26 de agosto de 2016

R. ALAN COLE - A Data do Êxodo

alan cole danilo moraes
A Data do Êxodo

A data do êxodo não é um assunto sobre o qual possamos fazer afirmações dogmáticas: estudiosos de grande e igual valor, e de igual devoção a Cristo, vêm divergindo e sem dúvida continuarão a divergir quanto a isso. Não se trata de um problema de ortodoxia ou fundamen- talismo, mas de um julgamento histórico numa área em que a evidência é bem escassa. Providencialmente, não é um assunto que afete a teolo­gia do livro, uma vez que aceitemos o fato de que o êxodo aconteceu e a interpretação que o torna o supremo “ato divino” visando a libertação de Israel. É de se duvidar que qualquer israelita tenha jamais sabido a data cronológica exata e é ainda mais duvidoso que se tenha jamais im­portado em saber. No entanto, já que aceitamos a historicidade do êxo­do, podemos investigar a respeito de sua provável data.

Uma das dificuldades em tal investigação é que, fora as duas cidades-armazém construídas pelos israelitas para Faraó (1:11), não há outros nomes próprios na narrativa que sirvam para relacionar os acon­tecimentos nela descritos à história egípcia atualmente conhecida; até mesmo o título “Faraó”, “rei”, permanece anônimo em todo o con­texto. Tudo o que sabemos é que o Faraó do êxodo não foi, aparente­mente, o Faraó da opressão (4:19). Uma segunda dificuldade é que a história egípcia não faz a menor menção do acontecimento. É verdade que alguns identificam o êxodo com a expulsão dos hicsos, povo semita que conquistara o Egito e era odiado pelos egípcios, em 1550 A.C. Este tipo de ação militar, contudo, é completamente diferente do êxodo des­crito na Bíblia. De qualquer maneira, essa data é muito recuada para ser equiparada à evidência arqueológica da presença israelita em Canaã. O silêncio não é, todavia, um argumento contra a historicidade do êxodo. Os monarcas egípcios nunca foram dados a registrar derrotas e desastres e certamente não o fariam no caso da destruição de uma bri­gada de cavalaria ao perseguirem um bando de escravos em fuga. No entanto, o silêncio dos registros egípcios significa que não possuímos um ponto de referência externo para estabelecer a data do êxodo. A única referência possível na história egípcia está contida num poema triunfal inscrito num monumento de pedra erigido pelo Faraó Merneptá, conhecido por “Esteia de Merneptá” (1220 A.C.). Nesse poema ele se refere a uma vitoriosa refrega contra Israel (entre outros povos) ocorrida em algum ponto da região sul de Canaã. Israel parece ser des­crito como um povo ainda nômade, a julgar pela forma dos hieróglifos. Alguns estudiosos vêem nisso uma referência distorcida da tentativa frustrada feita por Faraó de eliminar Israel às margens do Mar Verme­lho, transformando a derrota em vitória para efeitos de autopromoção. A explicação mais natural, no entanto, seria a de uma incursão egípcia de menor monta, simplesmente omitida pela Bíblia, pouco tempo de­pois de Israel ter entrado em Canaã. Alguns consideram Josué 15:9, on­de as “águas de Neftoa” podem ser uma fonte cujo nome se derivou de Merneptá, uma referência a essa possível incursão. Mais uma vez, não temos referências externas, a não ser o fato de que sabemos que a data mais recente possível para o êxodo tenha sido 1220 A.C., pois então Is­rael já estava em Canaã.

À primeira vista a Bíblia parece nos fornecer dados cronológicos exatos para a duração da permanência no Egito (430 anos: ver 12:40) e para a data do êxodo, que é situado 480 anos antes da fundação do Templo de Salomão (1 Reis 6:1). Se partirmos do primeiro indício, há pequenas dificuldades relacionadas ao número exato; estas serão discu­tidas no comentário e não nos precisam preocupar a esta altura. Uma dificulade mais séria, contudo, é que não temos uma data “absoluta” para a descida dos filhos de Jacó ao Egito, pelo menos não mais do que para a migração de Abraão de Harã para Canaã. Precisamos fazer esti­mativas baseadas na história contemporânea, na arqueologia e nos pa­drões culturais. Assim sendo, mesmo que soubéssemos a duração exata da permanência no Egito, não estaríamos necessariamente mais próximos de uma resposta quanto à data do êxodo. Esse indício, por­tanto, não tem qualquer valor em nossa presente investigação.

Se o período de 480 anos entre o êxodo e a fundação do Templo de Salomão for aceito literalmente e matematicamente, já que o Templo foi construído por volta de 970 A.C., o êxodo teria ocorrido por volta de 1450 A.C. Esta data é improvável por várias razões históricas, par­cialmente ligadas à história egípcia e parcialmente ligadas à cronologia israelita (por exemplo, o período excessivamente longo atribuído aos juízes, antes do advento da monarquia em Israel). Também não existem provas arqueológica da presença de Israel na Palestina em data tão re­cuada. Podemos dizer, se assim o quisermos, que a tradição escrita não preservou o dado cronológico exato neste caso, e é bem verdade que números eram particularmente sujeitos a confusão na transmissão ma­nuscrita. Uma consideração mais importante, porém, é que o número em questão parece ser um valor arredondado equivalente a doze “ge­rações” de quarenta anos cada, a duração convencional. Há provas de que Israel usava o sistema cronológico gerações já no princípio de sua história: na verdade, antes do estabelecimento da monarquia, é difícil perceber de que outra maneira poderiam determinar a passagem do tempo. Não possuíam, nem podiam possuir, qualquer “cronologia ab­soluta” própria, do tipo a que estamos acostumados. Além disso, uma “geração”, estimada aproximadamente em quarenta anos (SI 95:10), parece ter sido um meio comum de marcar datas, embora bastante im­preciso (Jz 5:32). Assim sendo, é razoável entender os 480 anos como uma referência às doze gerações que haviam vivido entre o êxodo e a construção do Templo. Nos casos em que as genealogias eram cuidado­samente preservadas, esse tipo de cálculo era possível (cf Mt 1:1-16). No entanto, se um indivíduo tivesse normalmente entre vinte e trinta anos (conforme sugerido por W.F. Albright) quando do nascimento de seu primeiro filho, o período de doze gerações faria a data do êxodo cair no décimo terceiro século A.C., uma data considerada provável em outras bases. Vamos, portanto, examinar essa data como uma possibili­dade.

Sabemos que os israelitas construíram para Faraó as cidades- armazém de Piton e Ramessés: este último nome sugere imediatamente Ramessés II (1290-1224 A.C.) como o Faraó em questão. Sua nova ca­pital estava situada na região do delta do Nilo, próximo ao provável lo­cal da terra de Gósen. Sabemos que ele se empenhou em grandes proje­tos arquitetônicos e que possuía numerosos “Apiru” (uma classe infe­rior de escravos que incluía, provavelmente, os hebreus, embora não exclusivamente identificada com eles), trabalhando como seus servos. O Faraó da opressão poderia ter sido ele, ou então Seti I, seu pai (1303­-1290 A.C.), em cujos dias a mudança da capital para o delta se iniciou. Antes dele, tanto o Faraó como a capital se encontravam ao sul do del­ta, Nilo acima, bem distante de Gósen e dos israelitas. Um contato íntimo entre o Faraó e Moisés teria sido assim impossível em uma data mais recuada.

Uma prova adicional é que, ao tempo do sucessor de Ramessés, Merneptá (1224-1214 A.C.), Israel parece já estar em Canaã, embora ainda aparentemente considerado um povo nômade (ver referência à Estela de Merneptá). Isso parece indicar que a conquista de Canaã por Israel fora ainda recente, uma vez que Israel ainda não se havia estabe­lecido na terra. Outra indicação que confirma esta data é o fato de que Edom e Moabe talvez só se tenham estabelecido como reinos suficiente­mente fortes no século XIII A.C. Se Israel tivesse surgido em cena dois séculos antes, poderia ter atravessado território moabita e edomita sem qualquer problema, ao invés de contornar suas fronteiras. Finalmente, nas décadas imediatamente anteriores a 1200 A.C., numerosas cidades cananitas foram saqueadas e queimadas, algumas jamais repovoadas e outras repovoadas por gente de cultura bem mais simples. Ambos esses aspectos se encantam bem com o quadro bíblico da conquista de Canaã pelos israelitas: além disso, nada podemos afirmar.



Absoluta certeza é algo impossível, é claro, com nosso conheci­mento limitado e a falta de evidência escrita, mas podemos sugerir que Israel partiu do Egito durante o reinado de Ramessés II e já se encon­trava em Canaã quando a Estela de Merneptá foi erigida (1220 A.C.). A Biblia deixa bem claro que uma geração se passou no deserto, e por­tanto os israelitas poderiam ter partido do Egito em 1260 A.C., ou pou­co depois, se “quarenta anos” é usado de maneira aproximada. Al­bright prefere situar o êxodo em 1282 A.C., devido a circunstâncias in­ternacionais da época, mas a década exata não é importante, e prova­velmente não virá a ser determinada, pelo menos com base apenas em nosso presente conhecimento. Só nos resta esperar que descobertas ar­queológicas futuras venham a esclarecer este assunto de modo a satisfa­zer nosso interesse histórico, mesmo que nenhum debate teológico de­penda da descoberta do ano exato em que o êxodo aconteceu.