6 de setembro de 2016

R. ALAN COLE - Israel no Egito (1.1-11.10) (Parte 2)

danilo moraes
4:24-26. Moisés, o “esposo sanguinário”. 


Esta é uma passagem obscura, até mesmo para antigos comentaris­tas judeus, e no entanto sua obscuridade e os problemas que apresenta comprovam que é parte genuína da tradição mosaica (cf Gn 6:1-4). A passagem está ligada à necessidade da circuncisão, “o sinal da aliança” dado por Deus a Abraão e seus descendentes (Gn 17:10), e que o filho de Moisés aparentemente não apresentava, talvez devido ao seu nasci­mento em Midiã (ver porém Jr 9:25,26 quanto à circuncisão naquelas regiões). De qualquer modo, sua aceitação a esta altura dos aconteci­mentos é mais uma têmpera para o elo entre a nova revelação no Sinai e o “Deus dos ancestrais”, já que a circuncisão era o sinal dado aos pa­triarcas. Compare a circuncisão cerimonial da geração nascida no de­serto, antes de se lançarem à “guerra santa” contra Canaã (Js 5:7). A circuncisão é um símbolo do ato de lançar fora tudo que é desagradável a Deus, e de dedicação a Ele para a tarefa à frente. Esta dedicação a Deus, no entanto, é apenas uma resposta obediente à graça e à vocação divinas anteriormente demonstradas (Gn 17:10). A verdadeira circunci­são é uma atitude interna, não um ato externo (Jr 9:26; Rm 2:29). Ti­nha, é claro, como boa parte da legislação mosaica, grande valor higiê­nico, embora este fato provavelmente fosse desconhecido dos que rece­beram a Lei. O fato de que a circuncisão era amplamente praticada pe­las nações circunvizinhas não é motivo, pois o importante não é a natu­reza do ato mas o seu significado. 

24. Numa estalagem. Um caravançará, onde os viajantes podiam acampar durante a noite. Tais “acampamentos noturnos” ou “locais de parada”, sempre junto a poços ou fontes, não são um anacronismo, desde que nos livremos das associações modernas da palavra “estala­gem”. O bom samaritano encontrou uma versão mais sofisticada na es­trada de Jericó (Lc 10:34). Um grupo maior teria montado um acampa­mento próprio, mas o que temos aqui é apenas um viajante solitário, sua esposa e filhos. 

Encontrou-o YHWH e o quis matar. O pronome “o” é ambíguo, e pode se referir tanto a Moisés quanto a Gérson; é natural presumir-se que se trata de Moisés. Se, por outro lado, a passagem se refere a Gér­son, há então um vinculo mais forte com o contexto (a morte do primo­gênito), mostrando como o primogênito de Moisés quase morreu. Al­guns comentaristas presumem que o próprio Moisés não levava a marca da circuncisão, mas isso é desnecessário (Moisés nasceu e viveu seus pri­meiros anos num lar israelita) e improvável à luz do conhecido costume egípcio. Em qualquer das duas hipóteses, a pessoa envolvida foi acome­tida de uma doença perigosa ou sofreu algum outro tipo de golpe como prova do descontentamento divino. 

25. Uma pedra aguda. Trata-se da mesma “faca de pederneira” usada em Josué 5:2, mostrando a natureza arcaica do costume. Essas pedras são comuns no deserto (sílex). Talvez essa faca de pedra, um ob­jeto natural, não contaminado por mão humana, fosse mais apropriada para o serviço de Deus. Pela mesma razão, o altar de YHWH deveria ser construído com pedras brutas, não lavradas (20:25). Na melhor das hipóteses o homem pode apenas desfigurar a criação de Deus com seu próprio trabalho. 

Tocou com ele os pés de Moisés. Esta tradução é melhor que a an­tiga, “lançou-o aos pés de Moisés”. O texto hebraico, contudo, não contém a palavra “Moisés”, dizendo apenas “seus pés”, deixando en­coberta a identidade da pessoa. 

26. Esposo sanguinário. O sentido exato da expressão no contexto original nos está encoberto. Mais tarde a expressão veio a ser usada em relação ao circuncidador; tal uso, entretanto, pode ser apenas um desenvolvimento posterior, baseado nesta passagem. Davies observa corretamente que a ênfase da passagem é a necessidade da circuncisão e não “quando” ou “em quem” ela é praticada. 

4:27-31. Começa a missão. 

27. O deserto. Equivalente ao nosso “sertão”, terra de pastagem. Arão também recebeu sua revelação, o que assegurou o encontro dos dois irmãos a meio caminho entre o Egito e Midiã, no monte sagrado. Isto sugere a alguns comentaristas que Israel, mesmo quando ainda no Egito, conhecia este lugar sagrado. A experiência de Moisés na estala­gem deve ter acontecido entre Midiã e o monte; este fato oferece boa confirmação à posição oriental da terra de Midiã, ficasse ela localizada em qualquer dos lados do golfo. 

30. Arão falou todas as palavras. Arão, conforme fora prometido, é o porta-voz de Moisés e, provavelmente, nesta qualidade, realiza os milagres perante Israel. Presume-se, sem que se afirme, a incredulidade inicial de Israel. Essa incredulidade foi claramente demonstrada mais tarde, em várias ocasiões. 

31. E tendo ouvido. O autor prefere “regozijaram-se”, seguindo a LXX, com a alteração de uma letra no texto consonantal. Isso dá me­lhor sentido à frase, apresentando a reação alegre do povo ao “evange­lho” que lhe fora pregado e confirmado por tamanhos sinais. 

d. O Confronto com Faraó (5:1-11:10). 

5:1-5. A missão junto a Faraó 

1. Assim diz YHWH. Esta é a forma clássica de expressão para o profeta hebreu (cf Am 1:3); a analogia seria vista mais tarde em Israel. A expressão “o Deus de Israel” não era usada com muita freqüência nos primórdios da nação israelita, quando “Israel” ainda significava o homem, não o povo. “Filhos de Israel” é a expressão costumeira da época (5:14 etc). 

Para que me celebre uma festa. Literalmente a frase significa “fa­zer uma peregrinação religiosa”. Parece ser uma referência bem clara ao grande evento religioso do Sinai. É desta mesma raiz hebraica que se deriva o nome “Ageu”, e “Hadji”, um título islâmico que designa “aquele que realizou a peregrinação. Talvez (como na expressão “Deus dos hebreus”, v. 3) os dois irmãos estivessem usando uma terminologia que melhor comunicasse seus propósitos a Faraó. Os egípcios possivel­mente estavam acostumados ao êxodo repentino de árabes do deserto que partiam subtamente para peregrinações a lugares sagrados. Edito­res de anais egípcios afirmam que estes apontam atividades religiosas como uma das causas da ausência de trabalhadores braçais, e Gênesis 50 apresenta um paralelo interessante com o enterro de Jacó. 

2. Quem é YHWH? Esta pergunta pode incluir ignorância quanto ao nome do que Faraó deve ter considerado um novo deus do povo do deserto. Expressa, principalmente, incredulidade diante da audácia do desafio à sua autoridade absoluta. Compare com a pergunta feita por Moisés, surpreso, ao receber a chamada divina, “Quem sou eu?” (3:11). 

3. Para que... não venha ele sobre nós com pestilência ou com espada. Aqui a urgência da cerimônia religiosa a ser realizada no deserto é explicada a Faraó. A desobediência à visão de Deus (presumivelmente a manifestação na sarça ardente) trará castigo sobre toda a nação de Is­rael. “Caminho de três dias” já foi discutido (ver comentário de 3:18, acima); é melhor interpretar a expressão como uma vaga indicação de distância. 

4. Ide às vossas tarefas. A reação de Faraó aos dois agitadores é rápida e violenta. Faraó é um perfeito exemplo de todos os governan­tes, estados e indivíduos autoritários, e o demonstra bem claramente aqui. Há apenas duas maneiras de se lidar com agitação: ou aumentando-se o despotismo irracional ou considerando-se cuidadosa­mente suas causas. Faraó escolheu a primeira e foi assim que ele “endu­receu o seu coração” (4:21) e tornou inevitável a colisão (e portanto o desastre). 

5. O povo da terra. Esta expressão normalmente significa “a gente comum”, em contraste com os nobres. Possui também o sentido derrogatório de “não-israelitas”, em contraste com os que voltaram do exílio (Ed 4:4). Aqui Faraó está usando ambos os sentidos, referindo-se à classe trabalhadora do Egito, os escravos do Estado, em sua maioria semitas, incluindo Israel. 

Já é muito traz de volta o antigo medo (1:10) do povo da terra que se vê envolvido e numericamente ultrapassado por estrangeiros. Muitas das atuais restrições à imigração se derivam deste mesmo receio. Os crentes devem meditar cuidadosamente quanto à sua atitude em relação a tais leis, baseados nas Escrituras, observando com que rapidez o me­do leva ao ódio e à crueldade, tal como aconteceu aqui. 

5:6-19. Tijolos sem palha. A quota de trabalho diário era fixa e Fa­raó não a mudaria, nem ousaria fazê-lo. Por outro lado, recusando-se a dar a palha cortada normalmente usada para reforçar os tijolos secos ao sol, ele pode aumentar consideravelmente o tempo de trabalho ne­cessário para se alcançar o alvo estipulado. Tijolos de barro secos ao sol são material de construção dos mais baratos e populares na África e Ásia ainda hoje: quando reforçados e protegidos.da chuva por um te­lhado saliente, duram bastante. Tijolos de toda espécie já foram encon­trados no Egito, alguns com palha cortada, outros com raízes e resto­lho, outros absolutamente sem palha. Talvez Faraó não tenha sido o primeiro patrão a empregar este método de acabar com problemas tra­balhistas. . 

6. Superintendentes do povo e seus capatazes. Os primeiros eram egípcios, os últimos israelitas. A LXX traduz sõFrím (os capatazes israelitas) por “escribas, contadores”, e assim o tradutor deve ter lido sõffrim, o que é possível. 

7. Para fazer tijolos. O processo interessou aos israelitas de ge­rações posteriores, que normalmente construíam com pedras (tal como até hoje na Asia Ocidental) já que havia pedras por toda parte que, de qualquer maneira, precisavam ser removidas do terreno. Veja a narra­tiva da construção da torre de Babel em Gênesis 11:3, onde interesse se­melhante é demonstrado. 

8. Estão ociosos. Literalmente, “frouxos”, uma reclamação co­mum dos patrões a respeito de seus empregados desde aquele dia até hoje. 

9. Palavras mentirosas. Provavelmente se referindo à promessa divina de que libertaria a Israel. Arão trouxera esta notícia aos israelitas (4:30) e Faraó a teria ouvido, indiretamente pelo menos. 

12. Restolho em lugar de palha. “Restolho” sugere material irre­gular em formato e tamanho, um mau substituto para a palha cortada. O uso do verbo cognato com o substantivo (tanto aqui quanto no versículo 7) ressalta a atitude insolente, “que eles mesmos ‘restolhem’ restolho para si” seria uma tentativa de reproduzir o efeito em portu­guês. 

13. Os superintendentes os apertavam. Estes, é claro, eram egípcios; Um capataz amigo poderia ter diminuído a pressão, mas não os homens de Faraó. O propósito de tudo era simplesmente destruir a esperança de liberdade que havia entre os israelitas. 

14. Os capatazes. Sendo israelitas, estes foram açoitados; não foi o caso, é claro, dos superintendentes egípcios. 

15. Clamaram. Este é o mesmo verbo usado quando de seu clamor a Deus, que Ele já ouviu e está respondendo (2:23). Agora eles clamam intensamente, ao próprio Faraó: o monarca, porém, ao contrário de Deus, não os ouviu nem atendeu. Sem dúvida seu propósito (plenamen­te atingido) era jogar o povo contra Moisés e Arão (5:21). 

16. Teu próprio povo é que tem a culpa. Isto é, os superintendentes egípcios. A frase é obscura e também poderia ser traduzida “tu és o culpado” ou ainda “tu estás pecando contra teus próprios súditos” (assim traduzem a LXX e a versão siríaca), isto é, os israelitas. Qualquer que seja a tradução, o sentido geral do protesto é claro; o tratamento dis­pensado a Israel não é justo. Todavia, já que o propósito de Faraó é que o tratamento seja injusto, tal protesto está condenado desde o princípio ao fracasso. Ver Hyatt para obter um tratamento completo dos possíveis sentidos desta frase. 

5:20-6:1. O desânimo. 

20. Encontraram Moisés e Arão. Este é o mesmo verbo significati­vo que Moisés e Arão usaram para descrever perante Faraó o encontro com YHWH no monte Sinai (5:3). 

Que estavam à espera deles. O verbo hebraico usado aqui sugere mais do que simplesmente “estar em pé à espera de alguém”; a palavra (sãbah) tem a conotação militar de “estar postado”. Estariam os dois líderes cheios de esperança ou estariam determinados a enfrentar as consequências do fracasso? 

21. Olhe YHWH para vós outros e vos julgue. Esta é a costumeira alegação de inocência de quem sofre injustamente (cf Gn 16:5). Moisés deve ter ficado muito sentido com a observação, como se vê no v. 22. 

Nos fizestes odiosos aos olhos de Faraó. Literalmente ‘ ‘nos fizestes cheirar mal”. Os anciãos de Israel podem ser diretos e rudes, mas comunicaram muito bem o que estavam pensando. Claramente eles pressentiam que o pior ainda estava para vir. 

22. Por que me enviaste? O protesto lançado por Moisés é uma das partes mais humanas da Bíblia. Deus não havia ainda cumprido Sua promessa; ao invés de serem libertados, os israelitas se achavam em si­tuação pior que antes. Todas as predições que Moisés fizera quanto a seu próprio fracasso pareciam se confirmar àquela altura dos aconteci­mentos. 

6:1. Agora verás o que hei de fazer. Eis aqui uma promessa divina renovada, uma promessa que vai além da anterior. Faraó não irá ape­nas permitir que os israelitas saiam de sua terra, o que até aqui recusou fazer; na verdade, o monarca os “lançará fora”. O verbo usado parece ser uma reminiscência clara da “expulsão” de Moisés para Midiã e pro­vavelmente contém um trocadilho com o nome de Gérson, filho de Moisés (2:22). 

6:2-13. Uma nova chamada divina. Alguns estudiosos consideram esta passagem como um segundo relato da chamada inicial de Moisés; no entanto, no contexto em que se encontra, ela se encaixa bem como uma nova motivação e uma confirmação da primeira chamada, num momento em que Moisés está plenamente cônscio de seu fracasso. 

2. Eu sou YHWH. O pronunciamento divino começa e termina com esta mesma retumbante afirmação, que garante todo o conteúdo. 

Apareci. Esta expressão demonstra que a experiência dos patriar­cas com Deus foi tão válida quanto a de Moisés. Afirma também, a des­peito da opinião de algumas escolas teológicas, que Abraão, Isaque e Jacó adoravam um e o mesmo Deus. Além disso, identifica o Deus ado­rado pelos patriarcas com o Deus que apareceu a Moisés no Sinai. Isso é fundamental para uma compreensão exata da revelação mosaica. 

3. O Deus Todo-poderoso. Heb. 'êl Xadday. O uso deste nome ou título para Deus nos dias patriarcais pode ser provado independente­mente a partir da ocorrência de nomes próprios arcaicos como Amisadai (‘ammisadday, Nm 1:12) e Amiel (Nm 13:12). O nome não foi mais usado na literatura mais recente, exceto em poesia, como um arcaísmo consciente, de maneira que até mesmo seu significado se perdeu. A or­todoxia judaica mais recente o traduz como “O Todo-suficiente”, mas isto é filologicamente impossível. Parece ser um antigo título divino usado na Mesopotâmia, ligado à raiz “monte”; compare esta possibili­dade com a maneira em que a palavra “rocha” é freqüentemente usada como um título divino nos primórdios da história israelita (Dt 32:4), talvez como símbolo de estabilidade e como um lugar seguro. Em vista da origem mesopotâmica dos patriarcas, este “fóssil” lingüístico não é motivo de surpresa. 

Mas pelo meu nome, YHWH, não lhes fui conhecido. Esta frase parece ser uma afirmação límpida de que o nome YHWH não foi usado pelos patriarcas como um título divino. Este ponto de vista é confirma­do pelo fato de que nem YAH nem YO (ambas as formas sendo abre­viaturas de YHWH) aparecem em nomes pessoais em Israel antes do tempo de Moisés (com uma única exceção possível, o nome da mãe de Moisés, Joquebede, 6:20). Na geração que se seguiu a Moisés, tais no­mes custaram a aparecer mas o conservadorismo religioso poderia ser uma explicação plausível para o uso contínuo do nome “El”. Um bom exemplo é Oséias, filho de Num, cujo nome foi deliberadamente mu­dado para Josué, por Moisés, de forma a conter o nome YHWH (Nm 13:16). Daí por diante tais formas se tornaram extremamente comuns no Velho Testamento, dando prova convincente da data em que o novo título foi introduzido. Todavia, se tal acontece, como explicar o uso de YHWH como nome divino a partir de Gênesis 2:5, tanto sozinho como em conexão com Elohim, o nome mais geral para Deus? A primeira pergunta não é uma dificuldade séria: seria perfeitamente natural usar-se o novo nome para contar a história antiga. Na verdade, mesmo que isso tivesse sido feito conscientemente, poderia ser apenas uma identificação do Deus adorado na antiguidade com o Deus da revelação mosai­ca (ver Hyatt, p. 80, onde há uma explicação possível para a combinação dos dois nomes). A divisão tradicional do Pentateuco em supostas “fontes” J e E se deriva da suposição que um cronista da tradição he­braica (J) deu preferência ao nome particular, mais recente, mesmo quando o uso de tal nome representasse um anacronismo, ao passo que a outra fonte (E) usou o nome geral, mais antigo, do princípio ao fim. Mesmo o crítico mais extremado admitiria que tanto J quanto E conhe­ciam o nome mais recente já que, segundo sua própria teoria, ambos são mais recentes que Moisés. Gênesis 4:26 apresenta um problema mais complexo; a passagem parece afirmar que ao tempo de Sete ou Enos começou-se “a invocar o nome YHWH”. Isto significa que ou o nome já era conhecido em data tão remota, embora não em Israel (os israelitas eram uma fração íntima dos descendentes de Enos), ou a frase “invocar o nome de YHWH” foi usada em seu sentido geral e mais re­cente (Salmo 116:17), significando ’’orar”. Neste caso, a referência po­de ser apenas às origens da adoração organizada, que se sabe extrema­mente antiga, aqui atribuída ao tempo de Sete e Enos. (Ver Hyatt, p. 79, quanto ao possível uso de formas semelhantes ao nome divino entre os primitivos amorreus, presumivelmente ligados a Israel). 

4. Também estabeleci com eles a minha aliança. Esta frase se refere a Gênesis 17:1-8, onde a terra de Canaã é prometida a Abraão. O verbo “estabelecer” provavelmente se refere à aliança feita com Abraão (Gn 17:7). Poderia, entretanto, se referir ao que Deus estava realizando em favor de Israel através de Moisés. A ocupação de Canaã por Israel é sempre vista na Bíblia como o cumprimento da promessa feita a Abraão (Gn 15:18). Por outro lado, a expulsão dos cananeus é vista co­mo o castigo divino por seus pecados: compare Gênesis 15:16. 

5. E me lembrei da minha aliança. Daqui por diante, todos os atos redentores de Deus serão apresentados como “lembranças” deste compromisso obrigatório que Deus estabeleceu livremente. O uso do verbo “lembrar” não significa que Deus tivesse esquecido Sua aliança. A língua hebraica usa antropomorfismos para descrever Deus com extre­ma freqüência. Palavras que consideramos estados emocionais são usa­das para descrever ações, não emoções (“amar” e “odiar” são um bom par de exemplos). Assim, “lembrar-se da aliança” é agir de maneira tal que os homens possam ver o cumprimento das promessas de certa ali­ança. 

6. E vos resgatarei com braço estendido. Literalmente “farei o pa­pel do parente resgatador” ou gõ’êl. A melhor ilustração deste costume é a atividade de Boaz em relação a Rute (Rt 4). A legislação aparece em Lv 25:25. Driver sugere “reivindicar como direito” ou “vindicar” co­mo traduções possíveis com base nesse costume. Ao contrário do verbo pãdâh, gã’al sugere um relacionamento pessoal íntimo entre o redentor e o redimido e assim o termo é apropriado para descrever o Deus da aliança. 

7. Tomar-vos-ei por meu povo. Esta é uma das mais límpidas de­clarações causadas pela aliança. O pensamento é ampliado em 19:5,6, por ocasião da ratificação da aliança entre Deus e Israel. 

Que vos tiro de debaixo das cargas do Egito. Este é o começo do grande credo da fé israelita, e aparece de forma mais distinta na introdução aos dez mandamentos (20:2). À medida que crescia a expe­riência de Israel com Deus, novos “artigos” eram acrescentados ao cre­do, mas este “artigo” fundamental permaneceu o mesmo em toda a história da nação. 

9. Mas não atenderam a Moisés. A narrativa é bem fiel aos fatos da vida. A confiança de Moisés fora aparentemente restaurada pela sua segunda chamada, mas Israel (“gato escaldado tem medo de água fria”) não lhe dá ouvidos. A expressão “ânsia de espírito” seria melhor traduzida como “impaciência”, “raiva” causada por aquilo que os israelitas consideraram uma traição à confiança depositada em Moisés e Arão. 

12. Como, pois, me ouvirá Faraó? Não é de admirar que Moisés, já cônscio de uma incapacidade tal que leva seu próprio povo a não querer ouvi-lo, apresente objeções ao simples pensamento de enfrentar Faraó mais uma vez. A expressão “lábios incircuncisos” pode ser uma referência à misteriosa experiência pela qual Moisés passou na estalagem. Seu corpo poderia agora estar circuncidado e dedicado a Deus, mas o que dizer de seus lábios, se até seu próprio povo o rejeitava? 

6:14-27. Um parêntesis genealógico. A narrativa principal conti­nuará no v. 28. A esta altura o narrador interrompe a história para identificar e particularizar Moisés e Arão mais precisamente. O método hebraico de identificação era apresentar uma genealogia, neste caso a genealogia dos patriarcas, começando com Rúben, a primeira tribo. A genealogia volta sempre ao patriarca de cada tribo até que se chega a Levi, a tribo em questão. Depois dela nenhuma outra tribo é menciona­da. A seguir, na tribo de Levi, a família de Anrão é selecionada e seus filhos Arão e Moisés são mencionados (na ordem correta, de acordo com a tradição bíblica). O restante da genealogia é de interesse sacerdo­tal, apresentando a família de Arão, especialmente o terceiro filho, Eleazar (Nadabe e Abiú morreram cedo, Lv 10:1-3), e o nascimento de Finéias. Esta é a linhagem sacerdotal ortodoxa em Israel, como se pode ver em Números 25:10-13. Esta passagem é apenas excerto de um docu­mento mais completo; ver Números 26. 

16. Merari pode ser um nome egípcio. Tais nomes são muito co­muns na tribo de Levi, seja qual for a explicação para o fenômeno: Moisés e Putiel (v. 25) são outros exemplos. O mais claro de todos é Finéias, que significa “etíope, negro”. É bem possível que houvesse muitos casamentos inter-raciais nos dias mais remotos da história israe­lita (Gn 41:45). 

20. Anrão se casou com sua tia paterna. Tal casamento seria proi­bido pela lei mosaica (Lv 18:12,13), logo tal detalhe jamais poderia ter sido inventado mais tarde. Quanto a outras “transgressões” antigas, compare o casamento de Abraão com sua meia-irmã. 

Joquebede. Muito já se debateu quanto à possibilidade de a pri­meira sílaba deste qome conter o nome YHWH ;em sua forma abrevia­da Yo (como em Josué, por exemplo). Caso isso seja verdade, segue-se o argumento de que o nome YHWH poderia já ser conhecido e usado pela família de Moisés como um título familiar para Deus, antes de ga­nhar uso mais amplo em todo o Israel. Mesmo se fosse conhecido ape­nas pelos descendentes de Coate, seria válido pensar que tivesse havido mais de uma única ocorrência. Se a vocalização tradicional é correta, o nome significa “YHWH é glória” (compare Icabô, “não há glória”). Provavelmente é melhor vocalizar a palavra como yakbid, “que Ele (o Deus não identificado) glorifique”, que segue um padrão comum entre os nomes israelitas: assim vocalizado, não haveria referência ao nome YHWH. Nomes formados a partir da terceira pessoa do singular são freqüentes: cf Jacó e Ismael. 

Arão e Moisés. Em todas as genealogias, os dois aparecem como a quarta geração a partir dos patriarcas. Isso pode ser irrelevante. Em árvores genealógicas iseraelitas é comum a omissão de alguns ramos, quer seja por simetria (como aparentemente é o caso na genealogia de Cristo) ou por outra razão qualquer. Se “quatro gerações” for tomado literalmente, então a permanência no Egito não deve ter excedido em muito um século, e os “quatro séculos” de Gênesis 15:13 devem ser vis­tos como uma aproximação geral, “quatro gerações”. 

6:28-7:7 A nova chamada divina. 

29. Disse YHWH a Moisés. Depois do parêntesis genealógico a ação continua. Mais uma vez as palavras de Deus são introduzidas pela afirmação “Eu sou YHWH”, que é usada não apenas como autenti­cação ou garantia de uma ordem ou promessa, mas também como ex­plicação de sua razão e natureza (cf Lv 19:18, “Amarás ao teu próximo como a ti mesmo; Eu sou YHWH”). 

7:4. As minhas hostes, o meu povo. Literalmente traduzido, “meus exércitos” e, se tal, compare com a afirmação de que os filhos de Israel saíram do Egito “equipados para batalha” (se esta é a tra­dução correta de 13:18, SBB — “arregimentados”). A figura de lingua­gem não é incorreta, desde que não a interpretemos em termos de um exército moderno disciplinado. Todo homem era um soldado em anti­gas “hordas” e sem dúvida todo homem em Israel possuía sua arma, mesmo que fosse apenas uma faca ou uma funda. Davi, por exemplo, podia descrever YHWH para Golias como: “o Deus dos exércitos de Is­rael” e “YHWH dos Exércitos” (1 Sm 17:45), ao passo que 15:3 afirma abertamente que “YHWH é homem de guerra”. Sem sombra de dúvi­da o pensamento flutuava imediatamente dos “exércitos de Israel” pa­ra os exércitos celestes, igualmente sob as ordens de Deus. 

Com grandes manifestações de julgamento. Cf 6:6, pois Israel está certo e Faraó errado, como ele mesmo admitirá em 9:27. Esta é outra maneira de ver os sinais do Versículo 3, pois cada praga é também uma atividade judicial de Deus, ao mesmo tempo justo Juiz e Salvador. 

7. Era Moisés de oitenta anos. Esta idade é coerente com os 120 anos atribuídos a Moisés quando de sua morte (Dt 34:7), contando-se os quarenta anos no deserto. 120 anos de vida é uma idade incomum mas perfeitamente possível no sentido literal. Por outro lado, este foi o tempo de vida ideal concedido ao homem por Deus na antigüidade (Gn 6:3), de modo que o número pode estar sendo usado aqui num sentido simbólico. Três gerações (ver “os filhos dos filhos”, SI 128:6) também era um símbolo de totalidade. Três gerações de quarenta anos perfazem um total de 120 anos. 

7:8-13. Os sinais perante Faraó. Dos três primeiros sinais dados a Moisés, embora todos tivessem sido realizados perante Israel, apenas um (a transformação da vara em cobra) aparece na narrativa como um fato consumado perante Faraó. O segundo (água transformada em san­gue) aparece como uma das pragas (7:20). Possivelmente o terceiro si­nal tem alguma relação com 9:10, a praga das úlceras. Conforme predi­to, o sinal não produz o menor efeito em Faraó, ainda mais pelo fato de que seus “cientistas” são capazes de reproduzi-lo. Mais tarde, eles também conseguiram produzir “sangue” e “rãs”, mas aparentemente nenhuma das outras pragas. 

9. Serpente. Não é a mesma palavra de 4:3, Mas tannin, que pode ser, como foi sugerido anteriormente, um pequeno crocodilo; possivelmente um lagarto terrestre ou aquático de bom tamanho. Os israelitas nem sempre faziam distinções precisas no campo da história natural. 

11. Os encantadores. fyar(ummím, provavelmente uma palavra Egípcia. Com certeza é usada apenas com referência a este grupo de egípcios (exceto em Dn 1:20, etc., que parece se referir ao Pentateuco). A palavra é explicada no contexto como se referindo a “sábios”. Os nomes Janes e Jambres, tradicionalmente atribuídos a esses encantado­res (2 Tm 3:8), ocorrem independentemente bem cedo, no Targum de Jerusalém (século II). A arte da magia era bem difundida no Egito e um bom número de papiros trata do assunto. 

12. A vara de Arão devorou as varas deles. “Devorou” é uma boa tradução; algumas versões inglesas usam “engulir”. Qualquer pessoa que cuide de cobras, ainda hoje, teme as tendências canibalísticas dos animais; trata-se aqui de cobras reais mesmo. É muito difícil que se in­terprete “devorar” em qualquer outro sentido que não o literal, embo­ra alguns queiram ver aqui um sentido figurativo. Ainda nos falta a ex­plicação quanto ao que realmente aconteceu e respostas a perguntas ainda mais intrigantes, por exemplo, como é que os mágicos egípcios conseguiram copiar Moisés. Os encantadores, sem dúvida, eram espe­cialistas em prestidigitação, malabarismo e talvez até mesmo hipnotis­mo; é-nos impossível admitir, no entanto, que Moisés tenha lançado mão de tais recursos, apesar de Atos 7:22 afirmar que ele fora ins­truído em toda a sabedoria do Egito. 

7:14-25. A primeira catástrofe. As pragas são descritas por pala­vras hebraicas cognatas, todas elas com o sentido de “golpe” ou “pan­cada”, bem como pelas três palavras já usadas para “sinais”. Este fato destaca sua dupla natureza, sendo ao mesmo tempo provas da atividade divina e mostras da natureza dessa atividade, em castigo e salvação. Al­guns encontram aqui um problema de ordem moral, não na ocorrência real de tais catástrofes * nem na saída dos israelitas do país devastado, mas na interpretação bíblica de tais catástrofes como a ira de Deus. To­davia, se Deus controla todas as coisas, não será obra Sua tudo que acontece? A não ser que as pragas fossem a manifestação da ira de Deus contra o Egito, como poderiam ser elas a salvação divina em fa­vor de Israel? Ou as duas interpretações estão corretas ou ambas estão erradas. Um exemplo típico da diferença entre fé e incredulidade é que a mesma série de acontecimentos pode ser interpretada de qualquer das duas maneiras. Assim sendo, o crente interpreta cada evento em termos do bondoso propósito de Deus para sua vida (Rm 8:28). Já que nenhum acontecimento pode abalar sua fé, ela acaba por ser a vitória que vence o mundo (1 Jo 5:4). (Uma discussão interessante e completa das pragas se encontra em Hyatt, Apêndice, p. 336.) 

16. E se tornarão em sangue. Qualquer fluido vermelho e espesso cabe nesta descrição, pois a ênfase não cai numa análise clínica mas na semelhança externa. Devemos rejeitar, entretanto, a sugestão de que a narrativa descreve a luz vermelha do pôr de sol refletida nas águas. Em­bora isso pudesse alterar a aparência das águas da cheia do Nilo, jamais afetaria o gosto e o cheiro. A melhor explicação seria o barro verme­lho carregado rio abaixo desde a Etiópia (que causa o fenômeno anual ainda denominado pelos árabes “Nilo vermelho”) ou a multiplicação de plâncton vermelho (como ocorre esporadicamente no litoral de Queensland, na Austrália). O ato de estender a vara, que ocorreu simul­taneamente com a transformação da água, seria assim um exemplo da perfeita coordenação divina dos acontecimentos, tal como na travessia do Mar Vermelho (14:21) e do Jordão (Js 3:15). 

18. Águas... rios... canais... lagoas... reservatórios. A longa lista de nomes serve para enfatizar a extensão da praga, para que não se de­duza do versículo 17 que apenas a corrente principal do Nilo foi afeta­da. Já que o Nilo é, em última análise, a fonte de todas as lagoas e ca­nais de irrigação no Egito, a extensão não surpreende. No sudeste da Ásia, hoje em dia, nas enchentes da estação chuvosa, a água contami­nada dos rios se espalha pelas planícies e contamina poços de água pura a quilômetros de distância das margens. Sendo o Nilo adorado como um deus, e sendo suas águas o próprio sangue do Egito e seus peixes o alimento básico da população, a primeira praga foi devastadora. 

Nos vasos de madeira como nos de pedra. Embora o hebraico diga realmente “em árvores e pedras”, Davies provavelmente está errado em afirmar que estas palavras se referem à seiva das árvores e a fontes subterrâneas: a narrativa não exige que isso tenha acontecido. A tra­dução da SBB dá o melhor sentido da frase; Hyatt, entretanto, apresen­ta referências a uma calamidade semelhante ocorrida na Mesopotâmia, onde até mesmo pomares e jardins ficaram cheios de sangue. 

22. Os magos do Egito fizeram o mesmo. Na pior das hipóteses, conseguiram pelo menos dar a impressão de haverem atingido os mes­mos resultados. É de se pensar que teria sido muito mais útil reverter o processo, mas isso evidentemente estava além de seus poderes (cf a pra­ga das rãs). A diferença não estava tanto no fenômeno em si, como no método pelo qual ele foi produzido. Os magos alcançaram seus resulta­dos com seus “encantos”: no caso de Israel a praga foi obtida pela con­fiança em Deus, e aí está a diferença. 

24. Cavaram junto ao rio. Eis aqui um toque vívido de testemunho visual. Um poço cavado em terreno arenoso próximo às margens de um rio serve como filtro para a água. A título de observação, este fato mos­tra que as águas não se tornaram literalmente em sangue (que não pode­ria ser filtrado), e sim em algum fluido avermelhado de natureza repug­nante (o versículo 18 afirma apenas que a água produzia nojo, nada di­zendo sobre ser ela venenosa). 

25. Sete dias. Uma das raras notas cronológicas em relação às pra­gas, e muito valiosa se tomada literal e não simbolicamente. Uma leitu­ra rápida do texto indicaria que as pragas se seguiram umas às outras quase que imediatamente, mas isso não é obrigatório. A data final é de­terminada pelo próprio êxodo, que aconteceu na páscoa (a lua cheia da primavera). Se a cheia do Nilo foi o começo da série de pragas elas co­meçaram entre junho e outubro (Sormalmente), depois que a neve der­rete nas montanhas da Etiópia e que as pesadas chuvas da primavera caem nos planaltos. A chuva de pedras do capítulo 9, a julgar pelas plantas afetadas, parece ter acontecido em janeiro. Portanto, o período total dé duração das pragas dificilmente poderia ser de menos de seis meses. Compare 1:8, “novo rei... que não conhecera a José”, outro exemplo de compressão de longos períodos históricos na tensa narrati­va bíblica. 

8:1-5. A segunda praga. 

2. A palavra rãs pode ser onomatopaica, significando “coaxante”, e é encontrada em várias outras línguas semitas. O Velho Testamento não menciona rãs senão aqui e em dois salmos que se referem a este e­pisódio (Salmos 78:45 e 105:30). É de se duvidar que elas fizessem parte da vida em Canaâ na mesma proporção em que faziam no Egito. Se a transformação das águas em sangue teve qualquer relação com a cheia do Nilo, as rãs seriam uma conseqüência perfeitamente compreensível. O coaxar das rãs-gigantes durante a estação chuvosa é ensurdecedor, assemelhando-se ao som de rebanhos de gado à distância. No Egito as rãs eram associadas tanto ao deus Hapi quanto à deusa Heqt que presi­dia os partos; eram, portanto, um símbolo de fertilidade. Ver Hyatt. 

7. Os magos novamente fizeram o mesmo. Fica-se a pensar se não há aqui um toque consciente de humor, já que a atividade dos magos apenas aumenta os problemas, tal como no caso da água transformada em sangue. A praga, afinal de contas, se caracterizou pelo extraor­dinário número de rãs naquele ano: aumentar o seu número evidente­mente não ajudaria a Faraó. 

8. Rogai. Uma palavra incomum, com o significado de interceder. Esta é a primeira vez em que Faraó é movido, a primeira ocasião em que ele promete deixar que Israel parta, promessa que afinal não cum­pre. Mais tarde, esta seqüência se torna comum : já que não cumpriu sua palavra da primeira vez, fazer o mesmo depois ficou cada vez mais fácil. 

9. Digna-te dizer-me. Literalmente “glorifica-te”. Esta expressão pode ser entendida como um gesto de deferência para com o monarca. Serve também como sinal claro de que a praga fora enviada e retirada por Deus. O pensamento da perfeita coordenação na atividade divina é enfatizado uma vez mais: Ele pode fazer com que a praga acabe quando quiser. 

14. A terra cheirou mal. O homem que primeiro escreveu e contou esta história conhecia o cheiro de rãs mortas sob o sol tropical. Este versículo é um exemplo de “realismo” moderno, criado milênios atrás por alguém que foi testemunha visual dos fatos e que conhecia bem o Egito. 

8:16-19. A terceira praga. Nove pragas são mencionadas antes da grande catástrofe (a morte dos primogênitos que precipita a libertação de Israel no cap. 12). Pode haver uma correspondência deliberada com os “nove arcos” dos inimigos tradicionais do Egito (ver comentário em 3:8). Por outro lado “dez” pode ser o número perfeito, como no caso dos dez mandamentos (cap. 20), simbolizando a totalidade do julga­mento de Deus sobre o Egito. Se for este o caso, isso se deve ao fato de dez ser a soma de sete e três, números usados nas Escrituras por seu sig­nificado especial. Os que dividem o Pentateuco em fontes afirmam que nenhuma delas apresenta o relato completo de todas as pragas (ver Dri­ver quanto a detalhes). Como corolário, alguns afirmam que 8:16-19 é repetido em 8:20-32, referindo-se a uma só praga. Todavia, especial­mente porque as palavras hebraicas usadas para descrever os pequenos insetos voadores são diferentes, tal teoria é desnecessária; os dois even­tos podem ser considerados como pragas distintas. 

16. Piolhos. A palavra ocorre apenas aqui e em passagens ligadas a este contexto e seu significado exato é mera conjectura. Outras suges­tões são “pulgas”, “bichos-de-pé” mas talvez “mosquitos” seja a me­lhor tradução. 

17. Todo o pó da terra. Esta fraseologia parece ser simplesmente uma referência ao elevado número de mosquitos, não à sua origem. Se a praga aconteceu ao fim do outono no Egito, os campos ainda estavam inundados. Os mosquitos se reproduziriam em número inacreditável; quando molestados eles se levantariam numa nuvem escura e o ar se en­cheria com seu zumbido estridente. Até aqui, portanto, há uma seqüência perfeita nas pragas. Dizer “todo o pó” é hipérbole comum à narra­tiva folclórica, como 9:6, onde se diz que “todo o rebanho dos egipcios morreu” (e no entanto em 9:21 ainda há gado com vida). Criticar a ex­pressão seria pedantismo excessivo, pois ela comunica a impressão de­sejada. 

18. Porém não o puderam. Aqui, pela primeira vez, os magos fra­cassam. Finalmente percebem que Moisés e Arão não estão produzindo truques mágicos, por prestidigitação, como é de se presumir que eles mesmos estivessem fazendo até então. Eles admitem que a praga é uma obra de Deus. Daqui por diante eles deixam de competir, mas sua der­rota não se torna completa senão em 9:11, quando eles mesmos são ata­cados pela praga das úlceras. 

19. O dedo de Deus. Esta é a tradução literal. A expressão é uma metáfora natural, que reaparece em 31:18 (cf também Lc 11:20), para a atividade divina. Em outras ocasiões a metáfora reaparece em essência nas expressões “a mão de Deus” (1 Sm 5:11) e “O braço de Deus” (Jó 40:9). Em todas as ocorrências seria errado interpretar a expressão lite­ralmente, em todas as ocasiões, também, a expressão se refere cla­ramente à interpretação de um acontecimento do ponto de vista da fé, ao passo que o mesmo acontecimento é obscuro aos olhos do descrente. O fato de Deus realizar tal feito através de causas naturais ou não, é ir­relevante para a interpretação. Hyatt cita Couroyer, que afirma que a expressão “o dedo de Deus” é um “egipcismo” que descreve a vara de Arão; isto, todavia, não parece muito provável. 

8:20-32. A quarta praga. 

20. Levanta-te pela manhã cedo. Um verbo hebraico comum para expressar este significado. Parece ser, em sua origem, uma palavra usa­da pelos nômades, com o sentido de “carrega o teu animal”, ou talvez simplesmente “põe tua mochila às costas”. É uma ilustração da manei­ra pela qual a vida primitiva de Israel deixou sua impressão lingüística nas gerações posteriores (cf “tendas” em 1 Rs 12:16); além disso, con­firma a historicidade dos relatos quanto à natureza da vida nos primórdios da nação israelita. Enfatizár o aspecto da hora (cedo), toda­via, parece ser incorreto, “levanta-te” é suficiente para uma boa tra­dução. 

Apresenta-te. Esta é a mesma palavra hebraica encontrada em 5:20. Naquela outra ocasião Moisés e Arão se haviam postado à espera de uma delegação de israelitas frustrados, ao voltarem da corte de Fa­raó. 

21. Enxames de moscas. “Mistura” seria a tradução literal. O ter­mo hebraico é um coletivo e não há um substantivo que o acompanhe para definir de que insetos consistia o tal enxame ou “mistura”. Talvez não se tratasse de uma espécie definida mas simplesmente insetos de to­da espécie de insetos alados, atraídos pelas rãs em decomposição. Tal como vários outros termos, este é usado apenas em Êxodo e nos Salmos a ele referentes. Êxodo 12:38, contudo, contém uma palavra intima­mente relacionada que descreve “o misto de gente” que acompanhou Israel no êxodo. Moscas são uma maldição em qualquer país tropical, es­pecialmente depois de uma enchente, quando dejetos e carcaças de ani­mais afogados se amontoam por toda uma região. Sem dúvida as águas do Nilo a esta altura já deviam estar começando a baixar. A LXX tra­duz a palavra “enxame” por kynomuia, literalmente “mosca que ataca cães”. Esta, a julgar pela descrição, corresponde ao moscardo, cuja pi­cada é dolorosa. Se o autor tinha alguma espécie em vista, esta é uma sugestão razoável e, desde que a LXX foi originada no Egito, a suges­tão se baseia em conhecimento local bem como na tradição judaica. Isaias 7:18 usa uma mosca (presumivelmente do mesmo tipo) como símbolo do exército egípcio. 

22. Separarei a terra de Gósen. Esta é a primeira menção do “tra­tamento especial” dispensado a Israel em relação às pragas e também uma justificativa deliberada para tal tratamento. O propósito da sepa­ração é demonstrar que as pragas não são apenas mero acidente e sim o julgamento divino contra o Egito. A tradução da SBB, “distinção” (v. 23) é válida embora a palavra hebraica empregada signifique literal­mente “resgate”; para isso é necessário que se altere apenas uma con­soante do texto hebraico para que haja perfeita correspondência com o verbo usado no 22. Seja qual for o caso, entretanto, o sentido é o mes­mo. Deve-se notar, porém, que Deus nem sempre livra seu povo do so­frimento (Hb 11:35), mas através do sofrimento. 

Gósen. Esta é a primeira menção da área em Êxodo. Sabemos, de Gênesis, que é a região onde viviam os israelitas (Gn 45:10). Era provavelmente Kesem, o vigésimo “nome” ou “departamento” do Baixo Egito. Normalmente é colocada no Wadi Tumilat, uma faixa de terra fértil ao longo de um canal de água doce que corre do Nilo ao centro do antigo Canal de Suez. Alguns incluem também parte do delta a noroes­te, boa terra de pastagem. Se, como é provável, a capital ficava então em Tanis, Gósen estava próxima à capital:; também Piton e Ramessés, as cidades-celeiros construídas pelos escravos israelitas, ficariam próximas, seja qual for o modo empregado em sua localização. Por si mesma, essa área dificilmente seria capaz de sustentar mais que algu­mas dezenas de milhares de pessoas. Todavia, argumentos quanto à po­pulação de Israel, com base no tamanho da terra de Gósen, apresentam sérios problemas. Não nos é possível determinar os limites exatos da re­gião, nem a densidade de sua população e nem mesmo sabemos quan­tos israelitas viviam espalhados pelo resto do Egito, por razões de tra­balho. Tal como acontece com a tribo nigeriana dos ibos, uma pequena área do Egito era sua terra, mesmo estando espalhados por todo o país. Se, no entanto, Israel ainda vivia principalmente numa única região, é fácil perceber como Deus os teria preservado das moscas e das outras pragas. É certo que, se já observavam algumas das leis higiênicas que a Lei lhes impôs mais tarde, não tiveram problemas com as moscas. 

25. Nesta terra. Esta é a primeira oferta de Faraó. Moisés a recusa partindo do princípio que oferecer sacrifícios no Egito seria o mesmo que matar um porco numa mesquita muçulmana ou sacrificar uma vaca num templo hindu. Haveria imediatamente um conflito racial. Por cau­sa desta passagem, cristãos de consciência muito sensível frequente­mente acusam Moisés de ter dito uma meia-mentira, pelo menos, afir­mando que o argumento de Moisés era mero pretexto. No entanto, a desculpa era perfeitamente válida. A pequena colônia judaica de Yeb/Elefantina, no Alto Nilo, sofreu ataques sistemáticos por parte dos egípcios no século V A.C. por esta mesma razão; sacrifícios ani­mais. 

26. Abomináveis aos egípcios. Na medida em que os egípcios considerariam sacrílego o sacrifício de um animal sagrado. Hyatt demonstra que sacrifícios animais não eram desconhecidos no Egito. Touros com certas marcas eram consagrados a Apis, vacas a Isis, carneiros a Amom e assim por diante, englobando quase todo tipo de animal próprio para sacrifício. Os persas ganharam deslealmente uma batalha contra os egípcios nos dias de Cambises recorrendo ao expediente de colocar uma “barreira” de animais sagrados à frente das tropas, de modo que os arqueiros egípcios se recusaram a atirar, tal como em nos­sos dias, desumanamente, soldados já usaram mulheres, crianças e pri­sioneiros de guerra como proteção. 

27. Caminho de três dias. Já nosso conhecido de 3:18. Faraó apa­rentemente concorda em deixá-los ir sacrificar no deserto, mas expressa dúvidas quanto à elástica expressão “caminho de três dias”. Já que, to­davia, ele não cumpre a promessa de libertar a Israel, a extensão do acordo é absolutamente irrelevante. 

9:1-7. A quinta praga. 

3. Gado. Ironicamente, depois da discussão sobre o pavor egípcio de sacrifícios animais. A praga seguinte trata exclusivamente de “ani­mais” (melhor do que “gado”). Tal como a transformação das águas do Nilo em sangue, esta praga é um golpe direto contra os deuses do Egito. A lista de animais é puramente explanatória, quase como uma relação de animais domésticos. 

Camelos não foram domesticados e utilizados em larga escala até a época de Gideão, embora já fossem usados esporadicamente muito an­tes. A praga em questão pode ter sido antraz. Com montões de rãs mor­tas apodrecendo nos campos e moscas espalhando germes, a ocorrên­cia de tal doença seria bem provável e mortal em seus efeitos. 

4. Distinção. Tal como antes, Israel é poupado da praga que cai so­bre o Egito. Sendo nação pastoril, se seu rebanho tivesse morrido, Is­rael teria ficado completamente arruinado. A agropecuária do Egito, todavia, era bem diversificada; não foi senão após a destruição das co­lheitas (9:31; 10:7) que á situação se tornou realmente séria. Se o rebanho de Israel se achava concentrado em uma só área, o antraz deve ter parado antes de atingi-la, de modo que os animais não fossem afetados. 

5. Amanhã. Marcou-se uma data, tal como antes, para que a praga não parecesse obra do acaso. Caso contrário o hebraico poderia ser tra­duzido vagamente, “no futuro’’, o que seria tão válido quanto “ama­nhã”. Faraó, entretanto, permaneceu obstinado, mesmo depois de ter verificado que o rebanho de Israel havia de fato escapado (v. 7). Igual­mente escapara parte do rebanho egípcio, que haveria de morrer na chuva de pedras (9:20). Como já foi mencionado (8:17), a palavra “to­do” no v. 6 não deve ser interpretada literalmente, a não ser que se refi­ra aos animais que estavam “no campo”, excluídos os que se encontra­vam em estábulos, como ainda é costume durante certas partes do ano. Esta praga foi certamente um desastre de proporções inigualáveis. 

9:8-12. A sexta praga. 

8. Cinza de forno. Estas seriam pretas e finas. Talvez “fuligem” fosse a melhor tradução em português, pois a descrição é de um pó mui­to fino sendo carregado pelo vento. A fuligem levada pelo vento pode ser um símbolo do rápido avanço da epidemia, ou então a pele do doen­te poderia ter ficado coberta de manchas negras, quando ocorresse a erupção. Desta feita os magos ficaram completamente embaraçados; há um humor robusto na descrição de sua doença (ver v. 11). 

9. Tumores que se arrebentavam em úlceras. A primeira palavra é melhor traduzida por “áreas inflamadas”, um termo comum nas seções médicas da Lei Mosaica (Lv 13:18). Tais inflamações acabam por estourar em úlceras ou feridas abertas. Comentaristas antigos se re­ferem à sarna-do-Nilo, ainda comum na época das cheias, uma irri­tação muito persistente da pele. Outra identificação possível é com áreas de brotoejas inflamadas, uma erupção cutânea comum a todos os países tropicais. 

12. YHWH endureceu o coração de Faraó. Davies ressalta que, embora o autor já tenha afirmado que Deus endurecerá o coração de Faraó (4:21), esta é a primeira ocasião em que esta fórmula é usada de­pois de uma praga. Anteriormente, o fato foi sempre visto pelo outro ângulo: Faraó endurecera seu próprio coração. O princípio moral a ser derivado é que Deus endurece quem endurece seu próprio coração. 

9:13-35. A sétima praga. 

Esta praga, talvez por ser a sétima, é pre­cedida por uma introdução teológica que começa com a idéia já conhe­cida de que Faraó deve reconhecer o poder de Deus. 

Deixa ir o meu povo, para que me sirva. Esta frase apresenta ao mesmo tempo a base da redenção (o relacionamento entre YHWH e Is­rael) e o seu objetivo final (“serviço”; embora a expressão possa se re­ferir mais imediatamente à peregrinação religiosa ao Sinai, com os sa­crifícios apropriados, sem sombra de dúvida significa muito mais). 

14. O objetivo secundário é apresentado mais uma vez, que Faraó reconheça a singularidade de YHWH como Deus. Aqui, todavia, um novo aspecto teológico é apresentado. Faraó fora tratado com mise­ricórdia até aqui; sua vida fora prolongada para que o nome e o poder de YHWH fossem exaltados (v. 16; cf Rm 9:17). Esta afirmação traz como corolário o pensamento de que todas as pragas foram causadas pela misericórdia divina, não sendo exclusivamente um julgamento, pois cada uma delas representava uma oportunidade para que Faraó se arrependesse. Ao invés disso, o monarca endureceu o seu coração, tor­nando certa e inexcusável sua condenação final. 

16. Te hei mantido. “Te mantive com vida” é o sentido do verbo hebraico, ao invés de “te levantei” no sentido de “te criei” como algu­mas versões. O tema do contexto é a paciência e longanimidade de Deus. Paulo enfatiza este aspecto em Romanos 9:16-18; se assim não fosse, Deus já os teria dizimado por completo através das pragas (v. 15). É interessante que Paulo parece citar este versículo, em Romanos, não do texto massorético, mas da LXX; ver Hyatt. 

17.Te levantas contra o meu povo. Esta forma rara se encontra apenas aqui. “Colocar obstáculos” seria uma tradução mais adequada em vista da derivação da palavra, que também apresenta significados como “erguer uma torre de cerco” (militar). 

18. Mui grave chuva de pedras. Tempestades repentinas como esta são comuns na Ásia Ocidental e podem ser muito destrutivas, mas esta foi de proporções devastadoras. Já se observou pedras que vão do ta­manho de uma bola de gude ao de uma bola de golfe. Em 18 de novem­bro de 1969 houve uma chuva de pedras semelhante em Sydney, na Austrália. O autor mediu pessoalmente algumas pedras que atingiram 3cm de diâmetro. A tempestade deixou muitos carros amassados e várias janelas quebradas por pedras de gelo. 

Como nunca houve no Egito. Há registro de ocasiões em que tempestades desta natureza aconteceram mais tarde (Js 10:11), mas a vio­lência desta tempestade em particular foi inigualável, mesmo numa área muito sujeita a granizo (o vale do Nilo, localizado entre dois deser­tos, age como um funil de ar). 

19. Manda recolher o teu gado... Esta é a primeira ocasião em que Faraó e seus servos têm oportunidade de escapar aos efeitos da praga através da fé e obediência a Deus. Tal como acontece sempre que um “evangelho” é proclamado, alguns aproveitam a oportunidade e ou­tros não. Normalmente, no Egito, os rebanhos permanecem no campo de janeiro a abril; depois disso, como proteção contra o calor, os ani­mais são levados para os estábulos (Driver). 

23. Trovões e chuva de pedras. O granizo parece ter sido acompa­nhado por uma violenta tempestade elétrica, fato comum em clima quente e úmido, caracterizada por descargas elétricas popularmente de­nominadas “bolas de fogo” (versículo 24; cf Ez 1:4). Como no Sinai, trovões e relâmpagos são sinais da presença de Deus (19:16). Hyatt afir­ma que chuvas de pedra são muito mais comuns na Palestina que no Egito; se isso é fato, o milagre é ainda maior. 

25. Tudo quanto havia no campo. A frase deve ser interpretada poeticamente, não em termos matemáticos. Contudo, as dimensões do desastre podem ser avaliadas em 10:7, onde os próprios egípcios supli­cam a Faraó que liberte os israelitas antes que novas pragas se sucedam. A economia do país fora totalmente arruinada. 

26. Somente na terra de Gósen... não havia chuva de pedras. Se a tempestade elétrica estivesse subindo ao longo do funil formado pelo estreito vale do Nilo, com o deserto quente e colinas de ambos os lados, é compreensível que uma região situada a leste do vale tenha escapado à destruição, porque nela as correntes de ar seriam completamente diferentes. Se tal aconteceu, Israel viu no fato não uma peculiaridade geográfica, mas a própria mão de Deus libertando o Seu povo. 

27. Esta vez pequei. Pela terceira vez Faraó promete se corrigir. A terminologia é a mesma empregada no tribunal: YHWH é a parte ino­cente, e Faraó e seu povo são a parte culpada. O significado que em­prestamos ao termo bíblico “justificação” se deriva basicamente desta cena do Velho Testamento: Deus, por assim dizer, nos põe do lado do direito, embora sejamos culpados. 

28. Estes grandes trovões. O hebraico traz, literalmente, “vozes de Deus”, expressão que segundo um idioma comum às línguas semitas pode significar apenas “grandes trovões”. Todavia, do Sinai aos evan­gelhos (19:19; Jo 12:29), o trovão é considerado um símbolo da voz de Deus. Assim, particularmente aqui a frase deve receber seu significado pleno: Deus está falando em julgamento. 

30. Eu sei. Um exemplo de “realismo teológico” encontrado na Bíblia. Moisés não acredita que Faraó cumprirá sua palavra, no entan­to ele atende o pedido para que o monarca fique absolutamente sem desculpas (cf Rm 1:20). Outro exemplo de tal realismo se encontra na áspera resposta de Josué aos protestos de fidelidade das tribos de Israel (Js 24:19). 

31. O linho e a cevada foram feridos. Eis aqui um detalhe vívido, típico da tradição oral, explicando porque o colapso não se completou senão quando as hordas de gafanhotos devoraram o trigo e a espelta, mais tarde. Tais detalhes garantem, pelo seu despojamento, a integrida­de da corrente de tradição em que ocorrem. Neste caso, os detalhes, se aceitos, têm redobrada importância pois mostram que o granizo ocor­reu em janeiro, no máximo, quando a cevada está madura e o linho flo­resce. O trigo amadurece um ou dois meses depois (Driver). O linho era de grande importância para o Egito na confecção de roupas, mas até o tempo dos romanos o trigo era o principal produto de exportação do Egito (cf os “asiáticos” de Gênesis 42, que desceram ao Egito para comprar cereal, tal como se menciona freqüentemente em documentos encontrados no Egito). 



10:1-20. A oitava praga. 

Uma vez mais, há estrutura e contexto teológicos em relação a esta praga. 

2. Para que contes a teus filhos. Cf 12:26,27 quanto à repetição insistente no aspecto de “teologia como recital”. A fé era estimu­lada através da narrativa dos grandes “atos de justiça do Senhor” (Jz 5:10,11), neste caso os sinais, e de como Ele zombou dos egípcios. Este último conceito, como de costume, não representa uma emoção mas o efeito produzido. É um antropomorfismo, uma expressão de atividade divina em termos humanos, como o riso de Deus nos Salmos (SI 2:4), e não deve ser deslealmente enfatizado como questão teológica. 

4. Gafanhotos são ainda uma das pragas mais temidas nas áreas vi­zinhas ao deserto, a despeito de todos os esforços internacionais para controle dos insetos. Em novembro de 1969, enormes enxames de gafa­nhotos começaram a cruzar as montanhas na região de Gilgandra, no interior da Austrália, em direção ao rico Vale Hunter, cobrindo com­pletamente o chão onde pousavam. No Oriente Médio a situação sem­pre foi séria: tal é o testemunho dos profetas, de Amós (7:1-3) a Joel (1:1-7), onde os temidos gafanhotos se tornam um símbolo escatológico de julgamento e prefiguram o juízo divino. 

8. Quais são os que hão de ir? Em resposta aos apelos de seu povo, Faraó faz outra proposta bem dúbia: somente os homens poderiam ir, ninguém mais. Moisés recusou a proposta, exigindo completa liber­tação para o povo e seus rebanhos. Como resultado, os dois irmãos são expulsos atabalhoadamente da corte do faraó enfurecido (v. 11). Agora o juízo definitivo tem de vir; a atitude de Faraó tornou-o inevitável. Sem dúvida, do ponto de vista de Faraó, sua sugestão fora extrema­mente razoável. No aspecto prático, ele teria mulheres, crianças e reba­nhos para servir de reféns e garantir o retorno dos israelitas. No aspecto religioso, apenas os homens tinham participação plena em qualquer culto primitivo; mesmo mais tarde, em Israel, eram apenas os homens que deveriam comparecer perante YHWH três vezes por ano (23:17). O mundo antigo pertencia aos homens, mas havia boas razões para tal. Os homens, assim reunidos, eram a força guerreira da nação (cf as refe­rências bíblicas aos “exércitos de Israel” e “YHWH dos exércitos”). 





Eles eram também os chefes das famílias e, portanto, representavam adequadamente toda a nação no culto a Deus. 

13. Um vento oriental. Isto deixa bem claro o fato de que Deus, o Criador, usa a Natureza que criou, e gafanhotos comuns se transfor­mam no flagelo divino. Os insetos foram trazidos por um vento orien­tal, vindo das estepes da Arábia e, finalmente, lançados ao mar por um vento ocidental (v. 19). A travessia do Mar Vermelho é outro exemplo do uso do vento e das ondas por Deus (cap. 14), que podemos comparar com o testemunho de Mateus 8:17 em relação a Cristo. Talvez esteja aqui a origem do pensamento posterior de que os “ventos” eram “mensageiros de Deus”. O raciocínio é ajudado pelo fato de que em hebraico rüah, vento, sopro, também pode significar “espírito”, quer seja o Espírito de Deus ou o espírito humano. 

16. Pequei. Mais uma vez se repete a confissão fácil de pecado e o arrependimento superficial que provêm apenas de um desejo de evitar as conseqüências (Hb 12:17). Em toda esta história, Faraó não aparece como um monstro de depravação: ele é, como Esaú, um quadro bem reconhecível de nós mesmos como homens naturais, e assim se torna um aviso a nós todos. 

10:21-29. A nona praga. 

21. Trevas que se possam apalpar. Presumivelmente trazidas pelo vento que hoje é chamado “hamsín” (literalmente “o cinqüenta”). É assim chamado porque sopra ininterruptamente durante cinqüenta dias, na primavera, e frequentemente traz consigo tempestades de areia do deserto. Próximo a Jerico nessas ocasiões, no auge da tempestade, a visibilidade cai quase a zero e o ar parece espesso e sólido devido à areia. Este é, provavelmente, o significado do termo hebraico yãmes, traduzido “que se pode apalpar” (SBB), bem apropriado se estiver des­crevendo a escuridão e o calor palpáveis e opressivos de uma tempesta­de de areia. 

22. Trevas espessas. A escuridão é descrita da maneira mais forte possível através da combinação de duas palavras que significam, indivi­dualmente, “escuridão”. 

23. O período de três dias pode ser simbólico, ou pode ser outra memória popular, preservada na tradição. Presumivelmente Israel ti­nha “luz” porque a tempestade de areia não cobriu sua região. Tem­pestades de areia podem variar consideravelmente de direção, mesmo dentro de uma mesma área por elas afetada. Se Gósen ficasse suficien­temente a leste do delta e do vale do Nilo a probabilidade seria maior. 

24. Os vossos rebanhos e o vosso gado. Não nos é dito se Faraó pretendia manter os rebanhos como garantia de que Israel retornaria ou se já se conformara com a perda dos escravos e procurava apenas garantir para si a posse do gado israelita (o que é compreensível, já que houvera grande mortalidade entre o gado egípcio). Moisés evidente­mente recusa pois vê o que há por detrás de tal proposta. A furiosa reação de Faraó é imediata e final. 

25. Sacrifícios e holocaustos. Isto não significa, necessariamente (segundo Davies), que o próprio Faraó devia oferecer um sacrifício, uma espécie de oferta pela culpa, a YHWH. Significa, isto sim, que Fa­raó devia conceder a Israel os meios com que sacrificar a YHWH, permitindo-lhes levar seu gado e seus rebanhos, caso contrário a per­missão não teria qualquer sentido. O fato de Moisés e Faraó terem ou não levado esta barganha oriental a sério é uma questão completamente à parte. 

29. Nunca mais tornarei eu a ver o teu rosto. O que dizer, porém, de 12:31? Se formos bem escrupulosos podemos dizer que depois da morte dos primogênitos Faraó simplesmente mandou uma mensagem a Moisés e Arão, sem uma entrevista pessoal. Não seria justo, porém, exigir tanto de Moisés quanto de Faraó que tomassem ao pé da letra o que fora dito no calor de furiosa discussão. Moisés está apenas aceitan­do o fato de que a impaciência de Faraó, expressa em suas palavras, tornou inevitável o julgamento final; não haveria mais entrevistas ou conferências desta espécie. 

11:1-3. Jóias egípcias. Desde o princípio fica bem claro que esta se­ria a última praga; assim, de agora em diante Israel deve fazer os prepa­rativos para sua partida. Aparentemente o espólio dos egípcios só acon­teceu na noite da páscoa (12:35). 

2. Objetos de ouro eprata. A palavra hebraica empregada é tão va­ga quanto “coisas” em português. Assume o significado de “jóias” apenas por causa dos metais preciosos aqui mencionados (prata e ou­ro). Mencionar a questão de desonestidade é fora de propósito. Os egípcios estavam ansiosos por se livrarem dos israelitas (12:33) e dariam de bom grado o que fosse exigido como preço da partida. Só depois do episódio do bezerro de ouro (33:6) será “tabu” para os homens de Is­rael o uso de tais ornamentos. 

3. O homem Moisés era muito famoso. A influência de Moisés provavelmente se devia à realização de todos estes “sinais”, ou talvez por causa de reminiscências da sua criação na família real. Ele mesmo é descrito em Números 12:3 como “manso” ou “humilde”, isto é, sem ambição própria. Isto não significa que não tivesse grandeza; na verda­de, pelos padrões do Novo Testamento, ele realmente a possuía (Lc 9:48). 



11:4-10. A predição da última praga. 

O palavreado desta conversa sugere que se trata de um aviso final a Faraó, dado talvez antes do rom­pimento final registrado em 10:29. O capítulo 12, por seu turno, contém as instruções dadas a Israel para a celebração da Páscoa. 

4. Cerca da meia-noite. A Páscoa era a única festa religiosa notur­na conhecida em Israel (cf SI 134:1). Quanto à idéia contida na passa­gem, ver Daniel 5:30, onde Belsazar morre durante a noite. “Cerca” em português sugere indefinição, incerteza quanto à hora; no hebraico, entretanto, não há tal indefinição e portanto podemos traduzir “à meia-noite”. 

5. Todo primogênito. A Bíblia enfatiza definitivamente tanto a universalidade quanto a natureza indiscriminada da praga. “Que se as­senta por trás das duas pedras da mó” (tradução literal do hebraico) se refere ao trabalho da serva mais humilde numa família, o de moer o tri­go (Is 47:2). Deve-se entender “todo” literalmente, ou em sentido ge­ral, como em 9:6 e outras passagens? Ou deve-se traduzir o hebraico tfkõr, “primogênito”, num sentido metafórico, como “a flor da ju­ventude” ou “a nata” do Egito? Embora possíveis, tais expressões se­riam comunicadas em hebraico por meio de uma raiz diferente, bãfyar. O que se deu foi uma praga pela qual a nata da juventude egípcia foi morta, inclusive o próprio herdeiro do trono (o primogênito de Faraó). Nada que fosse inferior a isso explicaria a reação de Faraó. Talvez Deus tenha usado uma praga como a que usou para castigar Davi (2 Sm 24). Esta praga pode ser descrita, simultaneamente, como uma peste ou epi­demia e como a atividade do “anjo de YHWH”. O Egito e a Filístia eram famosos como regiões onde doenças se transformavam em ende­mias (15:26). Peste bubônica e poliomielite (esta última vitimando as crianças), são apontadas como possíveis agentes da morte dos primo­gênitos. 

6. Haverá grande clamor. Este é outro dos motivos do livro. Israel “clamara” a Deus por livramento (2:23); “clamara” a Faraó na sua angústia, mas em vão (5:15). Agora são os egípcios quem clamará de angústia diante do julgamento divino. 

7. Nem ainda um cão rosnará. A obscura expressão hebraica é “afiará sua língua”, talvez indicando a posição da língua do cão ao ofegar, ou ainda a semelhança entre os rugidos guturais produzidos pe­lo animal e o barulho produzido por uma lâmina ao ser afiada contra a pedra. Compare Josué 10:21, onde a mesma expressão é usada em re­lação a homens, em vez de cães. Uma versão inglesa recente (New En­glish Bible) tem uma tradução bastante curiosa, “nem mesmo a língua de um cão será sequer arranhada”. Embora o sentido exato das pala­vras possa permanecer obscuro, o sentido geral é claro: Israel não so­frerá o menor dano.