26 de setembro de 2016

VICTOR P. HAMILTON - José - Gênesis 37—50

victor hamilton danilo moraes
José - Gênesis 37—50 

A história de José começa de forma agourenta: “E Israel amava a José mais do que a todos os seus filhos, porque era filho da sua velhice” (37.3). E um prenúncio de problemas, a exemplo do que ocorre com “amava Isaque a Esaú [...] mas Rebeca amava a Jacó” (25.28). Talvez a expressão “amava mais que” nos faça lembrar de "era mais astuta que” (3.1), outra expressão que também anuncia­va problemas. O pai deu ao filho “uma túnica de várias cores” (ARC) ou “uma túnica talar de mangas compridas” (ARA), conforme o que lemos em 37.3. Os irmãos reagiram com raiva e inveja. 

Um Jovem com um Sonho 

Para piorar, pelo menos segundo o ponto de vista dos irmãos, José lhes conta dois de seus sonhos. Em um, os feixes de seus ir­mãos se inclinavam diante do seu (37.9). No segundo, os luminares se inclinavam perante ele (37.9). Como podemos avaliar aquilo que motivava José naquele momento? Será que ele, nas palavras de G. W. Coats, “tinha sonhos grandiosos e espontaneamente se gabava deles e de seu óbvio significado perante todos os membros da famí­lia”? Ou, como afirma W. L. Humphreys, devemos ler os sonhos de José e o fato de ele contá-los como “algo entre uma bravata de um adolescente mimado com dezessete anos de idade e sinais dados por Deus a respeito do futuro de sua família”? 

O comportamento de José não foi diferente do comportamento do jovem Davi, que se dispôs a enfrentar Golias (1 Sm 17.26,31) apesar dos protestos de Saul e de seus irmãos mais velhos. Os sonhos provêm de Deus. Para o José adolescente, a revelação teve ao menos um significado: Deus tinha um plano para sua vida, e esse plano envolvia algum tipo de liderança. Temos aqui um ado­lescente com senso de destino, de destino divino. Ele compartilha esse fato em virtude do entusiasmo que sentia, não por insolên­cia. “Eis-me aqui, Senhor, envia-me a mim.” Seus irmãos, no en­tanto, não puderam tolerar isso. 

Decerto, não é a primeira vez que Gênesis chama a atenção para o sonho de alguém. Entres sonhos anteriores, estão os de Abraão (15.12-16), Abimeleque (20.3), Jacó (28.10-16) e Labão (31.24). O que diferencia o sonho de José dos anteriormente apre­sentados é que, em todos os outros, Deus fala de modo claro com o que sonha. Em contrapartida, nos dois sonhos de José, nada lhe é dito. Os dois sonhos, sucedidos por sua viagem ao Egito (uma viagem que no devido tempo redundaria na salvação de Israel [45.5; 50.20]), são certamente análogos aos sonhos do José do Novo Testamento. Ele também seguiu para o Egito após dois sonhos (Mt 1.20,21; 2.13) em circunstâncias difíceis, levando con­sigo Maria e a criança que “salvará o seu povo dos seus pecados” (Mt 1.21). 

Experiências Desagradáveis (37.9-36; 39—41) 

José ainda não tinha visto tudo que Deus planejara para sua vida. Parte disso estava a ponto de acontecer. 

Gênesis 37. Para os irmãos, não basta descartar José como a um impostor e ignorá-lo. Ele deve ser eliminado. Após considerar a idéia de dar cabo do irmão, eles o vendem a mercadores que iam a caminho do Egito. Em um único versículo, esses mercadores são chamados tanto “midianitas” como “ismaelitas”. Juntamente com outros fatos presentes na narrativa, tal fenômeno é muitas vezes interpretado como uma indicação de duas histórias independen­tes acerca de José: um relato J (“ismaelitas”) e um relato E (“midianitas”). Para derrubar a credibilidade de tal teoria, basta o texto de Juízes 8.22-24, que claramente identifica midianitas e ismaelitas como um único grupo. Além disso, era comum na anti­guidade que grupos e indivíduos tivessem mais de um nome (a respeito desse fenômeno, leia Kidner e Kitchen). Poder-se-ia su­gerir que o termo “ismaelita” inclui todos os viajantes nômades do norte da Arábia e sul da Palestina, enquanto “midianitas” se­ria um termo mais específico com respeito à etnia. Quando os ir­mãos os vêem a distância, os viajantes parecem ser um grupo de nômades beduínos (vv. 25,26), “ismaelitas”. Quando o grupo che­ga suficientemente perto para conversar com os irmãos de José, o texto os identifica como “midianitas” (v. 28a) (veja Longacre). 

Ao retornarmos à narrativa, devemos nos perguntar quais os pensamentos de José durante todo aquele pesadelo. Embora ti­vesse em mente uma posição de liderança, ele se acha vendido como escravo, por seus próprios irmãos, a estranhos que rumavam a uma terra sobre a qual ele nada sabia! E quanto aos planos de Deus? Como tudo isso se encaixa? 

Gênesis 39. Tudo vai bem por algum tempo. José serve a um empregador respeitável e tem um trabalho bom e seguro. Isso, entretanto, dura apenas algum tempo. Na ausência do marido, a esposa de Potifar se oferece a José. Possivelmente, trata-se ape­nas de uma mulher vítima do tédio e de sua própria luxúria de­senfreada. Há, porém, um outro fator que contribui nesse cená­rio. Potifar é chamado de “oficial” de Faraó. Trata-se de uma óti­ma tradução do termo hebraico, mas a mesma palavra serve para “eunuco”. Alguns reis da antigüidade, por razões óbvias, exigiam que seus cortesãos mais poderosos fossem eunucos. Anteriormen­te vítima do ódio e da inveja, José seria agora vítima de uma cruel mentira. Por um crime do qual é inteiramente inocente, José vai parar na prisão. Mas e quanto aos sonhos, aos planos de Deus para sua vida? 

Quase todos os comentaristas observam a semelhança entre essa história e o “Conto dos Dois Irmãos” egípcio, oriundo do sé­culo XIII a.C. Um irmão solteiro, Bata, vive com o irmão mais velho, Anubis, e sua esposa. Durante a ausência do marido, a es­posa tenta seduzir o cunhado: “Venha, vamos dormir [juntos] por uma hora”. Bata recusa com veemência e foge “como um leopar­do”. A esposa, ao pôr a culpa em Bata, é bem-sucedida durante algum tempo. Salvar Bata de Anubis exige um milagre por parte de Re, o deus do sol, que coloca um rio cheio de crocodilos entre os dois. Quando Anubis descobre que sua esposa é a culpada, “ele chega a sua casa, mata sua esposa e a lança aos cães”. 

Uma das principais diferenças entre as duas histórias é o des­tino da esposa sedutora. Não nos é informado o destino da esposa de Potifar. Nahum Sarna sugere que “o motivo desse desinteresse reside no fato de que nossa história não possui um propósito em si mesma, não tendo sido escrita para o lazer. O enfoque da histó­ria é a reação de José”. E até possível que Potifar tenha desconfi­ado da história da esposa, o que explicaria o porquê de José ter sido aprisionado e não executado. 

Nem passava pela cabeça de José que a odiosa mentira da es­posa de Potifar, com sua subseqüente prisão, serviriam para ele atrair a atenção de Faraó e, no devido tempo, surgir como salva­dor da nação e de sua própria família. Se ele tivesse permanecido na casa de Potifar pelo resto de sua idade adulta, nunca teria captado a atenção de Faraó e jamais se tornaria uma pessoa tão influente no Egito. Temos aqui, no relato de sua vida, mais um exemplo de Deus operando o bem a partir do mal perpetrado por humanos. 

Curiosamente, o capítulo 39 é o único capítulo em 37—50 cujo enfoque é José (o que exclui o capítulo 38 e a maior parte do capí­tulo 49), que menciona “Jeová / Senhor” (vv. 2, 3 [2x], 5 [2x], 21, 23 [2x]). Todas as menções são do narrador. Em quatro delas, ele declara que “o Senhor estava com José” (vv. 2,3,21,23). Assim como a presença de José significou a diferença entre a morte e a sobre­vivência do Egito, a presença de Jeová significou a diferença en­tre morte ou vida para José. 

Gênesis 40. Na prisão, José faz amizade com dois servos de Faraó que haviam caído em desgraça, o copeiro-mor e o padeiro- mor e interpreta-lhes os sonhos. Seu único pedido de auxílio é dirigido ao copeiro: por favor, diga a Faraó que fui preso injusta­mente e que desejo minha liberdade (vv. 14,15). “O copeiro-mor, porém, não se lembrou de José” (v. 23), que permaneceu preso por mais dois anos (41.1). Onde estava Deus em meio a tudo isso? 

Será que não havia uma “serpente astuta” por perto, que suge­risse a José: “Deus não disse que teus irmãos se curvariam diante de ti? E assim que Deus te trata como paga por tua obediência?” Todas as tentações estavam presentes: raiva, amargura, ressen­timento, pessimismo, autopiedade. 

Gênesis 41. Os dois sonhos de Faraó, no mínimo perturbadores, proporcionam uma oportunidade para a libertação de José. Como no caso dos sonhos do copeiro-mor e do padeiro-mor (40.8), José rapidamente nega ter um dom inato para a interpretação de so­nhos (41.16). 

Após interpretá-los, José aconselha Faraó a nomear alguém para a supervisão do armazenamento de víveres e sua posterior distribuição. Um homem prevenido vale por dois. Faraó escolhe José para esse serviço (v. 41). 

Até aqui, seguimos a sua vida desde os dezessete anos (37.2) até seus trinta anos de idade (41.46). Após um início estimulante, vimos José mergulhar num pesadelo que duraria treze anos. Uma luz, contudo, começava a surgir. Seus treze anos de perplexidade foram apenas a metade do que seu bisavô tivera de suportar. Aos setenta e cinco anos de idade, Abraão recebera de Deus a promes­sa de um filho, mas somente ao completar cem anos ele pôde ter nos braços o filho da promessa. 

Seu fértil e exogâmico matrimônio com a egípcia Asenate nos faz perceber que a sorte de José está a ponto de melhorar (v. 45). Desse casamento nascem dois filhos, a quem ele chama Manassés e Efraim (vv. 51,52). O nome do primeiro filho evoca o fato de que Deus o está ajudando a esquecer as mágoas do passado. Hoje em dia, algumas pessoas chamam isso de “curar lembranças” ou, nas palavras de Filipenses 3.13: “esquecer das coisas que atrás ficam”. O nome do segundo filho lembra que Deus faz de José um servo útil mesmo em uma terra de sofrimentos, incertezas e decepções. O esquecimento das agruras passadas e uma vida produtiva es­tão entre as mais seletas bênçãos divinas sobre aqueles que en­frentam vicissitudes semelhantes às de José. 

Deus Age em todas as Coisas para o Bem (42—50) 

Os últimos capítulos de Gênesis descrevem as viagens dos ir­mãos de José, entre Egito e Canaã, numa tentativa de conseguir trigo. As viagens culminam com José se revelando a seus irmãos, reconciliando-se com eles e tendo uma última chance de estar com seu pai. Desde a última vez que se avistara com seus irmãos, ha­viam-se passado vinte anos: treze anos no Egito, seguidos de sete bons anos. No capítulo 37, ele foi vê-los. No capítulo 42, seus ir­mãos foram vê-lo. 

Qual haveria de ser a reação de José? Será que ele os receberia de braços abertos? Iria ele deixar o passado no passado? As sau­dações de José podem nos surpreender. De início, ele acusa seus irmãos de serem espiões, o que eles não são (42.9). Em seguida, coloca-os na prisão, afirmando que só os libertaria se um deles voltasse a Canaã para trazer o irmão mais novo (42.15-17). Em terceiro lugar, mantém Simeão aprisionado, enquanto os outros retornam para buscar Benjamim. Nesse meio tempo, José lhes enche os sacos de trigo e coloca o dinheiro no meio dos sacos. Não apenas espiões, mas também ladrões (42.18-25)? Em quarto lu­gar, com Benjamim presente, José volta a despedir seus irmãos, mas secretamente coloca uma valiosa taça de prata no saco de Benjamim (44.1-13). Judá então implora para que, no lugar de Benjamim, José o pegue como escravo (44.14-34). 

C. H. Gordon fala sobre as semelhanças entre as conspirações de José e uma história do Egito Médio chamada “As Queixas do Camponês Eloqüente”. Um camponês perde suas mulas para um patife por causa de uma falsa acusação de invasão de propriedade. Tanto para Faraó como para o dono da propriedade que ele supostamente invadiu, o camponês se queixa com veemência. Os dois ouvem com atenção e, após algum tempo, decidem em seu favor. Ainda assim, durante todo o processo, eles cuidam para que a espo­sa e a família do camponês recebam comida e suprimentos básicos. 

No contexto do relato bíblico, porém, qual seria o juízo do leitor acerca de José naquele momento? Ele foi cruel e malvado? Brin­cou com seus irmãos? Agiu da mesma forma que Jacó no passado? Seu objetivo era se vingar dos irmãos e fazê-los sofrer? Ele brin­cou de deus com eles (apesar de suas palavras em 42.18)? Antes desse episódio, Gênesis já havia apresentado outras cenas de cho­ro (Esaú [27.38]; Jacó [29.11]; Esaú e Jacó [33.4]), mas José chora mais que todos juntos em Gênesis 42—50 (42.24; 43.30; 45.2,14,15; 46.29; 50.1). O fato de o texto tantas vezes chamar atenção para as lágrimas de José pode ser uma forma de informar o leitor de que ele não está sendo vingativo. Pode servir para nos comunicar que, embora misteriosos, seus motivos não podem ser tão terrí­veis como parecem. 

Devemos admitir que ele utilizou palavras ásperas e tratou-os de forma ríspida (42.7). Tais medidas, contudo, não são em últi­ma análise redentoras? E verdade que ele falou “asperamente” com seus irmãos, mas não foi mais duro que Deus com Adão e Eva no Éden. No Éden, o principal objetivo de Deus era restaurar aque­les dois. Palavras ásperas são palavras de salvação. R. Alter men­ciona o necessário e “doloroso processo pelo qual os irmãos acei­tam a responsabilidade pelo que fizeram e são levados a aceitar sua culpa”. 

Já no fim da história, vemos que José se recusa a ser bajulado por seus irmãos nas seguintes palavras: “Não temais; porque, porventura, estou eu em lugar de Deus?” (50.19). B. Dahlberg, numa tentativa de vincular a temática de José com outras pareci­das em Gênesis 1—11, compara as palavras dele às da serpente: “sereis como Deus” (3.5). Ele também compara “Vós, na verdade, intentastes o mal contra mim; porém Deus o intentou para o bem” (50.20 — TB [Tradução Brasileira]), de José, com “sabendo o bem e o mal”, da serpente. Essas comparações ilustram a maestria lite­rária que permeia todo o primeiro livro da Bíblia. O termo hebrai­co para “intentar” em 50.20 pode também ser traduzido por “pla­nejar”: “Vós, na verdade, ‘planejastes’ o mal contra mim; porém Deus o ‘planejou’ para o bem”. A mesma palavra aparece na forma nominal em 6.5: “E viu o Senhor que [...] que toda imaginação dos pensamentos de seu coração era só má continuamente”. Gênesis começa e termina com pessoas que planejam o mal. Já o melhor texto análogo, que mostra Deus planejando algo de bom para al­guém, fica em Jeremias 29.11. Novamente em um contexto de adversidades, trata-se de uma promessa dirigida ao povo que es­tava no exílio (utilizando a mesma raiz hebraica de Gênesis 6.5 e 50.20): “Porque sou eu que conheço os planos que tenho para vocês [...] planos de fazê-los prosperar [...] planos de dar-lhes esperança e um futuro” (Jr 29.11 — NVI). 

E como José supera as tentações que pudemos observar? Ele sempre relacionou todas as suas experiências de vida, quer boas quer más, ao plano soberano de Deus para sua vida. “Para con­servação da vida, Deus me enviou diante da vossa face [...]Assim, não fostes vós que me enviastes para cá, senão Deus” (45.5-8). Ou, em outra parte: “Vós bem intentastes mal contra mim, porém Deus o tornou em bem” (50.20). Vemos aqui a expressão do mes­mo sentimento que mais tarde aparece em Romanos 8.28. Volta­remos a vê-lo com Daniel (Dn 6.10) e Paulo (Fp 1.12-14). 

Precisamos indagar sobre o que é a “vida a ser conservada” (45.5), ou sobre quem é o “grande povo conservado vivo” (50.20), pela longa presença de José no Egito. Em certo sentido, o texto diz respeito a todos que vivem no Egito. Não fosse o sábio conse­lho de José, que os levou a se prepararem para os anos de escas­sez, os egípcios teriam sido dizimados pela fome. 

O texto nos informa que ele já havia sido uma bênção para um egípcio e sua casa (39.5). Seria agora uma bênção para todos os egípcios? Sendo esse o caso, a graça divina sobre aqueles incrédu­los é um exemplo vívido do cumprimento da promessa de Deus para Abraão: “abençoarei os que te abençoarem”. Já vimos um drástico cumprimento de “amaldiçoarei os que te amaldiçoarem” em Gênesis 12. Ao tomar a esposa de um patriarca para seu harém, Faraó deflagra uma erupção de pragas em sua própria casa. Por outro lado, elevar o bisneto de Abraão aos mais altos escalões da administração egípcia faz com que os egípcios sejam salvos de uma crise devastadora. 

Antes de mais nada, a “vida conservada” e o “grande povo” mencionados por José a seus irmãos certamente dizem respeito aos descendentes de Abraão. Em gênesis, observamos muitos exem­plos do povo de Deus sendo ameaçado de extinção. Ora, se a família com quem Deus firmou a aliança é aniquilada, isso significa que todas as suas promessas somem numa nuvem de fumaça? 

Exibindo grande maturidade espiritual, José vê a si mesmo e a suas experiências no Egito como um meio, definido por Deus, para a perpetuação das promessas de Deus para o povo de Deus. A história de José não se relaciona apenas a Gênesis 1—11 (confor­me a análise de Dahlberg), mas, com relevância ainda maior, à promessa divina que se inicia em Abraão. A história também re­laciona Gênesis a Êxodo, na medida em que tanto essa história como os primeiros capítulos de Êxodo destacam o mesmo tema: potenciais ameaças à promessa divina. 

Na mente de José, contudo, não há qualquer receio quanto ao cumprimento das promessas divinas. Quanto à sua consumação, ele está completamente convencido. Deus haverá de “visitar” os irmãos de José (50.24,25), assim como “visitou” Sara (21.1), le­vando-os então à terra de Abraão, Isaque e Jacó. 

A história de José ilustra de forma poderosa o controle de Deus sobre a história humana. Além disso, demonstra de forma incisi­va que o mal pode gerar mais mal, porém que isso nem sempre é verdade. Do mal pode advir o bem, mas alguns requisitos são necessários. Como observou Jacobs: “O significado hermenêutico da história [de José] não se resume na universalidade da interven­ção divina nos assuntos humanos, fazendo com que o mal sempre produza o bem”. Algumas vezes, o mal é transformado; outras vezes, não. Deus, por vezes, intervém; outras vezes, não. Algu­mas vezes Deus provê o cordeiro; outras vezes, não. O que a histó­ria de José nos traz não é uma garantia, porém, mais exatamen­te, a esperança de que o bem possa surgir de todo mal. 

Judá e Tamar (38) 

Obviamente, Gênesis 38 interrompe o fluxo da história de José. É possível passar do capítulo 37 para o 39, ignorando por comple­to o capítulo 38, sem afetar a continuidade da história. Alguns comentaristas, como Nahum Sarna (em seu mais antigo comen­tário) e Eric Lowenthal, deixam esse capítulo totalmente de lado. 

O capítulo é a respeito de Judá, filho de Jacó e irmão de José. Com uma mulher cananéia, ele tem três filhos: Er, Onã e Selá. Er, o mais velho, casa-se com Tamar. Er morre e deixa Tamar como uma viúva sem filhos. A partir de então, passa a ser responsabili­dade do segundo filho, Onã, gerar um filho com sua cunhada, a fim de preservar o nome do primogênito falecido (ver Dt 25.5-10 para a lei mosaica acerca do matrimônio levirático; leviré o termo em la­tim para ‘cunhado’). Onã evita fazê-lo praticando um método de controle de natalidade, o coito interrompido (v. 9). Por se recusar a aceitar sua responsabilidade, Onã morre. Judá manda Tamar de volta para seu pai, com a promessa de que voltará a chamá-la quan­do Selá tiver idade suficiente para ter relações sexuais. 

A promessa, contudo, não é jamais honrada. Decidida a resolver a situação, Tamar se veste como uma prostituta e acaba por sedu­zir o sogro, dando à luz gêmeos. Mas como relacionamos isso a José? 

Donald Redford faz o seguinte comentário: “A única explicação plausível para a atual ordem dos capítulos é a cronológica. O ca­pítulo 38 não poderia vir após a história de José, pois se passa na Palestina e, a esta altura, Judá já teria ido para o Egito pelo resto de sua vida. Não poderia tampouco precedê-la, pois Judá é ancião e avô ao fim do capítulo 38, enquanto a história de José se inicia quando ele ainda é jovem”. 

Além da necessidade cronológica, não se pode deixar passar o claro contraste entre esses acontecimentos e a história de José. No capítulo 37, Jacó é enganado; no capítulo 38, Judá é enganado; e no capítulo 38, Potifar é enganado — todos por membros de suas res­pectivas famílias (filhos, nora, esposa). No capítulo 37, a túnica ensangüentada de José é apresentada a Jacó como prova da morte de seu filho; no capítulo 38, Tamar apresenta o selo, o lenço e o cajado de Judá como prova de sua culpa; no capítulo 39, as roupas de José, que foram arrancadas pela esposa de Potifar, servem para provar a suposta tentativa de estupro. O Judá adúltero do capítulo 38 contrasta com o José firme e fiel do capítulo 39. Tamar é bem- sucedida, mas não a esposa de Potifar. Todos os três capítulos destacam parte da roupa de alguém: a túnica de José (capítulo 37); de Tamar, suas roupas de luto e seu véu de prostituta (capítulo 38); e as vestes de José (capítulo 39). Curiosamente, tanto 37.32,33 como 38.25,26 usam o verbo “reconhecer” no imperativo (nakai) (O filho de Jacó, ao lhe falar sobre a túnica ensangüentada [37.32]; Tamar, ao falar com Judá sobre o dono do selo, do lenço e do cajado que possuía [38.25]). Nos versículos seguintes, em ambos os casos (37.33; 38.26), lemos: “Ele a ‘reconheceu’” e “‘Reconheceu-os’ Judá”. No pri­meiro (capítulo 37), temos uma mentira sendo dita; no segundo (capítulo 38), uma verdade. 

O capítulo 38 é no microcosmo o que os capítulos 37, 39 e 50 são no macrocosmo. Deus executa seu plano mesmo nas piores circunstâncias. José sobrevive a toda hostilidade e se torna a sal­vação física de sua família. Zera e Peres, gêmeos na linhagem messiânica (Mt 1.3), nascem de uma relação incestuosa entre so­gro e nora. 

Não devemos ignorar o importantíssimo papel desempenhado pela nora de Judá, Tamar, na preservação da “pureza” da linha­gem de Judá. Esse, com o fracasso de seus três irmãos mais ve­lhos, Rúben, Simeão e Levi, assumiu o papel de primogênito em Israel. Todavia, fez algo que Abraão não quis para Isaque (24.3) e que Isaque não quis para Jacó (28.1): casou-se com uma mulher cananéia (38.2). Seu filho sobrevivente, Selá, era, portanto, resul­tado de uma miscigenação: oriundo de uma mistura de semente escolhida e não-escolhida. Isso tornava praticamente impossível a continuidade do cumprimento das promessas de Deus para Abraão e Isaque. O intercurso sexual entre Tamar e Judá, supon­do-se que ela não era cananéia, permite que a linhagem escolhida continue através de Judá e Tamar, e não através de Judá e sua esposa cananéia (veja o comentário de Sailhamer). 

Os incidentes dos capítulos 37 e 38 são ambos dores de cabeça para Jacó. Em um, um filho é estraçalhado e morto, ou assim acredita o pai; no outro, seu outro filho comete adultério. A luz de tais experiências, pode-se entender o porquê de Jacó mais tarde dizer: “poucos e maus foram os dias dos anos da minha vida” (47.9). 

Gênesis 37—50 (José) 

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