13 de setembro de 2016

VICTOR P. HAMILTON - Abraão - Gênesis 11.26-25.11

antigo testamento danilo moraes
Abraão - Gênesis 11.26-25.11 

No primeiro livro da Bíblia, apenas dois capítulos são dedica­dos ao relato da Criação, e apenas um ao relato da Queda. A histó­ria de Abraão, no entanto, estende-se por 13 capítulos de Gênesis, atingindo partes de dois outros capítulos. Seria isso uma pista a respeito do principal propósito das Escrituras? Sua principal fun­ção não é tratar de questões metafísicas e filosóficas, que natural­mente ocupam a mente do homem moderno. Se um hebreu do passado fosse pressionado a definir Deus, ou a demonstrar como Deus opera na história do homem, daria uma resposta parecida com a de Louis Armstrong, quando lhe pediram para definir o que é jazz: “Cara, se você precisa perguntar, jamais ficará sabendo”. 

O Antigo Testamento é mais teológico que filosófico. Como Deus e os humanos chegam a um acordo e entram em harmonia? As respostas estão em Levítico e em boa parte do livro de Êxodo. Como Deus encoraja alguém que esteja enfrentando as mais som­brias circunstâncias? Vá até a história de José. Como Deus tira uma pessoa do anonimato e a usa para alcançar e transformar o mundo? Olhe a vida de Abraão. 

Em um sentido técnico, contudo, não encontramos a biografia de Abraão no livro de Gênesis e não somos capazes de traçar sua vida em detalhes. Ainda assim, alguns eventos de sua vida são destacados, com ênfase em um período específico. A tabela 2 de­monstra isso. Não dispomos de nenhuma informação sobre Abraão até seu 75° aniversário e, quanto aos seus últimos 75 anos de vida, dispomos de um mínimo de dados. Os 25 anos de fundamental importância vão dos 75 aos 100 anos. 

De Adão à descendência de Noé (1—11), os exemplos de infidelidade suplantam facilmente os exemplos de obediência. Abraão é contrastado com tais indivíduos perniciosos. Não se pode deixar escapar, por exemplo, a diferença entre “façamo-nos um nome” (11.4) e “engrandecerei o teu nome” (12.2). As maquinações hu­manas são comparadas à iniciativa divina, a autopromoção é con­trastada com a aceitação das promessas de Deus. 

A transição do período pré-patriarcal para o patriarcal é marcada pelas palavras que iniciam Gênesis 12. Hans W. Wolff foi bastante feliz em sua classificação gramatical das partes da passagem: 

1. Um imperativo: “Sai!” (12.1) 

2. Cinco verbos no futuro do presente, com Deus como sujeito: “far-te-ei [...] abençoar-te-ei [...] engrandecerei [...] abençoa­rei [...] amaldiçoarei”. 

3. Mais um verbo no futuro que, no original, carrega um senti­do de conseqüência e obrigatoriedade: “em ti serão benditas [Gn 10—11?] todas as famílias da terra” ou “abençoarão a si mesmas”. (Curioso que uma promessa para o futuro traga um sentido de obrigatoriedade. Estaria o nosso futuro à nos­sa frente ou para trás de nós? Nossa caminhada é rumo ao futuro ou de volta para o futuro?) 

Nesses dois versículos, o termo “bênção /abençoar”, quer como verbo quer como substantivo, aparece por cinco vezes. Wolff com­para esse uso quíntuplo de “bênção” com o uso quíntuplo de “mal­dição” em Gênesis 1—11: 

1. 3.14: “maldita serás mais que toda besta” 

2. 3.17: “maldita é a terra por causa de ti” 

3. 4.11: “maldito és tu desde a terra” 

4. 5.29: “por causa da terra que o Senhor amaldiçoou” 

5. 9.25: “Maldito seja Canaã” 

(Em 8.21, o verbo hebraico utilizado é diferente do pre­sente nesses casos) 

Poder-se-ia ainda associar as bênçãos de Gênesis 12.1-3, proferidas pelos lábios de Deus, ao mesmo número de bênçãos encontradas em Gênesis 1—11: “E Deus os abençoou” (1.22); “E Deus os abençoou” (1.28); “E abençoou Deus o dia sétimo” (2.3); “Macho e fêmea [...] os abençoou” (5.2); “E abençoou Deus a Noé” (9.1). Aque­les que defendem a tese das fontes múltiplas, no entanto, não admitiriam tal correlação, pois sustentam que Gênesis 12.1-3 é de J e esses cinco de P. 

Quais são então os eventos subseqüentes na vida de Abraão? [1]


O Tema da Promessa 

Nosso conhecimento a respeito de Abraão é limitado àquilo que encontramos nas Escrituras. Assim como acontece com a maioria dos personagens bíblicos, não existem referências a respeito dele em nenhuma obra da época dos patriarcas. Alguns indivíduos ti­veram (aparentemente) o mesmo nome — como, por exemplo, na antiga cidade de Ebla — o que atesta a antigüidade da tradição. Ainda assim, nenhuma dessas pessoas é o Abraão da Bíblia. 

Uma única referência ao patriarca Abraão — ou a Moisés, diga- se de passagem — em algum texto cuneiforme ou hieroglífico, se­ria suficiente para silenciar a multidão de especulações a respei­to desses personagens da história primitiva. A ausência de tais referências, contudo, desencadeou as divagações de estudiosos modernos na busca do “Abraão histórico”. Mesmo aqueles que, baseados em descobertas arqueológicas, confirmam a autentici­dade do ambiente cultural nas tradições patriarcais, relutam em admitir que o que temos em mãos é pura história. Até mesmo para estes, só vamos ter um legítimo registro histórico na narra­tiva “objetiva” a respeito de Davi e de sua família no “Relato da Sucessão” (2 Sm 9—20; 1 Rs 1—2). 

Além disso, tais críticos, que expressam uma opinião histórica conservadora a respeito dos patriarcas, em geral também afir­mam que tais relatos — misturas de fatos e lendas — foram com­postas em Judá e Israel, da época da instituição da monarquia até o retorno do exílio (1000 a.C a 500 a.C). Como tal, todas as narrativas acerca dos patriarcas teriam sido parte de uma longa tradição oral que, posteriormente, passou por um processo de com­pilação, revisão e edição, no qual a maioria das histórias foi afas­tada de seu contexto e propósito original. Com essa visão, combi­na a idéia de que algumas das narrativas dos patriarcas não pas­sam de invencionices de uma época remota, histórias artificial­mente localizadas em uma era longínqua. 

Tal abordagem claramente minimiza ou ignora a importância do papel dos patriarcas no livro de Gênesis: serem os primeiros canais de transmissão das promessas de Deus. Nas palavras de Geerhardus Vos3: “Se, de acordo com a Bíblia, eles [os patriarcas] são atores reais no drama da redenção, o verdadeiro princípio do povo de Deus [...] a negação de sua historicidade torna-os sem efeito”. Eles se tornam, pelo contrário, indivíduos obscuros de um passado remoto e indecifrável ou, talvez, personagens de parábo­las ancestrais, de onde as gerações posteriores podem extrair ver­dades eternas com aplicação na realidade atual. 

O importante papel desempenhado pelos patriarcas na his­tória da redenção recebe maior destaque em Gênesis por meio de uma contínua ênfase na promessa divina. Tudo começa com Abraão, Isaque e Jacó, mas nada termina neles. Todos os três foram instrumentos para alcançar um fim que extrapolou em muito o tempo de suas vidas. São catalisadores de um processo e não sua conclusão. Assim, ao lermos sobre a vida de Abraão em Gênesis, nosso principal objetivo não é conhecermos o coti­diano do segundo milênio a.C, mas as promessas de Deus para o futuro. Em última análise, nosso interesse é profético, não histórico. 

Como veremos mais adiante, a vida de Abraão surge como uma curiosa combinação de fé e estupidez, com avanços e retrocessos. Na maioria das vezes, o leitor se sente à vontade para aplaudir Abraão, o homem de fé. Diversos incidentes, contudo, revelam ausência de fé. 

O que é isso que, em uma mesma perspectiva, combina tanto acontecimentos positivos como negativos? Gerhard von Rad respondeu a essa pergunta: “A história, como um todo, possui um arcabouço que a sustenta e conecta: a suposta promessa para os patriarcas. Pode-se ao menos afirmar que todo esse mosaico de histórias diversas se mantém coeso em torno de um mesmo tema [...] aludindo constantemente à promessa de Deus”. Brevard Childs5, de forma semelhante, sugere que a promessa proporcio­na “um elemento estável em meio a situações que se modificam a todo momento em um ambiente bastante conturbado”. 

Além disso, são promessas absolutas e incondicionais. Tama­nha ênfase retira-lhes a idéia de recompensa (algo conquistado) e atribui a noção de dádiva (algo imerecido). Podemos ver esse as­pecto particularmente destacado em 12.1-3: a primeira promessa feita a Abraão (de bênçãos e crescimento). Em primeiro lugar há o imperativo: “Sai-te” (v. 1). Logo depois vem a promessa divina: "Far-te-ei” (vv. 2,3), seguida pela reação humana: “Assim, partiu Abrão” (v. 4). Se o versículo 4 precedesse os versículos 2 e 3, todo o propósito da passagem ficaria radicalmente diferente: as pro­messas poderiam ser interpretadas como conseqüências da obe­diência de Abraão. A palavra divina, de uma iniciativa, ficaria reduzida a uma reação. 

Encontramos exatamente a mesma estrutura em 13.14-18, a segunda referência à promessa: o imperativo divino, “Levanta” (v. 14); a promessa divina, “hei de [...] farei” (vv. 15-17); a resposta humana, “E Abrão mudou as suas tendas” (v. 18). A terceira referência à promessa, em 15.1-6, demonstra o mesmo: o imperativo divino, “Olha” (v. 5); a promessa divina, “Assim será a tua semen­te” (v. 5); a resposta humana, “E creu ele no Senhor” (v. 6). 

Isso não quer dizer que Abraão foi absolvido de toda a responsabilidade. A ele é ordenado: “anda em minha presença e sê per­feito” (17.1). E preciso que ele obedeça ao mandamento: “guardarás o meu concerto” (17.9). Ele deve agir “com justiça e juízo; para que o Senhor faça vir sobre Abraão o que acerca dele tem falado” (18.19). Sugere-se um certo vínculo entre a obediência e o cumprimento das promessas em “porquanto fizeste esta ação [...] deveras te abençoarei [...] porquanto obedeceste à minha voz” (22.15­18). Percebe-se a mesma nuança em 26.4,5: “E multiplicarei a tua semente [...] porquanto Abraão obedeceu à minha voz”. Essa últi­ma passagem, contudo, promete a multiplicação dos descenden­tes de Isaque por causa de Abraão, não em virtude da obediência de Isaque! 

Não estou afirmando que a obediência humana é absolutamente inválida. Afinal, mesmo em uma aliança unilateral, deve haver alguma reciprocidade. E se Abraão não tivesse obedecido à pala­vra do Senhor? E se ele não tivesse crido? E se ele tivesse insisti­do em não andar na presença do Senhor, nem em agir com justi­ça? E se ele tivesse se recusado a oferecer Isaque em sacrifício? E preciso considerar que tais opções eram uma possibilidade real para Abraão, a menos que admitamos que, para ele, como o esco­lhido do Senhor (18.19), a graça de Deus foi irresistível. Meu ar­gumento é que a responsabilidade humana é sistematicamente subordinada à palavra da promessa de Deus. 

A primeira condição, em termos de conduta, é apresentada a Abraão (17.1) após ele ter recebido, em diversas ocasiões, pala­vras de promessa (12.1-3, 7; 13.14-17; 15.1-6, 7-21). Em termos cronológicos, Abraão ouviu a primeira promessa de Deus aos 75 anos de idade (12.4). Já a primeira condição apresentada aAbraão foi aos 99 anos de idade (17.1), quase 25 anos depois. 

As promessas de Deus aos patriarcas cobrem as seguintes áre­as: o nascimento de um filho; o aumento do número de descen­dentes; terra; a presença de Deus; bênçãos. Algumas dessas po­dem se cumprir isoladamente (“Sara, tua mulher, terá um filho” [18.10]; “A tua semente darei esta terra” [12.7], mas, via de regra, ocorrem em grupo. Como exemplo, pode-se citar 22.15-18: inclui uma promessa de bênção (“deveras te abençoarei”); uma promes­sa de aumento no número de descendentes (“multiplicarei a tua semente como as estrelas dos céus”); uma promessa de terras (“a tua semente possuirá a porta dos seus inimigos”); e uma segunda promessa de bênçãos (“E em tua semente serão benditas todas as nações da terra”). 

Mais promessas são feitas a Abraão que a seu filho ou neto. Ao listar as que se relacionam a descendentes, David J. A. Clines6 cita 19 passagens de Gênesis. Treze são dirigidas a Abraão, en­quanto apenas uma é paraAgar (21.18), duas para Isaque (26.4,24) e três para Jacó (28.14; 35.11; 46.3). Clines lista treze passagens de Gênesis a respeito da promessa de terras. Nove dessas são dirigidas a Abraão, uma a Isaque (26.3) e três a Jacó (28.13,15 [também 48.4]; 35.12; 46.4). 

No que tange à promessa de terras, observamos variações até mesmo na forma como é feita. Em 12.7, Deus dará a terra “à tua semente”. Em 13.15, Deus dará a terra “a ti e à tua semente”. Em 13.17, “a ti”. Mesmo o tempo verbal “eu darei”, nesses versículos, poderia ser substituído por “eu dou” (em 15.18, literalmente “te­nho dado”). 

Abraão, é claro, jamais possuiu a terra como os israelitas ao tempo de Josué. Sua “posse” se limitou a contemplar a terra que sua semente um dia ocuparia (“Levanta, agora, os teus olhos e olha desde o lugar onde estás, para a banda do norte, e do sul, e do oriente, e do ocidente”). Pelo menos é isso que percebemos em retrospecto. Nenhum texto antigo indica que Abraão tenha visto isso dessa forma. Aparentemente, ele esperava um cumprimento mais imediato da promessa, quando lhe foi anunciado pela pri­meira vez em 12.7. Somente a explicação divina de um intervalo de quatrocentos anos (15.12-16) eliminou da mente de Abraão quaisquer dúvidas que pudessem existir. Por diversas vezes ele perguntou a Deus: “Onde está meu herdeiro?”, mas jamais per­guntou: “Onde está minha terra?” Para ele, viver em tendas era plenamente satisfatório (Hb 11.9,10). 

E óbvio que a maior parte das promessas feitas por Deus aAbraão, Isaque e Jacó não poderiam se cumprir ao longo da vida dos patriarcas. Isso é com certeza verdadeiro para as duas promessas que apa­recem com mais freqüência, a saber, a promessa da terra e a promessa de um vasto número de descendentes. Deus inicia comAbraão um processo cujo ápice se dará em um futuro distante. 

E quanto a Abraão? Ele teve um filho, ou dois, mas não uma miríade de descendentes. Possuiu uma tenda e grande vigor, mas nenhuma terra, com exceção de um pequeno terreno comprado onde sepultou sua esposa (Gn 23). Ademais, ao longo dos últimos 75 anos de sua vida, quantas famílias da terra foram abençoadas com ele? 

Uma grande bênção possuiu Abraão. Verdade seja dita, ele não possuiu, em termos de realização pessoal, todas as promessas de Deus, mas certamente desfrutou do Deus de todas as promessas. O próprio Deus foi escudo e recompensa a Abraão (15.1). O doa­dor, não a dádiva, foi a sua maior recompensa, e uma intensa obsessão. Não sem razão, portanto, Abraão é mencionado por três vezes na Bíblia como “amigo de Deus” (2 Cr 20.7; Is 41.8; Tg 2.23). Quanto a essa expressão, vale a pena consultar o estudo de M. Goshen-Gottstein7, mormente sua interpretação do porquê de a Septuaginta transformar expressões do modo indicativo (Abraão é aquele que ama a Deus) em particípio (Abraão é aquele amado por Deus). Eles tinham um ótimo relacionamento. 

Abraão, Homem sem Fé 

Em meio a todas as experiências registradas em Gênesis 12— 25, Abraão surge como um indivíduo de grande fé e obediência. Sua peregrinação tem início (Gn 12: “Sai”) e chega ao ponto de ele ser testado por Deus (Gn 22: “Oferece a Isaque”). Nesse meio tempo ele aparece como um modelo de paciência: recebe a promessa de um herdeiro aos 75 anos e se dispõe a esperar por quase 25 anos antes de ter a chance de trocar fraldas. Como o Servo Sofredor descrito por Isaías (23.12), Abraão intercede pelo transgressor (Em Gênesis 18.16-33, ele implora a Deus em favor de Sodoma.). Ape­sar de não tolerá-los, ele suporta as esquisitices de Ló, seu sobri­nho “fogo de palha”. 

No entanto, nem tudo é perfeito. Como uma grande mácula na história de Abraão, vemos algumas atitudes questionáveis por parte desse herói. Nesse aspecto, ele se torna um arquétipo para Jacó, Moisés e Davi: uma curiosa mistura de sagrado e profano, de sublime e vil. 

Abraão foi fraco o suficiente para usar sua esposa, Sara, para salvar sua própria vida. Pego em uma situação de perigo, ele a convence a se identificar para os egípcios como sua irmã, não sua esposa (12.10-20). A exemplo do que faz o comentarista E. A. Speiser, pode-se explicar a tática de Abraão apelando a antigos documentos de Ur (território onde passou parte de sua vida [11.31]), nos quais o casamento é sucedido por uma relação de adoção. A mulher se torna primeiro esposa, então irmã, a fim de fortificar o relacionamento. E claro que tal interpretação “salva” a sua reputação. Ele teria atribuído um status ainda mais eleva­do a Sara, na esperança de que os egípcios a tratassem com mais consideração. 

Ninguém consegue ler isso facilmente na narrativa. Além do mais, a culpa de Abraão é intensificada pelo fato de ele manter silêncio ao longo de todo o episódio. Ele não argumenta, apenas escuta, e o silêncio de Sara também deve ser observado. Ela é a primeira de diversas mulheres nas Escrituras que algum homem se dispõe a sacrificar a outros homens, o que geralmente envolve favores sexuais (As filhas de Ló [Gn 19.6-8]; a concubina do levita e a filha do proprietário [Jz 19.23,24]). Quando Sara é “tomada” (Gn 12.15), Abraão não faz nada. Quando ele fica sabendo que seu sobrinho Ló foi “tomado” (14.14), imediatamente entra em ação e o resgata. Abraão sem dúvidas obtém despojos (12.16) por sua sinistra participação nesse caso, mas não como uma evidência da bênção de Deus. Nesse ponto, ainda não passamos do “abençoa­rei” de 12.3 para “o Senhor havia abençoado” de 24.1. 

Abraão guardou para si a estratégia utilizada nessa ocasião, talvez para voltar a usá-la em alguma situação catastrófica. Uma segunda viagem para longe de casa trouxe tal oportunidade (capí­tulo 20). Dessa feita, entre seus vizinhos filisteus, Sara é mais uma vez convencida a enganar o rei e se entregar em prol da segurança de seu marido; não obstante Deus tivesse dito a Abraão que sua aliança com ele era através de Sara (17.15,16; 18.10), anunciando que ela daria à luz Isaque, o herdeiro prometido (17.19). Nada dis­so impede que Abraão se disponha a ceder sua esposa. 

Diferentemente do incidente no capítulo 12, em que se sugere que Faraó e Sara tiveram relações sexuais (12.15b), o adultério é aqui evitado antes de acontecer (20.4a; 6b). Abraão mais uma vez aufere riquezas (20.14-16), mas essencialmente como compensa­ção por Sara. Sua filosofia ética é imutável: os fins justificam os meios. Os fins? Não se pode deixar que nenhum acontecimento lance incertezas sobre as promessas de Deus (uma grande nação, descendentes). Os meios? Se necessário, usar Sara como se usa um peão em um jogo de xadrez. Essa, todavia, não é a visão de Deus a respeito de Sara. Nos planos divinos, ela é tão importante quanto ele. Abraão fez o que foi preciso para salvar Ló. Deus fez o que foi preciso para salvar Sara. 

Infelizmente, tal pai, tal filho: Isaque lançou mão do mesmo subterfúgio (capítulo 26). Robert Polzin8 chama a atenção para a forma como cada monarca inocente foi informado da verdadeira identidade da mulher. Em 12.17, por meio de pragas; em 20.3, através de um sonho; em 26.8, quando o rei observou Isaque aca­riciando Rebeca. No primeiro caso vemos a ação de Deus na histó­ria (a lei?); no segundo, vemos a revelação de Deus por meio de sonhos e visões (os profetas?); no terceiro, o uso natural dos olhos de alguém (ênfase na sabedoria?). Existe uma bibliografia incri­velmente extensa a respeito desses incidentes. Seria interessan­te que o leitor explorasse esses estudos para reflexões posterio­res. Niditch9; Biddle10; Ronning11; Rashkow12; Hoffmeier13; Ale- xander14; Exum15; Eichler16. 

E possível que a falta de escrúpulos por parte de Abraão não tenha sido motivada simplesmente pelo desejo de se salvar. A ques­tão maior é a promessa dada anteriormente por Deus (bênçãos e descendentes). Logo de início há a fome na terra. A antiga litera­tura veterotestamentária (por exemplo: Dt 28.17,18,22-24) via a fome como uma manifestação do desagrado de Deus para com a desobediência. Sendo assim, a primeira questão em Gênesis 12 é: poderá Abraão sobreviver à fome e, se possível, como o fará? 

A segunda questão levantada por Gênesis 12 é: poderá Abraão sobreviver ao Egito? Talvez o questionamento do próprio Abraão fosse: poderão perdurar as promessas de Deus? Ora, se não hou­vesse Abraão, não haveria como se criar uma grande nação. Sen­do essa a idéia e a explicação para seu ardil, Abraão pode ser considerado o arquétipo dos crentes que sentiram que Deus pre­cisava de ajuda para livrá-los de alguma situação desconcertante e perigosa em potencial. De qualquer modo, a descida de Abraão ao Egito por causa da fome em Canaã, de onde posteriormente saiu com muitas riquezas, prenuncia a ida de Israel ao Egito em virtude da fome em Canaã, de onde, após algum tempo, partiria carregado de riquezas (Ex 12.33-36). 

A história na verdade ilustra um cumprimento imediato de parte das promessas de Deus: aqueles que amaldiçoam Abraão são amaldiçoados por Deus. Tomar a mulher de um outro homem, ainda que inocentemente, traz repercussões catastróficas. Essa parte da primeira promessa de Deus a ele demonstra uma impor­tante diferença entre a aliança com Abraão e a aliança com Israel no Sinai. Na segunda, a maldição tem por alvo os israelitas deso­bedientes; na primeira, visa aos não-israelitas que tentarem pre­judicar o povo da aliança. 

Ainda assim, aquele que lê sobre as aventuras de Abraão no Egito fica imaginando onde estaria o Natã de Abraão, dizendo “Tu és este homem” (2 Sm 12.7), a menos que esse papel seja assumido pelo próprio Faraó. Utilizando-se de má-fé, Abraão enriqueceu. Ele deixa o Egito com seus cofres abarrotados, a esposa desonrada e sem demonstrar a menor sombra de remorso. Para terminar o qua­dro, Deus aparentemente não dá atenção aos seus atos temerários. 

O silêncio de Deus implica sua aprovação? Penso que esse si­lêncio não deve ser interpretado como uma insinuação de aprova­ção ou hipocrisia por parte de Deus, mas como ênfase ao relato. A história não procura tecer comentários sobre o comportamento de Abraão, por mais desprezível que seja, mas ilustrar a providência divina. A promessa de Deus a Abraão não pode ser cancelada, mesmo que a maior ameaça à mesma seja aquele que a recebeu. 

Abraão, assim como Jó, é tanto paciente como impaciente; em alguns momentos relaxado, noutros, tenso; às vezes passivo, ou­tras vezes manipulador. Ainda incerto quanto à capacidade de Deus de cumprir sua promessa, ou pelo menos decepcionado por Ele não agir segundo seu cronograma, Abraão se dispõe a adotar seu servo Eliézer como herdeiro (15.2,3). Reconheço que essa idéia encontra analogia nos textos cuneiformes de Nuzi, datados do século XV a.C. No caso de não existirem filhos, um escravo pode­ria ser adotado como o herdeiro legal de alguém. Já na vida de Abraão, esse acontecimento é apenas mais um através do qual o venerável patriarca é testado. 

De forma semelhante, quanto ao fato de Sara dar sua servaAgar como mulher a Abraão por causa de sua infertilidade, encontramos precedentes na literatura cuneiforme. Se nos acontecimentos anteriores foi Abraão que deu origem ao ardil, com Sara como interme­diária, agora é a própria Sara que toma a iniciativa. Abraão, em vez de se opor, concorda. Não é difícil discernir a mesma mentalidade de Adão e Eva (16.2). Incapaz de enxergar as implicações de seus atos em longo prazo, Abraão não oferece resistência alguma. Deve-se, contudo, observar que Sara só recorre a uma substituta após viverem por 10 anos em Canaã, ou seja, somente depois de ela e o marido terem feito de tudo para gerar um filho é que eles recor­rem a Agar. Voltar-se para Agar, uma egípcia, na busca de uma solução para a infertilidade, corresponde ao que acontece quando um Abraão ou um Jacó recorrem ao fértil Egito para a solucionar a infertilidade da terra de Canaã17. Talvez esses homens tenham errado em não ver a promessa de Deus como um privilégio, mas como uma obrigação. Em vez de dizer: “um filho nos nascerá”, eles dizem: “precisamos ter um filho”! Sempre que vemos os resultados das promessas de Deus como algo a ser alcançado, em vez de rece­bido, temos à disposição todo tipo de opções. 

Quais as conseqüências? Há uma clara desavença entre Agar e Sara. Assim como o pecado separou Adão de Eva, Caim de Abel e Noé de seu neto, ele opera agora uma divisão entre Agar e Sara. Com o aumento das hostilidades e das críticas mútuas, Agar, grá­vida, acabou por fugir precipitadamente da casa de sua senhora. Ao fugir, aconteceram a Agar alguns fatos bastante incomuns. Ela foi o primeiro personagem bíblico a quem o “anjo do Senhor" apareceu (16.11a). Ela é a primeira mulher na Bíblia a quem Deus faz uma promessa direta (16.11b, 12). Ela é a única pessoa do An­tigo Testamento a dar um novo nome a Deus (16.13). Por fim, seu encontro com o anjo “é o único encontro, entre Deus e uma mu­lher, que redunda em um novo nome para um lugar, em comemo­ração pelo acontecido [‘Beer-Laai-Roi’ (16.14)]”18. Mais de uma década depois, a animosidade entre as duas era ainda mais in­tensa (21.9-14). Dessa vez, Agar não parte por conta própria, mas é bruscamente expulsa juntamente com Ismael. 

Os críticos consideram também esse texto como evidência de fontes subjacentes. Defende-se a existência de três fontes por trás da história de Agar e Ismael. O texto é decomposto da seguinte forma: 


Os críticos afirmam que, em essência, as duas histórias en­tram em conflito, o que impede que ambas sejam verídicas. Para exemplificar essa idéia, temos, no capítulo 16, Agar se compor­tando de maneira soberba e insolente para com Sara; já no capí­tulo 21, ela é mais vítima que vilã. Em 16.6, Abraão, de bom gra­do, deixa Agar nas mãos de Sara e não interfere. Já em 21.11, Abraão, longe de ser passivo, sente repugnância pela reação de sua esposa. Ele se certifica de que Agar tenha suprimentos para a jornada pelo deserto, ainda que em míseras quantidades, consi­derando as posses e riquezas de Abraão (21.14). 

Temos evidência ainda mais clara na descrição de Ismael no capítulo 21. Nessa altura, Ismael devia ter, no mínimo, treze anos de idade (17.25). Ismael nasceu quando Abraão estava com oitenta e seis anos de idade e, ao nascer Isaque, Abraão contava com cem anos de idade (21.4), o que significa que seu primeiro filho tinha quatorze ou quinze anos. Ainda assim, junto com o pão e a água, Abraão coloca o menino sobre os ombros de Agar (21.14)! Ao ver-se diante da morte no deserto, ela “lança” o menino debaixo de uma árvore (21.15), pois a criança estava prestes a morrer de sede. Se­ria essa a imagem de um adolescente ou criança desprotegida? 

Em defesa da unidade entre os capítulos 16 e 21, e da coerên­cia entre ambos, chamo a atenção para os seguintes aspectos: 

Será que 21.14 efetivamente sustenta a ideia de que Abraão lançou a criança sobre os ombros de Agar? O versículo, literal­mente, diz que Abraão “tomou pão e um odre de água, e os deu a Agar, pondo-os sobre o seu ombro; também lhe deu o menino”. Não há nada na tradução que nos permita inferir que a criança foi carregada sobre os ombros da mãe. 

Quem se sentir disposto a defender que “dar” significa “colocar” ou “pôr” deveria lembrar que a mesma palavra hebraica, ndtan, também significa “entregar”, no sentido de “confiar algo a alguém, incumbir”, como ocorre em Êxodo 22.7,10. Não seria possível que Abraão não estivesse “pondo” coisa alguma sobre os ombros da ser­va de Sara, mas “confiando” Ismael à custódia de Agar? 

O termo “lançou”, em 21.15, é de extrema infelicidade. Ismael com certeza não foi jogado no chão, quer fosse criança ou adoles­cente. H. C. White20 observa que o verbo hebraico usado aqui, shãlak, quase sempre diz respeito à colocação de um cadáver em uma cova, caso o objeto do verbo seja uma pessoa. “Tomaram Absalão, e o lançaram no bosque, numa grande cova” (2 Sm 18.17); “lançaram o homem na sepultura de Eliseu” (2 Rs 13.21); Ismael “lançou-os [os corpos dos homens que acabara de assassinar] num poço” (Jr 41.7). O termo também pode ser empregado com alguém que está sendo colocado onde supostamente será sua cova (Gn 37.20,22,24; Jr 38.6). Que mãe, em sã consciência, jogaria seu filho debilitado sob uma árvore, como se fora uma bola? 

Abraão, Homem de Fé 

Embora momentaneamente desviado pelos lapsos descritos na seção anterior, deve-se dar crédito a Abraão pelo fato de ele se sobrepor a essas experiências negativas. Tais episódios foram contratempos e interrupções momentâneas no plano de Deus para sua vida. Talvez não seja incidental que, ao falar da fé, quase todos os personagens reunidos pelo autor de Hebreus 11 tenham, em alguma época de suas vidas, cometido algum grande erro — por vezes, mais de um. Aqueles que, com obstinação, rejeitam a vontade de Deus em suas vidas, têm sua vontade satisfeita. Já aqueles que, procurando fazer a vontade de Deus, tropeçam e caem, encontram o auxílio e as promessas divinas. Esse mosaico de fé inclui os seguintes exemplos: 

Gênesis 12. Como Deus entra na vida de alguém, quando não houve nenhum João Batista para preparar o caminho? Abraão foi criado em um mundo idólatra e politeísta. Seu pai, Tera, peregri­nou de Ur para Harã. Isso não surpreende, pois ambos os lugares eram centros de adoração de Sin, deus da lua. O registro de Gêne­sis não é tão claro como o encontrado em Atos 7.2, de que Deus apareceu a Abraão com ele ainda “estando na Mesopotâmia, an­tes de habitar em Harã” (a menos que o “disse” de Gn 12.1 seja traduzido como “havia dito”). 

De certa maneira, portanto, a palavra de Deus tocou Abraão sem qualquer aviso prévio. O patriarca foi suficientemente perceptivo para reconhecê-la tão logo a ouviu. Não apenas foi su­ficientemente sensível para ouvi-la, mas também sábio o bastan­te para obedecer a ela: “Partiu, pois, Abrão, como Jeová lhe orde­nara” (12.4). A aventura de Abraão torna-se ainda mais arriscada pelo fato de ele ter sido rapidamente informado da direção a se­guir, com um mínimo de orientações e explicações: “Sai-te da tua terra, [...] para a terra que te mostrarei” (12.1). A instrução é cla­ra; o destino, desconhecido. 

Gênesis 13. Abraão não retornou a Canaã porque a fome na terra já havia passado, mas por ele ter arruinado a boa recepção que tivera no Egito (12.20). Faraó lhe ordena que volte para o lugar de onde partira. Teria seu erro lhe ensinado alguma lição? E possível detectar algum sinal de mudança em sua vida? O capí­tulo 13 responde a essas questões afirmativamente. 

O foco desse capítulo é a rixa desenvolvida entre os pastores de Ló e os de Abraão. Nesse trecho, temos a mesma quantidade de informações sobre Ló e seu tio. Os capítulos que descrevem sua aliança com Abraão estão dispostos em meio a histórias envol­vendo Ló: seus pastores (capítulo 13) e sua captura (capítulo 14) por um lado, e sua ligação com Sodoma e Gomorra por outro (ca­pítulos 18 e 19). Em momento algum ele é retratado como uma pessoa digna de crédito e louvor. Com demasiada freqüência, age como um papagaio encarapitado no ombro de Abraão. Os pasto­res de Ló não podiam “habitar” com os pastores de Abraão (13.6), mas ambos habitavam tranqüilamente com cananeus e os ferezeus (13.7). Conviver com familiares é mais difícil que com estranhos. 

Na contenda que surgiu entre os empregados, Abraão poderia ter solucionado facilmente a questão ao reivindicar sua autorida­de sobre o sobrinho. Afinal de contas, ele era o mais velho e o chefe do clã. Em vez disso, ele se satisfaz em deixar que Ló esco­lha a pastagem para seu gado. 

O que teria acontecido se Ló tivesse escolhido a terra que Deus iria dar a Abraão? Talvez Abraão precisasse demonstrar mais autoridade e defender seus direitos. Embora delicada, a questão foi deixada nas mãos de Deus. Nenhuma atitude de Ló poderia frustrar a promessa divina. Infelizmente, Abraão não tinha vivi­do segundo essa filosofia durante seu tempo no Egito. 

Gênesis 14. O episódio de Gênesis 14 é, em muitos aspectos, o mais insólito na vida de Abraão. Aprimeira metade do capítulo — uma batalha entre quatro reis poderosos do leste e cinco reis me­nores da região do mar Morto — não tem nada a ver com Abraão. Somente a captura de Ló traz Abraão para a narrativa. No capí­tulo 13, o enfoque do capítulo havia sido o conflito familiar. Nossa atenção é agora atraída para um conflito internacional. 

De forma peculiarmente concisa, o capítulo relata a vitória de Abraão — com o auxílio de 318 “criados” — contra esses quatro grandes reis. Em teoria, as chances estavam contra Abraão e seu minúsculo exército. Deus, contudo, lhe dissera: “amaldiçoarei os que te amaldiçoarem”. Manteria Deus sua promessa? Assim como Sara fora “tomada” (com as conseqüentes pragas para aqueles que a levaram), Ló é agora raptado (14.12) por forasteiros (é preciso admitir que, quando Sara foi “tomada”, Abraão não moveu uma palha; mas, no caso de Ló, ele imediatamente se lançou numa mis­são de resgate). Sua atitude trouxe resultados tão devastadores como no caso dos egípcios: uma derrota humilhante aos grandes reis (“e os feriu” [v. 15]) nas mãos de um grupelho de guerreiros. 

Até mesmo Melquisedeque, rei de Salém, faz uma análise rá­pida porém precisa do incidente: “bendito seja o Deus Altíssimo, que entregou os teus inimigos nas tuas mãos” (14.20). Não é à toa que o termo hebraico aqui utilizado para “entregar” (piiggêri)deriva da mesma raiz de “escudo” imagen) de 15.1. Eis um outro exem­plo de histórias distintas sendo, pelo uso de vocábulos semelhan­tes, vinculadas em uma unidade maior. 

Abraão recebe de Melquisedeque uma dádiva ínfima: uma refeição, se é que podemos chamá-la assim (v. 18). Ele, no entanto, rejei­ta a oferta dos despojos feita pelo rei de Sodoma (vv. 21-24). Deus haveria de sustentar todas as suas necessidades, mas não daquela forma. Abraão, no passado, havia aceitado avidamente os bens da­dos pelo Faraó, mas agora aprendera a ser comedido ao aceitar donativos. O que Abraão procurava agora era graça, não propina. 

Gênesis 15, 17. Esses dois capítulos descrevem a efetiva insti­tuição da aliança entre Deus e Abraão. Por uma boa razão, as promessas de Deus a ele são mais abundantes nesses dois capítu­los que em qualquer outra parte. Temos a promessa de um filho (15.4; 17.16,19); a promessa de descendentes (15.5,13,16,18; 17.2,4­8,19); a promessa de terras (15.7,8,16,18-21; 17.8); a promessa de bênçãos (17.16). 

Não seria exagero descrever esses dois capítulos como uma con­versa séria. Pelo lado de Abraão, o diálogo é limitado a duas perguntas (15.2,8; e talvez cause surpresa sua brusca pergunta no versículo 8, apenas dois versículos após sua confissão de fé em Jeová no versículo 6) e uma exclamação (17.18). Em contraparti­da, Deus fala continuamente: “veio a palavra do Senhor a Abrão em visão” (15.1); “e eis que veio a palavra do Senhor a ele” (15.4); “e disse [...] E disse-lhe” (15.5); “Disse-lhe mais” (15.7); “E disse- lhe” (15.9); “Então, disse aAbrão” (15.13); “Naquele mesmo dia, fez o Senhor um concerto com Abrão, dizendo” (15.18); “apareceu o Senhor aAbrão e disse-lhe” (17.1); “e falou Deus com ele, dizen­do” (17.3); “Disse mais Deus a Abraão” (17.9); “Disse Deus mais a Abraão” (17.15); “E disse Deus” (17.19). 

A resposta de Abraão, diante dessas grandes promessas de Deus, resume-se na seguinte declaração: “E creu ele no Senhor, e foi-lhe imputado isto por justiça” (15.6). A responsabilidade de Deus engloba a promessa e a execução, já a responsabilidade do homem é crer. Von Rad21 corretamente observa que “a justiça de Abraão não é conseqüência de alguma realização [...] mas é ex­posto de forma programática que apenas a fé proporcionou a Abraão um relacionamento saudável com Deus”. 

Esse não é o único exemplo de fé no livro de Gênesis, mas so­mente aqui vemos uma referência explícita a ela. Não lemos, de modo literal, que Isaque, Jacó ou José creram no Senhor e que tal fé lhes foi imputada por justiça. As promessas feitas a Abraão são essencialmente repetidas a Isaque e Jacó, mas apenas a fé de Abraão é ressaltada. A ênfase, portanto, recai sobre a fidelidade de Deus de geração em geração, com a renovação de suas promessas; não na apropriação, a cada geração, dessas promessas pela fé. 

A peculiaridade do capítulo 15 é a ratificação oficial dessa ali­ança, depois que Abraão dispôs os animais sacrificados em duas colunas, lado a lado, e o próprio Deus passou entre as colunas em forma de fogo. A intenção do ritual dificilmente poderia ser mais ousada. Deus, de forma unilateral, compromete-se com Abraão e sua descendência a ponto de se colocar sob uma potencial maldi­ção. Caso aquele Deus de promessas não cumprisse sua palavra, seu destino seria ser desmembrado, tal como os animais (sobre o significado de cortar um animal em dois, como parte de um ritual de aliança, leia Jr 34.18). 

E impossível saber a idade de Abraão no capítulo 15. Entre os capítulos 16 e 17 se passam 30 anos (em 16.16, Abraão tem oiten­ta e seis anos de idade; em 17.1, noventa e nove). Dessa forma, transcorre uma década e meia desde a recepção da aliança, até a mudança de nome e a circuncisão de Abraão. 

Aqueles que defendem a existência de múltiplas fontes são unânimes ao identificar as tradições por trás desses dois capítu­los. Como de costume, 15.1-6 é atribuído a (E), 15.7-21 a (J) (prin­cipalmente pelo uso exclusivo dos termos “Senhor / Jeová”) e 17.1­27 a (P) (mormente por causa do uso do termo “Deus /’Elõhim”). Aliás, 17.1-27 é a primeira ocorrência, na história de Abraão, do termo “Deus / ’Elõhim”, com exceção das formas abreviadas de Eloim em nomes compostos como “’Êl ‘Elyôn” (14.18-20) e “’Êl Rõí” (16.13). Portanto, no mesmo capítulo em que Abrão se torna Abraão (17.5), Jeová se torna ’Elõhim. Os estudiosos geralmente refutam esse ponto de vista afirmando que o capítulo 17 não é uma repro­dução do capítulo 15, mas Deus reafirmando suas promessas a Abraão, especialmente em vista das não tão felizes conseqüências da coabitação, no capítulo 16, entre Abraão e Agar. Tais pala­vras de conforto, logo após a derrocada de Abraão, fazem lembrar outras palavras reconfortantes, de confirmação, (13.14-17) dadas após outro fracasso (12.10-20). Abraão ainda não era o pai do fi­lho da promessa! 

Temos aqui, contudo, mais que uma confirmação. Dois novos itens são adicionados às promessas da aliança no capítulo 17. Em primeiro lugar, Abrão se torna Abraão. Somente um versículo, 17.5, é utilizado para registrar a mudança. Esse novo nome universaliza a sua experiência com Deus. Ele foi destinado a ser "pai de numerosas nações”. 

O segundo novo item é a introdução da circuncisão. Isso já era uma particularização da experiência de Abraão com Deus. Ele viria a se tornar o pai dos judeus. Seis versículos são separados para essa inovação (17.9-14), além de mais cinco (17.23-27) para a descrição da circuncisão feita em Abraão, Ismael e todos os ma­chos de sua casa. 

A marca, indelevelmente gravada na carne, torna-se um sinal de identificação entre Jeová e seu povo. A relação entre a circunci­são e a aliança é expressa de modo evidente na parte do corpo esco­lhida. Se sua importância se resumisse em cortar ou marcar algu­ma parte do corpo, bastaria um corte de cabelo, um furo na orelha ou no nariz, ou mesmo uma marca na mão ou na testa. A circunci­são, contudo, “requereu o corte de uma parte do corpo, através da qual a promessa de Deus seria cumprida’52. O fato de a mulher não ter uma marca correspondente em seu próprio corpo não deve ser compreendido como reflexo de uma mentalidade machista, como a insinuar que a religião veterotestamentária marginalizava as mulheres e as considerava insignificantes para a aliança, a não ser por seus ventres. Pelo contrário. Com ambos se tornando “uma só carne” (2.24), apenas um precisaria ser marcado. 

Fica claro que o capítulo 17 dedica-se mais à circuncisão que à mudança do nome de Abraão. Por que demorou tanto para que o ritual fosse instituído? A sua circuncisão não poderia ter sido registrada no capítulo 15? Creio que o intervalo entre a instituição da aliança e a circuncisão de Abraão tem o propósito de pôr a promessa de Deus e a obrigação humana em perspectiva. A últi­ma está subordinada à primeira. A circuncisão só volta a apare­cer mais uma vez em Gênesis (a circuncisão de Isaque [21.4]), com exceção da tragédia descrita no capítulo 34. As promessas da aliança de Deus, no entanto, permanecem como um refrão ao lon­go do livro de Gênesis. 

Gênesis 18—19. Ciente de que Deus tencionava destruir Sodoma e Gomorra por causa da gravidade de seus pecados soci­ais e sexuais (19.1-11; conforme Ez 16.49,50), Abraão passa a in­terceder pelos transgressores. Em vez de se alegrar com o que é mau (1 Co 13.6), Abraão entra ousadamente na presença de Deus e implora por misericórdia. Tal qual o Servo sofredor de Isaías 53.12, ele “intercede pelos transgressores”. Abraão não exorta Sodoma a se arrepender, mas apela a Deus por misericórdia. Ao fazê-lo, sua oração é semelhante às de outros intercessores (Moisés: Êx 32.11-13,31-34; 33.12-15; 34.9; Nm 12.11-13; 14.3-9; Dt 9.16­29; Samuel: 1 Sm 7.5-9; 12.19-25; Elias: 1 Rs 17.17-23; Eliseu: 2 Rs 4.33; 6.15-20; Amós: Am 7.1-6; Jó: Jó 42.7-9). A oração pres­supõe crença e fé em um Deus que é ao mesmo tempo justo e misericordioso, compassivo e santo, meigo e imutável; um Deus que, para citar Pascal, “concede a suas criaturas a dignidade da causalidade”. 

Gênesis 20. Após conhecer o Abraão intercessor no capítulo 18, o leitor torna a ver o patriarca numa situação semelhante. Por causa de suas orações, o Senhor restaurou a fertilidade da esposa e das concubinas de um rei pagão, Abimeleque (v. 17). Aparente­mente, a atitude desleal de Abraão para com Abimeleque não o desqualificou como intercessor profético. Ainda assim, não é irô­nico que as orações de Abraão tenham funcionado para curar o ventre das mulheres filistéias, enquanto sua própria esposa con­tinuava incapaz de conceber? 

Gênesis 21—22. Após uma espera de quase 25 anos, nasce Isaque. Acompanhamos Abraão, cronologicamente, de seus 75 anos (12.4) até seu centésimo aniversário (21.5). Apesar de seus con­tratempos, atitudes insensatas e frustrações, ele jamais perdeu de vista a primeira promessa que havia recebido de Deus: “uma grande nação” (12.2). O incrível se tornara real. 

Vemos então o incrível voltar à tona. Incrível que Sara ainda precisasse dos serviços de um obstetra? Sim. Não é também inacreditável, pelo menos para Abraão (talvez também para o lei­tor), que Deus lhe tenha pedido para sacrificar Isaque, “o teu fi­lho, o teu único filho, Isaque, a quem amas”? Sim. 

Seria interessante saber algo sobre o período transcorrido do nascimento de Isaque até o dia em que foi oferecido em sacrifício. Seria ele uma criança indefesa, um adolescente curioso ou um adulto disposto? O Isaque do capítulo 22 é mencionado como um na‘ar (“moço” [22.5,12]), termo hebraico que pode definir uma cri­ança do sexo masculino (o bebê Moisés [Ex 2.6]), um adolescente (José aos dezessete anos de idade [Gn 37.2]), ou um homem com idade suficiente para servir como espião (Js 6.23). Aliás, a mesma palavra aplicada com relação a Isaque nesse capítulo é utilizada para os dois servos que acompanhavam a ele e ao pai (22.3, 5). O próprio Isaque carregou a lenha para o fogo (22.6; ele seguiu, por assim dizer, “carregando a sua cruz” [Jo 19.17]) e era capaz de formular perguntas inteligentes (22.7). 

Em sua obra História dos Hebreus, Flávio Josefo afirma que Isaque tinha vinte e cinco anos naquela época. Apesar de Josefo não esclarecer a fonte dessa informação, esse número pode refe­rir-se à idade mínima para o serviço militar ao fim do período do Segundo Templo (cinco anos a mais que os vinte anos definidos nas Escrituras [Nm 1.3,45]). Um comentário rabínico sobre Gê­nesis {Genesis Rabbafi) declara que Isaque tinha 37 anos naquela ocasião! Esse número baseia-se na idade de Sara, à época do nas­cimento de Isaque (noventa anos), e em sua morte trinta e sete anos mais tarde, aos 127 anos de idade (Gn 23.1), provocada pela falsa notícia da morte de seu filho! Em todo caso, nesse episódio, Isaque é tudo, menos uma criança. 

Nos capítulos 18 e 19, deparamos com um Abraão loquaz, tentando fazer com que Deus reconsidere, fazendo perguntas, exi­gindo respostas e portando-se com audácia. Aqui, em contraparti­da, ele guarda silêncio, mantém-se passivo e segue as orientações dadas por Deus. Será? 

No que diz respeito a Abraão, George W. Coats comenta: “Ele surge com um aspecto sobre-humano, impassível e um tanto irreal. Em momento algum se opõe à absurda e quase insana ordem de sacrificar seu filho, como certamente teria feito o Abraão de Gêne­sis 12 ou 16. Ele, pelo contrário, parece prosseguir em sua sombria tarefa com um silêncio resignado, como se fosse um autômato’23. Por outro lado, A. W. Tozer observa: “O escritor do texto sagrado nos poupa de um quadro mais detalhado da agonia sofrida naquela noite, nas encostas próximas a Berseba, quando o ancião argumen­tou com seu Deus. Com todo respeito e temor, podemos imaginar aquela figura arqueada em meio a um intenso conflito interior sob as estrelas. Com certeza, até que aquEle que é maior que Abraão enfrentasse seu martírio no jardim do Getsêmani, nenhuma alma humana jamais foi visitada por tamanha dor’24. 

J. D. Levenson25 compreende haver um equilíbrio entre o Abraão suplicante de Gênesis 18 e o Abraão passivo de Gênesis 22. Ele nota que essas duas representações, quase que contíguas, “delimitam uma teologia, em que a decisão humana não substitui o Deus insondável que tudo governa [Gn 22] nem é algo supérfluo em uma vida de fidelidade ao Senhor [Gn 18]. Em uma teologia dialética com tal amplitude, tanto argumentar com Deus como obedecer a Ele podem ser atos espirituais de suma importância, embora nunca fique muito clara a atitude a ser tomada a cada momento”. Em um outro artigo, Levenson sugere que a diferença entre os capítulos 18 e 22 diz respeito ao contexto: “O contexto de Sodoma e Gomorra é judicial\ enquanto o aqedah26 é sacrificial [...] Em um contexto judicial, a morte de um inocente é um insul­to; já em um contexto sacrificial, a inocência da vítima humana não é base para protestos. Abraão levanta a voz contra o próprio Deus ao imaginar uma execução injusta. Ele, contudo, se dispõe a oferecer seu próprio e amado filho em sacrifício. Não há con­tradição alguma no texto”27. Nesse ponto, talvez seja possível divisar uma analogia entre o comportamento de Abraão e o com­portamento de Jesus, sobretudo quando o Cristo está no madeiro. Jesus também intercedeu pelos pecadores (Lc 23.34), mas não aceitou a idéia de se salvar da cruz — embora a multidão o encorajasse a fazê-lo (Lc 23.35) e Ele tivesse poder para se libertar caso assim o desejasse (Mt 26.53). Ele se recusou expressamente a fazer uso dessa última opção. Em outras palavras, tanto Abraão como Jesus utilizaram o relacionamento que tinham com Deus, e a influência que advinha desse relacionamento, em benefício dos outros e não de si mesmos — para salvar os outros, mas não para se salvarem28. 

O capítulo 22 é apresentado como um teste de Deus para Abraão. A fé do patriarca foi testada sem a menor dúvida (“agora sei que temes a Deus” [v. 12]), mas foi apenas mais uma dentre tantas outras situações que visavam lhe experimentar a fé; uma fé que, já no capítulo 12, começara a ser testada: “Sai-te”. 

Em última análise, o episódio nos revela mais sobre Deus que sobre Abraão. O clímax é: “E chamou Abraão o nome daquele lu­gar o Senhor proverá” (v. 14). O nome chama a atenção para Deus, não para Abraão. Não é “Abraão conseguiu”, mas “Deus proverá”. No fim das contas, é no caráter de Deus e na confiabilidade da sua palavra que se baseia a fé. 

Embora Abraão tenha vivido por um bom tempo após esse acontecimento, e embora ainda haja dois capítulos e meio a respeito de sua vida, esse foi o último diálogo travado entre ele e Deus. O patriarca recebe pela última vez a promessa de muitos descen­dentes, terras e bênçãos sobre as nações da terra por causa da sua semente (vv. 15-18). 

Gênesis 24. Deus proverá. Abraão descobriu isso em Moriá. Deus proveu um carneiro. Será que Deus iria prover uma esposa para Isaque? O mais longo capítulo de Gênesis é dedicado a responder a essa questão. Para Abraão, a resposta para essa pergunta é um rematado sim (v. 7). Inspirado na fé de seu amo, o servo também entrega a busca nas mãos do Senhor (vv. 12-14 [sobre o servo, leia Teugels]29). O acaso e a coincidência não têm vez. Para esse casamento, Deus escolhera a esposa (vv. 14,44). Ao longo de todo o enredo, Deus é apresentado através de outras pessoas, e não por palavras próprias. O narrador fala a respeito de Jeová (vv. 1,21,52), a exemplo de Abraão (vv. 3,7,40), o servo (vv. 12,27,35,42,48,56), Labão (v. 31) e Labão com Betuel (vv. 50,51). Apesar de estarmos justificadamente acostumados a ver na história de José um exem­plo imprescindível da providência divina em ação, não devemos minimizar a contribuição de Gênesis 24 a esse respeito. A sua maneira, Gênesis 24 fala a respeito do Deus “Jehovah-Jireh”. Deus provê um animal para o lugar de Isaque, embora seja um carnei­ro (22.13 e veja 15.9,10 para outro carneiro) em vez do esperado cordeiro (22.7,8). Deus provê Rebeca para Isaque. Deus provê pri­meiro uma rês, logo depois uma esposa, e Isaque é o beneficiado em ambas ocasiões. 

Abraão no Novo Testamento 

Por incrível que pareça, não há trecho algum no Novo Testa­mento que vincule a quase imolação de Isaque com o sacrifício de Jesus. Talvez a analogia mais próxima esteja nas palavras de Paulo a respeito de Deus: “nem mesmo a seu próprio Filho pou­pou, antes, o entregou por todos nós” (Rm 8.32). 

O que o Novo Testamento, e Paulo em especial, faz com Abraão é elevá-lo a um modelo de fé. Em um confronto com aqueles que defendiam a justificação pelas obras, Paulo cita Abraão como um exemplo pré-sinaítico (anterior à lei outorgada no Sinai a Moisés) da justificação pela fé, fundamentando toda uma defesa dessa posição em sua vida. 

Perto do fim de Romanos 3, Paulo afirma que é pela fé, e so­mente pela fé, que uma pessoa é justificada (3.22,27,28,30). O capítulo 4, portanto, é um exemplo de sua tese. A justificação não vem pelas obras (4.1-8). A justificação não vem com a circuncisão (4.9-12). A justificação não vem através do cumprimento da lei (4.13-15). E por fé (4.16-25). Como prova disso, considere Abraão, que creu e foi justificado (à parte de obras, circuncisão ou lei). 

Então, o que é fé? Qual foi o seu efeito no caso de Abraão? De que forma ele serve como exemplo desse princípio? Paulo nos dá nove características da fé de Abraão (4.17-20). 

1 - Ela é teísta: “perante aquele no qual creu, a saber, Deus” — um Deus que dá vida aos mortos (ressurreição) e chama à existência aquilo que não existe (criação). Foi exatamente isso que Deus teve de operar no útero de Sara e na genitália de Abraão, pois ambos tinham perdido sua capacidade de procriar. Foi preciso ressuscitar ou criar a capacidade que tinham de produzir vida. 

2 - É supra-racional: “em esperança, creu contra a esperança”. A fé não é irracional, mas vai além da razão. Por trás da realidade humana de uma situação, há uma realidade divi­na. Se há um Deus, isso é perfeitamente possível. Um Deus assim transcende a capacidade humana. 

3. Ela possui um propósito: “que seria feito pai de muitas na­ções, conforme o que lhe fora dito”. A aspiração de Abraão não se limita ao desejo de ter um filho, mas ele almeja ver a concretização dos planos de Deus em sua vida. 

4. È inteligente e realista: “E não enfraqueceu na fé, nem aten­tou para o seu próprio corpo”. Os fatos devem ser enfrenta­dos, não ignorados, mas não devem jamais nos dominar ou intimidar. 

5. E inabalável: “E não duvidou [...] por incredulidade”. Não era Abraão que possuía a fé, mas a fé que possuía Abraão. 

6. E bem fundamentada: “E não duvidou da promessa de Deus”. Não é fé na fé, ou fé em impressões pessoais, mas fé na pro­messa de Deus. 

7. Ela fortalece: “foi fortificado na fé”. Em conseqüência, temos a edificação do caráter. 

8. Leva à adoração: “dando glória a Deus”. 

9. Dá segurança: “estando certíssimo de que também era pode­roso para fazer o que tinha prometido”. 

Esse é o tipo de fé que justificou Abraão. E curioso observar que, nesse mosaico, Paulo jamais se utiliza especificamente da oferta de Isaque em sacrifício. Em vez disso, ele se concentra em um outro importante aspecto da vida de Abraão: sua incapacida­de para a paternidade, quando tanto ele quanto Sara já estavam bem além da idade de procriar, (veja Gn 18.12), embora Deus ti­vesse lhe prometido incontáveis descendentes. De forma mais li­mitada, Paulo volta a apresentar argumento semelhante em Gálatas 3.6-18. 

O escritor aos Hebreus, por outro lado, se esforça para dar um panorama geral da odisséia de Abraão (11.8-22). 

1. Pela fé, Abraão obedeceu (v. 8) ao ser chamado, apesar de desconhecer seu destino. 

2. Pela fé, ele habitou na terra (v. 9), vivendo em tendas. 

3. Pela fé, ele ofereceu Isaque (v. 17), de antemão seguro de que seu filho seria ressuscitado. 

A epístola de Tiago (2.21-23) também se utiliza de Gênesis 22 para respaldar a observação de que, ao oferecer Isaque, Abraão foi justificado por obras. Foi justificado por uma fé que produz efeito. Obras que o fizeram merecer a salvação? Não. Obras que o marcaram como um salvo do Senhor? Sim. 

Se fôssemos nos surpreender com a omissão de Paulo, em Gálatas e Romanos, de qualquer referência clara à oferta de Isaque como exemplo de fé, deveríamos também ficar surpresos com Hebreus. O livro de Hebreus não traz referência alguma ao gran­de ato de fé de Abraão, registrado em Gênesis 15.6. Em Hebreus 11, não lemos “pela fé, ele creu”. 

A omissão de ambos os autores têm uma boa razão. Paulo usa a fé de Abraão como uma ilustração da necessidade da fé para que nos tornemos filhos de Deus. Logo, ele mantém seu foco na fé de Abraão em relação às dificuldades para o nascimento de Isaque. 

O escritor de Hebreus utiliza a fé de Abraão para ilustrar a fé que permeia a caminhada diária do filho de Deus. Logo, ele não se concentra em um único incidente ocorrido no início da peregri­nação de Abraão, mas opta por uma visão panorâmica de sua vida, começando com a primeira ordem de Deus e indo até a última. 

Gênesis 11.26—25.11 (Abraão) 

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1 “The Kerygma of the Yahwist”, em The Vitality of Old Testament TYaditions. Atlanta: John Knox, p. 47. 

2 Ibid. p. 54. 

3 Notes on Biblical Theology. Grand Rapids: Eerdmans, 1948, p. 67. 

4 Old Testamet Theology. Vol. 1. Nova York: Harper & Row, 1962, p. 167. 

5 Introduction to the Old Testament as Scripture. Filadélfia: Westminster, 

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6 The Theme of the Pentateuch. 2a ed. Sheffield: JSOT Press, 1978, pp. 32,33. 

7 “Abraham — Lover or Beloved of God?”, em Love and Death in the Ancient 

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8 “The Ancestress of Israel in Danger”. Semeia. Vol. 3, 1975, pp. 81-98. 

9 Underdogs and Tricksters: A Prelude to Biblical Folklore. New Voices in Biblical Studies. San Francisco: Harper & Row, 1987, pp. 23-69. 

10 “The ‘Endangered Ancestress’ and Blessing for the Nations”. JBLrl 109, 1990, pp. 599-611. 

11 “The Naming of Isaac: The Role of the Wife/Sister Episodes in the Redaction of Genesis”. WTJn0 53, 1991, pp. 1-27. 

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13 “The Wives’ Tale of Genesis 12, 20 and 26 and the Covenants at Beer- Sheba”. TynBrl 43, 1992, pp. 81-99. 

14 “Are the Wife/Sister Incidents of Genesis Literary Compositional Variants?” VTn° 42, 1992, pp. 145-153. 

15 “Who’s Afraid of the ‘Endangered Ancestress’?”, em The New Literary Criticism and the Hebrew Bible. Editado por J. C. Exum e D. J. A. Clines. JSOTSup n° 143. Sheffield: JSOT Press, 1993, pp. 91-113, apud Fragmented Women: Ferminist (Sub) versions of Biblical Narrative Valley Forge, Pa.: Trinity, 1993, pp. 148-169. 

16 “On Reading Genesis 12:10-20”, em Tehillah le-Moshe: Biblical and Judaic Studies in Honor of Moshe Greenbeig. Editado por M. Cogan e outros. Winona Lake, Ind.: Eisenbrauns, 1997, pp. 23-38. 

17 I. M. Duguid, “Hagar the Egyptian: A Note on the Allure of Egypt in the Abraham Cycle”. WTJn° 56, 1994, pp. 419-421. 

18 W. L. Humphreys, The Character of God in the Book of Genesis. Louisville: Westminster John Knox, 2001, p. 105. 

19 Fonte Eloísta: atribuída às passagens que tratam Deus por “Elohim”. (N. do T.) 

20 “The Initiation Legend of Ishmael”. ZAWrl 87, 1975, pp. 267-305. 

21 Gênesis. Traduzido por J. H. Marks. Filadélfia: Westminster, 1972, p. 185. 

22 J. Goldingay, “The Significance of Circumcision”. JSOTrI 88, 2000, p. 9. 

23 “Abraham’s Sacrifice of Faith: A Form Critical Study of Genesis 22”. Int n° 27, 1973, p. 397. 

24 The Pursuit of God. Harrisburg, Pa.: Christian Publications, 1948, p. 25. 

25 Creation and the Persistence of Evil: The Jewish Drama of Divine Omnipotence. 2a ed. Princeton, N. J.: Princeton University Press, 1994, pp.151-153. 

26 Termo hebraico que compreende o quase sacrifício de Isaque. (N. do T.) 

27 “Abusing Abraham: Traditions, Religious Histories, and Modern Misinterpretations”. Judaism n° 47, 1998, p. 272. 

28 R. W. L. Moberly, The Bible, Theology, and Faith: A Study of Abraham and Jesus. Cambridge: Cambridge University Press, 2000, p. 160. 

29 L. Teugels, “The Anonymous Matchmaker: An Enquiry into the Characterization of the Servant of Abraham in Genesis 24”. JSOTvi 65, 1995, pp. 13-23. 







[1] Abraão viaja com Sara para o Egito por causa da fome (12.10­20). 

2. Ao voltar do Egito, Abraão e Ló repartem a terra entre si (13.1-18). 

3. Abraão resgata Ló de seus seqüestradores (14.1-17, 21-24) e, nesse ínterim, encontra-se com Melquisedeque (14.18-20). 

4. Deus firma uma aliança com Abraão (15), a qual é mais tar­de selada com a circuncisão (17); nasce Ismael (16). 

5. Deus condena Sodoma e Gomorra (18—19). 

6. Abraão, longe de casa, fracassa em uma nova tentativa de enganar um rei, ao identificar Sara como sua irmã (20). 

7. Isaque nasce e, pouco tempo depois, é oferecido em sacrifício (21—22). 

8. A morte de Sara (23). 

9. Abraão envia seu servo de volta a sua casa, a fim de obter uma esposa para Isaque (24). (Observe que o mais longo ca­pítulo de Gênesis aborda o assunto do casamento.) 

10. Amorte de Abraão (25.1-11).