24 de setembro de 2016

R. ALAN COLE - ALIANÇA E LEI (19:1 — 31:18) (Parte 1)

danilo moraes alan cole
III. ALIANÇA E LEI (19:1 — 31:18) (Parte 1)

a. A Preparação Para a Aliança (19:1-25)

19:1-15. As instruções.

1. No terceiro mês. “Na terceira lua nova” é uma tradução possível e preferível à vaga expressão “no terceiro mês” (SBB), em vis­ta da expressão “naquele dia” (“no primeiro dia” — SBB), logo a se­guir. Ver Hyatt em relação a uma possível conexão entre a doação da lei e a festa de Pentecostes.

2. Vieram ao deserto de Sinai. A palavra convencionalmente tra­duzida “deserto” não tem a conotação de uma região arenosa e árida; a palavra mais apropriada em português seria “sertão”, região de pasta­gens ainda não ocupada pelo homem. Este versículo deixa claro que a estepe do Sinai ficava diretamente defronte ao monte e a pouca distân­cia de Refidim, com a “estepe de Sim’’ já bem distante (17:1). O monte Sinai propriamente dito pode ser identificado com Gebel Músa, Gebel Serbãl ou õebel Katarina, três imponentes picos da região próxima. Uma interpretação detalhada da topografia depende da localização es­colhida para o monte. Acolhemos aqui a opinião tradicional de que Gebel Mûsa é a montanha em questão mas nenhum detalhe teológico de­pende da identificação exata, que pode não ter sido clara para os israeli­tas de tempos mais recentes.

Mais penetrante é a questão de o Sinai ficar ou não ao sul da península. Alguns estudiosos o localizam quer próximo a Cades- Barnéia a nordeste, ou em algum ponto da moderna Arábia, a leste do golfo de Aqaba. Os que preferem situar Sinai próximo a Cades-Barnéia o fazem porque consideram que as histórias narradas a esta altura de Êxodo pertencem á região de Cades (água extraída da rocha; codorní­zes; o conselho de Jetro). Certamente acontecimentos semelhantes apa­recem em Números, relacionados à região de Cades. Rothenberg men­ciona a possibilidade de Gebel-el-Halal, uma montanha mais baixa no “caminho de Sur’’, uma estrada bem movimentada entre o Egito e Ca­des. Outros sugerem um pico nas montanhas de Edom (Seir) a leste de Cades, na área da estepe de Parã. Citam, para apoiar sua escolha, pas­sagens poéticas em que Deus aparece vindo de Parã ou Edom para aju­dar Seu povo (Hc 3:3). Naturalmente, “Parã’’ pode ser a “Parã” men­cionada por Eusébio, o atual oásis de Feiran próximo a Refidim, em cu­jo caso Habacuque estaria se referindo ao Monte Sinai. Edom fica em linha reta entre Gebel Músa e Judá de modo que na visão do profeta Deus forçosamente teria de passar por sobre Edom. Uma objeção mais séria é que esta localização do Sinai ao norte da península, transforma em verdadeiro absurdo os detalhados itinerários de Êxodo e Números, onde Cades é atingida depois do Sinai, e fica a considerável distância do monte. Deuteronômio 1:2 afirma claramente que “Horebe” e Cades fi­cavam a onze dias de viagem um do outro. Além do mais, nenhuma destas montanhas ao norte possui o impressionante isolamento dos três picos ao sul já sugeridos na área do Sinai.

A localização do Sinai a leste do golfo de Aqaba depende da dupla crença de que o Sinai da revelação divina deve ter sido um vulcão ativo na ocasião (talvez próximo a Tebuk, conforme sugerido por Noth), a julgar pela descrição das manifestações que acompanharam a teofania, e, em segundo lugar, de que o monte ficava no centro da região midia­nita, que certamente ficava naquela região. Comentaristas, entretanto, ressaltam que é altamente improvável que tal grupo nômade jamais se deixasse persuadir a permanecer tão próximo a um vulcão em erupção. Seja qual for o caso, a descrição da teofania no Sinai não tem de se referir a um vulcão ativo (embora certos detalhes possam ter sido empres­tados de uma erupção vulcânica, em sentido simbólico) e 18:5 indica que Jetro teve de fazer uma longa viagem para atingir o Sinai. Além do mais, situar o Sinai a leste do golfo de Aqaba também implica em inva­lidar o cuidadoso itinerário (embora não tão completamente quanto a hipótese de Cades). Por estas razões, portanto, a localização tradicio­nal do monte Sinai é aqui aceita como pelo menos aproximadamente correta. (Para maiores detalhes ver o apêndice em Hyatt, pg. 203.)

3. YHWH o chamou. Este é o começo de uma grande seçãc didática (combinada com um fundo de narrativa) que se estende daqui, passando por Levítico, até Números 10. Toda ela parece ser doada no Sinai, num espaço de tempo comparativamente curto. Dali por diante a narrativa trata da viagem até Cades-Barnéia, incidentes no caminho, e acontecimentos subseqüentes. Curiosamente, poucos detalhes foram preservados do longo “período do deserto” (que na cronologia bíblica se estendeu por trinta e oito anos: cf Dt 2:14), mas este é o costume da historiografia bíblica. Longos períodos, se considerados espiritualmen­te insignificantes, ao passo que períodos mais curtos frequentemente re­cebem tratamento detalhado.

4. Como vos levei sobre asas de águia. Ver Deuteronômio 32:11. A águia em questão era provavelmente o abutre palestino, que circula incessantemente a grandes alturas, e é frequentemente mencionado em textos cananeus (literatura de Ras Shara). Ainda mais ligada a Deuteronômio é a idéia da natureza condicional da aliança — isto é, condicio­nal no que tange ao seu usufruto, pois a sua doação é incondicional. Apenas a obediência traria bênção, assegurando a posição e os pri­vilégios a Israel (vv. 5 e 6; cf Dt 13:4, 18). Inicialmente, tudo de que Is­rael precisaria para sua libertação do Egito fora aceitar a salvação ofe­recida por Deus. Agora aparece o conceito de que obediência, bem co­mo fé, é necessária. Não se trata de contradição: é uma explicação mais detalhada da natureza da fé como uma resposta a Deus. Tal ensino não é exclusivo de Deuteronômio: ele se encontra no coração do livro da aliança (caps. 20-23) e subjaz toda a lei de Moisés.

5. Sereis a minha propriedade particular. A palavra significa um,“tesouro particular”, algo que pertence particularmente a um rei (por exemplo, 1 Crônicas 29:3). O termo indica tanto valor especial quanto relacionamento especial. Deuteronômio 7:6 acrescenta a palavra “po­vo”, tornando o sentido ainda mais claro. A palavra também implica em escolha e seleção, em vista da segunda metade do versículo (“toda a terra é minha”), que equivale a uma declaração de monoteísmo (cf Gn 14:22). .

6. Reino de sacerdotes. Esta é a única ocorrência da expressão no Velho Testamento (Hyatt), embora Isaías 61:6 seja semelhante. Tal ex­pressão certamente implica na existência de um rei, e este rei só poderia ser YHWH. (Possíveis referências ao reinado de YHWH no período mosaico se encontram em Nm 23:21'e Dt 33:5.) Ao tempo dos Juízes era axiomático que, sendo YHWH a autoridade sobre Seu povo, ne­nhum mortal poderia reivindicar o título de “rei” (Jz 8:22). A ênfase da passagem, entretanto, não recai nisso; uma vez que a monarquia era a única forma de governo conhecida no mundo antigo, “reino” pode­ria ser traduzido hoje como “nação” ou “Estado”. A atenção é atraída para a condição sacerdotal atribuída a Israel. Isto se torna ainda mais compreensível em vista do fato que até aqui ainda não existia qualquer casta sacerdotal em Israel propriamente dito. Presumivelmente, o con­ceito básico é o de um grupo especialmente separado para possessão e serviço de Deus, com livre acesso à Sua presença. A idéia de Israel agir como representante divino no mundo e em favor do mundo não pode ser excluída. Quer cumprida ou não na época, esta deveria ser a missão de Israel (cf promessa final feita a Abraão em Gn 12:3). A escolha di­vina “especial” de Israel tinha um propósito “universalista” bem mais amplo.

Nação santa significa primariamente uma nação “separada” das outras nações para pertencer a Deus. Normalmente, em dias futuros, a palavra gôy, “nação”, viria a significar uma nação não-judaica (gen­tia), como no hebraico moderno uma outra palavra é usada para des­crever Israel, o povo escolhido de Deus. Até então, todos os povos ti­nham o mesmo status: o “povo escolhido” só viria a ser uma entidade depois do Sinai. A princípio, “santa” sem dúvida significava apenas “dedicada” a Deus, sem qualquer conotação moral particular. Tal “santidade” era contagiosa (19:12) e poderia ser perigosa, se não fatal. Assim, por causa da natureza revelada de YHWH, tal “santidade”, por ser descritiva de Deus, assumiu um significado fortemente moral. Por fim, a santidade divina passou a ser uma exigência moral constran­gedora sobre o Seu povo (ver Lv 20:7). Esta santidade do povo de Deus, bem como o sacerdócio do povo escolhido, é mais uma vez enfatizada nos termos da nova aliança (1 Pe 2:9).

São estas as palavras. Esta frase soa como se servisse de introdução para os dez mandamentos (cf 20:1). É mais provável, entretanto, que se refira às promessas que a precedem, e não aos mandamentos que a se­guem.

8. Tudo que YHWH falou, faremos. Esta é a necessária ratificação da aliança pela decisão do povo de cumprir as condições (cf 24:3). Não é errado perceber a típica ingenuidade humana na afoita afirmação fei­ta pelos israelitas. Sua confiança de que seriam capazes de cumprir tais condições é extremamente irônica em vista de seu redundante fracasso tão pouco tempo depois (cap. 32). Da mesma forma Simão Pedro (e to­dos os apóstolos) afoitamente refutaram a acusação de que viriam a ne­gar seu Mestre (Mt 26:35). Tal como Israel, eles ainda não conheciam sua própria fraqueza. Ao tempo de Josué, embora Israel ainda fizesse tais promessas fáceis, seus líderes eram mais relutantes em aceitá-las ao pé da letra (Js 24:19). Àquela altura, entretanto, eles já haviam apren­dido uma lição mais profunda, de que Deus podia perdoar e até mesmo usar seus fracassos (32:14). A mais profunda lição, entretanto, é a de que Deus precisa mudar a natureza do homem, ou ele jamais poderá servir ao Senhor (SI 51:10).

9. Numa nuvem escura. A expressão hebraica poderia ser traduzi­da idiomaticamente, “na parte mais escura da nuvem”. Nuvens e es­curidão eram símbolos freqüentes da presença divina. A razão de tal manifestação nesta ocasião parece ter sido no sentido de que o povo cresse na realidade da comunicação entre Deus e Moisés, e viesse assim a crer tanto em Moisés quanto em Deus. Se, como é bem possível, a nu­vem escura era uma nuvem de trovoada, o verbo ouvir pode ser enten­dido literalmente, descrevendo o som do trovão, que é usado freqüentemente no Velho Testamento como símbolo da voz de Deus.

11. No terceiro dia. Provavelmente para indicar a totalidade do processo de purificação. O processo necessário à purificação ritual, ou separação para Deus, incluía a lavagem das vestes e abstenção tem­porária de relações sexuais (cf Nm 8:21 e v. 15 abaixo, respectivamen­te). Isso não se devia ao fato de estas serem consideradas algo de errado mas porque, segundo a lei mosaica, elas requeriam como conseqüência uma lavagem cerimonial para purificação religiosa (Lv 15:18). Pode­mos, entretanto, comparar esta passagem com as palavras de Paulo em 1 Coríntios 7:6, permitindo abstenção temporária para que o casal cris­tão se devote à oração.

YHWH... descerá. A terceira pessoa parece estranha ao ser usada pelo próprio Deus. Talvez devêssemos ler, com uma simples correção do texto massorético “eu descerei” em vez de “(ele)... descerá”. Con­forme Davies destaca, o verbo é bastante significativo: Israel jamais pensou que YHWH vivesse no Sinai (à maneira dos gregos que pensa­vam que seus deuses viviam no pico nevado do Monte Olimpo), mas apenas que Ele se manifestava ali. Muitos outros lugares foram igual­mente associados com manifestações divinas nos dias dos patriarcas (por exemplo, Betel, Gn 28).

12. Marcarás em redor limites. Este verbo, tal como aparece no texto, tem como objeto o povo; os israelitas estavam confinados a seu acampamento. O Pentateuco Samaritano, entretanto, talvez esteja cor­reto ao apresentar como objeto, em lugar do “povo”, a montanha. A área da montanha propriamente dita foi isolada com marcos de alguma espécie. Uma vez que o monte era sagrado (não permanentemente, ou em si mesmo, mas nesta ocasião, devido à descida de Deus), qualquer coisa ou pessoa que tocasse o monte também se tornaria “santo”, ou devotado a Deus. Para um ser vivo isso implicava em sacrifício, que por sua vez significava morte.

13. Mão nenhuma tocará neste. Para que os executores da pena de morte não fossem apanhados na mesma rede, quem violasse a regra aci­ma teria de ser morto por flecha ou pedra, para que aqueles não tocas­sem o corpo condenado. Este conceito, bem como a abundância de pe­dras em Israel, provavelmente justifica o apedrejamento como método normal de execução de criminosos em Israel.

A buzina. Em hebraico yôbêl (e daí o termo “jubileu”) é provavelmente o chifre do carneiro, cujo som viria a marcar o advento de uma das festas religiosas instituídas mais tarde em Israel. Talvez, entretanto, em tempos mais antigos, seu propósito era anunciar a aparição divina, tanto para salvar quanto para destruir (cf Js 6:8, o soar das trombetas em Jericó, e Ap 8:6, as sete trombetas do juízo).

19:16-25. A teofania.

16. Quer o Monte Sinai fosse um vulcão ou não, este versículo se refere bem explicitamente a trovões, relâmpagos e a nuvem de tempes­tade, todos os elementos presentes numa tempestade elétrica, comuns em certas épocas do ano sobre aquelas montanhas. O terror dos israeli­tas diante da manifestação divina é um motivo que voltaria a ser empregado mais tarde.

18. Fogo. Fica subentendido que se trata do fogo “de Deus” (conforme expresso em 2 Rs 1:12). Pode ser aqui uma referência a relâmpagos. Fogo na vegetação rasteira também era muito temido naquela região árida e poderia ser um símbolo de Deus (como o terremoto e o furacão, 1 Rs 19:11,12) mas este não parece ser o caso aqui, a despeito da menção da fumaça. Comentaristas que gostam de harmonizar po­dem dizer que os relâmpagos teriam causado o fogo no mato, mas isso seria impossível se fossem acompanhados de chuva e tempestades elétricas. O fenômeno como um todo se compara à visão de uma grande fornalha, de fundição, em que o fogo e a fumaça escapam por uma cha­miné cônica. Os que adotam a hipótese midianita/quenita tiram o máximo proveito desta símile, como se derivada das atividades me­talúrgicas dos quenitas. É sabido que havia minas de cobre em Arabá, presumivelmente em território midianita. Tal fornalha de fundição se­ria, portanto, um objeto bem conhecido de Moisés. A símile, entretan­to, é tão antiga quanto as narrativas de Gênesis (cf Gn 19:28, a des­crição da destruição de Sodoma e Gomorra por atividade vulcânica).

E todo o monte tremia grandemente. Os que sustentam a tese de que o Sinai era vulcânico, apontam como prova para o fogo e a fu­maça, bem como para o terremoto implicito no verbo tremer (a mesma palavra usada em relação aos israelitas no v. 16). O todo, contudo, po­de ser metafórico, uma pintura “impressionista” do efeito de uma for­te tempestade elétrica (ver SI 18:1-15). A LXX (e 9 manuscritos hebrai­cos) evita o problema tornando “o povo” sujeito de “tremia grande­mente”, e não de “monte” — o inverso do processo sugerido acima no versículo 12.

19. Moisés falava e Deus lhe respondia. Esta pode ser a razão por que Moisés foi descrito mais tarde como aquele com quem Deus falava face a face (33:11). A resposta divina era explicitamente dada no tro­vão, pelo menos nesta ocasião. Estaria Moisés falando no sonido do chifre de carneiro, ao qual o trovão respondia? O texto, contudo, pode simplesmente indicar que Moisés falou a esta altura da narrativa.

21. Para que não traspasse o termo. O perigo era que o povo rom­pesse as barreiras artificiais que o separavam do monte: o controle de multidões não é um problema novo. O motivo de tal ação teria sido cu­riosidade pura e inconseqüente, desprovida de qualquer desejo de che­gar mais próximo a Deus. Alguns estudiosos pensam que os versículos que se seguem são repetitivos e desnecessários, vendo neles descrições do mesmo acontecimento vindas de diferentes fontes. Tal opinião, en­tretanto, equivale a ignorar o antropomorfismo e o estilo despojado do Pentateuco, especialmente em seções narrativas, que levam freqüentemente a repetições.

22. Os sacerdotes. Não há qualquer prova da existência de sacerdo­tes em Israel antes do Sinai. Em 24:5 são os “jovens” que oferecem sacrifícios. Talvez a palavra represente “os anciãos”, aos quais já fizemos referência (18:12) num contexto religioso. Se a palavra “sacer­dotes” for mantida com seu sentido literal pleno, sejam eles quem fo­rem, a ênfase do versículo é que, em ocasião tão solene, até mesmo aqueles que desfrutam de um relacionamento particularmente íntimo com Deus precisam se purificar, ao invés de se considerarem imunes em virtude de sua posição.

24. E Arão contigo. Normalmente Moisés sobe à montanha sozi­nho: em 24:1, todavia, ele é acompanhado por Arão (juntamente com Nadabe, Abiú e setenta anciãos de Israel).

25. E lhes disse. A sentença termina abruptamente. As palavras de Moisés se perderam (“tudo isso” na SBB não consta do texto hebrai­co), a não ser que a referência seja a uma linguagem indireta no capítu­lo 20.



b. Os Dez Mandamentos (20:1-17)

Com referência a toda esta divisão do livro, consultar a excelente discussão de Hyatt, especialmente quanto à natureza dos mandamen­tos. Esta breve passagem é um dos pontos focais da Torah (sendo o ou­tro a instituição da Páscoa no cap. 12) e, sem dúvida, de todo o Velho Testamento. Os estudiosos diferem em sua opinião sobre se “as dez palavras” (para usar a típica fraseologia hebraica de 34:28) são como que o cerne da Torah, em torno do qual todo o resto pode ser agrupado co­mo uma expansão, ou se são como que uma destilação da Torah, um resumo do todo em umas poucas sentenças lúcidas. O livro de Êxodo nos deixa com a impressão de que a primeira alternativa é a realidade bíblica: “as dez palavras” são ao mesmo tempo o princípio e o coração da revelação mosaica. Em torno das “dez palavras” é possível agrupar a maioria das provisões do livro da aliança nos capítulos 21 a 23, e em torno do livro da aliança, por sua vez, agrupar o resto da Torah.

Para fins de descrição a Torah pode ser, e frequentemente o é, hoje em dia, dividida em vários “códigos” legais (embora não haja qualquer prova de que estes tenham jamais existido separadamente). O chamado “livro da aliança” (caps. 21-23) e o livro de Deuteronômio, por exem­plo, são unidades independentes óbvias. Pelo menos sete códigos já fo­ram isolados. Destes, os dez mandamentos ou “dez palavras” consti­tuem o mais importante e fundamental. Eles aparecem duas vezes no Pentateuco (Êx 20 e Dt 5), com ligeiras variantes nas adições explanatórias aos mandamentos, sugerindo que embora tais explicações pos­sam ser mosaicas, não faziam parte do todo original. Este ponto de vis­ta é reforçado por outras considerações. A lei israelita é de há muito di­vidida em apodíctica (também chamada “categórica”) e casuística. O primeiro tipo é uma ordem abrupta e absoluta (normalmente em forma negativa) que não admite exceções, ao passo que o segundo tipo começa com “se” ou “quando”. Este último é bem conhecido fora de Israel nos códigos legais da Ásia Ocidental antiga, sendo geralmente conside­rado lei ditada pelas circunstâncias, decisões posteriores dependentes de grandes princípios antigos. O primeiro tipo (raro fora de Israel) incor­pora estes princípios e pode, portanto, ser considerado mais antigo a priori. É a severa lei do deserto, que não dá razões para suas ordens e não permite exceções ou argumentos.

Parece provável, portanto, que os mandamentos antecedam o res­to da lei, e que o formato original dos mandamentos, gravados em duas tábuas de pedra (talvez, como sugerido, e como era comum naquela época, com uma tábua sendo cópia da outra), fosse simplesmente a frase categórica “Não...” sem qualquer explicação adicional. Alguns estu­diosos hiper-críticos afirmam que tanto os dez mandamentos quanto o livro da aliança aparecem mais ou menos abruptamente, quebrando o fluxo da narrativa, que é retomado imediatamente depois (cap. 24). Com base nisso, portanto, separam os mandamentos da teofania no Si­nai e da celebração da aliança que se segue, aos quais eles atribuem céntralidade na narrativa. Adotar tal ponto de vista, entretanto, é ignorar a ênfase de Êxodo, o fato de que Deus Se revela precisamente nestes preceitos morais. Para Israel, o “livro da aliança” é uma definição dos termos em que Deus, como um grande monarca, aceita Israel por Seus súditos num “tratado de suserania” (ver as notas sobre o livro da aliança, 20:18-23:33, abaixo). Devemos aceitar, portanto, tanto os mandamentos quanto o livro de aliança como partes integrais da forma final da narrativa em que se acham encravados.

Outros estudiosos argumentam que os mandamentos não têm li­gação com o grande tema do êxodo do Egito (ou com a libertação na Páscoa, se o acontecimento for visto por outro ângulo). Contudo, se o preâmbulo em 20:2 for tomado ao pé da letra (e não há razão em contrário), então os dez mandamentos como um todo se encaixam com o contexto de rendenção... Por causa de Sua obra redentora Deus tem o direito de decretar a lei.

O problema da numeração dos mandamentos é interessante. Há uma tradição universal antiga de que havia dez (como prova o título co­mum), embora nesta tradição não haja acordo quanto à maneira de di­vidir o material de modo a produzir dez mandamentos. Não parece ha­ver qualquer noção de santidade atribuída ao número dez, embora os hebreus, tal como a maioria da humanidade, adotassem o sistema de numeração de base dez, talvez porque o fato de possuirmos dez dedos facilitasse o trabalho. A instituição do “dízimo” (Gn 28:22) mostra co­mo essa base dez poderia assumir um sentido religioso.

Doze seria o número óbvio a escolher, em vista do sistema tribal adotado pelos primitivos israelitas: por isso, se dez é o número tradicio­nal, deve ser o original. Outros grupos de dez ou doze mandamentos aparecem em outras partes da Lei: Noth cita Êxodo 34:14-26 e Deuteronômio 27:15-26 como exemplos, mas sua matemática é um tanto ou quanto artificial. Êxodo 34 (onde Noth bem podia ter começado com o prólogo no versículo 11) é o chamado “decálogo ritual”. Õ título é apropriado já que o escopo da passagem não é (como no caso das “dez palavras”) alistar princípios morais, mas apresentar as formas religio­sas externas pelas quais tais prinnpios podiam ser expressos. A passa­gem será comentada no capítulo apropriado mais adiante.

Uma última pergunta geral trata do lugar dos dez mandamentos na vida religiosa já organizada em Israel em períodos futuros. A história da páscoa era, sem dúvida, contada por ocasião da festa anual a ela relacionada: mas os dez mandamentos, quando seriam recitados? É bem claro que foram compostos em forma apropriada à recitação. Os que sustentam a hipótese de que Israel celebrava anualmente uma festa de “renovação da aliança”, por ocasião da qual comemoravam o senhorio de Deus sobre Israel, pensam que esta seria a ocasião propícia para a proclamação dos termos da aliança. Embora seja um fato consumado que o judaísmo mais recente celebrasse anualmente por ocasião de Pen­tecostes a adoção da Lei, não há, na opinião do autor, evidência bíblica suficiente para justificar a pressuposição de tal festa anual de reno­vação da aliança. No entanto, a Escritura deixa bem claro que tais re­novações aconteciam de vez em quando: por exemplo, em Siquém, de­pois da conquista (Js 8:30-35); novamente em Siquém, antes da morte de Josué (Js 24), bem como mais tarde, no período dos reis (2 Rs 23:1­3). Tais ocasiões certamente seriam apropriadas, mas dificilmente se­riam as únicas ocasiões em que os mandamentos eram lidos ou recita­dos em público. A história deixa bem claro que eles eram conhecidos de todo israelita (mesmo quando violados).

1. Todas estas palavras. No hebraico, palavras é deliberadamente ligado ao verbo falar, com o qual o versículo começa. A ênfase é que es­tes mandamentos são palavras de revelação divina. Em primeiro lugar em importância está sua origem, depois seu propósito e só então seu conteúdo, embora este seja naturalmente governado pela natureza de Deus. Já se disse, acertadamente, que os mandamentos são a natureza de Deus. Já se disse, acertadamente, que os mandamentos são a nature­za de Deus expressa em termos de imperativos morais: o fato de Deus ter escolhido Se revelar desta maneira, ao invés de fazê-lo mediante proposições filosóficas, é bastante significativo. Assim, para o israelita, Ele é o Deus da história (v. 2) e do cotidiano (vv. 13 ss.), e não um sim­ples Deus de especulações. Isto não implica em que filosofia e especu­lação sejam ilegítimas, mas elas não constituem os canais básicos para um conhecimento correto de Deus, e podem se basear apenas no que Deus fez e disse.

2. Eu sou YHWH... que te tirou. No judaísmo, este é o primeiro mandamento, exortando à crença em Deus e não simplesmente uma crença geral em Deus, mas crença no Deus vivo que havia agido em fa­vor de Israel. Para chegar ao número tradicional de dez, o judaísmo agrupa os versículos 3 a 6, fazendo o segundo mandamento proibir a adoração de outros deuses, e o uso de imagens de qualquer espécie, quer fosse do Deus verdadeiro ou de falsos deuses. Os teólogos católicos também agrupam tradicionalmente os versículos 3 a 6, considerando- os, entretanto, o primeiro mandamento. Para atingir o número exigido dividem o último mandamento em dois. A tradição judaica mais anti­ga, representada por Filo e Josefo, adota a posição seguida pela maio­ria dos teólogos protestantes, de que este versículo inicial é o prefácio ou preâmbulo, comum às alianças seculares da época, sendo a base e a razão de tudo que se segue. Não há nenhuma questão teológica envolvi­da: a divergência como um todo sugere que, embora o número dez seja tradicional, a divisão e distribuição de seu conteúdo de modo a perfazer o total de dez, são incertas. Podemos comparar incerteza semelhante no que tange aos nomes exatos dos doze apóstolos, ou às dificuldades ma­temáticas na tentativa de identificar doze, e apenas doze, nomes de tri­bos em Israel.

Seja qual for a forma literária desta sentença, afirmação ou mandamento, é a base dogmática de toda a fé israelita posterior. Envolve a grande auto-revelação divina contida no nome YHWH, que afirma em termos diretos a personalidade de Deus: o versículo também o revela como um Deus vivo, dinâmico e ativo na história de Israel. Os versícu­los seguintes irão demonstrar que Sua natureza só pode ser entendida pelo homem em termos morais. Assim, temos aqui um resumo da fé is­raelita: um Deus que comunica e um Deus que age.

Além disso, esta sentença é muito valiosa como elo de ligação entre o tema do êxodo e o tema do Sinai: por isso, não pode ser descartada como uma edição editorial. Nossa compreensão recente do processo formativo de alianças na Ásia Ocidental antiga (ver Mendenhall, Lei e Aliança em Israel e no Oriente Médio Antigo) mostra conclusivamente que tal auto-proclamação era parte integral da formação de qualquer aliança. Embora as provas fornecidas por Mendenhall sejam principal­mente de fontes hititas, não há dúvida de que os hititas simplesmente reproduziram o que já era um padrão largamente adotado em toda aquela região. O “grande rei” afirmava sua identidade, t reisumia o que fi­zera em favor do candidato a vassalo, prometia proteção futura e, com base nisto, exigia lealdade exclusiva e decretava certas obrigações para seus súditos. Freqüentemente, listas de bênçãos e maldições eram adi­cionadas: estas também nos são familiares no Velho Testamento. Isto não significa que a lei israelita estivesse deliberadamente imitando os tratados de suserania dos hititas, mas que ambos reproduzem fielmente os padrões literários e estruturais comuns na época, tal como as epísto­las de Paulo apresentam semelhança formal e externa à estrutura das cartas seculares de seu tempo. Podemos assim dizer que esta frase intro­dutória, tão rica em significado, é parte integral do que se segue, quer a chamemos de preâmbulo ou de primeiro mandamento. A lei é, desde sua origem, firmemente assentada num contexto de graça.

3. Não terás outros deuses. Possivelmente “nenhum outro deus”, se o plural aqui empregado for o chamado “plural de majestade”, tal como sempre o é ao descrever YHWH. Tem havido constante debate sobre se a fé israelita era verdadeiro monoteísmo, já que poderia visua­lizar a possibilidade de outros deuses a servir. Discutir sobre isso, entre­tanto, é esperar uma auto-análise excessiva: monolatria (a adoração a um único Deus) é o que se exige expressamente de Israel aqui. Israel vi­via em meio de um mundo politeísta: esta proibição sucinta trata de um dos perigos advindos de se viver em tal mundo. Estes mandamentos eram destinados, em última análise, ao israelita médio, não à elite reli­giosa da época: vêm expressos em termos simples e fortes, com­preensíveis a todos, e tratam das tentações do homem comum, não as do teólogo.

Diante de mim. Literalmente “à minha face”. Esta frase vagamen­te incomum também parece ser usada em relação ao ato de tomar uma segunda esposa enquanto a primeira ainda estivesse viva. Tal uso, de uma quebra de um relacionamento pessoal exclusivo, ajuda a explicar o seu significado aqui. A frase está relacionada à descrição de YHWH co­mo um “Deus zeloso”, no versículo 5. Alguns comentaristas modernos sugerem que “diante de YHWH” ou “a presença de YHWH” no res­tante da Torah são referências ao; altar de YHWH (23:17). Vêem, por­tanto, uma referência ao culto israelita: nenhum outro deus pode ser adorado simultaneamente com YHWH num santuário comum, como era de praxe, por exemplo, na religião cananita. Não há dúvida de que isto é verdade, mas parece ser uma explicação inadequada. Seja qual for, porém, a maneira de encararmos os detalhes da passagem, seu sen­tido principal é claro: por causa da natureza de YHWH e do que YHWH fez por Israel, Ele não dividirá Seu louvor com quem quer que seja: Ele é único. Consulte Hyatt com respeito a outras interpretações da frase.

4. Imagens de escultura. O hebraico significa algo talhado ou es­culpido à semelhança de alguma outra coisa. Aqueles eram dias primiti­vos; tais ídolos eram feitos normalmente de madeira (embora a palavra também englobe escultura em pedra), sendo também comum o revesti­mento com algum metal precioso. A imagem de “fundição” também é implicitamente proibida (34:17), mas não é mencionada aqui por per­tencer a um período mais recente (cf. no entanto o bezerro de ouro, 32:4).

Surge aqui uma pergunta quanto à forma original dos mandamen­tos, em vista das repetidas cláusulas explanatórias neste versículo, e da motivação no versículo 5. A julgar pelas diferenças mínimas ao mate­rial explanatório encontrado em Deuteronômio 4, a forma original des­tes mandamentos apodíticos era simplesmente a frase curta e aguda, “não...”. Portanto, a forma original e essencial deste mandamento consistia apenas das quatro primeiras palavras hebraicas, traduzidas pelo português “não farás para ti imagens de escultura”. Semelhante­mente, no versículo seguinte, o centro do mandamento parece ter sido “não as adorarás”. Isto significa que os mandamentos eram frases breves e pungentes, facilmente escritas em pequçnas tábuas de pedra que coubessem na palma da mão.

Esta condenação de imagens claramente inclui imagens do Deus verdadeiro, pois é bem certo que algum tipo de imagem estivera em uso entre os ancestrais de Israel (até mesmo a tradição judaica ortodoxa ad­mite que Tera, pai de Abraão, era um fabricante de imagens). Os ídolos domésticos (terafim) de Labão poderiam, é verdade, ter mais valor le­gal do que significado religioso, mas os que Jacó escondeu debaixo do carvalho no “santuário” em Siquém eram com toda certeza objetos re­ligiosos (Gn 35:2-4). Isto aconteceu antes da doação da lei: mesmo de­pois disso, imagens não eram algo estranho em Israel (ver Jz 8:27, Gideão; Jz 17:4, Mica; 1 Sm 19:13, Davi).[1]Todavia, a existência de ima­gens mais tarde em Israel não prova a inexistência de leis contra seu uso.

A arqueologia mostra claramente que a horda que destruiu a maior parte da cultura cananita no século treze A.C. era basicamente “anicônica”, isto é, não usava imagens em seu culto. Freqüentemente se ar­gumenta que os cherubim acima da arca eram tais imagens, mas eles eram muito mais simbolos dos seres angélicos que servem a Deus do que objetos de culto; eram como os guardiães do templo nos portões de um santuário assírio. Eram o trono para a presença invisível de Deus que sobre eles pairava. Contudo, se a fabricação dos querubins fora permitida, então a proibição de imagens se refere apenas à fabricação direta de objetos de culto, não à representação de um objeto ou ser vivo qualquer, conforme se entendeu mais tarde. O judaísmo mais estrito e o islamismo se limitaram exclusivamente a desenhos e padrões abstratos em todas as formas de arte. Além disso, pelo uso de parataxe (a colo­cação de duas idéias lado a lado, ao invés do uso de uma ligação lógica entre as duas, como em sintaxe) em hebraico, este mandamento deve ser intimamente relacionado ao que o precede imediatamente, de modo que a tradução do sentido da passagem seria “Não terás outros deuses na minha presença; jamais farás tais imagens” (isto é, de tais deuses). Além dos querubins, a lei ordena o bordado de lírios, romãs e outros objetos naturais nas cortinas do tabernáculo, de modo que não pode ter havido uma proibição completa da representação de objetos naturais em dias primitivos.

Este fato levanta a questão de por que tais imagens-representações do Deus verdadeiro (mesmo em forma humana) eram proibidas. A provável razão talvez seja o fato de que nenhuma semelhança seria ade­quada, e que cada tipo de imagem provocaria um novo tipo de falsa compreensão de Deus. Por exemplo, touro era um símbolo de força, mas também de virilidade e poder sexual: tal associação seria blasfema para o israelita. As nações que retratavam seus deuses em forma huma­na atribuíam com excessiva rapidez suas próprias fraquezas humanas aos protótipos divinos. Para o israelita, o homem fora criado à imagem de Deus, à Sua semelhança (Gn 1:26), mas isso não significava enfatica­mente que Deus fosse igual ao homem (Is 55:9). A localização e mate­rialização de Deus também era outro perigo inerente à idolatria. Mes­mo Israel, em dias futuros, viria a crer que a presença de Deus estava localizada e contida na arca ou no templo; quanto mais o teriam feito se tivesse existido uma imagem? Finalmente, teria havido o perigo das ten­tativas semi-mágicas de aplacar ou controlar Deus através da posse de uma certa localização de Sua presença, como podemos ver em relação à arca em 1 Samuel 4:3.

Em Deuteronômio 4:12, a razão apresentada é o fato de que no Si­nai Israel não vira qualquer forma ou semelhança: o povo havia apenas ouvido a voz de Deus. A isso corresponde o papel dominante exercido ao longo de toda a história da fé israelita pela “palavra de YHWH” falada ou escrita.

5. Um Deus zeloso. A palavra “zeloso” é uma tradução acertada pois a pálavra “ciumento” tem uma conotação negativa hoje em dia. No Velho Testamento, tal como “amor” e “ódio” (Ml 1:2,3), “zelo” (ciúme) não se refere a uma emoção mas a uma atividade, neste caso uma atividade de violência e veemência, que brota da ruptura de uma li­gação pessoal tão exclusiva quanto o vínculo matrimonial. Não se trata aqui, portanto, de intolerância mas de exclusividade, fruto tanto da sin­gularidade de Deus (que não é um entre muitos) e a singularidade de Seu relacionamento com Israel. Marido algum que tenha realmente amado sua esposa toleraria reparti-la com outro homem: da mesma forma, Deus jamais repartiria Israel com um rival.

Até à terceira e quarta geração. Esta é uma frase tipicamente semi­ta que indica continuidade e não deve ser tomada em sentido aritméti­co. Além disso, a frase se aplica aos que aborrecem (odeiam) a Deus, que se recusam a viver em consonância com Sua vontade. Já que este mundo pertence a Deus, e já.que estamos todos envolvidos uns com os outros, qualquer violação da lei de Deus numa geração fatalmente irá afetar as gerações futuras. Escravidão, exploração, imperialismo, po­luição e imoralidade são todos exemplos deste princípio. O que chama­mos de “resultados naturais” são apenas uma expressão da lei de Deus em atividade, punindo a desobediência à Sua vontade.

6. E faço misericórdia. No hebraico, yesed, uma palavra carac­terística da aliança (cuja tradução mais exata seria, “amor leal”). Pelos padrões semitas de linguagem, a ênfase da frase está na segunda parte.É verdade que Deus punirá os que não se conformam à Sua vontade, mas o aspecto negativo é apenas a moldura para o aspecto positivo. Mais uma vez, o teste do amor é “guardar os meus mandamentos”, de­monstrando ainda mais claramente a Israel que amor/ódio é mais atitu­de e atividade do que simples emoção. A palavra milhares é usada vaga­mente, como “miríades” em português, para indicar a extensão ilimita­da da misericórdia demonstrada por Deus.

7. Não tomarás... em vão. No judaísmo mais recente, esta proi­bição envolvia qualquer uso impensado e irreverente do nome YHWH. Este só era pronunciado uma vez por ano, pelo sumo-sacerdote, ao a­bençoar o povo no grande Dia da Expiação (Lv 23:27). Em sua forma original, o mandamento parece ter-se referido a jurar falsamente pelo nome de YHWH (Lv 19:12). Este parece ser o verdadeiro sentido do texto hebraico. A lei permitia abençoar e amaldiçoar em nome de YHWH (Dt 11:26): isso equivalia virtualmente a proclamar Sua vonta­de e Seu propósito para com várias classes de indivíduos. Jurar pelo Seu nome era, então, permitido, embora fosse proibido por Cristo, séculos mais tarde (Mt 5:34). Na verdade, jurar pelo Seu nome (e não pelo de qualquer outro deus) era um sinal de que tal pessoa era um adorador de YHWH (Jr 4:2), e por isso era algo digno de louvor.

Uma razão mais profunda para tal proibição pode ser vista no fato de que Deus era a única realidade viva para a mentalidade israelita. É por isso que Seu nome era sempre envolvido nos votos e juramentos, normalmente na fórmula “tão certo como vive o Senhor” (2 Sm 2:27). Usar tal frase e depois deixar de cumprir o voto era questionar a reali­dade da própria existência de Deus.

Pois YHWH não terá por inocente. A explicação, embora correta, provavelmente não fazia parte do abrupto mandamento apodíctico ori­ginal.

8. Lembra-te do dia de sábado. Compare 16:23,26. O mandamen­to sobre o dia de descanso é o primeiro a ser formulado positivamente, embora ainda breve e apodíctico. O versículo 12 contém o único outro mandamento positivo na lista, embora no restante da lei esta forma não seja incomum (uma forma de mandamento positivo intimamente rela­cionada se encontra em Gn 9:6). Esta mudança de um mandamento ne­gativo para outro positivo não é desconhecida em códigos antigos, mas se quisermos descobrir uma forma negativa para este mandamento, por amor à coerência, ela se encontra no versículo 10, “não farás nenhum trabalho”. Deuteronômio 5:12 é bem semelhante ao versículo 8, embo­ra empregue “guardar” em lugar de “lembrar”. Por outro lado, a ra­zão apresentada em Deuteronômio para a observância do sábado é completamente diferente, como veremos no versículo 11.

11. YHWH... ao sétimo dia descansou. A razão da observância do sábado apresentada em Êxodo é que ele serve como um memorial do descanso de Deus depois de Sua grande obra criadora. Deuteronômio 5:15 considera o sábado uma comemoração do descanso oferecido aos escravos israelitas no Egito, quando libertados por YHWH, e (como é típico em Deuteronômio) como uma oferta de oportunidade de “des­canso” semelhante aos escravos dos israelitas (Dt 5:14). Estas expli­cações não são mutuamente exclusivas, já que ambas tratam de descan­so; por outro lado, tendem a reforçar a tese de que a forma reduzida do mandamento era a original, talvez simplesmente “Lembra-te do dia de sábado”. Seja qual for o caso, na observância do sábado, como em to­das as outras festas religiosas de Israel, o que se comemora é um ato de Deus. Um acalorado debate vem se desenvolvendo em torno das ori­gens e data da observância do sábado: comentaristas judaicos mais re­centes se esforçaram ao máximo para encontrar prova dessa observân­cia no período patriarcal, mas a não ser na Lei, as referências mais anti­gas são 2 Reis 4:23 e Amós 8:5. A passagem em Reis sugere que tanto culto quanto interrupção de trabalho eram costumes antigos relaciona­dos ao dia (como certamente o eram em dias pós-exílicos). Paralelos em literatura babilónica não são de grande valia: os sétimos dias corres­pondentes eram lá considerados meramente “dias de má sorte” para negócios, embora tal conceito possa ter se derivado de um significado religioso. É bem provável que as origens do sábado (como as origens do dízimo e da circuncisão) se estendam até bem antes da doação da Lei, mesmo que não haja referência bíblica direta à sua observância.

12. Honra a teu pai e a tua mãe. Tal como o versículo 8, este é um mandamento categórico formulado positivamente. O mesmo princípio sob outra forma pode ser encontrado em 21:15,17: “Quem ferir/amaldiçoar seu pai ou sua mãe, será morto”. Este é chamado “o primeiro mandamento com promessa” (Ef 6:2), e assim o é, no sentido mais es­trito da palavra, embora o versículo 6, onde Deus demonstra “o amor da aliança” aos que O amem e obedeçam, também seja virtualmente uma promessa. A promessa divina, contudo, é mais clara aqui, produ­zindo seus resultados na sociedade. Os que constroem uma sociedade na qual a velhice ocupa lugar de honra podem esperar confiantemente desfrutar do mesmo lugar algum dia. Tal doutrina não é muito popular em nossos dias, quando a juventude é adorada, e a velhice temida ou desprezada. O resultado é a loucura que leva homens e mulheres a luta­rem por permanecer eternamente jovens, e acabar descobrindo ser isso impossível. Este mandamento é parte da atitude geral para com a Velhi­ce em Israel (como símbolo e, idealmente, personificação da sabedoria prática da vida), elogiada em todo o Velho Testamento (Lv 19:32), c en­contrada em muitos outros povos antigos, notavelmente entre os chineses. Não se pode precisar se o mandamento está relacionado à idéia de que sendo a vida sagrada e dom de Deus, os doadores humanos da vi­da devem ser tratados com respeito: talvez um israelita não analisasse o mandamento deste modo. 

Para que se prolonguem os teus dias. Às vezes, indivíduos supersensíveis questionam a validade de uma promessa ligada a um manda­mento. O hebraico, entretanto, não implica necessariamente em que a bênção prometida seja nosso motivo para obedecer o mandamento, ao passo que assegura denifitivamente qual seja o resultado de tal obediên­cia. Outros questionam a natureza material da promessa. Em dias do Velho Testamento, todavia, as promessas divinas eram normalmente formuladas em termos materiais, compreensíveis para aqueles que, por assim dizer, ainda estavam no jardim-de-infância de Deus. Para aque­les que, até àquela altura, não tinham conhecimento definido de uma vida futura, “dias prolongados” significavam possibilidade de conti­nuada comunhão com Deus, e eram por isso muito importantes. Por outro lado, alguns consideram esta promessa como um seguro de pro­priedade da terra que Deus lhes daria: isto, por sua vez, traria glória a Deus, por demonstrar Sua fidelidade às Suas promessas. Nós, com re­velação mais completa, podemos “espiritualizar” tal promessa sem esvaziá-la de seu conteúdo. Este mandamento é o ponto em que a a­tenção é desviada do relacionamento para com Deus e se concentra no relacionamento com a comunidade que Ele criou. Assim, o conteúdo total dos dez mandamentos pode ser resumido em duas “palavras”, não uma apenas: amor a Deus e amor ao nosso próximo (Dt 6:5; Lv 19:18). Mais uma vez, não há contradição: a realidade de nosso amor declarado a Deus é demonstrada pela realidade de nosso amor expresso para com nossos semelhantes (Jr 22:16).

13. Não matarás. Os três próximos mandamentos são lei apodícti­ca em sua forma mais concisa. O hebraico emprega apenas duas pala­vras. O termo hebraico rãsah é uma palavra comparativamente rara pa­ra “matar” e normalmente indica o assassinato violento de um inimigo pessoal (Hyatt): “Não assassinarás” é uma tradução viável. O manda­mento é pronunciado da forma mais geral possível, mas a lei claramen­te distinguia entre o assassinato propriamente dito e o homicídio aci­dental ou não premeditado (21:12-14). Evidentemente este mandamen­to jamais foi entendido pelos israelitas como uma proibição à pena de morte (21:15), embora esta normalmente seja expressa por um verbo correspondente a “morrer”, e não pelo verbo “matar”. Além disso, não havia pacifistas ao tempo do Velho Testamento. Quer a luz da re­velação mais completa no Novo Testamento exija tais conclusões ou não, estas não podem ser provadas exclusivamente a partir do Velho Testamento. Como no versículo 16, a proibição parece ser destinada a evitar o assassinato do “próximo”, um membro da mesma comunidade da aliança. Em qualquer caso, a santidade da vida, como dom de Deus, é estabelecida: daí a “culpa do sangue” ser uma realidade terrível, des­de o tempo de Caim (Gn 4:10).

14. Não adulterarás. A Lei permitia poligamia (talvez uma insti­tuição social necessária à proteção de mulheres solteiras), mas jamais permitiu poliandria (caso em que uma mulher tem vários maridos simultaneamente). O fato de um homem ter relações sexuais com a es­posa de outro homem era considerado um pecado hediondo tanto con­tra Deus como contra o homem, já bem antes da lei, ao tempo dos pa­triarcas (Gn 39:9). Talvez este mandamento esteja relacionado ao “fur­to” e à “cobiça” proibidos nos dois mandamentos seguintes, já que a esposa pertencia a outrem. Talvez isto explique um dos aspectos mais intrigantes para nós que vivemos sob a nova aliança: apesar de que re­lações sexuais com prostitutas não sejam recomendadas, também não são proibidas (embora fosse proibido aos israelitas o permitir que suas filhas se entregassem a tais práticas degradantes, Lv 19:29). Talvez isso não infringisse os direitos de outrem, como no caso de um adultério. Por outro lado, é claro (ver Mt 19:4-6) que a monogamia era o plano de Deus para o homem na criação: e sem sombra de dúvida, tal como o divórcio, a poligamia e mesmo a fornicação eram toleradas na econo­mia mosaica devido à dureza do coração humano (Mt 19:8). Em Cristo, elas se tornam absolutamente impensáveis (1 Cor 6:15). Longe de anu­lar este mandamento, Cristo o intensificou, incluindo como “adultério” muito do que não é apenas tolerado, mas justificado por nossa sociedade permissiva (Mt 5:28). Semelhantemente Ele incluiu os pensamentos maldosos na proibição de assassinato: os mandamentos têm como alvo o pensamento e a motivação, não apenas o ato (ver o co­mentário do décimo mandamento).

15. Não furtarás. Mais uma vez aqui esta proibição visa preservar a comunhão da comunidade da aliança. Talvez a proibição original vi­sasse o rapto com propósito de escravidão (ver a experiência de José em Gn 37), mas sem dúvida todos os tipos de furto estão incluídos. O código da aliança esclarece os detalhes (por exemplo, 22:1-4), de modo que não há necessidade de explicações aqui. Numa sociedade campone­sa onde a vida é árdua, qualquer roubo pode levar à morte, de modo que o furto se torna um crime sério. Há uma clara ligação entre este mandamento e o décimo.

16. Não' dirás falso testemunho. Já que numa sociedade simples, vivendo no deserto, quase todos os crimes envolviam penas capitais, “falso testemunho” bem sucedido seria equivalente a assassinato. Para evitar tal problema, a testemunha deveria ser também o executor (Dt 17:7), de modo a incorrer na culpa do sangue se estivesse mentindo. O falso testemunho assume grandes proporções no Velho Testamento (1 Rs 21:10, por exemplo), como em qualquer sociedade em que a extrema pobreza exponha o homem à tentação do suborno. Não há dúvida de que o mandamento poderia ser generalizado para incluir a proibição de intrigas e mexericos (Lv 19:16), especialmente de mexerico falso e mal­doso que prejudicasse o próximo.

17. Não cobiçarás. O termo hebraico hãmad, “desejar”, é em si mesmo neutro. É apenas quando mal orientado para aquilo que perten­ce a outrem que tal “desejo” se torna errado. Alguns consideram que este é o único dos dez mandamentos a proibir uma atitude mental e não o simples ato externo; mas fazer tal distinção é, provavelmente, uma falsa compreensão da mentalidade israelita. Tal como no caso de “amar” e “odiar”, “desejar” é uma atividade, quase equivalente a uma tentativa de aquisição. Esta mesma identificação pode ser vista no comportamento infantil.

Casa indica família, no sentido antigo da palavra,[2] e a idéia de esposa é primária. Isto é explicitamente demonstrado em Deuteronômio 5:21, onde a esposa é mencionada em primeiro lugar.

Boi e jumento são a riqueza tipica do camponês ou semi-nômade da Idade do Bronze, para quem as perplexidades da sociedade desen­volvida ainda não haviam surgido. “Escravos” eram a única outra for­ma de propriedade móvel. Em última análise, desejar, e tentar obter a propriedade alheia é estar insatisfeito com o que se recebeu de Deus, e assim demonstrar falta de fé em Seu amor. Além do mais, a inveja esti­mulada por tal atitude levará mais cedo ou mais tarde a que se prejudi­que de alguma maneira o próximo, o que não se coaduna com o dever essencial do amor.

Alt, citado por Hyatt, entende o oitavo mandamento como uma proibição ao rapto de israelitas ao passo que o décimo se referiria a uma proibição ao rapto de suas esposas ou roubo de suas possessões. Tal di­visão parece forçada: se há alguma distinção a ser feita, seria melhor fazê-la entre “ato” (oitavo) e “motivo” (décimo), embora, como já foi dito acima, mesmo esta distinção não deva ser exageradamente enfati­zada.






[1] N.T. Provavelmente a pessoa envolvida na adoração de tais ídolos era Mical, filha de Saul e esposa de Davi. 


[2] N.T. Incluindo não apenas filhos, mas escravos e servos.