10 de setembro de 2016

R. ALAN COLE - O Êxodo até o Sinai (12.1-18.27) (Parte 1)

alan cole danilo moraes
O ÊXODO ATÉ O SINAI (12:1 —18:27) 

a. A Páscoa e a Fuga (12:1-13:22) 

12:1-13. Preparativos para a Páscoa. Esta passagem narra os preparativos para a Páscoa, que devem começar quatro dias antes do sacrifício propriamente dito, com a escolha do animal a ser sacrificado; 12:21-27 descreve em detalhes partes do ritual a ser observado durante a cerimônia. 

1. Na terra do Egito. O restante da lei israelita foi outorgado no Si­nai, mas esta passagem enfatiza que a Páscoa e a festa dos pães asmos foram instituídas no Egito, antes do Sinai. Algumas vezes, nos últimos anos, tem-se levantado a questão de a própria Páscoa ser a “festa reli­giosa” que Moisés pretendia celebrar a princípio no Monte Sinai ou ao fim do ’’caminho de três dias” no deserto (3:18), caso se trate de localizações diferentes. Devido à intransigência de Faraó (dizem), Moisés finalmente consentira em realizar a festa no Egito. Os que man­têm esta posição pensam que a data (a lua cheia da primavera) já estava determinada, e que isso explica a urgência crescente dos pedidos de li­bertação feitos por Moisés. Segundo o mesmo ponto de vista, Moisés temia que, a menos que tal festa religiosa fosse realizada, Deus os casti­garia com alguma peste (5:3). Isto é exatamente o que Ele fez com os egípcios e faria, presumivelmente com Israel, se os israelitas não esti­vessem “cobertos” pelo sangue do sacrifício (12:13). A explicação é en­genhosa mas não parece concordar com a narrativa bíblica. Este ponto de vista também envolve outro, mantido por alguns estudiosos, de que a Páscoa fora observada pelos israelitas muito antes do Êxodo e somen­te muito mais tarde associada com tal evento, como um memorial (a não ser que a festa a ser realizada no deserto (3:18) fosse algo totalmen­te diferente da Páscoa — talvez o sacrifício comemorativo da aliança, realizado no Sinai). 

Israel possivelmente já observa os “sacrifícios da lua nova” bem antes do Sinai pois, embora estes sejam ordenados na lei de Moisés (Nm 28:11), não há qualquer sugestão de que sejam uma nova cerimônia a ser observada, e tal costume era largamente empregado no mundo anti­go. Não há objeções teológicas a este ponto de vista: a circuncisão (Gn 17:10) e aparentemente o sábado (Gn 2:3) também faziam parte da tra­dição religiosa de Israel, anterior à lei. Todavia, embora possa ter havi­do o sacrifício regular de um cordeiro na noite da lua cheia, a “Pás­coa” israelita era uma ocasião especial e tinha um significado especial (cf vv. 11-14). A questão da origem destas festas israelitas é tão irrele­vante quanto a questão da origem da circuncisão, que certamente já existia como rito amplamente empregado eras e eras antes de Abraão. 

A questão aqui é estabelecer qual o significado real da Páscoa para Is­rael, e que ato histórico de Deus seria comemorado através dela em dias mais recentes; quanto a isso, porém, não cabe a menor dúvida. 

2. O primeiro mês do ano. Aqui o mês é designado pelo seu nome cananeu, ’ãbib, “trigo recém-amadurecido” (13:4) e mais tarde pelo nome babilónico de Nisan (Ne 2:1), e corresponde a março-abril no ca­lendário ocidental. A Páscoa, portanto, era ao mesmo tempo uma festa da primavera e uma festa de ano novo, embora não haja necessida­de de acrescentar a tais comemorações as práticas sugeridas por estu­diosos de religiões comparadas. Na Bíblia, a Páscoa era uma festa da primavera apenas porque Israel saiu do Egito na primavera (13:4). Tratava-se puramente, portanto, da comemoração de um evento histórico. Êxodo também declara abertamente que o ano novo passaria a ser contado a partir daquele mês pelo simples fato de que o êxodo (que aconteceu em Nisan) fora o começo da vida de Israel como nação. Como todos os festivais religiosos de Israel, a observância da Páscoa estava firmemente apoiada na história de Israel e nos atos salvíficos de Deus. Êxodo 23:16 e 34:22 provavelmente preservam a memória de uma tradição semita anterior ao êxodo segundo a qual o ano agrícola terminava (e portanto, presumivelmente, começava) no outono, isto é, em outubro. Se os meses “mortos” do inverno não fossem contados, tanto outono quanto primavera poderiam servir de começo para o ano: isto, porém, parece improvável, embora exemplos similares sejam co­nhecidos em outros países agrícolas. 

3. Toda a congregação de Israel. Esta é a primeira ocorrência no Pentateuco do que viria a ser um termo técnico para descrever Israel em sentido religioso {‘êdãh ocorre freqüentemente com este sentido; em Deuteronômio e livros mais recentes a forma preferida é qãhãl) e que subjaz o uso da palavra ekklêsia (igreja) no Novo Testamento. A pala­vra “congregação” não é um termo abstrato: implica no ajuntamento da nação de Israel, normalmente com propósito religioso. 

Aos dez deste mês. É provável que os israelitas primitivos, tal co­mo os chineses, dividissem o mês em três partes de dez dias cada, sendo a primeira destas a “entrada” e a última a “partida”. Nosso conceito de “crescente” e “minguante” é semelhante, embora baseado numa divisão do mês em duas partes. Tal como a Páscoa, o Dia de Expiação caía no décimo dia de um outro mês (Lv 23:26,27). Esta explicação é preferível à suposição de que o número dez era tido como sagrado. A noite do décimo quarto dia (quando o cordeiro devia ser morto, v. 6) seria exatamente a metade do mês, quando presumivelmente haveria lua cheia. 

Um cordeiro. O termo hebraico, êeh, é neutro e deveria ser traduzi­do “cabeça de gado (miúdo)”, aplicável igualmente a ovelhas e cabras de qualquer idade. Os israelitas, tal como os chineses, pareciam consi­derar qualquer distinção entre ovelhas e cabras uma subdivisão sem im­portância. Talvez por causa disso, “separar os bodes das ovelhas” veio a ser uma expressão proverbial para indicar o discernimento divino ao tempo do Novo Testamento (Mt 25:32). Quem conhece as ovelhas da Ásia, pequenas, de cor marrom ou preta e com pelo curto e crespo, sabe bem da dificuldade em distingui-las, exceto pelas caudas. Além disso, o seh poderia ser de qualquer idade: o versículo 5 diz que deveria ser “fi­lho de um ano”, expressão que pode significar “do primeiro ano”, ou seja, “nascido há um ano ou menos”. Era assim, pelo menos, que en­tendiam os rabis. As traduções modernas, que contêm a expressão “macho de um ano”, estão provavelmente forçando idéias ocidentais de cronologia a um texto asiático. Em qualquer caso, porém, é apenas esta descrição de sua idade que nos mostra que o sacrifício deveria ser um “cordeiro” e não uma “ovelha” adulta. 

Para cada família. A Páscoa era uma comemoração doméstica e familiar, o que demonstra sua origem antiga. Aqui não há templo, nem tenda da congregação, nem altar nem sacerdote: a idéia de represen­tação, porém, se não mesmo substituição, é claramente sugerida. 

4. Por aí calculareis. Em dias mais recentes, o número mínimo de pessoas que poderia comer um cordeiro era dez adultos; este número, porém, foi alcançado através de uma exegese artificial. No princípio, parecia ser questão de apetite, ou do tamanho do cordeiro, ao invés de teologia. 

5. Macho de um ano. O sacrifício deveria ser um macho jovem e sem defeito algum, presumivelmente representando a perfeição da espécie. Se já tivesse realmente um ano de idade, já estaria plenamente desenvolvido. 

6. No crepúsculo da tarde. Literalmente, “entre as duas noites”. Estudiosos judeus não chegam a um acordo quanto ao significado exa­to da frase. A expressão é usada para descrever a hora do sacrifício ves­pertino regular (29:39) e a hora em que as lâmpadas da tenda da congre­gação eram acesas (30:8). O pietismo ortodoxo do judaísmo farisaico entendia a frase como uma referência ao período da tarde entre a hora em que o calor do sol começava a diminuir (digamos 3 ou 4 horas) e o pôr-do-sol. Outros grupos preferiam o período entre o pôr-do-sol e a escuridão, ou outras explicações semelhantes. 

7. Tomarão do sangue. Dificilmente se poderia classificar a Páscoa como um sacrifício, no sentido mais recente da palavra. Não era direta­mente ligada a pecado, embora fosse “apotropaica” no sentido de evi­tar o “golpe” divino, havendo portanto um ritual cruento a ela associa­do. O fato de haver um ritual cruento não é em si mesmo digno de nota: notável mesmo é o não haver qualquer associação de sacerdotes com um tipo de rito que mais tarde seria estritamente limitado à sua partici­pação. É claro, portanto, que esta cerimônia surgiu antes do estabeleci­mento do sacerdócio “profissional” em Israel. Como presumivelmente acontecia no período patriarcal, o chefe da família fazia as vezes de sa­cerdote. Todavia, a despeito deste resquício de tradição patriarcal, as ombreiras e vergas sugerem vida sedentária, tal como Israel vivia em Gósen. Embora, estritamente falando, não haja aqui o conceito de “ex­piação”, o princípio básico do sacrifício cruento é o mesmo: representa uma vida que foi sacrificada (Lv 17:11). 

8,9. Assado ao fogo. O animal era assado sobre fogo aberto, feito num buraco. O simples fato de o animal ser comido mostra que o sa­crifício não era tido como oferta pelo pecado (29:14). O assado é prova­velmente um outro traço arcaico da vida nômade (ver Hyatt, p. 26). Também se tem sugerido que o assado (uma espécie de churrasco) en­volveria sangue e gordura, ambos proibidos em Israel (Gn 9:4; 29:13). Presumivelmente a proibição de comer o sacrifício cru se referia a práticas anteriores à Páscoa ou talvez a ritos mágicos dos cananeus. 

Cozido em água indica métodos mais recentes e sofisticados de cozinhar (1 Sm 2:15). Assar o animal inteiro, com a cabeça e os intestinos, também era um método arcaico. Na observância atual da Páscoa, uma perna de carneiro pode representar o animal inteiro. Os pães asmos que acompanhavam o cordeiro serão considerados adiante (ver comentário de 12:14-20). As ervas amargas (de variedade não especificada e, por­tanto, provavelmente apenas uma nomenclatura geral; talvez alface sel­vagem seja o que se quis dar a entender) eram provavelmente um tem­pero primitivo, embora mais tarde os judeus as considerassem um símbolo do amargor da escravidão de Israel. O evangelista pode ter vis­to aqui a chave para a “mirra” amarga que foi misturada com o vina­gre oferecido a Cristo na cruz (Mc 15:23), especialmente tendo-se em vista que Ele era considerado a vítima pascal (1 Co 5:7). 

10. Nada deixareis dele. Além de ser “apotropaica”, por evitar o castigo divino, a Páscoa também era uma refeição comunal. Como tal, devia ser comida cerimonialmente na presença de Deus: nada poderia ser deixado, nem levado quando da partida (23:18). Essa ordem visava evitar profanação, ou então desestimular a prática da magia. 

11. Desta maneira o comereis. Numa prática sem paralelo entre os sacrifícios de comunhão em Israel (ofertas pacíficas — Lv 7:11-18), os israelitas deveriam comer a Páscoa completamente prontos para parti­da imediata. Alguns estudiosos explicam este fato como um costume normal entre os nômades; tal explicação, entretanto, não justifica a pressa (literalmente talvez “pressa anciosa”), com que a páscoa deveria ser comida (cf Is 52:12, onde vemos que o “novo êxodo” do cativeiro bebilônico não exigirá a mesma “pressa anciosa”). A única explicação possível está no misto de temor e expectativa da visitação divina naque­la primeira noite de Páscoa. 

É a páscoa de YHWH. Provavelmente a palavra pesa, “páscoa”, em si mesma, se refira primeiramente à vítima, e secundariamente à ce­rimônia em que a vítima era a figura central. Literalmente deveríamos traduzir “é a vítima pascal de YHWH”. O significado da palavra pro­priamente dita é explicado no v. 13. Outros, no entanto, pensam que a adição de “YHWH” significa que a palavra pesa podia ser usada ori­ginalmente para descrever uma variedade maior de cerimônias; esta, to­davia, pertence particularmente a YHWH e assim é apresentada. 

12. Ferirei na terra do Egito todos os primogênitos. “Ferir” geral­mente significa “matar” em hebraico, e aqui o contexto deixa isso bem claro. Ramessés II teve um reino muito longo, e Merneptá, seu suces­sor, não era o filho mais velho. Talvez, portanto, o irmão mais velho de Merneptá foi quem morreu naquela noite. Conforme veremos adiante (ver comentário de 14:18), não há razão para se presumir que um faraó tenha morrido na travessia do Mar Vermelho. 

Todos os deuses do Egito. Também estes, tal como os próprios egípcios, seriam objeto dos justos juízos de Deus. Esta frase pode se re­ferir à maneira em que as pragas afetam o rio Nilo e os vários animais que simbolizavam deuses egípcios; pode, talvez, referir-se à derrota dos poderes espirituais que estavam por trás de tais símbolos. Sem dúvida os egípcios costumavam orar a seus deuses pela segurança de seus primogênitos. 

13. Passarei por sobre vós. O verbo cognato é usado aqui para ex­plicar o substantivo que dá nome à cerimônia. O verbo, por sua vez, é parcialmente explicado pela segunda metade do versículo: praga algu­ma cairia sobre os israelitas. Em 1 Reis 18:21 este verbo significa “co­xear”, e o adjetivo cognato é traduzido “coxo” freqüentemente no Ve­lho Testamento. Devido a isso, comentaristas têm feito especulações as mais absurdas no sentido de provar que o significado original da páscoa era “a dança da manqueira” (semelhante à dos profetas de Baal em 1 Rs 18:26, nota do tradutor). Este versículo, no entanto, é a única expli­cação do nome desta cerimônia encontrada em todo o Velho Testamen­to (cf o que foi dito anteriormente sobre o significado do nome YHWH) e deve, portanto, ser levado a sério. Quer se tratasse de etimo­logia correta ou de um trocadilho, para Israel pesa significava “passar por sobre” ou “saltar por sobre” e era aplicado à intervenção de Deus na história naquela ocasião, ao poupar Israel. 



12:14-20. Preparação para a festa dos pães asmos. 



Já observamos a conexão entre a redenção dos primogênitos e a páscoa. A conexão entre a páscoa e a festa dos pães asmos também é bem íntima, ao ponto de serem consideradas uma única cerimônia, não duas (23:15), e aparentemente denominadas “festa dos pães asmos”. Muitos estudiosos atribuem a origem da cerimônia à vida agrícola esta­belecida em Canaã, tal como atribuem a origem da páscoa à vida pasto­ril dos ancestrais nômades de Israel. Veem, portanto, a cerimônia final única como uma fusão das duas, ocorrida depois do estabelecimento em Canaã. É desnecessário lembrar o leitor de que tal sugestão é contrária à evidência bíblica. É possível que anteriormente já se comes­sem “pães asmos”, quer no deserto (onde se prepara e se come tal tipo de pão) quer em Canaã; isso, todavia, é apenas a parte externa da ceri­mônia. Em Israel esta festa, como todas as outras, celebrava os atos salvadores de Deus, possuindo significado histórico, não agrícola. 

14. Este dia. Ou seja, a noite do décimo quarto dia (v. 18), guar­dando em mente que os israelitas contavam os dias começando com o pôr-do-sol (a versão inglesa, New English Bible traduz: “a noite que dá início ao décimo quarto dia”). Esta data marcava também o início da festa dos pães asmos. Já vimos no versículo 8 que comer os pães asmos era parte do ritual da páscoa; aqui, essa ingestão é estendida por toda uma semana. 

15. Sete dias é o número sagrado, simbolizando perfeição, totali­dade. Era comum, portanto, que períodos sagrados durassem pelo me­nos uma semana. 

Fermento parece ser um símbolo bíblico de corrupção, bem como de uma penetração completa (fermentação), embora tal equação não se torne específica até o Novo Testamento (Mt 16:6; 1 Co 5:6-8). Outro símbolo era a fermentação do vinho, o que provavelmente explica a abstenção exigida dos nazireus (Am 2:12) e dos recabitas (Jr 35:6), a não ser que isso se trate de simples arcaísmo, originado nos dias do de­serto, quando o vinho era desconhecido. Normalmente o “fermento” era um pedaço pequeno de massa já fermentada, que permanecia junto ao forno pronto para fazer “crescer” uma nova quantidade de pão, ao ser misturado com a massa recém-preparada. Alguns estudiosos consi­deram esta regra como um princípio higiênico, obrigando o processo a recomeçar do zero a cada novo ano e a limpeza completa dos utensílios em que o pão era preparado, os quais, sendo provavelmente feitos de madeira, ficariam embolorados e malcheirosos, se não prejudiciais à saúde. Já outros vêem o incidente sob o aspecto da necessidade dos Nô­mades de preparar tais “bolachas” sem fermento em grande quantida­de antes de uma marcha pelo deserto (tal como as “bolachas de navio” no caso de viajantes mais recentes). Hoje tais “pães asmos” podem ser comprados em pacotes em qualquer loja judaica na época da páscoa (normalmente chamados “matzos”). A explicação bíblica, no entanto, é simples: Israel deixou o Egito com tanta pressa que sua massa de pão nem teve tempo de crescer. É claro que a festa, mais tarde, se tornou um memorial deste acontecimento histórico, não uma cópia exata do próprio acontecimento. Por exemplo, os israelitas, na correria do êxo­do, não poderiam ter observado o sábado “extra” no primeiro e no sétimo dia da festa (v. 16). 

Eliminada de Israel se refere à expulsão da comunidade do povo de Deus, o que poderia ser fatal se, no deserto, alguém fosse expulso do acampamento israelita. A expressão, em si mesma, não equivale, necessariamente, à pena de morte, mas havia a expectativa implícita de julgamento da parte de Deus. A atitude da comunidade essênica para com transgressores, conforme demonstrado nos manuscritos do Mar Mor­to, era exatamente a mesma, envolvendo expulsão física da comunida­de. Quanto à atitude cristã primitiva, ver 1 Coríntios 4:4,5. 

16. O que diz respeito ao comer. Este “sábado” com que a festa dos pães asmos começa e termina, não era tão sagrado quanto o sábado semanal ou o Dia de Expiação. Ao contrário de outros sábados, era permitido cozinhar. 

19. O peregrino como o natural da terra. Estas instruções, tal co­mo a lei moral, era obrigação do “estrangeiro residente” tal como do israelita por nascimento. Como preço por se estabelecer em solo israeli­ta exigia-se do estrangeiro que observasse a lei da terra, embora não fosse obrigado a adorar a YHWH. Este é um princípio teológico im­portante. 

20. Nenhuma coisa levedada. Em dias mais recentes do judaísmo, a busca de fermento por toda a çasa se tornou um ritual simbólico. Aqui encontramos apenas uma exclusão prática. 

12:21-28. O ritual da páscoa. Esta seção acrescenta alguns detalhes não incluídos no relato anterior, mas é basicamente o mesmo material. 

22. Hissopo. De acordo com tradição antiga, a erva chamada “manjerona”, embora esta não seja uma alternativa viável para a refe­rência em João 19:29. Seu uso é puramente utilitário: trata-se de uma erva comum na Palestina que, quando atada em forma de molho, serve bem como aspersor. Talvez os nômades já a usassem para aspergir ou espanar suas tendas. O hissopo foi usado em ritos purificatórios pres­critos pela Lei (ver Nm 19:6). Alguns, todavia, vêem na natureza forte­mente aromática da planta uma razão a mais para seu uso. 

Bacia. A maioria dos comentaristas modernos prefere esta tra­dução, ao invés de “portal”, que não faz tão bom sentido (a não ser que o cordeiro fosse imolado à entrada da casa, para o que, todavia, não há a menor referência). O termo hebraico sap pode ser traduzido das duas maneiras: a LXX adota “portal” enquanto a versão siríaca prefere “bacia”. 

Nenhum de vós saia. Os israelitas não deveriam deixar a proteção do sangue até à manhã, tal como o fugitivo não poderia abandonar a ci­dade de refúgio (Nm 35:28). Este detalhe deve ter sido parte das ins­truções para futuras comemorações da páscoa, pois na primeira ceri­mônia Israel abandonou suas casas e partiu do Egito durante a noite, embora isso tenha acontecido expressamente depois de o golpe divino ter sido executado. 

23. O destruidor. A expressão se refere ao anjo destruidor enviado por Deus, ou seja o anjo da morte (cf a visão de Davi em 2 Sm 24). O dualismo jamais existiu em Israel; este “destruidor” não é um poder demoníaco a quem Deus não pode controlar. A morte era parte de Seu juízo contra o Egito, tal como a morte é o julgamento universal contra o pecado (Gn 2:17). 

26. Quando vossos filhos vos perguntarem. Essa pergunta é, atual­mente, parte deliberada e consciente do ritual da páscoa; mas isso não significa que (segundo alguns estudiosos) toda a história foi escrita e o ritual elaborado para responder a uma típica pergunta infantil. Uma criança só iria fazer perguntas a respeito de um ritual que já estivesse em existência, do contrário nada haveria para justificar a pergunta. Não é preciso um conhecimento profundo de psicologia infantil para reconhecer que, dado qualquer ritual simbólico de natureza semelhan­te, perguntas vindas de crianças são inevitáveis. 

27. Respondereis. Muitos estudiosos hoje em dia vêem a páscoa e o recitativo histórico que a acompanha e emoldura como o cerne do livro de Êxodo, e na verdade, de todo o Pentateuco. Ninguém pode negar que a libertação de Israel do Egito é de fundamental importância na Tora. Contudo, no enredo do livro, a páscoa certamente não é o único clímax. A páscoa, por si mesma, não é a redenção; é apenas o despertar da redenção. O verdadeiro clímax do livro de Êxodo pode ser encontra­do ou na travessia do Mar Vermelho ou no estabelecimento da aliança no Sinai. Contudo, sendo a páscoa uma das três grandes festas a ser ob­servada no santuário central (23:14), é possível que a observância da festa fosse um auxílio poderoso na preservação das tradições da liber­tação de Israel do Egito, e uma oportunidade para a proclamação dos atos salvadores de Deus. 

12:29-51. O êxodo à meia-noite. Esta passagem descreve o que realmente aconteceu na noite da primeira páscoa, tal como ja fora previsto. Inclui também a razão para a observância dos “pães asmos”, várias estatísticas e outras regras de ritual acerca da páscoa. 

29. O cativo que estava na enxovia. Literalmente, “casa do poço”. Poços eram prisões comuns. Aqui o pólo oposto a Faraó não é a “serva da mó” (11:5), mas o prisioneiro de guerra na masmorra. Pode ser que o narrador tivesse em mente a história de José (Gn 37:24). 

31. Saí do meio de meu povo. Agora que já é tarde demais para sal­var Faraó do juízo, vem a permissão aguardada em vão por tanto tem­po. 

Como tendes dito provavelmente inclui a partida de mulheres, crianças, rebanhos, gado e a jornada ao deserto. O versículo seguinte amplia a idéia. 

32. Abençoai-me também a mim. Driver entende a frase como uma referência à cerimônia a ser realizada no deserto. Seguramente, entre­tanto, o desejo de Faraó é receber uma bênção de despedida, em lugar da maldição que vinha pairando sobre o Egito. Na Bíblia, “maldição” e “bênção” são usadas primariamente em relação aos resultados práti­cos que produzem. 

34. O povo tomou a sua massa, antes que levedasse. Não havia ain­da crescido, no dizer da dona-de-casa. Se havia fermento na massa, esta continuaria a fermentar a não ser que fosse firmemente enrolada e amarrada num pano molhado onde o ar não penetrasse, como aqui. A idéia de passagem parece ser que o pedaço de massa velha ainda não fora acrescentado à nova. 

36. E despojaram os egípcios. Esta frase descreve o resultado prático. Os israelitas deixaram o Egito como um exército vitorioso, car­regados de despojos do inimigo (ver versículo 41 quanto à repetição da metáfora do exército). A própria fraseologia tem como objetivo relem­brar a promessa de 3:22 (ver especialmente a última frase). Êxodo está cheio de tais ecos internos. 

37. Sucote. Provavelmente o nome egípcio tkw, que é apenas a transliteração de um termo semita que significa “palhoças para gado” (cf Gn 33:17, evidentemente não se trata do mesmo lugar). Parece encontrar-se em ou perto das ruínas de Tell el-Maskhuta, próximo ao Lago Timsah, no extremo oriental do Wadi Tumilat. Os israelitas te­riam, então, marchado por toda a terra de Gósen, atravessando-a em direção ao leste, se nossa identificação está correta. 

Seiscentos mil. Números 11:21 apresenta o mesmo número, que parece muito elevado, pois implica um total de dois ou três milhões, contadas as mulheres e crianças. Alguns estudiosos modernos acham que estes dados se referem aos produzidos pelo censo realizado por Da­vi (2 Sm 24) ou outro censo posterior, quando tais cifras seriam possíveis, mas onde já encontramos dados completamente diferentes no texto bíblico. Podemos presumir, se assim o quisermos, que os dados foram erroneamente preservados (talvez por terem sido escritos, em dias mais remotos, em cifras e não por extenso), ou podemos aceitar a opinião de Petrie em sua convicção de que ‘elep, “mil”, realmente sig­nificava “clã” em data mais remota. Seja qual for o caso, não podemos ter idéia do número exato envolvido. Era grande o suficiente para ater­rorizar os moabitas (Nm 22:3), e no entanto pequeno o suficiente para acampar por longo tempo nos oásis em redor de Cades-Barnéia (Dt 1:46). Nenhuma questão teológica depende do número exato, e assim sendo o assunto é irrelevante. Quer houvesse seis mil ou seiscentos mil, sua libertação foi um milagre. Ao chegarem a Canaã já eram, certa­mente, uma horda (para usar o termo do historiador) de tamanho res­peitável, a julgar pelo impacto arqueológico na civilização cananita. 

38. Um misto de gente. O hebraico emprega a palavra “enxame”, derivada da mesma raiz usada em 8:21 para descrever a praga das mos­cas. Essa “gente” seria o resultado de casamentos inter-raciais, ou en­tão grupos semitas aparentados que aproveitaram a oportunidade para escapar. Números 11:4 usa um termo derrogatório diferente para des­crever essa mesma gente. Em várias ocasiões no Pentateuco (como nes­ta ocorrência em Números) este grupo é visto como a causa de vários pecados em Israel. Se não tivessem raízes reais nas tradições religiosas de Israel tal fato não seria surpreendente. 

41. Nesse mesmo dia. A frase pode não significar “430 anos na­quele exato dia”, mas apenas enfatizar o fim do período e a realidade do êxodo naquele exato dia. Como alternativa, a frase pode significar “no dia exato da festa” que acabara de ocorrer. A extensão da perma­nência de Israel no Egito já foi discutida; as possibilidades vão de 430 anos (como aqui), passando por 400 anos (Gn 15:13) a 215 anos (LXX e Peshitto, em cujo caso os 430 anos incluem tanto os patriarcas quanto o período egípcio).[1] As quatro gerações de Gênesis 15:16 são provavel­mente uma simples aproximação dos 400 anos. Mais uma vez, vale res­saltar que a duração exata da permanência é irrelevante; o que realmen­te importa é que Deus libertou a Israel ao fim do período. O fato de que os números acima mencionados permanecem em aberto mostra quão pouca importância Israel atribuía ao número exato; caso queiramos harmonizar, podemos afirmar que se trata de “quatro gerações”, comsideradas as em diferentes passagens com extensões diferentes. (Para encontrar uma discussão detalhada ver Hyatt ad loc, e também sua In­trodução.) 

42. Esta noite se observará ao SENHOR. Literalmente, “uma noi­te de vigília”, frase que é ao mesmo tempo um trocadilho e uma tentati­va de explicar a Páscoa como uma festa noturna única em Israel. Pode­mos parafrasear a expressão como “um culto de vigília pois YHWH vi­giou naquela noite... ”. 

43. Nenhum estrangeiro. Nenhum “filho de estrangeiros” ou ser­vo assalariado poderia participar da Páscoa. O gêr, “estrangeiro resi­dente protegido pela lei”, todavia, podia participar, caso ele e todos os seus familiares fossem circuncidados, tornando-se assim apto a comer a Páscoa. Até mesmo o escravo comprado por dinheiro poderia comer do cordeiro, desde que fosse circuncidado, porque, como possessão da família, fazia parte dela. Este fato reitera, a um só tempo a natureza es­sencialmente familiar da páscoa e o conceito hebreu de “simbiose” (do qual a páscoa é uma parte), pelo qual um cordeiro do rebanho de um is­raelita poderia representá-lo como sacrifício e que também exigia o ape­drejamento de toda sua família, tanto escravos quanto animais se ele mesmo houvesse cometido pecado (Js 7:24,25). 

46. Numa só casa. Driver, talvez corretamente, entende que os três regulamentos deste versículo enfatizam a unidade da páscoa. Um cor­deiro deve ser comido numa única casa e nenhum de seus ossos pode ser quebrado (presumivelmente para evitar que qualquer parte do animal fosse levada para fora da casa). João 19:36 vê este último regulamento cumprido na cruz: o mesmo aspecto de unidade se encontra em João 17:11. 

13:1-16. A Consagração dos primogênitos. Nesta passagem os versículos 1-2 e 11-16 tratam diretamente da questão da consagração dos primogênitos a Deus. Os versículos de 3-10 parecem a princípio não ter qualquer ligação, mas um exame mais cuidadoso revela a ligação com o tema dos “primogênitos”. Eles tratam da festa dos pães asmos, que é virtualmente sinônimo com a páscoa. Esta, por sua vez está ligada à lembrança da morte dos primogênitos egípcios e à preservação dos primogênitos israelitas. Há ainda um outro elo, mencionado abaixo. 

2. Consagrar pode significar “sacrificar” ou “considerar perten­cente a Deus”. Podemos encontrar exemplos de ambos os significados no Pentateuco, embora nem todos se refiram a pessoas. O primogênito é explicado aqui como “aquele que abre a madre”, que é um termo técnico em hebraico; quando assim definido, o termo “primogênito” evidentemente não pode significar “a flor” ou “a nata” da população, como sugerido acima (ver comentário de 11:5). 

3. YHWH vos tirou de lá. Esta frase associa a festa dos pães asmos com a libertação do Egito. Além disso, tal como a Páscoa (v. 8), essa festa está associada com a instrução dada pelos pais a seus filhos, pre­sumivelmente aos primogênitos. Já que o primogênito era a pessoa es­pecialmente envolvida, há um duplo elo com o contexto. 

9. Como sinal na tua mão. Em época mais recente os judeus interpretavam esta expressão, tal como a frase “frontal entre os teus olhos”, de forma extremamente literal, como aplicada à lei de Moisés. Escreviam pequenas porções da Lei e atavam-nas com tiras de couro aos braços e à testa (os chamados filactérios). Todavia, o simples fato de que linguagem deste tipo pode ser aplicada à festa dos pães asmos mostra que se trata de pura metáfora. Literalismo excessivo tem sido um perigo constante na Igreja, bem como no Judaísmo. 

12. Todo primogênito dos animais. Somente os primogênitos dos animais estão envolvidos na lei que regula o sacrifício dos primogêni­tos. Normalmente apenas machos eram aceitos como sacrifícios. Apar­tarás deve ser traduzido “fazer passar por sobre” (isto é, no fogo), com o significado de “oferecer como holocausto”.[2] Esta é a frase sinistra usada em 2 Reis 16:3, quando o rei Acaz sacrificou seu próprio filho a Moloque, ou “ao rei” (do hebraico melek, N.T.), ou como holocausto, seja qual for o significado da frase em todos os seus detalhes. Em Canaã tal coisa poderia ser feita a filhos primogênitos; em Israel apenas aos primogênitos dos animais, sacrificados a YHWH. 

13. Resgatarás. O parágrafo acima nos dá o princípio básico, que é modificado de duas maneiras importantes. Os filhos de animais cerimonialmente impuros não podiam ser sacrificados a Deus, ao passo que seres humanos não podem ser sacrificados de maneira alguma. Este úl­timo princípio já fora deixado patente aos patriarcas israelitas vários séculos antes (Gn 22). A jumenta é mencionada por ser o único animal imundo que era ao mesmo tempo comum e domesticado em Israel; por esta razão o problema era bem freqüente. Em outros lugares, porcos eram animais de sacrifício mas em Israel eram considerados imundos e, por isso, não eram criados, tal como acontece entre os muçulmanos; ca­chorros, por sua vez, eram meros eliminadores de detritos, como abu­tres e urubus. A jumenta parece ter sido animal de sacrifício em cultu­ras amoritas (Mari, por exemplo), de modo que pode também ter havi­do uma razão religiosa para sua exclusão dos altares de YHWH. Em si­tuações de extrema emergência, como 2 Reis 6:25 demonstra (em tempo de cerco militar), comia-se carne de jumenta, e parece haver referências a leite de jumenta em algumas passagens (Gn 49:12). Se isso não ocorre- se seria difícil entender o porquê de grandes rebanhos de jumentas, a não ser para o fim de reprodução (Jó 1:3). Talvez o cheiro do leite e da carne fossem considerados desagradáveis; talvez sua rejeição se devesse à natureza sagrada do animal em outras culturas ou ainda ao simbolis­mo atribuído ao animal em certos rituais de fertilidade. Embora tal ani­mal não pudesse ser sacrificado, deveria ainda ser “consagrado” a YHWH através de sua destruição, a não ser que fossem resgatados por uma ovelha, que podia ser sacrificada em seu lugar. O verbo pãdãh, “resgatar, redimir” é usado tanto para o potro da jumenta que pode ser resgatado pela substituição por outra vítima, quanto para o nenê, que deve ser resgatado. Pãdãh parece significar “comprar de volta por preço”; Deuteronômio 9:26 mostra sua aplicação na redenção de Israel do Egito realizada por Deus. . 

15. Até o primogênito dos animais. A dedicação dos primogênitos a YHWH por Israel é considerada análoga à morte dos primogênitos (animais e humanos) no Egito. Igualmente a “redenção” do filho primogênito é considerada um memorial da “redenção” de Israel do Egi­to. Como todos os costumes religiosos de Israel, este está intimamente ligado à história da salvação; daqui em diante a cerimônia celebrará um acontecimento histórico. Em sua origem, sem dúvida, a oferta dos primogênitos a Deus era equivalente a qualquer outra oferta das primícias (23:19). Este último costume, absolutamente inofensivo, sempre foi permitido e até mesmo encorajado em Israel. Talvez a idéia fosse semelhante ao pensamento que subjaz a oferta do dízimo: o todo é consagra­do a Deus pela oferta da parte. 

A todo primogênito de meus filhos eu resgato. O sacrifício de fi­lhos primogênitos a Deus deixara de existir ao tempo de Abraão (se é que havia existido entre os antepassados dos israelitas: a Arqueologia só é capaz de provar a existência dessa prática em Canaã). Este é o sen­tido óbvio de Gênesis 22, com a substituição de Isaque pelo cordeiro. Dali em diante, se o sacrifício de filhos aconteceu em Israel, como cer­tamente ocorreu em determinadas épocas, isso se deveu à ignorância (como no caso de Jefté, Jz 11:39) ou à apostasia deliberada (como no caso de Acaz, em 2 Rs 16:3). Quanto ao mais, Números 3:11-13 diz que YHWH escolheu os levitas para Si mesmo em lugar de todos os primo­gênitos de Israel; eles representam todos os primogênitos de Israel, tal como uma ovelha poderia representar um primogênito qualquer. 

13:17-22. O deserto do Egito. 

10. Pelo caminho da terra dos filisteus. Melhor traduzido “pela estrada da Filístia”, ou seja, “pela estrada que leva à Filístia”. Este era o caminho direto, mas era também poderosamente defendido pelos egípcios; os comentaristas dão exemplos de listas meticulosas, mantidas pelos guardas egípcios, de chegadas e partidas na fronteira. Os israeli­tas certamente teriam “visto a guerra” (expressão hebraica para “expe­rimentar a guerra”) se tivessem marchado por aquele caminho. O nome geográfico e etnológico mais recente é usado com naturalidade para descrever a área em questão. Os filisteus propriamente ditos não se es­tabeleceram em massa naquela região até o décimo segundo século A.C., depois de os israelitas terem ocupado Canaã. Havia, entretanto, alguns postos comerciais isolados de estilo minóico em épocas anterio­res ao êxodo (ver George E. Wright, citado por Hyatt, para obter as provas arqueológicas). Se fizermos objeção à idéia de anacronismos co­loquiais, podemos argumentar nesta linha de pensamento. Em qual­quer caso, sempre houvera ali poderosas guarnições egípcias, muito an­tes da chegada dos filisteus. 

18. Pelo caminho do deserto. “A estrada das estepes” seria uma tradução mais apropriada, pois trata-se de campos de pastagem. A lo­calização exata é incerta, mas é claro que fica a leste do delta do Nilo. Se for a nordeste de Gósen, o lugar fica próximo ao lago Sirbonis (uma lagoa de água salobre na costa do Mediterrâneo). Se for a sudeste de Gósen, então trata-se de algum lugar na região dos Lagos Amargos. Como o leito dos oceanos da época não é o mesmo de agora, uma iden­tificação exata é impossível, a despeito dos esforços persuasivos de guias locais; a mesma localização, sem dúvida, é desnecessária à nossa fé. 

O Mar Vermelho. O “Mar dos Juncos” seria uma tradução exata. O hebraico süp equivale provavelmente ao egípcio twf, “papiro”, embora seja usado para muitos tipos de plantas aquáticas e até mesmo para algas. Qualquer porção rasa de água salobre poderia se ajustar à descrição. Mais tarde os gregos usaram o termo “Mar Vermelho” para designar o Golfo Pérsico e os dois braços do que hoje chamamos de Mar Vermelho, mas este fato nada tem a ver com o texto de que esta­mos tratando, a não ser que é altamente provável (com base em outras fontes) que Israel tenha atravessado a extensão setentrional de um des­ses braços. Falando em termos mais amplos, há apenas três rotas possíveis para o êxodo; junto à costa do Mediterrâneo (que é im­provável devido à proximidade das guarnições egípcias), ou diretamen­te através da península do Sinai até Cades (que além de apresentar con­flitos com a narrativa bíblica seria muito difícil no aspecto de supri­mento de água), ou em direção ao sul, rumo a Sinai, e depois para o norte, em direção a Cades (a rota mais provável sob qualquer ponto de vista). Em qualquer dos dois últimos casos a travessia de uma das extre­midades superiores do Mar Vermelho (como é hoje conhecido) seria ne­cessária, e assim se ajustaria à indicação de direção fornecida aqui. (Ver a Dissertação 2, A Localização do Mar Vermelho, pg. 42). 

19. Os ossos de José. Isto relaciona a passagem a Gênesis 50:25, e a promessa feita ali. Tal como aconteceu com Jacó, seu pai (Gn 49:29), José jamais considerou o Egito seu lar, fato que demonstrou em sua exigência de um enterro em Canaã (Hb 11:22). Há apenas uma geração, chineses conservadores no sudeste da Ásia ainda recusavam ser enterra­dos em qualquer outro lugar que não a China. O significado de “os­sos” é, provavelmente o corpo mumificado de José, como se pode ver em Gênesis 50:1-3. Quanto ao cumprimento do desejo de José, ver Jo­sué 24:32 e a tumba em Siquém. Trata-se aqui de muito mais que sim­ples sentimento: era uma última demonstração de fé nas promessas de Deus. 

20. Sucote... Etã. A localização exata de tais lugares é desconheci­da, embora, como no caso acima, possamos sugerir uma localização aproximada para Sucote. Tais lugares aparecem demarcados em atlas bíblicos, mas em lugares diferentes, dependendo da preferência do au­tor pela “rota norte” ou pela “rota sul” do êxodo. A discussão mais detalhada da localização é a apresentada por Driver, embora deixe de apresentar muita informação geográfica mais recente. Em qualquer ca­so o texto deixa bem claro que os israelitas estavam ainda à beira da es­tepe (ou “deserto”). 

21. Numa coluna de nuvem. O hebraico significa, literalmente, “algo que permanece em pé”. Pode-se argumentar que esse conceito sugere a presença contínua de Deus. Este símbolo da presença divina tanto podia guiar e iluminar o caminho (como aqui) quanto proteger dos inimigos (14:19,20). Às vezes a nuvem aparece descendo sobre a tenda da congregação, quando o Senhor falava com Moisés (33:9). Em outras ocasiões a nuvem aparece pairando sobre a tenda, até chegar a hora de Israel levantar acampamento, quando ela então se moveria (40:34-38). Nuvem e fogo freqüentemente estão associados a Deus co­mo símbolos; é assim que Deus fala a Moisés no Monte Sinai do meio da nuvem e do fogo (19:18; cf Mt 17:5 e Atos 1:9 como paralelos no Novo Testamento). O simbolismo do fogo é bem claro: a nuvem prova­velmente simboliza o mistério de Deus, como a escuridão. Se nos per­guntarmos que método Deus usou para produzir tal efeito, podemos apenas nos aventurar a fazer suposições, que podem ser incorretas, sem rejeitar, de maneira alguma, e interpretação da fé. Este fato era, por­tanto, uma simples manifestação sobrenatural, uma visão produzida na mente dos homens, ou então um objeto natural usado por Deus como símbolo da Sua presença. Nesta última hipótese, pode ter sido uma espécie de redemoinho do deserto (tal como o vento chamado “willy­willy’ ’ do deserto australiano) que pode produzir colunas girantes de fi­na areia que pairam e se movem sobre o deserto; pode ainda ter sido a coluna de fumaça que subia no ar puro do deserto dos sacrifícios e do incenso oferecidos à frente da tenda da congregação, iluminada à noite com o reflexo do fogo sacrificial. Fosse o que fosse, Deus o usou para simbolizar Sua própria presença entre os israelitas. 

b. A Travessia do Mar dos Juncos (14:1-31) 

14:1-9. A localização da travessia. 

2. Vos acampareis junto ao mar. Os antigos narradores e ouvintes desta história sabiam bem onde ficava o “Mar dos Juncos”: para eles a localização era determinada pelos nomes dos lugares. Alguns deles nos são desconhecidos (por exemplo, o nome claramente egípcio de Pi-ha- hiroth, “região dos pântanos salgados”), enquanto outros são ambíguos (vários lugares chamados Migdol, “torre de vigia” são co­nhecidos). Baal-Zefom é prova interessante da influência da religião cananita no Egito, pois é evidente que se trata do templo de um deus cananeu, ‘ ‘ Baal do norte’ ’. 

Retrocedam deve significar uma mudança de direção. Talvez se trate de um desvio súbito em direção ao sul, ao invés de continuarem marchando para o leste. De qualquer maneira, os egípcios iriam inter­pretar a ação como incapacidade dos israelitas de encontrarem a rota direta para Canaã. 

3. Desorientados. Perdidos ou confusos (cf. Et 3:15). Israel pare­cia ter enveredado por um beco sem saída, já que o mar ou os tais pân­tanos salobres barravam o caminho à sua frente e o deserto os cercava em todas as outras direções. 

5. Que o povo fugia. Melhor dizendo, “burlava a sua vigilância”. Isto não contradiz a permissão dada anteriormente por Faraó para que Israel partisse; somente agora ele compreendia o que significava sua de­cisão. Nem sistema dependente de trabalho braçal por parte de uma classe ou grupo dessa sociedade, a perda de tal grupo é paralisante. 

6. Aprontou Faraó o seu carro. Não se trata aqui de sua carruagem particular. O significado mais provável é “força de carros de guerra”, um coletivo explicado no versículo seguinte. 

7. Seiscentos carros escolhidos. Tal número, obviamente, era mais que possível para o Egito. Se considerarmos o número elevado, toda­via, para uma simples captura de escravos, podemos considerar o número simbólico, correspondente aos “seiscentos mil” de Israel, men­cionados em 12:37. Por outro lado, o número seiscentos pode ser usado mais livremente no sentido de “companhia”. Seiscentos parece ter sido o tamanho comum de um batalhão (2 Sm 15:18). 

Todos os carros do Egito. A frase deve ser entendida no sentido ge­ral utilizado em 9:6, e não no sentido estritamente matemático que seria estranho ao pensamento israelita. É evidente, no relato bíblico, que um batalhão de carros de guerra egípcios foi destruído no Mar dos Juncos; não há, entretanto, necessidade de se presumir que todo o exército egíp­cio pereceu ali. 

Com capitães sobre eles. Etimologicamente este termo deve significar “o terceiro homem”, talvez no carro de guerra. Ver Davies para uma discussão mais completa desta obscura palavra. “Cavaleiros” se­ria uma boa tradução se não tivesse duplo sentido (cf 2 Rs 7:2). De fato, somente os hititas usavam carros de guerra que levavam três ocupantes, de acordo com nosso conhecimento atual. 

9. Cavalarianos. Talvez usado como o vago equivalente poético de “carros”. Os carros de guerra eram uma arma antiga no Egito ao passo que a cavalaria propriamente dita só foi empregada muito mais recente­mente (Is 31:1). Aqui, todavia, não se tratava propriamente de guerra, e sim de uma operação policial, de modo que a cavalaria talvez tenha si­do usada para explorar minuciosamente o deserto como batedores, à frente dos batalhões de carros de guerra. Muitos séculos depois, os car­ros e a cavalaria do Egito se tornaram proverbiais (Is 31:3). 

14:10-20. O grito de terror de Israel. 

10. Israel pode, sem sombra de dúvida, ter “clamado” a YHWH por ajuda, mas sua primeira reação (como aconteceu frequentemente no deserto, cf 16:3, etc.) foi culpar Moisés. Tal atitude era errada e bem humana: várias e várias vezes nós nos reconhecemos em Israel. 

11. Será por não haver sepulcros. Amarga ironia, em vista da preo­cupação fora do normal que os egípcios tinham com tumbas (comparar obsessão semelhante entre os Nabateus de Petra e os Etruscos da Itália), mas é pouco provável que os israelitas tivessem isso em mente. A situação era muito tensa para esse tipo de humor. 

12. Não é isto o que te dissemos no Egito? É fútil argumentar se os israelitas disseram ou não tais palavras a Moisés no Egito. Seu estado de espírito não permitia gentilezas e esta frase certamente expressa a ati­tude de 5:21. “Dizer”, em hebraico, freqüentemente significa “pen­sar” (cf SI 14:1, “disse o ímpio no seu coração”). 

13. Livramento. A palavra também significa salvação e se refere aqui à idéia de salvar a vida de alguém, ou de vencer uma batalha (cf 1 Sm 14:45). À medida que o Velho Testamento se desenrolava, a “salvação” foi adquirindo sentido cada vez mais espiritual e menos material (SI 51:12), embora o israelita não tivesse consciência de um contraste agudo entre os dois significados. 

16. Divide-o. A palavra hebraica propriamente dita significa “se­pare-o” ou “abra um vale nele”. Não se trata de uma versão diferente dos versículos 21 e 22; a metáfora não deve ser excessivamente explora­da em nenhum dos dois casos, já que ambas as metáforas descrevem o mesmo fato. 

18. Quando for glorificado em Faraó. Isso aconteceria com a der­rota de suas forças. A Bíblia não afirma que Faraó morreu neste “con­flito fronteiriço”, como deve ter parecido aos olhos dos egípcios o afo­gamento de seus exércitos. É inútil, portanto, tentar determinar a data do êxodo buscando na história algum Faraó cuja múmia não tenha sido preservada intacta. Para Israel, todavia, isto foi ao mesmo tempo sal­vação, redenção e julgamento divinos. Israel teria sempre que enfatizar a importância deste acontecimento e nós também devemos fazê-lo. 

19. O Anjo de Deus. O nome geral é usado para Deus, em vez do nome YHWH, particularmente israelita. Possivelmente, portanto, de­vemos traduzir a expressão por “o mensageiro divino”, em termos ge­rais, referindo-nos à coluna de nuvem e fogo. Este parece ser o sentido da segunda metade do versículo. Ver 23:20-23, onde há outra ocorrên­cia da palavra “anjo”, quase que como um representante pessoal de Deus. 

20. A noite passou. O hebraico diz “esclarecia a noite”, mas a construção é estranha e por isso a maioria dos comentaristas modernos segue a versão grega como acima. Ver Noth para uma discussão mais completa do problema. O sentido principal do versículo é claro: Israel precisa agora não de orientação mas de proteção, e é isso que Deus lhes oferece. Hyatt, talvez corretamente, emenda a primeira frase também, de modo que o versículo assume a seguinte forma: “A nuvem escureceu e eles passaram a noite...”. 

14:21-31. A travessia do mar. 

18. Moisés estendeu a mão sobre o mar. Não há contradição entre esta afirmação, vista como a causa das águas do mar secarem, e a se­gunda afirmação abaixo, de que Deus enviou um forte vento oriental. A ação de Moisés ao estender sua mão foi necessária para mostrar que aquela “maré” não fora obra do acaso, mas um ato de Deus, agindo em poder para salvar Seu povo. Mais uma vez podemos entender o mi­lagre como um ato do Deus criador, controlando o mundo natural que criou e sustenta, fazendo com que vento e ondas sirvam Seus propósitos (Mt 8:27). 

Vento oriental. A mesma força “natural” já fora usada por Deus por ocasião da praga dos gafanhotos (10:13) e aparece também na história de Jonas (Jn 4:8). Em termos de Egito e Canaã o vento leste vi­nha do deserto. Vento e fogo ocorrem frequentemente em descrições poéticas nas quais aparecem quase personificados como mensageiros de Deus, que os controla (SI 104:4). 




19. Em seco. Se se tratava de pântanos salobres onde cresciam jun­cos, com terra macia no fundo, ligados ao golfo do qual seriam a ex­tremidade norte, uma combinação de maré baixa e vento forte poderia secá-los temporariamente, dando tempo suficiente para que um grupo levemente armado atravessasse às pressas.

As águas lhes foram qual muro. A metáfora não precisa ser toma­da mais ao pé da letra do que, por exemplo, em Esdras 9:9, onde o es­criba afirma que Deus lhes dera um “muro” (a mesma palavra) em Is­rael. Esta metáfora poética explica por que os egípcios não puderam cercar os israelitas com seus carros de guerra e eliminá-los completa­mente; teriam de atravessar pelo mesmo vau, imediatamente atrás dos Israelitas.

24. Na vigília da manhã. 1 Samuel 11:11 também menciona esta última das três vigílias, das duas da manhã até a aurora, por volta de seis horas. Este período, a hora mais escura antes do nascer do sol, era tradicionalmente a hora de atacar, quando a moral do inimigo atingia seu ponto mais baixo. .

Alvorotou. Melhor dizendo, “confundiu, lançou pânico”. Como isso aconteceu, não nos é dito. Salmo 77:16-20 sugere trovões e relâm­pagos, e este pode ser o significado da expressão “YHWH, na coluna de fogo e de nuvem, olhou o acampamento dos egípcios”.

25. Emperrou-lhes. Esta é a palavra empregada pelas versões em lugar da difícil expressão hebraica “arrancar”. A areia ou lama que permitira a passagem dos israelitas que levavam pouco armamento aca­bou por fazer com que os carros de guerra atolassem, como esclarece a segunda metade do versículo. Esta poderia ser, também, a causa da confusão mencionada no versículo 24. Eixos quebrados, no entanto, se­riam a conseqüência lógica e rápida, à medida que os cavalos assus­tados arremetessem, de modo que o texto massorético pode estar corre­to, já que então, certamente, as rodas cairiam.

27. Seu curso habitual. Paralelos em outras línguas semíticas (onde a palavra significa “uma corrente que nunca seca”) mostram que esta tradução deve ser preferida à da SBB, “força”. A palavra enfatiza a natureza peculiar do acontecimento. O lugar da travessia não era um vau que ficasse normalmente exposto, mas que permanecia submerso.

Derribou. A tradução literal seria “sacudir”, ao passo que “derru­bar” é uma tradução livre (cf SI 136:15 e Ne 5:13). Para comentaristas judeus da Idade Média, este verbo sugeria a “derrubada” dos constru­tores da torre de Babel em Gênesis 11:1-9. A etimologia popular do no­me Sinear (Babilônia) vem deste mesmo verbo. A derrubada de Faraó fica implicitamente ligada não apenas à história de Babel, mas também à história do dilúvio, pelo uso da água no julgamento divino.

30. Mortos na praia do mar. Eis aqui um toque bem gráfico, um relato de testemunha ocular. Os soldados egípcios afogados representa­vam a velha vida de escravidão, encerrada para sempre. De algum mo­do, aqueles cadáveres eram um sinal concreto de que a salvação e a no­va vida de Israel estavam asseguradas. Talvez parte deste conceito este­ja presente no pensamento cristão de que o batismo simboliza tanto morte quanto vida (Rm 6:1-4). Foi sem dúvida este aspecto definitivo que deu ao milagre do Mar dos Juncos a posição de símbolo máximo de salvação no Velho Testamento (Is 51:9-11).






[1] G.I. Davies sugeriu que o número de anos encontrado na LXX está ligado à má tra­dução de hamusím em 13:18 por “na quinta geração”, ao invés de “arregimentados”. Uma alternativa possível seria uma dedução feita a partir da geneaologia encontrada em 6:14-26. 


[2] Muitas versões modernas, seguindo BDB, traduzem hèebir por “apartar” a não ser que haja referência específica a sacrifícios no contexto. Em Israel, porém, “apartar” normalmente envolvia sacrifício.