23 de outubro de 2016

R. K. HARRISON - Levítico: Introdução

antigo testamento danilo moraes
O TÍTULO DO LIVRO 

Na Bíblia Hebraica, o livro de Levítico é o terceiro dos cinco livros da Lei, ou Torá, cuja autoria era atribuída a Moisés pela tradição hebrai­ca antiga. A palavra inicial do livro, wayyiqrã ’ “e Ele chamou,” foi usa­da como título pelos judeus, que também descreviam Levítico por desig­nações tais como “a lei dos sacerdotes,” “o livro dos sacerdotes,” e “a lei das ofertas.” Estas últimas designações caracterizavam o conteúdo geral do livro, reconhecendo-o como uma obra principalmente escrita para o sacerdócio hebraico. 

A versão grega do Antigo Testamento, a Septuaginta, chamava o livro de Leuitikon ou Leueitikon, i.é, “a respeito dos levitas.” A Vulga­ta, uma revisão da versão latina antiga, traduziu o título grego pela fra­se Liber Leviticus, da qual derivou o título na Bíblia em português. Em­bora o livro se ocupe muito mais com os deveres dos sacerdotes do que com os dos levitas, o título em português não deixa de ser apropriado, visto que o sacerdócio hebraico era essencialmente levítico no seu cará­ter (cf.Hb 7:11). 

A NATUREZA DE LEVÍTICO 

Visto que Levítico é basicamente um manual de regulamentos e procedimentos sacerdotais, é natural que apenas o elemento puramen­te histórico fosse subordinado a considerações rituais e legais. Mesmo assim, há narrativas históricas entretecidas com seções de leis e instru­ções acerca de procedimentos sacrificiais de tal maneira que fica claro que Levítico tem estreita conexão histórica com Êxodo e Números. Por razões puramente de estilo, Levítico está ligado com Êxodo 20 — 40, e a associação é demonstrada no texto hebraico mediante as palavras ini­ciais de Levítico, cuja primeiríssima consoante é um “vav consecutivo,” que indica uma conexão direta com o que imediatamente o precedeu é, Êxodo 40:38. 

Levítico desenvolve questões que dizem respeito ao ordenar do culto no santuário divino que apenas são mencionadas de modo breve em Êxodo. Ao passo que este último descreveu as especificações e a construção do tabernáculo, Levítico narra a maneira segundo a qual os sacerdotes devem cuidar do santuário e sala do trono do Grande Rei. A obra é um tratado jurídico fundamentalmente importante porque contém os regulamentos mediante os quais a vida religiosa e civil da nação hebraica devia ser governada uma vez que a terra de Canaã fosse ocupada. 

No Monte Sinai, onde a legislação contida em Levítico foi revela­da por Deus a Moisés, as tribos de Israel tinham entrado num relaciona­mento especial com Deus que, pela sua própria estrutura, tinha todas as marcas de um tratado de vassalagem do segundo milênio a.C. Seme­lhantes acordos eram feitos entre um grande rei e uma nação menor com a qual o rei desejava entrar num relacionamento político. Tratados in­ternacionais deste tipo eram redigidos conforme um padrão tradicional, e quando as estipulações eram aceitas pelo vassalo, uma ratificação pelas duas partes era realizada na presença dos seus deuses nacionais, que agiam como “testemunhas.” A aliança do Sinai com suas estipulações associa­das é registrada em Êxodo 20:1 - 23:33, e foi aumentada grandemen­te quanto ao conteúdo pelo acréscimo de matéria jurídica e outra maté­ria correlata para formar o livro de Deuteronômio, que, em efeito, é um documento de renovação da aliança. Levítico difere tanto de Êxodo e Deuteronômio, no entanto, por conter regulamentos técnicos que os sa­cerdotes deviam aplicar à realização do culto e à orientação da vida comu­nitária em Israel. 

Levítico é um manual de referência, bem organizado, para o sacer­dócio do Antigo Testamento, e consiste em duas divisões ou temas prin­cipais que têm como eixo o capítulo dezesseis, que trata dos regulamen­tos que regem o dia anual da expiação. Os quinze primeiros capítulos tratam de modo geral com princípios e procedimentos sacrificiais que dizem respeito à remoção do pecado e a restauração das pessoas à co­munhão com Deus. Os onze últimos capítulos enfatizam a ética, a moral e a santidade. O tema unificador do livro é a ênfase insistente sobre a santidade de Deus, juntada com a exigência de que os israelitas exem­plifiquem este atributo espiritual nas suas próprias vidas. O material é sacerdotal no seu conteúdo, e, portanto, trata das obrigações dos israeli­tas segundo a aliança, num nível que não é achado noutras partes do Pen- tateuco. Os regulamentos e procedimentos ligados com a observância do 

dia da expiação são uma ilustração desta tendência. 

À primeira vista, o livro de Levítico talvez pareça apresentar uma disposição aleatória e até mesmo repeticiosa de estatutos que envolviam a vida futura do povo israelita em Canaã. Um exame mais apurado re­velará, no entanto, que bem à parte da divisão da obra em dois temas básicos, muitos dos capítulos têm sua própria estrutura literária. Exem­plos disto podem ser vistos na matéria que segue o padrão de uma tábua mesopotâmica, com seu título, conteúdo textual e colofão, como em Levítico 1:3 — 7:37-38. Outros capítulos exibem uma forma distinti­va de construção, que sem dúvida se revelaria extremamente valiosa pa­ra os propósitos de memorizar o conteúdo. Exemplos disto podem ser achados no padrão triádico dos regulamentos para a lepra, introduzidos pela frase “Disse o SENHOR a Moisés” (Lv 13:1; 14:1, 33), ou a dispo­sição concêntrica de proposições (palíndromo) em Levítico 24:16-22. Uma forma literária especialmente atraente é a passagem introvertida (quiástica) que ocorre em Levítico 15:2-30, que sugere uma considerá­vel capacidade artística da parte do escritor. 

AUTORIA E DATA 

A composição de Levítico, juntamente com outros livros do Pen- tateuco, era atribuída de modo uniforme pela tradição judaica a Moisés, o legislador de Israel. Por causa da maneira segundo a qual Cristo Se associava com o cumprimento da lei (cf. Mt 5:17), a igreja cristã primiti­va também sustentava a autoria mosaica da Torá ou Lei, e esta ficou sendo a posição estabelecida do cristianismo. Durante o período medieval, hou­ve alguns escritores que atacarám os pontos de vista ortodoxos no que diz respeito à autoria e data da matéria do Pentateuco. Dessa forma, na Espanha no século X um certo Ibn Hazam de Córdoba, que na reali­dade era um aderente da fé islâmica, considerava que boa parte do Pen­tateuco, inclusive Levítico, foi composta por Esdras. Até mesmo o cé­lebre exegeta espanhol do século XI, IbnEzra, sustentava que havia várias inserções posteriores no Pentateuco, embora ao mesmo tempo pudesse considerá-las compatíveis com a autoria mosaica. 

Um indício daquilo que haveria de vir ocorreu no século XV, quan­do Andréa Bodenstein, um oponente de Martinho Lutero, sustentava que Moisés não poderia de modo algum ter compqsto sua própria pas­sagem obituária em Deuteronômio 34, e argumentou, a partir daquela proposição, pela rejeição de Moisés como autor do Pentateuco inteiro, visto que, para ele, o corpo inteiro de leis foi escrito no mesmo estilo ge­ral que a notícia da morte de Moisés. No século seguinte, o filósofo deís- ta Thomas Hobbes sustentava que Moisés viveu alguns séculos antes do aparecimento da Torá na sua forma escrita, embora aceitasse a nature­za genuína daquelas passagens atribuídas a Moisés no texto. Os concei­tos de Ibn Ezra foram seguidos no século XVII por outro filósofo, Bene­dito Spinoza, que rejeitava a autoria mosaica do Pentateuco, consideran­do, pelo contrário, que era o resultado de um longo processo de compi­lação e redação por várias gerações de escribas. 

Embora escritores anteriores tivessem mencionado a possibilidade de fontes pré-mosaicas subjazerem certas porções do Pentateuco, estes pontos de vista somente começaram a ser desenvolvidos no século XVIII, quando o crescimento da crítica literária apresentou um desafio sério aos conceitos mais tradicionais. Sem empregarem quaisquer critérios objetivos como orientação, vários escritores começaram a especular acer­ca da natureza e do conteúdo dos documentos supostos que alegadamen- te subjaziam o Pentateuco na sua forma definitiva. Este processo foi co­meçado por um médico francês, Jean Astruc, que empregava Elohim e YHWH (Javé), dois dos nomes pelos quais Deus era conhecido no Pen­tateuco, como base da sua análise da matéria nas suas supostas fontes. 

Embora Astruc tivesse consciência dos aspectos inadequados des­ta abordagem, mesmo assim, ganhou favor com outros estudiosos euro­peus de tendências liberais, que a empregaram nos seus estudos, total­mente sem criticá-la. Um dos resultados infelizes desta situação é que o Pentateuco ficou sendo sujeitado, cada vez mais, à dissecação em frag­mentos, à medida em que gerações sucessivas de estudiosos dividiam e subdividiam o texto, e atribuíam as seções resultantes ocasionalmente a uma vasta variedade de datas e compiladores. Já em 1805, quando J.S. Vater publicou um comentário sobre o Pentateuco que identificou um número da magnitude de quarenta fontes subjacentes separadas, mui­tos escritores crítico-literários já tinham começado a atribuir a forma final dos livros de Moisés ao período exílico, e a uma autoria diferente da de Moisés, que para muitos era, na melhor das hipóteses uma figura lendária. 

No século XIX, Graf e Wellhausen adotaram os documentos suge­ridos que se baseavam nos dois nomes de Deus, que tinham sido empre­gados como critérios para o reconhecimento das fontes, juntamente com matéria sacerdotal da qual Levítico formava uma parte relevante, com o acréscimo de Deuteronômio, como sendo as supostas origens “documen­tárias” do Pentateuco. À fonte “javista” foi atribuída uma data no século IX a.C., ao passo que o alegado documento em que ocorria o nome Elohim foi atribuído ao século VIII a.C. Pensava-se que Deuteronômio fora escrito nos tempos do rei Josias, que reinou de c. de 640 até 609 a. C., ao passo que Levítico e outras matérias sacerdotais eram datados no século V. a.C. Wellhausen sustinha que Levítico 17 — 26 foi acres­centado aos demais escritos sacerdotais um pouco depois do tempo de Ezequiel, ao passo que as demais passagens sacerdotais no “documento*’ eloísta foram acrescentadas por Esdras.1 

Não somente a fragmentação do Pentateuco em alegados “docu­mentos” subjacentes destruiu a unidade básica da matéria narrativa, co­mo também foi longe na direção de negar a historicidade do autor atri­butivo. Os aderentes no século XX da teoria crítica-literária das origens pentateucais freqüentemente consideravam que os começos de Israel estavam, na melhor das hipóteses, envoltos em mitos e lendas, ao passo que pessoas tais como Abraão e Moisés eram consideradas completamen­te não-históricas pelos críticos mais radicais. 

Por mais positiva e benéfica para o estudo do Antigo Testamento que esta abordagem tenha parecido aos seus seguidores, era, na realida­de, marcada por falhas sérias desde seu próprio início. Aqueles que de­ram início ao processo o fizeram com base em um conceito especulativo que passou, então, a ser desenvolvido conforme as melhores tradições do romantismo helénico. O fato de que nenhuma tentativa foi feita pa­ra testar as idéias em epígrafe, a qualquer altura, contra aquilo que se conhecia naquele tempo acerca das técnicas de composição que subja­ziam a literatura antiga do Oriente Próximo não perturbou os propo­nentes da teoria. Pelo contrário, puseram-se a procurar qualquer coisa que pudesse servir de evidência para sua posição, e no decurso disto, negaram ou manipularam aquelas partes do texto hebraico que pare­ciam adversas a posição que estavam propondo. 

Por infeliz que èsta atitude tenha sido, revelou-se meramente sin­tomática da enfermidade maior. Em essência, o problema era de méto­do, e a situação era tanto mais irônica porque os críticos literários do século XIX jactavam-se, de tempos em tempos, da natureza fundamen­talmente “científica” dos seus trabalhos. Na realidade, a ideologia roman- tista que formava o sustentáculo das suas especulações era a própria an­títese do método científico, seja conforme era conhecido no século XIX, seja no tempo presente. [1]

Ao invés de utilizarem a abordagem a priori aos problemas do Antigo Testamento, mediante a qual conseqüências deduzidas eram ti­radas de princípios ou proposições pressupostos, os investigadores crí­ticos-literários deveriam ter começado com os dados objetivos existen­tes e feito um esforço para ver se transmitiam significado realístico ao serem interpretados nos seus próprios termos. Se os dados não faziam sentido àquela altura, a busca deveria ter sido abandonada quando mais testes confirmavam a resposta inicial. 

Se, porém, os dados fossem passíveis da interpretação racional, de­veriam, então, ter sido comparados com outras evidências relevantes, preferivelmente de natureza objetiva, tal como matéria arqueológica e, com base nas conclusões, alguma hipótese tentativa poderia ter sido proposta e considerada sujeita à modificação ou à rejeição à luz da evi­dência objetiva subseqüente. Depois de ainda mais testes rigorosos den­tro do âmbito doutros dados relevantes, que muito bem poderiam ter resultado na modificação severa ou no abandono de parte do empreen­dimento, ou da totalidade dele, qualquer progresso adicional poderia possivelmente ter avançado na direção de uma hipótese de trabalho. 

Este método a posteriori de examinar e explicar dados já estava em uso generalizado no século XIX, e tinha sucesso como uma ferra­menta de investigação, porque argumentava dos dados para um meio pos­sível de explicar sua incidência. Numa série de descobertas brilhantes, o químico russo Dmitri Ivanovich Mendeleev (1834-1907) empregou es­ta abordagem para classificar os elementos em “famílias” caracterizadas por propriedades semelhantes. Já em 1871, cerca de seis anos antes de Wellhausen publicar sua obra sobre a composição do Hexateuco,[2] Men­deleev tinha disposto os elementos conhecidos em forma tabular de acor­do com seus pesos atômicos e os organizara numa ordem preliminar de “família.” Com base neste conhecimento, conseguiu predizer a existên­cia de elementos ainda não descobertos nos dias dele, e localizá-los com perfeita exatidão na sua tabela periódica de elementos.[3] Se os críticos literários contemporâneos tivessem sido verdadeiramente científicos no seu método, teriam feito um esforço no sentido de descobrir precisa­mente como os documentos do Oriente Próximo antigo eram compila­dos e transmitidos, ao invés de asseverar que um nome específico de Deus era um critério para a análise literária, independentemente de ou­tros critérios, reunindo todos os versículos que utilizavam aquele nome num “documento,” quer o resultado final fizesse sentido, quer não. Ao passo que a tabela periódica dos elementos, de Mendeleev, é uma parte fundamental e não-questionada do estudo moderno da química, a teoria de Graf-Wellhausen das origens pentateucais está passando por desafios fundamentais e penetrantes quanto à sua credibilidade e fidedignidade. 

Com uma confiança que era inteiramente injustificada até mesmo à luz daquilo que então era sabido acerca da cultura antiga do Oriente Próximo, Wellhausen proclamou que instituições históricas tais como o tabernáculo vinham de um período avançado da história hebraica. Sob a influência da filosofia evolucionária hegeliana, Wellhausen reescreveu a história religiosa dos israelitas de tal maneira que substituiu o monoteís­mo das narrativas de Gênesis por uma forma animista de religião, que somente depois de um período prolongado de tempo emergiu como mo­noteísmo ético. A fim de levar a efeito esta inversão da tradição véterotestamentária, era necessário para Wellhausen dar-se o trabalho de fazer uma redisposição em grande escala das sequencias cronológicas conforme são apresentadas pelo Antigo Testamento. Por meio de con­siderar as origens literárias que descreviam a vida e a religião patriarcais como sendo completamente destituídas de historicidade, e por meio de atribuir a origem da fé monoteísta à obra dos profetas ao invés de atri­buí-la à revelação divina no período patriarcal, conseguiu apresentar uma reconstrução dos eventos em que obras tais como Levítico apareciam no fim, e não no começo da história nacional de Israel. 

O fato de que este tipo de estudo superimpôs uma estrutura ideo­lógica altamente subjetiva sobre a narrativa hebraica antiga, que sufoca­va, de modo geral, a evidência histórica que tinha de apresentar, parecia não ser uma preocupação para Wellhausen e seus seguidores, que come­çaram a aplicar a abordagem crítica-literária ao resto do Antigo Testa­mento, com grande entusiasmo. Ao assim fazer, revelaram a fraqueza mais séria de todas, ao considerar como “científico” aquilo que era, na realidade, um procedimento inteiramente subjetivo e arbitrário, seguido sem apelo algum a controles objetivos. 

Quando as descobertas arqueológicas começaram a demonstrar a existência da adoração “monoteísta” entre os mesopotâmios pagãos do quarto milênio a.C., e a aduzir evidência pela antiguidade de santuários portáteis tais como o tabernáculo, tomou-se evidente que a reconstru­ção feita por Wellhausen da história hebraica estava, na realidade, criva­da com graves deficiências. Embora os estudiosos liberais se achassem comprometidos com a teoria dele das origens pentateucais, debatiam-se cada vez mais sob o defeito aleijante de “documentos” datados de modo arbitrário, cuja existência nunca foi demonstrada de qualquer maneira que fosse. 

Para evitar a dificuldade, certos estudiosos escandinávios começa­ram a desconsiderar os “documentos escritos” como tais, e esposaram, ao invés disto, a idéia de uma tradição oral fidedigna, transmitida no decurso de muitos séculos e finalmente fixa numa forma escrita. Infeliz­mente para este ponto de vista, surgiram dois problemas sérios. O pri­meiro foi que os escandinávios pressupuseram que a tradição oral do Oriente Próximo servia na ausência de uma forma escrita anterior daque­la tradição, conforme era o caso na Europa. Como os welhausenianos antes deles, não levaram em conta a evidência fornecida pelas descober­tas arqueológicas, e isto teve o efeito infeliz de modificar muito seriamente a relevância da sua abordagem. Neste assunto, agora sabe-se que na antiguidade versões escritas e orais de todas as ocorrências importan­tes eram promulgadas ao mesmo tempo. A forma escrita normalmeiite consistia em um registro oficial, seja ele uma inscrição, um monumen­to, ou uma parte dos anais da corte para o ano específico em que o even­to ocorreu. A versão oral era para a disseminação local, e, a partir de então, podia ser incluída na tradição popular ou familiar. Esta era muito diferente da situação européia, onde as formas escritas e orais não exis­tiam lado a lado. 

A segunda dificuldade principal para esta abordagem foi que, no fim, as unidades da tradição oral chegaram perigosamente perto de ad­quirir a qualidade fixa dos “documentos” que tinham sido propostos por Wellhausen e seus precursores, situação esta que dificilmente pode­ria ser considerada um passo para a frente do pensamento crítico. A abordagem ao estudo do Antigo Testamento conhecida como crítica da forma esforça-se para isolar unidades específicas de matéria em ter­mos da sua forma, ao invés de concentrar-se nos documentos como tais. Uma vez que a forma tenha sido isolada, o crítico passa então a pergun­tar acerca de coisas tais como seu uso, o contexto cultural em que se encaixava, e o propósito da matéria.[4] Levitico claramente está compos­to de passagens rituais e legislativas que serviam um propósito cultual e regulatório fundamental na vida dos israelitas antigos. Os quinze pri­meiros capítulos exibem uma estrutura distintiva, e parecem ter sido compilados de tal maneira que capacitariam os sacerdotes a decorá-los bem prontamente. De modo semelhante, a matéria que diz respeito à cerimônia da Páscoa é uma unidade sem igual e facilmente identificável de caráter litúrgico, obviamente visando o uso cultual. Os estatutos e a matéria social correlata dos capítulos finais podem ser reconhecidos sem dificuldade pela sua forma, e avaliados em termos das suas implicações para a ocupação sedentária de Canaã. 

A análise tradicio-histórica procura investigar a natureza do grupo que transmitiu a tradição específica sendo estudada, a localidade com que era associada, a situação vivencial da qual a tradição emergiu, e o mo­do em que temas específicos vieram a ser formulados.[5] Esta abordagem depende extensivamente da suposta precedência da tradição oral sobre a escrita, embora seja sabido agora que as duas formas coexistiam para todas as matérias importantes do Oriente Próximo antigo.[6] [7] A análise da tradição consideraria que Levítico emergiu de círculos sacerdotais que transmitiram em forma oral as tradições que diziam respeito aos sacrifí­cios, ao cuidado do santuário, e ao procedimento geral dos sacerdotes. Embora a antigüidade dos círculos sacerdotais vétero-testamentários e das suas tradições tenha sido demonstrada de fontes arqueológicas e outras,1 a análise tradicio-histórica ainda considera a forma literária da matéria como sendo de data avançada e não recuada, de acordo com a posição geral de Wellhausen. Uma das desvantagens deste tipo de abor­dagem é que a criatividade individual é depreciada, senão completamen­te negada, a despeito do fato de que certo número de composições véte­ro-testamentários exibam indicações distintivas da individualidade da autoria. Outra desvantagem é que os resultados de semelhante investi­gação podem ser preditos com exatidão razoável quando se sabe que o processo é baseado em pressuposições subjetivas tais como a natureza não-histórica de boa parte de matéria bíblica primitiva, ou a pressuposi­ção de que a forma final de muitos escritos do Antigo Testamento era, de modo geral, comparativamente recente e não antiga. Visto que os dois métodos discutidos supra são pesadamente influenciados pelo pen­samento humanista europeu do século XIX, terão valor limitado para a erudição bíblica na sua totalidade até que sejam integrados num méto­do científico de estudo apropriadamente reconhecido. 

Embora os estudiosos liberais modernos ainda empreguem a de­signação antiga wellhausiana dos supostos “documentos,” muitos deles chegaram a considerar estes últimos como sendo a forma fixa de tradi­ções que tinham estado correntes durante muitos séculos. Além disto, as diferenças de estilo e de conteúdo que antigamente eram tão geral­mente apresentadas como critérios para o reconhecimento das “fontes” documentárias têm sido consideravelmente reduzidas por causa do reco­nhecimento que os supostos “documentos” eloístas e javistas represen­tam a mesma tradição fundamental mosaica. 

Até mesmo o “documento” sacerdotal, considerado por Welhausen como sendo a mais recente das fontes pentateucais, e, portanto, menos fidedigno que seus antecessores, agora é reconhecido como registro cuida­dosamente conservado de eventos e procedimentos. Este é especialmente o caso de Levítico, que contém certo número de aspectos muito antigos. Descobertas modernas têm demonstrado que a matéria sacerdotal do Oriente Próximo é quase sempre de data recuada e não avançada, e que as tradições sacerdotais usualmente são conservadas de modo meticulo­so. Atribuir, portanto, um documento sacerdotal tal como Levítico a uma data avançada é ir totalmente contra as tradições literárias do Ori­ente Próximo antigo. Além disto, não fica claro ao presente escritor co­mo matéria que é obviamente antiga na sua natureza, e que foi sujeita­da a processos de transmissão sacerdotal possa ser considerada compara­tivamente recente na sua forma final, especialmente se a transmissão oral realmente a conservou acuradamente. Esta anomalia merece certa aten­ção da parte daqueles que sustentam a tradição welhausiana numa for­ma ou noutra. 

Tendo em vista estas considerações, a conclusão mais lógica acerca da autoria e da data seria reconhecer a antigüidade e a autenticidade de Levítico, e considerá-lo uma produção literária genuína do segundo mi­lênio a.C., compilada por Moisés, com a provável assistência de escribas sacerdotais. Deve ser notado, naturalmente, que ninguém é menciona­do pelo nome, de modo direto, como sendo o autor de seções especí­ficas, diferentemente do livro de Êxodo (cf. Êx 17:14; 24:4; 34:27). Ao mesmo tempo, Levítico inclui matéria que formava parte da revela­ção de Sinai (cf. Lv 7:37-38; 26:46; 27:34), que Moisés indubitavel­mente registraria subseqüentemente. Está dentro do âmbito da possibi­lidade que um editor ou escriba de uma geração posterior pudesse ter disposto a matéria mosaica de Levítico na sua presente ordem. Ainda mais provável, no entanto, é que a legislação fosse organizada na sua forma atualmente existente nos tempos de Moisés, visto que a matéria era necessária naquela ocasião como manual para procedimentos sacerdotais. Instituições distintivas tais como o dia da expiação e as estações sagra­das, que tinham de ser observadas, desenvolveram-se diretamente das experiências históricas de Israel, e devem obviamente ter recebido legis­lação no tempo da sua ocorrência, e não muitos séculos mais tarde. 

Que estes estatutos existiriam na forma escrita numa etapa pri­mitiva e não posterior no desenvolvimento da vida nacional de Israel está totalmente consistente com aquilo que agora se conhece das tradi­ções sacerdotais do Oriente Próximo antigo. Parece haver pouca evi­dência de atualização escribal da terminologia antiga em Levítico, e isto, mais uma vez, é típico do conservadorismo sacerdotal, especial­mente conforme é exibido entre os sumerianos. Uma vista panorâmica de Levítico como um todo dentro da situação histórica cultural da Ida­de de Bronze Posterior demonstra que a maioria das seções do livro tem paralelos nos escritos contemporâneos ou anteriores do Oriente Próximo. Este fato pode ser ilustrado ao referir-se às ofertas de cereais e pacíficas, que eram algo semelhantes àquelas que se achavam em Ras Shamra (Uga- rite), ao passo que as ofertas votivas eram bem conhecidas no Oriente Próximo. No ponto de vista do presente autor não há nenhum único elemento em Levítico que não poderia ter sido conhecido a Moisés, ou que requer uma data posterior ao fim do período de Amama (séculos XV e XIV a.C.). 

Conforme 2 Reis 17:24-28, a adoração organizada entre os mesopotâmios que tinham sido trazidos a Samaria como colonos começou nos tempos de Esar-Hadom (681—669 a.C.). Estas pessoas fizeram casa­mentos mistos com as mulheres israelitas que permaneceram na área (cf. Jr 41:5) e a mescla resultante formou a base do povo que veio a ser conhecido como os samaritanos. Visto que este grupo, por tradição uniforme, empregava o Pentateuco exclusivamente como fonte da sua doutrina e adoração, os livros da lei pelos quais foram instruídos devem ter tido algo perto da sua forma final em fins do século VIII ou no co­meço do século VII a.C. A recensão sectária samaritana parece ter sido feita cerca de 110 a.C. segundo Purvis,[8] mas seu ancestral textual, que também é considerado como aquele de onde surgiu a LXX, remonta a um tempo consideravelmente mais cedo, talvez ao século VI a.C. F. M. Cross deu a designação de “Recensão Palestiniana Antiga”[9] à seção do pentateuco, e, a partir de evidências internas, nomes e lugares, chegou à conclusão que esta recensão foi levada ao Egito no século V a.C. onde, após alguma revisão, finalmente ficou sendo o texto do qual foi feita a LXX. Cross fez a conjectura adicional que o tipo de texto “palestiniano antigo” emergiu de matéria que tinha estado na posse dos exilados na Babilônia. Tendo em vista o conteúdo altamente restrito do cânon samaritano e a ênfase dada pela seita a tais ritos centrais como a páscoa, é difícil acreditar que sabiam pouca coisa, ou nada, no período de Esar- Hadom, acerca da existência ou o conteúdo de um livro com orientação cultual tal como Levítico, contrariamente às pressuposições da teoria de Graf-Wellhausen. 

Não é necessário dizer que os samaritanos têm sua própria teoria das origens literárias, alegando que seu manuscrito bíblico mais antigo remontava ao tempo de Abisua, o bisneto de Arão (1 Cr 6:3-4). Embora se trate obviamente de um exagero, assim como são exageros outras alegações samaritanas, sua tradição claramente apoia a existência de Leví­tico numa forma escrita num tempo muito anterior àquele que é conce­dido pela erudição liberal.[10]

A UNIDADE DE LEVITICO 

Embora o livro seja bem claramente um documento sacerdotal uni­forme, estudiosos de várias persuasões alegaram que viram certas fontes documentárias subjacentes em Levítico. A mais destacada entre elas era o assim-chamado “código da santidade” (capítulo 17-26), nome este que recebeu de Klostermann em 1877. Esta seção trata do significado do sangue sacrificial: várias leis e os castigos aplicados no caso da sua infra­ção; regras para a santidade sacerdotal; e as estações sagradas para o ca­lendário religioso hebraico. O começo, (Lv 17:1-2) e o fim (Lv 26:46) têm sido tomados como indicações claras de que a matéria formava uma fonte documentária separada, mas, conforme foi notado na seção do co­mentário, o conteúdo deste “código” tem sido preservado no estilo de uma antiga tábua mesopotâmica. Visto que há outras partes de Levítico que foram escritas da mesma maneira (cf. Lv 1:3 — 7:37-38; 27:1-34), o ponto de vista de Graf-Wellhausen de que este “código” foi provavel­mente uma obra independente composta cerca do tempo de Ezequiel e acrescentada a Levítico pouco depois, parece inteiramente artificial e inventado. 

Que o tipo de situação proposta por Wellhausen simplesmente não ocorria é sugerido ainda mais pelo conteúdo do “código”, em que há uma falta quase total de interesse no papel desempenhado pelos sacer­dotes durante os sacrifícios. Isto seria muito estranho se a matéria tives­se tido sua origem em círculos especificamente sacerdotais, independen­temente do restante do livro. Quando, porém, é integrado com os de­mais capítulos, harmoniza-se perfeitamente bem com as estipulações rituais e cultuais que afetam os sacerdotes, conforme a descrição em Le­vítico 1:1 — 9:24. Os capítulos 11 a 15, que tratam da diferenciação entre o puro e o impuro, poderiam também ser considerados uma seção separada de matéria, mas este trecho, também, está integrado firme­mente no livro por meio das referências em Levítico 5:2 e 7:21, que os capítulos expõem em considerável detalhe. Além disto, os estatutos dos capítulos 18 a 20 estão ligados com as leis dos capítulos 11 a 15 median­te a referência em Levítico 20:25, que ajuda a indicar a coerência inter­na do livro. É também possível entender que Levítico 26:46 se aplica à totalidade da obra, e não somente ao próprio “código”, posição esta adotada por alguns estudiosos. Embora o livro talvez tenha sido ajuntado em termos de duas seções principais, estas seções, bem como ou­tros capítulos acompanhantes foram tão bem integradas que apresen­tam ao leitor um produto acabado que exibe uma unidade literária e teo­lógica bem clara.11 

O PROPÓSITO DO LIVRO 

A razão porque os sacerdotes israelitas recém-consagrados rece­beram instruções tão detalhadas acerca do cuidado do santuário de Deus [11] era para garantir Sua continuada presença com Seu povo. No relaciona­mento segundo a aliança Deus aproximou-Se de Israel e fez promessas específicas aos israelitas, dependendo da sua obediência às condições do acordo de Sinai. Uma destas condições foi a exigência de que os israe­litas vivessem de um modo tal que demonstraria às nações do Oriente Próximo contemporâneo a verdadeira natureza da santidade. Este atribu­to era de um caráter moral e ético adiantado, e era fundamentalmente diferente das conotações sexuais e orgiásticas que o termo possuía entre as nações vizinhas de Israel. Somente à medida em que o povo escolhido mantivesse a santidade cerimonial e moral é que poderia esperar que Deus o honrasse com a Sua presença e tornasse eficazes as bênçãos pro­metidas na aliança. 

O santuário de Deus, o tabernáculo, tinha sido construído de acor­do com instruções exatas, e era o símbolo da Sua presença entre os israe­litas. Cuidados escrupulosos deviam ser tomados, no entanto, para ob­servar os regulamentos que salvaguardavam a santidade do tabernáculo que Deus glorificara, a fim de que Sua presença não fosse removida abrup­tamente por causa da profanação daquele lugar sagrado. Os regulamentos da tarifa sacrificial levítica pressupõem que o homem é um pecador, e oferecem providências à altura, para o perdão de vários tipos de pecados involuntários ou acidentais. Mediante o tipo apropriado de oferta, o transgressor pode receber perdão de Deus, mediado pelo sacerdócio que Ele nomeou com esta finalidade. 

Não somente os sacerdotes devem observar os regulamentos cultu­ais para a santidade cerimonial, como também se exige deles que vivam vidas de pureza moral e de dedicação espiritual, de modo que sejam exem­plos da santidade divina para Israel. O propósito disto é estabelecer o povo escolhido como nação santa, e assim tomá-lo distintivo entre seus contem­porâneos como representantes do Deus único, vivo e verdadeiro. A san­tidade da vida, portanto, deve cacacterizar tanto os sacerdotes quanto o povo, e a fim de que a vida sedentária futura da nação fosse firmemente estabelecida em semelhante base, uma série de regulamentos sociais, mo­rais e econômicos foi promulgada. À medida em que estes preceitos da aliança, e outros, fossem obedecidos, a nação seria abençoada e protegi­da. Por contraste, a desobediência aos regulamentos, ou qualquer grau de rejeição das responsabilidades da aliança, resultaria em castigo severo para os israelitas, visto que uma advertência já lhes tinha sido feita na formulação da aliança. A função do sacerdote israelita não era mera­mente oficiar no santuário como também instruir o povo na lei de Deus. Sendo um compêndio de estatutos tanto rituais como morais, o livro de Levítico serviria como manual ideal para semelhante propósito. 

Muitas tentativas têm sido feitas por estudiosos e expositores no decurso dos séculos no sentido de interpretar o catálogo de criaturas abomináveis no livro de Levítico, mas com resultados incertos. Uma investigação intrigante da razão que subjaz a diferenciação entre as es­pécies limpas e imundas foi empreendida pela Dra. Mary Douglas.[12] Como antropóloga social, ela tem discutido o papel desempenhado pela poluição nas áreas de existência tais quais os rituais mágicos dos povos primitivos, os relacionamentos entre os sexos, e os regulamentos dieté­ticos. Seu argumento básico é que os rituais de pureza e de impureza produzem unidade na experiência, um conceito holístico muito seme­lhante à tradição do Oriente Próximo antigo de formar pares de opostos para descrever a totalidade. 

Destarte, para ela, a impureza associada com a evitação ou a elimi­nação das fezes é o lado negativo de um esforço mais positivo para levar nosso meio ambiente mais perto dalguma situação ideal. O esforço no sentido de evitar a contaminação de vários tipos pareceria, portanto, ser um esforço criativo de unificar nossa experiência em termos do meio ambiente, e não deve ser interpretado como sendo supersticioso ou irra­cional. As leis acerca da impureza que se acham em Levítico têm um sig­nificado simbólico óbvio à medida em que procuram introduzir um ideal da unidade na vida individual ao mostrar aos israelitas antigos como Deus requeria que vivessem como membros de uma nação santa. 

A Dra. Douglas argumenta que visto que a santidade requer que os indivíduos se conformem à classe à qual pertencem,[13] os animais que não exibem as formas especificadas de locomoção, a saber: voar, andar, nadar, e correr, são impuros. Destarte, o tipo-padrão de inseto seria, segundo parece, aquele com apenas duas pernas para a locomoção, de tal maneira que quaisquer espécies tais como lagartos, baratas e outras semelhantes, seriam impuras. Este argumento enfrenta dificuldades em tentar explicar como as ovelhas, os bois e os cabritos, que têm cascos para andar, refletem o ideal da limpeza, ao passo que os porcos, que também têm cascos, não a refletem. Dificilmente seria suficiente dizer, conforme diz a autora, que visto que as ovelhas, os bois e os cabritos eram a alimentação normal de povo pastoris, seriam, portanto, considerados limpos. O fato é que no Oriente Próximo antigo a carne do porco também era consumida em escala maior do que muitas pessoas têm sido le­vadas a imaginar até agora. 

Além disto, segundo o argumento dela, a legislação de Levítico vi­sava transmitir ao homem o conceito divino do ideal, e não endossar cer­tos padrões correntes do comportamento social, o que parece ser suben­tendido na compreensão dela da situação histórica social neste exemplo. Ainda se aduzimos o fator diferenciador das unhas fendidas e da rumi­nação, a base lógica da diferenciação ainda é pressuposta e não explicada. 

Antes de as propostas estimulantes da Dra. Douglas poderem con­quistar a aceitação geral, será necessário fazer mais pesquisas sobre as ati­tudes humanas diante da eliminação como uma função corpórea. Homo sapiens é um animal, que inspeciona as fezes, como são algumas das or­dens inferiores da criação, e, se esta atitude é tão instintiva quanto pare­ce ser, é difícil ver como pode ser considerado como algo diferente de um modo normal de comportamento. Logo, descrever a evacuação co­mo um “movimento negativo” é atribuir um julgamento de valor a algu­ma coisa que é meramente uma função biológica essencial ao bem-estar individual. Certamente, as atitudes dos povos primitivos para com esta atividade específica precisam ser investigadas de novo, visto que é bem possível descobrir-se que exibem diversidade surpreendente. As conclu­sões poderiam então ser comparadas de modo proveitoso com as instru­ções dadas por Deus a membros de uma “alta cultura” no que diz respeito ao destino higiênico a ser dado às fezes (Dt 23:13). ‘ 

Nenhuma pesquisa neste campo seria adequada sem um inquérito cuidadoso quanto às possíveis diferenças entre as atitudes masculinas e femininas para com a evitação ou eliminação de sujeira. Sejam quais forem as pesquisas a serem empreendidas no que diz respeito às praxes higiênicas de povos primitivos, devem estar dispostas a interpretar estes procedimentos no seu próprio direito, senão, a questão será confundida por extrapolação transcultural. Um estudo da eliminação feminina de­ve também incluir o feto bem como as fezes, visto que as reações psico­lógicas que acompanham o parto têm sido estudadas apenas de modo muito superficial até à presente data, e o resultado é que a psicodinâmica é entendida de modo muito inferior. Nesta questão, também, as ati­tudes bem podem variar de uma cultura para outra, e aquilo que pode ser embaraçoso, desagradável e impuro para uma delas, pode ser consi­derado por outras como uma atividade normal, e talvez até mesmo pra­zenteira. 

A TEOLOGIA DE LEVfTICO 

A fim de entender os ensinamentos espirituais do livro, Levítico deve ser visto, em conjunção com Êxodo e Números, como literatura intimamente relacionada com a aliança do Sinai. Um Deus santo, puro e justo revelou-Se de novo aos israelitas, e lhes apresentou uma formu­lação da aliança, cujas condições foram aceitas. Em resumo, estas con­tinham a garantia de que Deus providenciaria todas as necessidades ma­teriais e espirituais do povo, inclusive a dádiva de um território estraté­gico como o lar nacional, se eles, por sua parte, O reconhecessem como o único Deus verdadeiro, e se comprometessem a não adorar qualquer outra divindade. Conforme era o costume com certos tratados antigos entre um grande rei e uma nação vassala, as responsabilidades e obriga­ções do povo ao qual o contrato era apresentado foram citadas com uma quantidade considerável de detalhes, e alguns dos estatutos da aliança do Sinai estão conservados em Levítico. 

Entre outras coisas, estas disposições fornecem muitas informa­ções acerca do caráter de Deus, e da Sua vontade para aqueles que estão num relacionamento de aliança com Ele. Em primeiro lugar, Levítico apresenta Deus como uma divindade viva e onipotente, que já interveio nos assuntos de Israel para resgatá-lo da escravidão no Egito e fazer dele um povo livre para adorá-Lo. Este ato milagroso de libertação é uma garantia da Sua capacidade para cuidar do povo escolhido, e de proteger seus interesses enquanto este continua a obedecer às Suas leis. 

Em segundo lugar, o livro fala da presença de Deus com Seu povo Israel, simbolizada pelo tabernáculo no meio do arraial, que era o assen­to da Sua glória. 0 povo do Oriente Próximo tinha familiaridade com o conceito de um santuário portátil como indicação da presença de uma divindade nacional no meio do seu povo, e para os israelitas o taberná­culo era uma lembrança do poder supremo de Deus bem como da Sua presença. Conforme foi observado supra, Deus exigiu a adoração exclu­siva do Seu povo como parte das propostas da aliança, e Levítico estipu­la as únicas condições que resultarão na aceitação do adorador. 

O sistema sacrificial, que é apresentado com muitos detalhes em Levítico, foi um dos meios mediante os quais era regulada a vida comu­nitária em Israel. Embora os pormenores dos procedimentos sacrificiais variassem entre um tipo de sacrifício e outro, há uma ênfase consistente no livro sobre a importância fundamental do comportamento ritual correto. Deus pode ser cerimonialmente abordado somente de certas ma­neiras preceituadas, senão o resultado poderia ser a calamidade. Esta situação não era uma conseqüência da petulância divina, mas, sim, um meio de disciplinar os israelitas de tal maneira que obedecessem as instruções de Deus sem questioná-las. Embora se possa pensar que a socieda­de hebraica antiga fosse demasiadamente governada por semelhante legis­lação, o fato é que os regulamentos funcionavam para a proteção e a orientação dos israelitas. Como resultado, o povo foi instruído correta­mente nos modos aceitáveis do culto divino, e a ele também foram de­monstrados, mediante exemplos dramáticos, os perigos da inovação e da desobediência. As seções legislativas de Levitico, portanto, tomam cla­ro o princípio de que a obediência seria seguida pela vida e a bênção, ao passo que a desobediência resultaria na morte. 

Deus não é meramente uma divindade viva e onipotente, como também é a essência da santidade. Este conceito envolve atributos éti­cos e morais, bem como puramente espirituais, e deve ser refletido na existência dos israelitas do dia-a-dia. Seu relacionamento, conforme a aliança, com o Deus vivo, é uma questão de importância suprema para a humanidade, e, desta maneira, devem tomar-se um reino de sacerdotès e uma nação santa. “Sereis santos, porque eu sou santo,” injunção esta que aparece repetidas vezes em Levitico, bem poderia ser considerada o lema da vida nacional de Israel. A santidade de Deus envolvia um abor­recimento de qualquer coisa imoral ou pecaminosa, conforme a defini­ção daqueles conceitos mediante a referência à legislação da aliança, e também se recuava de qualquer coisa que fosse injusta ou impura. Em­bora Deus fosse Aquele que cuidara dos israelitas escravizados no Egito até ao ponto em que os resgatou e lhes restaurou a liberdade, exigia que eles observassem as exigências da aliança que fora celebrada com eles, e que eles se comportassem como partes responsáveis daquele contrato. 

O sistema sacrificial demonstrava a pecaminosidade humana, e os meios limitados que Deus adotara para restaurar o pecador à comu­nhão consigo mesmo. O pecador precisa arrepender-se e ser perdoado a fim de não morrer no seu pecado, e aqui deve ser notado outra vez que as transgressões para as quais a expiação é providenciada são as da contaminação acidental ou da violação involuntária dos regulamentos cerimoniais. Conforme será observado no comentário, não havia per­dão para o tipo de pecado que se constituía em repúdio das misericór­dias da aliança. 

Levitico nos ensina que a expiação pelo pecado deve ser pela subs­tituição. O pecador deve trazer uma oferta que adquiriu com certo preço, como substituto pela sua própria vida. Sua identificação formal com ela é seguida pela apresentação da oferta a Deus, e uma declaração pelo sacerdote de que a expiação foi feita. 

O livro, destarte, toma evidente que nenhuma pessoa pode ser seu próprio salvador ou mediador. O indivíduo deve comparecer diante de Deus com arrependimento, confessar seu pecado e obter o perdão de um Deus misericordioso que repudia o pecado mas que demonstra ao pecador Seu amor segundo a aliança. A importância cardeal do der­ramamento do sangue na expiação vicária é indicada em Levítico 17:11, pois sem ele não pode haver perdão do pecado. Entre outras coisas, ob­ter o perdão envolve o custo, e o sacrifício de uma vida. 

A legislação geral de Levítico demonstra que toda a vida é vivida sob o olhar vigilante de Deus, e, como resultado, não faz nenhuma dife­renciação artificial entre o que é santo e o que é secular. Um povo santo transformará pela sua vida coisas terrestres comuns em ofertas belas e aceitáveis diante de Deus. Mediante a habitação dEle dentro deles, serão revestidos de poder para ministrar a graça da aliança uns aos outros, e pa­ra aqueles que estão fora da nação de Israel, conforme surge a oportuni­dade. O alvo subjacente do ensino é, portanto, garantir que a santidade de Deus possa regular e dirigir cada área da atividade humana. 

LEVÍTICO e o novo testamento 

A importância da lei levítica na mente de Cristo pode ser vista pe­las Suas observações (Mt 22:39) acerca da “regra áurea” (Lv 19:18). Nos Evangelhos Sinóticos, este aforismo é mencionado em Mateus 19: 19; Marcos 12:31; e Lucas 10:27. Paulo também se referiu a ele em Romanos 13:9 e Gálatas5:14. 

Os conceitos da separação e da santidade exigidas pelo antigo sacer­dócio hebraico eram temas atraentes aos escritores do Novo Testamento. Pedro insistiu em que a comunhão dos cristãos fosse nada menos do que um sacerdócio real (1 Pe 2:9), ao passo que o autor de Hebreus via no conceito tanto um aspecto individual quanto social. O que é comumente descrito como o “sacerdócio de todos os crentes” subentende que aque­les que entregaram suas vidas a Cristo como Salvador e Senhor, e que ex­perimentaram assim o renascimento espiritual, têm acesso direto ao Pai sem qualquer apelo a intermediários humanos. Significa também que todos os crentes verdadeiros devem aspirar a viver como sacerdotes que são consagrados ao serviço do Senhor de modo que tragam honra contí­nua ao nome sagrado de Deus. Devem, portanto, ser justos, retos e santos na sua existência diária. Pedro captou firmemente o espírito de LevítiLEVÍTICO co na sua exortação aos cristãos no sentido de imitar a santidade divina em cada atividade da vida (1 Pe 1:15). 

O autor da Epístola aos Hebreus viu em Levítico muita coisa que prenunciava a obra expiadora de Jesus Cristo. Em Hebreus 7, Cristo foi retratado como o Sumo Sacerdote eterno cuja obra ultrapassava em muito a de Arão e dos seus sucessores no cargo. Ao passo que eles mi­nistravam localmente e morriam no devido tempo, a expiação de Cristo levou a efeito uma redenção universal, ao passo que a Sua eternidade garante um sacerdócio imutável. Como Salvador isento de pecado, Je­sus era sem igual por poder dispensar a necessidade de fazer expiação pe­los Seus próprios pecados antes de fazer sacrifício pelas iniqüidades dos outros. Porque a graça e a verdade vieram através de Jesus Cristo, Ele é o originador de uma aliança melhor baseada na graça divina, que capacita as pessoas a aproximarem-se livremente de Deus sem o impedimento do legalismo. Finalmente, Cristo fez aquilo que nenhum sumo sacerdote hebreu já realizou, ao oferecer-Se como sacrifício supremo pelo pecado humano. Esta expiação foi feita de uma vez por todas, em contraste com as ofertas anuais pelos pecados nacionais involuntários, feitas no dia da expiação. Cristo, portanto, transcendeu a lei na Sua demonstra­ção de amor supremo (Jo 15:13).[14]

Na Sua morte, Jesus cumpriu o conceito levítico da oferta pelo pecado (cf. Rm 8:1-4; 2 Co 5:18-21; Hb 9:11-28; 10:11-12; 13:10­15), ao passo que noutras conexões Paulo O descreveu como oferta pacífi­ca (Rm 5:1-11; Ef 3:13-18; Cl 1:18-20). Assim como o tabernáculo simbolizava a presença de Deus no meio de Israel, assim também a en­carnação de Jesus Cristo é uma garantia de que Deus está presente conti­nuamente na sociedade humana. Os sacerdotes e os sacrifícios que apre­sentavam prenunciavam a obra maior de Cristo para a salvação humana (cf. Hb 3:1; 4:14-16, etc.). A expiação realizada no Calvário signifi­cou que os preceitos rigorosos levíticos para o sacrifício e para a santi­dade tinham sido ultrapassados para o cristão pela habitação nele do Espírito Santo de Deus (cf. At 9:9-16; 15:1-21; G1 2:11-3:5, etc.). Porque Jesus Cristo vive no crente pela fé, o verdadeiro sacrifício vivo a Deus consiste na apresentação diária da vida no serviço a Cristo e a Seu reino (cf. Rm 12:1-2). 



O TEXTO HEBRAICO 

Visto que Levítico é uma obra sacerdotal, é de se esperar que o con­teúdo tenha sido conservado cuidadosamente. A despeito da sua longa história de transmissão textual, há pouquíssimas áreas de dificuldade apresentadas pelo Hebraico, e quaisquer questões que surgem são discu­tidas nas seções apropriadas do comentário. O Texto Massorético, que finalmente veio a ser o veículo tradicional para a transmissão do Antigo Testamento em Hebraico, por meio de descobertas subseqüentes de manus­critos, inclusive os de Cunrã, tem sido demonstrado como notavelmen­te livre de erros de vários tipos. Embora agora seja conhecido que até mesmo três tipos textuais do Antigo Testamento Hebraico estavam em circulação na Palestina no tempo de Cristo, o Texto Massorético contém menos erros de copistas e está mais perto dos manuscritos originais do que os textos hebraicos dos quais o Pentateuco Samaritano e a Septua­ginta foram feitos. Estes últimos, no entanto, são úteis para os propó­sitos da comparação onde dificuldades surgem no texto tradicional, visto que ocasionalmente possam conservar textos um pouco mais antigos. 

Nove fragmentos hebraicos de Levítico foram achados em caver­nas como parte do corpo de literatura conhecido como os Rolos do Mar Morto. Apenas uns poucos destes pedaços de manuscritos já foram publi­cados na data da escrita deste volume, e há certa diferença de opinião quanto à sua idade. Mesmo assim, indicam claramente a existência de tipos diferentes de texto hebraico no período antes de Cristo. Foi reve­lado que o fragmento de Levítico descoberto na Caverna 11 diverge em certas áreas do Texto Massorético, do Pentateuco Samaritano e do texto que subjaz a versão da Septuaginta de Levítico, o que indica que representa uma forma antiga e independente da tradição textual hebrai­ca. 

Fragmentos de Levítico reavidos da Caverna 1 têm afinidade com o Texto Massorético, ao passo que aqueles das Cavernas 2 e 6 estão mais estreitamente relacionados com o Pentateuco Samaritano e a Septuaginta. As modificações do Hebraico que resultam das leves diferenças nas vá­rias tradições textuais parecem demonstrar, de modo geral, a superioridade do Texto Massorético. Certamente as descobertas de manuscritos em Cunrã demonstraram que o livro de Levítico tem uma história muito mais longa de transmissão textual do que era imaginado pelos críticos literários do século XIX, e esta observação se aplica ao Pentateuco co­mo um todo. 







[1] Para um estudo pormenorizado do desenvolvimento desta teoria ver HIOT, págs. 7-32. 


[2] J. Wellhausen, Die Komposition des Hexateuchs (1877). 


[3] R. K. Harrison em C. H. Pinnock e D. Wells (eds.), Toward a Theology for the Future (1971), pägs. 18-19. 


[4] Gene M. Tucker, Form Criticism of the Old Testament (1971), p. iv et 

passim. 


[5] W. E. Rast, Tradition History and the Old Testament (1972), pâg. 19 ss. 


[6] Cf. K. A. Kitchen, Ancient Orient and Old Testament (1966), pâgs. 135-138. 


[7] Cf. W. F. Albright. From the Stone Age to Christianity (ed. 1957), pâgs. 252-254. 


[8] J. D. Purvis, IDB Supplementary Volume (1976), págs. 772-775. 


[9] F. M. Cross, The Ancient Library of Qumran and Modern Biblical Studies (1964), pâgs, 180-190. 


[10] Sobre esta seita ver também M. Gaster, The Samaritans, Their History, Doctrines and Literature (1925); B. J. Roberts, The Old Testament Text and Vers­ions (1951); T. H. Gaster, 1DB, 4, pâg. 191; J. Macdonald, The Theology of the Sa­maritan Sect (1968); B. K. Waltke em J. B. Payne (ed.), New Perspectives on the Old Testament (1970), pâgs. 212 ss.; idem em C. Brown (ed.), Biblical Criticism: Historical, Literary and Textual (1978), pâg. 54-56. 


[11] HIOT, págs. 596-598. 


[12] Mary Douglas, Purity and Danger (1966). Seus escritos subseqüentes in­cluem Natural Symbols (1970) eImplicit Meanings (1975). 


[13] Purity and Danger, pág. 53. 


[14] Cf. R. A. Ward, The Pattern ofour Salvation (1978), págs. 52-53.