20 de setembro de 2016

RANDALL PRICE - Escavações que fizeram a diferença

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Constam nos museus de hoje milhares de artefatos arqueológicos prove­nientes do Oriente Próximo antigo, achados fabulosos que contribuem signifi­cativamente para nos aclarar o mundo bíblico.

Nem sempre foi assim, todavia. O escritor inglês Samuel Johnson, no sé­culo XVIII, declarou categórico: “Tudo o que é realmente conhecido da Grã- Bretanha antiga está registrado em umas poucas páginas, e não podemos saber mais do que o velhos escritores nos disseram”.2 Johnson não imaginava que vastos remanescentes da Londres romana repousavam bem debaixo de seus pés, na estalagem George, à rua Fleet, e que parte do muro da antiga cidade jazia a cinco minutos de sua própria casa!

Ao mesmo tempo, no Egito, o povo da cidade de Luxor disputava o “bom fundamento” encontrado no meio do deserto, um alicerce que brotava da areia e sobre o qual construíam suas casas de tijolos. Pelo menos assim o considera­vam. Eles não tinham ciência de que a excelente área plana sobre a qual erguiam suas habitações era de fato o topo dos enormes pilares que formavam o Grande Corredor de Colunas de Carnaque, uma estrutura descrita pelo historiador gre­go Heródoto em 450 a.C. quando ele caminhava junto às bases das colunas, cerca de trinta metros abaixo!

Até o século XVIII, portanto, ninguém ainda havia aprendido a ler o regis­tro das pedras. Seu conhecimento estava confinado a histórias do passado. Mas isso estava para mudar.

Ao findar aquele século, iniciaram-se as escavações, e elas fizeram a dife­rença. As descobertas finalmente ensinaram a humanidade a ler o passado — e também lançaram nova luz sobre as obras contemporâneas.

Escavações que nos ensinaram a ler

Os exploradores pioneiros no contato com o mundo bíblico ficaram mara­vilhados ao contemplar pela primeira vez as ruínas monumentais do Egito e da Mesopotâmia. Procedendo aos registros das antigas cidades, desenhos das ma­ravilhas rochosas, eles voltaram para casa a fim de extasiar uma platéia ávida por novidades. Todos os que viam aquele outro mundo revelado nas ilustrações logo ficavam curiosos acerca dos misteriosos sinais que cobriam as maravilhosas estruturas.

Apesar de os pesquisadores saberem que aqueles símbolos peculiares repre­sentavam a história de civilizações desaparecidas, a maioria deles estava convicta de que as chaves para interpretá-los também se haviam perdido. Ali estavam as enigmáticas línguas do Egito e da Mesopotâmia, as duas grandes potências do passado. Como os historiadores ansiavam por decifrar os seus segredos! Mas ninguém possuía as chaves. Ironicamente, as chaves apareceram nas próprias pedras, na proporção dos achados, que se somavam. Duas dessas descobertas literalmente nos ensinaram como ler as línguas perdidas e, como resultado, revelaram novas maravilhas ao mundo. Foram elas a pedra Roseta e o rochedo de Behistun, contadas entre as primeiras grandes descobertas arqueológicas.

A pedra Roseta — chave para os hieroglifos egípcios

Os hieroglifos (a antiga escrita egípcia, sendo o termo derivado de duas palavras gregas: hieros, “sagrado”, e glifo, “gravar”) receberam uma aura especi­al de mistério por causa dos artistas europeus, que romantizaram em suas obras as ruínas de Gizé e Tebas. Para os encantados europeus, os símbolos que as cobriam tornaram-se tanto motivos ornamentais quanto eram considerados repositórios de segredos conhecidos somente dos faraós.

A maioria dos eruditos da época concordava que aqueles sinais carregavam um significado místico para os egípcios, mas também imaginavam ser possível decifrá-los e assim recuperar muita coisa daquela cultura perdida. Porém o sig­nificado dos hieróglifos permaneceu-lhes obscuro, tão indefinido quanto uma nuvem de chuva sobre o ermo.

Foi então que, em 1798, soldados sob o comando de Napoleão Bonaparte, que junto com uma unidade de cientistas franceses invadira o Egito no ano anterior, começaram a reunir um grande número de artefatos egípcios recém-descobertos. Como seria demonstrado mais tarde, os objetos estavam destina­dos a colecionadores somente, e não à conservação. Um ano depois, os tesouros caíram nas mãos dos ingleses, que seguiram a esquadra francesa e expulsaram o exército de Bonaparte do Egito.

No meio de uma nova coleção de antigüidades confiscadas, enviada pelos ingleses para o museu nacional em Londres, constava um grande bloco de pe­dra de basalto gravado de cima a baixo com antigos caracteres. A pedra foi encontrada por um oficial do exército francês, o tenente P. F. X. Bouchard, que fazia reconhecimento na área próxima ao povoado de Roseta, à margem esquer­da do Nilo. Com cerca de 7 metros de altura, quase 1 metro e meio de largura e 33 centímetros de espessura, a pedra pesava aproximadamente 760 quilos!

Denominada apropriadamente Pedra Roseta, logo despertou interesse, quando se observou que a escrita apresentava diferentes tipos de caracteres. Es­tudos posteriores revelaram serem textos paralelos, cada um registrando o mes­mo relato. O texto no topo da pedra estava escrito em hieróglifos, o do meio parecia uma forma cursiva dos mesmos hieróglifos (hoje chamada escrita demótica) e o da parte inferior era grego coiné.

Sendo esse grego (o mesmo do Novo Testamento) de fácil leitura para os eruditos, criou-se a expectativa de que alguém pudesse trabalhar do co­nhecido para o desconhecido. Comparando primeiro as palavras gregas fa­cilmente inteligíveis com o texto demótico (que pensava-se ser legível), tal­vez alguma luz pudesse ser lançada sobre os enigmáticos hieróglifos (que pensava-se serem somente simbólicos). À medida que o texto grego da Pe­dra Roseta era traduzido, soube-se que a pedra era uma estela comemorati­va que já estivera em um templo egípcio. Ela registrava algum decreto pu­blicado de Mênfis (a capital egípcia antiga) em 196 a.C. exibindo os triun­fos do Rei Ptolomeu V Epifânio. A inclusão deste nome (o único nome real preservado na seção de hieróglifos da pedra) se mostraria essencial para fi­nalmente quebrar o código de hieróglifos.

A primeira tentativa bem-sucedida de ler o texto egípcio foi feita porThomas Young (mais conhecido como o autor da badalada teoria da luz). Ele identificou corretamente um grupo recorrente de hieroglifos escritos com um círculo (co­nhecido como cartucho) com o nome do rei Ptolomeu. Agora que sabia-se que nomes estrangeiros eram escritos somente com estes hieroglifos, o significado dos sinais haveria de ser entendido pelos eruditos. Ironicamente, um jovem francês chamado Jean-François Champollion entrou no drama da decifração. Lingüista bem dotado, Champollion energicamente aplicou-se à tarefa em questão. Ele comparou o hieroglifo de Young para “Ptolomeu” na Pedra Roseta com um obelisco que acabara de ser descoberto (1819) de um templo egípcio antigo perto de Aswan, que continha os nomes de Ptolomeu e Cleópatra em grego. Ele foi capaz de isolar o cartucho para Cleópatra e, partindo daí, decifrar outros nomes reais. Finalmente, em 1822, com a idade de 32 anos, ele anunciou triun­fantemente que havia resolvido o quebra-cabeça dos hieroglifos. Para a surpresa de muitos eruditos, ele demonstrou que os hieroglifos não eram apenas símbo­los, mas sinais com valor fonético — eles formavam uma linguagem legível! Por isso, em função da descoberta da Pedra Roseta, os segredos ocultos da lingua­gem egípcia e através dela, a história do Egito antigo, religião e cultura foram abertas ao mundo.4

A inscrição Behistun — Chave para o acadiano cuneiforme

O que a Pedra Roseta fez pelos hieroglifos egípcios, uma inscrição monu­mental no Irã (antiga Pérsia), fez pelo acadiano cuneiforme. Acadiano era uma língua semítica da Mesopotâmia, e seus dois principais dialetos (assírio e babilônio) foram usados para registrar os triunfos militares e contos religiosos dos grandes impérios mundiais da Assíria e Babilônia. Ambos estes impérios figuram proeminentemente na Bíblia como nações usadas por Deus para punir os israelitas por sua infidelidade à Aliança Mosaica.

Por séculos, aqueles que passavam por velhas trilhas de caravanas aos pés da montanha iraniana conhecida como Rochedo de Behistun, com 1.200 metros de altura, perguntavam-se maravilhados e curiosos sobre as estranhas figuras encrustradas no lado do penhasco cerca de 91 metros acima de suas cabeças. Estes antigos viajantes consideravam esta gigantesca configuração como uma obra de Deus. Registros antigos de cerca de 500 a.C. revelam que a rocha era chamada Baga-Stana (“a Casa de Deus”), daí o nome moderno, Behistun (tam­bém Bisitun). Neste relevo maciço, há um homem com a mão levantada. Dez homens olham para o homem e dois outros ficam atrás dele. Acima de suas cabeças há uma imagem suspensa como a de um pássaro. Quem eram estes estranhos homens e o que era o objeto flutuando sobre suas cabeças? Antes dos tempos modernos, a resposta do guia turístico era: “Cristo, seus discípulos e o Espírito Santo” (como uma pomba)!

Como uma grande parede erguida atrás das figuras esculpidas, a superfície da pedra tinha sido aplainada e parecia macia e polida. Isso até que alguns corajosamente escalaram a face do penhasco e relataram que estas paredes “ma­cias” foram na verdade encrustradas com milhares de pequenas pontas de fle­chas! Seriam estas algum tipo de decoração antiga? Os eruditos que têm-nas estudado não decidiram ainda. Ao contrário, elas têm sido consideradas uma forma de escrita antiga que, por causa da forma, foi chamada de cuneiforme (do latim, “em forma de cunha”).

Baseado na descoberta de escrita semelhante na antiga capital persa de Persépolis, outros eruditos sugeriram que as figuras não eram do Novo Testa­mento, mas do Antigo, e que elas poderiam incluir os reis persas. Esta conjectura provou ser correta, porque quando os caracteres cuneiformes foram finalmente decifrados, uma frase bravamente proclamava: “Eu sou Dario, o Grande Rei, Rei de Reis, Rei da Pérsia”. Uma vez que isso foi lido, estava claro que a figura central não era outro senão Dario, o Grande, que governou o império persa de 522 a.C. até 486 a.C. Outras decifrações também encontraram o nome de seus filhos, Xerxes, que sucedeu Dario no trono persa. Aqui então, pela primeira vez, houve evidência do monarca Dario I Hystaspes, que serviu como instru­mento de Deus para o retorno dos hebreus de Judá e para ajudá-los a recons­truir o Templo em Jerusalém. Aqui, também, estava um testemunho em pedra de Xerxes (Assuero), que havia casado com a judia Ester, e que foi reverenciado desde então no festival judaico de Purim. Eles não apenas haviam deixado seus “cartões de visita” em Behistun, mas também suas “carteiras de identidade com foto” para que todos vissem! Os segredos da misteriosa montanha foram revela­dos finalmente.

Os homens que sucederam na leitura da escrita cuneiforme e na resolução destes “segredos em pedra” foram o major britânico sir Henry Rawlinson. Com grande risco de vida, Rawlinson repetidamente escalou o íngreme penhasco de Behistun para copiar as inscrições. Sua postura precária enquanto copiava o texto cuneiforme estava para equilibrá-lo no último degrau de uma escada, sem qualquer outro apoio além de um braço na frente da rocha! Numa ocasião, a escada de cordas que ele estava usando partiu e deixou-o pendurado numa pe­quena saliência até que foi resgatado.

Graças ao doloroso trabalho de Rawlinson e outros eruditos, soubemos que aquelas inscrições em Behistun preservaram não apenas a linguagem cuneiforme, mas três — os antigos persa, babilônio e elamita. Com a ajuda de seu trabalho na pedra de Behistun, o enigma dos escritos cuneiformes foram decifrados. Esta chave, em contrapartida, abriu o mundo para antigos anais da Assíria e Babilônia, lançando nova luz não apenas sobre sua história, mas tam­bém sobre a historicidade da Bíblia.5

Escavações que recontaram antigas histórias

Você já se perguntou alguma vez por quê a Bíblia devia ter todas as boas histórias? Se as grandes histórias da criação e do dilúvio foram histórias reais, como a Bílbia as apresenta, não deveriam outras culturas antigas terem sabido destas histórias também? Esta suposição foi confirmada quando um número de textos cuneiformes antigos foram descobertos contendo paralelos mesopotâmios dos relatos bíblicos.

Tecnicamente falando, esses textos não foram descobertos por arqueólo­gos no campo, mas por eruditos estudando. Apesar da arqueologia inglesa na Mesopotâmia não ter sido a ciência exata que é hoje, ela desenterrou centenas de toneladas de esculturas monumentais e milhares e milhares de tabletes cuneiformes. A maioria veio através dos esforços de sir Austen Henry Layard, que escavou na antiga capital assíria de Nínive, na década de 1850. No palá­cio do rei assírio Assurbanipal, ele encontrou milhares de tabletes de argila que haviam sido parte dos arquivos reais. Eles haviam aparentemente espera­do por Layard desde que foram abandonados quando o palácio foi destruído em 612 a.C.

Ele embarcou estes tesouros de volta ao Museu Britânico, e lá eles foram cuidadosamente guardados nos recessos do porão do museu. Os eruditos come­çaram a identificar a tempo, catalogar e decifrar muitos destes tabletes. Estes eruditos podem nunca ter escavado em terra estrangeira, todavia os escritos que eles desenterraram do porão em sua própria terra provaram ser uma das maiores descobertas arqueológicas de todas! Três dos mais antigos textos: o Épico de Atrahasis, Enuma Elish e o Épico de Gilgamés, são especialmente significativos quando comparados à Bíblia.



O Épico de Atrahasis — O Gênesis babilónico

A descoberta do mais antigo texto mesopotâmio com paralelos com o Gênesis foi feita no século passado e chamado Épico de Atrahasis (Atrahasis é o principal personagem da narrativa). Apesar de ter sido primeiro publica­do em 1876 por George Smith, do Museu Britânico, descobriu-se em 1956 que ele tinha erroneamente ordenado a destruição dos fragmentos do texto, e em 1965 que tinha somente um quinto do próprio texto! Foi então que o erudito inglês Alan Millard, assistente interino do Departamento de Antigüidades da Ásia Ocidental no Museu Britânico, pôde restaurar outros três quintos de texto dos fragmentos armazenados no porão do museu. En­quanto analisava um texto que tinha sido desenterrado mais de um século antes, ele notou que os escritos pareciam estranhamente como os do livro de Gênesis. Esta história épica estava preservada num tablete de mais de 1200 linhas. O tablete em si provavelmente datava do século XVII a.C., mas a história que ele recontava remonta a séculos do período babilónico mais antigo. A história, apesar de apresentada de uma perspectiva teológica dos babilônios, contém muitos detalhes que são semelhantes aos relatos bí­blicos da criação e do dilúvio. No conto babilónico, os deuses governavam os céus e a terra (cf. Gn 1.1). Eles fazem o homem do pó da terra misturado com sangue (cf. Gn 2.7; 3.19; Lv 17.11) para tomar dos deuses inferiores a responsabilidade de cuidar da terra (cf Gn 2.15). Quando o homem se multiplica sobre a terra e se torna muito barulhento, um dilúvio é enviado (depois de uma série de pragas) para destruir a humanidade (cf Gn 2.15). Um homem, Atrahasis, é avisado sobre o dilúvio e recebe ordens para cons­truir um barco (cf. Gn 6.14). Ele constrói um barco e enche-o de comida, animais e pássaros. Por este meio ele é salvo enquanto o resto do mundo perece (cf. Gn 6.17-22). Muito do texto é destruído neste ponto, portanto não há registro da atracagem do barco. Contudo, como na conclusão do relato bíblico, a história termina com Atrahasis oferecendo um sacrifício aos deuses e o deus principal aceitando a continuação da existência humana (cf Gn 8.20-22).6



Enuma Elish — A criação mesopotâmica

Geoge Smith, que havia traduzido a história mesopotâmica do dilúvio, foi também o primeiro homem a revelar ao mundo a existência de um relato mesopotâmico da criação conhecido como Enuma Elish. Como o Épico de Atrahasis, fragmentos deste texto também tinham vindo da biblioteca de Assurbanipal, em Nínive, mas outros fragmentos foram mais tarde encontrados em Ashur (a velha capital da Assíria) e Uruk. Em meados de 1920 dois tabletes quase completos foram também achados em Kish. Ao todo, sete tabletes juntos compunham este conto épico. A parte mais interessante deste conto (para estudantes da Bíblia) é aquele em que a criação é recontada sob uma perspectiva babilónica e assíria. O estranho nome do texto vem das palavras assírias que introduzem o texto: Enuma Elish, que significam “quan­do acima”.7 Na pequena porção do texto que menciona a criação, somos avisados que o universo, em suas partes componentes, começou com os deuses principais (que representam as forças da natureza), e foi completado por Marduque, que veio a ser o cabeça do panteão (assembléia de deuses) babilónico. E Marduque, não a criação, que permanece como o tema domi­nante no épico.

Quando procuramos paralelos com o relato de Gênesis encontramos al­guns: o caos aquático é separado em céu e terra (cf. Gn 1.1-2, 6-10), a luz é preexistente à criação do sol, lua e estrelas (cf Gn 1.3-5,14-18), e o número sete figura proeminentemente (cf. Gn 2.2-3). Além disso, porém, o contexto mito­lógico controla o conteúdo. Os deuses geraram outros deuses aos quais tentam destruir por causa de suas barulhentas festas. A mãe destes deuses, Tiamat, cria monstros para devorá-los, mas o mais forte deles — Marduque — corta-lhe ao meio. E de suas duas metades que os céus e a terra são formados. A humanidade é formada do sangue do líder capturado dos deuses rebeldes (uma espécie de demônio entre os deuses) para trabalharem como escravos para os preguiçosos deuses inferiores e alimentar o panteão babilónico. Este conto mitológico tem pouco em comum com os primeiros capítulos de Gênesis, que nos falam sobre Deus criando o homem à sua própria imagem, dando-lhe o mundo para desfru­tar, cuidando dele e buscando amizade com ele. Mesmo assim, a descoberta de Enuma Elish proveu nosso primeiro conhecimento de que outras culturas do Oriente Próximo compartilhavam aspectos da cosmogonia bíblica (relato da criação).



O Épico de Gilgamés — O dilúvio mesopotâmico

Outro achado importante que vem da escavação de Henry Layard foi um velho conto babilónico do dilúvio chamado Épico de Gilgamés. Ele foi no­meado depois que o principal personagem, o rei Gilgamés, que deve ter go­vernado a cidade mesopotâmica de Uruk por volta de 2600 a.C., e que nesta história épica está em busca da imortalidade. Porque nenhuma cópia do texto completo foi encontrada, os eruditos tiveram que compor o texto baseados nos fragmentos de períodos separados por mais de 1.000 anos (1750-612 a.C.)! Enquanto uma data no século XVIII é conjeturada para a composição original, se o material de Gilgamés for confirmado nos tabletes Ebla, a data poderia retroceder a um tempo muito anterior. O épico como o temos hoje está registrado em 12 tabletes. A história do dilúvio, que aparece no tablete 11parece ter sido tomada como empréstimo do Épico de Atrahasis (que está incompleto).

Quando o Épico de Gilgamés foi publicado pela primeira vez na Europa em 1872, ele causou uma sensação que rivalizava com as teorias de Darwin. Algumas pessoas o declaravam uma prova histórica do dilúvio do Gênesis, enquanto outros ainda desdenhavam da asseveração de que a Bíblia é singular e autêntica. Em toda a literatura mesopotâmica, o conto do dilúvio no tablete representa a principal correlação com o texto bíblico. Na história recontada aqui, Gilgamés é avisado sobre o dilúvio por Utnapishtim, um homem que ganhou imortalidade, e como o Noé bíblico, também passou a salvo pelas águas do dilúvio. Em seu relato do dilúvio, ele diz que o deus criador Ea favoreceu-o avisando-o sobre o dilúvio e ordenando-lhe que construísse um barco (cf. Gn 6.2,13-17). Neste barco ele levou sua família, tesouros e todas as criaturas vivas (cf. Gn 6.18-22; 7.1-16), escapando assim da tempestade enviada pelos céus que destruiu o restante da humanidade (cf. Gn 7.17-23). De acordo com seus cálculos, a tempestade acabou no sétimo dia, e a terra seca apareceu no décimo segundo dia (cf Gn 7.24). Quando o barco veio a repousar sobre o monte Nisir, no Curdistão (ao invés do bíblico monte Ararate, na Turquia), Utnapishtim enviou uma pomba, uma andorinha e finalmente um corvo (cf. Gn 8.3-11). Quando o corvo não voltou ele deixou o barco e ofereceu um sacrifício aos deuses (cf. Gn 8.12-22). Apesar de que estes ele­mentos particulares da história mesopotâmica pareçam excepcionalmente paralelos à história bíblica, uma pessoa que leia a tradução inteira da história achará seu caráter extremamente lendário; seu tom difere dramaticamente do relato do Gênesis.



De onde vieram estas histórias?

Desde a descoberta dos textos mesopotâmicos, questões têm sido levanta­das a respeito da origem destas histórias que são semelhantes àquelas encontra­das na Bíblia. Três possíveis respostas têm sido oferecidas pelos eruditos: 1) Elas foram relatos israelitas originalmente, que foram tomados como empréstimo e adaptados à religião e cultura mesopotâmicas; 2) Elas foram originalmente his­tórias mesopotâmicas, que foram tomadas como empréstimo pelos israelitas para atender aos seus propósitos religiosos; 3) tanto os relatos mesopotâmicos como os israelitas (bíblicos) vieram de uma fonte antiga em comum.

Concernente à primeira opção, até onde se sabe, os relatos bíblicos não foram escritos até o tempo de Moisés no século XV a.C. Parece improvável, então, que as histórias mesopotâmicas mais velhas (século XVII a XVIII a.C.) fossem derivadas do relato israelita. Quanto à segunda opção, é possível que Moisés tenha usado fontes para compilar seus relatos no Gênesis (veja Gn 14). Mais ainda, é possível que os escritores bíblicos tenham tido acesso ao Épico de Gilgamés, como um fragmento do épico descoberto durante as escavações de 1956 em Megido, Israel. Isso significa que tenha ocorrido uma dependência literária dos textos mesopotâmicos para compilar os relatos bíblicos? O uso de fontes extrabíblicas não é conflitante com a doutrina da inspiração, uma vez que há numerosos exemplos nos quais obras não-canônicas são citadas tanto no Antigo como no Novo Testamentos (veja Js 10.13; 1 Sm 24.13; 2 Sm 1.18; Lc 4.23; At 17.28; Tt 1.2; Jd 14). Todavia, nem a posse e nem o uso ocasional de textos extrabíblicos pelos escritores bíblicos estabelecem que tenha ocorrido uma dependência literária deles. Os escritores bíblicos continuamente enfatizam que sua fonte primária era a revelação divina. Fontes secundárias podem ter sido usadas em algumas ocasiões, mas não parece que elas foram usadas em referên­cia à criação ou ao dilúvio. As muitas diferenças significativas e omissões entre os relatos podem tornar improvável que tanto os autores mesopotâmicos como os bíblicos tenham tomado emprestado um do outro.

Mas poderia ter acontecido uma “dependência da tradição?” Isto é, poderi­am os relatos bíblicos simplesmente ser variações de mitos mesopotâmicos? Mais uma vez, é improvável. Uma das razões é que a orientação bíblica é monoteísta (um só Deus) e seus personagens são eticamente morais. Em contrapartida, a orientação mesopotâmica é politeísta (muitos deuses) e seus personagens são eticamente volúveis. Este contraste é evidente, por exemplo, no sentido de que os dois textos tratam do relato do mundo pós-diluviano. No texto bíblico, Deus aceita o sacrifício de Noé e promete não destruir de novo a terra por um dilúvio (Gn 8.20-22). No Épico de Atrahasis, os deuses descobrem, para sua tristeza, que eles haviam varrido sua única fonte de alimentos (os sacrifícios dos ho­mens). Porque estão com fome, eles decidem tolerar a humanidade (que pode alimentá-los). Outra razão é que importantes detalhes nos relatos diferem (como o tamanho do barco, a duração do dilúvio, o envio de pássaros, e assim por diante). A.R. Millard, que foi co-autor de um livro sobre o Épico de Atrahasis, resume a questão do alegado empréstimo quando diz:

Todos os que suspeitam ou sugerem o empréstimo feito pelos hebreus são compelidos a admitir uma revisão de grande escala, alteração e reinterpretação de um modo que não pode ser substanciado por nenhuma outra composição do antigo Oriente Próximo ou em qualquer outro escrito hebreu... Assumindo que o dilúvio aconteceu, o conhecimento dele deve ter sobrevivido para formar os relatos disponíveis; enquanto os babilônios só podiam conceber o evento em sua linguagem politeísta, os hebreus, ou seus ancestrais, entenderam a ação de Deus nele. Quem pode dizer que não foi assim?10

De fato, pistas literárias nestas composições mesopotâmicas implicam a antiguidade do relato de Gênesis. Eruditos têm há muito tempo reconhecido que Gênesis 2.1-4 é um colofão ou apêndice para a primeira narrativa da cri­ação em Gênesis l.11 Os tabletes antigos que contêm um relato da criação também têm um colofão. Uma comparação dos dois revela que a organização do material no colofão de Gênesis concorda com a informação dada nos anti­gos colofões: 1) título (“os céus e a terra”, Gn 2.la,4a); 2) data (“no dia em que o Senhor fez os céus e a terra,” Gn 2.46); 3) número em série (“seis dias” = série de 6 tabletes); 4) Se foi ou não completo em séries (“sétimo dia [=depois do sexto tablete]... completados,” Gn 2.1 b-2); 5) nome do escriba ou dono (“o Senhor Deus,” Gn 2.4b).

Portanto, parece mais provável que tanto o relato mesopotâmico como o israelita refletem um conhecimento universalmente preservado de eventos que ocorreram durante a história pré-diluviana da terra. As variações nestas históri­as foram passadas por diferentes culturas semíticas que desenvolveram-se após a divisão das nações no pós-diluviano Oriente Próximo (veja Gn 10—11).

Heranças deixadas da antigüidade

São relíquias arqueológicas como a Pedra Roseta e o Rochedo de Behistun que nos têm ensinado como ler o passado e considerar a Bíblia com um grande senso de historicidade e singularidade. Todavia, estas são apenas parte de uma grande herança da antigüidade deixada para nós. No próximo capítulo conti­nuaremos nossa jornada através do museu do tempo para vermos mais das des­cobertas das escavações que fizeram a diferença.