25 de setembro de 2016

GERARD VAN GRONINGEN - A Revelação Messiânica Depois do Exílio - : Zacarias (Parte 2)

gerard groningen danilo moraes
As Mensagens Finais (Zc 9-14) 

O título desta parte deixa claro que o ponto de vista histórico, tradicional, conservador, a respeito da autoria dos caps. 9-14 está correta. Vários autores têm formulado as razões para manter o ponto de vista de que Zacarias foi o autor dos últimos seis capítulos do livro que é conhecido pelo seu nome.[1]

Os seis últimos capítulos não contêm nenhuma referência direta ao autor ou a uma circunstância histórica específica. Admite-se que a construção do templo fora completada, porque não há mais referências à obra de reconstru­ção. Há dois oráculos: (1) caps. 9-11 e (2) caps. 12-14. Ambos hão sido considerados fortemente messiânicos por quase todos os especialistas em estudos bíblicos; seu contexto escatológico evidencia que eles seguem a última parte do cap. 8, em que há, em termos gerais, uma proclamação referente a um grande e glorioso futuro. Assim, Baldwin está certamente correta ao demonstrar que poderia (e tentaria) apresentar "o livro como um todo artístico, com um plano geral e unidade de mensagem". Neste nosso estudo os elemen­tos messiânicos serão discutidos apenas com breves referências aos elementos escatológicos e apocalípticos, quando tais referências forem inevitáveis. O quadro 22 revela, em estrutura quiástica, os temas messiânicos em Zc 9-14. 

O Rei (9.1-17) 

O primeiro "oráculo" ou "peso" (KJV) anuncia a vitória que será obtida sobre os inimigos tradicionais do povo do pacto, isto é, do norte, Hadraque (perto de Hamate), Damasco (Aram ou Síria), Tiro e Sidon, e do oeste, os filisteus (9.1-6), que virão sob o julgamento da palavra de Yahwéh. Mas nem todos os habitantes dessas regiões serão destruídos; alguns serão incorporados ao povo para serem reivindicados por ’èlõhênü (nosso Deus) (9.7). Há aqui uma lembrança de como o povo do pacto incluirá mais do que os descendentes biológicos de Abraão (Gn 12.1-3). Esse universalismo, a ser realizado na era néo-testamentária do reino e do povo de Deus eternamente redimido, foi mencionado pelos salmistas (67,87,117,148) e repetido pelos profetas Isaías (Is 2.2; 5,11; 19.23-25); Amós (Am 9.12); Miquéias (Mq 4.1-5); e Joel (J1 232 [TM 3.4). Uma paz duradoura é assegurada porque Yahwéh velará pelo seu povo (9.8). Essas bênçãos levam Zacarias a convidar os hierosolimitas à alegria. 

Os termos usados por Zacarias quando convida o povo a dar expressão à sua alegria indicam que ele espera ouvir um grande barulho. O hebraico gil (alegria expressa com grande excitação) e rua' (gritar ou dar altos brados), ambos no imperativo, são usados para descrever o que o povo faz quando está no meio de celebrações ou em procissões festivas (SI 118.25-28; Mt 21.9,10). A razão para esse som alegre, tumultuoso, é dada: htnriêh malkêk yãbô’ lãk (eis o teu rei está vindo a ti) (9.9). Zacarias tinha garantido à sua audiência antes de Yahwéh prometer residir em Jerusalém (2.10). Agora ele vê seu rei entrando. O título rei, em relação a Israel ou Judá, ou se refere ao próprio Yahwéh, ou aos reis davídicos; no presente caso é a última hipótese que o profeta tem em mente porque Davi e seus descendentes tinham retomado vitoriosos para casa e, como no caso de Salomão, possuíam um extenso império (SI 72). Salomão e Ezequias foram ancestrais, predecessores e tipos do Messias real. Por isso, Zacarias convida o povo a expressar grande alegria porque seu Rei Messias está a caminho vindo ao seu encontro. 

Zacarias atribui quatro qualidades ao Rei que vem a caminho, todas elas usadas ou implicadas antes por outros profetas. 

Ele é sadiq (reto). Esse epíteto hebraico tem chamado nossa atenção várias vezes ao longo deste nosso estudo sobre o conceito messiânico. Isaías usou-o para descrever o governo messiânico (Is 9.5,6; 11.4,5; cf. Jr 23.6). O Rei justo e reto demonstra essa qualidade em sua administração: a conduta reta é encora­jada e o procedimento errado é punido. Os pobres e oprimidos não somente serão ouvidos, mas terão também o auxílio de que necessitam. Os que praticam o que é correto triunfarão sob o reinado do Rei justo. Em resumo, o Rei messiânico atenderá e executará todas as exigências pactuais: Ele será o perfei­to guardador e administrador do pacto. 

Ele é nôSã1 (um salvador, niphal deyãSa', salvar). Este termo pode ser lido de modo a significar salvo ou libertado. Se este sentido estiver presente, não exclui a idéia de que como tal Ele traz salvação. Sendo um vencedor, Ele traz vitória. Lembremo-nos de que o nome próprio Josué é também derivado da mesma raiz hebraica, e que o nome Jesus (gr. lesous) reflete a mesma idéia (salvador do pecado) (Mt 1.21). Assim, como Isaías tinha feito quase dois séculos antes (cf. Is 45.8; 46.13; 51.4,5), Zacarias combina retidão e salvação. Devemos notar que os referidos conceitos bíblicos de salvação e libertação aqui, associados com retidão, são atribuídos ao Rei. Ele, e não o sacerdote, provê libertação para o povo. 

Ele é 'ãní. Este termo hebraico tem sentidos variados: pobre, fraco, oprimi­do, brando e humilde.[2] Desde que está combinado com as frases seguintes, a preferência aqui deve ser para "brando" (KJV) ou "humilde" (RSV). Baldwin refere-se à idéia de ser afligido, recorrendo a Isaías (Is 1432; 51.21; 537; 54.11). Vitorioso e reto como é, o Rei não empregará a força bruta; não será duro e destituído de compaixão. Tendo experimentado aflição e opressão, sendo Ele próprio um libertado, identificar-se-á com o seu povo sofrido e necessitado de compaixão, misericórdia e compreensão. Deve-se notar aqui que a dimensão sacerdotal do conceito messiânico está presente, tanto quanto a real, ou até mais do que ela. Zacarias, como tinha proclamado antes (6.9-15), combina esses dois ofícios, funções e tarefas numa só pessoa. 

E Ele está wèrõkêb (cavalgando) um jumento, uma cria de jumenta. Há algumas diferenças de opinião a respeito do que significam essas frases. A maioria dos comentadores nos séculos anteriores toma-as, sem dúvida, como a referir-se à pobreza do cavaleiro ou a seu caráter pacífico. Calvino, sabendo que alguns pensavam que cavalgar um jumento significava poder, insistiu no conceito elaborado previamente de humildade, aflição e pobreza.[3] Mas há evidência de que o cavalo era a montaria real preferida. Consideremos o comércio e uso de cavalos por Salomão (1 Rs 9.19), imitando o costume egípcio.[4] A idéia de um descendente real montando um jumento tinha sido afirmada por Jacó quando abençoou seu filho Judá (Gn 49.11). A conclusão preferida, pois, é que, quando o Rei reto, vitorioso, salvador e brando vem a seu povo, vem como alguém humilde e pobre. Realmente Ele é o representante de Yahwéh, o dono de todas as riquezas das nações (Ag 2.8,9), mas em sendo o Rei-Sacerdote Ele vem a seu povo com humildade e pobreza (Is 52.12-53.6). 

Os resultados da vinda e da presença do Rei-Sacerdote são afirmados em 9.10. Mas não é o Rei quem toma a iniciativa. A Septuaginta, adotada por algumas traduções inglesas, mudou o pronome pessoal "eu", de wëhikratî (e destruirei), para "ele" (e destruirá)[5] (gr. exolothreuõet). É o próprio Yahwéh quem continua a cuidar de seu povo e a manter seu pacto com ele. Mas é por meio de seu agente, o filho messiânico da casa de Davi, que Ele fará o que se segue. Primeiro, os meios de guerra serão "cortados", isto é, os carros de Efraim, os cavalos de guerra de Jerusalém e o arco de batalha, todos referindo- se a guerras ofensivas e defensivas. Em outras palavras, não haverá mais guerra! Segundo, outra grande bênção seguir-se-á naturalmente da primeira: dibbêr (piei de dãbar, ação intensiva de falar), Ele declarará Sãlôm (paz) (cf. Ag 2.9; Ez 37.26; Is 9.6 [TM 9.5]). Certamente estarão presentes harmonia e integralidade: tinham sido prometidas ao povo do pacto anteriormente; agora Zacarias as proclama para as gentes ou nações (gôyim), isto é, para todos os povos. E a paz assim declarada pode ser e será realizada por causa de mãslô (seu reinado) — o do Rei-Sacerdote messiânico que, como afirmado no SI 72.8, seria exercido "de mar a mar" e "até os próprios confins da terra". 

Nessa proclamação de Zacarias, como indicam algumas referências contex­tuais, são reunidos vários elementos sobre a pessoa do Messias, sua presença e poder, proclamados antes em vários contextos. É pintada uma cena aumen­tada e integrada. O povo, que evidentemente completara o templo, recebe notícias encorajadoras.[6] Yahwéh está no meio deles. Ele está aguardando o seu tempo, enquanto prepara a cena internacional para a vinda do Rei-Sacer­dote messiânico e uma realização mais plena de seu reino sobre a terra. Realmente, Yahwéh, lembrando seu pacto passado, está agora ativamente planejando e preparando um novo plano. 

Zacarias continua a proclamar os benditos resultados da segunda vinda e presença do Rei-Sacerdote. O pacto será mantido;[7] o pacto feito com Abraão (Gn 15.9-11), Moisés e Israel (Êx 24.5-8), tinha sido selado com sangue de animais. Jesus falou de seu sangue como o do novo pacto (Mt 26.28 par. Mc 14.24; Lc 22.20), e Paulo repete essas palavras (1 Co 11.25). Novamente pode­mos ver como Zacarias reúne elementos das promessas passadas de Yahwéh e as tece num padrão mais complexo e, assim, toma mais claro o que o Messias virá cumprir. Ele trará também liberdade e esperança (9.11b-12) e reunirá o povo dividido (9.13). Ezequiel tinha proclamado, como afirmamos, que essa reunião seria sob Davi, o Rei e Pastor (Ez 37.15-28). Zacarias continua a proclamar o que Yahwéh cumpriria em sua vinda (Zc 9.14,15) e como, por meio de seu Pastor, ele salvaria seu povo, coroá-lo-ia e o faria formoso (9.16,17). 

Baldwin, muito corretamente, escreve que teria sido apropriado para Zaca­rias terminar sua profecia com esta nota de triunfo.[8] Zacarias fala do triunfo, bem como da unidade, da paz e da beleza a serem desfrutados pelo povo de Yahwéh em relação direta com o Messias que vem (9.9). E Jesus certamente fez claro que sua vinda e presença que introduziu a era do Novo Testamento eram aquilo para o que Zacarias tinha apontado (Mt 21.1-11 par. Mc 11.1-11; Lc 19.28-44; Jo 12.12-19). Este fato registrado pelos quatro evangelistas prepara o ambiente e o tempo para o que se segue nas profecias de Zacarias.[9]



O Pastor (10.1-11.17) 

O preciso conceito de Pastor tem ampla predominância na Escritura, espe­cialmente quando se refere ao cuidado de Yahwéh com seu povo (SI 23) e às relações e responsabilidades do rei em relação ao povo (SI 78.70-72; Jr 23.1-6; Ez 34.23). O Messias vindouro seria o fiel Pastor que cumpriria todos os deveres pertinentes a esse papel. Zacarias alude à idéia do pastor quando fala das bênçãos que o "rebanho do seu povo" experimentará. O preciso conceito desse pastor recebe definida atenção à medida que o profeta continua a profetizar a respeito do Messias. Mas Zacarias o faz de um modo que é muito difícil de entender. O próprio uso dos conceitos de pastor e rebanho evidencia que o profeta está empregando metáforas. Assim fazendo, dirige-se ele a uma situa­ção contemporânea específica ou diretamente ao futuro? Estará ele falando em parábola ou alegoricamente? Ou, qualquer que seja a forma empregada, está ele falando de pessoas reais? Como seu assunto é liderança (10.3), deve-se, portanto, tentar identificar que líderes, reis ou sacerdotes são designados? Se é essa a intenção, não deveríamos esperar algumas indicações quanto a quem considerar? Desde que muito material sobre esses problemas, escrito no século XX, está facilmente disponível, não faremos neste nosso estudo nenhuma tentativa de solucioná-los. 

Zacarias 10.1-11.3 é basicamente uma vívida mensagem profética em que o povo é chamado a honrar Yahwéh (e não a seguir falsos líderes); o povo de Judá e José (10.6) é advertido do que Yahwéh espera deles e o que Ele tem feito e fará em seu favor; e o que as demais nações vizinhas opressoras podem esperar. Em seguida é apresentado um discurso sobre o tema do pastor, em forma de uma alegoria (11.4-17). O quadro 23 demonstra os sete principais temas na proclamação. 

Antes de selecionar os elementos messiânicos básicos, devemos notar o seguinte: Zacarias convida o povo a olhar para Yahwéh como seu divino Provedor. Como nos tempos anteriores ao exílio, quando os reis e sacerdotes de Israel levaram o povo à idolatria, assim está acontecendo de novo. Daí, os líderes serão castigados, e o povo é encorajado pelas promessas de salvação e bênçãos de Yahwéh. Mas uma tragédia se desenvolve: o povo, o rebanho, rejeita a provisão que Yahwéh faz para ele. Isto é descrito numa alegoria (11.4-17). 

Os quatro elementos messiânicos na passagem, uma passagem enigmática, estão todos relacionados com o tema do pastor. 

Nesta alegoria Zacarias fala por alguém nomeado para pastorear o rebanho que os falsos líderes e as próprias nações vizinhas estão usando para lucro (destinados para matança, 11.4 NIV). Portanto, o profeta fala pelo Pastor nomeado e, dessa maneira, ele é um porta-voz e um tipo messiânicos. 

Segundo, o Pastor assume sua tarefa de pastorear usando duas varas, uma chamada "Favor" (NIV) ou "Graça" (RSV), e a outra "União" (11.17). Ele procura mostrar cuidado amoroso, gracioso, e tenta unir o rebanho. O Pastor faz tudo o que Yahwéh requer dele, inclusive a remoção dos falsos líderes (w. 7-8a). 

Terceiro, o rebanho detesta e rejeita o Pastor nomeado por Yahwéh. Ele vai ao ponto de pagar o Pastor com trinta moedas de prata (w. 12-13), que têm de ser deixadas na casa do oleiro. O Pastor rejeitado não tem nenhum lucro para si mesmo. 

Finalmente, Yahwéh põe o rebanho sob os cuidados de outro pastor falso, indigno (w. 15-17), cuja falta de cuidado resultará em trágico sofrimento para o rebanho. 

Os elementos messiânicos da mensagem profética podem ser prontamente discernidos. Enquanto a mensagem relativa ao Rei-Pastor vindouro tinha sido encorajadora e estimulante, esta mensagem é desencorajadora e cheia de desespero. Realmente, Yahwéh continuará a ser um fiel Deus do pacto; Ele proverá o Pastor; o Messias virá. Como, porém, Isaías tinha profetizado, Ele seria desprezado, escarnecido e rejeitado. O aspecto régio, representado pelo cuidado e pelas provisões do pastor, está presente, mas a humilhação e o sofrimento do Messias em seu papel sacerdotal são particularmente destacados na passagem. Como Jesus foi o cumprimento vívido e específico da profecia de Zacarias sobre a entrada triunfal, da mesma forma em sua traição por trinta moedas de prata (Mt 26.14-16; 27.3-5) há um dramático cumprimento dessa profecia concernente ao pastor rejeitado e dispensado. 

O Traspassado (12.1-13) 

A última passagem (12.1-14.21) é introduzida por maééã’ (oráculo). Não é parte integral da profecia e do oráculo anterior (9.1-11.17), mas há uma conti­nuidade de pensamento e progressão na revelação que Yahwéh dá a Zacarias para proclamar a seu povo.[10] São temas comuns a ambos os oráculos: o bem-estar de Israel, de Judá e de Jerusalém, a liderança do povo do pacto, a casa davídica, o Pastor sofredor e o papel das nações e sua derrota. Uma diferença óbvia entre os dois oráculos é a ênfase escatológica mais forte no segundo. 

O elemento messiânico no cap. 12 está presente, particularmente no que é dito a respeito da casa de Davi e Aquele a quem traspassaram. Este capítulo, para os propósitos de nosso estudo, pode ser dividido em quatro trechos. 

12.1-5. Primeiro, Yahwéh, o Criador e Sustentador do cosmos e da huma­nidade, protegerá Jerusalém e dar-lhe-á a estabilidade de uma rocha.[11] Os inimigos de Israel, reunidos contra ele, recuarão em cavalos cegos, tomados de pânico. Os habitantes de Jerusalém terão força, porque yhwh çèbã’ôt ‘ètõhêhem (Yahwéh dos Exércitos, ou o soberano Yahwéh, é seu Deus). Essa referência a Yahwéh é o clímax da passagem, não a invulnerabilidade de Jerusalém ou a derrota das nações. A grande bondade de Yahwéh para com seu povo é mais uma vez afirmada com ênfase. 

12.6. Segundo, os judaítas estarão no meio dos inimigos de Yahwéh e serão um meio de destruição desses inimigos. Jerusalém será poupada. Na próxima passagem Yahwéh de novo é exaltado pela vitória que os judaítas obtêm. 

12.7-9. Terceiro, o próprio Yahwéh é quem salva e guarda o povo de Judá e de Jerusalém, de modo que, todos aqueles assim poupados, serão tão fortes e invencíveis como Davi. Mas a casa de Davi será como Deus e como o anjo de Yahwéh (v. 8). Essas duas referências são importantes para a compreensão da passagem seguinte. Zacarias pode ter tido em mente o que está escrito em 1 Sm 29.9; 2 Sm 14.17, 20; 19.27, onde se afirma que Davi era considerado "um anjo do Senhor" por algumas pessoas. Mas devemos notar que Zacarias expressa uma cooperação muito estreita entre Yahwéh e a casa de Davi. O clímax da passagem expressa a derrota certa, por Yahwéh, dos que atacam Jerusalém. Yahwéh continua a ser Aquele que controla soberanamente todos os povos e nações e todos os acontecimentos. 

Se alguém consultar comentários representativos notará que eles oferecem grande variedade de aplicações. A frase bayôm hahü’ (naquele dia) é interpre­tada no sentido estritamente escatológico ou em sentido geral, referindo-se ao futuro. Jerusalém é interpretada literalmente como a cidade por alguns, e por outros como a Igreja, particularmente na era do Novo Testamento. Outros comentadores ainda sugerem que Jerusalém, Judá e a casa de Davi expressam esperanças nacionalistas para o futuro imediato. Mas a conclusão a respeito desses termos não pode ser formulada enquanto não considerarmos a próxima passagem e também 13.1. 

12-10-13. Quarto e último, os pronomes pessoais na passagem exigem atenção. É Yahwéh quem fala por meio do profeta: Sãpaktí. (derramarei).[12] Ele é, como Joel tinha dito (J1 2.29 [TM 3.2]), quem derrama o "Espírito" (NIV). Zacarias não se refere ao próprio Espírito (ver NIV mg.), mas ao resultado de sua presença: uma nova atitude de coração, que é evidenciada por hèn (graça) e tahànünim (súplicas).[13] A graça e as súplicas estão diretamente relacionadas com o pranto que vem quando as pessoas olham (para mim).[14] É Yahwéh, de acordo com Zacarias, que os descendentes de Davi têm traspassado, e choram quando olham para Ele. Parece haver uma contradição aqui. O descendente de Davi, de acordo com Isaías, seria afligido e posto à morte (Is 53). Agora, é o próprio Yahwéh. A contradição é resolvida aceitando-se o fato, que Isaías declara, de que o descendente de Davi é o Deus todo-poderoso (Is 9.6,7 [TM 9.5-6). Desta maneira, o que Zacarias proclama está de acordo com a profecia de Isaías. O descendente davídico, um da própria casa de Davi, é o próprio Yahwéh, que veio como o anjo de Yahwéh e como o Servo divino (Is 52.12-15), mediante cujo sangue os povos e nações serão purificados. Zacarias vai além, profetizando que, de fato, quando outros descendentes davídicos veem como eles têm "traspassado" seu co-descendente, que é também o divino Messias, prantearão tão lamentosamente como um pai o faz por um filho que morreu (Zc 12.10). Zacarias expressa a grande dor com a qual sua audiência está familiarizada (12.11).[15] Zacarias proclama positivamente que esse pranto será generalizado, mas ao mesmo tempo será algo particular, porque as pessoas prantearão dentro de seus próprios clãs. Quando o apóstolo João conclui seu relato da morte de Jesus, inclusive o trespasse de seu lado, refere-se a essa precisa passagem da profecia de Zacarias (Jo 19.37).[16]

A questão das referências de tempo requer atenção. Como o apóstolo João interpretou, em última instância, uma referência geral na profecia de Zacarias como alusiva à morte de Cristo na cruz, somos constrangidos a considerar o tempo da vida e da morte de Cristo como certamente o início da era referida. Zacarias deixa claro que será "naquele dia" (12.6,8,9,11); é futuro, porém mais do que isso ele não diz. O que Zacarias indica é que a grande obra libertadora de Yahwéh em favor de seu povo, o envolvimento deste na morte do descend­ente davídico, o divino, isto é, o ato de traspassá-lo, estão relacionados com o arrependimento, com pranto, por parte dos israelitas e com a purificação de seus pecados (13.1). Finalmente, é com a informação obtida das profecias anteriores que alguém deve concluir que o traspassado é o Messias. Zacarias, entretanto, não identifica diretamente os dois. Pode ser afirmado, entretanto, que está indicada aqui a obra sacerdotal do Messias, o fazer expiação pelo pecado. E isso é explicado na passagem seguinte. 

A Fonte Purificadora (13.1-6) 

Não é inusitado que os diligentes comentadores incluam 13.1 com 12.10-14. Isso é compreensível por causa da estrita conexão do pensamento. A passagem anterior fala do traspassado e do espírito de graça e de oração que surge de corações renovados do povo do pacto que chora por causa de sua participação no traspassamento do divino Messias. O pensamento expresso em 13.1 acres­centa o que foi proclamado. 

Bayyôm hahü’ (haverá naquele dia). A mesma referência de tempo de 12.11, onde se diz que haverá grande pranto. O pranto será por Aquele que foi entregue à morte, sendo traspassado. Mas esse traspasse realizará um grande feito: mãqôr ntptãh (será aberta uma fonte). Maqôr é derivado do verbo qur (cavar) que é usado para descrever a abertura de um poço mediante perfuração do solo (2 Rs 19.24; Is 37.25). O pensamento basicamente expresso pelo verbo é o da preparação de um suprimento contínuo de água de uma fonte adequada. Daí o substantivo mãqôr ser traduzido por "manancial" ou "fonte" (cf. SI 36.8,9; Jr 2.13; Pv 16.22; 18.4).[17]

Zacarias deixa claro para quem essa fonte se destina: a casa de Davi e os habitantes de Jerusalém. De fato, a fonte destina-se a servir às mesmas pessoas que traspassaram o Messias e, assim, abriram a fonte. Yahwéh abre essa fonte pela instrumentalidade de seu povo obstinado, que necessita da fonte aberta e fluindo. Afirma-se abertamente: a fonte aberta é lèhafta’t âlènidâ (para o pecado e a asquerosa impureza). O verbo "purificar", como na New Inter­national Version, não está no texto, mas o pensamento está, sem dúvida, presente. O Traspassado servirá como a fonte que provê plena expiação pelo pecado. 

Zacarias vai adiante e proclama quais serão os efeitos da obra expiatória (13.2-6). No dia em que Yahwéh, o Soberano, livrar e proteger seu povo (Judá; Jerusalém é usada figurativamente para referir-se a ele [12.1-5]); quando Ele salvar seu povo e destruir seus inimigos (12.6-9); quando a casa davídica e aqueles que ela representa traspassarem um de seus próprios; e quando chorarem de arrependimento e forem purificados por aquela fonte aberta, naquele dia, isto é, naquele tempo, ocorrerá uma grande ação santificadora. Os ídolos serão removidos e não mais lembrados. Falsos profetas, a serem expos­tos, procurarão ocultar sua identidade (13.2b-6), mas a verdade prevalecerá. 

Nesta mesma passagem a obra expiadora e santificadora do Messias é apresentada sucinta, pitoresca e significativamente. O Messias morrerá às mãos daqueles mesmos a quem Ele vai purificar e santificar. E isso Ele fará por sua morte na cruz, no período inicial da era do Novo Testamento. 

Parece que a aplicação da passagem à morte do Messias é tão nítida e certa que procurar aplicações adicionais ou outros cumprimentos posteriores num sistema escatológico seria remover a centralidade da profecia de Zacarias a respeito da morte do Messias e seus efeitos expiadores e santificadores. 

O Pastor (13.7-9) 

Em 13.7-9 são repetidos alguns temas que Zacarias anunciara antes. O assunto geral é liderança;[18] um tema particular é o do pastor (10.3; 11.4-17), seguido por um terceiro e significativo tema de morte (espada [11.17], trespasse 12.10 e fonte aberta [13.1]). E deve ser também notado o envolvimento direto de Yahwéh no manejo da espada contra o pastor e na dispersão do rebanho; lembremo-nos de que o envolvimento de Yahwéh também aparece em passa­gens anteriores. Há uma progressão do pensamento à medida que vários fios são reunidos e as cenas futuras entram mais claramente em foco.[19]

Zacarias, porta-voz de Yahwéh, fala como se o próprio Yahwéh estivesse falando. O pronome pessoal "meu" (v.7) refere-se ayhwh Sèbã’ôt (Yahwéh, o Soberano ). O "eu" dos versos 7d, 9a-b, d-e, assim como também o "meu" em 9d-9e, de igual modo, referem-se a Yahwéh. 

A seqüência de acontecimentos na passagem sugere uma ação continua e progressiva a ocorrer no futuro. A ação antecipada é introduzida pelo impera­tivo ndk (do verbo nõkd, ferir) e os resultados são então relatados. 

A espada é exigida; quando ela fere, é geralmente fatal para aquele que é ferido. A idéia de matança reaparece (cf. 11.4,7). Primeiro, o rebanho é desti­nado à matança; depois, a espada é chamada a ferir o pastor indigno (11.17). Agora Yahwéh manejará a espada, figuradamente falando; não deve haver nenhuma dúvida disso! Antes foi dito que o povo fez o ferimento (12.10), mas agora Yahwéh diz que Ele mesmo é quem trata com o pastor. Um estudo do contexto precedente coloca o tempo bayyôm hahü, (naquele dia) no futuro, começando no tempo da vida, do sofrimento e da morte de Cristo. O ferimento do pastor por Yahwéh refere-se de novo ao mesmo evento e é também a mesma moldura cronológica. 

Deve-se notar, em apoio das afirmações precedentes, que Zacarias identifi­ca o pastor como o Pastor de Yahwéh (7a), que é descrito como geber 'âmtti (o homem comigo, ou próximo a mim, NIV). Baldwin nota que essa frase aparece somente no livro de Levítico (6.2; 7.21; 18.20; 24.19) e significa "vizinho próxi­mo". O pastor é alguém que mora ao lado de Yahwéh, seu igual.[20] É, pois, o Pastor divino, o Messias divino-humano, que é referido por Zacarias. 

O fato de Yahwéh ferir fatalmente o Pastor terá consequências drásticas. São elas expressas em terminologia que a audiência de Zacarias entenderia prontamente por suas próprias experiências. Mas não somente as experiências passa­das proveriam uma terminologia muito útil e expressiva: outra experiência semelhante lhes sobreviria (ou a seus descendentes). De fato, essa experiência futura seria mais drástica, mais efetiva, e resultaria numa bênção permanente. 

A experiência emocionalmente carregada é a de ser ovelhas dispersas, isto é, o povo, durante que a mão de Yahwéh se voltará 'al-ha§$ârtm (contra os de pequena significação, os pequenos). Se a referência é à criança ou aos despre­zados, insignificantes, ou a todos eles, não importa aqui. É a comunidade inteira que será afetada, de alto abaixo. Essa dispersão será experimentada em realidade por um terço do povo, porque os outros dois terços, como no tempo do exílio, teriam perecido (13.8; cf. Jr 15.2: Ez 5.12). É bastante óbvio em Mt 26.31 e Mc 14.27 que Jesus compreendeu que Zacarias estava falando de seu tempo e de suas experiências. Quão literalmente isso aconteceu na história é difícil dizer; que, porém, a dispersão se aplicou pelo menos aos discípulos de Jesus, quando eles desertaram de seu Salvador, parece inteiramente claro. 

A experiência drástica da dispersão e da matança de muitos será acompa­nhada por uma grande experiência efetiva, que é também resultado de o Pastor ser ferido. Isso tinha sido referido antes em 13.1: a fonte aberta purificando o povo e em profetas anteriores como Ezequiel (Ez 36.24-32). Joel tinha falado do derramamento do Espírito (J12.28 [TM 3.1]), por meio do qual a purificação e a nova vida haveriam de ocorrer (Ez 37). Esta experiência de purificação não será apenas por lavagem, porque as metáforas de refinar como prata e provar como ouro também são usadas. Realmente, devem ser esperadas experiências destinadas a testar, provar. A morte do Pastor-Messias não trará a utopia. 

Resultarão bênçãos permanentes (13.9b). Como Joel tinha profetizado (232), a invocação do nome do Senhor, que tinha sido profanado (Ez 36.23), surgiria espontaneamente. Essa invocação seria respondida por Yahwéh, di­zendo 'ammt hü‘ (meu povo, eles; isto é: eles são meu povo). Isso é linguagem pactual (Êx 3.10; 5.1; 195,6). A resposta do povo será também pactual: yhwh ’èlõhay (Yahwéh, meu [nosso] Deus). O pacto, prometido, estabelecido, e repetidamente ratificado, será plenamente consumado. Yahwéh fará isso, iniciando esta final consumação, dando-o, ferindo-o, esmagando-o (Is 53.10; cf. Gn 3.15), e pela ação purificadora que se seguirá. 

O sumário conclusivo foi feito nas sentenças precedentes. É bom repetir, entretanto, que a Zacarias foi dada uma vívida mensagem do coração e da mente de Yahwéh. O Pastor seria ferido; um remanescente seria salvo e santificado; e assim o pacto anunciado no proto-evangelho (Gn 3.15), repetido e elaborado ao longo de todo o Velho Testamento, seria consumado pela morte do Pastor-Messias. 

O Rei (14.1-20) 

A interpretação de Zc 14 tem envolvido o trabalho de muitos eruditos, cujas conclusões são muito divergentes. Calvino observou que alguns aplicavam o capítulo ao tempo do Anticristo, outros ao último dia, e ainda outros à destrui­ção de Jerusalém (cerca de 70 d.C.).[21] O editor de Calvino refere-se ainda àqueles que tomam essas palavras no sentido espiritual, outros como tendo sido cumpridas antes da primeira vinda de Cristo, e ainda outros como ainda não cumpridas.[22] Os mais destacados comentadores recentes estão igualmente divididos.[23]

Três fatores devem ser lembrados para esse necessário estudo. O caráter apocalíptico da passagem deve ser notado. Isso significará que devemos esperar símbolos, metáforas e mesmo coisas não usuais. Isso significará que uma interpretação estritamente literal é muito improvável. Exemplos de coisas muito inusitadas é a ruptura do Monte das Oliveiras, formando um grande vale (v. 4); água, nenhuma luz, frio e gelo; não será dia nem noite (v. 6) (muito contrário ao renovado pacto da criação depois do dilúvio em Gn 8.22); água viva (em outros lugares, símbolo do Espírito Santo, vindo da habitação de Yahwéh e do trono do Messias [Ez 47.1-12]) (v. 8); a queda da região montanhosa a uma grande depressão e a elevação física de Jerusalém e suas portas (v. 10). a frase lõ’ yihyeh-ôd (não será mais) diz demasiado se for tomada literalmente. A contra­dição é insolúvel se o grande reino milenial da paz já tiver raiado, mas os egípcios, por não cooperarem, serão punidos por pragas (w. 17-19). 

Segundo, esta discutida passagem apresenta uma perspectiva escatológica. Zacarias apresenta o que vai acontecer nas primeiras partes da época do Novo Testamento, quando o Pastor-Messias for ferido e traspassado e a fonte purificadora, aberta. Contrariamente ao que tem sido dito, Zacarias nesta indiscutível passagem apocalíptica não está escrevendo história em pormenores antes que ela aconteça. Antes, em termos das experiências passadas, por exemplo, o terremoto dos dias de Uzias (v. 5; cf. Am 1.1) e nações atacando e capturando Jerusalém (14.2,12; cf. 2 Cr 36.15-19), ele assegura à sua audiência que tentações e tribulações os aguardam, mas, assim como no passado, quando grandes livramentos foram experimentados, assim também podem esperar no futuro grandes feitos de Yahwéh em favor de seu povo. Entre esses estão: Yahwéh levantando-se para derrotar seus próprios inimigos e os de seu povo (143; cf. SI 68.1,12,20,21); exercendo seu reinado soberano sobre todo o cosmos (14.4-5) e particularmente sobre as demais nações (14.12-15); provendo liberdade para a adoração de Yahwéh de acordo com suas exigências e expectativas (14.16); restringindo o mal, como é mostrado por aqueles que se lhe opõem (14.17-19); o caráter santo do seu reinado e a santificação de toda vida (14.20,21), por causa da presença do Espírito depois do Pentecoste. 

O terceiro fator é o caráter messiânico da passagem. Primeiro, o seu contexto oferece vislumbres necessários. Como já mencionado, a morte do Messias e seu efeito consumador para o pacto de Yahwéh com seu povo provê a primeira chave. Segundo, Zacarias destaca o efeito santificador da morte do Pastor-Mes­sias e da abertura, por meio dela, da fonte purificadora. Essa santificação do povo do pacto toma-se um clímax na conclusão das profecias de Zacarias. 

Terceiro, a ação soberana de Yahwéh sobre o cosmos, e particularmente entre as gentes e nações e em favor de seu povo, é um aspecto integral dos resultados da morte do Pastor-Messias. No cap. 14 Zacarias reúne esses três fatores. Yahwéh, o Senhor das nações (9.1-6), cujo agente, o humilde Rei, faz sua entrada, reinará — soberanamente, na verdade! E Ele fará assim porque o Messias, experimentando a ignomínia de cavalgar um jumento, a rejeição por parte do povo a quem Ele foi enviado e a morte às suas mãos, pela mão governadora de Yahwéh, vencerá e sobrepujará qualquer oposição e introdu­zirá o seu reino. Esse reino messiânico, prometido no Velho Testamento, tipificado na teocracia e, portanto, presente por meio de sombras e símbolos, virá à mais plena expressão depois da cruz e à plena, completa e eterna realização depois do retomo do Messias, que é brevemente indicado de modo apocalíptico em 14.4. 

Em conclusão, o reino messiânico é o assunto do cap. 14. É expresso pelo uso de termos apocalípticos e em termos das experiências passadas do povo do pacto, quando este vivia e cultuava como uma teocracia. Mas esse reino messiânico ultrapassará em santidade, em triunfo, em glória e em aceitação mundial tudo o que uma teocracia local, israelita ou judaica, jamais podería alcançar. 

A Revelação Messiânica na Profecia de Zacarias 

Zacarias tem sido considerado, e com boa razão, o profeta que apresenta a mais penetrante e consistente ênfase messiânica. Ele está profundamente mergulhado na linguagem dos profetas pré-exílicos,[24] mas também foi usado por Yahwéh para reunir vários elementos e fios numa vasta e rica tapeçaria de revelação profética, escatológica e messiânica. O Messias é apresentado como o anjo de Yahwéh, intercedendo, informando, encorajando e revelando-se a si mesmo como o Senhor do universo. Ele é apresentado também por meio do tipo real, Zorobabel, o príncipe construtor, e por Josué, o sumo sacerdote. É tipificado ainda pela coroação régia de Josué. E proclamado como o Soberano real, majestoso, embora brando e humilde; como o Pastor rejeitado; como o Traspassado divino-humano que provê a purificação e a santificação de seu povo, como uma fonte perene. Ele é enviado como Pastor, ferido por Yahwéh, contudo, com um resultado glorioso e salvador para uma parte do rebanho. Finalmente, o reino do Messias, introduzido quando Ele estava na terra, é apresentado como sendo a mais poderosa força de Yahwéh sobre a terra, um reino cuja influência atinge todo o cosmos. 

A revelação messiânica está enquadrada num fundo escatológico; a moldu­ra pactual estabelece os parâmetros e Yahwéh é consistentemente apresentado como Aquele que tem sempre diante de si mesmo suas metas (escatologia), seus planos e seus métodos (pacto). Seus agentes, sejam anjos, sejam homens, cumprem suas ordens e apresentam fielmente a pessoa do Messias como Rei. 

Eles também o representam como Aquele que cumpre a obra messiânica assim como lhe foi designada, seja como Rei, seja como Sacerdote, e dão eloquente expressão a seu caráter. 

A Resposta à Profecia Messiânica de Zacarias 

As respostas às incisivas mensagens de Zacarias não estão muito claramen­te registradas. Podemos presumir que, depois da pregação de Ageu, quando a obra de reconstrução do templo foi retomada, essas mensagens que Zacarias recebeu por meio das visões tiveram efeito de apoio. Que Zacarias foi reconhe­cido como profeta evidencia-se pelo fato de ele receber o pedido dos líderes do povo para consultar Yahwéh em seu favor, a respeito da questão do pranto e do jejum (7.1-3). Não há indício claro de que a resposta de Zacarias tenha tido muito efeito, mas é verdade que o povo continuou a construir, e finalmente concluiu o templo. 

Zacarias deu algumas respostas pessoais, mas algumas delas foram mais o resultado de ele próprio não ter captado inteiramente o significado do que lhe foi dado ver e proclamar. A resposta mais positiva foi que ele obedeceu a Yahwéh e profetizou! Zacarias obedientemente proclamou as suas mensagens de encorajamento, de advertência e de esperança gloriosa a ser cumprida em e por meio do Messias, o prometido Mediador do pacto. 







[1] Cf. Barker, "Zechariah", em The Expositor's Bible Commentary, 7596,597; e Baldwin, Haggai, Zechariah, and Malachi, pp. 62-70, que reexaminam, avaliam e respondem aos críticos que negam que os caps. 9-14 sejam de Zacarias. 

Seria de grande interesse para todos os leitores dessa profecia saber que se diz que W. Foxwell Albright apóia a unidade do livro de Zacarias (cf. o ensaio de Albright, 'The Unity of Zechariah", JBL 61 [1942] :121) (como citado por Baldwin, Haggai, Zechariah, and Malachi, p .69, n. 2)Sobre argumentação em favor da posição crítica, veja-se 


[2] Ver TWOT, 2.682-684. 


[3] Calvino, Commentaires on the Twelve Minor Prophète# 5255. 

Baldwin, Haggai, Zechariah, and Malachi, pp. 166, refere-se ao artigo de E. Lipinski, ''Recherches sur le livre Zacharie", VT 20/1 (1970):51, que apela a evidências do segundo século a.C. no sentido de que o jumento era montaria real. Isso pode ser apoiado pelo relato sobre Salomão cavalgando a mula do rei (1 Rs 1.38), Absalão montando em sua mula — metade cavalo, metade jumento — (2 Sm 18.9), e o conselheiro do rei, Aquitofel, cavalgando um jumento (2 Sm 17.23). 


[4] ANET, p. 238 — prisioneiros iam sobre jumentos e o rei e os príncipes sobre cavalos. 


[5] Cf. a Bíblia de Jerusalém e a New English Bible. 


[6] É difícil concordar com von Orelli que essa mensagem teria sido proclamada por um contemporâneo mais jovem de Oséias, que teria vivido durante o reinado de Menaém (Twelve Minor Prophets, p. 361). Um dos diversos problemas principais com este ponto de vista é que o texto se dirige à cidade de Jerusalém (Zc 9.9). 


[7] Sobre a expressão "sangue do pacto" ver os diversos comentários. 


[8] Baldwin/ Haggai, Zechariah/ and Malachi, p. 167. 


[9] Um problema com que os leitores se defrontam e que, em muitos aspectos, é um bom comentário são as aplicações escatológicas dispensacionalistas de Zc 9.11-14.21, feitas por Barker. A segunda parte de seu título 


[10] Leupold afirma a relação entre os caps. 9-11 e 12-14 como paralelos, com uma diferença. Nos primeiros, o peso está sobre Hadraque; no segundo, é a respeito de Israel (Exposition of Zechariah, p. 223). 


[11] Robert Dentan, 'The Book of Zechariah', em IB (1956), 6.1112, 


[12] Baldwin, Haggai, Zechariah, and Malachi, p. 190. 


[13] Barker, "Zechariah", emThe Expositor's Bible Commentary, 7.683. 


[14] Alguns manuscritos hebraicos mudam o "mim" para "ele" (cf. RSV), mas as traduções, p. ex., LXX, Siríaca e Latina, seguem o texto mais de confiar-se, que retém o *2/1 (para mim) (cf. NIV). 


[15] Os destacados comentadores fazem várias sugestões sobre o que é referido na passagem/ mas nenhuma explicação tem sido geralmente aceita; cf. Barker, "Zechariah", em The Expositor's Bible Commentary, 7.684, para um sumário de sugestões; e Baldwin, Haggai, Zechariah, and Malachi, pp. 192-194. 


[16] Baldwin, Haggai, Zechariah, and Malachi, pp. 190,191. Baldwin sugere que, em vista da dificuldade de um cumprimento literal, João intenta dar "não mais do que o sentido geral*. Isso parece uma sugestão muito procedente. 


[17] Nestas passagens o termo é usado figuradamente; mas a idéia é de uma fonte de água e de vida que flui constantemente. 


[18] Baldwin, Haggai, Zechariah, and Malachi, p. 197. 


[19] É lamentável que Barker, seguindo Unger, veja Zacarias movendo-se para trás, depois para o futuro distante, e depois de novo para trás, para a crucifixão; indubitavelmente, eles fazem assim devido ao seu desejo de adaptar os diversos fatores num esquema escatológico predeterminado ("Zechariah",The Expositor's Bible Commentary, 

7.686,687). 


[20] Baldwin, Haggai, Zechariah, and Malachi, pp. 197,198. Leupold, Exposition of Zechariah, p.254, seguindo a tradução alemã de Lutero, assim traduziu a frase hebraica: "o homem que é meu companheiro", e concorda com Keil que "o homem que Deus designa como seu companheiro não pode ser um mero homem". Robert C. Dentan, 'The Book of Zechariah", em IB (1956), 6.1110, entretanto, refere-se a esse "ferir o pastor" simplesmente como um dos "ais messiânicos"do esquema dramático daescatologia judaica. Adiferença radical entre a erudição conservadora e a crítica fica ôbvianeste caso. 


[21] Calvino, Commentaries on the Twelve Minor Prophets, 5.405. 


[22] Ibid.,5.406. 


[23] Baldwin, Haggai, Zechariah, and Malachi, admite (p. 201), e não exclui (p. 205) um cumprimento literal, mas não estabelece quando poderia ocorrer. Barker, "Zechariah*, em The Expositor's Bible Commentary, 7.659, seguindo Unger, reclama uma hermenêutica sóbria e consistente; seus comentários indicam que ele espera um cumprimento literal extensivo (que Calvino não pode admitir que "mesmo os ignorantes possam concebê-k 


[24] Baldwin, Haggai, Zechariah, and Malachi, p. 61.