26 de agosto de 2016

R. ALAN COLE - A Localização do Mar Vermelho

alan cole danilo moraes
A Localização do Mar Vermelho

Mais uma vez, o local exato em que Israel atravessou o Mar Ver­melho não tem importância teológica direta. Possui, no entanto, inte­resse histórico e geográfico e, já que acreditamos ter sido a travessia um acontecimento histórico, é nossa obrigação fazer um esforço para localizá-la, mesmo que tal esforço seja, por necessidade, apenas uma tentativa. É claro que os hebreus ao tempo de Moisés sabiam bem qual era a localização, pois vários nomes de lugares são mencionados (14:1,2). Contudo, não é certo se gerações posteriores de Israelitas a co­nheciam; certamente não há uma tradição fixa.

Em primeiro lugar, o nome “Mar Vermelho” causa confusão (pois tem sua origem na tradução grega do Velho Testamento) se o associar­mos ao moderno “Mar Vermelho”, a maior extensão marítima entre a Arábia e a África. Provavelmente nem devemos pensar no Golfo de Suez, que é mais estreito. A expressão hebraica yãm süp é melhor tra­duzida por “Mar dos Juncos” (ou até mesmo “brejo dos papiros”, se­gundo Hyatt). A expressão pode se referir a um lugar específico ou po­de ser apenas um termo genérico para qualquer área de água pouco pro­funda em que proliferem juncos, tal como nos referiríamos hoje a um mangue ou pântano qualquer. No último caso, uma identificação exata é impossível. Essa descrição geral é adequada a muitos pontos ao norte do Golfo de Suez, entre o Golfo e a costa do Mar Mediterrâneo, aproximadamente ao longo do traçado do atual Canal de Suez, onde há uma série de lagoas rasas e semi-pantanosas. Embora essas lagoas possam ter variado um pouco em área e extensão através dos séculos, não há qualquer prova de que a costa do Golfo de Suez se tenha alterado consi­deravelmente em épocas históricas. Podemos rejeitar o ponto de vista de que o local da travessia foi uma extensão pantanosa do Golfo locali­zada bem ao norte e desde então desaparecida. Portanto, as opções ao tempo de Moisés eram aproximadamente as mesmas de hoje e podemos considerar o problema em termos da atual geografia da região.

Como no caso da epístola aos Gálatas, os estudiosos estão dividi­dos entre a teoria “Norte” e a teoria “Sul”. Os que favorecem a teoria “Norte” crêem que Israel atravessou a extremidade sul do Lago Menzaleh (uma lagoa próxima ao Mar Mediterrâneo) ou, possivelmente, uma extensão pantanosa do lago. Essa teoria é comprovável com base nos dados fornecidos pela Bíblia. Uma variação extrema da teoria “Norte” é que Israel marchou ao longo da estreita faixa de terra situa­da mais ao leste, um banco de areia que separa o Lago Sirbonis (outra lagoa salobre) do Mar Mediterrâneo. Em certo lugar, segundo esta teo­ria, devem ter-se desviado para sudeste e atravessado a extremidade da lagoa: este ponto de vista, contudo, não parece tão provável quanto a primeira sugestão. Contrastando com este ponto de vista, a teoria “Sul” (na verdade uma teoria “Centro”) localiza a travessia cerca de trinta quilômetros ao sul, talvez na extremidade sul do Lago Balah ou na extremidade norte do Lago Timsah, ou ainda extensões pantanosas de qualquer dos lagos que possam haver existido naqueles dias. É pou­co provável, a julgar do itinerário subseqüente de Israel, que a travessia tenha se realizado num ponto tão ao sul quanto os Lagos Amargos e, pela mesma razão, impossível que tenha sido no próprio Golfo de Suez, embora tanto o vento quanto a maré (bem proeminentes na narrativa) pudessem, presumivelmente, ter sido fatores bem mais potentes na ex­tremidade do golfo. A narrativa bíblica em si não é decisiva porque já não podemos identificar com certeza os lugares mencionados por no­me, embora eles tenham sido significativos para o autor de Êxodo. No entanto, a recusa deliberada da parte de Deus em deixar que os israeli­tas seguissem “pelo caminho da terra dos filisteus” (13:17) parece eli­minar definitivamente a rota do Lago Sirbonis, podendo também depor contra a rota do Lago Menzaleh. Ambos são muito próximos à costu­meira rota militar da época, a que Êxodo provavelmente faz menção. Tudo depende da exata localização das cidades de Pi-Hairote, Migdol e Baall-Zefon (14:2) e, apesar da aparente certeza de alguns atlas bíbli­cos, sua localização não é conhecida hoje.

Muito depende, além disso, do significado da frase “estão deso­rientados na terra” (14:3). Estaria Faraó dizendo que Israel se encon- trava encurralado entre o mar e as tropas egípcias, sem ter por onde es­capar? Estariam os israelitas, apesar disso, marchando na direção certa para escapar do Egito? Ou estaria ele dizendo, como sustentam alguns comentaristas, que os israelitas estavam irremediavelmente perdidos e que haviam marchado na direção errada? Esta pergunta é importante porque, se Israel estava irremediavelmente perdido, nós também esta­mos. Não poderíamos sequer começar nosso esforço de determinar seu provável itinerário se, de fato, eles não tivessem marchado em direção a um alvo geográfico predeterminado. Presumiremos, portanto, que eles não estavam perdidos (Moisés conhecia o deserto) mas, antes, encurra­lados entre as carruagens de guerra e o mar.



Há uma outra consideração que pode entrar no debate. Se o Monte Sinai ficava realmente próximo a Cades-Baméia, ao norte da península (digamos em Gebel Halal), então uma travessia mais ao norte teria sido preferível, pois assim Israel poderia atingir seu objetivo depois de uma caminhada de três dias (3:18). Tal localização do Sinai, no entanto, tor­naria absolutamente sem sentido a lista de “paradas” ao longo do iti­nerário (por exemplo 15:22,23; 16:1). Parece essencial localizar o Sinai ao sul da península, quer a leste ou a oeste do Golfo de Aqaba. De qual­quer maneira, até mesmo õebel Halal poderia ser atingido no caso de uma travessia “central”, embora não fosse tão fácil nem tão evidente quanto por uma travessia do Lago Sirbonis. Marés de qualquer espécie teriam sido impossíveis, é claro, se seguirmos a teoria “Central”. Se­riam muito significativas caso o Golfo de Suez fosse um local con­cebível e não teriam o menor sentido no caso de uma travessia ao norte, em qualquer das lagoas. Não é certo, no entanto, que versículos como 14:27 se refiram a marés oceânicas. A terminologia usada pode se refeir ao fato de as águas da lagoa voltarem a ocupar seu leito original. Tudo que a narrativa menciona especificamente é o uso feito por YHWH de um “forte vento oriental” (14:21) para secar o leito da lagoa e isto se aplica igualmente a todas as áreas. Embora uma certeza absoluta seja impossível, um balanço das provas parece colocar a travessia em algum ponto próximo do centro do Istmo de Suez.