4 de outubro de 2016

RANDALL PRICE - Sodoma e Gomorra

danilo moraes antigo testamento
A Bíblia registra que no tempo de Abraão, uma pentápolis (um grupo de cinco cidades) se estendia ao longo da bem irrigada planície na porção sul do Vale do Jordão (Gn 13.10-11). 

Em um dos relatos mais memoráveis da Bíblia, lemos que uma destruição cataclísmica cobriu duas destas cidades — Sodoma e Gomorra (Gn 19.24-29). De acordo com a Bíblia, os habitantes eram tão ímpios (Gn 18.20; 19.1-13) que uma chuva de “fogo e enxofre” foi enviada por Deus em juízo. Como resul­tado, a reputação das cidades como “cidades de pecado” tornou-se um exemplo na Bíblia; os profetas e Jesus frequentemente usando a frase “como Sodoma e Gomorra” em advertências de castigo divino. A infâmia destas cidades persiste até hoje preservada em nossa palavra portuguesa sodomia. 

Ceticismo dos eruditos 

Para muitos eruditos da Bíblia e arqueólogos, a história de Sodoma e Gomorra é apenas isso — uma história. Os mais críticos eruditos da Bíblia, como Theodor Gaster, chamaram-na de “história puramente mítica”. Para a maioria dos eruditos críticos ela é uma “extraordinária história-origem” criada por contadores de história israelitas mais tarde para comunicar assuntos teoló­gicos e sociais, não para preservar a memória dos lugares e acontecimentos his­tóricos. Outros eruditos dizem que existe uma fração de historicidade dentro de um grande conteúdo de tradição literária posterior. Não é totalmente ficção, mas um “fragmento de memória local,” tomada por israelitas e ampliada pela imaginação. Assim, a história incorpora uma explicação extrabíblica pré-israelita dos que viviam na região pela degeneração de seu ambiente e perturbações mi­litares. 

Algumas tentativas científicas para validar o evento histórico têm sido in­consistentes em seu tratamento da evidência bíblica e arqueológica. Num livro recente2, dois geólogos argumentam que um forte terremoto (mais de 7 pontos na escala Richter) ocorreu ao longo de uma falha do vale aberto onde o mar Morto repousa hoje. Eles conjeturam que este terremoto, que incendiou “leves frações de hidrocarbono escapando dos reservatórios subterrâneos” (a “chuva de fogo e enxofre”) destruiu Sodoma, Gomorra e Jericó, e até parou o rio Jordão por vários dias. Dizem que estes acontecimentos ocorreram todos simultanea­mente por volta de 2350 a.C. 

Com esta conclusão aglomerando os destinos bíblicos de Sodoma e Gomorra e o de Jericó (que só ocorreu mais de 900 anos depois), é óbvio que a alta con­sideração destes autores por geologia e climatologia não é da mesma forma esten­dida às Escrituras. Pelo contrário, eles disputam que estes relatos bíblicos foram o resultado de lembranças primitivas destes desastres geológicos, os quais foram mal recontados nas tradições religiosas das pessoas através dos tempos. Conse­quentemente, estes eventos foram ingenuamente atribuídos a Deus e erronea­mente ligados a diferentes histórias dentro da historiografia israelita. A despeito de sua “abordagem científica,” os autores não oferecem evidência histórica ou arqueológica para sustentar sua teoria, e, como um revisor arqueológico obser­vou, eles cometeram “numerosos erros discutindo sítios arqueológicos e teorias.”3 

Declarações da antigüidade 

Os escritores que redigiram a Bíblia, em contraste, acreditavam que a nar­rativa era história genuína. Eles citaram-na como referência de valor histórico, pois que valor histórico uma fábula teria para convencer uma audiência da cer­teza do julgamento de Deus? A menção da destruição de Sodoma e Gomorra por tantos autores bíblicos para diferentes audiências testifica do reconheci­mento universal do evento no antigo Oriente Próximo (Dt 29.23; 32.32; Is 1.9,10; 3-9; 13.19; Jr 23.14; 49.18; 50.40; Lm 4.6; Ez 16.46-49; 53-56; Am 4.11; Sf 2.9; Mt 10.15; 11.23-24; Lc 10.12; 17.29; 2 Pe 2.6; Jd 7; Ap 11.8). Além disso, antigos historiadores não bíblicos também escreveram sobre Sodoma e Gomorra de uma maneira realista.4 Alguns até afirmaram que evidências de sua destruição podiam ser vistas em seus dias (veja especialmente Filo, De Abrahamo l40f).5É por isso que, apesar das contestações dos críticos de que o relato original foi uma invenção posterior ou uma lembrança mal aplicada, tem havido repetidos esforços por parte de alguns arqueólogos para localizar as cida­des históricas de Sodoma e Gomorra. 

A busca por Sodoma e Gomorra 

A busca por Sodoma e Gomorra tem geralmente concentrado-se na região do mar Morto, apesar de alguns eruditos terem argumentado que por causa da suposta atividade vulcânica (o fogo e o enxofre) o sítio devia ser procurado na Arábia6 ou Iraque.7 Todavia, o texto bíblico especifica “o vale de Sidim (que é o mar Salgado)” (Gn 14.3), um conhecido nome para o mar Morto. 

Em 1924, o renomado arqueólogo W.F. Albright e o reverendo M. Kyle conduziram uma expedição para investigar a extremidade ao sul do mar Mor­to.8 Albright acreditava que as cidades estavam debaixo das águas ao sul da península de Lisan. Ele não tinha o equipamento que lhe possibilitaria con­firmar sua teoria. Em 1960, Ralph Baney explorou o solo do mar nesta região usando um sonar e equipamento de mergulho. Ele descobriu árvores de pé em posição de crescimento numa profundidade de mais de 7 metros, provando a teoria de Albright de que as águas do mar Morto haviam levantado e submergido antigas áreas de terra, mas ele não localizou nenhum traço de estruturas antigas que pudessem ser resquícios das cidades.9 Como resultado, muitos eruditos que sustentavam a existência de Sodoma e Gomorra conclu­íram que ou a destruição fora tão completa que nenhum traço sobrevivera, ou que os resquícios estavam além de toda esperança de recuperação.10 Ainda assim, a maioria dos eruditos bíblicos sentia que Sodoma e Gomorra haviam sc localizado em um canal sob o presente fundo do mar Morto, ou um local conhecido como Jebel Usdum, um domo de sal na costa sudoeste do mar Morto. Todavia, estas teorias foram baseadas em especulação, não em apoio arqueológico ou geológico. 

Durante sua busca, Albright também descobriu estruturas sobre a terra no litoral leste da Transjordânia atravessando a península de Lisan. Em um sítio conhecido em árabe como Bab edh-Dhra, ele encontrou resquícios de uma comunidade estabelecida e muitíssimo fortificada com construções mu­radas, um ambiente extenso ao ar livre, casas, numerosos cemitérios e artefa­tos espalhados — todos sinais de que uma grande população morou um dia ali. Do lado de fora das ruínas, para o leste, estava um grupo de grandes blocos de pedra caídos (colunas) medindo 4 metros de comprimento. Albright interpretou isto como parte de uma instalação para ritos religiosos. Ele datou a cidade como sendo do terceiro milênio a.C. (Idade do Bronze Antigo, 3150­-2200 a.C.), e acreditou que o sítio também havia deixado de ser ocupado dentro daquele período. Ele sentiu que havia uma conexão entre este sítio e as cidades da planície, mas porque fracassou em achar uma extensa camada de escombros, teorizou que ele só havia servido como um centro de peregrinação sagrada que era visitado anualmente. 

A escavação de Bab edh-Dhra 

Em 1965 e 1967, escavações no sítio de Bab edh-Dhra foram conduzidas por Paul Lapp sob os auspícios da American Schools of Oriental Research (Es­colas Americanas de Pesquisa Oriental). Estas foram mais tarde continuadas por Walter Rast e Thomas Schaub, começando em 1973.11 As escavações re­velaram que o muro de fortificação que circundava a cidade tinha mais de 7 metros de largura! Ele era todo segmentado e o último segmento tinha um portão ladeado por duas torres idênticas. Dentro desta área murada estava uma cidade inferior de casas de tijolos ao longo do lado noroeste do templo cananita, com um altar em semicírculo e numerosos objetos cúlticos. Fora da cidade eles encontraram um enorme cemitério com milhares de pessoas se­pultadas. Uma tumba sozinha comportava 250 indivíduos junto com uma riqueza de bens para sepulcros. Era óbvio que a cidade tinha sido uma comu­nidade proeminente na Era do Bronze Antigo. 

Mas alguma coisa mais captou a atenção dos escavadores: a evidência da extensiva destruição por fogo. A área da cidade estava coberta por uma camada de cinzas com muitos metros de espessura. O cemitério também revelou depó­sitos de cinzas, colunas e vigas queimadas, e tijolos que haviam se tornado ver­melhos por causa do intenso calor. O que teria causado este incêndio? Poderia haver muitas razões por que uma cidade antiga foi destruída por fogo, mas no sítio de Bab edh-Dhra, o mais extremo norte dos sítios, temos algumas evidên­cias muito interessantes que prontamente se encaixam com o relato bíblico de Sodoma e Gomorra. O arqueólogo Bryant Wood, que se especializou na procu­ra por Sodoma, explica: 

A evidência sugere que este sítio de Bab edh-Dhra é a cidade bíblica de Sodoma. Perto daquele sítio, cerca de um quilômetro mais ou menos, os arqueólogos encontraram um vasto cemitério indicando que em algum tempo houve uma grande população vivendo aqui neste lugar. À medida que começaram a escavar o cemitério, eles descobriram que na fase final, exatamente na época em que a cidade foi destruída, houve um tipo específico de sepultamento que era praticado naquele tempo... O morto era sepultado num prédio bem na superfície — uma estrutura que os arqueólogos chamaram de casa mortuária. Antes daquela última fase, eles cavavam tumbas profundas e enterravam seus mortos sob a superfície da terra. Mas durante aquela última fase, eles enterravam seus mortos nestas construções feitas de tijolos erguidas bem na superfície do solo. Algumas destas estruturas eram retangulares, algumas delas eram redondas, mas todas elas tinham uma característica em comum — haviam sido queimadas — de dentro para fora. 

Inicialmente, os arqueólogos que escavaram estas construções pensaram que talvez esta era alguma forma de prática de higiene na antigüidade, que por causa dos corpos que eram colocados lá dentro, precisavam queimar o interior da estrutura para de alguma forma limpá-la por motivos de saúde. Mas enquanto investigavam exatamente como esta queimada acontecia, eles tiveram que mudar de opinião sobre isso. Num exemplo específico, quando estavam escavando uma dessas casas mortuárias, eles cortaram o que chamamos de faixa, através daquele prédio, à medida que cavavam a fim de terem uma divisão vertical daquela casa e da destruição, o que eles descobriram foi que o fogo não começou dentro do prédio, mas sobre o telhado do prédio, e depois de queimado o telhado, caiu sobre o interior da casa e então o fogo se espalhou por dentro da construção. E este era o caso em cada casa mortuária que eles escavaram. 

Agora, aqui está algo que é bem difícil de explicar naturalmente. Você poderia explicar o incêndio com algum acidente que tivesse acontecido e o fogo teria se espalhado para a cidade. Ou com um terremoto chegando e fazendo o fogo se espalhar. Ou ainda, com um conquistador chegando e tomando a cidade e queimando-a. Mas como você explica o incêndio destas casas mortuárias num cemitério localizado a alguma distância da cidade? Os arqueólogos realmente não têm explicações para isso, mas a Bíblia nos dá a resposta. A Bíblia fala sobre a destruição de Deus sobre estas cidades por causa do seu pecado e fala que Deus fez chover fogo e enxofre do céu sobre estas cidades, e lá no cemitério nós temos evidência de que foi isso exatamente o que aconteceu. Os telhados destes prédios pegaram fogo, caíram e causaram o incêndio no interior dos prédios. Na cidade, não tivemos este tipo de evidência porque houve muita erosão. Temos evidência do incêndio pelas cinzas, mas nenhum telhado caído foi achado lá. Então, no cemitério temos a evidência que sustenta exatamente o relato bíblico.12 



O terrível incêndio de Bab edh-Dhra implica a presença de mecanismo capaz de acender e queimar uma área tão vasta. O geólogo Frederick Clapp, que pesquisou a extremidade rasa ao sul do mar Morto (conhecido com Ghor) na década de 1920 e meados da década de 1930, observou seus abundantes depó­sitos de asfalto, petróleo e gás natural.13 Isso nos lembra da declaração de Gênesis 14.10 de que o vale de Sidim estava cheio de poços de betume (piche). Além disso, existem formações incomuns de sal e cheiro de enxofre, que também nos lembra das referências em Gênesis 19.24-26 sobre um “pilar de sal” e enxofre. Clapp arrazoou que se estes materiais combustíveis tivessem sido expulsos da terra por pressão subterrânea causada por um terremoto (terremotos são co­muns nestas áreas), eles podiam ter sido acesos pela luminosidade ou algum outro meio enquanto eram lançados da terra. Isso concorda com a descrição bíblica do desastre enquanto “fogo e enxofre... caíam do céu” com fumaça su­bindo “como a fumaça de uma fornalha” (Gn 19.24,28). Porque todos estes fatores favoreceram a localização sul do mar Morto, outras pesquisas desta re­gião foram empreendidas com a esperança de encontrar apoio adicional para a conexão com as cidades bíblicas de Sodoma e Gomorra. 



Uma pesquisa mais extensa 

De acordo com o relato bíblico, cinco cidades — identificadas como Sodoma, Gomorra, Admá, Zoar e Zeboim — dominavam a região e eram co­nhecidas como “as cidades da planície.” Sodoma e Gomorra eram as duas mais proeminentes cidades da pentápolis. Se aceitarmos a possibilidade de que Bab edh-Dhra tenha sido realmente Sodoma, então seria de se esperar que pudésse­mos achar traços de outras cidades naquela mesma área geral. 

Isso, de fato, tem sido o caso. Ao longo do litoral sul de Bab edh-Dhra está a cidade de es-Safi, identificada desde os tempos bizantinos com Zoar. As inves­tigações de Rast e Schaub revelaram três outros sítios, um entre Bab edh-Dhra e es-Safi conhecidos como Numeira, e dois ao sul de es-Safi conhecidos como Feifa e Khanazir. Depois que pesquisas e escavações foram feitas nestes sítios, foi determinado que todos os sítios haviam sido destruídos e abandonados qua­se ao mesmo tempo (no final do período do Bronze Antigo III, cerca de 2450-2350 a.C.). E mais, os mesmos depósitos de cinza que foram achados em Bab edh-Dhra foram também achados nestes sítios. De fato, em Numeira, uma ci­dade muitíssimo fortificada, uma camada tinha mais de 2 metros de espessura! Sob a camada de cinzas, escavadores encontraram resquícios em quase perfeitas condições, especialmente em casas onde paredes foram cobertas pelas cinzas. 

Em cada uma destas cidades, os depósitos de cinzas haviam feito com que o solo tivesse a consistência de carvão esponjoso, tornando inviável que as pes­soas se reinstalassem nele depois da destruição. O relato da destruição destas cidades da planície registra que quatro destas cidades foram destruídas, mas uma — Zoar — foi poupada a pedido de Ló (Gn 19.19-23). Todavia, também é registrado que Ló fugiu de Zoar porque estava com medo de viver ali, esco­lhendo viver em cavernas nas montanhas fora da cidade (Gn 19.30). Parece que por causa da destruição geral desta região, Zoar mesma foi também abandona­da. Isso então correlacionaria a evidência arqueológica ao relato bíblico. Tam­bém é significativo que todas as cinco cidades ficassem na extremidade de Ghor, diretamente ao longo de sua falha leste. Isso torna possível a destruição de toda pentápolis através de um desastre relacionado a um terremoto, conforme previ­amente descrito. 

Outro fator que sugere a identificação destas cidades com as cidades bíblicas é que a bacia sudeste — começando na extremidade norte da península de Lisan e continuando ao sul até Vadi Hasa (Nahal Zered) — é conhecida por ter sido o primeiro território para povoamento. Os cones aluviais (depósitos de solo dos ribeiros) e recursos para irrigação encorajaram pesada ocupação.14 Nes­te sentido é significativo que cada um destes cinco sítios está ao longo de um vadi*, que permitia que a cidade fosse alimentada por um riacho de água fresca. Albright havia teorizado corretamente que cada vadi em Ghor podia ter somen­te sustentado um centro urbano por causa da escassez de água (nos vadis), e porque uma comunidade acima do rio podia ter desviado a água para seu pró­prio uso, desprovendo quaisquer comunidades que estivessem rio abaixo.15 Além disso, um estudo intenso da agricultura nesta área determinou que a economia antiga tinha sido baseada na irrigação. Isso se encaixa com a descrição geográfi­ca das cidades da planície como “era como jardim do Senhor, como a terra do Egito” (Gn 13.10). Além disso, um terço do sul da península de Lisan (literal­mente “língua”), onde estas cidades estão localizadas, é muito rasa — cerca de 6 metros de profundidade se comparados aos 429 metros de profundidade nos dois terços do norte. Este fato pode indicar que Lisan já foi uma planície que veio a ser inundada em tempos posteriores. 

Estas ruínas são o único atestado dos sítios da Era do Bronze Antigo no lado sudeste do mar Morto. Porque os sítios deste período estão totalmente ausentes no lado oeste, parece que estes deveriam ser identificados com as cida­des perdidas da planície. O único problema para alguns eruditos é a designação de uma Era de Bronze datando do tempo de Abraão e Ló. Thomas Thompson usou uma cronologia que colocava os patriarcas no ambiente do Bronze Médio I, o que o levou a rejeitar a presença patriarcal nas cidades da planície sob a suposição de que não havia sustentação histórica ou evidência arqueológica.16 Todavia, quando consideramos a referência a estas cidades em Gênesis 14 (que melhor se enquadra numa data do terceiro milênio a.C.) e a provável referência a Sodoma em um dos tabletes Ebla (datados do Bronze Antigo III, 2650-2350 a.C.),17 então a mudança para uma data do Bronze Antigo III está estabelecida, e o argumento de Thompson cai. Pois com esta mudança um importante conjunto de evidência arqueológica repentinamente aparece para a correlação bíblica do período patriarcal, especialmente destes sítios do mar Morto. Esta foi, de fato, a conclusão de um escavador que explorou estas cidades.18 

Que cidade se encaixa em cada sítio? 

Identificar estes sítios como as cidades da planície encoraja-nos a tentar identificar que sítios hospedaram que cidades. A Bíblia coloca em pares quatro das cidades — “Sodoma e Gomorra,” “Admá e Zeboim”. Uma vez que Zoar era uma cidade vizinha para a qual Ló pediu para fugir de Sodoma, Zoar tem que ser próxima à Sodoma e Gomorra. Deveriam Sodoma e Gomorra ser identificadas com as duas cidades ao norte de Zoar ou ao sul dela? A Bíblia sugere que Sodoma e Gomorra eram as mais proeminentes das duplas de cidades. Elas foram esco­lhidas para representar a pentápolis no derramamento do juízo de Deus (Gn 18.20,21). Destas duas cidades, Sodoma foi a única que Ló escolheu em seu desejo de ter o melhor (veja Gn 13.11,12). Era também a cidade cujo rei repre­sentava as outras cidades depois da morte dos reis da Mesopotâmia (Gn 14.7). Além disso, foi a cidade visitada pelos inquisidores para determinar a culpa do restante (Gn 18.22). Assim, Sodoma deve ter encabeçado todas as outras cida­des da planície. Se esta também era uma liderança geográfica, então a cidade no mais extremo norte é a preferida, pois é o sítio mais visível das montanhas de Betel, de onde Ló havia visto a cidade pela primeira vez (Gn 13.10-12), e de cujo ponto Abraão mais tarde observou sua destruição (Gn 18.27,28). 

Das cinco cidades modernas, o lado norte de Bab edh-Dhra é claramente o maior e mais proeminente e, portanto, melhor identificado com Sodoma. Isso significaria que Numeira, bem ao sul de Bab edh-Dhra, deveria ser identificada com Gomorra. Afora o argumento dos pares, há evidência de que está é uma interpretação correta. Linguisticamente, Numeira pode ser conectada com Gomorra, pois a designação do árabe moderno preserva o nome hebraico origi­nal.19 Quanto ao sítio, os escavadores Rast e Shaub relataram que o setor sudo­este das ruínas revelou destruição por um extenso incêndio: “Este setor da cida­de foi destruído por fogo. Os fundamentos dos prédios foram queimados sob toneladas de tijolos em chamas.”20 Além disso, em um dos cômodos selados por detritos de cinzas, e assim com artefatos quase no mesmo estado de quando a cidade encontrou o seu fim, mais de 5.000 sementes de cevada foram recupera­das. Nos tempos antigos, a cevada era usada para fazer pão e produzir cerveja. Estes produtos alimentícios podem indicar o abundante armazenamento de tais grãos na cidade e poderiam talvez refletir a declaração de Ezequiel de que um dos pecados de Sodoma (e de suas irmãs) era a “fartura de pão” (Ez 16.49). 

Quando empregamos as informações disponíveis das escavações e o emparelhamento geográfico destas cidades, podemos identificar Bab edh-Dhra como Sodoma, Numeria como Gomorra, es-Safi como Zoar, Feifa como Admá e Khanazir como Zeboim. O diretor da Associates for Biblical Research (Associ­ados para a Pesquisa Bíblica), Bryan Wood, acredita que a evidência é imperiosa e por isso conclui: 

Estas cidades da Era do Bronze Antigo, descobertas no país da Jordânia logo ao sudeste do mar Morto, formam uma linha norte-sul ao longo da bacia sul do mar Morto. Elas todas datam do tempo de Abraão e parece que são verdadeiramente as “cinco cidades da planície” mencionadas no Antigo Testamento.21 

Uma mensagem para o nosso tempo 

Se as evidências para estas cidades continuarem a se avolumar conforme espera-se das futuras escavações, então finalmente possuímos confirmação ar­queológica da historicidade das cidades pecaminosas da Bíblia. Isso, é claro, é encorajador para aqueles cujas vidas são vividas em fé e não têm nada a temer de um Deus que uma vez julgou um grupo de cidades com fogo do céu. Mas para aqueles que têm vivido pecaminosamente à vista dos céus, conforme o povo de Sodoma e Gomorra fizeram, pode haver pouco alívio. Estas cidades servem de aviso de que o Deus que puniu pecados no passado já marcou uma realização parecida. Mas desta vez Ele não vai se deter em apenas cinco cidades; Ele consu­mirá o mundo todo (2 Pe 3.10-12). Esta é uma profecia que não deve ser enca­rada levemente, pois Jesus advertiu que “no Dia do Juízo, haverá menos rigor para o país de Sodoma e Gomorra” do que para aqueles que sabiam destes fatos, mas esqueceram desta lição para sua vida (Mt 10.15). Em vista disso, o docu­mento arqueológico que chamamos de Escritura aconselha que nos concerte­mos com Deus: 

Havendo, pois, de perecer todas estas coisas, que pessoas vos convém ser em santo trato e piedade, aguardando e apressando-vos para a vinda do Dia de Deus (2 Pe 3.11,12a). 

Se estes sítios são realmente as cidades pecaminosas da Bíblia, elas con­frontam nossa cultura atual com sua mensagem de que nosso presente modo de vida deveria ser vivido tendo em vista o futuro julgamento. Se pautarmos nossa própria conduta através deste aviso temporal, então assim como o fato de Sodoma e Gomorra estarem forçando o mundo a se lembrar, sua lição através de nós como crentes nunca será esquecida.