14 de setembro de 2016

R. ALAN COLE - O Êxodo até o Sinai (12.1-18.27) (Parte 2)

antigo testamento danilo moraes
b. O Cântico de Triunfo (15:1-21). 

Esta seção pode ser subdividida: 1-18 constitui o “cântico de Moisés e dos filhos de Israel”, ao passo que o versículo 21 é especifica­mente descrito como o cântico entoado por “Miriã... e todas as mulhe­res”. Os versículos 19 e 20 são um resumo em prosa dos acontecimen­tos. Todavia, exceção feita à mudança do tempo do verbo (da primeira pessoa do futuro do indicativo para a segunda do plural do imperati­vo), o breve cântico de Miriã é idêntico à primeira estrofe do cântico de Moisés. Por isso, não se pode afirmar com certeza se Miriã e o coro fe­minino continuaram a cantar e dançar o cântico de Moisés, ou se o cân­tico de Moisés é uma expansão teológica do cântico de Miriã. Além do mais, há uma divisão no próprio cântico de Moisés. Os versículos 1-12 tratam do êxodo, ao passo que 13-18 tratam da conquista futura da ter­ra de Canaã. 

15:1-12. A travessia do mar. 

1. Cantarei a YHWH porque triunfou gloriosamente. A métrica é forte e ousada, e o pensamento simples, embora profundo, ao passo que a linguagem é cheia de arcaísmos. Tudo isto sugere uma data bem remota. Davies ressalta a importância da palavra “porque” neste versículo. Normalmente, nos salmos de Israel essa palavra apresenta a razão por que Deus está sendo louvado (por exemplo SI 9:4). A nature­za precisa do ato divino é explicada numa espécie de apêndice, escrito em prosa, no versículo 19. 

Triunfou gloriosamente. Melhor traduzindo, “levantou-se, subiu” (como uma onda). A palavra é usada tanto num mau sentido (descre­vendo o orgulho) quanto no bom sentido (descrevendo um triunfo), co­mo aqui. Em Ezequiel 47:5 a palavra é usada para um rio cujas águas sobem na enchente. 

2. O SENHOR. Aqui o hebraico usa a forma abreviada, YH, em lugar da mais longa, YHWH, como nos versículos 1 e 3. Esta é a forma do nome divino que aparece em nomes próprios, e na exclamação co­mum “aleluia”, ou “louvai a YH“. Comparar com Salmo 118:14. 

O meu cântico. Cross e Freedman traduzem zimrãt por “defesa”
ou “defensor”, ao invés de “cântico”. Esta outra tradução se encaixa melhor com o contexto, tem o apoio da LXX e é baseada num termo cognato em árabe. Caso correta, a mesma tradução se aplicaria ao Salmo 118:14, etc. 

Eu o louvarei. Esta palavra hão ocorre em nenhum outro lugar no Velho Testamento. A tradução é mera conjectura, baseada no paralelis­mo e em palavras semelhantes em outras línguas semíticas. Este é um dos muitos arcaísmos do cântico. 

3. Homem de guerra. “Guerreiro” seria a tradução em português cotidiano. Compare o título YHWH Sabaoth, “SENHOR dos exérci­tos” ou “SENHOR das hostes”. 

5. Profundezas é uma palavra rara, descrevendo talvez com seu som o barulho e o borbulhar das ondas quebrando sobre os egípcios. Quanto à símile, ver Jeremias 51:63,64: assim, Babilônia, inimiga de Deus, afundara como uma pedra. 

8. Com o resfolgar das tuas narinas. Esta é a interpretação teológica do “vento oriental” que Deus enviara para secar o mar (cf SI 18:15). Os antropomorfismos são comuns em toda espécie de poesia e a natureza poética da passagem nos adverte a não tomarmos literalmente a expressão “amontoaram-se as águas”. 

9. Perseguirei, alcançarei. A rima ternária deste versículo é ao mesmo tempo impressionante e primitiva em sua simplicidade; compare o cântico de Débora em Juízes 5. 

A minha mão os destruirá. O forte termo hebraico empregado aqui com sua terminação arcaica significa realmente “desapossar”, e é usa­do constantemente mais tarde para descrever a expulsão dos cananeus por Israel e a ocupação de Canaã. Na boca dos egípcios, o termo contém ironia poética, quando aplicado a Israel. 

10. Afundaram-se. Melhor dizendo, “foram ao fundo borbulhan­do”, em meio aos redemoinhos mencionados acima (v. 5). 

Chumbo assume aqui o lugar de “pedra” na símile anterior (v. 5) como símbolo natural de peso. 

11. Quem é como tu entre os deuses? Eis aqui a “monolatria” dos primeiros dias de Israel (a insistência no culto exclusivo a YHWH) que levaria mais tarde a um monoteísmo absoluto e dogmático (a negação absoluta de qualquer outro deus que não YHWH), como em Isaías 45:5. YHWH pertence a uma espécie diferente da dos outros deuses ou “poderosos”, cuja existência não é afirmada nem negada, mas ignora­da, para todos os efeitos práticos. Salmo 97:7 faz com que todos esses seres, caso existam, se curvem perante YHWH: em dias mais recentes, tais seres eram considerados simples poderes angélicos, subservientes a Ele. 

12. A terra os tragou. Mais uma vez o sufixo verbal arcaico.. Tal como a fenda no deserto engoliria Coré, Data e Abirão (Nm 16:31), as­sim o mar engoliu o exércitp egípcio. Talvez eres, “terra”, tenha aqui o sentido encontrado em ugarítico, “mundo subterrâneo”: ver Hyatt. 

15:13-18. A marcha para Canaã. Alguns estudiosos pensam que a segunda parte do cântico1 de Moisés foi escrita depois da ocupação de Canaã, de que trata. Especificamente, alguns entendem que os versícu­los 13 e 17 fazem referência ao Monte Sião e ao Templo de Salomão, mas tal inferência é desnecessária. Ambas as frases são arcaicas e exis­tem paralelos bem mais antigos, na literatura de Ras Shamra. O tempo passado empregado em toda a seção pode ser “perfeitos proféticos”, em que acontecimentos futuros são descritos como se já tivessem acon­tecido. Tal uso do perfeito era comum em tempos remotos e particular­mente comum nos livros proféticos do Velho Testamento. 

13. Beneficência.. Esta palavra, freqüentemente traduzida por “misericórdia”, é (juntamente com “verdade”) a grande expressão da aliança no Velho Testamento, descrevendo a infalível atitude de amor demonstrada por Deus para com Seu povo (34:7). Em troca, Deus exige este mesmo amor de seu povo (Os 6:6). 

Salvaste. Deus aparece aqui como o gõêl, o “parente resgatador” de Seu povo escolhido, Israel. Ver também o comentário de 6:6, acima. 

Com a tua força. Devido à fraseologia, muitos comentaristas vêem esta frase como uma referência à arca, símbolo da presença e da direção divinas, levada adiante do povo em sua marcha (Nm 10:33). Isso é possível, mas desnecessário; a mesma palavra traduzida por “força” é usada em relação a YHWH no versículo 2, onde qualquer referêriçia à arca é impossível. , 

Se a habitação da tua santidade se refere a Jerusalém e ao templo, isso demonstraria claramente uma data mais recente; a referência, to­davia, pode ser simplesmente geral.1 É verdade que em 2 Samuel 15:25 a palavra se refere ao santuário, mas em Jeremias 25:30 o seu sentido é geral. O hebraico neweh significa “pasto”, daí talvez aprisco e, mais ge­ralmente, qualquer lar. Aqui, pode significar toda a terra de Canaã, pa­ra a qual Israel se destina. 

14. Os habitantes da Filístia. O país não poderia ter sido conhecido por este nome senão depois da chegáda dos filisteus em 1188 A.C., de modo que esta frase ao menos deve datar de dèpois da conquista. Â lis­ta de nações oferecida aqui vem em ordem aproximada, como quando se vem do Egito em rumo nordeste. 

15. Os príncipes de Edom. ’allüpim, “chefes de clã” (ver 12:37 quanto ao possível significado “clã” para a palavra ’elep, normalmen­te traduzida “mil”) é um termo técnico para designar os líderes edomitas (cf Gn 36:15-19). Eles parecem ter ocupado posição algo inferior à de um rei. É razoável, portanto, presumir que os poderosos de Moabe (’êlim, literalmente “carneiros”) é também um termo técnico. Outros vêem uma referência aos grandes apriscos de Moabe (2 Rs 3:4). 

16. Até que passe o teu povo. Ou “atravesse”. A referência pode ser à passagem de Israel pelos territórios de Edom e Moabe (Dt 2) ou, mais provavelmente, à travessia do Jordão (Js 3), que levaria mais dire­tamente à ocupação de Canaã. 

O povo que adquiriste. A palavra normalmente significa “adquirir com dinheiro”. É uma palavra arcaica, usada em forma participial em Gênesis 14:22 como um título divino, traduzida na versão da SBB “que possui”. Hyatt, com base nisso, prefere traduzir “criaste” aqui. 

17. Monte da tua herança. A frase pode significar “a região mon­tanhosa de Israel, tua herança” (para uma referência a Israel como he­rança de Deus, ver 34:9), mas em vista de paralelos na' literatura ugarítica a tradução da SBB deve ser preferida. Por causa dos parale­los, não há necessidade de presumir uma referência direta ao Monte Sião ou ao Templo de Salomão: a data pode ser coincidente com Moisés. 

O lugar... para tua habitação. 1 Reis 8:13 usa esta terminologia em referência ao Templo: a referência pode ser a Siíó, ou qualquer outro centro primitivo de adoração em Israel. 

No santuário. Esta palavra é neutra e significa apenas “lugar san­to”, embora em dias mais recentes fosse usada com relação ao Templo (como O grande lugar santo). 

15:19-21. Resumo em prosa e cantico de Miriã. Conforme mencionado acima, o breve dístico do cântico de Miriã é sem dúvida arcaico: pode ser comparado ao cântico de Débora em Juizes 5. No entanto, na­da acrescenta ao cântico de Moisés. 

20. A profetisa. Tal como Débòra (Jz 4:4). A palavra é muito me­nos comum que a forma masculina. Moisés, sem dúvida, é considerado um profeta no Pentateuco (na verdade como o padrão da função é con­dição de profeta, Dt 34:10); o significado de “profetisa” neste contexto não é claro. Em Números 12:2 Miriã reivindica ter falado pelo SE­NHOR, tal como Moisés; em Números 12:6 o profeta é definido como aquele que tem visões ou sonhos (embora Moisés seja colocado numa classe à parte). O fato de Miriã (o mesmo nome que aparece como “Maria” no Novo Testámento) ser apresentada aqui como “irmã de Arão” e não “irmã de Moisés” levou alguns a concluir que ela e Moisés eram apenas meio-irmãos. Não há qualquer evidência em favor desta hipótese, a não ser a evidência negativa da narrativa do nascimento de Moisés; a irmã mencionada ali, todavia, não é especificamente chama­da pelo nome Miriã. O hebraico, ’ãhôt pode significar tanto “irmã” quanto “meia-irmã”. 

Um tamborim. Apenas um tamborim ou pandeiro comum, sem o couro usado para percussão, ou talvez um pequeno tambor, como suge­rido pela palavra onomatopaica. As mulheres normalmente cantavam e dançavam por ocasião de vitórias militares e não em cerimônias litúrgicas. Para encontrar um exemplo de cântico de vitória, ver 1 Samuel 18:6: em Juizes 21:21, entretanto, as mulheres parecem estar dançando em um festival de outono, portanto litúrgico. Aqui em Êxodo, a música parece ser espontânea, não organizada, mas isso provavelmente se apli­cava a toda música naqueles dias. Em tempos mais recentes, as mulhe­res desempenhavam um papel peculiar como cantoras fúnebres (Am 8:3; 2 Cr 35:25) e ainda mais recentemente os cantores do templo in­cluíam mulheres (Ed 2:65; Ne 7:67) e mulheres cantoras eram parte do tributo exigido a Ezequias pelos assírios. Algumas dessas cantoras, na­turalmente, poderiam ser cantoras seculares e não religiosas, embora tal distinção fosse pouco provável em Israel, pelo menos nos primór­dios de sua história. 

c. Um Diário do Deserto (15:22-18:27) 

15:22-27. Águas amargas. Israel já está claramente a leste dos pântanos salobres e reentrâncias do golfo, embora não possamos precisar quanto caminharam em direção ao sul. A posição de poços e oásis provavelmente não mudou desde os tempos de Moisés e podemos, assim, imaginar o roteiro de maneira geral (aproximadamente, descendo ao longo do litoral oeste da Península do Sinai) até o ponto em que os is­raelitas passaram a caminhar diretamente em direção ao leste. É impossível precisar onde isso ocorreu pois tudo depende da localização do Monte Sinai. Além do mais, a localização das paradas feitas por Is­rael é desconhecida, porque não temos jeito de saber quantos quilôme­tros Israel podia cobrir em um dia de jornada. Hoje em dia, para nôma­des com rebanhos e gado, quinze a vinte quilômetros é uma boa média embora, evidentemente, homens numa expedição militar possam cobrir distância bem maior. Tem-se afirmado frequentemente que Israel, se ti­vesse sido realmente um povo nômade, dependeria de mulas e não de camelos. Não poderiam, por isso, atravessar o deserto, tendo porém que conduzir seus rebanhos a lugares onde houvesse água e vegetação. Tais condições existem em quase todo o et-Tih, o “deserto dos peregri­nos’ ’, como ainda é chamado em Árabe. 

O deserto de Sur (Gn 25:18) é geralmente considerado a parte a noroeste da península, em contraste com o “deserto de Parã’’ a su­deste (Nm 13:3)[1] e o deserto de Sin a sudoeste (16:1). Não se pode dizer com certeza se os israelitas, mais adiante em sua história, sabiam a lo­calização exata destes lugares, mas com toda a certeza eles conheciam as listas das “paradas” no deserto, com os nomes e as distâncias entre os poços. Talvez eles mesmos, ou seus ancestrais, tivessem trabalhado nas minas de turquesa em Sarabit-el-Khadem, à altura da metade da costa ocidental da península do Sinai. 

23. Mara. Ao contrário de muitas etimologias no Velho Testamen­to, esta não se trata de mero trocadilho baseado em semelhança fonéti­ca, pois “marah” poderia realmente significar “amarga” ou “amargu­ra”, caso se trate de uma raiz semítica. A palavra “mirra” parece deri­var da mesma raiz, com referência ao seu forte aroma. Muitos oásis do deserto recebem seus nomes por causa de poços, fontes e pequenas la­goas, já que a água em sua característica essencial é comum. A fonte em questão aqui é provavelmente a atual ‘Ain Hawarah. 

Chamou-se-lhe. A vaga terceira pessoa do singular (literalmente, ele chamou o seu nome) não se refere, necessariamente, a Moisés, po­dendo ser encarada (como o fez a SBB) como uma construção impes­soal, de acordo com a expressão idiomática tipicamente semita. Isto significa que o nome poderia ter existido muito antes da passagem de Israel por ali. A maioria dos poços artesianos produz água amarga e de gosto desagradável devido à presença de sais minerais. 

24. O povo murmurou. “Resmungou”, explicitamente contra Moisés, a quem Deus apontara como seu líder, e assim, implicitamente, contra o próprio Deus (16:8). Ao fazer isso, os israelitas tipificam toda a humanidade; é por isso que podem nos servir de exemplo e advertên­cia (1 Co 10:11). Há mais de uma dúzia de passagens no Pentateuco em que tal murmuração acontece: acabou por se tornar característica de Is­rael. 

25. YHWH lhe mostrou uma árvore. O verbo mostrou é a raiz da qual se deriva a palavra “Tora”, “instrução”. Tal fato por si mesmo demonstra quão mais rico era o conceito hebraico “Tora” do que o sugerido pela palavra “lei”. Aqui, o conhecimento de um meio de bênção e salvação é chamado de “tora”. Qual era a árvore e como ela fez as águas se tornarem doces, é inútil especular. De Lesseps, citado por Driver, menciona um arbusto utilizado de igual maneira pelos ára­bes modernos, e há vários paralelos mencionados em outras culturas. 

Sem dúvida era necessário encontrar alguma erva de aroma bem forte, cujo sabor cobrisse o gosto mineral e tornasse a água agradável ao pala­dar. Comentaristas medievais se deleitavam em ver aqui uma referência à cruz, através da qual as águas mais amargas desta vida se tornam do­ces. Isso é razoável desde que mantenhamos o caráter meramente ilus­trativo da sugestão, sem reivindicar valor exegético. Já foi sugerido al­gumas vezes que Deus havia mostrado tal arbusto a Moisés, não no mo­mento da murmuração, mas durante sua longa permanência em Midiã. O texto, porém, deixa claro que a indicação foi uma resposta ao clamor de Moisés naquela situação desesperada. Se Deus lhe tivesse ensinado nos dias de Midiã, esta teria sido uma etapa a mais na sua preparação. Em 2 Reis 2:21 há o relato de outra transformação de águas amargas em águas doces. 

Deu-lhes ali estatutos e uma ordenação ocorre novamente em Jo­sué 24:25, com referência à doação da lei em Siquém: ao que tudo indi­ca, trata-se de uma fórmula fixa. 

Ali os provou. O sentido da frase é “Deus pôs Israel à prova”, a mesma raiz que é usada em “Massá” (17:7). Não há necessidade de presumir, entretanto, que se trata do mesmo acontecimento. Neste incidente das águas amargas, Deus estava colocando Israel à prova tal como o fez em Massá, mais tarde. Reagindo com murmuração, Israel na­da mais fez que mostrar claramente sua verdadeira natureza quando sob provação. É possível, todavia, que tal prova se refira à natureza condicional da promessa feita no versículo 26, o que também é típico do ensino do livro de Deuteronômio. A bênção de Deus depende sem­pre da obediência de Seus filhos à Sua vontade revelada. 

26. Nenhuma enfermidade virá sobre ti. Presumivelmente as enfer­midades enviadas sobre os egípcios se referem em primeiro lugar às pra­gas em geral, mas em particular à transformação da água em sangue, que impediu os egípcios de bebê-la. Israel descobrirá que da água su­prida por Deus sempre se pode beber: Ele é YHWH que os sara. 

27. Elim. O nome, que significa “terebintos”, parece ser derivado da principal característica natural do lugar. Se Mara era ‘Ain Hawarah, Elim deve ter sido o exuberante Wadi Gharandel, onze quilômetros ao sul, com seus poços e jujubas. Não há necessidade de espiritualizar as doze fontes e as setenta palmeiras. Os números podem ser estrita­mente literais ou simples aproximações, já que ambos os números, na mentalidade hebraica, comunicavam a idéia de perfeição. 

16:1-36. Pão do céu. 

1. Aos quinze dias do segundo mês indica um intervalo de um mês desde sua partida do Egito, se a partida se deu no décimo quinto dia do primeiro mês (12:6,31). 

O deserto de Sim. Pode haver uma ligação lingüística entre Sim e Sinai, o monte sagrado. O contexto, todavia, deixa claro que não se tra­ta do mesmo lugar. O deserto de Zim (a primeira consoante hebraica é diferente) não deve ser confundido, pois fica cerca de trezentos quilô­metros ao norte. 

3. Na terra do Egito. Já se haviam esquecido da escravidão do Egi­to, e agora idealizavam o pouco que de bom havia, como é tão comum acontecer. Escravos não costumam comer muita carne, mas aqui as pa­nelas de carne são proeminentes em suas lembranças. Mais tarde irão recordar os alhos picantes e os doces melões do delta do Nilo (Nm 11:5). A presente reclamação parece ser dupla: não há comida suficien­te e, em particular, não há carne. Como qualquer sociedade pastoril, os israelitas detestavam sacrificar seus próprios animais (cf Nm 11:22), que era a única alternativa a uma dieta de leite e queijo em sua jornada pelo deserto. Note como imediatamente o povo atribui a Moisés os mo­tivos mais sórdidos: em sua opinião, ele os colocara deliberadamente naquela situação. 

4. Pão do céu. Se pão for tomado em seu sentido antigo de “comi­da” (que deve ter sido o significado original de leljem), então esta pro­messa se refere tanto ao maná quanto às codornizes. - 

Colherá diariamente a porção de cada dia. A provisão diária feita por Deus para as necessidades dos israelitas pode ser a fonte do pedido encontrado no “Pai Nosso” com respeito ao “pão nosso de cada dia” (Mt 6:11). 

Para que eu ponha à prova. Esta frase deve estar ligada à necessi­dade de dependência diária de Deus para obter alimento, ou com a or­dem de não colher maná no sétimo dia. No sexto dia devia-se colher porção dupla, conforme é explicado nos versículos 25 e 26. 

6. Sabereis que foi YHWH. Esta provisão de alimento confirmara os propósitos divinos de salvação para Israel; aquela tarde demonstra­ria claramente que o êxodo não fora um mero acidente histórico. 

7. Israel haveria de ver a glória de YHWH em Seus atos salvado­res. Em outros lugares a glória de Deus aparece fisicamente manifesta sobre a tenda da congregação, ou na nuvem (16:10). 

8. Carne para comer... pão que vos farte. Duas provisões distintas são mencionadas juntas aqui: pão (maná) e carne (codornizes), embora pouca ênfase seja dada às aves nesta passagem. Ver Números 11:31 on­de há o relato de nova provisão de codornizes que parece ter acontecido depois da entrega da lei no Sinai (não antes, como aqui), e que foi se­guida por uma praga. 

10. Na nuvem. Freqüentemente o sinal da presença de Deus, como no Salmo 104:3, onde YHWH cavalga as nuvens. Normalmente se tem em vista a escuridão assustadora das nuvens de tempestade, um símbolo apropriado da majestade, ira e inescrutabilidade divinas; aqui, toda­via, o autor pode ter em mente a coluna de nuvem (13:22). O Velho Tes­tamento também conhecia o outro lado da natureza de Deus; a reve­lação completa de Deus, todavia, viria apenas com Cristo, em cujo caso. a nuvem não era necessária (Mt 17:1-8). 

13. Codornízes. Em hebraico um nome coletivo. Essas aves mi­gram regularmente entre o sul da Europa e a Arábia, atravessando a Península do Sinai. As codornízes são aves pequenas, de vôo baixo mas forte, e normalmente pousam no chão ou em arbustos ao anoitecer. Quando exaustas, não conseguem voar acima do nível das tendas dos nômades; além do mais, não conseguem levantar vôo novamente. Uma codorniz correndo é presa fácil para uma criança esperta. Essas aves são um bom alimento e eram um prato favorito dos egípcios (Heródoto ii 77) depois de secas ao sol. Em Números 11, as codornízes se trans­formam numa “praga” por meio da qual Deus castiga Israel. Aqui, en­tretanto, a menção às codornízes é passageira, pois o interesse principal cai sobre o maná. Números nos diz que um vento oriental trouxe as co­dornízes: esta afirmação se encaixa bem com o fato reconhecido de que as codornízes voam para o norte em março-abril, aproximadamente no período subseqüente à páscoa, presumivelmente na data deste inciden­te. 

14. Uma coisa fina e semelhante a escamas. Os antigos comentaris­tas judeus entendiam que a palavra tinha o sentido de “glóbulo”, algo, de formato circular, mas as primeiras versões do Targum de Onkelos preferem o sentido de “escamas”. Uma vez que a palavra hebraica não ocorre em nenhum outro lugar, não há certeza possível, mas as línguas cognatas também sugerem “escamas”. A comparação com geada não determina a forma, mas apenas a cor.[2]

15. Que é isto? mãn hü’? A expressão hebraica explica o nome maná (hebraico mãn) como se este tivesse o sentido de “o como-se- chama’ ’. Esta sugestão é frequentemente descartada como mera assonância ou uma etimologia popular baseada no aramaico, já que a for­ma puramente hebraica seria mâh-hü ’. Certamente, entretanto, é assim que os israelitas entendiam a expressão, possivelmente emprestando a uma palavra não israelita uma etimologia popular em hebraico. Pode­mos talvez comparar o nome “Moisés”, onde há paronomásia.[3]

16. Um ômer por cabeça. Em dias mais recentes, essa medida equi­valeria a quase quatro litros; na Arábia, porém, ghumar pode significar “um punhado” (ver Driver). Talvez fosse este o antigo significado he­braico, embora não haja prova, devido ao escasso uso do termo. Qua­tro litros por pessoa parece demasiado, em termos de ração diária de comida. 

18. Não sobejava... nem faltava. Não há nada de miraculoso necessariamente em vista, mas simplesmente que os israelitas colheram o maná numa espécie de mutirão, de onde cada um retirou a porção especificada de um ômer. Foi assim, com certeza, que Paulo entendeu esta passagem, conforme se vê em 2 Coríntios 8:14,15. 

20. Não deram ouvidos a Moisés. A despeito da ordem divina, al­guns tentaram fazer com que a amorosa provisão de Deus para o dia de hoje durasse até amanhã. Tal obstinação e falta de fé são absolutamen­te típicos da natureza humana. Não é de surpreender que o maná dete­riorasse, já que desaparecia com o calor do sol (v. 21). 

23. O santo sábado de YHWH. Esta é a primeira ocorrência da pa­lavra “sábado” nas Escrituras, embora a idéia de sua instituição esteja presente em Gênesis 2:2,3. Aqui o termo mais enfático “Sabbatôn” é usado juntamente com a palavra comum, “Sabbat”. Em outras passa­gens, o termo é usado apenas em relação ao dia de Ano Novo e outras festas particularmente sagradas. 

24. Não cheirou mal nem deu bichos. O milagre jaz no fato de que, quando guardado de um dia para o outro nesta ocasião, o maná não se dissolveu nem deteriorou. Uma temperatura mais baixa produziria tal resultado, mas é inútil especular que método Deus poderia ter usado. Temperaturas mais baixas também poderiam explicar a ausência do maná no sábado, se ele de fato era uma precipitação do tipo sugerido adiante. 

29. YHWH vos deu o sábado. Com base nisto e na violação do sábado mencionada (v. 27), alguns sugerem que Israel não observara o sábado enquanto no Egito, sendo esta portanto uma prática nova. Tal­vez sua condição de escravos explicasse o fato de não guardarem o sábado, mesmo que tal costume já fosse conhecido (em forma em­brionária pelo menos) por seus ancestrais. 

31. Como semente de coentro. O maná era branco, redondo e do­ce. Evidentemente era desconhecido dos israelitas de gerações posterio­res; daí a sua cuidadosa caracterização. Esta descrição, e sua qualidade de desaparecer com o calor do sol (quando colhido pelas formigas), provam quase que decisivamente que se tratava do man árabe, uma exudação globular de dois tipos de insetos escamosos que vivem nos ra­mos da tamargueira. Essa substância é quimicamente composta de açúcares naturais e pectina, e é encontrada exclusivamente no sudoeste da Península do Sinai, depois das chuvas da primavera. O man é mais abundante em junho, que seria aproximadamente a época do ano em que a passagem ocorre, se seguirmos a cronologia bíblica. Qualquer que tenha sido sua natureza, o maná foi a provisão feita por Deus para o Seu povo durante todos os dias de sua peregrinação pelo deserto: ver Driver para obter uma discussão mais completa. Mais recentemente, Bodenheimer (citado por Hyatt) ofereceu uma interessante explicação química do processo. 

33. Um vaso, feito de ouro, e ao menos a princípio cheio de maná, foi daí por diante guardado entre as relíquias contidas na arca (Hb 9:4), junto com as duas tábuas da Lei e a vara de Arão que florescera. 

17:1-7. Água em Horebe. 

1. Acamparam-se em Refidim. Se este lugar se refere ao Wadi Refayid (como o nome e a lista de acampamentos em Números 33:12-14 sugerem), a ansiedade dos amalequitas é compreensível. Eles queriam afastar Israel do fértil oásis de Wadi Feiran, a melhor terra da penínsu­la, e que ficava por perto. Quanto à sugestão de que Refidim é a serra de er-Rafid, na costa leste do golfo de Aqaba, ver Noth. É um mistério, todavia, entender que Israel estivesse sem água num lugar tal como Re­fidim a não ser que, como Driver sugere, os israelitas estivessem acam­pados no deserto, fora do oásis propriamente dito, ou, ainda, segundo alguns comentaristas, estivessem acampados além do oásis, entre este e o Sinai. Este problema, porém, é apenas parte de um problema maior associado a esta passagem. Em resumo, Israel fica sem água e murmura (v. 1): para provar a presença de Deus, Moisés fere a rocha e a água jor­ra (v. 6). Pelo fato de os israelitas terem contendido com Moisés, o lu­gar é chamado “Meribá”,- “contenda” (v. 7): pelo fato de terem tenta­do a YHWH, o lugar também é chamado Massá, “provação” (v. 7). Seria incomum, embora não impossível, que um lugar tivesse dois no­mes como estes, derivados do mesmo incidente, conforme implica a passagem. Além do mais, no presente contexto, não há a menor sugestão de que Moisés fosse culpável pelo que fez. Em Números 20:13, todavia, um incidente bem semelhante é descrito. Mais uma vez o nome Meribá, “contenda”, é dado ao local, mas em lugar do nome Massá há um tro­cadilho com a palavra Cades, “lugar santo” (Nm 20:1,13), baseado no fato de que ali YHWH Se demonstrou santo. Este incidente aconteceu claramente depois do Sinai, não antes e Moisés foi castigado com a ex­clusão de Canaã por causa de algum aspecto de sua reação neste caso (Dt 1:37). Seria este o mesmo incidente relatado em nosso texto? Caso a resposta seja afirmativa, este seria um exemplo de relatos ligeíramente diferentes (como nos evangelhos sinóticos) da mesma história apare­cendo em dois lugares diferentes. Tal conclusão, entretanto, é desnecessária se aceitarmos que apenas o nome Massá se refere ao primeiro incidente, e que Meribá se refere apenas ao segundo. Com toda a certe­za, a sede seria uma experiência contínua no deserto e não há razão por que tal incidente não pudesse ter acontecido duas vezes. Uma vez que os incidentes são tão semelhantes, seria bem fácil esquecer quais nomes de lugares se relacionavam a qual incidente, especialmente porque os dois lugares ficavam fora do âmbito normal dos israelitas de gerações futu­ras. É claro que, se o mesmo evento ocorreu duas vezes, não há razão por que o mesmo nome não possa ser usado duas vezes. No Salmo 95:8 os dois nomes, Massá e Meribá aparecem juntos, como exemplos de falta de fé e rejeição de Deus por parte de Israel; pode tratar-se de para­lelismo e não de identificação, referindo-se a dois acontecimentos dis­tintos. 

2. Contendeu o povo com Moisés. “Discutiram” com Moisés. Este verbo é a palavra-chave da passagem, explicando por que o nome “Me­ribá” (“contenda”, “discussão”) foi usado dali em diante para se refe­rir àquele lugar. Alguns comentaristas apresentaram expliçações alter­nativas, baseadas no ponto de vista de que o nome surgiu das “decisões judiciais” tomadas junto às fontes do local, como em En-Mispate (Ca­des), “Poço do Julgamento” (Gn 14:7) ou porque os pastores conten­deram por causa da água (cf Gn 26:16-22). Sem sombra de dúvida, am­bas as ocorrências são comuns, mas não são mencionadas neste contex­to como razões para o uso de tal nome. Moisés faz eco à “discussão” em sua resposta, e faz associação com uma segunda raiz que subjaz o nome Massá (“testar”, “colocar à prova”). 

3. Nossos rebanhos. Com a costumeira atribuição de motivos ridículos a Moisés, há aqui um toque de caracterização. Quem, a não ser um criador de gado, se preocuparia com a probabilidade de seu ga­do morrer de sede se já estivesse prestes a morrer de sede ele próprio? Aqui transparece o típico fazendeiro israelita. 

4. Só lhe resta apedrejar-me. Este é o último estágio de rejeição pa­ra um líder em Israel. Ver o caso de Davi em Ziclague (1 Sm 30:6) e de Adorão em Siquém (1 Rs 12:18). Moisés deve ter-se lembrado aqui da reação inicial dos israelitas à sua vinda (5:21). Cristo (Jo 10:31), Estê­vão (At 7:58) e Paulo (At 14:19) enfrentaram a possibilidade de apedre­jamento pelas mãos do povo de Deus, aqueles mesmos a quem haviam sido enviados. 

6. Em Horebe. Este é outro problema, pois “Horebe” pare­ce ser usado intercaladamente com “Sinai” em relação ao local onde a lei foi outorgada, seja lá por que razão for (alguns entendem que isso demonstra a existência de antigas coleções distintas de material mosaico). A não ser, portanto, que Horebe cubra uma área muito maior do que o Sinai, devemos presumir com base nesta referência que Refidim ficava tão próximo ao Sinai que a vertente da montanha chega­va de fato a Refidim. Caso contrário, teríamos de presumir que a refe­rência geográfica desta passagem é vaga e geral. Todavia, a despeito de outras considerações, o conhecimento geográfico demonstrado em ou­tras ocasiões parece eliminar esta última hipótese como uma explicação possível. 

Ferirás a rocha. Como é comum em idiomas semíticos, a rocha fe­rida se torna “a rocha”, ao passo que em português diríamos “uma ro­cha”, por se tratar de uma rocha específica. Driver, entretanto, prefere a opinião de que a passagem se refere a todo o maciço, não a uma rocha específica. A palavra hebraica empregada para “rocha” aqui não é a mesma usada em Nm 20:8. 

Na presença dos anciãos de Israel. A impressão que se tem é que apenas os anciãos tiveram o privilégio de presenciar o milagre, embora toda a nação tenha bebido da água que jorrou. Comparar 24:11, onde apenas os anciãos participam do banquete divino. 

7. Massá. No contexto, a “tentação” é explicada em termos de um “teste” para determinar se Deus estava com eles ou não. Como Driver ressalta, “testar” é uma palavra neutra em hebraico. Traduções como “tentar” e substantivos como “tentação” são enganadores em portu­guês, embora sejam traduções etimologicamente corretas. 

17:8-16. A guerra com Amaleque. Quanto à razão para o desafio de Amaleque a Israel neste local, ver o comentário de 17:1 acima. Na­pier assinala que os últimos três episódios trataram das necessidades básicas de Israel, provisão de alimento e água no deserto; vem agora o quarto, tratando da última necessidade fundamental para sobrevivên­cia, libertação dos inimigos. Provando-Se triunfante em todas essas si­tuações, Deus deu prova mais que suficiente de que pode salvar o Seu povo. 

8. A tribo de Amaleque é considerada como de origem edomita (Gn 36:12). Como muitos outros nômades, viviam espalhados por uma vasta área, geralmente descrita como “Neguebe” ou “terra do sul” (Nm 13:29). Os amalequitas certamente acampavam junto ao oásis de Cades (Gn 14:7) e portanto podem ter acampado também junto ao oásis de Wadi Feiran. Em qualquer caso, o pastio na península não po­deria sustentar Israel e Amaleque ao mesmo tempo, de modo que era natural que um ataque surgisse mais cedo ou mais tarde. O número de amalequitas envolvidos no ataque é impossível determinar: beduínos modernos na mesma região podem formar uma milícia de apenas al­guns poucos milhares. Talvez isto explique seu método característico de ataque (mencionado com indignação em Dt 25:18): eles se aproxima­vam dos flancos e da retaguarda de Israel e eliminavam os que ficavam para trás durante a marcha. Isto sem dúvida contribuiu para a margura que havia contra Amaleque mais adiante na história de Israel (1 Sm 15:2). 

9. Josué aparece aqui pela primeira vez. Normalmente ele é apre­sentado como o “assistente” de Moisés (24:13). Tecnicamente, até esta data seu nome era Oséias, a forma arcaica. A nova forma, Josué, con­tendo o nome YHWH aparentemente lhe foi dado em Cades (Nm 13:16). Quando os espias foram enviados, Josué era chefe tribal em Efraim (Nm 13:8); apenas ele e Calebe foram fiéis. 

10. Hur é mencionado apenas em uma outra ocasião (24:14). O avô de Bezalel (31:2) é outra pessoa. A tradição judaica posterior é ima­ginativa mas sem valor, ao fazê-lo marido de Miriã. É pouco provável que seu nome signifique “o horeu” ou “o hurrita” (Davies). Mesmo que significasse, isso prova tão pouco sobre origens raciais quanto o nome “Finéias”, (negro), na tribo de Levi ou o nome “Germano” (ale­mão) quando usado em português. 

11. Quando Moisés levantava a mão. Normalmente um sinal mili­tar indicando o início da batalha ou o avanço das tropas. Presumivel­mente o abaixar das mãos poderia ser um sinal de recuo das tropas. Por outro lado as mãos levantadas podem ser símbolo de um voto (cf Gn 14:22, e neste capítulo, v. 16) de colocar Amaleque sob “maldição”, ou “anátema”, o que significaria completa destruição. Todavia, a expli­cação tradicional de que o gesto se refere à oração, pode bem estar cor­reta. Neste caso o abaixar das mãos significa parar de orar e assim ces­sar de depender de Deus para a vitória. Ver Salmo 63:4 em relação ao levantar das mãos em oração. 

13. Josué desbaratou a Amaleque. A idéia do termo é de deixar completamente prostrado. A forma hebraica é rara, mas o sentido geral é claro no equivalente aramaico. _ 

14. Escreve isto. Uma das poucas passagens do livro de Êxodo (há outras em Números e Deuteronômio) em que se faz referência específi­ca ao registro escrito contemporâneo com os acontecimentos (cf 24:4; 34:27). E interessante notar que o ato de escrever forma um par com a récita; isto sem dúvida corresponde às duas grandes correntes de tra­dição sagrada, escrita e oral. Também é interessante notar que aqui a tradição oral parece depender de documentos escritos. O propósito nes­ta ocasião é registrar a “guerra santa” ou “anátema” imposto contra Amaleque, finalmente executado nos dias de Saul (1 Sm 15), depois do que raramente se ouve falar em Amaleque novamente. Talvez o livro aqui mencionado seja o desaparecido “Livro das Gerras de YHWH”, ao qual se faz referência mais adiante (Nm 21:14). 

15. YHWH é minha bandeira é possível como nome de um altar (ver Gn 33:20 com referência a nomes dados a altares), embora seja mais apropriado como um título para o próprio Deus, a quem o altar é dedicado. 

16. ’a mão sobre a bandeira de YHWH. Esta emenda é melhor que o texto massorético, “uma mão sobre o trono de YHWH”. Presu­mivelmente a idéia em ambos os casos é de um voto de guerra perpétua, feito com a mão direita posta sobre o altar de YHWH ou alguma “bandeira” tribal que simbolizasse a Sua Presença. (Daí a paráfrase da SBB, “Porquanto o SENHOR jurou”). Se preferirmos o texto mas­sorético, “trono”, a referência seria à arca, que a esta altura ainda não existia. A emenda proposta é pequena, de apenas uma letra (kaf e num podem ser confundidos, N.T.), nês em lugar de kês. Consultar Hyatt quanto às várias possibilidades. 

18:1-12. A visita de Jetro. 

1. Jetro. Chamado Reuel em 2:18, Jetro é apresentado aqui como “sacerdote de Midiã”. A julgar pelo uso hebraico posterior, a expres­são equivaleria ao sumo sacerdote de Midiã (1 Sm 1:9), indicando assim uma posição elevada. 

Ouviu todas as coisas. A esta altura dos acontecimentos todos os nômades da península já teriam ouvido da escapada israelita do Egito e de seu choque com Amaleque. Se o Sinai era o lugar onde os rebanhos de Midiã pastavam, então Israel já estava junto às fronteiras de Midiã, ao passo que Amaleque devia ser o vizinho mais próximo dos midiani­tas. 

2. Depois que este lha enviara. Em hebraico mais recente este verbo seria uma referência ao divórcio, mas aqui parece se referir a um outro acontecimento qualquer não mencionado nas Escrituras. Talvez Zípora e seus filhos tivessem sido mandados de volta a Midiã por questão de segurança. A frase é uma adição necessária, explicando como Jetro po­deria ter trazido consigo a família de Moisés nesta ocasião, sendo que em 4:20 lemos que Moisés os levara consigo para o Egito. 

4. Eliezer. Esta é a primeira e única menção ao segundo filho de Moisés, cujo nome sugere um reavivamento da fé no coração de Moisés, comparado ao desespero evidente no nome “Gérson”. Uma vez que Eliezer mão tem a menor parte na tradição posterior, nem mes­mo o mais capcioso dos críticos pode alegar que Eliezer é mera in­venção. O próprio fato de que sua existência e ida ao encontro de Moisés representam um problema, é o argumento mais forte em favor da fidedignidade desta tradição. Tradições manufaturadas não contêm problemas. A forma do nome é interessante: nem mesmo nos nomes dos dois filhos de Moisés aparece o nome YHWH. Este fato dá apoio à teoria de que o nome era desconhecido em Israel até a visão de Moisés no Sinai e não era, portanto, como afirma Hyatt, o nome do “patio no” do clã de Moisés. 

5. Junto ao monte de Deus. Se o monte aqui mencionado é o Sinai, Israel já deve estar bem a leste de Refidim. É possível que os israelitas já tivessem chegado à área mencionada em 19:2, junto ao sopé da monta­nha. Jetro devia saber que o Sinai era o objetivo da peregrinação dos is­raelitas (5:1) e que a adoração a ser ali oferecida era o sinal de que Deus cumprira Sua promessa (3:12). Se a montanha já era sagrada para Jetro e seu povo, o encontro naquele local seria ainda mais claro para ele. 

6. Eu, teu sogro Jetro, venho a ti. As versões trazem “vê” em lu­gar de “eu” (no texto massorético), que não oferece bom sentido a não ser que se trate de uma mensagem enviada de antemão. Provavelmente “eis” é a expressão correta. 

7. Inclinou-se e o beijou. A cena é típica da cortesia oriental. Am­bos são agora grandes líderes e se comportam como tal. Em relação ao respeito demonstrado por Moisés para com seu sogro, compare sua prontidão em aceitar o conselho de Jetro no caso da estrutura judiciária (v. 24). Tal humildade e respeito pelos mais velhos são elogiados nas Escrituras (Lv 19:32), mesmo não sendo muito populares hoje em dia. 

11. Agora sei. Jetro reconhece a supremacia de YHWH em relação a todos os outros deuses, conforme fora demonstrado por Sua ativida­de salvadora em favor de Israel. Pode não se tratar de monoteísmo (a crença na existência de um único deus), mas tal confissão certamente le­va à monolatria (adoração de um único deus com a exclusão de todos os outros). Em Jonas 1:16 há uma confissão semelhante, feita por não- israelitas. 

12. Tomou holocausto e sacrifícios. Teria Jetro assimilado o culto a YHWH, tornando-se um “novo convertido”, como sem dúvida mui­tos outros se tornariam mais tarde? Ou será que já conhecia e adorava a YHWH anteriormente? As próprias palavras de Jetro aqui parecem favorecer a opinião de que, no que diz respeito a Jetro, YHWH era um novo deus. Os que adotam a “hipótese midianita” (ou “hipótese quenita”) pensam de maneira diferente: pensam que Moisés aprendeu não apenas o nome de Deus, mas também muitos dos detalhes envolvidos em Seu culto, de seus parentes midianitas. Assim, explicam facilmente o dilema de ver Jetro dirigindo o louvor nesta ocasião — não como um recém-convertido mas reconhecido como mestre e sacerdote. Tal expli­cação, entretanto, não é necessária. A condição de Jetro como sacerdo­te, bem como sua posição de parente mais velho de Moisés, parecem ser base suficiente para este fato. O sacerdócio como instituição ainda não existia em Israel; era uma função que cabia ao “ancião’ ’ (chefe) do clã. 

O holocausto normalmente expressa ação de graças, ou o cumprimento de um voto: ambos seriam apropriados aqui. Trata-se provavel­mente da “oferta queimada”, que era totalmente dedicada a Deus, sem ser comida. A expressão geral, sacrifícios, envolveria a chamada “ofer­ta pacífica” (onde a ênfase está na comunhão), uma celebração na presença de Deus, como aqui e em 24:11, onde os “anciãos” aparecem mais uma vez, possivelmente numa função sacerdotal primitiva. 

18:13-27. A indicação de juízes. A límpida tradição bíblica é que esta instituição israelita seguia as linhas da prática midianita, como re­sultado da sugestão feita por Jetro. A função dos oficiais é clara, embo­ra o termo técnico lõpét não seja usado aqui. No período patriarcal, a justiça no círculo familiar era administrada pelo chefe do clã. Em sua condição de escravos no Egito, os israelitas dificilmente possuiriam um sistema judiciário próprio. É verdade que tinham “superintendentes” egípcios e “capatazes” israelitas a eles subordinados, mas esta era uma organização puramente “trabalhista”. Quando Moisés tentou agir co­mo líder ou “juiz” os israelitas se ressentiram do fato (2:14). Além do mais, Israel parecia ter preservado até certo ponto a estrutura tribal: havia ainda um nãsTon “chefe” para cada tribo (Nm 7:11), e em tem­pos primitivos estes também parecem ter tido funções judiciárias. Deuteronômio 1:15 oferece uma informação adicional interessante neste episódio. 

Os anciãos, que já foram mencionados pela sua participação no oferecimento de sacrifícios (18:12) e pela sua provável função representativa, possivelmente também exerciam deveres judiciários. O título e posição de Sõpêt, “juiz”, já era de uso antigo entre os cananeus (os fenícios preservavam o título até mesmo em suas colônias do Mediterrâneo), embora aparentemente com o sentido de “campeão, líder”, co­mo no livro de Juizes, e não em sentido legal. A organização esboçada abaixo é primeiramente militar, baseada no sãr, ou comandante de um certo número de homens (cf v. 21). Tal estrutura é muito apropriada para um grupo nômade no deserto. Como qualquer nação antiga, Israel é sempre considerado primeiramente como uma força de combate, e en­tão organizado com base nisso. Entender este episódio como uma sepa­ração de casos “sagrados”, julgados por Moisés, e casos “civis”, jul­gados pelos anciãos, parece errado: toda a justiça era sagrada em Is­rael. A administração da justiça, de qualquer espécie, se encontra aqui no contexto do sacrifício e da refeição sagrada. A distinção, portanto, não é entre o sacro e o secular, mas entre problemas fáceis e problemas difíceis, os primeiros já cobertos pela tradição ou por revelação em con­traste com os últimos que exigiam uma nova revelação da parte de Deus, através de Seu agente, Moisés. 

13. Assentou-se... estava de pé. Estes são termos técnicos em legis­lação semita, indicando respectivamente “juiz” e “litigante”. 




14. Por que te assentas só? Eis aqui a pergunta de um velho chefe que já aprendera a lição de como delegar autoridade. Como muitos lideres cristãos, Moisés estava se desgastando desnecessariamente (v. 18) ao tentar fazer tudo sozinho. Isto nem sempre é prova de ambição: às vezes indica excesso de zelo e ansiedade. Além do mais, ele estava também desgastando o povo (v. 18 mais uma vez), um aspecto geral­mente omitido. A demora na administração da justiça, surgida de cir­cunstâncias semelhantes, foi uma das causas da revolta de Absalão, séculos mais tarde (2 Sm 15:1-6).

15. Para consultar a Deus. Este verbo é traduzido mais adiante em passagens devocionais como “buscar a Deus” em oração. Aqui, entre­tanto, significa buscar a decisão divina num assunto controvertido, quer uma disputa legal, quer um caso em que se precisasse de orien­tação. Em dias futuros a “estola sacerdotal” viria a ser usada em tais ocasiões, aparentemente contendo os Urim e Tumim, ou seja, as pedras com as quais se determinavam os oráculos divinos (1 Sm 23:9; 28:6): es­te sistema, entretanto, não viria a existir senão bem mais tarde (28:30).

16. E lhes declare os estatutos de Deus. Moisés evidentemente con­siderava sua tarefa judiciária como um ministério de ensino, declaran­do aos israelitas os “estatutos”, “leis” e “decisões” ou “instruções” divinos, dados em ocasiões específicas para tratar de casos específicos. Talvez tenhamos aqui o processo pelo qual a lei mosaica veio a se for­mar, uma combinação de grandes princípios de revelação e sua apli­cação à vida cotidiana no deserto.

19. E Deus seja contigo! A intenção parece ser, “de modo que Deus seja contigo”, isto é, “te abençoe”. No entanto, o pensamento pode corresponder à respeitosa fraseologia do versículo 23 (“e se assim Deus to mandar”). Como todo oriental bem educado, Jetro não iria obrigar seu genro a aceitar seu conselho, ainda que sábio.

Representa o povo perante Deus. A idéia da passagem é que o israelita comum não ousaria se aproximar de Deus diretamente (19:24).

20. O caminho em que devem andar. A palavra “caminho” pode­ria ser interpretada literalmente no caso de Israel, referindo-se à sua jornada através do deserto. Também é usada muito comumente em sen­tido metafórico (Gn 6:12), e este parece ser o sentido aqui. O uso de tal metáfora pode ser uma reminiscência consciente do sentido original da palavra no hebraico, “decisão”, tôrâ, quase que com o sentido de uma placa indicativa. Visto por este ângulo, nada há de rígido ou proibitivo com o conceito hebraico de lei: é a placa indicativa colocada por Deus em Seu caminho para esta vida.

21. Procura dentre o povo. “Procurar” é o sentido mais básico deste verbo, aqui a idéia secundária de “escolher”.

Homens capazes. O termo hebraico empregado poderia ter significado militar, indicando um soldado de valor. Com o passar do tempo veio a significar “um homem de bem”. Podemos comparar o uso de frase semelhante em Provérbios 12:4, em relação à esposa ideal. Driver ressalta que as qualidades exigidas para tal posição são morais e não in­telectuais: isto é demonstrado pelas cláusulas explanatórias que se se­guem. Muitas das mesmas qualidades são exigidas de lideres cristãos ao tempo do Novo Testamento (ver At 6:3 e 1 Tm 3:1-3).

24. Moisés atendeu. O sentido literal da palavra é “obedeceu” e assim deveria ser traduzida. Moisés era humilde o bastante (e sábio o bastante) para aprender de seu sogro. Compare esta passagem com a significativa afirmação em 2:21, “e Moisés consentiu em morar com aquele homem”: isso também fora prova de verdadeira humilda­de. Mansidão (e fidelidade, Hb 3:2) era a grande virtude que distingüia Moisés (Nm 12:3).

27. Então Moisés despediu seu sogro. Esta é a mesma raiz verbal usada no versículo 2 em relação à esposa de Moisés que ele enviara de volta a Midiã. Este versículo confirma o sentido neutro do verbo ná passagem anterior. Em Números 10:29-32 Moisés solicita a seu parente midianita (se sogro ou cunhado não é certo) que fique com Israel para servir de guia no deserto, numa região claramente bem conhecida dos midianitas. O clã dos quenitas aparece mais tarde, vivendo tanto entre os cananeus da planície setentrional (Jz 4:17) como entre os amalequitas no Neguebe (1 Sm 15:6): em ambos os casos, longe de sua terra de origem e aliados a Israel. Números pode se referir a outro incidente. Na verdade, Hobabe/Reuel pode não ter atendido ao pedido de Moisés, tal como se encontra em Números, embora neste caso seja difícil explicar a presença dos quenitas entre os israelitas em Canaã.






[1] Para sermos honestos, precisamos afirmar que a localização exata deste deserto é desconhecida (se é que tinha localização exata): Nm 13:26 coloca até mesmo Cades no de­serto de Parã. Aharoni, citado por Rothenberg, pensa que o deserto cobria toda a península do Sinai. 


[2] G.I. Davies, num artigo a ser publicado (que me foi gentilmente cedido), defende a tradução “pulverizado” (seguindo a versão inglesa da Bíblia de Jerusalém) com base nas línguas cognatas, na Vulgata e na LXX. A sugestão pode bem estar certa. 


[3] Mais uma vez G.I. Davies afirma, com vários exemplos, que mãn era usado para “o que” em dialetos cananeus. A forma mãn-húl portanto, não precisa ser considerada recente ou aramaizante.