7 de setembro de 2016

RANDALL PRICE - Cavando as Respostas

antigo testamento danilo moraes
Nossa era anseia por respostas. A vantagem é que agora temos acesso a um imenso estoque de informações, indisponíveis em épocas anteriores. Por exemplo, enquanto os arqueólogos escavam incessantemente — em busca de mais respostas —, o público em geral pode navegar por uma multidão de pági­nas arqueológicas na Internet. Somente através do banco de dados da Israeli Antiquities Authority (Autoridade em Antigüidades Israelitas), arqueólogos de poltrona podem acessar as mais de cem mil relíquias descobertas no Estado de Israel desde 1948! 

Constam entre as descobertas mais significativas aquelas com inscrições, pois permitem acesso imediato ao conhecimento do passado. Inscrições não são encontradas com muita freqüência, no entanto algumas têm sido de grande auxílio para a compreensão dos registros bíblicos. 

O poder da palavra escrita 

Assim deverá ser escrito... 

Palavras escritas tinham grande importância para os antigos. Eles acredita­vam que as palavras carregavam consigo uma força capaz de realizar a vontade de quem falava.2 Na produção de Os Dez Mandamentos, de Cecil B. DeMille, destaca-se nas cenas cruciais do filme o pronunciamento: “Assim deverá ser escrito...” O roteirista utilizou a frase de forma apaixonada para enfatizar o contraste entre a palavra da terra e a que é do céu. O faraó vale-se da frase para selar um decreto proferido contra Moisés (e Deus). Todavia, a frase, quando utilizada pelo faraó, não tem poder algum: ele e seus deuses são sempre derrota­dos por Moisés. Em contrapartida, Deus a utiliza de maneira poderosa. Moisés a pronuncia contra o faraó, e o rei descobre que não pode fazer nada além de aceitar o seu destino. No caso de algum ponto ser perdido, a cena final do filme reforça o poder da Palavra de Deus, mostrando um quadro da Bíblia sobre o qual a frase é majestosamente sobreposta. 

... assim deverá ser encontrado 

Nada é mais estimulante para um arqueólogo do que descobrir palavras escritas em tempos remotos. São como vozes do mundo antigo, raramente com­preendidas, contudo falam alto àqueles experimentados em “ouvi-las”. Os pro­fissionais treinados para ler tais escritos são chamados epigrafistas (de uma pala­vra grega que significa “escrito em cima”; as relíquias escritas são chamadas inscrições, de uma palavra latina que significa “escrever em cima”). 

Assim como a escrita moderna é preservada em materiais que variam do CD ao cartão postal, também as inscrições do mundo da Bíblia chegaram até nós impressas nos mais diferentes objetos. E, tal como hoje, podem apresentar- se sob as mais diversas formas, desde um trabalho escolar infantil até revelações religiosas. Desse modo, importantes pronunciamentos e documentos foram pre­servados nos mais resistentes materiais. Às vezes, a escrita aparece sobre metal, porém, exceto pelas moedas, os metais eram reservados para textos e propósitos especiais. Por exemplo, a porção mais antiga que temos da Bíblia é a dos rolos de prata tirados de uma tumba no vale de Hinom. E um registro de valor ines­timável, que aponta o local onde foi enterrado um tesouro, está preservado no Copper Scroll (Rolo de Cobre), um dos rolos do mar Morto. 

As inscrições mais bem preservadas do mundo bíblico encontram-se em artefatos de pedra ou argila. Inscrições em pedra são geralmente monumentais, associadas com edifícios públicos, para comemorar algum evento especi­al (vitória ou dedicação), ou em conexão com enterros, para preservar um nome ou como memorial. Os tamanhos variam desde os enormes obeliscos, painéis egípcios e estátuas aos pequenos e alongados cilindros usados para registro na Mesopotâmia. Contrariando a concepção hollywoodiana, os Dez Mandamentos encaixam-se na última categoria. Eles foram provavelmente escritos sobre placas ou tabletes de pedra mais ou menos do tamanho de uma mão humana. 

As inscrições em argila estão geralmente associadas a comunicações diplo­máticas e arquivos arqueológicos. (Todavia, sendo a argila um material barato e durável, era também usada para outros propósitos, como inventários ou con­troles econômicos.) Aparecem na maioria das vezes gravadas em pequenos tabletes retangulares, sendo a forma de escrita mais antiga a que se parece com uma série de cunhas interligadas — daí o nome cuneiforme. Outro tipo de artefato em argila usado para a escrita comum eram os pedaços de cerâmica ou fragmentos. O termo técnico para os fragmentos que contêm escritos é ostraca Eram o material de escrita mais abundante, o caderno do pobre. As inscrições encontra­das nesses fragmentos são geralmente cunhadas ou escritas com tinta (obtida por uma combinação de carvão, goma-arábica e água). 

A literatura sagrada ou de outra ordem, bem como cartas particulares e comerciais, eram escritas com tinta em folhas de material quase equivalente ao nosso papel, como por exemplo o pergaminho — feito de peles de animais, quase sempre de bode ou de ovelha, devidamente preparadas. Havia também o velino, feito de pele de bezerro. O material mais utilizado era feito do junco que crescia nos pântanos ao longo dos rios: o papiro, que também era o nome da planta. De constituição mais delicada, documentos em papiro só se conservam sob condições excepcionais. Eles têm sido encontrados apenas em áreas secas ou guardados em vasos dentro de cavernas como as da região do mar Morto. 

Há mais de um século, as provas literárias, ao lado de uma vasta quantida­de de outros materiais, vêm construindo um impressionante arsenal de evidên­cias em favor da historicidade da Bíblia e de uma crescente iluminação do texto sagrado. Consideremos agora a valiosa contribuição desses artefatos arqueológi­cos aos estudos bíblicos. 

O valor da arqueologia para a Bíblia 

A arqueologia, com relação à Bíblia, presta-se a confirmar, corrigir, esclare­cer e complementar a mensagem teológica contida no texto sagrado. Uma vez que a Palavra foi anunciada à humanidade em lugares e tempos específicos, torna-se necessário compreendermos o contexto histórico, cultural e religioso de seus destinatários. E, quanto mais claramente percebermos o significado ori­ginal da mensagem, conforme comunicada ao mundo antigo, tanto melhor poderemos aplicar suas verdades eternas às nossas vidas, no mundo moderno. A arqueologia ajuda-nos a entender esse contexto, de modo que a verdade teológi­ca não seja mal interpretada ou aplicada indevidamente. O professor Amihai Mazar, diretor da Universidade Hebraica no Instituto de Arqueologia de Jerusalém, declara-nos esse propósito: 

Penso que a coisa mais importante que temos de entender é que a arqueologia é a nossa única fonte de informação vinda diretamente do período bíblico [...] A arqueologia pode trazer-nos a informação do período exato em que as coisas aconteceram [...] um quadro completo da vida diária nesse período, bem como as inscrições [...] que são a única evidência escrita que temos do período bíblico, afora a própria Bíblia.3 

Confirmando a Bíblia 

De acordo com o Websters English Dictionary, confirmar é “dar nova certeza da validade” de alguma coisa. A arqueologia faz emergir das pedras uma nova certeza a respeito da Bíblia, que vem agregar-se à convicção de que já possuímos pelo Espírito. Seu valor é apologético, o qual desde o início da ciência arqueológi­ca contribuiu tanto para instigar quanto para patrocinar as escavações. Apesar do recente distanciamento, nos círculos arqueológicos, das qualidades confirmatórias inerentes às evidências extraídas da terra, a maioria dos eruditos ainda atesta a significativa concordância entre as pedras e as Escrituras. Por exemplo, Amihai Mazar, apesar de avesso ao uso da arqueologia para legitimar a Bíblia, ainda assim admite ser possível corroborar a Bíblia com as descobertas arqueológicas: 

Em certos casos, podemos até lançar luz sobre certos eventos ou mesmo sobre certas construções como as que são mencionadas na Bíblia. Podemos enumerar muitos assuntos como esse onde a relação entre os achados arqueológicos e a narrativa bíblica pode ser estabelecida. Quanto mais recuamos no tempo, mais problemas [encontramos] e as questões são mais difíceis de responder. Nos períodos mais recentes [o tempo da monarquia], as coisas tornam-se mais seguras e melhor estabelecidas.4 

Apesar de ser verdadeiro que a maior parte das evidências disponíveis abran­gem épocas mais recentes da história israelita, as descobertas relativas a esses perí­odos refletem às vezes tempos mais antigos. Por exemplo, Gabriel Barkay desco­briu em 1979, numa tumba no vale de Hinom, em Jerusalém, pequenos rolos de prata contendo um texto do Pentateuco — a bênção de Arão (Nm 6.24-26), datados de antes do exílio de Judá. O achado criou um problema para os eruditos que defendiam a autoria do Pentateuco como sendo de sacerdotes de época posterior ao exílio. Como resultado, suas teorias deverão ser abandona­das ou reformuladas. 

As confirmações da arqueologia à narrativa bíblica não se restringem à história. Elas demonstram também a singularidade da Bíblia, com sua teologia, quando comparada com outros documentos antigos do Oriente Próximo. As descobertas de obras religiosas dos sumérios, egípcios, hititas, assírios, babilôni­os e cananeus têm servido para destacar a originalidade e a elevada moral da Bíblia. Portanto, a arqueologia não só é capaz de confirmar a revelação das Escrituras, desacreditando o ceticismo histórico, como também de demonstrar o seu singular conteúdo religioso. 

Resgatando o significado do texto bíblico 

Um dos primeiros passos para o entendimento das Escrituras é discernir o significado do texto conforme escrito originalmente. Conquanto seja imprová­vel que os arqueólogos desenterrem algum autógrafo (texto do autor original), as cópias passadas adiante chegaram até nós tão bem preservadas que nos dão a certeza de termos em nossas mãos a Palavra de Deus tal como foi revelada. Entretanto, as muitas cópias manuscritas de textos bíblicos às vezes contêm variações de palavras. E essas antigas versões apresentam-nos um desafio: recu­perar a forma precisa, a gramática e a sintaxe das palavras no hebraico, no aramaico e no grego, bem como os seus significados exatos e nuanças. Por isso, como destaca Bryant Wood, “uma contribuição muito importante da arqueolo­gia é o estudo que faz da linguagem da Bíblia”.5 

Temos feito muitas descobertas de textos antigos, bibliotecas e coleções de documentos que nos ajudam a entender as línguas hebraica e grega, o que nos permite obter uma tradução melhor dessas línguas para o inglês.6 

A maioria das descobertas de inscrições em línguas bíblicas ou em suas cognatas (línguas que possuem afinidade com os idiomas da Bíblia) têm afir­mado a integridade dos textos recebidos (autoritativos). Além disso, elas auxili­am os eruditos a entenderem as peculiaridades das seções poéticas e a interpre­tar melhor as palavras que aparecem apenas uma vez (hapax legomenon), sem qualquer sentido seguro para a tradução. Como resultado, temos agora maior certeza da validade dos textos nas línguas originais e aprimorada habilidade em traduzi-los para as línguas modernas. 



Esclarecendo o mundo da Bíblia 

Antes da arqueologia, a Bíblia era a testemunha solitária do que então se conhecia como “história sagrada”. As Escrituras, porém, assemelhavam-se a um livro exótico, narrando a história de uma civilização alienígena, desvinculado de pessoas e eventos reais. Sem acesso ao material do passado, cada um concebia o mundo bíblico à sua maneira. Porque a maioria da população mundial era analfabeta — situação que se estendeu até os tempos modernos — e cabia à arte e à arquitetura o papel de instruir o povo a respeito da vida nos tempos bíblicos. 

O mundo espiritual era elevado na arquitetura das catedrais, por exemplo, posicionando o homem comum ainda mais distante da realidade do mundo da Bíblia. Desde os mosaicos até as pinturas e esculturas em relevo, ilustrava-se a vida dos santos e pecadores das páginas sagradas, mas somente à luz limitada da época e dos conhecimentos do artista. 

Defrontei-me pela primeira vez com esse dilema durante uma exposição especial no Museu de Israel intitulada “Rembrandt e a Bíblia”. Graduado em arte e em teologia, interessei-me por aquela singular apresentação das obras do mestre holandês. Uma das primeiras cenas que vi estava num esboço, datado de 1637, que representava um homem, obviamente rico, de pé na escada à porta de sua mansão. Vestia turbante, túnica com cinto, botas de cadarço, casaco de pele, e tinha um cão obediente aos seus pés. Também faziam parte da cena um garoto vestido com pesada roupa de viagem e botas e uma mulher, semelhantemente vestida, que segurava um lenço de seda. Ao fundo, altas cons­truções de pedra e grandes árvores verdes, junto das quais uma mulher observa­va o homem, que aparentemente dizia adeus à mulher chorosa e ao garoto.


O tema da obra era a despedida de Agar e Ismael, e o homem era Abraão. Porém, conhecendo o mundo da Bíblia, jamais teria concebido a cena tal como se mostrava diante de mim! As personagens estavam vestidas para um clima frio, e nao para o escaldante deserto do Neguebe. Onde Abraão morava não havia aquelas árvores e provavelmente nem cachorros — pelo menos não os domésticos. E os patriarcas moravam em tendas, não em mansões elegantes. 

Quase que por ironia, poucos passos à frente da sala onde eram exibidas aquelas concepções erradas do século XVII ficava a exposição permanente da seção arqueológica do museu, que guardava remanescentes arqueológicos da época de Abraão. O contraste saltava aos olhos. As relíquias pintavam um qua­dro muito diferente do de Rembrandt, mostrando a realidade da vida nômade dos beduínos e da sociedade que cercava os patriarcas. 

Rembrandt não poderia mesmo saber como pintar Abraão e Sara, naturais da Mesopotâmia, ou a egípcia Hagar num ambiente cananita. Não havia refe­rências daquela época para suprir a sua arte. A arqueologia mudou essa situação para sempre, fornecendo tanto ao artista quanto ao espectador uma visão acurada do ambiente original dos patriarcas. Esculturas de palácios da Mesopotâmia, cerâmica e artefatos cananitas e painéis pintados das tumbas egípcias, todos datando do período patriarcal, tornaram vivas as figuras bíblicas. Se os registros arqueológicos que hoje possuímos estivessem disponíveis a Rembrandt, que obras não teria pintado! 

O mundo da Bíblia, conforme iluminado pela arqueologia, tem facilitado também a interpretação do texto bíblico em seu contexto histórico, como ob­serva Gonzalo Báez-Camargo: “Não vemos mais dois mundos diferentes, um mundo da ‘história sagrada e outro da ‘história profana. Toda história é uma história, e é a história de Deus, pois Deus é o Deus de toda a história”.7 

O achados materiais dessa história governada por Deus magnificam o mun­do da Bíblia com detalhes e um realismo jamais imaginado. O professor Amihai Mazar explica: 

Podemos calcular até a população de lugares como Jerusalém, ou toda a área de Judá, ou do reino de Israel. Podemos imaginar quantas pessoas viveram lá, em que tipo de comunidades viviam, que tipo de plantas cultivavam, que tipo de vasilhas utilizavam na vida diária, que tipo de inimigos tinham e que tipo de armas eles usavam contra esses inimigos — tudo o que se relaciona ao aspecto material da vida no período do Antigo Testamento pode ser descrito por achados arqueológicos desse período em particular.8 

Para demonstrar como o mundo da Bíblia trouxe clareza ao texto bíblico por meio das descobertas arqueológicas, consideremos as palavras de Jesus registradas em Mateus 8.22 e Lucas 9.60, consideradas ásperas: “ [...] deixa aos mortos sepultar os seus mortos”. Esses evangelhos colocam as palavras num contexto em que certos discípulos explicavam o porquê de não poderem deixar de imediato as suas respectivas situações para seguir a Jesus. Nesse exemplo específico, um discípulo pediu permissão para ir primeiro enterrar o seu falecido pai. Conforme entendido pelos leitores modernos, a aparente negativa de Jesus mostra-se tanto irracional quanto desnecessariamente severa. Alguns comentaristas tentam atenuar a declaração, interpretando-a como "deixe os espiritualmente mortos enterrarem os fisicamente mortos”, mas isso iria contradizer o quinto mandamento da lei mosaica, que diz: “Honra a teu pai e a tua mãe...” e a responsabilidade judaica de providenciar um sepultamento apropriado conforme ordenado em Deuteronômio 21.22,23. 

Todavia, quando interpretados à luz da informação arqueológica concernente às práticas de sepultamento do primeiro século judaico, o pedido do discípulo e a resposta de Jesus podem ser vistos sob uma ótica diferente.9 O enterro judaico no tempo de Jesus consistia na verdade de dois sepultamentos e [o segundo] acontecia pelo menos um ano depois. O primeiro (conhecido como ser “reunido aos seus pais”) era dentro da cova da família, seguido por um período de pranto. O segundo era dentro de uma caixa de ossos (ossuário), geralmente com os resquícios de outros membros da família, quando já a carne estava decomposta. O que parece estar em foco no registro do evangelho é o segundo sepultamento (conhecido como ossilegium). A réplica de Jesus ao discípulo que desejava uma licença de 11 meses antes de iniciar o serviço não se referia apenas à prolongada ausência, mas especialmente ao aspecto não-bíblico do segundo sepultamento. 

O sepultamento imediato (“reunir-se aos seus pais”) é retratado na Bíblia (ver Gn 49.29; Jz 2.10; 16.31; 1 Rs 11.21,43), mas nos tempos do Novo Testamento esse conceito havia adquirido um outro significado teológico."1 De acordo com fontes rabínicas, o ato da decomposição tinha um efeito purificador, fazendo expiação pelos pecados do falecido. A consumação desse processo espiritual era o ritual do segundo sepultamento. Uma vez que Jesus seguia o ensino bíblico de que somente Deus faz expiação (sobre a base da fé na redenção sacrifical [...]), sua declaração corrigia essa prática imprópria. Poderíamos então interpretar as palavras em Lucas 9.60 [...] como: “Olhe, você já honrou o seu pai dando- lhe um sepultamento apropriado na tumba da família. Agora, ao invés de esperar que a carne se decomponha, o que não pode expiar o pecado, vá pregar o evangelho do Reino de Deus [...] o único meio de expiação. Deixe os ossos dos ancestrais de seu falecido pai reunirem-se aos dele no ossuário! Quanto a você, siga-me! 



Complementando o testemunho da Bíblia 

Os 66 livros da Bíblia foram escritos em pelo menos três continentes, cobrindo mais de quatro mil anos de história. Seus autores eram profetas, cam­poneses, poetas, pastores e estadistas. Conquanto seu testemunho seja vasto e diversificado, as Escrituras mencionam somente certas pessoas e acontecimentos específicos, necessários ao seu propósito teológico mais amplo. 

A Bíblia enfoca alguns detalhes da história antiga enquanto omite outros. Um dos grandes valores da arqueologia, então, é o de testemunha extra que completa o cenário descrito pelos autores sagrados. Por exemplo, apesar de o rei Onri (885-874 a.C.) ter sido um dos mais destacados governantes de sua época - ele construiu Samaria e transformou-a na capital do Reino do Norte —, o texto bíblico concede-lhe meros oito versos de história (1 Rs 16.21-28). A razão é que ele era um dos reis mais ímpios de Israel até aquele tempo. A arqueologia, porém, tem-nos provido de informações adicionais a respeito de Onri, narrati­vas extrabíblicas de suas explorações registradas por alguns de seus oponentes estrangeiros. 

Testemunhos complementares são especialmente úteis para se entender a época do Segundo Templo, que abrange o período em que os evangelhos foram escritos. Por exemplo, os fariseus e os saduceus, que faziam oposição a Jesus, são bem conhecidos nos quatro evangelhos, mas nenhum testemunho se tinha de­les até 1948. Foi então que os manuscritos do mar Morto vieram à luz com numerosas descrições e narrativas das seitas judaicas — e também informações sobre os fariseus e os saduceus. 

As limitações da arqueologia 

Enquanto a arqueologia é de grande ajuda para a compreensão das Escritu­ras, os que com esse propósito dela se utilizam devem evitar que as evidências materiais os levem a criticar a autenticidade e a exatidão do texto bíblico. A. Momigliano expressa corretamente esse cuidado: 

Bíblicos ou clássicos, nós, historiadores, temos aprendido que a arqueologia e a epigrafia não podem tomar o lugar da tradição viva de uma nação [...] Ao mesmo tempo, fomos curados da antiga ilusão de que a confiabilidade de tradições históricas pode ser facilmente demonstrada pela pá do arqueólogo.12 

Uma das razões para que o registro no texto bíblico tenha prioridade sobre a evidência arqueológica são as limitações da arqueologia, por natureza confina­da ao reino material. O professor Amihai Mazar, diretor do Instituto de Arque­ologia da Universidade Hebraica de Jerusalém, observa: 

[...] a arqueologia é obviamente limitada. A arqueologia lida principalmente com a cultura material, não tanto com ideias, filosofia, poesia, sabedoria etc., como temos na Palavra de Deus. A Bíblia é uma riqueza, um mundo cheio de pensamento intelectual. A arqueologia é limitada. Ela nos fornece [somente] cerâmica, construções, fortificações, plantas de cidades, modelos de comunidades, [ou informa] quantos sítios houve em cada período, qual era a população.13 



A limitação básica da arqueologia é a natureza fragmentária das evidências que se retiram do solo. Edwin Yamauchi, professor de história na Universidade tie Miami, e também em Oxford e Ohio, enfatiza essa limitação ao apontar o nível de fragmentação dos achados arqueológicos.14 Atualizei suas observações, como segue: 

1. Somente uma fração do que é fabricado ou escrito sobrevive. No caso do material escrito, que acresce diretamente o nosso conhecimento do passado, apesar de vários e grandes arquivos terem sido descobertos no Oriente Próximo, eles representam um número infinitesimal comparado ao que foi destruído. Por exemplo, a grande biblioteca localizada em Alexandria reunia quase um milhão de volumes, muitos dos quais eram cópias únicas, e tudo se perdeu quando ela foi queimada até os alicerces no século VII. A terra de Israel ainda está para produzir um arquivo, de qualquer período, apesar de a correspondência com seus vizinhos ser atestada por descobertas feitas em outras terras. Caso os israelitas tenham usado materiais perecíveis para a escrita, é natural esse vácuo, como já observamos. Se encontrássemos um arquivo, ele provavelmente dataria de um período cananita mais antigo. Tabletes de argila já descobertos em Tel Hazor indicam essa possibilidade. Ainda assim, o que fosse achado constituiria apenas uma fração diminuta do material produzido. 

2. Somente uma fração dos sítios arqueológicos disponíveis foi pesquisada. Em Israel e no Oriente Próximo, existem ainda milhares de tels não escavados. (Tel é um outeiro artificial criado pela repetida destruição e reconstrução de cidades antigas e vilas no mesmo sítio.) Com certeza, os sítios arqueológicos jamais serão devidamente pesquisados no mesmo ritmo das descobertas que se verifi­cam a cada ano. Muitos sítios são conhecidos, porém não recebem a necessária atenção por falta de recursos ou disputas políticas sobre territórios. Outros nunca serão pesquisados porque foram destruídos pelo crescimento populacional e por projetos de construção. 

3. Somente uma fração dos sítios pesquisados foram escavados. Mesmo em Israel, onde está ligada à economia turística nacional — e isto pode ser uma surpresa para muitos —, a arqueologia não recebe alta prioridade. A maior parte do orçamento do governo israelita destina-se ao incremento militar, para proteger o país contra o terrorismo, ou ao desenvolvimento de uma nação ainda jovem. Arqueólogos, na maioria assalariados como professores, precisam levan­tar de fontes particulares o dinheiro para as suas expedições. E a maior parte dos trabalhadores são voluntários, que pagam as próprias despesas para escavar. Por essas razões, menos de dois por cento dos sítios pesquisados em Israel foram escavados. 

4. Somente uma fração de um sítio é examinada. Novamente, devido à escas­sez de recursos, os arqueólogos determinam áreas de prioridade em um tel onde supõem que irão desenterrar os achados mais significativos. Tal seleção faz-se necessária porque, em alguns casos, a provisão de fundos para a continuação do trabalho depende do progresso demonstrado em anos anteriores. Além disso, com tantos sítios ainda inexplorados, encurtam-se as temporadas de escavação e descobertas importantes em potencial são perdidas como resultado de trabalho incompleto. Até os sítios mais estratégicos, escavados por diferentes grupos, contêm ainda muito chão intocado. Tel Hazor, por exemplo, em virtude de suas imensas proporções, representa o tel menos escavado em Israel! 

5. Somente uma fração do material encontrado chega ao conhecimento do pú­blico. Nem mesmo os achados mais significativos, como as inscrições, têm pu­blicação garantida, ou o processo pode ser muito demorado. A causa é que muitos deles são fontes de controvérsia. Um exemplo são os rolos da caverna 4, dos manuscritos do mar Morto: uma demora de quarenta anos apenas para a liberação das fotografias. Os relatórios finais de Kathleen Kenyon sobre Jericó foram publicados trinta anos após a descoberta das ruínas da antiga cidade. Falta de interesse, de perícia, de tempo e de dinheiro também são empecilhos à publicação. Por essa razão, cerca de noventa por cento dos quinhentos mil tex­tos cuneiformes armazenados em depósitos de museus permanecem inacessí­veis ao público. 

O desenvolvimento contínuo da arqueologia como ciência também se cons­titui obstáculo à publicação das descobertas. Uma enxurrada de especialistas, métodos sofisticados e instrumentação tecnológica multiplicou os domínios nos sítios arqueológicos. Houve um tempo em que alguns anos bastavam para se completar um relatório de campo. Hoje a mesma tarefa pode arrastar-se por décadas. Por isso, são raros os profissionais cujas carreiras duram o suficiente para testemunhar a publicação das evidências por eles escavadas. 

Outro problema é proteger dos ladrões os sidos escavados. A cada tempo­rada, sítios são pilhados pelos nômades beduínos e por comerciantes que vivem da venda de antigüidades no mercado negro. Assim, algumas descobertas se perdem para sempre sem ao menos um registro. 

As limitações da arqueologia deveriam levar os arqueólogos, cientistas so­ciais e teólogos a não fazerem julgamentos prematuros com base apenas em resquícios arqueológicos, o que pode gerar críticas injustas à historicidade ou à exatidão do texto bíblico. Esse argumento, é claro, vai de encontro à prática contemporânea, defendida por aqueles que supõem a arqueologia avultada além da prioridade bíblica. Mas sempre que ocorrem dúvidas, o tempo tem demons­trado a integridade das Escrituras. 

A Bíblia: um documento arqueológico 

Em última análise, a Bíblia é o melhor exemplo de documento arqueológi­co. Enquanto possuímos apenas um número limitado de artefatos arqueológi­cos do período bíblico, a Bíblia apresenta o mais completo registro literário dos tempos antigos. Sobrevivendo de uma forma ou de outra desde que os seus primeiros livros foram escritos por Moisés há cerca de 3.400 anos, ela continua sendo a mais exata e confiável narrativa da Antigüidade. Por essa razão, não é apropriado relevar outras inscrições arqueológicas em detrimento do texto bí­blico. Existem na verdade instâncias em que a informação necessária para se resolver uma questão cronológica ou histórica não figura na arqueologia e nem na Bíblia, mas é injusto equiparar evidências retiradas do limitado conteúdo das escavações arqueológicas aos completos registros das Escrituras. 

Ao mesmo tempo, entenda-se que a Bíblia é uma revelação completa, mas não exaustiva. Apesar de sua mensagem ser compreensível a qualquer era, ela ainda é seletiva em suas declarações e estabelecida em contextos antigos. Assim, a arqueologia, apesar de suas limitações, poderá, como serva da Bíblia, alargar o escopo das declarações contidas no texto sagrado bem como tornar mais inteli­gível os ambientes nele descritos. Nos próximos capítulos, exploraremos alguns exemplos específicos de como a arqueologia presta serviço às Escrituras apre­sentando ao homem de hoje o conhecimento do passado.