18 de outubro de 2016

RANDALL PRICE - O rei Davi, figura mítica ou monarca famoso?

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A pessoa do rei Davi agiganta-se nas páginas do Antigo e Novo Testamen­tos, sendo mencionada cerca de 1.048 vezes. No Antigo Testamento ele é o assun­to primário de 62 capítulos e o autor de 73 salmos. No Novo Testamento, figura proeminentemente em ambos os lados da genealogia de Jesus e no lugar onde este nasceu (Mt 1.1,6,17,20; Lc 2.4,11; 3.31), pois “Cristo é Filho de Davi” (Lc 20.41), que herdará “o trono de Davi, seu pai” (Lc 1.32). E, recentemente, baseado nas conquistas históricas do rei Davi, Jerusalém celebrou seu 3.000° aniversário da conquista feita por Davi da cidade dos jebuseus (2 Sm 5.7-25). 

Com tal ênfase em Davi nas Escrituras, para muitos causa surpresa saber que até há pouco tempo todos os livros que lidam com a história da Terra Santa tinham de admitir que nenhum rastro de Davi jamais aparecera nos registros arqueológicos. Era típico haver declaração como esta de uma das maiores auto­ridades em arqueologia bíblica, senhora Kathleen Kenyon — palavras proferi­das há apenas dez anos: 

Para muitas pessoas parece surpreendente que Davi e Salomão ainda permaneçam desconhecidos fora das páginas do Velho Testamento ou de fontes literárias diretamente derivadas do texto sagrado. Nunca foi encontrada alguma inscrição extrabíblica, quer da Palestina ou de país vizinho, que contivesse referência a eles.2 

O mito do rei Davi 

Esta falta de evidência leva muitos estudiosos críticos a duvidarem que um Davi histórico alguma vez tenha existido. Revisionistas históricos (ou minimalistas) argumentaram que o “mito Davi” tinha sido invenção literária tirada de várias tradições heróicas para explicar a formação da monarquia de Israel. Em certo desenvolvimento deste mito, de acordo com os críticos, uma escola sacerdotal circunjacente ao Templo tinha procurado base teológica para o próprio conceito de governo divino. Tratava-se do conceito de um rei ideal (Davi) comparado com um rei imperfeito (Saul). De acordo com os críticos, Saul, é claro, não existiu, mas serviu junto com Davi como modelos teológicos contrastantes da escolha do homem (Saul) versus a escolha de Deus (Davi). Mesmo assim, as freqüentes lou­curas de Davi mostraram a superioridade de uma teocracia (governo de Deus) sobre uma monarquia (governo do homem). Sem evidência material para ajudar a dar carne a estas figuras, Davi e Salomão permaneceram para muitos como não mais que inspiradoras personagens de livros de história. 

Por que não podemos encontrar mais? 

Com freqüência, as pessoas ficam confusas sobre o motivo de tão pouco ter sido recuperado do período mais antigo da monarquia — os tempos de Saul, Davi e Salomão. Uma importante razão para a falta de evidência pode ser que muito pouco tenha sido escavado nas áreas relacionadas aos reinados desses monarcas. Israel é um tel gigantesco, e em lugares como Hebrom e Jerusalém, onde se esperaria que fosse encontrada a maioria das evidências deste período, antagônicas reivindicações religiosas e desassossego político tornam virtualmente impossível para os arqueólogos o acesso a alguns dos sítios mais promissores.


Nas áreas em que foram escavadas, há outras razões para a escassez de res­tos arqueológicos de materiais. Primeiro, em termos de arquitetura, constru­ções mais recentes encobriram estruturas mais antigas e pouco deixaram do original para ser achado. Por exemplo, no nível mais baixo das escavações no muro meridional do monte do Templo, os arqueólogos só descobriram uma pequena seção de uma construção cuja data remonta aos tempos de Salomão. Em geral, milhares de anos de ocupações mais recentes encobrem quase todos os sítios. Segundo, em termos de achar saliências de monumentos e esculturas, outras culturas desse período da história deixaram tais evidências, mas o mandamento bíblico contra a fabricação de ídolos eliminou esta possibilidade em Israel. 

Mas, e os registros escritos? Temos a Bíblia; e não há outros escritos do período bíblico? Uma razão para que poucos registros escritos tenham sido acha­dos é que os israelitas, em contraste com seus vizinhos, escreveram a maioria dos seus documentos de tribunal e outros registros em rolos de papiro perecível. O papiro era mais eficiente e menos caro do que outros tipos de material para escrita. Além disso, representava um modo mais avançado de comunicação para uma sociedade instruída como o Israel bíblico. Na Bíblia, encontramos evidên­cias do uso de papiro desde o fim do período monárquico; por exemplo, lemos que o profeta Jeremias escreveu suas profecias em rolos de papiro (Jr 36.2). A Bíblia também descreve o quão facilmente tal escritura podia ser destruída; por exemplo, o rei Jeoaquim pegou os rolos de papel escritos por Jeremias, cortou-os e queimou-os (Jr 36.23). 

Achados do período do Primeiro Templo 

Apesar destas considerações sobre a escassez de restos de materiais, em oca­siões excepcionais ao mandamento tais evidências são descobertas. Uma exce­ção à lei contra imagens esculpidas foi um óstraco proveniente de Ramote Ra­quel, da Idade do Ferro, que trazia pintado a figura de um indivíduo sentado num trono. O arqueólogo israelita Gabriel Barkay propôs que este poderia ser um quadro de Ezequias, rei de Judá. 

Outrossim, enquanto que os documentos em papiro são perecíveis, os selos que outrora estavam colados nestes documentos ainda existem. Escava­ções na Cidade de Davi revelaram numerosos destes selos (ou bulas) de barro nas ruínas de casas que foram queimadas pelo exército invasor babilónico no fim do período do Primeiro Templo. Além disso, há excelentes exemplos de inscrições mais duráveis desde o início da monarquia e o período do Primeiro Templo. A Bíblia observa que os profetas desses tempos às vezes escreviam em madeira ou metal (Is 8.1; Ez 37.16). Em Deir Alá, localizado no vale do Jordão, foi descoberta uma inscrição aramaica de meados do século VIII, mencionando o profeta bíblico Balaão (Nm 22—24), escrita em tinta verme­lha e preta no gesso.3 Entre as inscrições hebréias em pedra incluem-se o Ca­lendário de Gezer (século X a.C.) e inscrições do século VIII a.C., como a inscrição no Túnel de Siloé, a inscrição do Administrador do Rei e o óstraco de barro de Samaria, Arade e Laquis. Também há significativos achados ins­critos em metal ou marfim, como os rolos de prata do século VII a.C. de Ketef Hinom e uma ponta de cetro em marfim na forma de romã. Os rolos de prata preservam o mais antigo texto bíblico conhecido (do livro de Números) e indica que provavelmente o texto bíblico foi escrito logo em seguida aos eventos que descreve. De acordo com a inscrição na ponta do cetro, é prová­vel que tenha pertencido a um sacerdote que exerceu o sacerdócio no Primei­ro Templo. 

Estas descobertas, embora escassas, mostram os tipos de achados que podem ser esperados e indicam que certamente há mais a ser encontrado. A localização mais promissora para tais evidências é um cume ao sul do atual monte do Templo em Jerusalém. Neste sítio de nove acres, a Jerusalém de Davi teve seu começo ao lado da cidade cananéia/jebusita que já tinha 2.000 anos de existência. Ainda chamada 'Ir David (“Cidade de Davi”), as escava­ções feitas por Kathleen Kenyon e o arqueólogo israelita, Tigael Shiloh, de­finiram estruturas provavelmente mencionadas por Davi, como uma pilha de pedras de pouco mais de 15 metros de altura, chamada de Escadaria de Pedra, que poderia ter sido a Milo bíblica, sobre a qual Davi construiu a Fortaleza de Sião (2 Sm 5.7,9). O mais antigo elemento conhecido no sítio, um sistema de água conhecido como o Veio de Warren, acredita-se ter sido usado por Joabe, general de Davi, para capturar a cidade dos jebuseus (2 Sm 5.6-9; 1 Cr 11.4-7).4 E no verão de 1997, o arqueólogo israelita, Ronny Reich, descobriu na área meridional da Cidade de Davi uma imensa estru­tura de pedra que pensa-se ser uma torre de defesa. Além disso, o arqueólo­go Eilat Mazar, que dirigiu escavações do Ofel (área entre o monte do Tem­plo e a Cidade de Davi), acredita que o palácio real de Davi acha-se à espera de ser descoberto logo ao sul de Ofel (e ao norte da Escadaria de Pedra).5 A área, outrora fora dos limites por causa de pomares árabes que ali foram plantados, hoje está acessível aos escavadores. Talvez no futuro próximo evi­dências diretas da presença de Davi venham a ser desenterradas para todos verem. 

Um achado inesperado 

Uma inscrição-chave 

A despeito das escavações que revelaram uma presença israelita estabelecida na Terra Santa perto da época de Davi — e que até descobriram estruturas na Cidade de Davi relacionadas aos seus dias —, os críticos continuaram a susten­tar firmemente o mito Davi, porque nenhuma menção específica a Davi chega­ra a aparecer em tais escavações. Entretanto, estes críticos foram forçados a re­considerar suas opiniões com base em novas evidências descobertas em 1993. O desafio para estes revisionistas surgiu através da inscrição num monumento (estela) de quase 3.000 anos, escrito em basalto preto por um dos inimigos estrangeiros de Israel. Descoberto no sítio de Tel Dã, norte de Israel, esta inscri­ção surpreendente traz as palavras “Casa de Davi”. 

O arqueólogo que fez esta descoberta é o professor Avraham Biran, dire­tor da Faculdade de Arqueologia Bíblica Nélson Glueck, da Hebrew Union College. A estela da Casa de Davi coroou 27 anos de descobertas arqueológi­cas em Tel Dã, o sítio no norte de Israel onde a estela foi encontrada. Quando recentemente visitei o professor Biran em seu escritório no Instituto Judaico de Religião em Jerusalém, visitamos o Museu Skirball (localizado adjacente ao seu escritório), onde muitas de suas descobertas em Tel Dá estão armaze­nadas. Segurando uma réplica da esteia da Casa de Davi, hoje acrescida de novas peças desenterradas em 1994, ele comentou sobre seu conteúdo e con­tribuição para a história bíblica: 

Num muro construído em algum lugar mais ou menos entre o fim do século IX e o começo do século VIII a.C., achamos um fragmento inscrito em aramaico. Suas linhas falam de guerras entre os israelitas e os arameus, as quais pela Bíblia sabemos que [durante esse período] eram constantes entre Israel e Damasco. Neste fragmento, um rei de Damasco, Ben-Hadade, é manifestamente vitorioso. Ele matou alguém e levou prisioneiros e cavaleiros. [...] Mas o que foi realmente tremendo foi descobrir que ele derrotou um “rei de Israel da Casa de Davi!” Então aqui temos a menção da “Casa de Davi” numa inscrição araméia datada [...] aproximadamente 150 anos depois dos dias do rei Davi. O ano seguinte, em outro cenário da escavação, encontramos mais duas peças e estas ligam-se à primeira e nos dão os nomes destes reis. O rei de Israel, a quem se faz referência, é “Jorão”, [...] que é filho de Acabe. O rei da Casa de Davi [Judá] é “Acaziau” [Acazias], que também é mencionado na Bíblia. [...] A coisa excitante aqui é que temos uma estela histórica que se refere a eventos históricos dos quais a Bíblia fala extensamente [2 Rs 8.7-15; 9.6-10],6 

Com mais precisão, o professor Biran datou a inscrição no tempo do usurpador Hazael, arameu, que, segundo opinião do professor, foi o autor da inscrição. O reinado inteiro de Hazael foi caracterizado por guerras com Israel, e ele entrou na história bíblica como um dos mais brutais inimigos de Israel (2 Rs 8.7-15). Informado pelo profeta Eliseu de que seria rei, Hazael assassinou o rei da Síria, Hadad-‘izr, e reinou entre 842 e 800 a.C. Depois de ter ascendido ao trono, imediatamente entrou em guerra contra Israel, Judá e a Filístia. O registro bíblico indica que ele dizimou o exército israelita e o transformou, junto com a Filístia, em estados vassalos (servis) (2 Rs 10.32,33; 12.17). Judá também parece ter compartilhado este mesmo des­tino (2 Rs 12.17,18). O professor Biran julga que a estela da Casa de Davi foi erguida como monumento comemorativo a estas ações, e é provável que tenha sido escrita na parte final do reinado de Hazael. A linha que contém a referência à Casa de Davi (linha 9) está no contexto de matar os reis israelitas e judaicos. Nestas linhas (7b-9), depois de reconstrução, lê-se: “Eu matei Jorão, filho de Acabe, rei de Israel, e matei Acaziau, filho de Jeorão, rei da Casa de Davi”. 



Em que implica a inscrição? 

O termo Casa de Davi é um título dinástico que implica que, se havia uma “Casa de Davi”, deveria ter havido um Davi. Como era de se esperar, os minimalistas bíblicos opõem-se a este raciocínio, afirmando que a descoberta do epíteto Beth-David (“Casa de Davi”) significa nada mais que um nome que foi tirado das tradições da história israelita e usado com freqüência como título divino para lugares, como Beth-el (“casa de Deus”). Neste sentido, um revisionista histórico argumenta que Beth-David é uma “referência epônima a Jeová como Padrinho”. Ele escreve: 

[...] O nome de lugar ‘bytdvd [“Casa de Davi”] dificilmente se refere a um Davi histórico, mas é muito mais provável que seja alusão a um templo dedicado ao epíteto divino dvd, o epíteto de Jeová historicamente conhecido, e o herói das narrativas bíblicas antes parece ser derivado de associações familiares implícitas na forma deste nome de lugar e de suas associações com a monarquia em Jerusalém.7 

Esta opinião foi apoiada pelo argumento de que um divisor de palavras (normalmente um ponto escrito entre as palavras para mostrar que são separa­das) está ausente nas letras ‘bytdvd. Porém, vários epigrafistas defendem a referência a um Davi histórico,8 in­clusive Anson Rainey, de Israel, e Alan Millard, da Inglaterra, ambos peritos em inscrições aramaicas antigas. Eles demonstraram que há exemplos de palavras e nomes compostos nos quais o divisor de palavras está ausente.9 Além disso, o arqueólogo e professor da Wheaton College, James Hoffmeier, mostrou que ler ‘bytdvd como nome de lugar não tem nenhuma atestação na Bíblia ou em qual­quer literatura cognata do antigo Oriente Próximo.10 Por outro lado, a leitura “Casa de Davi” como título dependente do fundador histórico da linhagem, o rei Davi dos judeus, aparece mais de 20 vezes no Velho Testamento {ver, por exemplo, 1 Rs 12.19; 14.8; Is 7.2; e assim por diante). 

Recentemente, o estudioso francês André LeMaire forneceu novo apoio a uma identificação da inscrição de Tel Dã com o histórico rei Davi. Ele identifi­cou a leitura do nome Davi numa linha antigamente ilegível, “Casa de D...”, na estela do rei Mesa (ou Pedra Moabita). Se depois do escrutínio de outros estudi­osos, tal caso for comprovado, servirá como segundo exemplo da frase “Casa de Davi”.11 Entretanto, mesmo que o nome de “Davi” não esteja nesta inscrição comemorativa dos moabitas, pertencente ao século IX a.C., também contém, como na estela de Tel Dã, outros nomes bíblicos — por exemplo: Onri (1 Rs 16.28). De fato, os estudiosos não duvidam da historicidade de Onri pelo simples fato de que ele é mencionado na inscrição do rei Mesa. Se tal for o caso, então por que a historicidade de Davi deveria ser posta em dúvida se o seu nome aparece num epíteto na estela de Tel Dã? Além disso, os epítetos “a terra de Onri” e “a casa de Onri” foram encontrados em textos assírios.12 Se os assírios puderam especificar Estados pelo nome do fundador da dinastia, independente de quem estivesse no poder naquele momento, os arameus não poderiam fazer o mesmo? Sob esta consideração, a estela aramaica “Casa de Davi” implica que durante esse período os reinos de Israel e Judá eram, como a Bíblia descreve, tremenda ameaça tanto política quanto militar para as nações circunvizinhas. Os revisionistas, porém, consideram que Israel e Judá eram cidades-estado in­significantes. Mas um poder estrangeiro dominante como a Síria teria erigido um monumento comemorativo da derrota de inimigos sem importância? 

Ademais, sabemos que a estela do rei Mesa também contém o termo “filho de Acabe”. Então por que a referência a Acabe, filho de Onri, seria considerada factual, enquanto que a linha sobre Davi é considerada fictícia?13 Em outras palavras, se houve um rei Acabe como cabeça de dinastia, então por que não haveria um rei Davi? A razão, obviamente, é que ao passo que sempre houve evidências extrabíblicas a respeito de um rei Acabe, anteriormente nada havia a respeito de um rei Davi. Como observou o doutor Jack Sasson, professor de Estudos Religiosos da Universidade da Carolina do Norte, em Chapei Hill: “Até Acabe, nenhuma personalidade da Bíblia tinha sido confirmada por outras fontes; nem Davi, nem Abraão, ou Adão e Eva”.14 

Se for aceito que a estela de Tel Da faz referência legítima a um rei Davi histórico, então o revisionista terá de revisar seu ponto de vista e reconsiderar as pressuposições que prejudicam sua interpretação do texto bíblico. 

Davi era real? 

Alguns estudiosos estão propensos a reconhecer que as estelas de Tel Dã e do rei Mesa tornam plausível que uma figura real chamada Davi tenha existido, contudo ainda insistem que muito do que está registrado na Bíblia acerca de Davi é totalmente imaginário. Mas, os eventos descritos na Bíblia sobre Davi fazem mais sentido se for presumido que Davi é uma pessoa real. Porquanto um crítico possa afirmar que a vitória heróica de Davi sobre um gigante é mera ficção, nada há tão contemporâneo quanto um político pego em adultério e no conseqüente ato do encobrimento! (vide 2 Sm 11.) Não obstante, ambos os aspectos da vida de Davi são descritos com igual senso de realidade. De fato, nada há sobre Davi que não soe verdadeiro à experiência humana normal. Sua devoção e desejos são retratados em pólos conflitantes, da mesma maneira que no melhor dos homens. Quando sua paixão por Deus se apresenta muito santa (por exemplo, Salmos 23, 42), logo somos lembrados de suas outras paixões que mostram que ele realmente é pecador (SI 32, 51). Luxúria, preguiça, infide­lidade, assassinato, orgulho, medo, feudos familiares, fracasso matrimonial — tudo faz parte da história deste rei. Tais elementos desprovidos de idealismo normalmente não são pintados nos retratos de mitos e lendas, e com certeza não naqueles intencionalmente projetados para ser ideais nacionais e progenitores messiânicos. Portanto, o achado de um reconhecimento histórico da “Casa de Davi” — relatado por um inimigo de Israel sem respeito à tradição israelita —, dá apoio material a uma narrativa literária que historicamente já se mostra acreditável. O arqueólogo Bryant Wood resume este adequado entendimento da importância da estela da Casa de Davi, quando diz: 

Em nossos dias, a maioria dos estudiosos, arqueólogos e estudiosos bíblicos faria exame muito crítico da precisão histórica de muitas das narrativas da Bíblia, particularmente dos primeiros livros da Bíblia. Quase todos os estudiosos de hoje diriam que qualquer coisa anterior ao período do reino [de Israel] é pura história folclórica e mito, e é neste ponto que a arqueologia bíblica pode representar papel muito importante, porque no campo da arqueologia podemos apresentar evidências novas e dados novos para nos ajudar a entender estas narrativas bíblicas. Não é incomum as descobertas mais recentes da arqueologia destruírem opiniões críticas mais antigas sobre a Bíblia. Muitos estudiosos afirmaram que nunca houve um Davi ou um Salomão, mas hoje temos uma estela que de fato menciona Davi.'5 


No momento, maior porção da estela ainda está faltando do que foi en­contrada. Aparentemente, o rei israelita que reconquistara Dã destruiu a “estela da vitória” do inimigo e usou a pedra como blocos de construção. A maioria destas pedras ainda pode estar enterrada em algum lugar na entrada da cidade antiga. Talvez os arqueólogos em breve venham a descobrir e reunir essas peças perdidas do quebra-cabeça e formar o quadro completo para nós. Até esse dia, os pequenos fragmentos que temos já são suficientes para admoestar os revisionistas históricos a não mitificar os personagens bíblicos, como Davi. Antes, a realidade histórica de Davi encoraja-nos a imitar o exemplo estabelecido por este rei de outros tempos — que, embora imperfeito, sempre se voltava a um Deus perfeito. Como ele, devemos viver como aqueles que são “segundo o [...] coração [de Deus]” (1 Sm 13.14).