11 de outubro de 2016

RANDALL PRICE - O Êxodo

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O Êxodo

Enquanto estas palavras estão sendo escritas é Páscoa novamente na ter­ra. Por todo o mundo, judeus (e muitos cristãos, veja 1 Coríntios 5.7-8) estão celebrando a redenção da escravidão no Egito. Numa cerimônia que a comuni­dade judaica tem celebrado em sucessão inquebrável por quase 3.500 anos, a Páscoa comemora o evento que foi o marco do início da nação judaica — o êxodo. É curioso, então, que mesmo sendo mantida a Seder (a refeição tradici­onal) e lida a Hagaddah (a história recontada), alguns eruditos judeus e cristãos acreditem que o êxodo nunca aconteceu! Por exemplo, o Rabi Sherwin Wine, fundador do judaísmo humanista, tem discutido que o êxodo tenha sido “cria­do por sacerdotes escribas em Jerusalém” que usaram “uma série de velhas len­das e distorceram lembranças que não tinham nenhuma relação com história.”2 Os eruditos em Antigo Testamento N.P. Lemche e G.W. Ahlstrõm consideram o êxodo uma “ficção”3 e “preocupado com mitologia ao invés do relato de fatos históricos.”4 Anos atrás, o erudito judeu Hugh Schonfield escreveu um livro chamado The Passover Plot (A Conspiração da Páscoa), no qual ele concluiu erroneamente que Jesus havia encenado sua morte e ressurreição. Mas se a visão destes eruditos concernente ao êxodo estiver correta, então aquela terá sido a primeira conspiração da Páscoa! 


A arqueologia explica um texto difícil 

A narrativa bíblica das dez pragas é uma das mais memoráveis e funda­mentais partes da história do êxodo. Quem não se lembra do rio que virou sangue, as hordas de gafanhotos, e o meu favorito pessoal quando criança — as pilhas de rãs! Será que esta é somente uma história supersticiosa ou houve um ambiente histórico para estas pragas incomuns? Olhando através de len­tes arqueológicas para a religião do Egito, podemos entender as pragas como uma polêmica divina (ataque) contra os deuses fabricados dos egípcios (na tumba de Séti eu fotografei pelo menos 74). Associações entre pragas indivi­duais e deuses específicos cujo controle dos elementos foram disputados ou destruídos por pragas podem ser feitas com base em nossas informações sobre estas deidades nos registros arqueológicos.5 Todavia, há um incidente registra­do na Bíblia que corre através de toda a narrativa das pragas — o relato do endurecimento do coração de Faraó. A despeito da discussão sobre quem pri­meiro endureceu o coração de Faraó, se Deus ou ele próprio, a razão para o ato tem geralmente cativado os comentaristas bíblicos. Porém, se compreender­mos que este também é um ato polêmico, como as pragas que o acompanha­ram, então podemos procurar por pistas no registro arqueológico egípcio as­sim como para seu possível significado. 

Os antecedentes egípcios 

A visão egípcia do poder de Faraó 

O que descobrimos é que Faraó era considerado como a encarnação do deus sol Rá e Horus-Osíris, os deuses mais importantes do Egito.6 Assim, ele era visto como o principal deus do mundo.7 O mundo de Faraó era visto como “uma força criadora,” o mundo de um deus, que controlava a história assim como os elementos naturais e nao podia ser revertido ou dominado por qual­quer outra vontade. Portanto, ao fazer a vontade de Faraó dobrar-se diante da vontade divina, Deus demonstrou seu poder soberano sobre o que incorporava o poder do panteão egípcio na teologia do Egito.


O endurecimento do coração de Faraó 

Descobertas egípcias nos proporcionam uma fascinante explicação sobre como Deus pode ter decidido “endurecer” o coração de Faraó. Na teologia do antigo culto egípcio à morte, conforme descrito no egípcio “Livro dos Mortos,” depois da morte, o falecido embalsamado e colocado na tumba tinha que enfrentar um julgamento na Sala do Julgamento para determinar sua culpa ou inocência. Se julgado culpado seu destino era a destruição; se inocente, então a vida eterna com suas recompensas. Para passar por este julgamento, o morto tinha que negar uma longa lista de pecados que era lida contra ele e com êxito declarar que era puro. Este ato era chamado de “Confissão Negativa,”8 e enquanto estava sendo condu­zido, o coração do falecido (descrito num canopo) estava sendo pesado em escalas de julgamento contra o padrão da verdade (representado pelo símbolo dos hieróglifos para pena). Este julgamento é vividamente representado num mural pintado conhecido como “a pesagem do coração.” Contra o testemunho do fale­cido, seu coração confessaria a verdade, mostrando que sua Confissão Negativa era uma mentira. O coração, portanto, subiria as escalas em favor do julgamento que resultaria em destruição. Uma vez que todos os homens pecam e que a inclinação do coração é confessar este pecado, os engenhosos egípcios desenvolveram um meio de evitar que o coração contradissesse a Confissão Negativa. Eles fize­ram isso escrevendo encantamentos sobre uma imagem de pedra de seus escarave­lhos sagrados que eram entalhados na forma de um coração.9 Este coração em forma de escaravelho de pedra era então colocado dentro ou em cima da cavidade do peito durante a mumificação (um fato revelado por raios-X de múmias egípci­as).10 Vários encantamentos que ordenavam ao coração: “não se rebele contra mim” ou “não testemunhe contra mim” transferiam o caráter do coração de pedra para o coração de carne no pós-túmulo, tornando-o “duro” e incapaz de falar.11 Este ritual de “endurecimento do coração” revertia a função natural do coração flexível e resultava na salvação, desde que o falecido fosse agora declarado sem pecado através do silêncio.12 

Todavia, quando Deus “endureceu” o coração de Faraó, que como um deus em si mesmo representava a salvação do Egito, Ele reverteu a esperança teológica de todos os egípcios. Este endurecimento resultou na incapacidade de Faraó naturalmente responder às assustadoras pragas, e assim pará-las, renden­do-se à solicitação de Moisés. Portanto, ao invés de o “endurecimento do cora­ção” trazer salvação, ele trouxe destruição.13 Assim, a arqueologia proveu nova perspectiva de um conceito teológico difícil dando-nos o cenário apropriado e o esquema das crenças egípcias que, através de Moisés, Deus queria confrontar. Além disso, ao revelar a precisão dos detalhes no relato bíblico, ela indica sua historicidade. Contudo, encontrar antecedentes históricos para a narrativa do êxodo não necessariamente significa que ele se constitui a história verdadeira. Portanto, precisamos agora voltar para a difícil questão da historicidade do êxodo. 

A historicidade do êxodo 

Estabelecer a historicidade do êxodo é um dos maiores problemas que per­manecem para os eruditos bíblicos. A narrativa bíblica do êxodo tem sido noto­riamente de difícil confirmação através da evidência arqueológica, causando assim sérias dúvidas sobre a autenticidade do evento. 

Um obstáculo para a aceitação do êxodo como um verdadeiro aconteci­mento tem sido a incapacidade dos eruditos de reconciliar os acontecimentos do êxodo com a cronologia bíblica e arqueológica. Uma data antiga no século XV a.C. (1446-1441 a.C.) para o êxodo está em maior harmonia com a crono­logia interna do Antigo Testamento (veja 1 Rs 6.1).14 

O clássico estudo cronológico feito por Edwin Thiele15 fixou a antiga data de 1447 a.C. para o êxodo.16 De acordo com esta data, o faraó da opressão era Tutmose I ou Tutmose III e o faraó do êxodo foi Tutmose II ou Amenotep II. A biografia antiga de um oficial naval egípcio chamado Amenemhab, que serviu sob diversos faraós deste período, nos mostra que aquele Tutmose III morreu no tempo da Páscoa no início de março de 1447 ou 1446 a.C.17 Assim, sua morte ocorreu exatamente no tempo certo para encaixar-se com a cronologia bíblica e os acontecimentos do êxodo. Todavia, William Shea recentemente argumentou num documento não publicado18 que Tutmose I e um recém- instalado filho co-regente — a princípio Tutmose II — morreram juntos perse­guindo os escravos israelitas (como talvez implícito em Êx 15.4,19). Ele crê que seus corpos não tenham sido recuperados (daí as múmias designadas a eles no Museu Egípcio no Cairo estarem erroneamente identificadas). Ele baseia seu argumento em novas fotografias de Oral Collins das inscrições do Vadi Nasb do Sinai, descobertas pelo professor Gerster muitas décadas atrás, que preten­dem registrar o nome de Tutmose I e desenhar imagens tanto dele como de seu filho e os eventos relacionados ao êxodo. O problema com a data antiga é que apesar de sua harmonia com fontes bíblicas e extrabíblicas, falta sustenta­ção suficiente no registro arqueológico. Uma data posterior no século XIII a.C. (1280-1200 a.C.) parece oferecer maior apoio arqueológico (veja Êx 1.11),19 mas tem significativos problemas cronológicos e não pode se acomo­dar aos eventos da Conquista. 

De acordo com esta data, o faraó tanto da opressão como do êxodo foi Ramsés II e seu sucessor foi Merneptá. A falta de consenso tem gerado outras opções que geralmente exigem a revisão da cronologia egípcia20 ou que tomem a arqueologia bíblica como uma estimativa aproximada ao invés de uma indica­ção precisa.21 Esta revisão posterior leva a data de volta a 1470 a.C. Faulstich chegou a datas incrivelmente precisas para todos os acontecimentos do êxodo através de suas correlações computadorizadas de informações sobre datas astro­nômicas, informação bíblica a respeito de acontecimentos astronômicos (surgimento de estrelas, fases da lua e eclipses), os ciclos semanais do dia hebraico, e datas específicas apresentadas na Bíblia.22 

Apesar de não ter-se chegado ainda a consenso algum, a busca contínua por evidência arqueológica dos registros do êxodo reafirma a importância do evento para os estudantes da Bíblia. 

A importância do êxodo 

A importância do êxodo tem sido enfatizada por Eugene Merrill, professor de Antigo Testamento no Dallas Seminary, que chamou-o de “o mais significa­tivo acontecimento de todo o Antigo Testamento.”23 O êxodo não é simples­mente um acontecimento isolado dentre muitos na história do povo judeu; este foi o evento central sobre o qual os planos de Deus sofrem uma reviravolta e tanto o Antigo como o Novo Testamentos estão unidos. O professor John Durham explica: 

Tanto dentro do livro de Êxodo como além dele, a libertação do êxodo é descrita como o ato pelo qual Israel foi levado a ser um povo e, portanto, como o ponto inicial da história de Israel... com o êxodo, Ele [Deus] revelou sua presença para um povo inteiro e chamou-o para ser uma nação e desempenhar um papel especial relacionando-se com ele em aliança. Este papel especial se torna um tipo de lente através da qual Israel é visto por todo o restante da Bíblia... que dá forma a muito da teologia do A.T. [Antigo Testamento]. É esse papel especial, na verdade, que inclui o livro de Êxodo tão completamente na produção canônica iniciada com Gênesis e concluída somente com o Apocalipse.24 

O êxodo amarra os dois Testamentos juntos de tal maneira que negar que ele jamais tenha acontecido desmantelaria a estrutura teológica tanto do judaís­mo como do cristianismo. Assim, é natural que busquemos o êxodo em algum lugar do registro arqueológico. Mas onde procurar, e o que podemos esperar encontrar? Vamos responder esta última pergunta primeiro. 

Deveríamos esperar encontrar o êxodo? 

Deveríamos esperar encontrar qualquer evidência arqueológica para o êxodo? Como os patriarcas antes deles, os israelitas viveram um estilo de vida nômade durante o êxodo. As exigências da vida no deserto do Sinai requeriam que nada fosse descartado, que todo item fosse usado até sua capacidade máxi­ma — e então reciclado. Até os ossos de uma refeição seriam completamente reutilizados em várias aplicações industriais. Os acampamentos temporários em tendas dos israelitas não teriam deixado quaisquer vestígios, especialmente nas sempre móveis areias do deserto. Pode haver traços de grafito em rochas do Sinai25 que sugiram a presença dos israelitas nesta região, mas em sua maior parte, por causa das condições do deserto, os israelitas teriam que ser “arqueologicamente invisíveis”. 

Mas, e quanto a possibilidade de registros egípcios que confirmem a ocorrência das pragas do êxodo e a destruição do exército egípcio no mar Vermelho? E possível que alguma evidência ainda apareça, mas não deve­mos esperar que os egípcios, orgulhosamente religiosos, tenham abertamente documentado desastres que difamassem seus deuses e imortalizassem a derrota de seu exército nas mãos de escravos andarilhos. Como Charles Aling observa: 

Os povos do antigo Oriente Próximo mantiveram registros históricos para impressionar seus deuses e também inimigos em potencial, e por isso raramente, talvez nunca, mencionaram derrotas ou catástrofes. Registros de desastres não fortaleceria a reputação dos egípcios aos olhos de seus deuses, nem tornaria seus inimigos mais temerosos de seu poder militar.26 

Isto significa que é improvável que encontremos um registro das pragas, o afogamento do exército egípcio no mar Vermelho ou as pegadas dos israelitas nas areias do deserto do Sinai. Se não podemos esperar encontrar vestígios de um êxodo nestes lugares, onde podemos procurá-los? 

A evidência para o êxodo 

Considerações históricas 

Um modo de podermos defender a ocorrência do êxodo é através do que se pode chamar “plausibilidade contextual.” Isto é, mesmo que não possamos ter evidência histórica direta para qualquer dos personagens ou eventos conectados com o êxodo, ou nem possamos concordar com datas específicas, o esboço geral conforme apresentado no relato bíblico é fiel aos tempos. Portanto, é muito mais provável que o êxodo tenha ocorrido do que o contrário. O argumento mais plausível no momento tem sido sobre a base da evidência egípcia.27 Por exemplo, podemos demonstrar que os detalhes da vida na corte egípcia e certas peculiaridades na língua hebraica usados para descrever tais atividades indicam que o escritor tinha conhecimento em primeira mão daquele ambiente especí­fico no Egito.28 Nós temos evidência de que estrangeiros de Canaã entraram no Egito,29 viveram lá,30 foram considerados algumas vezes criadores de proble­mas,31 e que o Egito oprimiu e escravizou uma vasta força estrangeira durante várias dinastias.32 Também temos registro de que escravos escaparam,33 e que o Egito sofreu sob condições semelhantes a pragas.34 Podemos fornecer um mo­delo por computador de um mecanismo científico para a divisão das águas durante a travessia israelita do mar Vermelho.35 

Podemos provar a presença de pessoas como os israelitas na península do Sinai, em Cades-Barnéia, e em outros lugares mencionados nos livros da Bíblia que registram esta história.36 Podemos demonstrar através de uma comparação com o código de leis do antigo Oriente Próximo que datam de antes da conces­são da Lei no Sinai que sua forma e estrutura se encaixam no então estabelecido padrão para tais textos.37 Finalmente, podemos fornecer informações arqueoló­gicas para sustentar várias datas para a Conquista e os períodos de colonização, que seguiram-se ao êxodo. Estas informações vêm de sítios tais como Jericó, Megido e Hazor.38 

Considerações arqueológicas 

No início do êxodo, quando os israelitas deixaram o Egito, a rota mais direta e sensata seria viajar para o norte ao longo da atual Faixa de Gaza numa direção que os levaria à Canaã. Todavia, o relato bíblico nos diz que Deus não permitiu esta rota ao longo da planície costeira do Mediterrâneo. O relato bíbli­co afirma: 

E aconteceu que, quando Faraó deixou ir o povo, Deus não os levou pelo caminho da terra dos filisteus, que estava mais perto; porque Deus disse: Para que, porventura, o povo não se arrependa, vendo a guerra, e tornem para o Egito” (Êx 13.17). 

Assim, os israelitas acabaram tomando uma rota muito mais longa ao sul, que se aprofundava no Sinai. Até a última década ninguém sabia porque Deus os mantivera longe da rota mais fácil ao norte. A obscura referência à “guerra” em Êxodo 13.17 era discutível porque ninguém sabia que povo estaria em con­flito com os israelitas. A resposta foi descoberta pela arqueóloga israelita Trude Dothan, que se especializou no período antigo da ocupação filistéia de Canaã. No sítio de Deir el-Balah ao longo da antiga rota chamada de “Caminhos de Horus,” ela descobriu a evidência que finalmente resolveu este quebra-cabeça do êxodo.39 

Quando recentemente visitei com ela o Instituto de Arqueologia da Uni­versidade Hebraica, pedi a ela para contar-me novamente sobre esta descoberta e explicar seu significado: 

Cheguei ao sítio de Deir el-Balah na Faixa de Gaza em busca dos filisteus. O que descobri foi uma colônia egípcia do período do êxodo, o período do Egito de Ramsés II, que é considerado como o Faraó do êxodo. A história do sítio é intrigante, costurando a informação dos ladrões [de tumba] e depois de nossa escavação arqueológica profissional. Os resultados foram que descobrimos na rota do Egito para Canaã uma colônia que havia sido edificada [no século XIV a.C.] como também uma fortaleza do período de Séti I [e o de seu filho] Ramsés II. Adjacente à colônia havia um cemitério cheio de grandes sarcófagos atropóides (em forma humana) que são definitivamente do estilo egípcio. Porque havia trabalhado previamente sobre os hábitos dos filisteus em Bete-Seã, um sítio muito importante de Israel e bem conhecido da Bíblia, eu sabia a respeito de sarcófagos como estes. [Então eu] tentei identificar cinco destes sarcófagos
com proteção especial para a cabeça, com retratos dos filisteus conhecidos dos relevos egípcios no período de Ramsés III. 

A importância deste sítio está em sua localização geográfica na rota do Egito para Canaã... uma rota militar dos egípcios que subia para Canaã... Quando encontramos a fortaleza [datada do] fim do século XIII, surgiu a idéia de que esta era realmente uma das muitas fortalezas pontilhando o caminho de Canaã à Gaza. [Assim] a área era muito bem fortificada, o que se constitui a razão de os israelitas não terem desejado seguir o caminho curto para Canaã, mas escolhido o caminho longo para o Sinai, porque eles estavam com medo dos egípcios e das fortificações que estavam no atalho. 

Agora sabemos à luz das escavações de Deir el-Balah que “o Caminho dos filisteus” mencionado na Bíblia é também “o Caminho de Horus”, men­cionado nos relevos do templo egípcio em Carnaque. Este relevo também descrevia algumas das fortalezas egípcias ao longo desta rota, incluindo a que Trude Dothan descobriu. Então, desta notável correlação entre a Bíblia e dois sítios arqueológicos, podemos concluir que os israelitas foram avisados para evitar esta rota, porque eles entrariam nesta linha de forças de defesa coman­dada pelos soldados egípcios. Os soldados alocados ali estavam preparados para lutar, recapturar e enviar de volta ao Egito tais escravos fugitivos. Uma vez que os recém-libertos israelitas estavam despreparados para a batalha, o deserto era a opção mais segura. 

Considerações sobre as imagens dos satélites 

De acordo com o analista de imagens de satélite George Stephen, a rota do êxodo ainda pode ser vista hoje através do uso de tecnologia infra-vermelha.40 Os satélites que empregam esta tecnologia para propósitos como levantamentos para inteligência e exploração mineral, podem também isolar trilhas nas areias do deserto mesmo que elas tenham milhares de anos. Eles fazem isso captando padrões de calor deixados na terra. Tais satélites têm capacitado os arqueólogos a recuperarem informações sobre rotas de caravanas antigas, descobrir vestígios de leitos fluviais secos ou soterrados há muito tempo, e encontrar cidades perdi­das debaixo das areias. Stephens estudou as imagens captadas pelo satélite fran­cês SPOT do Egito, do Golfo de Suez, do Golfo de Ácaba, e porções da Arábia Saudita a uma altura de 161 metros. Ele alega que pôde ver evidência de trilhas antigas feitas por “um grande número de pessoas” saindo do Delta do Nilo e seguindo direto ao sul ao longo da costa do Golfo do Suez e ao redor da extremidade da península do Sinai. Além disso, ele diz que observou vestígios de “acampamentos muito grandes” ao longo da trilha.


Claro que não é possível determinar se estas trilhas foram feitas pelos israelitas mesmo ou por outros peregrinos através dos milênios. Mas isso de­monstra que grande número de pessoas podiam se sustentar na mesma região e na mesma rota tomada pelos israelitas do êxodo. 

Pistas de restos vulcânicos 

Com tantas questões sobre os acontecimentos do êxodo ainda não respon­didas, é certo que novas propostas e projetos arqueológicos estarão vindo à tona no futuro. Um projeto recente é uma investigação inédita do sítio de Tell el- Dab’a. Este sítio ao leste da área do Delta do Nilo tem sido identificado com a terra bíblica de Gósen, onde os israelitas viveram antes do êxodo.41 Uma escava­ção em andamento tem sido conduzida por anos pelo Instituto Smithsonian sob a direção de Manfred Bietak. O novo projeto começou pesquisando o sítio em busca de evidências de depósitos de tera (restos vulcânicos) deixados por erupções de um vulcão na ilha mediterrânea de Santorini (Thera) durante a Idade do Bronze.42 De acordo com a teoria, esta explosão cataclísmica, que deixou depósitos de cinzas em pelo menos nove sítios arqueológicos do Egeu, pode também ter trazido as pragas aos egípcios, especialmente a praga das “trevas espessas” (cinza vulcânica? — Êx 10.21-23), e a divisão das águas na travessia do mar. 

Se estes eventos puderem realmente ser atribuídos à erupção do Santorini, então o êxodo poderia ser estabelecido na história egípcia e seguramente locali­zado dentro da cronologia egípcia (através de uma ligação com uma cronologia do Egeu estabelecida para o evento) se o debate travado agora sobre a data da erupção em si puder ser resolvido.43 Notícias do campo anunciam que pedras- pomes da erupção foram agora encontradas em Tell el-Dab’a num nível que pode ser seguramente datado do início da décima oitava dinastia egípcia, ou cerca de 1525 a.C. Isso oferece tanto uma resposta para a controvérsia sobre a data da erupção como talvez uma conexão com o próprio êxodo (que a crono­logia bíblica indica por volta de 1447/6 a.C.). 

Pistas das sementes de cereal 

Seguindo a mesma teoria que a evidência geológica da erupção vulcânica do Santorini pode ser usada para datar os acontecimentos do Êxodo, os arque­ólogos Hendrick J. Bruins e Johannes van der Plicht ofereceram nova evidência que eles crêem confirmar a história do êxodo.44 Comparadas as duas datas de radiocarbono dos grãos de cereal encontrados entre os detritos da destruição de Jericó com as datas deles de 1628 a.C. para a erupção do Santorini (que foi baseada na contagem de anéis na madeira das árvores). Baseado em seus acha­dos, eles concluíram que o desastre do Santorini aconteceu 45 anos antes da destruição de Jericó, um lapso de tempo que eles acreditam que se encaixaria nos eventos do Êxodo e na caminhada dos israelitas por 40 anos pelo deserto. Isso tornaria a data deles para a destruição de Jericó em 1583 a.C. e para o êxodo em cerca de 1543 a.C., antiga demais até mesmo para a data tradicional mais antiga (em 1400 a.C.). 

Bryant Wood, o diretor da Associates for Biblical Research (Associados para a Pesquisa Bíblica), defende uma data antiga e contesta o método de Bruins e van der Plicht de calibrar suas datas: 

Não apenas as minhas pesquisas em Jericó, mas as de outros eruditos demonstram que há um lapso de um século e meio ou quase entre as datas do C-14 e as datas historicamente determinadas no segundo milênio a.C. Atualmente há um debate feroz em andamento entre os eruditos a respeito da data da erupção de Thera. Esta é uma data extremamente importante, porque a erupção provê um ponto de convergência nas histórias da maioria das culturas mediterrâneas. A evidência para isso tem sido encontrada em uma série de sítios arqueológicos. Aqueles que trabalham com datas do C-14 estão convencidos de que ela ocorreu em c. 1628 a.C., enquanto aqueles que trabalham com datas arqueológicas estão convencidos de que ela ocorreu cerca de 1525 a.C. Meu trabalho em Jericó provê outro exemplo de discrepância que existe entre o C-l4 e as datas históricas no segundo milênio a.C. É evidente que um destes métodos está errado, mas qual deles? 

Defensores de cada um, é claro, alegam que o outro está errado. Datas históricas estão, em última instância, ligadas às observações astronômicas registradas na antigüidade. Presumivelmente, os astrônomos podem calcular retroativamente com muita exatidão devido ao movimento preciso do universo. Proponentes da datação do C-l4, por outro lado, dizem que seus valores corri­gidos são muito precisos porque estão baseados na contagem de anéis de árvores, ano a ano, até 6000 a.C. (dendrocronologia*). A data bíblica de 1400 a.C. é baseada na cronologia assíria para o período dos reis, conhecido muito bem pelas observações astronômicas e informações bíblicas (480 anos do quarto ano de Salomão ao Êxodo, 1 Rs 6.1, e os 40 anos no deserto). Minha datação da destruição de Jericó é baseada em poesia, a qual está ligada à cronologia da décima oitava dinastia egípcia, que por sua vez está ligada a observações astro­nômicas... E a possível conexão entre a erupção de Thera e a praga das trevas? I’ara que haja uma conexão, a data do evento teria que ser reduzida para cerca de 1450 a.C. antes que ela pudesse ser correlacionada com a história bíblica.45 

Se a evidência da erupção do Santorini em Tell el-Dab’a confirmar a data de 1525 a.C. para a erupção, então a data do C-14 tem que ser ajustada. Mes­mo assim, a pesquisa agora em andamento pode eventualmente ajudar a resol­ver questões sem respostas que ainda estão diante de nós. 

O que a evidência prova? 

Nossa pesquisa sobre a questão do êxodo tem tentado apresentar o que pode ser conhecido (no momento) do registro arqueológico e histórico. O que nossas informações atuais provam? Reconhecidamente, evidência arque­ológica direta para o êxodo ainda é procurada. No entanto, esta falta de infor­mações históricas não significa que o êxodo não aconteceu. Prova conclusiva ainda pode aparecer numa escavação futura, mas não precisamos esperar por isso para aceitar a historicidade do êxodo. Nosso argumento pode ser produ­zido pela comparação do contexto bíblico com o que já é conhecido da histó­ria e arqueologia — um argumento que oferece substância suficiente para resolver dúvidas sobre a realidade do evento e torna provável maiores confir­mações arqueológicas no futuro. Portanto, aqueles que celebram a Páscoa nesta época — e em todas as épocas que virão, podem fazê-lo com a certeza de que é promessa não baseada numa conspiração, mas na atuação comprovada de Deus que realmente redimiu!