como é nossa relação com as alianças noaica e abraâmica? O que fazemos com o quadro da atividade guerreira de Deus em Gênesis 14? As perguntas são intermináveis. 

O leitor atento pode ver que a pergunta 12 está intimamente ligada a meus comentários sobre teologia, quando indaguei como o livro se encaixa no cânon como um todo. Aqui retorno ao assunto a fim de nos lembrarmos que um aspecto importante ao levar o texto a tratar de questões do século 21 tem a ver com uma consciência de nosso relacionamento histórico-redentor com os acontecimentos registrados ali. 

Pergunta 13. O que posso aprender com Gênesis sobre como pen­sar e agir de uma maneira agradável a Deus? A Bíblia não somente nos ajuda a nos situar na história redentora, mas também dirige nossa vida moral e intelectual. Embora seja verdade que o livro de Gênesis não o faça de forma tão direta quanto, digamos, a lei em Êxodo 19—24 ou Provérbios (embora mesmo aqui existam questões de continuidade e descontinuidade), seus relatos têm o propósito de construir a maneira de pensar daquele que crê e de fornecer ilustrações sobre comportamento apropriado. 

Na condição de primeiro livro do cânon, Gênesis começa a estabelecer uma maneira de pensar, ou cosmovisão, para seus lei­tores. Ou seja, proporciona ensino fundante que oferece uma lente por meio da qual interpretamos nossa experiência do mun­do. À guisa de ilustração, posso mencionar o primeiro capítulo do livro. Aqui somos apresentados a um Deus que não faz parte da sua criação (é transcendente), mas está envolvido com ela (é imanente). A criação toda depende de Deus, o qual a criou, e ele a criou boa. Os seres humanos não são a coisa mais importante do universo (Deus é), mas temos um relacionamento especial com ele, e isso confere dignidade a nós (que somos imagem de Deus). Essas verdades não são algo que descobriríamos se não fosse pela revelação de Gênesis, e são importantes para a maneira como pen­samos sobre o mundo e agimos com ele. 

Gênesis, porém, faz mais do que construir uma cosmovi­são. Também nos ensina como devemos nos comportar. É apro­priado ler os relatos sobre Adão e Eva, Caim, Noé, Abraão, Jacó, José e as outras personagens como ilustrações de princí­pios morais. Mais tarde elaboraremos o enredo da narrativa de Abraão como uma jornada de fé, e sua jornada lança luz nos altos e baixos de nosso próprio relacionamento com Deus. A reação de José diante das tentativas de sedução feitas pela mulher de Potifar é um modelo de obediência cujo propósito é dirigir outros homens (e mulheres) quando se deparam com a mesma tenta­ção. Em outras palavras, há algo implícito no texto que deve nos levar a dizer a nós mesmos ou a outros “Vá e faça assim”. De outro lado, também existem maus exemplos — a rebelião de Adão e Eva, o fratricídio de Abel, os logros de Jacó, as intenções assas­sinas dos irmãos de José — que devem provocar um “Vá e não faça assim”. 

Ainda que a maioria dos sermões de hoje sobre o Antigo Testamento adote essa abordagem, muitas pessoas resistem, dizendo que o propósito dessas narrativas é teológico e não moral. E claro que tal reação insiste numa dicotomia falsa. Deus quer que leia­mos Gênesis tanto teológica quanto moralmente. 

Entretanto, isso não é algo tão simples quanto ler o texto e meramente aplicá-lo a nossas vidas. Em Gênesis Abraão recebe a ordem de que ele e seus descendentes, os piedosos, devem circuncidar seus filhos no oitavo dia de vida. “Vá e faça assim”? Não neste caso. Por quê? Por que o Novo Testamento nos diz que a circuncisão é um ritual ligado à antiga aliança. E claro que podemos escolher circuncidar nossos filhos, mas por outras razões que não religiosas. Abraão foi à guerra contra reis do oriente que haviam seqüestrado Ló, e Abraão saiu vitorioso porque Deus lutou com ele. Será que isso significa que Deus luta ao lado de seu povo nos dias de hoje? Não necessariamente. E importante fazer perguntas sobre questões de continuidade e descontinuidade. Também é importante e às vezes difícil levar em conta costumes que não têm o objetivo de serem normativos, mas faziam parte da cultura da época. Rituais de cortejamento (Gn 24) pode ser um bom exemplo. Não está nada claro que Deus queira que, hoje em dia, seu povo siga práticas de cortejamento do início do segundo milênio a.C. Tais questões envolvem reflexão em vez de aplicação imediata. 

Embora não seja possível esgotar o assunto aqui, nos capítu­los seguintes exemplificarei a maneira de nós leitores contempo­râneos nos apropriarmos adequadamente do texto de Gênesis. 

Pergunta 14. Como posso evitar impor minhas próprias idéias em Gênesis? Assim que percebemos que temos de trabalhar no processo interpretativo, talvez receemos que o texto esteja aberto à várias interpretações diferentes. Se isso é verdade, por que deve­mos confiar na interpretação a que chegamos? É possível que este­jamos nos enganando a nós mesmos. 

Em primeiro lugar, é importante adotar postura de humil­dade em nossa interpretação. Temos de reconhecer que é possí­vel que estejamos errados, por isso devemos estar abertos a outras interpretações. Devemos testar nossa compreensão de Gênesis mediante “leitura comunitária”. As vezes, os protestantes perdem de vista a importância dessa leitura porque nosso movimento foi fundado no rompimento com a tirania da interpretação ofi­cial da igreja e a insistência no sacerdócio universal dos crentes. Mas existe um meio termo entre, de um lado, “É algo entre Deus e eu” e, de outro, simplesmente se submeter à interpreta­ção “oficial” de outros. Precisamos nós mesmos nos engalfinhar com o texto e, então, nos expor ao pensamento de outros. De fato, devemos sair em busca de opiniões de pessoas que talvez tenham opiniões diferentes das nossas próprias. Na condição de alguém de meia-idade, branco, relativamente bem financeira­mente, quero ouvir mulheres falarem sobre o texto. Quero ler comentários escritos por estudiosos e pastores da Ásia, África e América Latina. Desejo ser exposto às idéias tanto de outros estudiosos com doutorado quanto de pessoas sem instrução. Por quê? Não porque o texto seja flexível, mas porque pessoas dife­rentes vão dar atenção a aspectos diferentes no texto. “Leitura comunitária” se faz participando de grupos de estudo bíblico e classes de escola dominical, ouvindo sermões, lendo comentários e assim por diante. Os comentários que faço acerca de Gênesis têm sido enriquecidos por ouvir durante muitos anos outros falarem sobre como o compreendem. 



Conclusão: mas, afinal, como consigo fazer tudo isso? 

Espero que, depois de você ter lido este capítulo, eu tenha con­vencido de que uma reflexão profunda na natureza literária, teoló­gica e histórica de Gênesis é importante para entender a mensagem antiga e aplicá-la em nossos dias. No entanto, para muitos a tarefa vai parecer assustadora. Por isso eu quero fazer uns poucos comen­tários finais de encorajamento. 

Primeiramente, ninguém domina toda a riqueza ou ampli­tude de significado do texto bíblico. A mensagem é rica demais. Em vez de ser algo desencorajante, acho que devia encorajar a todos nós. Isso significa que até mesmo nossos primeiros enten­dimentos do texto são proveitosos. Os aspectos mais importantes do livro são ensinados de forma tão clara e repetida que é difícil não percebê-los. E o livro sempre tem novas dimensões por des­cobrir. Perceber isso dá ímpeto a uma leitura incessante. 

Segundo, nenhum de nós consegue nem deve fazer todo o trabalho. Podemos obter ajuda da parte de outros que dedicaram suas vidas ao estudo da Bíblia e de seu contexto. Bem poucas pessoas conseguem, por exemplo, se tornar especialistas em con­textos do antigo Oriente Próximo, mas aqueles que se tornaram têm escrito livros, chamando nossa atenção para material disponí­vel. Comentários jamais devem ser usados como meio de evitarmos nossa reflexão pessoal, mas também não devem ser ignorados.[10]

A minha esperança é que este livro não apenas venha a enun­ciar princípios úteis para interpretar Gênesis, mas também exem­plificar sua aplicação. Para essa tarefa agora nos voltamos. 





Sumário dos princípios de interpretação 

1. Que tipo de literatura é Gênesis? 

2. Como os antigos hebreus contavam histórias? 

3. Gênesis foi escrito numa determinada época por uma só pessoa? 

4. O que podemos aprender sobre Gênesis com base na litera­tura comparada do antigo Oriente Próximo? 

5. Quando Gênesis foi escrito? 

6. O que Gênesis nos diz sobre o passado? 

7. Nosso conhecimento do antigo Oriente Próximo nos ajuda a compreender Gênesis? 

8. Como Gênesis descreve Deus? 

9. Como Gênesis descreve o relacionamento de Deus com seu povo? 

10. Como Gênesis se encaixa nas Escrituras como um todo? 

11. O que, em Gênesis, é teologicamente normativo para hoje? 

12. Qual é meu relacionamento histórico-redentor com os acon­tecimentos de Gênesis. 

13. O que posso aprender com Gênesis sobre como pensar e agir de uma maneira agradável a Deus? 

14. Como posso evitar impor minhas próprias idéias à Gênesis? 

Leitura adicional 

Fee, Gordon D. e Douglas Stuart. Entendes o que lês? São Paulo: Vida Nova, 1997, 2a ed. 

Klein, William W., Craig L. Blomberg e Robert L. Hubbard. Introduction to Biblical interpretation. Nashville: Thomas Nel­son, 1993. 

Longman, Tremper, III. Reading the Bible with heart and mind. 

Colorado Springs: NavPress, 1997. 

Silva, Moisés, ed. Foundations of contemporary interpretation. Grand Rapids: Zondervan, 1996. 

Vanhoozer, Kevin T. Há um significado neste texto? São Paulo: Vida, 2005. 

Wenham, Gordon J. Story as Torah: Reading the Old Testament narrative ethically. Grand Rapids: Baker, 2004. 







[1] Tremper Longman III, How to read the Psalms (Downers Grove: Inter­Varsity, 1988) e How to read Proverbs (Downers Grove: InterVarsity, 2002). 


[2] Para uma boa introdução a essas questões, consulte Tremper Longman III, Reading the Bible with heart and mind (Colorado Springs: NavPress, 1997); Gordon D. Fee e Douglas Stuart, How to read the Bible for all its worth, 3 ed. (Grand Rapids: Zondervan, 2003)[trad. port. Entendes o que lês? São Paulo: Vida Nova, 1997, 2a ed.]. 


[3] Tremper Longman III, Literary approaches to Biblical interpretation (Grand Rapids: Zondervan, 1987), p. 63-71, e “Literary approaches to Old Testament study”, in The face of Old Testament studies, ed. por David D. Baker e Bill T. Arnold (Grand Rapids: Baker, 1999), p. 97-115. 


[4] O hebraico falado em Israel hoje em dia, embora criado a partir do hebraico bíblico, é substancialmente diferente na gramática e no vocabulário. 


[5] Mais tarde trataremos da questão se Gênesis foi escrito num único momento ou durante um longo período de tempo e por mais de um autor (verp. 47-59). 


[6] Robert Alter, “How convention helps us to read: The case of the Bible’s annunciation type scene”, Prooftexts 3 (1983): 115. 


[7] Herman Ridderbos (Redemptive history and the New Testament scriptures, 2 ed [Philadelphia: Presbyterian & Reformed, 1988]) continua sendo o melhor estudo acerca da base teológica do cânon, embora esteja claro que Roger T. Beckwith (The OldTestament canon ofthe New Testament church [London: SPCK, 1985]) apresente o mais completo relato sobre a história da confirmação, por parte da igreja, dessa base teológica. 


[8] Acerca de análises recentes, veja a provocante obra de Walter Brueggemann Tehology of the OldTestament (Minneapolis: Fortress, 1997) e John goldingay, Old Testament theology: Israel’s gospel (Downers Grove: InterVarsity, 2003). 


[9] De acordo com IPe 1.10-12, os profetas falaram melhor do que sabiam. 


[10] Veja a lista e a avaliação de comentários sobre Gênesis oferecida no apêndice.