30 de setembro de 2016

R. ALAN COLE - ALIANÇA E LEI (19:1 — 31:18) (Parte 2)

antigo testamento danilo moraes
c. O Livro da Aliança (20:18-23:33) 

Esta seção recebe seu nome da suposição de que representa os ter­mos reais sobre os quais a aliança foi ratificada, conforme registrado em 24:7 (embora alguns restrinjam os termos unicamente aos dez man­damentos). Trata-se, sem dúvida, de um todo homogêneo, tratando dos problemas simples de uma sociedade da Idade do Bronze. Devido a isso, mesmo os críticos mais extremistas concedem a esta passagem uma data remota (no mais tardar o período dos juizes), mesmo que relutem em aceitá-la como de autoria mosaica em sua forma atual.[1] A referência ao fato de Moisés ter escrito “todas as palavras do Senhor” em 24:4 (cf. 17:14) é geralmente aceita como aplicável a estes capítulos. Neste caso, este “livro da aliança”, juntamente com os “dez mandamentos”, seria o mais antigo livro de leis codificadas e escritas da história de Israel. Houve tentativas de entender o livro da aliança como um comentário ampliado dos dez mandamentos: tais tentativas me parecem forçadas. Sob muitos aspectos, a legislação de Deuteronômio suplementa este código da aliança. 

20:18-21. O Contexto. Esta passagem volta a descrever vividamen­te os fenômenos associados com a teofania no Sinai registrada em 19:16-25. Não é certo, entretanto, se tem por objetivo um retrospecto e resumo do que já se passara, ou se antecipa a seção seguinte (posição aqui adotada). 

18. Relâmpagos. A palavra usada aqui é incomum e pode ser tra­duzida “tochas”, significando “raios” ou “bolas de fogo”. Esta é a palavra usada como símbolo da presença de Deus e que Abraão viu quando da celebração de sua aliança com Deus (Gn 15). O uso de tal palavra aqui pode ser, portanto, uma reminiscência deliberada. Em lu­gar de “observando” (SBB e Heb.) a LXX e a Vulgata trazem “temen­do”, com o que concorda o autor. 

19. Não fale Deus conosco. Esta é a primeira ocorrência do tema da relutância de Israél (devido à consciência de seu próprio pecado) em adentrar à presença de Deus, ou mesmo de ouvir Sua voz. Até mesmo um crente pode e deve sentir-se assim (Is 6:5), mas o que Israel temia era o que Moisés desejava ardentemente (33:18). 

20. Deus veio pára vos provar. Este é outro tema bem freqüente em 

Êxodo. Provavelmente a provação visava saber se os israelitas realmen­te possuíam verdadeiro temor a Deus, que leva o indivíduo a guardar- se do mal. Em outras palavras, a presente reação dos israelitas era basi­camente certa, levando-se em conta a pecaminosidade da natureza hu­mana. 

20:22-26. Legislação ritual. (Cf. 23:10-19.) Davies indica que a maioria dos antigos (códigos começa com leis referentes aos santuários ou aos altares: este código não é exceção. 





22. Vistes que dos céus eu vos falei. Alguns vêem aqui a base para o mandamento que proíbe a fabricação de imagens, já que imagens se­riam incompatíveis com a natureza celestial de Deus. Esta passagem, entretanto, parece fazer referência à majestade, realidade e poder do Deus vivo, características que constituem Sua autoridade para ditar os mandamentos que se seguem. O código legal, na verdade, só começa em Êxodo 21:1, com a expressão “Estes são os estatutos que lhes pro­porás”. Note-se que YHWH aparece falando “dos céus”: Sinai é ape­nas o local da revelação. 

23. Ao lado de mim. Esta parece ser a interpretação correta do tex­to hebraico, que explicaria assim a expressão “diante de mim” encon­trada nos mandamentos correspondentes (20:3). 

Deuses de prata significa “imagens de prata”: pode tratar-se de uma forma ingênua de expressão, correspondendo originariamente à crença de que a divindade habitava de fato a imagem. Por outro lado, pode ter sentido depreciativo (ver Kaufmann): tais deuses são apenas deuses de prata, comparados com YHWH, o Deus vivo (cf. Salmos 135:15). Naturalmente, imagens de YHWH eram proibidas, mas uma interpretação mais estrita sugere imagens de outros deuses. Ouro e pra­ta, em estilo hebraico, indicam toda e qualquer espécie de metais pre­ciosos. 

24. Um altar de terra pode implicar em origens patriarcais, numa área como a Mesopotâmia, em que as pedras não são tão abundantes como na Palestina. Hyatt argumenta em favor de um altar de barro en­durecido ao sol, como os encontrados em escavações de comunidades cananitas. Outros argumentam que isto indica uma vida agrícola mais estável, o que na verdade não é uma consequência necessária. Noth apresentou argumentos bem fortes indicando que este mandamento e as estipulações que se seguem procedem de civilização israelita das mais antigas. A única outra forma de altar permitida (v. 25) é o altar de pe­dras soltas não lavradas. Os dois tipos são altares de peregrinos, erigi­dos e utilizados quando necessário e depois abandonados: qualquer dos dois tipos sugere uma estepe plana, sem quaisquer “altos”, que eram a localização preferida dos altares cananitas. Em período mais recente, altares com armações de madeira, revestidos de cobre, viriam a ser utili­zados (27:1-8). 

Os teus holocaustos, as tuas ofertas pacíficas. A última oferta é melhor traduzida por “refeições de comunhão”. Estes dois podem ter sido mencionados por serem os tipos mais primitivos ou mais comuns de sacrifício, e portanto, típico. Naqueles dias primitivos, em que não havia altar e sacerdócio fixos, o holocausto incluía o conceito posterior de “oferta pelo pecado” (comida pelo sacerdote). 





Em todo lugar. A despeito de algumas versões trazerem “o lugar”, referindo-se ao santuário, esta expressão parece correta. Sem dúvida al­guma era prática antiga em Israel adorar a Deus em mais de um lugar. No entanto, mesmo que houvesse vários lugares onde se podia sacrifi­car, tais lugares não eram escolhidos ao acaso. Eram todos lugares em que Deus Se revelara nos dias dos patriarcas. Talvez a expressão ‘‘onde eu fizer celebrar a memória do meu nome” seja uma referência ao novo titulo do ‘‘deus dos antepassados” normalmente anexado a cada nova revelação e a cada novo lugar nos dias dos patriarcas (ver Gn 22:14). 

25. Não o farás de pedras lavradas. Este tipo “ciclópico” de altar feito de pedras não lavradas, diferente do altar de terra, reaparece em Josué 8:31, onde pedras toscas são obedientemente usadas. E perfeita­mente desnecessário ver aqui a crença de que certos espiritos viviam nas pedras e que poderiam ser libertados a marteladas; o texto afirma expli­citamente que as pedras seriam profanadas, tornando-se impróprias pa­ra o culto a YHWH, caso qualquer ser humano levantasse contra elas o cinzel. O termo hebraico para pedras lavradas ou “quadradas” se refe­re à perfeita alvenaria ’’ashlár” utilizada pelos fenícios, e usada pela primeira vez em larga escala em Israel por Salomão. 

26. Degraus eram uma adição universal aos altares do mundo anti­go, quer para aumentar a majestade da ocasião, ou (mais provavelmen­te) para reproduzir a idéia de um “alto” sobre um monte (como faziam os zigurates da Mesopotâmia em maior escala). No período do Templo, os altares israelitas possuíam degraus, mas muito antes disso os sacer­dotes israelitas já usavam calções de linho, de modo que a legislação re­ferente ao decoro já não se aplicaria (28:40-42). A nudez ritual era uma das marcas dos cultos primitivos, quer com significado de cultos de fer­tilidade ou como exemplo de extremo conservadorismo religioso. Em Israel, entretanto, era proibida em ambos os aspectos: Deus fizera rou­pas para Adão e Eva (Gn 3:21) quando estes passaram a viver num mundo caído. É interessante notar que ambas as proibições (contra “deuses de ouro” e nudez ritual) foram ignoradas pelos israelitas no in­cidente do bezerro de ouro (cap. 32). Este fato, entretanto, prova ape­nas que tais regras eram necessárias, e não que eram inexistentes. Má teologia e má conduta moral normalmente andam de mãos dadas (Rm 1:18-32): isto certamente se aplicava ao culto de Baal. 

21:1-11. O escravo hebreu. Tal como no livro de Provérbios, não há aqui a menor referência a qualquer aliança distintamente israelita que sirva de base para o bondoso tratamento dispensado ao escravo pe­lo seu senhor. Há um vínculo, entretanto: senhor e escravo são ambos hebreus, um termo antigo de sentido descritivo bem amplo (5:3).[2] Tais leis podem datar, portanto, do período patriarcal, sendo assim bem an­teriores a Moisés: Abraão também é apresentado como “hebreu“ (Gn 14:13). Naturalmente, não dispomos de códigos escritos de leis e costu­mes dos hebreus primitivos, de modo que esta hipótese não pode ser ve­rificada. De qualquer modo, tais regulamentos são leis “casuísticas”, não “apodíticas” (isto é, são derivadas de certos princípios, sem serem elas mesmas princípios), de um tipo comum na Asia Ocidental. Israel, entretanto, considerava ambos os tipos de lei como vindas de Deus. Na­pier ressalta a pertinência de se começar o código da aliança com uma seção relacionada pelos atos poderosos de YHWH. Levítico 25 e Deuteronômio 15 especificamente fazem desta experiência de salvação um motivo para o tratamento bondoso dos escravos em Israel. Já conside­ramos o ponto de vista de Daube, de que toda a história do êxodo é nar­rada numa linguagem deliberadamente destinada a lembrar o processo de emancipação de um escravo israelita (Dt 15:13,14), especialmente com referência à compensação financeira paga pelos anos de serviço. 

2. Um escravo hebreu. Este era, na verdade, um “trabalhador con­tratado”, preso a um contrato de seis anos. Quando chegava o sétimo ano, deveria ser libertado: se o duplo sétimo ano do jubileu chegasse antes do seu sétimo ano de serviço, poderia aparentemente sair livre sem esperar que os seis anos se completassem (Lv 25). A ligação com o conceito do “descanso sabático” parece clara. Um escravo estrangeiro, ou um servo “nascido na casa”, por outro lado, poderia servir até o fim da vida (Lv 25:46). 

Forro. O hebraico hopSi deveria provavelmente ser traduzido por “liberto”, pois parece denotar uma classe social definida (também conhecida em Canaã) situada entre os “nobres” e os “escravos”. Não tem o mesmo sentido da palavra traduzida “de graça”, que indica não ser necessário o pagamento de alforria. MacLaurin sugere um sentido semelhante a “soldado profissional” ou “sujeito a serviço militar”, com base no termo árabe frubshu (comunicação verbal). 

3. Solteiro. Literalmente “com seu corpo” ou “com suas costas”, isto é, sozinho, desacompanhado. A frase é vivida e peculiar, mas seu sentido é bem claro. A provisão desta lei pode nos parecer severa, mas a esposa era provavelmente uma escrava perpétua, pertencendo portan­to ao senhor. Alguns vêem aqui resquícios de uma sociedade matriarcal neolítica, em que o relacionamento com a mãe era mais íntimo do que vbom o pai. Havia entretanto, provisão para que o marido ficasse, se as­sim o desejasse: ele não era obrigado a deixar esposa e filhos. 





6. O levará perante Deus. Isto é, ao santuário (utilizar a expressão “aos juízes”, como fazem alguns editores, é explicação, ao invés de tra­dução). A ida ao santuário tem como objetivo presumível fazer uma de­claração solene (jurando por YHWH), na presença de testemunhas, quanto à condição do escravo. Quanto à porta, há debate se esta se re­fere à porta do santuário ou à porta da casa. Esta última opinião parece ser a mais provável, em vista da natureza da cerimônia, que tornava o escravo um membro permanente da família. O furar a orelha se desti­nava a marcar o indivíduo como propriedade privada (como se faz hoje em dia com animais). Não há, todavia, evidências antigas suficiente­mente claras de que a orelha furada indicasse a condição de escravo. A outra conotação possível era a de obediência (SI 40:6). No ato de consa­gração, a orelha do sacerdote era besuntada com sangue, presumivel­mente com o mesmo significado (29:20). 

Por toda a vida seria uma tradução apropriada do hebraico ‘ ‘para sempre’ ’ pois o israelita era prático e não-filosófico ao encarar a vida. 

7. Esta não lhe sairá como saem os escravos. O caso da escrava- esposa israelita era bem diferente. Ela não era automaticamente liberta­da como o homem, porque seu senhor-marido ainda tinha deveres para com ela. 

8. Mesmo que se tivesse cansado dela, o senhor não poderia vendê- la a um outro homem pois isto seria uma violação de suas obrigações conjugais para com ela. Em vez disso, deveria permitir que os parentes da escrava a resgatassem. O verbo “agir deslealmente” (ou “traiçoeira­mente”) é freqüentemente usado para descrever infidelidade matrimo­nial: em Jeremias 3:7,8 é aplicado a Israel, a esposa infiel. 

9. Tratá-la-á como se tratam as filhas. Ela era virtualmente sua fi­lha de criação. O velho costume chinês de adquirir uma jovem escrava que viesse a ser esposa do filho da casa no futuro é um paralelo exato. Provavelmente a origem do costume era a mesma em ambos os casos: evitar o pagamento de um dote muito maior numa data posterior, e também criar a futura nora dentro da família, assegurando assim que ela se ajustaria. Tal atitude virtualmente abole a escravidão, exceto quanto ao título. 

10. Mantimento, vestidos, direitos conjugais. Estas três provisões se assemelham a antiga formulação legal. A palavra traduzida “manti­mento” deveria talvez ser traduzida “carne”: seu significado, dizem os comentaristas, é que a esposa deveria receber sua quota de comida requintada, não apenas uma ração de subsistência, comum aos outros escravos. A carne era provavelmente um prato raro na mesa da família israelita típica, exceto depois de sacrifícios. Ver Hyatt com respeito à tradução “óleo e ungüentos” ao invés de direitos conjugais. 

11. Ela sairá sem retribuição. Se o senhor-marido deixasse de cum­prir qualquer destas três estipulações, a escrava-esposa sairia livre. Em tais circunstâncias não era necessário que seus parentes pagassem o “resgate” que era presumivelmente igual ao preço de compra da escrava-esposa. Por outro lado, as “três coisas” poderiam se referir às três maneiras de tratar a escrava-esposa; tomá-la por esposa, dá-la por esposa ao filho, e permitir que fosse resgatada pelos parentes. 

21:12-17. A severa lei do deserto. O próximo grupo de leis é de um tipo intermediário, “participial”, nem categórico nem casuístico, porém mais próximo do primeiro. Todas elas terminam com uma forte expressão hebraica que pode ser traduzida “tem que ser posto à mor­te”. O versículo 12 expressa este conceito em sua forma mais sucinta; os versículos 13 e 14 explicam e definem exceções e limites à regra geral. 

13. Deus lhe permitiu caísse em suas mãos. Esta pode ser uma frase mais vaga, indicando ausência de malícia premeditada. Mais provavelmente, expressa a forte posição teológica encontrada em outras partes do Velho Testamento (por exemplo 1 Sm 24:18). Esta posição envolve o conceito de que a morte de um indivíduo é uma punição merecida, bem como a convicção de que todos os acontecimentos estão sob controle direto de YHWH. 

Então te designarei um lugar. No hebraico mãqôm, melhor enten­dido como “lugar santo”, já que o versículo 14 mostra que tal lugar é o santuário onde se encontra o altar de YHWH. O suplicante se agarraria às pontas protuberantes do altar (1 Rs 2:28), o que equivalia a se consa­grar a YHWH, como qualquer sacrifício animal, amarrado às pontas do altar por meio de cordas. Qualquer sangue inocente derramado so­bre o altar de YHWH se constituiria em sacrilégio, mas tal não era o ca­so da execução de um homem culpado. Presumivelmente o lugar em questão é uma das cidades de refúgio mencionadas em Números 35:6. Uma vez que estas eram cidades destinadas aos levitas, é possível que possuissem altares e fossem centros de adoração. A distinção entre ho­micídio premeditado e não-premeditado é ao mesmo tempo antiga e notável: antigas inimizades èntre clãs não levavam tal distinção em con­ta. Aqui, como em muitos outros lugares, a lei impõe limites estreitos à pronta e violenta justiça da época (cf. vv. 23-25). 

15. Ferir. Este termo freqüentemente significa “matar”, mas aqui pode se aplicar a um simples golpe. Tal ato seria uma violação flagrante de Êxodo 20:12, o mandamento de honrar os pais, e como tal era passível de morte. O versículo 17 deveria ser entendido juntamente com este, pois amaldiçoar os pais era também um crime digno de morte. Já que amaldiçoar era desejar e orar pela queda de outrem de todo o co­ração, isto representava a atitude da qual surgiam atos como ferimen­tos e homicídios. Embora a pena de morte tenha sido executada em tais circunstâncias várias vezes durante a história, o cumprimento literal de tais leis parece estranho ao espírito do Novo Testamento. No entanto, o respeito aos pais ainda é ordenado no Novo Testamento (Ef 6:1) e o grande princípio permanece o mesmo. Nada exceto a reinvidicação do senhorio de Cristo ocupa posição mais elevada que os laços familiares (Mt 10:37). 

16. O que raptar a alguém. Rapto para venda de escravos era co­mum no mundo antigo: Homero o considerava uma ocupação corri­queira dos fenícios (isto é, os antigos cananitas). José é um exemplo dos tempos pré-mosaicos (Gn 37), e pode haver indícios da mesma prática nas admoestações de Deuteronômio 17:16. Conforme mencionado, possivelmente Êxodo 20:15 visava em primeiro lugar esta espécie de roubo, ao mesmo tempo a mais lucrativa e mais acessível numa socieda­de pobre. 

Ou for achado em sua mão deverá ser traduzido “e for apanhado com o dinheiro em sua mão”. Contas bancárias inesperadamente altas ainda são difíceis de explicar aos fiscais do Imposto de Renda em nos­sos dias. ' 

21:18-27. Brigas e ferimentos. Estas são ofensas menores e a pena de morte não é exigida exceto em circunstâncias excepcionais. 

18. Ou com o punho é a interpretação dada pela LXX para esta obscura palavra; isto parece acertado, ao contrário da tradução “vara, cacete” empregada pelo Targum e algumas versões. Em qualquer caso, a natureza improvisada da arma prova que o golpe não fora maliciosa­mente premeditado mas um ato precipitado e espontâneo. Se o homici­da tivesse planejado o crime teria utilizado uma faca. 

19. Andar fora apoiado ao seu bordão. Ou seja, passar por um período de convalescência. Tudo que é necessário neste caso é “com­pensação trabalhista” e “seguro-doença”: estes deveriam ser pagos pe­lo culpado, de maneira bem moderna. 

20. Será punido. O grande progresso em relação ao modo de pen­sar da época é que aqui o escravo é considerado uma pessoa. Seu senhor não tem direito de espancá-lo deliberádamente até a morte, mesmo que o escravo seja sua “propriedade”. No entanto, se o escravo resiste por algum tempo antes de morrer, supõe-se que seu senhor tentou apenas corrigi-lo, não matá-lo. Trata-se então de homicídio culposo e a perda financeira sofrida pelo senhor quando da morte do escravo é considera­da lição e punição suficientes. 

21. Porque é dinheiro seu. Provavelmente a melhor interpretação é a oferecida acima, a não ser que tomemos o sentido de que “o escravo é sua propriedade particular” e portanto o senhor tem o direito de espancâ-lo e corrigi-lo. Se pensarmos que esta é uma concessão excessi­va feita ao senhor, devemos colocar a seu lado as limitações dos versiculos 26-27, onde o vazamento de um olho ou a queda de um dente provocados pelo senhor garantiam ao escravo emancipação imediata. A Tora aceita a escravidão como parte inevitável da sociedade antiga, tal como o faria Paulo, mas o novo enfoque humanitário acabaria por ser o dobre de finados da escravidão. Em qualquer caso, a escravidão em Israel era rural, doméstica e em pequena escala. Os israelitas jamais conheceram os mercados de escravos da Roma imperial, embora a mi­neração e o programa de construções de Salomão possam ter exigido al­go semelhante, num periodo bem posterior a Moisés. 

22. Mulher grávida. Envolvida por acaso na briga entre dois ho­mens (a não ser que interviesse para proteger o marido, como a mulher de Dt 25:11). A despeito disso, se houver aborto, uma compensação fi­nanceira deve ser paga. Aqueles que favorecem o aborto reivindicam com base nesta passagem que o feto não é realmente considerado um individuo: este não é, todavia, o ponto central da passagem, que trata primariamente de ferimentos causados à mulher. A destruição da crian­ça não-nascida era considerada pelos hebreus como um exemplo da mais bárbara crueldade, que exigia o julgamento de Deus (2 Rs 15:16). 

24. Olho por olho. Esta é a famosa lex talionis, pagar na mesma moeda, mas sua intenção é restritiva. O indivíduo já não se podia vin­gar sete vezes (Gn 4:24), pois esta lei impunha um limite estreito de jus­tiça. Em Levítico 24:19,20 e Deuteronômio 19:21, o mesmo princípio é usado por um juiz para evitar perjúrio maldoso e falso testemunho. Noth afirma que esta lei é um princípio legal para orientar as decisões dos juizes, e não um princípio para governar relacionamentos interpes­soais. O judaísmo popular, entretanto, parece tê-la interpretado assim, ou o fato de Cristo ter rejeitado a interpretação comum (Mt 5:38,39) não teria o menor sentido. Esta é outra área em que o Novo Testamento transcende o Antigo, ao aplicar a lei do amor a todos os relacionamen­tos interpessoais. 

21:28-36. Ferimentos causados por animais. Esta seção trata de ferimentos causados por bois, já que os israelitas não criavam quaisquer outros animais capazes de matar um homem: cavalos eram um artigo de luxo das nações estrangeiras. 

28. O boi será apedrejado. Tal como um ser humano, pois o boi se tornou culpado de sangue (Gn 9:5). É por isso que sua carne não pode ser comida: não se trata simplesmente de punir o dono com prejuízo fi­nanceiro da carne, que não pode ser vendida no mercado. 

29. Seu dono também será morto. A punição ministrada aos des­cuidados demonstra exatidão, fazendo mais uma vez distinção entre o inocente e o culpado, ao invés da culpa do sangue automaticamente de­clarada em dias anteriores a Moisés. 

30. Resgate e rendenção são palavras importantes para uma poste­rior teologia da salvação. (N.T. A versão da SBB usa apenas “resgate” para traduzir duas palavras hebraicas, kõper epitfyõri). Ambas são usa­das aqui em seu sentido estritamente literal, aplicando-se ao homem culpado de “homicídio culposo” mas não de “assassinato”. Isto pro­vavelmente explica (como Driver indicou) porque somente aqui e no versículo 32 a lei israelita permite o preço de sangue, tão comum em ou­tros países (cf. Nm 35:31). 

32. Se o boi chifrar um escravo. No caso do liberto, os parentes po­dem concordar em aceitar o preço de sangue: no caso de escravo, têm de fazê-lo. Esta é uma das poucas diferenças entre o escravo e o liberto existentes em Israel. 

Trinta siclos de prata. Este era o preço padrão de um escravo na época. Esta mesma soma reaparece em Zacarias 11:12, provavelmente numa referência depreciativa a esta passagem, e como o preço de san­gue da traição de Cristo por Judas em Mateus 26:15. No entanto, fosse escravo ou liberto morto a chifradas, o boi se tornaria culpado do san­gue e sua carne não poderia ser comida. Em Israel o escravo era consi­derado um homem: seu sangue provocaria a culpa do sangue, como o de qualquer outro homem. 

33. Uma cova. Usada mais provavelmente para estocagem de ce­real do que como depósito de água. Covas também era utilizadas como armadilhas para animais (2 Sm 23:20) ou prisões (Gn 37:24). Tais covas eram típicas de Canaã em seus períodos conturbados: o aumento da se­gurança pode ser avaliado pelo desaparecimento gradativo de tais covas em tempos mais recentes. 

35. Repartirão o valor. A preocupação com a honestidade encon­trada nos profetas tem suas raízes na Tora, e em última análise repousa sobre a própria natureza de Deus. Para um fazendeiro israelita, em sua luta contra o solo, o pagamento justo pela morte de um boi poderia sig­nificar a diferença entre vida e morte, ou pelo menos entre liberdade e escravidão provocada por dívidas. Muitas destas regras são prática co­mum entre os beduínos do deserto em nossos dias, segundo Doughty, como citado pelos comentaristas modernos. 

22:1-17. Leis Civis Sobre Roubo. Há alguma incerteza quanto à ordem exata dos primeiros versículos, com o texto hebraico trazendo o versículo 1 da SBB como versículo 37 do capítulo anterior: as divisões de capítulo, entretanto, são arbitrárias. Este comentário seguirá a divi­são utilizada na SBB. 

1. Abater ou vender. A pena por este ato é mais pesada, já que tal ação presumivelmente demonstra que o furto foi intencional e delibera­do. Manter o animal mostraria que o furto se deveu provavelmente a um súbito impulso ganancioso. A indenização por furto de um boi era quíntupla (ao passo que por uma ovelha era quádrupla), já que um boi treinado além de ser mais valioso era mais difícil de substituir. O boi para o israelita era o que o búfalo da família é no Sudeste Asiático — quase como um membro da família. Tal como o cavalo, o boi necessita de vários anos para ser treinado. 

2. Não será culpado do sangue. Matar um ladrão que tenta perfu­rar uma parede de tijolos para entrar na casa (Ez 12:5) é homicídio jus­tificável, se acontecer depois do entardecer. O arrombador pode ser um assassino armado, no entender do dono da casa. Sua morte pode até mesmo ser acidental, resultado de uma luta cega no meio da noite. À luz do dia, entretanto, o dono da casa não tem desculpa se matar o ar­rombador: além do mais, ele é capaz de identificar o indivíduo. É típico da benevolente legislação israelita que até mesmo um ladrão tenha seus direitos. Este tipo de homicídio justificável (que não produz culpa de sangue) é usado como metáfora em Jeremias 2:34. 

5. Se alguém fizer pastar o seu animal num campo ou numa vinha. (N.T. — O original hebraico é: “Se um homem permitir que um campo ou vinha seja destruído”). O verbo que a SBB traduziu “fizer pastar” é o mesmo usado no versículo 6 e traduzido “acendeu o fogo”, mas o contexto parece emprestar ao verbo um sentido diferente. No entanto, é possível que o sentido “queimar” esteja correto aqui. Este é um dos princípios sensatos da lei mosaica, de que a indenização deve ser paga com o que há de melhor. O caso aqui considerado é uma causa comum de atritos quando duas culturas se defrontam, a agrícola e a pastoril. Tal situação deve ter sido particularmente irritante durante os anos em que Israel mudava seus padrões de vida, de nômades do deserto para agricultores estabelecidos. 

6. Se irromper fogo. O fogo na vegetação rasteira era temido em Israel, com sua vegetação mediterrânea e verões quentes e secos. Qual­quer morador de áreas semi-desérticas sabe muito bem com que rapidez espinheiros pegam fogo, ou capim e palha queimam completamente. Os espinheiros eram provavelmente usados como sebes, para manter o gado afastado de plantações (como se faz com cactos hoje em dia) e queimavam com estouros e explosões assustadores, apropriadamente comparados à gargalhada do insensato (Ec 7:6). Na Palestina eles fo­ram e ainda são usados pelos pobres como combustível. 

8. Levado perante Deus. Tal como antes o sentido da frase deve ser "levado ao santuário”. O homem deve jurar solenemente em nome de Deus (ver v. 11.), declarando sua inocência. Esta espécie de decisão ju­dicial precisava ser aprovada pelo queixoso (como num julgamento em que o réu tem de passar por uma prova quase impossível). Se o réu tiver jurado falsamente, a maldição que ele invocou cairá sobre ele mesmo e assim será suficientemente punido. Talvez nisso esteja a explicação da frase "a quem Deus condena” (v. 9). O homem que sofre os efeitos da maldição fica exposto como culpado pelo próprio Deus, e deve pagar em dobro ao queixoso. Uma vez que a palavra usada para Deus é o ter­mo geral das línguas semíticas, e não YHWH, o título especificamente israelita (com exceção do v. 11), alguns comentaristas pensam que estas leis foram tomadas de empréstimo às nações vizinhas de Israel. Uma sugestão mais plausível é que estes preceitos, devido à sua semelhança geral à legislação mesopotâmica, sejam pré-mosaicos. Seriam, portan­to, parte da lei costumeira dos patriarcas de Israel, antes que, por oca­sião da revelação a Moisés, o nome YHWH se tomasse o apelativo divi­no peculiar a Israel. 

9. Esta é a coisa. Um objeto fora perdido: mais tarde seu dono viu objeto semelhante na posse de seu vizinho, e o reivindica como sendo propriedade sua. Os israelitas aparentemente não seguiam o dito bra­sileiro de “achado não é roubado”; um objeto perdido continuava a pertencer a seu primeiro dono, que poderia reivindicar a posse assim que o visse. 

10-13. Jumento, boi ou ovelha (que inclui cabras, como uma subdivisão menos importante) eram os animais domésticos comuns, bem como a forma mais comum de riqueza na Era do Bronze. 

Se morrer, ou ficar aleijado, ou for afugentado. Roubo por inimi­gos e destruição por animais ferozes eram os perigos mais comuns na rústica sociedade pioneira. Se tais desastres pudessem ser provados, quer por juramento quer pela apresentação de uma carcaça ninguém era considerado suspeito ou culpado de ter cometido o roubo. A apresen­tação da carcaça mostraria que embora o pastor não fosse capaz de im­pedir a morte do animal, estava sufícientemente alerta para impedir a devoração do cadáver (Am 3:12). Jacó reclamou que, a despeito de leis indubitavelmente semelhantes, Labão o fizera pagar até mesmo estes casos de exceção (Gn 31:39). A túnica de José, manchada de sangue, fora aceita como prova de morte causada por uma fera (Gn 37:33). Ver Hyatt com respeito à sugestão de que "ou for afugentado” deveria ser omitido aqui, em bases textuais: tal possibilidade é mencionada no versículo 12, de qualquer maneira. 

14. Se alguém pedir emprestado. Literalmente “pedir, solicitar”. Esta é a palavra usada quando os israelitas “pediram” jóias dos egípcios, em 3:22.0 termo, por si mesmo, deixa aberta a questão de se o objeto será ou não devolvido, embora tal devolução possa ser presu­mida neste caso. Há um outro verbo, de sentido mais técnico, que signi­fica “emprestar” ou “tomar emprestado” a juros. 

15. preço do aluguel será o pagamento. A frase hebraica (“veio por seu pagamento”) é sucinta e obscura. Se este for o sentido correto, a implicação é que a pessoa que alugou o animal aceitou o risco que a perda de seu animal poderia representar. No entanto, uma vez que a pa­lavra traduzida como “aluguel” normalmente significa “assalariado”, e não “algo alugado”, Noth e outros comentaristas preferem traduzir “se o homem (que causou o dano) for um assalariado, o prejuízo é de­bitado ao seu salário”. Se teste for realmente o caso, esta passagem se torna uma das muitas em que a Bíblia coloca a ênfase no descuido do “assalariado” ao invés de responsabilizar o “dono” (Jo 10:12). Esta é uma astuta observação psicológica, válida ainda hoje. 

16. Se alguém seduzir qualquer virgem. Esta lei se classifica sob o tema geral de roubo. A moça solteira era, em certo sentido, proprieda­de do pai, e ele receberia no tempo devido um presente de casamento ou dote por ela. A entrega de tal presente marca o noivado oficial em mui­tas partes do mundo até hoje. Naturalmente, tal noivado era um com­promisso quase tão sério e indissolúvel quanto o casamento, tratando- se de um arranjo financeiro, e a sedução de uma noiva por outro ho­mem que não seu noivo era considerada adultério, e punida como tal (Dt 22:23,24). Isto explica o dilema de José em Mateus 1:19. Nesta si­tuação, todavia, já que o homem possuiu a moça sem pagar o dote, de­ve pagar o dote estipulado, pois quem iria pagá-lo depois do aconteci­do? Além do mais deve receber a moça por sua esposa, a não ser que o pai dela recuse. Mesmo que o pai recuse, o dote ainda tem de ser pago: isto reembolsa o pai e castiga o culpado. 

17. Pagará ele em dinheiro. Literalmente, “pesará a prata”, que era o costume até que as moedas fossem introduzidas pelos persas, que haviam adotado a prática dos lídios (cf. Gn 23:15,16). 

22:18-27. Imperativos categóricos. Estes não possuem um tema comum, e só podem ser agrupados devido à sua forma. Nos versículos 18-­20 encontramos três instâncias da lei do deserto, severas e puritanas, distinguindo a fé israelita de corrupção florescente em Canaã. Todas as três são ofensas fundamentalmente religiosas em Israel: as proibições partem da natureza revelada de Deus. Feiticeira alguma deve viver; bes­tialidade é crime capital; quem sacrificar a qualquer outro deus exceto YHWH cai sob o herem, o anátema, que condena à destruição não ape­nas essa pessoa mas tudo o que possui. 

18. A feiticeira não deixarás viver. Ver 1 Samuel 28:9 quanto à obediência a este mandamento. Deus proibira a Israel o inquirir quanto ao futuro, pois havia dado ao Seu povo outros meios de discernir Sua vontade (Dt 18:9-15). A um nível mais profundo, poderíamos dizer que o desejo de conhecer o futuro revela falta de fé, ao passo que o desejo de controlar o futuro é ainda pior. Com o declínio da religião no mun­do ocidental, a magia adquiriu um fascínio todo especial como substi­tuto. A feitiçaria é igualmente condenada no Novo Testamento (At 13:10; 19:19), mas a despeito da prática da igreja na Idade Média, não há no NoVo Testamento qualquer indício de que médiuns ou feiticeiras devam ser executados. Podemos presumir que a regra prática de Êxodo tinha como objetivo preservar a integridade da comunidade divina de tais influências perigosas, estranhas à fé, nos primeiros dias, e ao mes­mo tempo demonstrar para sempre como Deus abomina tais coisas. 

19. Quem tiver coito com animal. Isto era considerado crime capi­tal em Israel, bem como o homossexualismo (Lv 20:13). A bestialidade não era apenas uma perversão óbvia: ela aparecia tão frequentemente nas Lendas de Baal que provavelmente possuía significado religioso pa­ra os cananeus. Nossa atitude para com as perversões da ordem natural instituída por Deus não pode ser diferente daquela encontrada na Lei, embora nosso tratamento dos que a pervertem deva ser hoje bem dife­rente. 

20. Será destruído. Alt, citado por Hyatt, por meio de uma ligeira emenda textual, propõe o seguinte sentido para a frase: “Quem sacrifi­car a outros deuses será executado”, onde a palavra outros (’ahêrim) toma o lugar de será (totalmente) destruído (yãhorãm), conforme fa­zem o Pentateuco Samaritano e alguns manuscritos da LXX. Tal como está no texto massorético, entretanto, o palavreado forte apenas explica 20:3 em termos de adoração sacrificial. A pessoa culpada deste pecado fica sob anátema: deve ser destruída, tal como os cananeus deviam ser destruídos pelos israelitas. 

Os versículos 21-27 tratam da proteção devida aos desamparados; estrangeiros, viúvas, órfãos e pobres em geral. É impressionante notar, como afirma Noth, que todos estes preceitos são apodícticos, não ca­suísticos: isto equivale a dizer que são fundamentais à lei de Israel, não uma dedução dela. Israel deve cuidar dos pobres e desamparados, por­que YHWH cuida deles: esta é a própria natureza de Deus. 

21. Pois forasteiros fostes. Esta frase relaciona diretamente a obri­gação de Israel às suas experiências no Egito, de maneira verdadeira­mente “deuteronômica” (cf. 23:9). O ger, peregrino, é um “estrangeiro residente” (“dentro das tuas portas”, 20:10), não simplesmente um fo­rasteiro qualquer, para o que outra palavra hebraica era usada. 

24. Vossas mulheres ficarão viúvas. Esta é uma aplicação divina da lex talionis. Isto também pode ser ilustrado pela experiência de Israel no Egito. Os egípcios haviam afligido a Israel, o primogênito de Deus (4:23), e por isso os primogênitos do Egito foram mortos e as esposas egípcias ficaram viúvas devido à catástrofe do Mar Vermelho. A socie­dade que despreza a justiça social cairá ela mesma sob o julgamento de Deus. 

25. Como credor que impõe juros. Esta passagem condena não apenas taxas exorbitantes de juros, mas até o simples cobrar juros sobre dinheiro emprestado a um homem pobre. Deuteronômio 23:20 estende esta regra a qualquer empréstimo feito a um israelita. Quem já viveu em sociedades sub-desenvolvidas conhece o peso arrasador de taxas de ju­ros muito elevadas, especialmente numa sociedade agrária em que o fa­zendeiro depende das estações. Estas leis são evidentemente muito ante­riores ao desenvolvimento econômico de Israel como uma nação co­mercial ao tempo de Salomão. A razão para a proibição é que, presumi­velmente, o pobre pedira dinheiro emprestado na hora da necessidade. O empréstimo é considerado assistência ao próximo, e tomar-lhe di­nheiro na hora da necessidade seria um ato imoral. Cristo ordena que vamos ainda além, proibindo até mesmo qualquer tentativa de recupe­rar o capital do empréstimo (sem falar nos juros) em tais casos (Lc 6:34,35). O empréstimo sem juros a um irmão em necessidade se torna assim uma doação. Estes grandes princípios espirituais permanecem igualmente válidos em nossa sociedade afluente, não importa quais se­jam os detalhes de sua aplicação. 

26. Lha restituirás antes do pôr-do-sol. Este é um bom exemplo de como a compreensão que Israel tinha de Deus amenizava a aplicação de lei, mesmo que a sua letra fosse mantida. Até mesmo um empréstimo sem juros feito a um patrício israelita exigia algum tipo de penhor ou garantia. Tal penhor era permitido, embora até em tais casos Deutero­nômio 24:10,11 estipule certas restrições. O penhor mais óbvio (prova­velmente a única possessão móvel de algum valor) era o poncho ou capa de pastor, que funcionava como cobertor à noite, e como uma espécie de trouxa durante o dia (12:34) para todo israelita. O costume geral de tomar peças de vestuário como garantia do pagamento de uma dívida é ilustrado em Amós 2:8. No entanto, se esta capa tinha de ser devolvida a cada noite (quando seu uso era uma necessidade, não um luxo), seu valor como garantia era mínimo: ela se tornava apenas uma incômoda recordação da dívida. O verbo muda continuamente do singular para o plural e vice-versa nesta passagem. Tais mudanças, entretanto, também são encontradas em outras passagens de literatura legal.[3]



22:28-31. O Que Deus Deve Receber De Seu Povo. 

28. Nem amaldiçoarás o príncipe do teu povo. Este é o famoso versículo citado por Paulo em seu julgamento perante o sumo- sacerdote (At 23:5). Deus e príncipe parecem formar a princípio um pa­ralelismo estranho, pois o mesmo verbo é usado em relação aos dois (SBB blasfemar e amaldiçoar). É possível que aqui a palavra “Deus” (elõhim) deva ser traduzida “juizes”: isto é possível em várias outras passagens do Velho Testamento, com perfeito sentido. Todavia, se a re­verência para com Deus torna o amaldiçoar pai e mãe um crime capital (21:17), assim também o amaldiçoar um chefe tribal escolhido por Deus. O termo hebraico nãsV indicava em dias mais antigos um chefe de clã patriarcal, uma posição representativa e quase religiosa, como se pode ver em Números 17:1-6. Em tempos mais recente, tornou-se um termo mais genérico, normalmente traduzido “príncipe”, como em Ezequiel 46. Esta atitude reverente para com a autoridade chega a soar estranha aos nossos ouvidos modernos, mas está em perfeita sintonia com o ensino de Romanos 13:1 e com o princípio geral de submissão mútua expresso em 1 Pedro 5:5. Por outro lado, é claro que isto não ex­clui a desobediência consciente à autoridade por amor a Cristo (ver Mt 22:21). 

29. Do melhor das tuas ceifas e das tuas vinhas. Literalmente tra­duzido, o texto hebraico significa “A tua plenitude e o teu jorro”, mas a SBB está provavelmente correta em sua interpretação. Sabemos que plenitude normalmente se aplica ao vinho e é bem provável, portanto, que jorro (literalmente “lágrima”) se aplique ao azeite. O Mishnah, en­tretanto, usa esta palavra para descrever o suco que escorre natural­mente de uvas muito maduras e neste caso as duas frases seriam estrita­mente paralelas. 

O primogênito de teus filhos me darás. Este é o princípio básico. Não é necessário afirmar que o autor desconhecia a prática israelita de resgatar ou substituir (13:13), tão claramente exposta em outras partes do Pentateuco. 

29. Ser-me-eis homens consagrados. Todo o Israel ocupava vir­tualmente a posição sacerdotal (19:6). Era inconcebível que um sacer­dote se profanasse (e assim profanasse a Deus) comendo carniça, ou se­ja, animal que não tivesse sido sacrificado ritualmente e que, portanto, ainda conteria sangue em suas veias. 

23:1-9. Filantropia na vida diária. Este próximo parágrafo traz certa semelhança aos dez mandamentos, pois se constitui de lei ca­tegórica intercalada com explicações “deuteronômicas” de razões e motivos (assim chamadas por serem freqüentemente encontradas na­quele livro). 

1. Testemunha maldosa. Melhor traduzido, “testemunha numa acusação de violência”, pois a idéia é de um veredito que será fatal para o réu. A lei se torna, portanto, uma explicação de 20:16. 

3. Nem com o pobre serás parcial. Alterando dãl para gãdôl, al­guns comentaristas entendem a expressão como sendo “nem com o po­deroso serás parcial”, argumentando que favorecer o poderoso é uma tentação real, e que caso contrário, o versículo 6 seria mera repetição. Tal sugestão, entretanto, ignora uma tentação bem mais sutil do que a de considerar o rico e poderoso sempre certo, ou seja, a de considerá-lo sempre errado. Este é um perigo real em nossa sociedade, e deve ter si­do um perigo real na sociedade igualitária de Israel. A verdadeira jus­tiça não permite tal coisa, tal como não permite a anterior. 

4. boi do teu inimigo. Inimigo neste contexto provavelmente sig­nifica “adversário legal”. A justiça exige que o tratemos como outra pessoa qualquer, e ainda mais que não nos vinguemos à custa de seus animais desamparados. Tal conceito, de uma preocupação prática com o bem de nossos adversários, fica apenas a um passo do “Amai a vos­sos inimigos’’ de Mateus 5:44. 

6. teu pobre, ’ebyôn é o termo comum para pobre no Velho Tes­tamento, muito freqüente nos Salmos com o sentido de “pobre piedo­so” (por exemplo Salmo 9:18). Mais tarde deu nome à seita judaico- cristã dos ebionitas (os pobres de Deus) e talvez antes disso tenha sido usado para descrever a igreja em Jerusalém (G12:10). 

8. Também não aceitarás suborno. Como no caso acima, sempre uma tentação numa sociedade marginal. Era muito importante que os juízes em Israel pudessem estabelecer sua posição quanto a esta lei (1 Sm 12:3). Os filhos de Samuel falharam neste ponto (1 Sm 8:3). 

9. Não oprimirás o forasteiro. Uma tentação muito comum, já que o peregrino não tinha família para proteger seus interesses. Aqui, mais uma vez, é a frase deuteronômica que reforça o mandamento ao apre­sentar sua razão de ser. O amor pelo estrangeiro residente não é fruto de mera filantropia, mas de um sentimento mútuo que procede de uma profunda experiência pessoal da graça redentora de Deus quando em si­tuação semelhante. 

Vós conheceis o coração do forasteiro. O hebraico não traz a pala­vra comum para “coração” (lêb) mas nepes, que pode ser traduzida “vida” ou “ego”. Aqui parece ter mais o sentido de “desejos e aspi­rações”. Seja qual for a sua tradução, o verso indica profunda e verda­deira simpatia, semelhante ao dever cristão e judaico (Rm 12:15). Tal­vez possamos traduzir: “vós sabeis por experiência própria o que deseja o forasteiro”. 

23:10-19. Regulamentos rituais. Estes ainda são leis apodíticas, mas de caráter mais ritual do que filantrópico, embora ambas as seções possuam motivação religiosa. Em alguns casos, motivos filantrópicos são acrescentados ao que a princípio parece ser apenas legislação ritual. 

11. No sétimo ano a deixarás descansar. Do verbo hebraico aqui empregado se deriva o substantivo usado em Deuteronômio 15:1 para o “ano de remissão”. Em Deuteronômio o conceito se aplica à remissão de dívidas; aqui tem o seu sentido mais simples de “deixar o solo sem cultivo”. O paralelismo entre o sétimo ano e o sétimo dia (de descanso) fica explícito, no versículo 12. O único propósito declarado do ano sabático, entretanto, é que os pobres possam comer, e depois deles, os animais do campo. Deixar o solo sem cultivo a cada sete anos é boa agricultura, e aumenta a fertilidade da terra (especialmente quando há pouco fertilizante disponível); esta não é, entretanto, a razão pela qual Israel devia obedecer esta lei, embora possa bem ter sido o resultado (compare os aspectos higiênicos da Lei de Moisés, provavelmente nem sequer suspeitados por aqueles que a princípio a obedeciam). Alguns comentaristas afirmam que o propósito do ano sabático era permitir que o solo criado por Deus voltasse a seu estado original não-cultivado, de modo a glorificar o Deus da natureza. Outros sustentam que era ape­nas conservadorismo, em memorial do tempo em que o homem era colhedor de frutos ou pastor, em vez de agricultor. A nível religioso, a obediência a este mandamento era uma exposição prática da fé israelita em Deus, o Deus que proveria suas necessidades, tal como o era a ob­servância do sábado. 

E do sobejo comam os animais do campo. Não se trata aqui de um tabu primitivo, mas.de razão profundamente teológica. A glória da fé israelita é a convicção de que Deus preserva tanto homens quanto ani­mais (SI 36:6) e alimenta os animais do campo diariamente (SI 104:21). Cristo afirma que Deus cuida dos pardais nos telhados (Mat 10:29) e alimenta os corvos (Lc 12:24). Não sabemos com certeza se o ano sabático devia ser observado simultaneamente em toda a terra, ou se deveria ser um ano diferente para cada propriedade, conforme a data em que a terra houvesse sido cultivada pela primeira vez. Ao tempo dos Macabeus, o ano sabático era observado simultânea e universalmente. No. começo da história de Israel como nação provavelmente nunca foi observado em larga escala. Profetas posteriores consideraram os seten­ta anos de cativeiro como um castigo pelos quatrocentos e noventa anos em que o ano sabático fora negligenciado (a contar da ocupação inicial de Canaã). 

12. Ao sétimo dia descansarás. Como nos dez mandamentos, mas com uma diferença. O sábado semanal não é aqui apenas um memorial da obra criativa de Deus (20:11) ou da libertação de Israel do Egito (Dt 5:15). Ele serve como uma interrupção do trabalho para Israel, descan­so para os animais e repouso para os trabalhadores de condição servil ou semi-servil, para os quais provavelmente não havia obrigação reli­giosa. 

13. Nome de outros deuses. O hebraico usa o singular, “nome”, e portanto, talvez possamos traduzir “o nome de outro deus”. Isto tem referência, provavelmente, a juramentos em nome de outro deus que não YHWH: isso claramente indicaria falta de fé em YHWH. Paulo parece se referir a este versículo em Efésios 5:3. 

Os versículos 14-17 contêm um registro das três festas religiosas anuais que exigiam a peregrinação de todo israelita ao santuário de Deus. Todos os homens adultos tinham de comparecer, pois tais oca­siões eram convocações dos exércitos de YHWH, embora saibamos de 1 Samuel 1 que as mulheres podiam comparecer e de fato acompanha­vam seus maridos. É bem claro, todavia, que mesmo a mais importante das três (a páscoa) foi observada apenas esporadicamente ou em peque­na escala durante o período da monarquia (2 Rs 23:22), embora tenha sido observada regularmente depois do exílio, sem qualquer dúvida, quando Esdrasè Neemias foram capazes de fazer vigorar a lei numa so­ciedade menor e mais coesa. É claro que isto não prova que a legislação não existia antes dessa época. 

15. A festa dos pães asmos. Compare “sega” (ou “primícias”) e “colheita” no versículo 16. Pelo fato de estes nomes serem agrícolas, al­guns acham que as festas foram assimiladas dos antigos habitantes de Canaã depois da conquista. Tal conclusão é desnecessária: os nomes podem ser, ao contrário, bem mais antigos que Moisés. Festas com tais nomes bem podem ter sido observadas pelos antepassados de Israel, quer no período patriarcal quer no período da escravidão no Egito. Não havia qualquer necessidade de se assimilar algo dos cananeus. Além do mais, estas três festas não estavam associadas apenas ao ciclo das estações e ao dom divino de uma terra frutífera em cumprimento de Sua promessa aos patriarcas. Estavam associadas também aos atos re­dentores de Deus na história, demonstrados na libertação de Israel. Aqui a festa dos pães asmos é celebrada como um memorial da liber­tação do Egito, ao passo que em Levítico 23:43 (sob seu outro nome de Festa dos Tabernáculos) a terceira festa também comemora o mesmo acontecimento. Ao tempo do Novo Testamento (e provavelmente bem antes) a festa das semanas (aqui chamada Festa da Sega) celebrava a doação da lei no Sinai, outro “ato divino na história. 

É estranho que se use aqui “festa dos pães asmos” como titulo, ao invés de “páscoa”, já que as duas festas eram contíguas (ver o co­mentário de cap. 12 para uma possível explicação deste fato). Talvez is­so se devesse ao fato de os sete dias da festa dos pães asmos fazerem o dia da páscoa parecer uma cerimônia preliminar: talvez porque logo a princípio a páscoa fosse mais uma refeição familiar do que uma festa religiosa. Em qualquer caso, é significativo que, mesmo em data tão re­mota, não se oferece qualquer outra explicação para a festa dos pães as­mos além de que é um memorial de um acontecimento histórico, a liber­tação de Israel do Egito. 

De mãos vazias. Já que cada festa correspondia a uma atividade da ceifa, este mandamento era fácil de cumprir, seguindo-se a regra geral de oferecer as primícias (v. 19). A festa dos pães asmos, por exemplo, coincidia com o início da colheita de cevada. A festa da sega, também chamada festa das semanas, acontecia sete semanas depois, na época da colheita do trigo. A festa da colheita (ou festa dos tabernáculos) acon­tecia no outono, quando as uvas e as azeitonas eram colhidas e armaze­nadas. Terminava então o calendário agricola, com a interrupção de to­da atividade agrária durante o inverno. 

18. Não oferecerás o sangue do meu sacrifício com pão levedado pode ser um regulamento sacrificial genérico, ou uma referência es­pecífica à páscoa. O fermento parece ter sido o símbolo padrão do mal (Mt 16:6) já que, como a fermentação das uvas, simbolizava corrução. 

A gordura da minha festa. Isto é, a porção especial da vítima que pertencia a Deus. Se fosse deixada até a manhã do dia seguinte ficaria rançosa, imprópria para o sacrifício. Qualquer porção do cordeiro pas­cal que não fosse comida tinha de ser queimada na mesma noite (12:10). Compare o versículo paralelo em 34:25, e a regra geral em Levítico 19:6. 

19. Não cozerás o cabrito no leite de sua própria mãe. Os textos cananitas demonstram que esta frase se refere a um encantamento, de modo que o mandamento é mais ritual do que humanitário. Alguma tradição referente a este encantamento deve ter permanecido pois Maimonides, o erudito judeu da Idade Média nos adverte que tal rito era re­lacionado à magia dos cultos de fertilidade, sugestão idêntica à feita por Driver, sessenta anos atrás, demonstrando que algumas vezes eru­dição e argúcia são confirmadas pela arqueologia. Tivéssemos conheci­mento mais detalhado da religião cananita, poderíamos sem dúvida ex­plicar muitos dos tabus encontrados na lei. Por exemplo, a proibição da carne de porco era provavelmente ritual, devido ao seu uso fora de Is­rael como animal de sacrifício; a proibição da carne de jumento quase que certamente também era ritual, por causa de seu lugar na religião dos amorreus (isto é, como sacrifício na celebração de alianças). 

23:20-33. A Promessa Deuteronômica. Este título pode bem ter si­do dado a esta passagem devido a seu estilo exortativo e enfoque teológico, muito semelhant àquele que se vê melhor em Deuteronômio. Traços dessa perspectiva podem ser encontrados em Levítico (19:9-17). Devemos, portanto, considerá-la como uma “corrente”, uma maneira de entender Deus e Seu trato com o povo de Israel. Tal “corrente” atravessa o Velho Testamento, pois corresponde a um as­pecto do próprio Deus. 

No que tange à forma da passagem, contendo promessas e ameaças, Driver ressalta que se trata de um final apropriado para o livro da ali­ança. Tanto Levítico quanto Deuteronômio terminam, igualmente, com exortação, bênção e maldição. Na verdade, finais deste tipo pare­cem ter sido a conclusão costumeira das “alianças” seculares da época. 

20. Um Anjo. É melhor traduzir o termo hebraico com uma pala­vra mais neutra, “mensageiro”, deixando que o contexto decida quan­to à natureza do mensageiro. Pode-se argumentar que a referência aqui é a Moisés ou Josué, mas os versos subseqüentes parecem indicar um mensageiro sobrenatural; isto é, o que chamaríamos de “anjo” no ple­no sentido da palavra. 

Ao lugar que tenho preparado. A referência a Canaã é clara. A pa­lavra lugar provavelmente deve ser entendida em sentido geral, não em seu sentido freqüente de “lugar santo”, como se Deus estivesse guiando Israel ao Seu santuário em Siló ou outro lugar qualquer. Cristo poderia estar aludindo a este versículo em João 14:2,3 

21. Não te rebeles contra ele. Fosse o mensageiro humano ou divi­no, a rebelião contra o mensageiro de Deus equivale à rebelião contra o próprio Deus (cf. 16:8). Ninguém pode aceitar a salvação de Deus a não ser que aceite o Salvador enviado por Deus. Este pode ser observado em relação a Israel e Moisés (At 7:35) e ainda mais claramente em relação ao mundo e Cristo. 

Pois nele está o meu nome. Esta frase parece trasladar o “mensa­geiro” para a esfera divina, pois o “nome” de Deus é equivalente à Sua natureza revelada. “Anjo” pode ser aqui uma perífase reverente para a presença do próprio Deus. Outras sugestões são de que o mensageiro se refere à coluna de fogo ou de nuvem que tradicionalmente orientava a Israel 13:21), ou à arca, chamada a “arca de YHWH” e assim trazendo o nome de YHWH, e simbolizando a Sua presença com o povo (Nm 10:35,36). Ver ainda 32:34; 33:2. Seja qual for a natureza exata do “an­jo”, todas as referências desta natureza nos lembram ao mesmo tempo a transcendência e a proximidade de Deus. 

22. Se diligentemente lhe ouvires a voz. As bênçãos divinas são condicionadas à fé e obediência. Esta regra não é arbitrária, mas essen­cial, porque apenas a obediência serve como expressão desse novo relacionamento de dependência em Deus, que garante o Seu desígnio de bênção para nós. 

Serei inimigo dos teus inimigos. Cumprimento da promessa abraâmica em Gênesis 12:3, “amaldiçoarei aqueles que te amaldiçoarem”. Sob outro ponto de vista, não é tanto que Deus será inimigo de nossos inimigos, mas que nós nos tornaremos inimigos dos inimigos de Deus. Observar esta identificação no Salmo 139:21,22. O que era uma realida­de física no Velho Testamento se torna uma realidade espiritual no No­vo Testamento. 

23. Eu os destruirei. Esta não pode ser uma tradução exata do ver­bo hebraico, ou entraria em contradição com os versos seguintes, que sugerem uma redução gradativa. Um significado mais brando é ne­cessário, talvez “eu os farei desaparecer”. 

24. As suas colunas. Literalmente “aqueles que ficam de pé” (referindo-se a pedras) ou “ortostatos”. Estas pedras verticais são en­contradas frequentemente em grupos de dez nas ruínas de santuários cananitas (Gezer e Taanaque, por exemplo). Em 24:4 Moisés erigiu doze, para simbolizar as doze tribos de Israel. Em dias patriarcais, seu uso teria sido inocente (Gn 28:18), mas não ao tempo da conquista, no contexto do culto a Baal praticado em Canaã. Como no Hinduísmo, a coluna de pedra representava o fator masculino no culto da fertilida­de, ao passo que a árvore representava o fator feminino. 

25. Ele abençoará. A bênção de Deus é expressa aqui em termos materiais, facilmente compreensíveis para o homem comum. O Criador promete alimento, saúde, fertilidade e longevidade àqueles que obede­cem Suas leis. Como regra geral, este princípio pode ser posto à prova e verificado em qualquer nivel de civilização. Embora não seja universal­mente aceito que “a melhor regra de vida é a honestidade”, pode-se de­monstrar que em qualquer sociedade estável a honestidade traz consigo sua própria recompensa, ainda nesta vida. A lei divina, se obedecida, garantia a justa distribuição de comida em Israel. Considerada como um código de higiene, a lei divina garantia a Israel um padrão de saúde muito superior ao das terras vizinhas, como Filístia e Egito, onde pra­gas tinham caráter endêmico (15:26). O respeito pela velhice, em parti­cular pelos pais, garantia que os velhos tivessem lugar seguro e honrado na sociedade. Um psicólogo diria que, na estabilidade da vida conjugal israelita, as tensões e conflitos psicológicos eram virtualmente ausentes. Tudo isso, deve notar-se, não elimina a bênção prometida por Deus: mostra simplesmente a maneira pela qual vem a bênção divina. No en­tanto, quando esta regra geral é vista como um princípio universal, ou como independente da resposta do homem, faz surgir um problema teológico (o “sofrimento do justo”) enfrentado em Jó, Eclesiastes e al­guns salmos. Gradativamente, tornou-se claro aos escolhidos de Deus que as bênçãos divinas mais profundas são espirituais, e não físicas (Hb 3:17,18); isto nos traz ao despertar da era do Novo Testamento. 

27. Enviarei o meu terror. Esta frase explica o método que Deus iria usar para subjugar os cananeus diante de Israel: um pânico divino os acometeria. Como ilustração, ver Josué 2:11, que apresenta o relato que Raabe faz do terror da população sedentária de Canaã, diante da­quela horda de invasores. 

28. Também enviarei vespas. Esta frase pode ser entendida literal­mente. No sudeste asiático, por exemplo, poucas coisas são tão temidas quanto as vespas, e várias mortes são anualmente causadas por elas. Deuteronômio 7:20 e Josué 24:12 usam a mesma palavra hebraica no mesmo contexto. Parece melhor, entretanto, entendê-la metaforica­mente, quer como se referindo a uma praga, ou a um atacante qual­quer, quer humano ou sobre-humano. Por meio de ligeira alteração vocálica, alguns comentaristas traduzem o termo hebraico por “lepra” ou “desalento” (ver Hyatt); tais recursos parecem ser desnecessários, ísaías 7:18 usa “a mosca” como símbolo dos exércitos egípcios, e “a abelha” era um dos símbolos do exército assírio. Uma vez que a abelha ou vespa era um símbolo heráldico do Faraó, talvez a melhor expli­cação seja que “vespas” se refere ao exército egípcio, que atacava Ca­naã regularmente, e a enfraqueceu antes da chegada de Israel. 

29. Não os lançarei fora... num só ano. À primeira vista, o livro de Josué parece indicar uma conquista fácil e completa, ao passo que Juízes parece relatar uma luta renhida. Aqui, desde o princípio, além de a conquista ser apresentada como longa e gradativa, apresenta-se uma razão prática para tal demora. Quanto à possibilidade de multipli­cação de animais ferozes, ver 2 Reis 17:25, onde os leões representavam uma séria ameaça aos colonos “samaritanos” em Israel, os chamados “prosélitos do leão”. Na Malásia, durante a “emergência” comunista após a segunda guerra mundial, o número de tigres aumentou de ma­neira alarmante em algumas áreas, já que nenhum caçador tinha tempo livre e oportunidade de caçá-los. Outras razões para a natureza gradati­va da conquista são apresentadas em Juízes 2:20-3:4 (ensinar a gerações posteriores a arte da guerra: colocar à prova a sua fé, e assim por dian­te). 

31. Porei os teus termos. Estas são as fronteiras ideais de Israel, obtidas e possuídas apenas por um breve período nos reinos de Davi e Salomão, e possivelmente pela segunda vez durante os reinos contem­porâneos de Uzias (Judá) e Jeroboão II (Israel). 




O Mar Vermelho (literalmente “Mar dos Juncos”) deve se referir claramente ao Golfo de Aqaba (qualquer que seja a extensão da água mencionada no capítulo 14), porque é considerado a fronteira oriental, em oposição ao Mediterrâneo a oeste. O deserto é a fronteira meridio­nal, e o Eufrates é a fronteira ao norte. Na Bíblia, “o rio” é sempre “o grande rio”, ou seja, o Eufrates, tal como “o mar” é normalmente o Mediterrâneo. O Mar Morto, o Mar dos Juncos e o Mar da Galiléia são distinguidos por epítetos.

32. Não farás aliança. Este é o fim do “livro da aliança”, que apresenta os termos em que se firmava a aliança de Deus com Israel. O capítulo seguinte vai narrar o estabelecimento real da aliança de YHWH. Em vista da natureza exclusiva deste relacionamento, é apro­priado que este capítulo se encerre com a proibição de qualquer outra aliança, humana ou divina. Cláusulas semelhantes eram encontradas nos tratados da época.

33. Isso te será cilada. Como Driver ressaltou, cilada ou armadilha no pensamento hebraico é um símbolo não de queda em pecado, mas de queda para destruição: assim também “pedra de tropeço” no Novo Testamento. A advertência é, portanto, mais severa do que sugere o texto em português.






[1] Uma vez que leis “apodícticas” e “casuísticas” aparecem juntas, Noth e Alt atri­buem esta parte de Êxodo ao período subseqüente à conquista. 


[2] Seria a identificação do termo “hebreu” com o termo de sentido cultural mais am­plo Habiru ou 'Apiru. Hyatt rejeita este sentido, mas parece estar errado. 


‘3 Este fato, por si mesmo, não serve evidentemente como base para que se postule a existência de fontes distintas. Sobre o assunto como um todo, consultar Kenneth Kitchen (Ancient Orient and Old Testament).