20 de setembro de 2016

GERARD VAN GRONINGEN - A Revelação Messiânica Depois do Exílio - : Zacarias (Parte 1)

gerard groningen danilo moraes
A Revelação Messiânica Depois do Exílio - : Zacarias

Não constitui surpresa para nenhum estudante da Bíblia que o livro de Zacarias seja considerado uma continuação das profecias de Ageu. Sua primei­ra proclamação é feita um mês antes da última de Ageu (Ag 2.10; Zc 1.1); Esdras refere-se a Ageu e Zacarias como se fossem contemporâneos e colaboradores (Ed 5.1). Realmente, a primeira mensagem de Zacarias foi para exortar a comunidade dos remanescentes em Jerusalém a arrepender-se e obedecer a Yahwéh, que lhe dera a incumbência de reconstruir o templo e iniciar o culto como prescrito nos escritos de Moisés.

O Homem e Seu Livro

A informação que as Escrituras dão a respeito de Zacarias é breve. Ele era neto do sacerdote Ido, cujo filho, Baraquias, pai de Zacarias, nunca é citado como sacerdote. Por isso presume-se que Baraquias tenha morrido ainda jovem.[1] Zacarias, como Jeremias e Ezequiel, era sacerdote e profeta. Daí, seu interesse no templo pode ser explicado tanto por sua ancestralidade quanto pelas mensagens que foi encarregado de proclamar.

Zacarias era provavelmente jovem quando Ageu já era de idade avançada. Deduzimos que Zacarias era jovem pelo livro de Neemias. Ido era um dos sacerdotes que regressaram a Jerusalém com Zorobabel (Ne 12.4). Uma vez que seu avô estava ainda exercendo o ofício, Zacarias não poderia ter muita idade.[2]

A autoria e a unidade de Zacarias têm sido extensamente discutidas. Há obviamente três partes distintas: os caps. 1 a 6 apresentam as visões do jovem profeta; os caps. 7 e 8 apresentam um interlúdio histórico; e os caps. 9 a 14 apresentam profecias escatológicas de gênero apocalíptico. (Os capítulos finais também refletem um período posterior ao dos primeiros; há diferenças de tom e de estilo). Vários eruditos têm indicado, corretamente, que essas diferenças podem ser explicadas. Os primeiros seis capítulos também contêm aspectos apocalípticos, e como Zacarias era jovem quando começou a profetizar, tam­bém pode ter profetizado bem mais tarde.[3]

Um fator sobre o qual todos concordam é que Zacarias enunciou com grande clareza vários aspectos da era messiânica. D. Winton Thomas mostrou que Zacarias o fez de modo mais abrangente e completo do que Ageu.[4] O que Zacarias fez foi desenvolver em pormenores, como Yahwéh lhe revelou, o que Ageu proclamara em amplo espectro. Não há, portanto, nenhuma razão a esta altura para discutir o fundo histórico ou as circunstâncias por trás das profecias dos caps. 1 a 8. São idênticos aos de Ageu, que verificamos no capítulo

As Visões (Zc 1-6)

As visões como tais não serão analisadas, pois uma grande quantidade de comentários e artigos tem sido escrita sobre elas.[5] Nossa preocupação neste nosso estudo é discernir que pontos de vista são mantidos e que referências gerais pode haver sobre o próprio conceito messiânico em seu sentido mais amplo, e as próprias características, obras e influências da Pessoa divina real mencionada em revelações anteriores sob títulos como Anjo de Yahwéh, Ungido (mãSiah), Servo, e que foi prefigurada e tipificada por pessoas (Abraão, Moisés, Josué e Davi), instituições (sistema sacrificial, ofícios), coisas (tabemáculo ou templo, nuvem, coluna de fogo, serpente de bronze) e acontecimentos (o êxodo e as experiências de José como escravo).

Um fator constantemente repetido é que o Velho Testamento fala de reve­lação divina. Consideremos de novo a frase hebraica hãyâ dèbar-yhwh ’el- Zèkaryâ (a palavra de Yahwéh foi para Zacarias; p. ex., 1.1,7; 4.6,8; 6.9). O verbo hebraico hãyâ tem sido traduzido "veio a" por alguns críticos como George Adam Smith [6] e D. Winton Thomas,[7] embora seus comentários indiquem que eles não tomam essas palavras literalmente. Peter Ackroyd, entretanto, não faz nenhuma referência à frase, mas fala das experiências visionárias de Zacarias, que marcam o movimento da profecia para a apocalíptica.[8]

O tempo exato em que Zacarias recebeu as visões é informado: vigésimo quarto dia do décimo primeiro mês no segundo ano do reinado de Dario (17). Isto quer dizer que precisamente dois meses depois da última das mensagens proféticas de Ageu (Ag 2.10,20) Zacarias profetizou de novo (1.7). A mensagem geral que Zacarias recebeu por meio das visões era para encorajar o remanes­cente em Jerusalém, repetir as promessas que Ageu tinha feito e acrescentar uma compreensão adicional dos propósitos e planos pactuais de Yahwéh. O resultado desejado era que eles, com ânimo e esperança, continuassem a reconstrução do templo e reestabelecessem o culto e o serviço de Yahwéh.[9]

Antes de estudar as referências messiânicas nas profecias de Zacarias, devemos dar a devida atenção a alguns termos-chave. Na primeira mensagem que Zacarias proclama ele relembra à comunidade do pacto que Yahwéh qãsap (tinha estado cheio de ira, ou "muito irado", NIV, RSV) com seus antepassados (17). Essa ira era devida aos maus caminhos deles, à sua recusa em ouvir e dar atenção a Yahwéh e à sua vontade pactual para com eles (1.4-6). A execução da ira de Yahwéh tinha provocado em seus antepassados a resposta apropriada: wayyãSübü (e eles voltaram, isto é, arrependeram-se). Confessaram seu peca­do; reconheceram a justiça de Yahwéh para com eles quando foram exilados (1.6). Quando Zacarias recebe sua primeira visão, é-lhe assegurado que Yah­wéh qinrie’ti (piel, ser ciumento ou zeloso; cf. 1.14). O pensamento básico é que Yahwéh se ergue em ira ardente quando seu amor é desprezado e rejeitado. Mas também quer dizer que Ele se levantará com zelo e fervor para defender os objetos do seu amor e cuidar deles.

Zacarias constata uma grande e gloriosa inversão. Enquanto antes Yahwéh estivera irado contra seu povo devido à rejeição de seu amor para com ele, agora, depois de seu arrependimento e da obediência em reconstruir o templo, Ele volta sua ira contra as próprias nações que Ele mesmo utilizara para punir seu povo, e volta a seu amor ativo, isto é, seu ciúme ou zelo, a favor dele.

Yahwéh não somente ama o remanescente do povo do pacto, mas está prote­gendo-o, sustentando-o e fazendo-o prosperar, também.

A primeira visão de Zacarias assegura ao povo do pacto que o zelo de Yahwéh é em seu benefício. Zacarias, portanto, repete o que Isaías (Is 97 [TM

9.6) dissera: qin’at yhwh (o zelo ou ciúme de Yahwéh) fará com que Ele traga o Messias e seu reino. Moisés se referira ao ciúme de Yahwéh (Êx 34.14; D14.24;

32.16), que seria despertado se e quando seu povo se envolvesse em idolatria. Profetas como Joel (J1 2.18) e Ezequiel (Ez 39.25) falaram do amor de Yahwéh expresso em favor de seu povo e de seu próprio nome. Portanto, um aspecto muito confortador da mensagem de Zacarias é o amor de Yahwéh, que será manifestado visivelmente na defesa e na prosperidade de seu povo. Nas visões, a revelação messiânica centraliza a atenção no anjo de Yahwéh, em Jòsué, Zorobabel e no Sumo Sacerdote real.

O Anjo de Yahwéh

A pergunta que o leitor e estudante da visão de Zacarias enfrenta é se maVak yhwh (o anjo de Yahwéh) citado aqui é o mesmo de que se fala no Pentateuco. A referência do termo é à deidade.[10] O termo malãk (anjo) aparece dezenove vezes nos primeiros seis capítulos, todas no contexto imediato das visões. Há também uma referência ao anjo em 12.8. O termo, entretanto, não se refere todas as vezes ao mesmo ser: Há hammaVãk haddõbêr bi (o anjo que falava comigp) (p. ex., 1.9,13,14; 4.1,4,5; 5.5), também designado anjo intérprete. Depois há referências ao maVãk-yhwh (anjo de Yahwéh) (1.11,12; 3.1,5,6; 12.8). Há finalmente referência a maVãk (o anjo) (p. ex., 1.13; 3.3; 5.10; 6.4,5). O próprio contexto parece sugerir que o anjo intérprete é distinto do anjo de Yahwéh na primeira visão (1.9,11). O homem entre as mirteiras (1.8) é o que se designa como o anjo de Yahwéh, entre as mesmas árvores (1.11), e este homem ou anjo de Yahwéh não é o anjo intérprete (1.9). Mas em outros exemplos, algum outro que não o anjo intérprete fala a Zacarias (1.19-2 [TM 2.2-4]). Aumentando a dificuldade de distinguir os anjos, um terceiro aparece como sendo um mensageiro (2.3,4 [TM 2.7,8]), que é distinto do anjo intérprete. Portanto, podemos concluir que há três anjos nas visões. Mas outra dificuldade que impede uma conclusão definida é que o profeta se dirige ao anjo intérprete como ’àdõnt (meu Senhor) (1.9). É possível concluir que Zacarias está-se dirigindo ao homem ou ao anjo de Yahwéh (1.8,11), mas o profeta parece ter dirigido a pergunta "quem são esses, meu Senhor?" (1.9a) ao anjo intérprete. Zacarias pode estar reconhecendo-o como alguém enviado por Deus com autoridade para explicar o que está acontecendo e o que vai acontecer. Um fator adicional que acrescenta mais dificuldade é que Zacarias escreve que yhwh (Yahwéh) lhe mostrou quatro ferreiros (1.20 NIV [TM 2.3]). Deve Yahwéh ser considerado uma quarta pessoa? Na base do que foi dito em 1.12,13 parece ser assim. O anjo de Yahwéhé chamado deyhwh sèbã’ ôt (Yahwéh dos Exércitos), que é quem responde à pergunta dirigida ao anjo intérprete. Note-se que neste contexto pode ser entendido que o anjo de Yahwéh é o anjo intérprete, embora sejam distinguidos um do outro em outros lugares.[11]

Embora seja difícil determinar quantas personalidades são citadas nas visões, pode ser dito com toda confiança que a frase hebraica maVak yhwh (anjo de Yahwéh) se refere à deidade e, como em outras passagens do Velho Testamento, a referência é especificamente à Segunda Pessoa, melhor descrita como o Messias.

1.11. O anjo de Yahwéh recebeu o relatório dos mensageiros angélicos, aqueles cavaleiros (1.8) enviados por Yahwéh (v. 10) para percorrer a terra e ver o que estava acontecendo entre os povos e nações. Portanto, o divino Anjo recebe o relatório dos mensageiros de Yahwéh. O preciso conteúdo da mensa­gem é que "todo o mundo (está) em repouso e paz" (v. 11b). A maior parte dos comentadores entende que isso quer dizer que os governantes das nações estão no controle. O ponto de vista de críticos, que pensam que Ageu e Zacarias profetizaram um bom futuro para o remanescente devido ao tumulto no império persa, certamente não tem o apoio de Zacarias.[12] O anjo de Yahwéh entende que a mensagem explicita claramente que o remanescente em Jerusa­lém está sob o jugo de nações estrangeiras. Ele intercede como um sumo sacerdote deveria fazê-lo. Aqui o ofício sacerdotal do Messias é exercido.[13] Esta oração intercessória é respondida pelo próprio Yahwéh, que, possivelmente, fala como seu anjo. A mensagem, entretanto, é dada ao anjo intérprete, que ordena a Zacarias proclamar que o amor zeloso de Yahwéh por Jerusalém não foi diminuído. A comunidade do remanescente recebe a garantia de que a cidade e o templo serão reconstruídos (1.14-17).

A primeira mensagem messiânica recebida por Zacarias é que Yahwéh está firmemente no controle das nações. Ele ouve a oração intercessória do Media­dor messiânico. A obra de Yahwéh em favor e por meio de sua comunidade do remanescente será abençoada. O templo, o próprio símbolo e tipo da presença de Yahwéh, será restaurado. Em sua primeira visão, Zacarias recebe a mensagem que Ageu já tinha proclamado. Mas é preciso repetir: Yahwéh é Senhor sobre as gentes e nações, Ele é o Rei. Ele habitará no meio de seu povo, como testemunhado pela reconstrução do templo em seu meio. Essa mensa­gem da soberania de Yahwéh sobre os povos e nações é repetida na segunda visão (1.18-21 [TM 2.1-4] ). Semelhantemente, a certeza da reconstrução do templo é destacada na terceira visão (2.1-13 [TM 25-17]). Notem-se estas palavras de certeza "porque Eu venho e habitarei no meio de ti... muitas nações se juntarão ao Senhor... e saberás... Então o Senhor herdará... Jerusalém" (2.10-12 [TM 2.14-16]). Essas promessas são fortes reminiscências das promes­sas messiânicas feitas por profetas anteriores (p. ex., Is 2.2-4; Mq 4.1-5).



Josué, o Sumo Sacerdote

Josué já tinha sido citado por Ageu (Ag 1.1,12,14); Zacarias também salienta que ele desempenhava um papel importante.



3.1-10. A quarta visão que Zacarias recebe tem alguns elementos importan­tes na revelação do conceito messiânico.[14] Um estudo cuidadoso dos caracteres retratados na passagem será compensador.[15]

Zacarias é citado pelo pronome da primeira pessoa, me. O "ele" que mostra a cena a Zacarias não é facilmente identificado. As cenas anteriores vieram ante o profeta na forma de visões, mas ele não indica sua fonte ou sua causa. Gamo, porém, Zacarias se refere repetidamente à palavra de Yahwéh, podemos concluir que o foco está em Yahwéh.[16]

A cena é de uma sala de tribunal, Josué, o sumo sacerdote, vestido de roupas sujas, está em pé diante da barra do tribunal, perante o Anjo de Yahwéh como Juiz. Quem acusa Josué é o "Acusador" (cf. NIV mg.) ou "Satanás". Alguns críticos sugerem que as vestes sujas devem ser interpretadas como impureza devida ao exílio. O povo e os sacerdotes que não foram para o exílio conside­rariam Josué, e outros como ele, como tomado impuro. Essa interpretação baseia-se demasiadamente numa tentativa de criar uma situação histórica específica em que haja antagonismo entre grupos de sacerdotes rivais, a quem Zacarias estaria dirigindo-se.[17] Smith está mais certo, indicando que, no contexto mais amplo, o pecado e a culpa representados pelo traje sujo não se referem diretamente a idolatria, cobiça ou imoralidade, mas, antes, como Ageu indicara previamente, a negligência quanto ao templo e ao culto de Yahwéh.[18] Neste preciso contexto é importante compreender que o sumo sacerdote na função de mediador tanto pode representar Deus quanto o povo. Nesta cena ele claramente representa o povo. O ponto a ser compreendido é que o povo, inclusive os sacerdotes, é culpado. E Satanás o sabe muito bem. Daí sua presença no tribunal divino para acusar Josué. Mas a verdadeira confrontação é entre o anjo de Yahwéh (o Messias) e Satanás. O antagonismo de que Deus falou a Adão e Eva está notavelmente desenvolvido. A inimizade feroz entre a semente da serpente e a semente da mulher continua a chamejar.

O anjo de Yahwéh responde. Quase todos os principais comentadores sustentam que wayyõ’mèr yhwh (e disse Yahwéh) refere-se ao anjo de Yahwéh; a deidade do anjo é, portanto, indicada. São feitas três declarações específicas acerca de Satanás: (1) Yahwéh te repreende (3.2), isto é, Satanás é acusado e julgado; (2) Yahwéh habõhêr (o que elege) olha com amor electivo para Jerusalém e seu povo, como tinha feito no passado (porque Yahwéh pode fazê-lo é explicado mais adiante). E (3) Josué, representante do povo, foi tirado do fogo como um tição, isto é, foi tirado do exílio (3.2). O anjo de Yahwéh, portanto, atesta que está plenamente cônscio da condição espiritual do rema­nescente, mas, a despeito disso, o remanescente continua a ser um povo eleito e não será condenado. Esta é mensagem muito reconfortadora para a comuni­dade judaica. O Juiz divino, o Mediador messiânico, não a condena; antes, defende-a.[19]

O anjo, tomado como sendo o Juiz messiânico (3.4) dirige-se aos servos angélicos. Josué é despido dos trajes sujos que representam a falha, o pecado, a culpa, a condenação passados, mas não, como é de esperar-se de seus paramentos sacerdotais. A declaração é incisiva: rè’êh he'èbartt mê'ãlêkã 'awõnekã (eis que fiz passar de ti a tua iniqüidade). Há perdão completo e total. Este é o aspecto negativo. O positivo é: wèhalbêS ’Otkã mahâlãsêt (e te vesti de finos trajes). O verbo lãbaS (vestir) está no hiphil absoluto, indicando uma ação intensa e completa. Esse substantivo para "trajes finos"(NIV) aparece somente mais uma vez no Velho Testamento (Is 3.22), onde parece referir-se a vestes festivas de pureza, alegria e glória. Aqui o termo parece pertencer ao vestuário oficial do sumo sacerdote, que é tão puro e brilhante quanto deve ser (Êx 28.1-43). O Mediador messiânico é o Juiz e também é Aquele que restaura plenamente. Ele é o que perdoa, o que cura e o que capacita pessoas para serem representantes e servos de Yahwéh.

Um item adicional do vestuário é dado a Josué como representante do povo. A pedido de Zacarias, é-lhe dado um sãntp fãhôr (turbante limpo) (35). O termo sãntp refere-se a uma cobertura para a cabeça de mulheres ricas (Is 3.22) ou de homens eminentes (fó 29.14). (Um termo derivado deste é usado para referir-se ao diadema do Príncipe de Israel [Ez 21.31][20] e do sumo sacerdote [Êx 2837]). O turbante, um pano enrolado ao redor da cabeça, indicava expli­citamente que seu portador, com dignidade e honra, tinha uma posição oficial, seja em posto de cunho real, seja sacerdotal. Zacarias requer que todas as evidências da plena investidura no ofício estejam presentes. Alguns comenta­dores sugerem que a colocação do turbante evidencia que foi feita completa expiação. Enquanto os auxiliares fazem isso, o Anjo de Yahwéh, Aquele que tomará essa expiação uma realidade, estava ali (Zc 3.5). Ele supervisiona a atividade. Ele é quem garante o direito, ao sacerdote e ao povo, de serem um reino de sacerdotes (Êx 19.6).

O Mediador messiânico assume também o papel de Senhor (3.6,7). Tendo servido como Juiz e Restaurador, Ele incumbe Josué, e por meio dele o povo, de ser um servo obediente. Josué terá o encargo do templo, de seus pátios, e do culto relacionado com ele. O povo, entretanto, é encarregado de manter o templo e seus serviços. O anjo de Yahwéh, dando-lhe esse encargo, assegura aos sacerdotes e ao povo que o templo será reconstruído e funcionará como antes do exílio. Portanto, o templo restaurado, o sacerdócio recomissionado e o povo a servir são aceitos a despeito de sua falha e corrupção passadas.

Os sacerdotes e o povo não devem pensar que somente o templo, seus rituais, seus oficiais e adoradores serão restaurados e cumprirão os propósitos e planos que Yahwéh tem para eles. Em 3.8-10 o foco da atenção passa de Josué e do tem­plo para Alguém que é maior do que eles. Usam-se aqui epítetos que profetas anteriores usaram para falar daquele que é o anjo de Yahwéh, que é não somente o Mediador messiânico, mas também o Mediador Messiânico Régio.

3.8-10. A palavra é dirigida a Josué e seus "associados" sacerdotais. Eles são realmente ’anèsê môpèt (homens do sinal divino, ou maravilha; "homens das coisas simbólicas por vir" NTV) .[21] Eles têm um importante papel nos propósitos e planos pactuais de Yahwéh. Eles, como antes mencionamos, ministrarão na casa de Yahwéh, o templo (3.7). Todavia, como homens de "bons presságios" (RSV), também servem como indicadores que apontam para além de si mes­mos. Eles devem lembrar-se de que o ofício nos tempos de Davi e Salomão tinha feito provisões para a construção do templo e seu ministério e realmente o tinha erigido. Esse ofício é ainda uma parte integral ao programa de Yahwéh. Kí-htnnt iriêbt ’et-àbdi semuh (pois eis que estou no ato de trazer [hiphil de bõ’, vir] meu Servo, o Renovo). Dois títulos que tinham sido usados previamen­te para o Messias são usados aqui. Pela designação hebraica de 'abdt (meu servo), Ageu tinha descrito Zorobabel, da casa davídica (Ag 2.23). Zacarias também se refere à casa real acrescentando "o Renovo", palavra que Isaías tinha dito anteriormente (Is 4.2; 61.11), assim como Jeremias Jr 235; 33.15). Os sinônimos "broto" e "ramo" tinham, de igual modo, sido usados (Isll.l;53.2).[22] No contexto das profecias de Ageu e Zacarias, bem como no contexto mais amplo das profecias, os epítetos Servo e Renovo referem-se a Davi e a seu antítipo, o Messias. Para afirmar com exatidão: são termos-chaves messiânicos; referem-se à pessoa real divina, o Messias.

Em 3.9 aparece um terceiro termo. O anjo de Yahwéh, falando como Deus e proferindo a mensagem de Yahwéh para Zacarias proclamar a Josué, diz ncUattt (dei ou coloquei) hã’ében (a pedra) diante de ti. O sumo sacerdote tem de considerar esta pedra cuidadosamente. Ela tem sete olhos (KJV, NIV) ou "facetas" (RSV, MV mg.), e haverá uma inscrição sobre ela. Antes que a pedra possa ser propriamente identificada, devem ser notadas as duas declarações que se seguem: (1) em um dia o pecado da terra será removido; e (2) haverá paz e prosperidade na terra (3.10).

No cap. 3 é retratada a remoção do pecado (v. 4). Essa remoção é efetuada por ordem do anjo de Yahwéh que, ele mesmo, de acordo com Isaías (Is 53). e Jeremias (Jr 23.6), faz possível essa remoção. O mesmo anjo de Yahwéh, o Servo, o Renovo, trará com ele paz e prosperidade (Is 11.1-5; Am 9.13,14; Mq 4.4; Ez 36.29,30; 37.24-28). Do que segue e precede a referência a "meu servo" e ao "renovo", podemos concluir que hã'eben (a pedra) é um terceiro nome especí­fico, um título ou referência ao Messias.[23]

Nem todos os vários comentadores concordam que essa especiosa pedra tem significação messiânica. Smith, consciente das tentativas de explicar a pedra, julga difícil fazê-lo. Ele refere-se àqueles que dizem que ela aponta para a pedra fundamental, ou a pedra do topo (RVS) do templo (cf. 4.7); outros pensam que é um altar, a arca, uma jóia do peitoral do sumo sacerdote ou da coroa que deveria ser preparada mais tarde. Mas Smith rejeita essas interpre­tações todas e sustenta que a pedra representa o templo.[24] Barker, por outro lado, rejeita a sugestão de que a pedra se refira a Israel porque, segundo ele, esse ponto de vista implica em que o povo estaria diante do sumo sacerdote para receber perdão. O problema é que esse ponto de vista não tem lugar para a paz e prosperidade por vir. Barker refere-se a vários lugares na Escritura em que a pedra se refere a Cristo: (1) a pedra de tropeço (Is 8.13-15; também SI 118.22-23; cf. Mt 21.42; 1 Pe 2.7,8, gr. petra); (2) a rocha de refúgio (Is 28.16 par. Pe 2.6); (3) a pedra que esmaga a estátua, em Daniel 2.35,45; (4) a pedra principal de esquina da igreja (Ef 2.19-22); e (5) a rocha fidedigna para o "Israel restaurado" na era messiânica (milênio).[25] Barker exagerou em suas apreciaçõ­es, mas está certo ao indicar que a pedra é usada para referir-se a Cristo.[26]

Douma tem problema com essa idéia, porque o sumo sacerdote representa Cristo; ele crê que a pedra se refere ao reino de Deus, que o sumo sacerdote devia servir,27 Parece-nos apropriado acrescentar que Douma não está inteira­mente errado, porque onde o Messias real é referido, seu reino também está implícito.

A frase sete olhos sobre essa pedra (3.9) é, realmente, difícil de explicar. A preposição hebraica 'al, traduzida "sobre", poderia ser interpretada para significar que os olhos estão voltados para ela. A referência aos sete olhos em relação à pedra em 4.10 é tal que os sete olhos pertencem à pedra ou estão em imtima relação com ela e com seu propósito. De modo semelhante, em Ap 5.6 é dito que o Cordeiro de Deus tem sete olhos que são os sete espíritos de Deus. Barker considera que os sete olhos se referem ao Espírito Santo ou à Divinda­de.28 Joyce Baldwin, depois de examinar o uso desse termo tão versátil, admite a possibilidade de significar "facetas" ou lados da pedra, indicando a amplitu­de de seus serviços. Mas Baldwin também adnüte considerar o substantivo 'ayin (olho) para se referir a uma fonte. Pensando-se na rocha que por duas vezes deu água no deserto (Êx 17.6; cf.Nm 207-11), pode-se considerar a pedra provendo água viva em grande quantidade para purificar o sacerdote e o povo poluídos. Se essa tradução do termo hebraico 'ayin for aceita,29 podemos ainda considerar que a referência, em última análise, é ao Espírito Santo, como em Ezequiel, que usou a água como símbolo do Espírito Santo (Ez 47.1-12).

Finalmente, a pedra é uma referência ao Messias e os sete olhos são uma indicação da presença do Espírito Santo, que é inseparavelmente relacionado com ò Messias quando este provê plena expiação para o povo e guia o remanescente e seus líderes no cumprimento da vontade de Yahwéh.

A frase que fala de uma inscrição na pedra foi tomada pelos pais da Igreja para referir-se às marcas que Cristo recebeu em seu corpo, por ter sido ferido a fim de trazer-nos plena expiação.30 Esta interpretação é por demais rebusca­da. A inscrição é de algum modo relacionada com a obra de governo e de expiação que o Messias realizará. Possivelmente foi acrescentada para signifi­car que o que foi prometido acontecerá de modo absolutamente certo e garan­tido . A frase, portanto, pretende dar garantia à comunidade de que seu passado foi realmente removido, de que Yahwéh está com eles, e de que o Messias prometido certamente virá e proverá um futuro glorioso para seu povo. Em resumo, todas as promessas relativas ao Messias, como um Juiz perdoador, como Sacerdote que faz plena expiação, e como o Rei representante da casa davídica, a prover paz e segurança — todas estas promessas proféticas cer.tamente serão cumpridas. De fato, os propósitos e planos pactuais de Yahwéh serão plenamente realizados pelo prometido Mediador messiânico. A comu­nidade do remanescente certamente receberá todos os benefícios que Ele provê.



Zorobabel

Nos caps. 1 e 2 Zacarias dirige-nos primariamente a atenção para o anjo de Yahwéh, e no cap. 3 para Josué. No cap. 4, que registra a quinta visão, o foco principal está sobre Zorobabel. Isso parece inteiramente certo por causa da referência à casa davídica no capítulo anterior, pelo uso dos termos meu Servo, o Renovo, e a Pedra. É bom notar o movimento da revelação nas primeiras quatro visões (caps. 1-3). Há o apelo à comunidade do remanescente para que se arrependa (1.1-6). A primeira visão representa os povos e nações "em repouso e em paz" (1.11), o anjo de Yahwéh intercedendo, e a resposta de Yahwéh, que o templo e a cidade serão reconstruídos. A visão seguinte representa a queda das nações, enquanto a terceira visão apresenta o reino de Yahwéh (Jerusalém como cidade sem muros e expandindo-se por toda a terra). Então vem a visão 4 proclamando expressivamente o perdão e a purificação da comunidade do remanescente, destacando o papel de servo do sumo sacerdote Josué e dos demais sacerdotes em relação à casa davídica. E agora, a visão 5 (cap. 4) amplia o papel de Zorobabel e sua relação com Josué, o sumo sacerdote. Nessas visões, o Messias é proclamado por Zacarias: Ele é apresen­tado como o anjo de Yahwéh, tipificado por Josué e considerado o descendente da casa davídica mediante seu predecessor e representante, Zorobabel.

4.1-14. O quadro 21 revela que o próprio Zacarias está envolvido: ele requer instruções sobre como pode compreender e proclamar claramente a mensagem de Yahwéh a respeito do seu plano, seus agentes e seu método. O foco está tanto sobre o candelabro quanto sobre Zorobabel. O templo desempenha um papel importante, mas Josué e o sacerdócio não são citados diretamente na passagem.

Depois das quatro visões Zacarias adormece. É então despertado para receber nova revelação (4.1). Interrogado sobre o que vê, dá uma descrição acurada. Descreve o candelabro de ouro do templo, que tem uma haste central com seis ramos, e no topo de cada um desses, bem como da haste central, há cálices de óleo (cf. Êx 37.17-24). Mas o candelabro da visão de Zacarias tem alguns pormenores adicionais.

Ele tem um vaso, do qual saem sete tubos até as lâmpadas,[27] e há duas oliveiras, uma de cada lado. Zacarias destaca essas oliveiras para atenção especial. Pergunta: mâ-’èlleh ’ãdõni (que são essas, meu senhor?) (4.4). Que representam essas árvores? Qual é seu papel? Não havia oliveiras no tabemáculo ou no templo; a curiosidade de Zacarias, portanto, não é surpreendente. Mas o anjo intérprete dá a impressão de que Zacarias deveria saber (4.5a). Zacarias, por seu turno, insiste em que não compreende sua presença ou sua função. Sua réplica dirige a palavra de Yahwéh a Zorobabel, que até esse momento não tinha sido citado nas visões. Josué, o sumo sacerdote, que tinha sido o centro da atenção na visão anterior, recebera mensagem específica. E em vista de a construção do templo ser mencionada no contexto imediato, uma palavra adicional de Yahwéh a Zorobabel devia ser esperada.

A palavra divina a Zorobabel é surpreendente e provocativa (4.6b): lõ’ bèhayil wèlõ’ bèkõah (não por força e não por poder). O primeiro termo usado para traduzir os substantivos é força. O verbo hayü, de que o substantivo é derivado, significa "ser próspero" (SI 105) ou "ser duradouro" (Jó 20.21). O substantivo, que aparece 244 vezes no Velho Testamento, tem diversas cono­tações, devendo o sentido preciso ser determinado pelo contexto.[28] Um fato, entretanto, merece ser mencionado: a força referida em muitos contextos é relacionada com a riqueza e o valor dos homens. Assim, se uma nação tem riquezas e um exército de homens valentes, é considerada como uma nação que tem hayÚ (força). A palavra de Yahwéh a Zorobabel, o príncipe governa­dor de Judá, é muito significativa. A comunidade do remanescente que retor­nou à sua terra não tem nem riqueza nem um exército poderoso. E o governa­dor não teria os meios para construir um templo magnífico e esplendoroso como o de Salomão (1 Rs7.13-51), nem homens heróicos para defender a cidade como Davi teve (2 Sm 23.8-39). Embora parecesse que essas coisas eram necessárias para levar adiante o intento de Yahwéh de reconstruir Jerusalém, o Senhor lhe diz que não são. Não será pela força ou pelo poder da riqueza e dos recursos militares que o plano e os propósitos de Yahwéh serão cumpridos.


A palavra de Yahwéh inclui também uma referência a kõah. Este substan­tivo não tem uma raiz verbal conhecida em hebraico; em árabe aparece com a idéia de quebrar, desgastar. O substantivo em suas 124 aparições no Velho Testamento tem como idéia básica a capacidade de agir, e agir com perseve­rança. Quando aplicado a Deus, significa usualmente onipotência. Na maioria das vezes o uso que dele faz o Velho Testamento refere-se à força ou ao poder humanos, como, por exemplo, à capacidade de Sansão devida a sua força física Qz 165,6,9,17,19) ou à potência sexual de um homem (Gn 49.3; Jó 40.16; 2 Rs 195).[29] Para Zorobabel, que dispunha de uma força de trabalho pequena e que deve ter-se perguntado como poderia construir a cidade e o templo com mão-de-obra tão limitada, a mensagem destina-se a encorajar e inspirar. Ele não deve olhar para sua falta de força; Yahwéh tem outra fonte de força, poder, resistência, valor e virtude para ele e para o seu povo.

fã ’im-bèrühi. A frase M ’im expressa a idéia de uma comparação negativa: não aquilo, mas isto. O oposto é afirmado em termos claros e positivos. É o Espírito dè Deus quem há de servir em lugar da força, resistência e do poder humanos. Yahwéh, pela instrumentalidade do Espírito Santo, proverá os meios. Zorobabel, o líder oficial, econômico, social e militar, será plenamente equipado para servir. Ele será capacitado para sobrepujar todos os obstáculos diante de si, har hagãdôl (um monte de grandeza, ou um grande monte) (47a). Assim como Isaías proclamara que os vales seriam aterrados e os lugares altos nivelados, para referir-se ao retomo certo dos exilados (Is 40.3-5), assim também Zacarias assegura a Zorobabel que Yahwéh não somente fará a remoção de uma verdadeira montanha de problemas, dificuldades e obstáculos, como também dará tudo o que for necessário para completar o templo, colocando a "pedra de remate" em seu lugar (4.7b RSV). Essa garantia do sucesso de Zorobabel na construção do templo é repetida por meio de um oráculo especial dentro da visão (v. 8). O que Zorobabel tinha começado, lançando os funda­mentos, certamente seria completado.

Zacarias, por meio dessa visão, recebe uma explícita mensagem para Zoro­babel e para o povo que confirma e apóia o que Ageu tinha profetizado. Ageu garantira à comunidade do remanescente que Yahwéh supriria os meios para a reconstrução do templo (Ag 2.6-9) e que Zorobabel serviria como agente-cha­ve (2.20-23). Além disso, Ageu tinha indicado como o templo era um fator decisivo no desenvolvimento dos propósitos e planos pactuais de Yahwéh. O templo, a habitação de Yahwéh, assegurava à comunidade do remanescente que Yahwéh era realmente Imanuel, "Deus conosco", mantendo e cumprindo suas promessas pactuais com e para o povo. Portanto, Zorobabel, bem como Josué, é um agente central: ele tem na mão o fio de prumo. Ele reconstruirá o templo, a despeito dos suprimentos limitados e dos grandes obstáculos (Zc 4.0). E mais, ele fará isso porque os olhos de Yahwéh estão vigiando sobre toda a terra. A onipresença, a onipotência e o governo providencial proverão o apropriado contexto em que a comunidade do remanescente, guiada pelo Espírito, será bem sucedida em levar adiante o mandato de Yahwéh para reconstruir o templo.

Zacarias não está plenamente satisfeito com a mensagem encorajadora que lhe é dada para Zorobabel. Ele quer uma resposta à sua pergunta inicial: "Que são essas oliveiras?" (4.3,11). De fato, ele repete a pergunta (v. 12). Na segunda vez ele é mais específico e acrescenta pormenores descritivos: dois tubos de ouro, um de cada uma das oliveiras, ou de um ramo de cada árvore, que vertem "ouro"(TM), ou "óleo"(RSV), ou "óleo dourado"(NIV).[30]

O simbolismo encontrado em 4.11-14 não é estranho à mensagem bíblica. O óleo usado no candelabro do tabernáculo era o "óleo claro de azeitona prensadas" (Êx 27.20 NIV). Portanto, as duas oliveiras devem ser vistas como a fonte do óleo. O óleo, como discutimos previamente,[31] simboliza o Espírito Santo. Isso é confirmado pela referência ao Espírito de Yahwéh, que proverá a força, paciência e poder requeridos para a construção do templo (4.6). Zacarias, evidentemente, compreende isso. O que ele não compreende é o significado das oliveiras, ou ramos, suprindo o óleo. Em outras palavras, como o Espírito de Yahwéh se tomará disponível à comunidade do remanescente? Mediante que meios específicos, simbolizados pelas oliveiras, entra o Espírito de Yahwéh no povo que age e adora? A resposta vem depois da terceira vez em que Zacarias pede uma explicação.

Elleh Snê bènê-hayyishãr (esses os filhos do óleo fresco) (cf. KJV mg., NIV mg., 4.14). O substantivo yishãr refere-se ao óleo ainda não processado (Dt 7.13), ao óleo que poderia ser dado como parte de um dízimo (Dt 127; 14.23) e como porção para os levitas e sacerdotes (2 Cr 315). Em combinação com o substantivo bên (filho, como em Zc4.14) aparece somente aqui. Há acordo entre os próprios comentadores de que a frase melhor se traduzirá como "os ungi­dos". No seu contexto, ela só pode referir-se a Josué, o sumo sacerdote, e a Zorobabel, o príncipe da dinastia davídica. Tanto os sumo-sacerdotes quanto os personagens reais, como Davi e Salomão, eram ungidos (cf. Êx 29:7; 1 Sm 16.13; 1 Rs 1.3439, 45). Ambos representam ofícios teocráticos e, como tais, servem na qualidade de representantes e agentes especiais para Yahwéh. Esses ofícios e as próprias pessoas que os ocupam tipificam o Messias.

As oliveiras ou ramos, que produzem um suprimento constante de óleo, representam dois ofícios. E esses dois ofícios são o meio por que o Espírito Santo, representado pelo óleo, se toma disponível, abundante e continuamente para a comunidade pactual do remanescente. Uma grande responsabilidade repousa sobre Josué e Zorobabel. Como membros da comunidade eles têm necessidade do Espírito de Yahwéh. Como ungidos, devem também servir como agentes mediadores pelos quais o Espírito de Yahwéh se toma disponível para a comunidade do remanescente.

É informado a Zacarias um fato muito importante. Ele tem de compreender e proclamar que o Espírito de Yahwéh, que capacita e dá poder, virá por meio do Ungido reinante e expiacional. Um sem o outro não suprirá óleo suficiente. Em outras palavras, sem o ato de reinar e fazer expiação, bem como sem que os próprios obreiros e suas posições sejam reconhecidos, e sem que haja plena submissão a esses obreiros, o Espírito de Yahwéh não será dado em medida abundante. Além disso, é estabelecida uma relação muito estreita de coopera­ção e interdependência entre os dois ofícios. As duas pessoas ou os dois ofícios são distintos, mas têm de funcionar como uma única fonte do Espírito.

Finalmente, é dito a Zacarias que por muito que esses dois ungidos sejam necessários para toda a comunidade do remanescente, têm de ser vistos antes de mais nada como ha 'õmêdím 'al-ãdôn kol-hã ‘ares (os que estão diante do Senhor de toda a terra). Esses ungidos, estando diante de Yahwéh, têm o dever primário de servi-lo, representá-lo e informá-lo.

Em conclusão, devem ser afirmados os seguintes três fatos. Primeiro, o ofício profético, representado por Zacarias, tinha de servir para comunicar à comunidade remanescente do pacto que os ofícios real e sacerdotal eram absolutamente necessários para a reconstrução do templo. Segundo, os ofícios real e sacerdotal tinham de funcionar juntos como a fonte por meio da qual o Espírito de Yahwéh se toma disponível ao povo. Terceiro, a comunidade remanescente do pacto tem absoluta necessidade do Espírito de Yahwéh para completar sua tarefa de reconstruir o templo. Os recursos humanos e naturais sozinhos não são suficientes.

Essa mesma passagem (Zc 4) deve ser considerada uma das passagens messiânicas mais dominantes do Velho Testamento. Os ofícios do Messias são apresentados em sua relação mútua; são apresentadas a fonte e os meios da vinda e da presença do Espírito através de meios messiânicos; e são garantidos os resultados da presença do Messias e do Espírito e sua influência. A obra de Yahwéh por sua comunidade do pacto será cumprida.

O Sumo Sacerdote Régio

O preciso contexto que precede a ordem ao profeta de colocar uma coroa na cabeça de Josué contém a última das experiências visionárias de Zacarias. O cap. 5 registra a remoção da maldição da terra, apresentada em duas visões ou em duas partes distintas de uma visão.[32] Zacarias 6.1-8 registra a visão dos quatro carros; essa visão, como Laetsch afirma corretamente, "aponta para trás e liga a série de visões com a primeira visão noturna (cap. 1.7 ss), completando o ciclo".[33]

Depois que as oito visões foram mostradas, a palavra de Yahwéh vem *tlay (a mim), isto é, a Zacarias (6.9). Não há nenhuma referência a uma visão; os elementos característicos de visões estão ausentes. Mas aquilo que é ordenado a Zacarias tem relação direta com o que ele viu antes e tem de proclamar.[34] A referência é particularmente à relação muito estreita entre o ofício real (4.12-14) e o sacerdotal (3.8) do Messias prometido. O sacerdote será uma pessoa real e o rei será um sacerdote.[35]

Zacarias deve receber prata e ouro trazidos de Babilônia por três exilados. Esses dois metais preciosos sem dúvida se destinam ao uso do templo (se Zacarias os recebesse para outro propósito pareceria um sacrilégio); de qual­quer modo, ele recebe ordem expressa de Yahwéh para tomá-los.[36] Com eles deve fazer 'àfãrôt (coroas).[37] O substantivo, derivado do verbo 'õjtor (rodear), denota uma grinalda, bem como um símbolo de esplendor e honra. É freqüentemente usado de maneira simbólica (Is 62.3; Jr 13.1; Ez 16.12; 2131; Ct 3.11). Não há duvida de que no contexto de Zc 6.9-15 significa realeza, devido à referência 'governar sobre um "trono"' (6.13).

Tendo Zacarias feito a coroa, é-lhe dito: Samtã bèrõ’S yêhôSu'a (põe-na na cabeça de Josué) (6.11). Josué é claramente indicado: o filho de Jozadaque, o sumo sacerdote. O sumo sacerdote deve ser coroado. Têm sido feitos esforços para emendar o texto para ler "Zorobabel", mas sem sucesso.[38] Podemos entender porque alguns críticos têm tentado essa emenda. Consideram que o verso seguinte (6.12) fala a respeito do Renovo, que é uma referência davídica, e da construção do templo, que é tarefa de Zorobabel (4.8,9). Mas o texto deve ser cuidadosamente observado. É ordenado a Zacarias dizer-lhe kõh ’amar yhwh sèbã’ôt lê’mõr (assim diz Yahwéh dos exércitos, dizendo). Josué vai ouvir as diretas palavras de Yahwéh (pronunciadas por Zacarias): hinneh ’is (eis um homem, RSV). A New International Version traduz: "Aqui está o homem" (6.12). Deve-se perguntar se isto está inteiramente certo, porque essa tradução tende a dirigir a referência especificamente a Josué. Dever-se-ia então esperar a frase "Eis, tu és o homem", se fosse essa a intenção. Zacarias tem de referir-se ao homem como tendo o nome de semah (Renovo). Este é o próprio nome que Isaías usa para referir-se ao descendente de Davi (Is 11.1 NIV), que haveria de trazer novos céus e nova terra (ver também Is 4.2; Jr 23.5). Esse termo, sem dúvida, leva a uma relação com a dinastia davídica. E o que vem nas frases seguintes continua a dirigir a atenção para a casa davídica. Ele brotará; esta frase corresponde ao que foi dito a respeito do "rebento" surgindo (Is 532. NIV) e tendo desmedida influência. Ele construirá o templo—de novo. Convém repetir: Zorobabel, o descendente davídico, é quem fará isso (4.8,9). Ele será vestido de majestade, e sentar-se-á sobre o trono e governará. São termos que, sem dúvida, lembram as promessas de Yahwéh a Davi (2 Sm 7), que foram repetidas por vários profetas a respeito dos descendentes de Davi (cf., p. ex., Is 9.6,7 [TM 9.5,6]; Mq 5.2 [TM 5.1]).

Vêm a seguir, entretanto, as afirmações surpreendentes, que nos fazem compreender que a atenção não se concentra apenas na casa davídica (6.13d-e). Primeiro, há a referência ao sacerdote.

Wehãyâ kõhên 'al-kisê’ô (e o sacerdote estará sobre o seu trono). O sacer­dote só pode referir-se a Josué, o coroado, e ao que ele representa, designa e tipifica. O sacerdote sentar-se-á sobre o seu (isto é, do Renovo) trono, servindo como um descendente davídico a reinar.[39] Isso é apoiado pela frase seguinte: ioè'ã$at Sãlôm tihyeh bên Sènêhem (e um conselho de paz haverá entre esses dois, 6.13c). O pensamento é muito claro: o governador ou construtor davídico não lutará para expulsar o sacerdote de seu próprio trono. Antes, haverá completa compreensão e cooperação entre eles. O sacerdote governará; o governador servirá como sacerdote. De fato, os ofícios de sacerdote e rei serão unidos — numa só pessoa. Essa especiosa combinação, como mencionamos antes, não é nova nos profetas pós-exílicos, Isaías tinha proclamado que o Servo real, a quem os reis olhariam com pasmo serviria ao mesmo tempo como o Servo expiador e sacerdote (Is 52.13- 53.12).

O que se segue em 6.14 deixa claro que a coroação de Josué é um ato simbólico. Três homens que tinham trazido prata e ouro de Babilônia deveriam receber a coroa depois que esta havia sido posta na fronte de Josué, e colocá-la no templo como memorial. O memorial é obviamente em vista da coroação simbólica a declarar a bela uniãò entre os ofícios real e sacerdotal, ambos os quais seriam mantidos e serviriam na reconstrução do templo.

Depois do estudo de 6.9-15 é necessário fazer algumas afirmações como resumo.

Yahwéh ordena a Zacarias que pratique um ato não usual, que reúne várias profecias a respeito do Messias, suas posições, seus papéis, sua obra. Nesse único ato simbólico de colocar uma coroa real na cabeça do sumo sacerdote, Zacarias faz uma declaração a respeito do Messias, que foi citado como huma­no e divino por profetas anteriores (Zc 1.12,13; 3.1,2; 6.12; Jr 23.1-6; Is 52.13- 53.12; 95,6; SI 2; 110).

Ao colocar a coroa real na cabeça do sumo sacerdote, Zacarias demonstra a unidade dos papéis e ofícios messiânicos. Isso tinha sido indicado antes, mas a unidade e a interação agora são declaradas como nunca o foram antes. Há, assim, uma progressão na revelação desse fato.

Zacarias, ademais, faz uma declaração profética a respeito do resultado real dessa unidade e interação. Ele tinha antes afirmado que tanto Josué como sumo- sacerdote quanto Zorobabel como príncipe ou governador tinham seus papéis e deveres a desempenhar na vida do remanescente do povo do pacto de Yahwéh. Essa dependência mútua é demonstrada: o sumo sacerdote requer o real; o real apóia o sacerdotal; o papel sacerdotal faz possível o cumprimento da tare­fa real. Em outras palavras, o ofício real dá autoridade e poder ao ofício sacer­dotal e à pessoa real para cumprir a obra expiatória do sacerdote. A função sacer­dotal, por sua vez, provê um meio purificado e santificado para a função real.

O preciso conceito messiânico, tanto em seu sentido mais estrito, referente a uma pessoa régia, quanto em seu sentido mais amplo, referindo-se a relações, papéis, características e obra, é revelado em dimensões ainda mais amplas.

Zacarias recebe diversas visões, proclama suas mensagens e pratica o ato messiânico muito significativo de coroar simbolicamente o sumo sacerdote no tempo em que o remanescente do povo do pacto estava começando sua tarefa de reconstruir o templo e a cidade. Esse ato de Zacarias dá-lhe um poderoso incentivo. Não somente evidencia que os dois líderes, Josué e Zorobabel, são parceiros necessários na liderança, mas também que eles tipificam o glorioso cumprimento das promessas de Yahwéh, de que ele habitaria no meio do seu povo e proveria o todo-suficiente e eficiente Mediador do pacto, o Messias prometido.[40]

Finalmente, devemos referir-nos a um tema examinado extensamente nos primeiros dois capítulos de nosso estudo, isto é, que uma idéia extrabíblica de realeza sacra, como a praticada por alguns povos vizinhos, tais como os assírios, babilônios, cananeus e egípcios, teria sido assumida pelos profetas de Israel e de Judá. Notamos que eruditos como Sigmund Mowinckel, Helmer Ringgren e George Riggan procuram traçar pararelos entre crenças e práticas pagãs e as afirmações mais antigas de Israel a respeito de um Messias. Mas esses pararelos não têm base substancial em fatos, sendo, portanto, rejeitados. Por outro lado, a idéia de um vice-regente foi revelada no tempo da criação e progressivamente desdobrada durante as épocas sucessivas da revelação de Yahwéh.[41]



O Interlúdio Histórico (7,8)

O livro de Zacarias, segundo mencionamos no começo deste capítulo, tem três partes facilmente discemíveis: a primeira, caps. 1 a 6, apresenta oito visões; a segunda, caps. 7 e 8 (quarto ano de Dario, cap. 7.1), segue-se cronologicamen­te às visões (que foram recebidas no segundo ano de Dario, 1.7); a terceira, caps. 9 a 14, que esboça eventos futuros. Um estudo destes dois capítulos do meio tem resultado em grande quantidade de conclusões diferentes a respeito da estrutura dessa parte e de suas referências escatológicas e messiânicas.

Em relação à estrutura de Zc 7,8, a série de respostas ou mensagens que Zacarias dá ao povo, depois que este perguntou a respeito da necessidade de jejuar ou prantear, constitui um problema básico. Sua preocupação é a respeito da continuação do costume exercido durante o exílio, agora que um remanes­cente retomou e a reconstrução do tempo está em processo. A pergunta parece legítima: por que prantear e jejuar a respeito de um templo em ruínas, já que ele está sendo reconstruído? A pergunta traz uma resposta de yhwh sèbã’ôt (Yahwéh dos Exércitos, ou Yahwéh, o soberano), que Zacarias tem de colocar diante do povo. A resposta inicial é dada por meio de três perguntas perscru­tadoras: (1) Por causa de quem jejuastes durante os setenta anos de exílio: por causa de Yahwéh ou por causa de vós próprios? (7.5) (2) Não foi vosso jejum antes do exílio para vós mesmos, em vez de para mim, Yahwéh, vosso Senhor? (7.6) (3) Não vos tinham os profetas antes do exílio advertido a não buscardes a vossa própria satisfação? (7.7). Está rniplídta nessas perguntas uma lembran­ça da razão por que o exílio tinha sido necessário e uma acusação de que os exilados que retomaram são culpados dos mesmos pecados. Essa acusação prepara o ambiente para as mensagens proféticas seguintes.

Como devem ser entendidas essas mensagens é assunto que tem suscitado várias opiniões. Baldwin não vê uma estrutura estritamente formal, mas refre-se a dois sermões (7.4-14; 8.9-17) divididos por "ditos relevantes" (8.1-8). Uma resposta direta é dada à pergunta (7.1-3) em 8.18,19 e uma afirmação conclusiva expressa o "anseio universal por Deus".[42] Leupold viu uma censura merecida (7.4-7), uma lembrança do que a desobediência causou aos pais (w. 8-14), e um decálogo de palavras divinas que ele intitulou "A Renovação e Consumação do Pacto de Deus".[43] Conrad von Orelli acha o estilo um tanto desconexo, mas tuna transição notável de tuna instrução em tons negativos (w. 4-13) a promessas de bênçãos e cuidado presevador (cap. 8).[44] Thomas consi­dera que 7.4-13 afirma que Yahwéh "exige não jejuns mas moralidade", e 8.1-17 contém sete ditos de "promessa de felicidade futura".[45] Barker faz tuna distin­ção entre os caps. 7 e 8.0 primeiro contém uma censura (7.4-7) e uma ordem para arrepender-se (w. 8-14), junto com a lembrança de que o povo tinha sido punido por viver injustamente. O último (8.1-17) repete a ordem de arrepender-se, mas é seguida por exortações a viver retamente por causa "da promessa de sua futura restauração".[46]

Há também uma variedade de opiniões a respeito da referência da profecia de Zacarias sobre o futuro. Sigmund Mowinckel afirma positivamente que não há nenhuma referência a um Messias ou a um reino escatológico; antes, considera que Zacarias assegura ao povo que Yahwéh habitaria no meio dele no estado político que estava sendo reestabelecido.[47] Homer Hailey crê que Zacarias estava falando da futura Jerusalém espiritual sob o Messias,[48] enquan­to Calvino[49] e Veldkamp[50] falam da Igreja como o cumprimento da mensagem de Zacarias. Baldwin[51] e Leupold[52] são menos diretos ao falarem do cumpri­mento futuro do pacto através do Messias. Outros, referindo-se à futura era messiânica, admitem que Zacarias está apontando para a primeira vinda de Cristo à terra[53] ou à sua segunda vinda no reino mileniaL[54]

As diferenças sobre a compreensão do que especificamente Zacarias está falando — de um estado político, da Jerusalém espiritual, da Igreja, da era do Novo Testamento, do reino milenial, ou de um cumprimento geral futuro do pacto—tudo o que estaria de um modo ou de outro relacionado com o Messias, exigem uma atenção cuidadosa de 7.8-8.23.

Antes de mais nada, devemos conservar na mente o real contexto da passagem. Zacarias começou suas profecias com um apelo ao arrependimento, depois de lembrar à sua audiência a ira de Yahwéh contra seus ancestrais deso­bedientes (1.2-6a). O povo, na verdade, arrependeu-se e reassumiu seu traba­lho; recebeu então a garantia do amor zeloso de Yahwéh em seu favor (1.14). Zacarias continua a encorajar o povo assegurando-lhe a derrota das nações (1.18-21 [TM 2.1-4]), a certeza da restauração do templo (2.1-13 [TM 25-17]), do perdão do povo (3.1-10), a garantia de que a casa davídica, de fato, coopera com o ofício do sumo sacerdote na restauração do templo e de seu culto (4.1-16), ã purificação da terra (5.1-11), a soberania de Yahwéh sobre os povos e nações (6.1-8), e a garantia da presença do Messias como Rei e Sacerdote (6.9-15). Nestas mensagens proféticas, o templo, o Messias prometido e o papel obe­diente do povo nos propósitos e planos de Yahwéh na realização de seu pacto são temas dominantes.

Também devemos observar que os últimos seis capítulos de Zacarias (caps. 9-14) focalizam o Messias, seu reino e a vida santificada da comunidade remanescente do pacto.[55]

Estará Zacarias introduzindo novos temas significativos, ao desenvolver sua resposta à pergunta a respeito de prantear e jejuar, e a resposta inicial com sua censura ou condenação, ou continua a desenvolver os temas sobre os quais tinha falado antes? Será demonstrado que se trata da última alternativa.

Primeiramente, o assunto da construção do templo não é omitido. Na verdade, constitui um fator básico. O profeta afirma claramente: "Sejam fortes as mãos de todos vós... para queo templo seja edificado" (8.9 NIV). A situação é óbvia. Depois de dois anos de reconstrução do templo, vendo seu progresso, um sentimento de auto-satisfação se havia desenvolvido. O povo está cada vez mais pensando no que já realizou e cada vez mais dirige o pensamento para seus desejos pessoais e para um estilo mais agradável de vida. Afinal, jejuar e prantear não parece congruente com o que estava acontecendo diante de seus olhos. Mas essa própria atitude está enfraquecendo as mãos dos trabalhadores, que necessitam ser fortes a fim de continuar a construir o templo arruinado. O templo é indicação segura da presença contínua de Yahwéh, de sua habitação no meio de seu povo. Ele fala eloqüente e diretamente de que Yahwéh cumpre sua promessa pactuai, "Eu estou convosco". E dessa maneira, embora o termo bèrit não apareça na passagem (caps. 7,8), a idéia do pacto está certamente presente.

O povo é uma comunidade que tem responsabilidades pactuais. Não apenas tem a obrigação de restaurar completamente o templo, mas também sua vida pessoal deve expressar claramente essas responsabilidades. As di­mensões éticas do pacto têm de ser mantidas: eles têm de fazer justiça e expressar misericórdia e compaixão uns aos outros (7.8-10). Isso tem sido exigido da comunidade do pacto através dos séculos — de Abraão (Gn 17.1; 18.19; 265), Israel no deserto (Lv 19.18; Dt 10.14-22), e da própria nação dividida (Mq 6.8). Zacarias relembra aos perguntadores as razões do pranto e do jejum. Assim, o povo que quer os sacerdotes lèhalôt ’èt-pènê yhwh (suplicar perante a face de Yahwéh) (Zc 7.2) em seu favor é chamado à fidelidade pactüal.

Depois de Zacarias ter censurado o povo e advertido de que Yahwéh exige fidelidade a Ele, e justiça, misericórdia e compaixão para com os outros, ele repetidamente relembra que Yahwéh tem uma palavra para eles. Em quinze das dezesseis vezes que Zacarias se refere a Yahwéh acrescenta o termo sèbã’ôt (dos exércitos, isto é, poderoso ou soberano; 8.1,2,4, 6,7,9,11,14 [duas ve­zes],18,20,21,22,23). Yahwéh, exercendo sua soberania sobre a comunidade do remanescente, cumprirá suas promessas pactuais a um povo atento, arrepen­dido e servidor.

Quando começa sua proclamação das promessas de Yahwéh, Zacarias repete o que tinha afirmado ao povo ao receber a primeira visão; de fato, repete-o em termos muito mais fortes: qinnfti lèçtyôm qtnnè’â gèdôlâ (estou zeloso por Sião com grande zelo) (8.2). Tradutores têm vertido como "estou muito ciumento... estou ardendo em ciúme" (NIV). Essa é uma reconfortadora mensagem de garantia; o grande amor pactuai de Yahwéh em favor de Sião deve ser notado.60 Sião é a cidade de Davi. O grande amor de Deus não é apenas por Jerusalém, onde está o templo, mas também por Sião, a parte régia da cidade. Yahwéh assegura ao povo por meio de Zacarias não somente Sabtt (voltarei), mas também Sãkanti (habitarei) em Jerusalém e Sião (8.3), confir­mando sua presença. A cidade será, realmente, conhecida como ’ir~hã’èmet (cidade da verdade ou da fidelidade), e o Monte Sião como har haqqüdeS (montanha de santidade). Zacarias assegura à comunidade do remanescente que Yahwéh está cumprindo a promessa anunciada por Ezequiel (Ez 36.16-38). Quando Ele, Yahwéh, tiver sua residência na cidade, sua presença purificará a cidade e santificará seus habitantes.

Duas perguntas que estão exigindo resposta são: (1) Quando isto acontece­rá? E (2) como isso virá a suceder? A resposta a essas perguntas será a resposta às mesmas questões que surgem após o estudo de cada passagem. Por agora, é bastante dizer que Baker, citando Feihberg, pensa que a referência é ao milênio, quando o Rei Messias reina, depois que os poderes gentílicos forem sobrepujados.61 Laetsch, entretanto, considera que a passagem fala simbolica­mente de Yahwéh tomando residência espiritualmente no coração do povo, citando Jr 3133; Ez 36.26; e Jo 1423 como passagens de apoio.62 Leupold refere-se à partida de Yahwéh de Jerusalém (Ez 93; 10.4-18; 11.22,23) e à sua ausência por aproximadamente setenta anos. Yahwéh habitaria novamente com seu povo, como tinha habitado quando o tabernáculo mosaico e o templo salomônico tinham sido seu lugar de habitação. Yahwéh declara deste modo que seu pacto não foi revogado, mas permanece vital.63 Moore acentua que Zacarias está falando do tratamento que Yahwéh dá a sua Igreja,64 como Calvino pregara cerca de três séculos antes.65 Baldwin escreve cuidadosamente de uma nova era, que ela, porém, não especifica nem define.66 Ao rever as várias interpretações e aplicações, uma conclusão é inevitável: muito poucos escritores, se é que algum, concordam com Mowinckel que essa discutida passagem não tem importância escatológica nem messiânica. Ambos são defi­nidamente presentes. O futuro próximo está representado, mas o escopo desse futuro pode ser determinado melhor quando considerarmos o desenvolvimen­to da profecia de Zacarias. Nesse preciso contexto ficará claro se o aspecto messiânico está incluído, e em que extensão.

Zacarias refere-se a velhos e jovens enchendo de novo as ruas de Jerusalém (8.3,6). Keil nota que essas eram bênçãos teocráticas prometidas ao povo fiel ao pacto de Deus (Êx 20.12; Dt 6.2; SI 91.16), mas Isaías tinha proclamado que essas eram também bênçãos da era messiânica.[56] Baldwin está certa quando escreve que uma vida abundante para pessoas de todas as idades era repre­sentada para o futuro.[57] Nesse preciso contexto devemos também lembrar que Joel profetizou a respeito dos velhos e jovens (não especificamente crianças) quando falou a respeito da vinda do Espírito nos primeiros estágios da era do Novo Testamento (J12.28 [TM 3.1]).

Quando desenvolve as promessas de Yahwéh a seu povo, Zacarias clara­mente refere-se ao futuro muito próximo, que de fato já havia começado. Ele fala de Yahwéh reunindo seu povo em Jerusalém (8.7,8) e cumprindo suas promessas pactuais, isto é, ser fiel e reto para com aqueles que são seu povo (Êx 193-6). Esta última afirmação introduz uma dimensão retrospectiva; como Yahwéh tinha feito no passado, Ele também consideraria o povo do pacto como seu e trataria com ele fiel e retamente no presente e no futuro próximo, bem como no futuro distante. Assim é posto diante da comunidade do pacto um panorama muito amplo, sendo ela encorajada a fazer sua parte como colaboradora de Yahwéh na execução de seu seguro plano e programa pactual.

Em 8.9-11 e 8.12,13, Zacarias de novo se dirige à comunidade do remanes­cente em vista de sua própria situação e circunstâncias. Ele insiste com o povo para que continue a construir. Yahwéh assegura-lhe que é esperada uma boa cooperação (v. 10), e ele próprio promete não tratar com eles como fez durante o exílio e imediatamente depois do retomo. Eles podem esperar a água neces­sária para boas colheitas; Yahwéh, na verdade, fará prosperar (w. 11-13). Zacarias dirige-se à comunidade de seus dias na passagem seguinte (w. 14-17). Ele chama-a à vida fiel do pacto.

Quando foi trazida a Zacarias a questão do pranto e jejum, ele não deu uma resposta direta. Mas foi mais objetivo quando falou dos dias de jejum toman­do-se acontecimentos alegres e dias de festa. Isso, entretanto, não deve ser separado de um elevado padrão ético de vida: o amor pela verdade e pela paz (8.18,19). Portanto, o profeta instrui o povo a continuar como vinha fazendo, e uma transição ocorrería quando a verdade e a paz reinassem tanto nos corações individuais quanto na comunidade do remanescente. Quando, porém, fala de um futuro maior com amor, paz e festa, Zacarias repete o que outros profetas tinham proclamado.

Isaías profetizara que nos últimos dias a montanha do templo de Yahwéh seria estabelecida e muitas pessoas diriam: "Vinde, subamos a ela" (Is 2.23). Quando as pessoas se reunissem na permanente presença de Yahwéh, a justiça, a verdade e a paz prevaleceriam (w. 3,4). Isaías profetizara também que a presença e influência do Renovo de Yahwéh, isto é, o Messias, seria a fonte e agente de pureza, glória e segurança na terra e no Monte Sião (Is 4.2-6). Miquéias, tendo profetizado a respeito desse mesmo grande futuro, acrescen­tou prosperidade e fidelidade como características dessa era vindoura.[58] Zaca­rias, observando que o templo está sendo reconstruído, não sugere que a era prometida está raiando, como Mowinckel parece sugerir. Ao contrário, Zaca­rias quer que sua audiência dirija os olhos, mentes e corações para um tempo futuro. O que essas pessoas tinham de saber e compreender é que tinham um importante papel na preparação desse futuro. Zacarias descreve-o como um tempo de muitas pessoas, de muitas cidades, convidando uns aos outros a ir a Jerusalém, à habitação de Yahwéh, e ali invocar o seu nome (8.20-22). Zacarias ressalta o fato de que o remanescente do pacto, a quem ele se refere como judeus (8.23), será agente-chave para a reunião das nações.

Como os profetas antes dele, Zacarias também dá ênfase à habitação e presença de Yahwéh. Ele o faz referindo-se a Jerusalém, porque esse é o lugar que Yahwéh escolheu para sua habitação, até que venha o Messias, o qual será o tabernáculo de Yahwéh 0o 1.14, gr. eskenõsen). Os profetas dos tempos anteriores falaram da gloriosa nação restaurada de Israel. Referiram-se a uma grande multidão oriunda de muitas cidades e nações. Portanto, sua visão não era de uma Jerusalém terrena, física, mas de um vasto corpo de pessoas no meio das quais Yahwéh habitaria, e entre as quais haveria amor pela verdade e paz; entre as quais a justiça, a compaixão e a misericórdia prevaleceriam; e que, em fidelidade a Yahwéh, desfrutariam prosperidade. Zacarias, deve concluir-se, não fala de um reino milenial para Israel; de um corpo de pessoas chamado a Igreja; ou de um reino sobre o qual o Messias reinará, seja por algum tempo ou para sempre. É verdade que outros profetas foram mais explícitos em referir-se ao Messias e a seu reino. Do Novo Testamento podemos aprender o papel da Igreja, e ela cumpre, em grande medida, o que Zacarias profetiza. Mas Zacarias, no tempo em que a reconstrução do templo tinha começado e quando os construtores estavam começando a pensar em circunstâncias e acontecimentos mais agradáveis, fala em termos gerais de um futuro glorioso. O remanescente que voltou tem um importante papel em trazer esse futuro à realização: um tempo de trabalho, obediência, fé e esperança.






[1] Kenn'eth L. Barker, "Zechariah", em The Expositor's Bible Commentary, ed. Frank E. Gaebelein, 12 vols. (Grand Rapids; Zondei van, 1985), 7597. 


[2] H. C. Leupold, Exposition of Zechariah (republ. Grand Rapids: Baker, 1971), p. 1. 


[3] Ver, para estudo mais amplo, Joyce Baldwin, Haggai, Zechariah, Malachi (Downers Grove, in.: Inter-Var­sity, 1972), pp. 59-81; Barker, "Zechariah", em The Expositor's Bible Commentary, 7595-601; Ebenezer Hender­son, The Twelve Minor Prophets (republ. Grand Rapids: Baker, 1980), pp. 361-365; Leupold, Exposition of Zechariah, pp. 6-13. Cf. Conrad von Orelli, The Twelve Minor Prophets (Edimburgo: T. & T. Clark, 1897), pp'. 304-311, sobre "diversidade de época e de autor" (ibid., p. 307); e G. Adam Smith, "The Book of the Twelve Prophets", em The Expositor's Bible, ed. W. Robertson Nicoll, 5 vols. (Grand Rapids: Eerdmans, 1956), que separa os caps. 9-14 (4.668-679) dos caps. 1-8 (4.620-639), discutindo as profecias deMalaquias e Joel entre aqueles dois grupos de capítulos. Os editores de "The Book of Zechariah", em IB (1956), semelhantemente, dividem o livro de Zacarias em caps. 1-8, comentados por D. Winton Thomas (6.1053-1088), e caps.9-14, aos quais comenta Robert C. Dentan (6.1089-1114). Também R. J. Coggins, Haggai, Zechariah, Malachi, ed. R. N. Whybray (Sheffield: JSOT, 1987), caps. 1-8 (pp. 40^51) e 9-14 (pp. 60-72). 


[4] D. Winton Thomas, "The Book of Zechariah", em IB (1956), 61055. 


[5] Além das referências adma, as seguintes obras podem ser consultadas: Peter A. Ackroyd, "Zechariah", em Peake's Commentary; G. N. M. Collin, "Zechariah", em The New Bible Commentary; Jan Douma, De Nachtge- zichten van Zacharia (Kämpen: Kok, 1924); David J. Ellis, "Zechariah", em The New Layman's Commentary; Charles Feinberg, "Zechariah", em The Wydiffe Bible Commentary; Thomas V. Moore, A Commentary on Zechariah (republ. Londres: Banner of Truth Trust, 1958). 


[6] Smith, "Book of the Twelve Prophets", em The Expositor's Bible 4.628. Smith descreve o que ele considera serem as influências que moldaram as visões de Zacarias, como se elas fossem estritamente de origem humana (ibid., pp. 625,626). 


[7] Thomas, "Book of Zechariah", em IB (1956), 6.1058. 


[8] Ackroyd, "Zechariah", em Peake's Commentary, p. 646. 


[9] Thomas, "Book of Zechariah", em IB (1956), 6.1056, infelizmente prefaciou seus comentários introdutórios com o título "O Profeta da Esperança Irrealizada". 


[10] Um estudo desta frase foi incluído no cap. 8. Concluímos que o anjo do senhor é a segunda pessoa da Trindade, o Filho de Deus pré-encarnado, que foi também revelado como sendo o Messias em outras partes do Velho Testamento. 


[11] Podem'ser consultados vários comentários para informações adicionais. Porém de consulta que tal prova­velmente resultará desapontamento/ por causa da variedade de explicações. Cf., p. ex.# Barker/ "Zechariah", em The Expositor's Bible Commentary, 7.611-613, que reconhece o anjo de Yahwéh como o próprio Yahwéh, mas não ajuda muito a distinguir as outras referências angélicas e divinas. Theodore Laetsch afirma que o anjo de Yahwéh é Se mesmo (citando Êx 23 21), mas não identifica o homem em pé no meio das mirteiras (cf. seu The Minor Prophets [St. Louis: Concordia, 1956], pp .408411). Leupold, em Exposition of Zechariah, pp. 34,35, porém, não pensa que se possa identificar o homem entre as mirteiras com o anjo de Yahwéh, e conclui: "pelo menos, não é necessário.*’ 


[12] Cf. Baldwin, Haggai, Zechariah, and Malachi, p. 96. 


[13] Barker, "Zechariah*, em The Expositor's Bible Commentary, 7.612. João Calvino, Commentaries on the Twelve Minor Prophets, trad. John Owen, 5 vols. (republ. Grand Rapids: Baker, 1979), comenta a obra do Espírito Santo na formulação de orações (ibid. 538,39). Ver Theodore Laetsch, The Minor Prophets (St. Louis; Concordia, 1956), pp. 412,413; Thomas V. Moore, A Commentary on Zechariah (republ. Londres: Banner of Truth Trust, 1958), p. 47, afirma: "Não somente Cristo habita no meio de seu povo e vela sobre tudo o que afeta sua condição, mas também intercede por ele." 


[14] Ver Ackroyd, "Zechariah", em Peake's Commentary, p. 648. Embora admita que as semelhanças sâo pequenas, concorda em admitir que o mito babilónico de Adapa, em que o rei babilónico aparece em trajes penitenciais, está por trás da passagem em foco. 


[15] A passagem recebeu um bom tratamento exegético de comentadores como Barker, "Zechariah", em The Expositor's Bible Commentary, 7.622-627, embora suas aplicações escatológicas possam ser questionadas em alguns pormenores; ver também Baldwin, Haggai, Zechariah, and Malachi, pp. 112-118; David J. Ellis, "Zecha­riah*, em The New Layman's Commentary, pp. 1030,1031; Laetsch, Minor Prophets, pp. 421-426. 


[16] Cf. N. M. Collins, "Zechariah", em The New Bible Commentary, ed. F. Davidson (Grand Rapids: Eerdmans. 1958), p. 751. 


[17] Cf. Peter Ackroyd, "Zechariah", em Peake's Commentary, p. 649; Thomas, "Book of Zechariah', em IB (1956), 7.1067,1068. 


[18] Smith, "Book of the Twelve Prophets", em The Expositor's Bible Commentary, 4.631). 


[19] Barker, "Zechariah", em The Expositor's Bible Commentary, 7.624. 


[20] Cf. a discussão sobre esse termo em nosso estudo de Ez 22, acima. 


[21] Cf. Barker, que estava preparado para usar as frases significação profética e penhor de um acontecimento futuro, como em Is 8.18 ("Zechariah", em The Expositor's Bible Commentary, 7.625). Laetsch, Minor Prophets, p. 425, fala de homens de portento, que tinham de considerar-se a si mesmos como tipos do sumo sacerdote do Novo Testamento. 


[22] Consultar TWOT sobre esses termos. 


[23] Charles Feinberg estava certo quando escreveu: "Este é um terceiro nome para o Messias"; cf. seu "Zechariah", em The Wycliffe Bible Commentary, eds. C. Pfeiffer e E. Harrison (Chicago: Moody, 1962), p. 901. 


[24] Smith, "Book of Twelve Prophets", em The Expositor's Bible, 4.631. Ele não pode estabelecer a conexão entre a pedra fundamental e uma gravação ainda por ser feita, nem pode compreender como a pedra, explicada por outros, poderia estar colocada diante do sumo secerdote. O problema de Smith é que ele se recusa a ver o papel importante e central do Messias real em relação ao templo, a seus ministros e a seu ministério. Smith está certo, entretanto, ao dizer que há dificuldades relacionadas com a pedra. 

Douma, De Nachtgezichten van Zacharia, p. 134, refere-se a "dificuldades não usuais" e ao modo pelo qual alguns intérpretes têm encontrado "toda espécie de coisas" nessa pedra. 


[25] Barker, "Zechariah", em The Expositor's Bible Commentary, 7.626. 


[26] Laetsch, Minor Prophets, pp. 425,426, tem ainda outra interpretação para a pedra: ela indica a Igreja. 0e interpreta os sete olhos como dirigidos para Cristo, embora o sumo sacerdote pudesse fazer isso. Leupold tentou refutar a idéia de que a pedra $e refere a Cristo dizendo que isso acrescentaria à desconcertante variedade de 


[27] Cf. comentários sobre os variados esforços de descrever precisamentre como era esse candelabro, com seu vaso de azeite, tubos, cálices, luzes e oliveiras (Zc 4.2b-3). Uma tentativa de apresentar uma descrição pormeno­rizada e precisa desse singular candelabro não é essencial para uma compreensão adequada da mensagem de nosso texto. 


[28] TWOTrelaciona: força, fortaleza, poder; e também: valentia, virtude, valor,... riqueza, substância, abundân­cia (1.271). 


[29] BDB,pp. 470,471; TWOT, 1.436,437. 


[30] Smith, "Book of the Twelve Prophets", em The Expositor's Bible, 4.632, segue Wellhausen e Srnend, que, de acordo com Smith, consideram o v. 12 como uma repetição, e referem-se a ele como uma possível glosa. A evidência dada por D. Winton Thomas para a glosa é a referenda a ramos em vez de árvores, e aos dois tubos que nâo tinham sido mencionados antes ("Book of Zechariah", em IB [1956], 6.1071-1073). A maioria dos comentadores, entretanto, aceita o texto como está e considera os itens adicionais como elementos importantes para a compreensão do texto. 


[31] Ver cap. 1. 


[32] A maioria dos comentadores considera que Zacarias teve duas visões distintas. Cf., p. ex,, Barker, "Zecha­riah", em The Expositor's Bible Commentary, 7.634; Harry Bultema, A Brief Commentary on Zechariah (Grand Rapids: Grace, 1987), pp. 42-47; Thomas V. Moore, A Commentary on Zechariah (republ. Londres: Banner of Truth Trust, 1958), pp. 78-87; Thomas, "Book of Zechariah", em IB (1956), 6.1075,1076. Mas von Orelli, Twelve Minor Prophets, pp. 332-335, representa aqueles que consideram que o cap. 5 fala somente de uma visão. 


[33] Laetsch, Minor Prophets, p. 436. 


[34] Leupold, Exposition of Zechariah, p. 119. 


[35] Cf. cap. 1 acima, sobre a relação estreita que há entre os três ofícios, e Davi oficiando como sacerdote (cap. 10, subtítulo, "Davi, o Recipiente do Pacto de Deus"). 


[36] Cf. Leupold, Exposition of Zechariah, p. 121. 


[37] O substantivo hebraico está no plural, e assim foi traduzido para o grego na LXX (stephanous). Alguns têm dito que havia duas coroas, uma para Josué, o sacerdote, e outra para Zorobabel, o governador. Porém o verbo usado com esse substantivo plural no v. 14 está no singular. Alguns comentadores entendem que a coroa consistia de diversos círculos de prata e de ouro. Laetsch, Minor Prophets, p. 438; Leupold, Exposition of Zechariah, p. 122. Barker, "Zechariah", em The Expositor's Bible Commentary, 7.639, considera que o plural aqui deve ser um plural de extensão. 


[38] Smith afirma categoricamente que o texto foi alterado. O texto original referia-se a Zorobabel, escreve ele. Sua única fonte para essa opinião é Wellhausen, e também alguns outros críticos ("Book of the Twelve Prophets", em The Expositor's Bible, 4.634). Thomas, "Book of Zechariah", em IB (1956), 6.1079, pontificou que Zorobabel foi coroado com Josué "ao seu lado". Von Orelli, Twelve Minor Prophets, p. 339, refere-se a Ewald que, "arbitrariamente transforma a ação... representando Zorobabel com uma coroa". Mas von Orelli nota que essa mudança retira o aspecto significativo de toda a passagem — a coroação do sumo sacerdote. 


[39] Smith, “Book of the Twelve Prophets', em The Expositor's Bible, 4.634, refere-se a editores que teriam colocado Josué no papel de governante depois que se teria tornado óbvio que a casa davídica não era capaz de reivindicar o trono. 


[40] É conveniente lembrar que Sigmund Mowinckel e sua escola rejeitam completamente a interpretação que Ageu, e espedalmente Zacarias, deram a respeito do Messias, e que o fizeram num contexto escatológico. Para ele essas profecias "não são messiânicas no sentido estrito" (cf. Mowinckel, He That Cometh, trad. G. W. Anderson (Oxford: Blackwell, 1959), pp. 119-122). 


[41] Notemos que Barker, "Zechariah", em The Expositor's Bible Commentary, 7.640, referindo-se a 6.12, citou os procedentes comentários de Alan Richardson a respeito da "posição e papel messiânicos" de Adão no tempo da criação (cf. SI 8), conforme apresentados por Leon Morris, The Gospel According to John (Grand Rapids: Eerdmans, 1971/1981), p. 793, n. 10. 


[42] Joyce Baldwin, Haggai, Zechariah, and Malachi, pp. 144-156. 


[43] Leupold, Exposition of Zechariah, pp. 132-143; Smith, "Book of the Twelve Prophets", em The Expositor's Bible, 4.638, também se refere a um "decálogo", mas fala de dez "curtos oráculos". 


[44] Von Orelli, Twelve Minor Prophets, pp. 342-350. 


[45] Thomas, "Book of Zechariah", em IB (1956), 61083-1085. 


[46] Barker, "Zechariah", em The Expositor's Bible Commentary, 7.644-650. A distinção feita por Barker é útil porque aponta para o desenvolvimento na extensa resposta de Zacarias. 


[47] Mowinckel, He That Cometh, pp. 120,146,166,209,270. Nações se tornarão parte de Israel (da mesma forma que Israel se tomou parte dos impérios babilónico e medo-persa). 


[48] Homer Hailey, A Commentary on the Minor Prophets (Grand Rapids: Baker, 1972), p.361. 


[49] Calvino, Commentaries on the Twelve Minor Prophets, 5200. 


[50] Veldkamp, De Twee Getuigen Haggai en Zacharia, p. 166. 


[51] Baldwin Haggai, Zechariah, and Malachi, pp. 149-152. 


[52] Leupold, Exposition of Zechariah, pp.155-159. 


[53] Keil, em KD, The Twelve Minor Prophets, 2 319, fala do começo do cumprimento quando Cristo veio à terra, e portanto podemos entendê-lo como falando da era do Novo Testamento. 


[54] Barker, "Zechariah", em The Expositor's Bible Commentary, 7.649-655, esp. pp. 654,655. 


[55] Cf. a discussão deste ponto no estudo da mensagem de Ageu, cap.24. 


[56] Keil, em KD, Twelve Minor Prophets, 2.313. 


[57] Baldwin, Haggai, Zechariah, and Malachi, p. 150. 


[58] Cf. nosso estudo de Isaías e Miquéias no cap. 24.