15 de outubro de 2016

R. ALAN COLE - Rebelião e Renovação (32.1-40.38)

danilo moraes antigo testamento
IV. REBELIÃO E RENOVAÇÃO (32:1 — 40:38)

a. Rebelião e Expiação (32:1-33:23)

Esta é uma passagem bem vívida, mostrando que a experiência espiritual de Moisés não estava sendo compartilhada pelo povo. Até mes­mo Arão sai do episódio com uma imagem negativa: ele, todavia, não tivera a preparação especial que Moisés tivera no Egito, nem a visão que Moisés tivera como pastor no Sinai. Somente Josué parece compar­tilhar da disposição mental de Moisés, como o faz também, em menor escala, a tribo de Levi. Mas até mesmo Israel não deve ser julgado tão severamente; eles haviam sido uma nação de escravos e ainda possuíam a mentalidade de escravos, mesmo que Deus já os tivesse libertado. Paulo reclama do mesmo problema entre crentes em Gálatas 5:1. Na verdade, muito da linguagem do apóstolo ao descrever tais crentes pa­rece se derivar da descrição dos israelitas errantes no Velho Testamen­to. As histórias de Israel têm seu grande valor exemplar devido ao fato de Israel ser tão semelhante a nós (1 Co 10).

A história progride rapidamente e mostra a ira de Deus e a inter­cessão altruísta de Moisés. As pobres desculpas apresentadas por Arão demonstram ao mesmo tempo o medo que tinha de seu irmão e das con­sequências. As tábuas quebradas falam da aliança quebrada. O juízo de Deus cai sobre o povo, pela espada da tribo de Levi que assim conquista a posição sacerdotal por amar mais a Deus do que seus amigos e paren­tes. O capítulo 32 termina com outra nobre petição de Moisés, desta fei­ta um pedido de perdão para Israel, mesmo que às custas de sua própria exclusão. O capítulo seguinte mostra as consequências inevitáveis de tal pecado reveladas pelo inusitado distanciamento entre Deus e Israel, simbolizado pela localização da tenda da congregação. Por outro lado o capítulo também mostra o intenso desejo de íntima comunhão com Deus demonstrado por Moisés, e como sua oração foi atendida.

32:1-6. O Pecado de Israel.

1. Levanta-te, faze-nos deuses que vão adiante de nós. Na raiz do pecado de Israel jaz a impaciência: eles já não podem mais esperar. Aonde foi Moisés? Eles precisam de deuses visíveis. O plural deuses é exigido pela pessoa do verbo: caso contrário “deuses” poderia ser legi­timamente traduzido “Deus”, encarando o plural como um “plural de majestade”. Qualquer que tenha sido o pensamento de Arão, os israeli­tas não estavam pensando em YHWH de maneira alguma. Não lhes ocorriam os níveis elevados de adoração sem imagens, nem sequer de monoteísmo. Tal como mais tarde Israel viria a desejar um rei humano em lugar do invisível rei divino (1 Sm 8:4-8), assim desejavam aqui um deus que tivesse rosto, como todo mundo. Seu último desejo era ser di­ferente em seu novo relacionamento com Deus: no entanto, esse era o propósito de Deus (19:5,6).

Este Moisés, o homem que nos tirou do Egito. A frase é deliberadamente empregada para mostrar a aspereza deste povo escravo. Eles ainda não consideravam sua libertação algo realizado por Deus: era simplesmente algo que Moisés havia conseguido.

2. As argolas de ouro. Presumivelmente estas argolas faziam parte do despojo exigido dos egípcios (12:36). A História registra que, ao contrário de seus primos midianitas, os homens israelitas, no futuro, não usariam ornamentos de ouro (Jz 8:24). Gênesis 35:4, todavia, men­ciona que ao tempo de Jacó tais ornamentos eram usados, e 11:2 men­ciona artigos de joalheria em relação tanto a homens quanto a mulhe­res. Êxodo 33:4-6 sugere que a origem deste futuro tabu foi o pecado cometido no Sinai. Em dias passados, portanto, é bem provável que os homens israelitas usassem tais ornamentos livremente. Alguns afirmam que a imagem de ouro deve ter sido pequena, se feita somente com o ouro de brincos. Isso depende, todavia, do número de israelitas, e do tamanho e do peso dos brincos (frequentemente consideráveis, como na índia de hoje) e, sem dúvida, da construção da imagem, como conside­rada abaixo. Gideão também fez um ídolo (uma “estola sacerdotal”, Jz 8:24-27) com os brincos tomados aos inimigos de Israel.

4. Trabalhou o ouro com buril... bezerro fundido. O palavreado aqui certamente sugere que a imagem foi a princípio rudemente fundida em ouro, com os detalhes esculpidos a mão mais tarde. Por outro lado (cf. 37:1,2), poderia ter sido feita de madeira e depois revestida com ou­ro, como sugerido pelo verbo “queimar” no versículo 20. A primeira sugestão parece ser comprovada pela expressão “e o reduziu a pó” no mesmo versículo 20. “Queimar” significaria então “derreter em fogo aberto” (isto é, não um forno como o ourives). Uma simples alteração vocálica daria aqui o sentido de “fundir em um molde” ao invés de “trabalhou com buril”: esta sugestão é bem melhor que a feita por Noth, “o amarrou em um saco” (Hyatt).

Bezerro não é uma boa tradução do hebraico ‘egel. Trata-se de um jovem touro em sua primeira força: por exemplo, a palavra pode ser usada para descrever um animal de três anos (Gn 15:9). Compare o no­me de Eglon (SBB usa “Eglom”), rei de Moabe (Jz 3:12), que é cla­ramente um título de honra (algo semelhante a “O Grande Touro”). Esta imagem dificilmente poderia ter sido copiada do culto a Ápis, o boi sagrado do Egito. Ápis não era adorado em forma de imagem, mas como uma encarnação perene na forma de um touro comum, nascido com certas marcas peculiares. Hator, uma deusa egípcia, era simboliza­da por uma vaca, mas o sexo do animal não combina com a descrição de Êxodo. Também é improvável que se tratasse do touro de Hadade, que trazia sobre suas costas a presença invisível do deus da tempestade na Síria, muito embora alguns tenham comparado com isso a presença invisível de YHWH entronizado sobre os querubins que cobriam a arca (25:22). Tais sutilezas estavam além da percepção daqueles ex-escravos rebeldes, reagindo contra o culto sem imagens. É mais provável que se tratasse do touro em que Baal costumava se transformar, de acordo com o ciclo de lendas de Ras Shamra (Baal I. v. 18). Se for levantada a objeção de que os cananeus mais recentemente costumavam visualizar Baal como um guerreiro armado com raios, e não como um touro, a resposta poderia ser oferecida que Israel, no deserto, estava a um nível cultural muito inferior e menos sofisticado que os habitantes de Canaã, e bem poderia estar preservando antigas memórias tribais. A santidade do touro como símbolo de força e capacidade reprodutiva corre desde o culto a Baal em Canaã até o hinduísmo popular do sul da índia de hoje, onde quer que a religião seja vista como uma forma do culto da fertili­dade comum aos criadores de animais. É provável que, mesmo durante sua permanência no Egito, os israelitas já tivessem sido corrompidos por um culto semelhante, com imagens e tudo mais; estariam agora apenas “voltando ao normal”, depois das severas exigências do Sinai. Sabemos da arqueologia que Baal era conhecido e adorado na área do delta e ele certamente era adorado por alguns povos semitas que viviam naquela área.

Alguns comentaristas acham que esta ação de Arão prova que o culto israelita na época ainda permitia o uso de imagens, mas tal opi­nião deixa completamente de lado o verdadeiro sentido da passagem. Sem sombra de dúvida os dez mandamentos definiam o culto israelita como anicônico (20:4); a violência da reação de Moisés prova a histori­cidade deste relato v. 19), bem como o faz a evidência geral coletada por arqueólogos em ruínas israelitas do tempo dos juízes. Usar imagens como símbolo de Deus é enganoso (20:23). Usar um touro como símbolo de Deus é ainda pior: além do mais é blasfêmia chamar o “no­vo” deus de YHWH, como parece ter acontecido na ocasião. Além de tudo isso, o versículo 6 mostra todas as características do licencioso cul­to a Baal praticado em Canaã (cf. Nm 25:1-9). Parece impossível que, tão pouco tempo depois de receber tão elevada revelação, Israel pudes­se cair a um nível tão baixo, mas a experiência cristã hoje em dia muitas vezes é bem semelhante.

São estes, ó Israel, os teus deuses. Como no versículo 1, o verbo no plural faz com que “deuses” (SBB) seja a única tradução gramatical­mente correta do texto hebraico. Possivelmente o plural seja usado derrisoriamente pelo autor para mostrar o politeísmo inevitável que surgi­ria com a introdução da idolatria (se havia um deus em forma de touro, por que não em outras formas também?). Por outro lado, pode servir para mostrar a semelhança entre o que Israel fizera então e o que viria a fazer sob a liderança de Jeroboão (1 Rs 12:28). Não pode ser por acaso que a mesma frase seja usada, aqui e ao tempo de Jeroboão, como uma invocação ao culto.' É difícil, todavia, perceber como um único ídolo poderia ser apresentado como “deuses” aos primeiros idólatras, por mais apta que fosse a descrição no caso das duas estátuas feitas por Je­roboão. Seja qual for o caso, a frase é uma espécie de declaração de fé, parodiando 20:2. Mesmo em seu pecado, entretanto, a religião de Israel era baseada na história e, portanto, completamente diferente do culto da fertilidade oferecido a Baal em Canaã. Israel ainda busca um deus que age, mesmo que seja um falso deus.

5. Edificou um altar. A esta altura ainda não existia um “altar do sacrifício” como haveria mais tarde. Arão provavelmente edificou um altar de terra ou de pedras não lavradas (20:24,25), mostrando que não se tratava de um incidente fortuito: era um culto organizado, com estátua, altar, sacerdote e festa religiosa.

Amanhã será festa a YHWH. Será que Arão entendeu a ocasião como o cumprimento da promessa feita por Deus a Moisés, de que Israel observaria uma “festa” ou um “festival de peregrinos” no Sinai (3:12; 5:1)? Ou seria esta apenas uma referência geral? É interessante especular se a época no ano teria algum significado especial. No futuro os judeus iriam associar a doação da Lei à festa das semanas ou das primícias (“Pentecostes” no Novo Testamento), de modo que talvez a festa promovida por Arão celebrasse, um tanto desordenadamente, al­guma ocasião do calendário agrícola. Isto explicaria as danças e a imo­ralidade sexual a ela associadas, embora seja de se esperar que tais ex­cessos acontecessem com maior probabilidade no festival da colheita de outono (festa da colheita ou dos tabernáculos). Alguns comentaristas elogiam Arão por ter feito uma tentativa heróica de “conter” este mo­vimento reacionário dentro do Yahwismo, anexando esta festa a YHWH, a despeito de suas ligações ao culto de Baal.[1] Êxodo, entretan­to, jamais atribui a Arão motivos tão teologicamente profundos (vv. 22-24). Além denudo, foi precisamente esta identificação de YHWH com Baal o maior pecado cometido aquele dia: até mesmo a completa apostasia e o culto aberto a Baal teriam sido menos mortais que este “sincretismo”.

6. Ofereceram holocausto e trouxeram ofertas pacíficas. As for­mas exteriores de culto litúrgico, quer de YHWH quer de Baal, eram indubitavelmente semelhantes, a julgar pelos textos de Ras Shamra. É por isso que os profetas do futuro teriam facilidade em denunciar o ritualismo israelita, quando este era desprovido de realidade espiritual (Is 1:10-20) ou de obrigações morais.

Assentou-se para comer e beber, e levantou-se para divertir-se. Co­mer e beber parecem atividades inocentes, depois de oferecerem ofertas pacíficas, mas o verbo traduzido “divertir-se” sugere atividade sexual no original hebraico (ver Gn 26:8) e, portanto, a frase deve ser entendi­da como uma referência a uma orgia sexual. Estas, num contexto “baalizado” teriam sentido religioso, não imoral, para o adorador, mas não aos olhos de YHWH. No contexto do culto a YHWH, que nos dez mandamentos havia expressado Sua própria natureza em termos de obrigações morais, isso era intolerável! Somente a compreensão da san­tidade de YHWH pode explicar a violência da reação de Moisés, e o terrível castigo que veio a seguir sobre Israel.



32:7-14. Moisés em Oração.

7. O teu povo, que fizeste sair do Egito. A mudança no pronome possessivo é deliberada, como se Deus os estivesse deserdando. Note como Moisés reverte o uso do pronome em sua oração no versículo 11. Há aqui um “antropopatismo” deliberado, descrevendo as emoções di­vinas em termos humanos, mais compreensíveis aos leitores; ver também o versículo 14 abaixo.

9. Povo de dura cerviz. Esta frase, bem comum na Bíblia, é uma metáfora tirada do fraseado do agricultor, e descreve um boi ou cavalo que não responde às rédeas quando puxadas. É assim, particular­mente apropriada a Israel, que não reagia como esperado à correção, e pode ser razoavelmente traduzida por “obstinado”.

10. E de ti farei uma grande nação. Uma tentação real para Moisés (tão real quanto as tentações de Jesus), ou não teria qualquer significa­do. Daria cumprimento às promessas de Deus a Abraão (Gn 12:2) e a Jacó (Gn 35:11), mas a nação daí resultante levaria o nome tribal de “filhos de Moisés”, não mais “filhos de Israel”. O preço era apenas abandonar sua vocação de pastor, e deixar Israel receber seu justo casti­go. A própria conduta dos israelitas lhes conquistara a rejeição divina, como Deus lembra a Moisés aqui. Mas nenhum pastor de verdade faria tal coisa e assim surge a oração intercessória de Moisés (vv. 11-13, e re­tomada nos vv. 31,32), reminiscente da oração de Abraão (Gn 18:22­23).

11. O teu povo. Moisés apela a Deus em nome de Sua relação vo­luntária para com Israel, e de tudo que Ele já fizera pelos israelitas no passado. A seguir, apela à necessidade divina de vindicar Seu nome (v. 12). Finalmente ele apela para as grandes promessas feitas aos patriar­cas (v. 13). Este terceiro ponto é muito importante. Tão claramente quanto a visão da sarça ardente, este apelo liga o novo nome YHWH aos antigos títulos patriarcais para Deus e às antigas promessas patriar­cais. Traça uma linha ininterrupta entre os atos redentores do êxodo e os atos de Deus em favor de Abraão. Resumindo, esta oração é um ape­lo a que Deus seja coerente com Sua própria natureza, é uma decla­ração de confiança em Sua vontade revelada. Nem mesmo no Novo Testamento pode a oração atingir tais pináculos, embora, em Cristo, tenhamos um conhecimento ainda mais profundo dessa natureza e des­sa vontade, tendo assim base ainda maior para nossas petições e para nossa confiança.

14. Então YHWH se arrependeu. Outro “antropomorfismo” (mais acertadamente “antropopatismo”) pelo qual a atividade divina é explicada, por analogia, em termos estritamente humanos. Não signifi­ca que Deus tenha mudado de idéia, e muito menos que Ele tenha senti­do remorso por algo que planejara realizar. Significa, em linguagem bíblica, que Deus adotou um novo curso de ação, diferente daquele que anteriormente havia sido anunciado como possibilidade, devido a al­gum novo fator comumente mencionado no contexto. Na Bíblia é claro que muitas das promessas divinas são condicionadas à reação do ho­mem: este princípio fica bem claro em Ezequiel 33:13-16. Não devemos pensar que Moisés alterou o propósito de Deus em relação a Israel através de sua oração, mas que levou a cabo esse propósito. Moisés nunca foi tão semelhante a Deus como durante sua oração, pois com­partilhou os pensamentos e o amoroso propósito divinos.

32:15-29. As Consequências. 

Esta seção contém a narrativa da des­truição das Tábuas da Lei (um ato cerimonial de grande significado, não uma simples demonstração de raiva), a destruição do ídolo, o casti­go de Israel, e a “consagração” de Levi como tribo sacerdotal.

15. Tábuas escritas em ambas as bandas. Este é o único lugar nas Escrituras onde este detalhe é registrado e enfatizado. Noth afirma que tal fato era bem fora do comum em se tratando de inscrições em baixo- relevo, stela, no mundo antigo: trata-se portanto, de um traço interes­sante de tradição antiga. Normalmente um dos lados da tábua de pedra era deixado em branco, com a inscrição sendo feita no lado oposto. Is­to, todavia, dificilmente se aplicaria a pequenas tábuas de pedra, que é presumivelmente o que se tem em mente aqui.

18. Não é alarido dos vencedores. Esta passagem é rítmica, um fragmento de poesia antiga. Poucos estudiosos hoje em dia ainda se­guem a antiga teoria de Sievers, de que o Pentateuco inteiro fora a princípio escrito em verso (como o ciclo de Ras Shamra), mas certos fragmentos poéticos subsistem de fato. Talvez, como Números 21:14,15, esta passagem tenha vindo de um documento desaparecido, chamado “O Livro das Guerras de YHWH” (cf. também Números 21:17-30). -

19. As danças. Talvez “os grupos que dançavam”.[2] Isto provavel­mente implica alguma cerimônia religiosa, com os devotos girando em frenesi perante o ídolo e o altar, como Davi dançou perante a Arca (2 Sm 6:14). Em 15:20 a própria Miriã liderara uma dança triunfal em honra a YHWH. Aqui, todavia, em vista do culto ao deus-touro, há provavelmente a conotação de uma orgia. Comparar a expressão “esta­va desenfreado” no versículo 25, que certamente abrange tanto moral quanto religião. Má conduta moral sempre segue a idolatria (Rm 1:24,25).

Quebrou-as ao pé do monte. A destruição das tábuas da lei por Moisés significa o repúdio feito por Moisés (presumivelmente agindo como representante divino, embora isto não seja mencionado no texto) da validade da aliança. Devido à violação dos termos por Israel, a ali­ança fora anulada e inutilizada.

20. Queimou-o no fogo e o reduziu a pó. Podemos comparar com is­so o tratamento dispensado por Josias ao altar (e ao deus-touro?) de Betel (2 Rs 23:15). Tal tratamento do “bezerro” de ouro é simbólico, repudiando a reivindicação (feita por seus adoradores, 32:4) de que era quem havia tirado a Israel do Egito. Além disso, é o tratamento dos deuses cananeus exigido nos termos da aliança (23:24). Finalmente, o ouro em pó espalhado na água do rio que descia da montanha, a água que Israel tinha de beber, nos lembra a “água amarga” que deveria ser bebida pela esposa suspeita de adultério (Nm 5:18-22). Já que Israel ti­nha sido, de fato, infiel a YHWH, seu marido celestial, assim a mal­dição sem dúvida cairia sobre ele (v. 35; cf. Nm 5:27).

21-24. Estes versículos, que contêm a severa admoestação de Moisés a seu irmão, juntamente com a absurda desculpa apresentada por Arão, podem conter um humor carregado de tensão. Como Adão (Gn 3:12), Arão lança sua culpa sobre outra pessoa. O que ele diz a res­peito de Israel (no v. 22) é perfeitamente correto, mas não o excusa de ter agido como “sacerdote” na adoração do bezerro-touro (32:5).

24. E saiu este bezerro. Esta frase tinha como propósito alegar que a produção do ídolo fora um milagre, pois não seria produto de mãos humanas. A Bíblia, freqüentemente, faz humor da absurda situação do artífice que adora algo que ele mesmo criou (por exemplo Is 44:9-20). Talvez até mesmo Arão estivesse consciente de tal absurdo e, com esta desculpa esfarrapada, tenta escapar à situação. No mundo antigo, ob­jetos naturais (isto é, não feitos pelo homem) eram algumâs vezes ado­rados devido a uma suposta semelhança com faces humanas ou formas de animais. O meteorito consagrado a Ártemis em Éfeso é um exemplo bíblico (At 19:35). Arão, porém, dificilmente podia alegar que o touro fosse um destes objetos. Por outro lado, é possível que o versículo deva ser encarado apenas como cortesia oriental, em que Arão admite a con­fecção do ídolo, mas o faz em termos bem vagos.

26. Quem é de YHWH venha até mim! A tradução literal do he­braico é “Quem é por YHWH”. Presumivelmente Moisés convocou to­dos aqueles que não se haviam entregado ao culto do deus-touro, per­manecendo fiéis ao culto anicônico de YHWH, com suas severas obri­gações morais. Assim, seriam contrários ao novo movimento por duas razões. Mesmo que a “grande rebelião” de 32:1 aconteça antes da che­gada de Moisés com as duas tábuas de lei em suas mãos (32:15), é bem claro que as exigências de Deus, como nelas expressas, já eram conheci­das de Israel, de modo que nem Arão nem o povo podiam alegar igno­rância desses dois aspectos da lei de Deus. Na verdade, 24:3-8 afirma que os Dez Mandamentos, ou material semelhante, foram a base inicial da aliança, tanto em forma oral (24:3) quanto em forma escrita (24:4). Isto parece ser distinto, todavia, da aceitação solene das tábuas, pre­nunciada em 24:12, e registrada em 31:18, a não ser que o texto atual esteja fora de ordem cronológica.

Todos os filhos de Levi. A tribo de Levi era, naturalmente, a tribo do próprio Moisés. Afirma-se que isto pode tê-los influenciado a per­manecer leais a Moisés (bem como a YHWH) a despeito de sua prolon­gada ausência sobre a montanha. Se for assim, um vínculo ainda mais íntimo com Moisés do que o dos levitas em geral não parece ter produ­zido o mesmo efeito em Arão. Não há qualquer prova de que a tribo de Levi como um todo tivesse qualquer caráter sacerdotal àquela altura dos acontecimentos, embora a família de Arão já o tivesse (28:1).

27. E mate cada um a seu irmão. Como acontece freqüentemente, “irmão” significa “patrício israelita”. Evidentemente não poderia sig­nificar “homem da mesma tribo”, em vista da declaração de que toda a tribo de Levi acorrera ao apelo de Moisés. O mesmo grande princípio foi enunciado por Cristo, embora a aplicação tenha sido diferente. Ne­nhum relacionamento físico ou natural pode ser tão íntimo quanto aquele que nos une a Cristo e a Seu povo (Mt 12:46-50). Nosso amor e lealdade a Cristo devem ocupar o primeiro lugar, mesmo que isto traga profunda divisão onde os homens mais esperariam encontrar harmonia e compreensão (Lc 12:51-53).

28. Três mil homens. O número reduzido garante a historicidade do incidente. Estes poderiam ter sido os chefes do movimento herético, mas é mais provável que tivessem sido adoradores apanhados ao acaso quando Levi caiu sobre o arraial, vindicando a santidade de Deus. Estes que foram punidos não eram necessariamente mais pecadores que os demais. Lucas 13:1-5 mostra que tal “julgamento restrito” é produto da graça, e serve como exemplo.

29. Consagrai-vos hoje a YHWH. A SBB traduz corretamente o imperativo do texto hebraico (algumas versões antigas traduzem como um pretérito). Literalmente traduzida, a expressão seria “Enchei as vossas mãos”. Tal como o futuro massacre dos cananeus, trata-se aqui do hêrem, ou guerra santa. Os mortos eram considerados sacrifício a Deus, e nesta ocasião um “sacrifício de consagração”, pelo qual Levi foi consagrado ao serviço de Deus (cf. cap. 29). Este serviço é presumi­velmente a bênção referida ao fim do versículo. Um ato de zelo seme­lhante a este é registrado em Números 25:10-13, com respeito a Finéias, filho de Eleazar e neto de Arão. Este ato também recebeu recompensa semelhante, a “aliança do sacerdócio perpétuo” para ele e seus descen­dentes. Em ambos os casos, é importante compreender que não foi a natureza da vingança que garantiu a bênção, mas a completa dedica­ção a YHWH (Js 14:8), o contar outros laços como nada quando com­parados ao laço que os unia a Deus (Dt 33:9), bem como o fato de ambos, Levi e Finéias, estarem animados com o zelo de YHWH (Nm 25:11). Como o autor do Salmo 139, eles haviam feito da causa di­vina a sua causa (SI 139:21). Uma vez que compartilhavam parte dos pensamentos de Deus, não podiam considerar algo sem importância o fato de Israel estar sendo abertamente infiel a Deus (19:5). Consultar Hyatt quanto a uma discussão das origens da expressão “encher a mão”.

32:30-35. Sofrimento Vicário e Oração Intercessória.

30. Porventura, farei propiciação. Moisés desejava “cobrir” (a mesma raiz usada em 29:36) o pecado do povo. Ele presume que seu castigo será a morte física, como freqüentemente ameaçado na lei (28:43), e deseja salvá-los disso.

32.Agora pois, perdoa-lhe o pecado. No Velho Testamento isto normalmente significa que a pena de morte seria suspensa (cf. Davi, 2 Sm 12:13), embora punições mais leves e de natureza disciplinar pos­sam se seguir. Mas, caso YHWH não perdoasse, Moisés oferece sua própria vida em favor de seu povo (neste caso, comparar Paulo, Rm 9:3) ou junto com seu povo. Nesta última hipótese, ele está mais uma vez rejeitando a tentação de 32:10.

Teu livro que escreveste. Chamado em outras passagens “o livro dos vivos” (SI 69:28) e “o livro da vida” (Is 4:3). Esta é uma maneira metafórica de expressar a ideia “o mundo dos vivos”, e expressar ao mesmo tempo a idéia de que a vida e a morte de todo homem estão nas mãos de Deus. Listas de recenseamento como a encontrada em Núme­ros 1 podem ter sido a origem desta expressão (cf. Ez 13:9); as listas do povo de Deus bem poderiam ser chamadas “o livro de Deus”. No Novo Testamento o conceito é espiritualizado, indicando o rol daqueles que herdaram ou herdarão a vida eterna (Fp 4:3; Ap 3:5). Moisés, o servo de Deus (14:31), é muitas vezes apresentado no Pentateuco (embora nunca literalmente descrito nesses termos) como um “servo sofredor”, e neste sentido é um protótipo de Cristo. Ele suporta tudo que um pas­tor fiel deve suportar, e aquilo que “o bom pastor” recapitulará em Si mesmo (cf. Jo 10:11).

33. Riscarei do meu livro todo aquele que pecar contra mim. Nes­tas palavras a oferta de Moisés é recusada. Teria sido incoerente com o padrão geralmente ensinado no Velho Testamento de responsabilidade direta e punição por meio de sofrimento. A responsabilidade individual pelo pecado era ensinada bem antes de Jeremias e Ezequiel, ao contrário do que afirmam certas teorias. Sofrimento vicário desta espécie encontraria cumprimento mais profundo mais tarde, depois dos exemplos de Jó, Jeremias, e do “Servo Sofredor” de Isaías 42-53.

34. No dia da minha visitação vingarei neles o seu pecado. De acor­do com a tradição, toda aquela geração pereceu no deserto (Dt 1:35). A ação divina não foi arbitrária: em diversas ocasiões, das quais esta nem é a primeira (cf. 14:12), Israel se mostrara completamente desprovido da fé e da obediência sem as quais é impossível agradar a Deus (Hb 11:6). Fosse-lhes permitido entrar na terra prometida em tal disposição mental, não teriam a fé necessária para vencer os cananeus, de modo que a simples entrada em Canaã não lhes teria feito bem algum. Poder- se-ia dizer até que Deus os estava poupando ao permitir que permane­cessem no deserto, tal como fizera antes ao impedi-los de marchar ao longo da Estrada dos Filisteus (cf. 13:17). Os israelitas não agiram “contrariamente à sua natureza” ao adorar o “bezerro” de ouro. Ao fazê-lo, na verdade, demonstraram claramente sua natureza essencial­mente inalterada, como viriam a fazer novamente, fosse-lhes dada qualquer oportunidade futura.

35. Feriu, pois, YHWH ao povo. Presumivelmente este versículo se refere a um castigo temporário e imediato, do tipo comum ao Pentateuco (por exemplo, Nm 11:33). O versículo poderia, entretanto, ser uma vaga referência geral ao castigo subseqüente de toda aquela ge­ração.

33:1-6. Israel e Seus Ornamentos. Em todo o livro de Êxodo o te­ma da presença de Deus é enfatizado, e esse mesmo tema domina este capitulo. Como poderia Israel ainda experimentar a presença de Deus, depois de partirem do monte sagrado (cf. as palavras de Pedro em Mt 17:4)? Esta é a primeira pergunta. Há, porém, pergunta ainda mais profunda: como poderia um povo tão pecaminoso sequer experimentar a presença de Deus?

2. Enviarei o Anjo diante de ti. O mensageiro de Deus, uma pro­messa repetida aqui, depois de feita pela primeira vez em 32:34. Ao contrário do mensageiro mencionado em 23:20,21, todavia, esta pro­messa é virtualmente uma recusa da direta presença de Deus (v. 3). Moisés irá apelar mais uma vez contra esta decisão nos versículos 12-16, abaixo.

3. Para que te não consuma eu no caminho. A recusa divina é pro­teção para Israel. Se YHWH estivesse próximo ao povo quando este pe­casse, Sua ira irromperia em chamas e os consumiria.

4. Pôs-se a prantear e nenhum deles vestiu seus atavios. Como sinal exterior de luto pela perda da presença de Deus, Israel arrancou seus or­namentos (v. 6). No que diz respeito ao luto, tirar os ornamentos por algum tempo era costume no Oriente Médio, mas para Israel se tornou um estatuto perpétuo. Ver o comentário de 32:3: sem dúvida outra ra­zão para o abandono dos ornamentos é que eles haviam servido de oca­sião ao pecado. Israel, sob muitos aspectos, deve ter parecido uma nação de puritanos no mundo antigo, não apenas em seu culto e em sua moral, mas até mesmo em sua maneira de vestir. No entanto, os mes­mos ornamentos que serviram para fabricar um ídolo de ouro no passa­do poderiam ser agora dedicados a Deus para uso em Seu santuário. Êxodo 35:22 deixa claro que tais atavios foram a maior fonte da oferta em ouro feita pelo povo para os utensílios usados no Tabernáculo.

33:7-11. Moisés e a Tenda da Congregação.

7. Moisés costumava tomar a tenda e armá-la para si, fora, bem longe do arraial. Deus não ficaria no meio do povo, mas não retiraria completamente a Sua presença de Israel. Este fato é simbolizado pela armação da tenda da congregação fora do acampamento, e longe dele. No mundo antigo os templos eram construídos a alguma distância das cidades: Israel perdera, assim, sua posição peculiar, a nação em cujo meio Deus habitava. Na questão da tenda da congregação, consultar Hyatt: os imperfeitos no hebraico devem ser entendidos como ação cos­tumeira no período do deserto.

Todo aquele que buscava a YHWH saía. Para buscar a presença de Deus (para orientação, oração, ou louvor, expresso por sacrifício) o indivíduo tinha de se separar do povo (Hb 13:13). Uma vez aqui, fora do arraial, todavia, havia possibilidade de comunhão com Deus, uma comunhão íntima e especial (v. 11, descrevendo Moisés).

9. Descia a coluna de nuvem. Esta coluna ou “pilar” de nuvem (literalmente “algo que ficava de pé”), fosse qual fosse a sua natureza, representava a presença de YHWH, e sempre que Moisés entrava na tenda o sinal da presença de Deus aparecia. Êxodo 40:33,34 parece des­crever o mesmo fenômeno em relação ao Tabernáculo já completo, co­mo sinal da “residência” de Deus (como uma bandeira acima de um palácio real). Não fica bem claro se esta seção antecipa ò que se seguiria mais tarde, depois da dedicação do grande Tabernáculo, ou se esta é uma “tenda da congregação” mais simples, usada por Moisés ainda an­tes da construção do Tabernáculo de Êxodo 40..De muitas maneiras, uma estrutura bem mais simples cabe melhor no quadro aqui descrito. Somente Moisés vai até a tenda, e apenas Josué “serve” à porta da ten­da, em contraste com uma multidão de levitas, posteriormente. Não há sequer menção de Arão e seus filhos ministrando como sacerdotes aqui. Além do mais, Números 3 índica que o Tabernáculo ficava bem no cen­tro do arraial, ao passo que esta se localiza fora dele. Mesmo os estu­diosos de posição mais crítica, que negam a existência de um Ta­bernáculo mais elaborado nos últimos capítulos de Êxodo (vendo-o co­mo uma retroprojeção de um Templo posterior), normalmente admi­tem a existência desta “tenda da congregação” mais simples como verdadeiramente mosaica. Todavia, (à parte de outras considerações) as numerosas diferenças entre o Tabernáculo e o Templo de Salomão tor­nam tal negação da existência do Tabernáculo bem improvável.14 Tal­vez, portanto, toda esta atividade deva ser considerada como se ocor­rendo no passado, em relação a uma forma mais simples da “tenda da congregação” do que aquela descrita nos últimos capítulos de Êxodo (Nm 11:24 e 12:4 parecem preservar esta mesma memória antiga). O homem do povo, a esta altura, não vinha para adorar, prostrando-se à entrada de sua tenda, voltado para a tenda da congregação, ao longe.

Face a face. Números 12:8 explica o sentido desta frase. Deus falava com Moisés “de boca a boca”, isto é, não através de sonhos e vi­sões, mas clara e diretamente. Moisés tinha o dom de discernir clara­mente verdades espirituais: ele participava do próprio conselho de Deus.

Como qualquer fala ao seu amigo. Talvez Cristo estivesse se refe­rindo a isso em João 15.15, quando ele afirmou que a marca do amigo (em oposição ao servo) é que este conhece o propósito e o significado das ordens que lhe são dadas. A despeito disso, o grande título de Moisés no Velho Testamento é “o servo de YHWH” (Dt 34:5).-[3] [4] Assim, ele se acha no principio de um longo processo de revelação divina, que culminará com o “servo sofredor” de Isaías 52-53, que encontra seu cumprimento em Cristo.

33:12-23. A Oração de Moisés Pela Presença de Deus.

Aqui, na opinião de Noth, o elo com a passagem anterior ainda é o tema da presença de Deus. Esta fora negada à nação rebelde, mas ofe­recida a Moisés e Josué na tenda da congregação. Moisés está preocu­pado agora em garantir tanto a presença divina para seu povo, quanto o desfrute de uma experiência mais profunda desta mesma presença pa­ra Si mesmo. Isto é claro, em meio a tanta coisa obscura, talvez porque a linguagem seja metafórica ou poética. Muilenburg (citado por Hyatt) observa os seis usos do verbo “conhecer” em cinco versículos.

12-16. A presença de Deus com o povo.

12. Não me deste a saber quem hás de enviar comigo. Não fica cla­ro se Moisés está preocupado em saber o “status” do prometido men­sageiro celeste, ou se temos aqui apenas uma oração (como a de Nm 27:16) para que Deus providencie um assistente e sucessor para Moisés. Caso esta última hipótese esteja correta, a escolha de Josué por Deus foi a resposta.

14. Minha presença irá contigo. Literalmente, ‘ ‘minha face irá... ”. Com esta promessa, o descanso final de Israel em Canaã fica assegura­do. Esta frase significa que o “mensageiro” celeste enviado com o povo será “o anjo da Sua presença” (Is 63:9), isto é, uma plena manifestação de Deus, como em 23:20.

16. De maneira que somos separados. Israel sempre foi chamado para ser diferente e separado das outras nações. Moisés percebe, corre­tamente, que aqui jaz a característica principal de Israel, no fato da pre­sença de Deus em seu meio. Tudo o mais é um comentário desta reali­dade, e dela resulta.

17-23. A oração pela visão de Deus.

18. Rogo-te que me mostres a "tua glória. Deus acabara de atender seu pedido quanto à continuação de Sua presença com Israel. Agora, a oração de Moisés é ver a kãbôd, a glória manifesta (literalmente “pe­so”) de YHWH. Equivale a pedir a Deus para vê-lO como Ele é: nestes termos, porém, é um pedido impossível. O homem mortal não pode su­portar a visão de Deus (v. 20). Em linguagem pictórica bem vivida, a passagem afirma que o homem pode apenas contemplar o lugar por on­de Deus passou (vv. 22,23) e assim conhecê-lO pelos Seus atos no passa­do e no presente. Deus como Ele é, em todo o Seu mistério, não pode­mos conhecer ou apreender. O homem precisaria esperar a vinda de Je­sus Cristo (Jo 14:9) para ter uma revelação plena de Deus. Não há con­tradição entre esta passagem e 24:10, onde os anciãos viram “o Deus de Israel” (cf.Gn 32:30). Tudo que viram foi a “pavimentação de safira” que ficava sob Seus pés: tudo que Isaías viu foram as abas das vestes reais que enchiam o vasto átrio do Templo (Is 6:1).

19. E te proclamarei o nome de YHWH. A revelação divina será a revelação de Seu nome (ou seja, de Sua natureza), proclamada em ter­mos de Seus atos em favor do homem. A natureza de Deus é aqui defi­nida como “bondade” (no hebraico, tûb) e este termo é mais particu­larmente descrito em termos de “graça” e “misericórdia”. Driver afir­ma, corretamente, que o objeto da graça e da misericórdia divinas é a pecaminosa nação israelita: sem esta qualidade de “benevolência” co­mo a característica básica de Deus, Israel estaria irremediavelmente perdido. Consultar Hyatt quanto aos vários significados da palavra tüb na Bíblia.

Terei misericórdia de quem eu tiver misericórdia. (Literalmente, “mostrarei graça a quem eu mostrar graça”, N.T.). Romanos 9:15 cita esta passagem com referência à soberania de Deus. Israel só podia se admirar de ter sido escolhido como objeto da graça divina, pois não po­dia explicá-la em termos humanos. Comentaristas ressaltam que a frase hebraica aqui empregada não atribui qualquer arbitrariedade abrupta a Deus, como pode sugerir a tradução em português. Ela simplesmente chama atenção para o fato de que estas são qualidades divinas que po­dem ser vistas em certos incidentes históricos, sem descer a maiores de­talhes.

b. A Aliança Renovada (34:1-35)

Este capítulo cobre a doação das novas tábuas da lei, a procla­mação do nome de Deus, a ratificação da aliança e a lista de exigências que surgem com a aliança. O capítulo termina com um adendo que des­creve, em linguagem impressionante, o efeito visivel que teve em Moisés a comunhão íntima com YHWH.

Mais uma vez, a passagem levanta alguns problemas. Alguns estudiosos acreditam que, longe de ser uma renovação da aliança feita antes (e necessária devido à quebra da aliança por Israel), é na verdade um outro relato dos mesmos acontecimentos. Se consideram o primeiro re­lato (nos caps. 19-24) baseado na fonte “E”, a este consideram baseado na fonte “J”. No entanto, Êxodo 34:1 e Deuteronômio 9-10 insistem que houve de fato uma renovação da aliança original. Este aspecto de renovação pode explicar muitas das repetições de pensamento, se não de palavras (por exemple, na revelação de Deus, vv. 5-7; nos termos da aliança, vv. 12-25). O primeiro destes exemplos é paralelo âs primeiras visões de Moisés; o segundo (naturalmente) encontra muitos paralelos no “livro da aliança” (caps. 20-23). É um pouco estranho que os dez mandamentos não sejam novamente mencionados no versículo 10, co­mo em Êxodo 20 e Deuteronômio 5. No entanto, o versículo 28 certa­mente presume a sua existência, e jâ vimos que a mesma ambigüidade existe em Êxodo 20-23, sobre se os termos da aliança eram simplesmente os dez mandamentos ou incluíam todo o “livro da aliança”. Se o “li­vro da aliança pode ser considerado uma ampliação e explicação dos dez mandamentos, então a continuação inexiste. Os termos da aliança são uma revelação de Deus e do homem, e não uma série limitada de obrigações legais fixas. É possível, até mesmo provável, que desde o princípio existissem formulações menos completas desta legislação da aliança, nunca consideradas em conflito umas com as outras. Isto nos livra de tentarmos reconstruir um “decálogo ritual” a partir de 34:11- 26 (base da aliança renovada e restaurada, 34:27), paralelo ou, ainda pior, rival do chamado “decálogo ético” do capítulo 20 e Deuteronômio 5 (cujo verdadeiro paralelo é Êx 23). Noth é excelente no que tange a este problema; ele ressalta que os dois conjuntos de leis podem mos­trar diferentes interesses, mas de maneira alguma oposição teológica fundamental (da mesma maneira em que os dez mandamentos não são opostos ao livro da aliança). Em qualquer caso, se os dez mandamen­tos, embora não expressos, são presumidos no presente contexto, o problema não surge. Consultar Hyatt quanto a algumas tentativas arti­ficiais de criar um “decálogo” a partir deste material.

34:1-4. As Novas Tábuas.

1. Lavra duas tábuas de pedra, como as primeiras. Aqui o próprio Moisés recebe a ordem de lavrar ele mesmo as duas tábuas de pedra (cf. 32:16), e nos versículos 27,28 vemos que ele mesmo deve escrever sobre as tábuas “as palavras da aliança”, definidas como os dez mandamen­tos.

Eu escreverei. O narrador não vê qualquer conflito entre os versículos 27,28, onde Moisés é quem escreve, e este versículo, onde Deus afirma que Ele mesmo escreverá as tábuas de pedra. Para ele, as duas afirmações significam o mesmo: eram apenas maneiras alternati­vas de expressar o mesmo fato. Isto reflete uma forte posição teológica, a convicção de que a Tora é a pura expressão dos pensamentos e da na­tureza de Deus. Por outro lado, mostra também que não precisamos in­terpretar esta passagem de maneira mecanicamente literal. Qualquer interpretação deste acontecimento com a perspectiva “Deus escreveu” também deve deixar espaço para a outra perspectiva, igualmente váli­da, “Moisés escreveu”. Talvez possamos generalizar esta posição e aplicá-la ao Velho Testamento como um todo. Um caso exatamente se­melhante acontece antes com referência a Deus e Faraó. Lado a lado, a narrativa afirma que Deus endureceu o coração de Faraó (4:21), que o próprio Faraó endureceu o seu coração (8:15), e que o coração de Faraó foi endurecido, sem qualquer indício ou referência a um agente (7:13).

3. Nem ainda ovelhas nem gado se apascentem defronte dele. As regras quanto à santidade de todo o monte, quando da descida de Deus sobre ele, são aparentemente as mesmas de antes (19:12,13).

34:5-9. A Auto-proclamação de Deus.

5. Proclamou o nome de YHWH. O nome de YHWH expressa tu­do que Ele é e faz, de modo que esta frase significa uma proclamação dos atos salvadores de Deus. E isto que significa, no Novo Testamento o kêrygma, “a proclamação do arauto”. Aqui é Deus, em Auto- revelação, que proclama Seu caráter a Moisés (como em 33:19, ou no prólogo dos Dez Mandamentos em 20:2). É difícil crer que proclamou se refira simplesmente a uma declaração feita por Moisés a respeito de Deus, ao invés de uma declaração feita por Deus a Moisés. O fato de uma revelação feita por YHWH ao homem aparecer na terceira pessoa é incomum, mas não é impossível. Hyatt, porém, prefere traduzir, “Moisés invocou o nome de YHWH”, deixando a Auto-proclamação de YHWH para o versículo 6.

7. Ainda que não inocenta o culpado. A revelação aqui é primariamente de um Deus misericordioso e cheio de gràça (ver 33:19 em re­lação a ambos os aspectos, aos quais são aqui adicionados “amor leal”, yesed, e “fidelidade”, duas palavras típicas de relacionamentos dentro da aliança). Como em 20:5, todavia, o outro lado da natureza de Deus, que tanto pune quanto perdoa o pecador, também é apresentado. No contexto de uma aliança renovada, esta Auto-revelação tem signifi­cado ainda mais profundo, mostrando a maravilha da graça de Deus para com a nação perdoada de seu pecado.

Até a terceira e quarta geração. Uma expressão idiomática semita comum para expressar continuação (ver o comentário em 20:5). Nós que vivemos num mundo cheio de heranças de ódio entre raças e cultu­ras bem podemos avaliar como o pecado de uma geração afeta aquelas que a seguem. Assim, pelo menos, Moisés deve ter entendido a expres­são, pois ele imediatamente implora o perdão de Deus e a contínua pre­sença divina com Seu povo pecador, como em 32:9-14 e 33:12-16.

34:10-11. O Preâmbulo da Aliança. Parece melhor considerar estes versículos juntos, ao contrário de algumas versões que começam um novo parágrafo com o versículo 11.

10. Eis que faço uma aliança. Deus não promete simplesmente fa­zer uma aliança (o tempo do verbo é vago), mas também dá uma idéia do que estará envolvido nesta aliança, tanto de Sua parte como da parte de Israel. Este padrão era característico das alianças seculares do império hitita, especialmente dos chamados “tratados de suserania” entre as grandes potências e as nações que lhes eram tributárias. (Con­sultar Mendenhall para uma discussão detalhada deste assunto.)

Farei maravilhas. A mesma palavra hebraica usada para descrever as pragas enviadas contra o Egito é utilizada aqui (cf. 3:20). Aqui, o sentido do termo é definido pela frase coisa terrível é o que faço contigo (melhor traduzida por “algo com que os homens ficarão profundamen­te impressionados”). Como no caso do Egito, isto seria, ao mesmo tempo, um ato de juízo e um ato de salvação. Todas as obras de Deus participam desta natureza dupla: para o crente, ambos os aspectos são resumidos na cruz, pela qual o indivíduo é justificado ou condenado.

11. Eis que lançarei fora na tua presença. Aqui a natureza da “ma­ravilha” em questão é explicada como a expulsão dos cananeus e a en­trega da terra de Canaã a Israel. As raças que habitavam Canaã são de­talhadas, não apenas como uma lista etnológica, mas descrevendo a grandeza do milagre (Dt 4:38) ao demonstrar a grandeza das dificulda­des envolvidas. No entanto, como condição para a vitória, Israel deve obedecer os mandamentos de Deus: esta é, normalmente, a segunda parte do preâmbulo de uma aliança. Estas condições, ou termos, serão esboçadas abaixo, naquilo que é chamado às vezes (se incorretamente) de “decálogo ritual” (cf. cap. 23).

34:12-28. Os Termos da Aliança.

Embora esta frase seja conveniente, e uma descrição correta do material que se segue, não deve ser mal interpretada. Fosse esta uma aliança nova ou uma repetição da antiga, deve de algum modo ter in­cluído os Dez Mandamentos (versículo 28). Por outro lado, o material aqui incluído é tão próximo daquele contido no “livro da aliança” (Êx 21-23) que só podemos concluir que ambos são excertos de um mesmo documento mais longo (do qual o material legislativo de Deuteronômio também faz parte). Não devemos, portanto, considerar estes termos co­mo “abrangentes”: são apenas um resumo das exigências de Deus. Além do mais, usar o termo “decálogo ritual” para descrever a passa­gem é duplamente enganador. Em primeiro lugar, os itens só podem ser reduzidos a dez (ou mesmo doze) por meio de drástica cirurgia textual', que não é necessária se admitirmos a existência paralela dos Dez Man­damentos anteriores. Em segundo lugar, a passagem não é exclusiva­mente, nem mesmo principalmente, ritual: seria mais apropriado chamá-la “Código das Festas Religiosas” (com paralelos em Êx 23). Três vezes por ano, certas festas religiosas deviam ser celebradas em honra a YHWH, e somente a YHWH: alguns detalhes são oferecidos quanto ao que deve ser observado. O sábado é incluído como uma fes­ta. Já que expressam gratidão pela fecundidade, é bem apropriado que entre elas haja menção da festa das primícias (v. 26), e que os mágicos ritos de fertilidade existentes em Canaã sejam condenados. No entanto (num detalhe tipicamente israelita), pelo menos uma destas festas está ligada à ação redentora de Deus na História (v. 18), e a este contexto ge­ral de redenção pertencem o que à primeira vista parecem ser descone­xas regras secundárias sobre a “redenção” dos primogênitos.

12. Abstém-te de fazer aliança. Uma aliança feita com Deus exclui, qualquer possibilidade de aliança com os cananeus.

13. Cortareis os seus postes-ídolos. Os Asherim eram as árvores ou mastros sagrados (talvez os masiros simbolizassem uma árvore), que freqüentemente apareciam junto aos altares de Baal (Jz 6:25). Tais mastros simbolizavam a deusa Asera do Mar mencionada nos textos de Ras Shamra, a “Dona Sorte” dos cananeus.

14. Pois o nome de YHWH é Zeloso. Como afirma Napier, a pecu­liaridade deste código não está no material, mas na disposição. Esta frase, por exemplo, é um comentário vívido e uma explicação de 20:5, definindo a natureza de Deus em termos de Sua exigência de um rela­cionamento exclusivo com Ele.

16. Prostituindo-se. Talvez “cometendo adultério”[5] seria uma tra­dução mais apropriada aqui, já que o significado da frase é infidelidade a YHWH, o “marido” de Israel. A memória é duplamente apropriada, já que se encontra num contexto que proíbe o casamento de israelitas com cananeus, e também em vista da natureza imoral do culto a Baal (Os 4:13,14) e das ligações por ele provocadas.

17. Não farás para ti deuses fundidos. Imagens de metal fundido. Esta proibição é duplamente relevante aqui, tão pouco tempo depois do “bezerro” de ouro, também descrito com este termo desdenhoso (32:4). Alguma dúvida existe quanto à possibilidade ou não de a refe­rência ser a imagens do próprio YHWH (como os adoradores do bezer­ro de ouro alegavam que sua estátua representava YHWH, 32:5). Outra teoria é de que se trata de imagens de outros deuses. Em última análise, não há contradição: adorar uma estátua e chamá-la de YHWH é sim­plesmente não adorar a YHWH.

18. A festa dos pães asmos. Esta é mencionada em lugar da Páscoa (ver, porém, v. 25, abaixo). As razões são encontradas no capítulo 12. A Páscoa não é, estritamente falando, uma festa religiosa, mas uma re­feição familiar cerimonial.

Porque no mês de Abide saíste do Egito. Como no “livro da aliança” (23:15), a festa dos pães asmos é firmemente ligada aos acon­tecimentos históricos do êxodo, e não a uma ocasião do calendário agrícola. A este contexto, portanto, é anexada, muito apropriadamen­te, a redenção dos primogênitos (v. 20). Na verdade, o aspecto histórico e comemorativo da festa é enfatizado ainda mais pela menção à própria Páscoa no versículo 25, pois a associação do sacrifício de sangue com os pães asmos é provavelmente uma referência específica à Páscoa, e não uma referência geral a regulamentos sacrificiais.

21. Ao sétimo dia descansarás, quer na aradura quer na sega. Uma exigência muito séria numa comunidade agrícola. O fazendeiro recebe a ordem de observar o dia de descanso mesmo naquelas épocas do ano em que está mais atarefado, nas quais um dia a mais de serviço, huma­namente falando, pode significar sucesso em vez de fracasso. O princípio espiritual permanente, em ambos os Testamentos, é “buscai em primeiro lugar o seu reino” (Mt 6:33). Uma vez que em Israel guar­dar o sábado era um teste de fé na provisão divina (16:29), esta amplifi­cação é meramente uma extenção do mesmo princípio, em circunstân­cias em que a fé era ainda mais difícil, já que as consequências teriam efeito muito mais amplo.

24. Ninguém cobiçará a tua terra. Esta é uma palavra de segurança necessária ao homem que obedecia o mandamento de comparecer às festas religiosas. O agricultor piedoso bem poderia temer que seu vizi­nho israelita menos piedoso (dificilmente um estrangeiro, já que estes seriam expulsos) mudasse a posição de seus marcos (Dt 19:14), rouban­do assim sua terra, enquanto ele estivesse ausente em sua peregrinação. Este era um perigo enfrentado também pelos Cruzados (cf. a experiên­cia do famoso rei Ricardo “Coração de Leão” da Inglaterra). Quanto ao significado de cobiçar, basicamente equivalente a “tomar”, e a psi­cologia primária e direta aqui exibida, consultar o comentário em 20:17, o décimo mandamento. Alguns argumentam que a própria exis­tência de uma promessa como a do versículo 24 inplica a necessidade de uma longa jornada a um santuário central, o que significa uma data re­cente de composição do livro. No entanto, pelo menos alguma espécie de “santuário anfictiônico” era contemplada desde o início (Js 21:2; 22:12) e uma jornada de trinta quilômetros a um santuário central era um assunto sério naqueles dias primitivos (1 Sm 1:3). Também se afir­ma que “aradura” e “sega” não implicam em um povo nômade, mas num povo sedentário. Israel, entretanto, vivera sedentariamente no Egito por séculos, e até mesmo os patriarcas haviam se envolvido, ain­da que em pequena escala, em plantio e colheita (Gn 26:12), ainda antes da escravidão no Egito.

26. As primícias dos primeiros frutos. Uma vez que todas estas fes­tas têm algum significado agrícola, ao menos por sua data no ca­lendário, a referência feita às “primícias” é apropriada aqui (como na condenação da magia e dos cultos de fertilidade dos cananeus). A refe­rência à redenção dos primogênitos também é relevante pois também comemora, ao menos figurativamente, a redenção de Israel.

27. Segundo o teor destas palavras. Esta è a peroração tradicional das alianças. Nos termos acima mencionados (e sem dúvida outras leis semelhantes) a aliança renovada é estabelecida. Como no caso do pri­meiro “livro da aliança”, há uma referência ao registro escrito dos ter­mos (24:4,7). Outro paralelo seria o ato de Josué ao escrever pelo me­nos parte dos termos da aliança no “livro da lei de Deus” no santuário em Siquém (Js 24:26). É possível presumir que a gravação dos Dez Mandamentos sobre as tábuas de pedra (v. 28) seja diferente da “re­dação” dos termos da aliança no versículo 27. Neste caso, haveria duas formulações da lei da aliança, uma breve, e outra em forma de discur­so, mas ambas igualmente obrigatórias para Israel como termos da ali­ança. Já que ambas são essencialmente resumos da mesma lei, não há contradição entre as duas. Note que a aliança é feita com Moisés (como mediador) e com Israel.

28. Quarenta dias e quarenta noites. Deuteronômio transforma es­te período em dois períodos de quarenta dias. Moisés está exatamente reproduzindo as condições da doação das primeiras tábuas (quebra­das). Caso contrário poderíamos ter presumido que o número fosse uma vaga referência à primeira permanência de Moisés na montanha (24:18).

34:29-35. Os Efeitos da Comunhão com Deus. 

Esta passagem, expresando a verdade da natureza transformadora da comunhão com Deus, é famosa pelo uso que dela fez o apóstolo Paulo em 2 Coríntios 3:7-18. Paulo, contudo, presume que Moisés colocara o “véu” sobre seu rosto para que Israel não pudesse ver que a glória refletida da pre­sença de Deus estava gradativamente desaparecendo (v. 13). O texto em Êxodo afirma simplesmente que Moisés passara a usar o véu porque os israelitas estavam com medo de olhar para ele (v. 30), tal como tinham ficado com medo de se aproximar de Deus. Sem dúvida Paulo estava seguindo exegese rabínica em sua interpretação. Quanto à passagem co­mo um todo, podemos compará-la a Mateus 17:1-8, a transfiguração de Cristo: Moisés é o mediador da primeira aliança.

29. Não sabia Moisés. Como João Batista (Jo 1:21) e Paulo (1 Tm 1:15), Moisés não tinha consciência de sua própria estatura. Esta é a verdadeira grandeza espiritual. Números 12:3 corretamente o descreve como o mais manso (humilde) dos homens. Este fato é um bom exem­plo disso.

A pele do seu rosto resplandecia. Esta história antiga contém duas ocorrências lingüísticas incomuns, que garantem sua autenticidade. A primeira é o verbo aqui traduzido “resplandecer”. “Emitia raios” seria uma tradução mais acertada. Infelizmente, porque o substantivo cog­nato também significa “chifre”, a Vulgata traduziu o verbo errada­mente como “tinha chifres”, e assim é que Moisés aparece usando um par de chifres em obras de arte do período medieval. A segunda ocor­rência incomum será discutida no versículo 33.

33. Pôs um véu sobre o rosto. A palavra hebraica equivalente a “véu” (masweh) é desconhecida, fora desta passagem, mas tanto o contexto quanto a interpretação judaica tradicional deixam seu sentido bem claro. É bem infundada a tradução de alguns comentaristas recen­tes, “máscara sacerdotal’’ (embora tais máscaras fossem utilizadas no mundo antigo), ainda mais porque Moisés não está agindo aqui como sacerdote, e sim como profeta. O incidente como um todo sugere uma solução improvisada, não um ritual religioso.

34. Removia o véu. Moisés via a glória de YHWH com o rosto des­coberto (2 Co 3:18). Assim, sua oração de 33:18 (“mostra-me a Tua glória”) foi respondida afinal.

c. A Execução das Ordens de Deus (35:1-39:43)

Estes cinco capítulos reproduzem quase que verbalmente (com mudanças de tempo e de pessoa, apenas) o material contido nos capítulos 25-31. Por causa disso, alguns comentaristas consideram esta seção uma simples repetição acidental. Tal sugestão, todavia, é impossível, devido a interessantes adições e modificações na disposição do mate­rial. Caso seja uma repetição, é intencional, para demonstrar a fidelida­de de Moisés em executar as ordens divinas (25:9). A repetição também ressalta a fidelidade de Deus; Ele continuará a habitar entre Seu povo, a despeito de seu fracasso inicial. Dois métodos são usados para deixar bem clara a intenção da narrativa. O primeiro é o recurso mecânico da duplicação do material; o segundo é a repetição sétupla da frase “como YHWH ordenara a Moisés” (39:1,5,7,21,26,29,31). Esta repetição sétupla ocorre duas vezes nestes capítulos (ver também 40:19,21,23,25,27,29,32), para que não deixemos de observá-la. No en­tanto, devido ao fato de que a maior parte do material aqui contido já apareceu antes, somente aquelas passagens em que há diferenças signi­ficativas serão comentadas. Quanto às demais, aconselha-se ao leitor voltar às passagens paralelas e aos respectivos comentários. A LXX di­fere mais amplamente do texto massorético nesta divisão do que em qualquer outra parte de Êxodo. Para uma discussão detalhàda, consul­tar Gooding.

35:1-3. Reiteração da Lei Sobre o Sábado. Esta passagem é, ao mesmo tempo, uma reiteração do mandamento relativo ao sábado e também de 31:12-17.

2. Trabalhareis seis dias. A menção do sábado ocorre aqui, presumivelmente, por ser o sábado um sinal da aliança (31:16), e o contexto é o da renovação da aliança. Pode também ter como propósito (confor­me mencionado acima) demonstrar a fidelidade de Moisés em apresen­tar os mandamentos que acabara de receber (34:21). A lei referente ao sábado dá início a esta seção, embora tenha encerrado a seção anterior, no capítulo 31. Isto só pode ser intencional e, caso seja, há uma conclu­são clara a observar. Mesmo em sua nova ansiedade de construir o Ta­bernáculo, Israel deve se lembrar de guardar o dia sagrado.

3. Não acendereis fogo. Esta proibição severa não é encontrada em nenhum outro lugar do Velho Testamento. No entanto, 16:23 parece indicar que o suprimento de maná para o sábado devia ser cozido na noite anterior, o que implica a mesma regra. O “acender o fogo” ainda é considerado pelos judeus ortodoxos como trabalho, e assim, é proibi­do no sábado (até mesmo acender fogões a gás). Hyatt sugere que a proibição pode ter visado as fogueiras utilizadas no serviço metalúrgico exigido para o Tabernáculo.

35:4-29. Ofertas de Material e Mão de Obra para o Tabernáculo.

10. Venham todos os homens hábeis entre vós e façam tudo. Como na passagem anterior (25:1-9), todos aqueles cujo coração os movesse poderiam doar materiais para a construção do Tabernáculo (v. 5). Ago­ra, porém, o convite ao trabalho é ainda mais amplo. Nem só Bezalel e Ooliabe podem participar: todos os “homens hábeis” podem participar na construção.

21. O padrão se torna ainda mais amplo: qualquer pessoa podia trazer uma oferta, mesmo aqueles sem habilidade para construir, fos­sem as ofertas artigos pessoais como jóias ou simples matérias primas.

25. As mulheres podiam tecer e fiar (Pv 31:13) e os chefes tribais mais ricos traziam pedras preciosas e especiarias (vv. 27,28). Todos ti­nham sua parte na construção do santuário de YHWH e, sem que cada um cumprisse seu papel, este não poderia ser completado (cf. Ef 4:16). Aqui também há uma mensagem para nós, hoje.

35:30-36:7. Suprimentos Abundantes.

5. O povo traz muito mais do que é necessário. Os artífices que Deus escolhera tinham de convencer o resto da congregação a parar de trazer ofertas, tão generosa havia sido a contribuição. Esta é a reação típica do povo de Deus à graça salvadora e ao amor perdoador de Deus. Compare esta passagem ao relato da unção de Jesus em Betânia (Mt 26:7), e à generosidade da igreja em Filipos (Fp 4.T4-19). Deve ter sido desapontamento e frustração para aqueles que haviam demorado em trazer suas ofertas por não suportarem se afastar de seus tesouros o des­cobrir que agora Deus já não mais precisava de sua ajuda. Seu trabalho estava terminado, mas eles jamais teriam qualquer participação na obra: que Deus nos livre de tal frustração.

36:8-38. A Construção do Tabernáculo. 

Esta é uma repetição das instruções de 26:1-37, com mudanças nas pessoas e tempos dos verbos. Tal repetição é característica tanto da literatura israelita em geral quan­to, especialmente, dos círculos sacerdotais: o livro de Ezequiel contém vários exemplos, bem como o livro de Crônicas. Como um arquiteto sente prazer em estudar minuciosamente plantas e projetos, assim o sa­cerdote piedoso sentiria prazer ao ler e reler esta meticulosa recapitulação das especificações previamente fornecidas.

37:1-38:20. A Fabricação do Equipamento. 

Esta passagem segue a ordem lógica do trabalho de construção, ao contrário da seção anterior (25:31). Aqui, por exemplo, o Tabernáculo propriamente dito é cons­truído antes de seus móveis e utensílios. O altar de incenso é menciona­do juntamente com os outros objetos que ficavam dentro do Ta­bernáculo, e o tanque é mencionado junto com os artigos que ficavam no átrio, ao qual pertencia. Estes dois haviam sido apêndices desloca­dos na seção anterior, contida no capítulo 30. Finalmente, o incenso é mencionado no lugar apropriado, logo em seguida ao altar de incenso, e já não se encontra num suplemento. Tudo isto mostra uma nova dis­posição do material, cuidadosa e sistemática, e não uma repetição im­pensada.

37:1. Fez também Bezalel a arca. Não há contradição entre este versículo e Deuteronômio 10:3, onde se afirma que Moisés a construiu (no sentido de “fez com que fosse construída”). Em lugar algum Êxo­do afirma que Moisés possuísse qualquer habilidade artística.

38:1. O altar do holocausto é assim descrito nesta passagem (dife­rente da descrição na passagem anterior) para distingui-lo do altar de incenso, que foi mencionado no contexto imediato aqui (37:25).

8. Dos espelhos das mulheres que se reuniam para ministrar à por­ta da tenda da congregação. Esta é uma informação nova e interessan­te quanto à fonte do cobre utilizado na fabricação do tanque. Se os ho­mens deram braceletes (35:22), as mulheres deram espelhos (sempre fei­tos de metal polido no mundo antigo). O verbo traduzido ministrar é raro e interessante, e é usado apenas uma outra vez em relação a mulhe­res que serviam no santuário (1 Sm 2:22). Significa realmente “organi­zar em grupos de combate”, mas é usado para descrever o ministério cotidiano dos levitas (Nm 4:23, etc.). Representa, provavelmente, uma forma de serviço organizado no santuário, quer limpando ou varrendo (em cujo caso muitas Associações Femininas podem encontrar aqui o seu protótipo), quer cantando e dançando por ocasião das festas reli­giosas (como Miriã em 15:20). Por outro lado, em vista da referência à porta, elas poderiam ter ocupado a humilde função de porteiras (SI 84:10). Alguns preferem ver aqui um paralelo às “mulheres de templo” (dedicadas ao santuário) de Canaã, devido ao fraseado de 1 Samuel 2:22. Tais práticas imorais, entretanto, eram totalmente proibidas em Israel, e a referência em 1 Samuel enfatiza a enormidade do pecado dos filhos de Eli ao tratarem as servas de YHWH como se fossem prostitu­tas do culto a Baal. FoSsem elas tal espécie de gente, dedicadas ao culto de Baal, a conduta dos filhos de Eli não daria ocasião a qualquer co­mentário. Mais uma vez, a forma externa de dedicação ao santuário é comum aos cultos de YHWH e Baal, mas a natureza do serviço presta­do fica a mundos de distância (Is 55:8,9). Consultar Hyatt para uma discussão detalhada.

38:21-31. Estatísticas e Custo.

21. Para o serviço dos levitas. Sua indicação é registrada em Números 3, onde Itamar (já mencionado em 6:23) também aparece na função de chefe do grupo.

24. Todo o ouro empregado na obra. Contado em medidas aproxi­madas, todas as quantidades de metal precioso mencionado chegam às toneladas (uma tonelada de ouro, quatro toneladas de prata e três tone­ladas de cobre). É possível que as quantidades tenham sido incorreta­mente preservadas nos manuscritos.

25. A prata dos arrolados da congregação. O valor total da prata (muito elevado) é obtido multiplicando-se o número de israelitas adul­tos mencionado em Números 1, pelo meio siclo que cada um devia dar pela sua “redenção” (30:13). Esta quantia não é considerada parte da oferta voluntária. Isto também explica o fato de haver mais prata do que cobre, contrário a proporções normais. Com referência ao “siclo do santuário”, ver 30:13. Tais referências são exemplos interessantes de tentativas antigas de padronização de pesos. Vários exemplares deste beqa‘ ou peso de meio siclo já foram encontrados em Israel (consultar Driver quanto aos equivalentes exatos nas medidas modernas).

39:1-31. A Confecção das Vestes Sacerdotais.

1. Como YHWH ordenara a Moisés. Este sonoro refrão ocorre, conforme mencionado, sete vezes neste capítulo e sete vezes no próxi­mo. A intenção deliberada da repetição é clara, enfatizando a obediên­cia exata e detalhada demonstrada por Moisés às mais insignificantes instruções divinas.

3. De ouro batido fizeram lâminas delgadas e as cortaram em fios. Este processo (não mencionado em qualquer outra parte do Velho Tes­tamento) é um detalhe técnico interessante, explicando como Israel pro­duziu os fios de ouro necessários à confecção dos tecidos das vestes sa­cerdotais, de modo a deixá-las ainda mais ricas.

8. Fez também o peitoral. Em meio a tanta repetição, “Urim e Tumim” não são mencionados aqui, embora o “peitoral” que os continha seja descrito em detalhe. Talvez as duas pedras oraculares não sejam mencionadas por não terem sido fabricadas, sendo antes objetos natu­rais. Comparar este fato à ordem de que as pedras do altar de YHWH devem ser naturais (20:25), não esculpidas por mão humana.

30. Também fizeram de ouro puro a lâmina da coroa sagrada. A “flor” ou lâmina de ouro com a inscrição “Santidade a YHWH”, que era presa à mitra sacerdotal pelo diadema de fios violeta, é aqui descrita como uma' coroa real (cf. 28:36,37). Isto torna tanto seu significado quanto sua aparência bem claros. Por outro lado, o hebraico pode estar descrevendo a combinação da lâmina e dos fios como uma “coroa”. Já que os fios trançados correspondiam ao “diadema” dos reis orientais, esta interpretação é possível.

39:32-43. A Aprovação do Trabalho. 

Todas as peças destinadas ao Tabernáculo estão agora terminadas, e são levadas a Moisés para a ins­peção final (antes da montagem e dedicação do Tabernáculo no cap. 40), assim como os animais foram levados perante Adão em Gênesis 2:19, para inspeção e nomenclatura.

38. O altar de ouro. A julgar pelo material de que foi feito, deve tratar-se do pequeno altar de incenso. O “altar de bronze” do versículo seguinte é o grande altar do sacrifício, como se pode ver pelo material.

43. Viu, pois, Moisés toda a obra... e Moisés os abençoou. Há aqui uma provável reminiscência deliberada de Gênesis 1:31. Moisés exami­na o trabalho feito: uma vez que as instruções de Deus foram rigorosa­mente obedecidas, ele reconhece o trabalho como bem feito, e o aben­çoa. Num certo sentido, trata-se de uma nova criação (cf. 2 Co 5:17), pois Israel nasceu naquele dia como uma nação de adoradores.

d. A Consagração do Tabernáculo (40:1-38)

40:1-15. Instruções Para a Consagração. Estes versículos, como os capítulos 25-31, são, estritamente falando, voltados para o futuro. Moisés volta a receber instruções, não apenas sobre a montagem do Ta­bernáculo e a colocação dos vários objetos rituais, mas também para a “unção” do Tabernáculo, sua mobília e sacerdotes, e para sua dedi­cação perpétua (v. 15). Comparar com 29:9 quanto ao “sacerdócio perpétuo” da família de Arão. As instruções aqui oferecidas serão exe­cutadas nos últimos versículos deste capítulo.

40:16-33. A Execução da Consagração.

17. No primeiro mês do segundo ano, no primeiro dia do mês. Um ano se passou desde o êxodo (12:2) e Israel já havia ficado junto ao Si­nai por nove meses (19:1). Se descontarmos o período em que Moisés permaneceu na montanha, não sobra muito tempo para a fabricação dos vários objetos, se todas as datas são reais e não simbólicas.

27. E acendeu sobre ele o incenso aromático. Comparar com o versículo 29, que indica-o começo das ofertas e sacrifícios normais, apa­rentemente com Moisés agindo como sacerdote. No entanto, talvez esta frase tenha um sentido vago e “causativo”, “fez queimar sobre ele o incenso aromático”.

40:34-38. O Selo de Deus Sobre o Tabernáculo.

34. A nuvem cobriu a tenda da congregação. Dois pensamentos se juntam neste capítulo. O primeiro é que Deus demonstra Sua apro­vação ao trabalho recém-completado, descendo na nuvem de “glória” que indicava a Sua presença (cf 33:9). Na verdade, Ele de tal modo co­bre e enche o Tabernáculo que nem mesmo Moisés, o fiel servo de Deus (Nm 12:7), ousa entrar (v. 35). O segundo pensamento é que esta mes­ma nuvem, o símbolo da presença de YHWH, guiou o povo de Israel dia e noite durante sua longa peregrinação pelo deserto (v. 36).

38. De dia a nuvem de YHWH repousava sobre o Tabernáculo... em todas as suas jornadas. Driver observa que o livro termina com o cumprimento da promessa de 29:45. YHWH está vivendo no meio de Seu povo: a teologia da presença de Deus se tornou o fato de Sua pre­sença. Davies acrescenta a este pensamento o fato de que o livro termi­na com uma atitude otimista em relação ao futuro. O Deus que vive en­tre Seu povo é o Deus que os guiará e conduzirá até Canaã, em cumpri­mento de Sua promessa aos patriarcas. Falar de uma jornada implica em esperar por uma chegada: Aquele que começara uma obra de sal­vação em favor de Israel iria completá-la (Fp 1:6). Esta é, ao mesmo tempo, a esperança e a confiança do povo de Deus, ao partirem do Si­nai, e é, portanto, nossa própria esperança. 




[1] Alguns eruditos de posição mais radical vão ainda além. Ressaltando o fato que o bisneto de Arão era sacerdote da arca quando esta estava em Betel, ao tempo dos juízes (Jz 20:28), e que Betel se tornou mais tarde um dos dois centros do culto icônico a YHWH, eles afirmam que esta narrativa era a base histórica do santuário em Betel, e que em sua forma original era favorável a Arão. Afirmam que YHWH era adorado em Betel sob a forma de um touro jovem muito antes de Jeroboão. Consultar Hyatt, que cita New­man, quanto a estes pontos de vista que obviamente envolvem uma completa rejeição da narrativa bíblica. 


[2] Embora talvez o plural rrfihõlõt se refira apenas a tipos diferentes de dança, ou mesmo aos variados movimentos de um tipo de dança. Pode até mesmo ser um “plural de indignação”. 


[3] Alguns estudiosos consideram o Tabernáculo não como uma retroprojeçãQ do Templo de Salomão, mas do Templo de Zorobabel, depois'do exílio. Isto elimina alguns problemas, mas cria outros, de modo que o argumento principal permanece inalterado. 


[4] Contudo, na Bíblia, “o servo do rei” é uma alta função estatal (1 Rs 11:26), prova­velmente tão alta quanto “o amigo do rei” (1 Rs 4:5). A distinção não deve ser enfatizada no Velho Testamento. 


[5] Embora o termo hebraico zãnâh em si mesmo não implique necessariamente adultério, mas apenas relação sexual irregular: a analogia do casamento não deve ser en­fatizada, portanto, a não ser que o contexto traga uma referência clara que possa especifi­car precisamente o significado.