26 de agosto de 2016

R. ALAN COLE - As Fontes de Êxodo

alan cole danilo moraes
As Fontes de Êxodo 

Este não é o lugar de entrarmos numa discussão prolongada da história da moderna crítica do Pentateuco, quer da escola que postula fontes documentárias (como a antiga divisão J, E, D e S), quer da esco­la que postula correntes de tradição oral ou mesmo de uma combinação de ambas. O desnecessário de tal discussão fica ainda mais claro quando se vê que o assunto é tratado em termos gerais em todas as intro­duções ao Velho Testamento (consultar Introduction to the Old Testa­ment, por R. K. Harrison, Eerdmans, 1970)' e extensamente analisado num comentário desta série (Genesis, por Derek Kidner). Os que tive­rem interesse no assunto devem consultar os livros acima mencionados. No entanto, algumas observações sobre princípios básicos e métodos de enfoque podem ajudar a esclarecer nossa mente de modo a evitarmos o erro de procurar extrair de Êxodo mais do que o livro reivindica para si. Há mais material sobre o assunto no Comentário. 

Hoje em dia, ninguém mais duvida seriamente que Moisés era ca­paz de escrever e sem dúvida o fez, em uma variedade de línguas; essas seriam conhecidas de qualquer hebreu educado numa corte egípcia. Não há necessidade, entretanto, de se presumir que ele tenha escrito pessoalmente a totalidade do livro de Êxodo, ainda mais porque nem o próprio livro o afirma. Possivelmente é melhor entender o livro como o resultado de uma combinação de fontes mosaicas escritas e material de origem mosaica transmitido oralmente. Não há referências, por exem­plo, a registros escritos contemporâneos nos capítulos iniciais do livro, em que Moisés é uniformemente mencionado na terceira pessoa (em contraste, por exemplo, com a narrativa de Deuteronômio, escrita na primeira pessoa). A narrativa das pragas do Egito, por exemplo, pode bem ter sido preservada e transmitida oralmente por muito tempo antes de sua redução à escrita. Na verdade, tais processos de transmissão oral podem estar implícitos nas perguntas feitas pelos filhos, menciona­das em 12:26, e na resposta que lhes é dada. Este ponto de vista não eli­mina a possibilidade de que a narrativa tenha sido apenas parte do pro­cesso educacional, admitindo a existência de material escrito. No entan­to, se a narrativa do contexto histórico da festa da Páscoa foi preserva­da oralmente, talvez também o tenha sido o que podemos chamar de “ritual” da Páscoa. Sendo esse ritual de caráter sacerdotal, podemos estar certos de que foi preservado literalmente (em contraste com um simples episódio histórico, onde o vocabulário poderia variar dentro de limites razoáveis), de modo que, conforme a fixidez da tradição, pouco importaria se tivesse sido preservado por escrito ou oralmente. Um fato digno de nota é que a ênfase, em toda esta divisão do livro, recai sobre “Disse Moisés” (11:4) ou “Disse o Senhor” (12:1): a ênfase recai sobre a palavra falada, não sobre a palavra escrita. Mesmo onde aparece o conceito da “palavra escrita”, ele serve apenas para registrar aquilo que já foi revelado oralmente. Alguns pensam que oráculos específicos, emitidos por YHWH (por exemplo, 3:6), devem ter possuído, desde o [1] começo, uma fixidez de forma muito maior que o contexto em que ocorrem e que tal fixidez teria como conseqüência lógica um re­gistro escrito praticamente imediato. Isso pode ter acontecido embora o texto de Êxodo em sua forma atual não forneça qualquer prova direta. Certamente, dentro do que nos é possível observar, nos profetas mais recentes, a palavra de YHWH propriamente dita tinha uma estabilida­de textual muito superior ao do contexto mais fluido, de caráter biográfico, em que se encontrava. O oráculo divino era normalmente em verso, ao passo que a narrativa era em prosa, mais suscetível a mu­danças; este fator pode ter-se manifestado na formação do livro de Êxodo. Alguns irão contestar que cânticos, como o de Êxodo 15, de­vem ter sido registrados em forma escrita em data bem recuada. Isso realmente pode ter acontecido: certamente, livros como “Yashar” (Js 10:12,13) e “o livro das guerras de YHWH” (Nm 21:14-18) parecem ter sido coleções escritas de cânticos sagrados, anteriores ao nosso Pentateuco. Um poema, no entanto, pode manter uma forma fixa ao longo de uma tradição oral muito mais facilmente do que uma narrativa em prosa e assim, simples fixidez de forma não prova, por si mesma, a re­dação de um poema. É certo que um poema registrado como material escrito durante a vida de Moisés é a maldição sobre Amaleque (ver 17:14-16). É pouco provável, a julgar do contexto, que toda a narrativa da derrota de Amaleque esteja em vista. A referência a “escrever isto” parece restrita ao oráculo divino contido na declaração de Moisés feita em poesia, como no caso de qualquer outro profeta. Sem dúvida a nar­rativa da batalha também seria lembrada e narrada como o contexto histórico deste oráculo. 

A primeira referência em Êxodo à redação contemporânea de material mosaico numa escala mais prolongada surge em conexão com os Dez Mandamentos. A narrativa de sua redação se encontra, na verda­de, em 24:12 que, no entanto, se refere claramente às ordens de 20. As “palavras” são vistas, primariamente, como palavra falada e só então registradas por escrito de maneira permanente, como testemunho perpétuo a Israel (25:16). É bem verdade que há, na história contempo­rânea a Moisés, paralelos quanto à preservação de material em forma oral e escrita, especialmente tratados. As variações verbais entre as duas versões das “dez palavras” em Êx 20:1-17 e Dt 5:6-21 sugerem, contudo, que a forma original dos mandamentos pode ter sido curta, sem nenhuma das presentes explicações (normalmente introduzidas pelas conjunções “porque” e “para que”). Sem dúvida essas explicações também eram tradicionais, preservadas oralmente a princípio e por es­crito depois. Seria tolice, no entanto, presumir que nada existia em for­ma escrita antes dos “Dez Mandamentos”. A aliança, por exemplo, pa­rece ter sido feita com base em algo que ia além das simples “dez pala- vras”: o texto afirma que Moisés disse ao povo “todas as palavras do Senhor e todos os estatutos” (24:3). “Palavras” deve se referir aos Dez Mandamentos; quanto aos “estatutos”, considera-se normalmente que eles cobriam pelo menos o material contido no chamado “livro da alian­ça” (21-23). A seguir, o texto afirma que Moisés “escreveu todas as palavras do Senhor” (24:4) e “tomou o livro da aliança e o leu ao po­vo” (24:7). Assim, qualquer que tenha sido o conteúdo do “livro da aliança”, certamente já existia em forma escrita ao tempo de Moisés. Pode muito bem ter contido mais do que os nossos três capítulos 21-23, pois embora o material aí contido date da Idade do Bronze (compreen­dendo a vida de Moisés), eles não formam em si um código legal com­pleto. O “livro da aliança” parece mais um resumo de um código legal, ou exemplos típicos de uma legislação mais ampla e talvez tenha sido essa a sua finalidade. Tem-se comentado, freqüentemente, que Deute- ronômio, em sua parte legislativa, preenche as lacunas do “código” da aliança encontrado em Êxodo, acrescentando contingências e casos que são omitidos no “código” propriamente dito. Outro possível “suple­mento” ao livro da aliança é o chamado “decálogo cerimonial” de Êxodo 34, onde a aliança é renovada. 

Isso esgota as referências e escritos contemporâneos de material mosaico, tal como registrado em Êxodo. Em outras partes do Pentateuco, Números 33:2 se refere à redação por Moisés dos vários estágios da jornada pelo deserto; as abreviadas estatísticas certamente soam como documentos antigos (Nm 33:3-27). Deuteronômio 31:22 também menciona que Móisés escreveu um cântico, ao passo que Deuteronômio 31:9 diz que ele escreveu “esta lei”; o versiculo 24 acrescenta a expres­são “integralmente”. Alguns forçam esta última expressão, fazendo-a significar que Moisés, naquela ocasião, escreveu toda a lei que leva o seu nome. Esta interpretação não parece óbvia, embora a expressão se­ja uma referência clara ao registro escrito de uma certa legislação. Deu­teronômio 27:1-8 prescreve que “todas as palavras desta lei” deveriam ser escritas sobre a cal úmida que seria usada para cobrir as pedras do altar no santuário central na terra de Canaã. (Ver Josué 8:32 quanto ao cumprimento desta ordem: teria sido este um costume que se generali­zou mais tarde em todos os santuários israelitas?) Esta ordem dificil­mente estaria se referindo à lei de Moisés em sua totalidade, devido à sua extensão. Poderia, entretanto, cobrir os Dez Mandamentos e um “código da aliança”, talvez em forma abreviada; esse material poderia ser facilmente gravado na cal úmida que cobrisse um altar de bom ta­manho. 

Tais provas, entretanto, estão todas fora do livro de Êxodo. No li­vro propriamente dito, referências a material escrito parecem limitadas à maldição sobre Amaleque, aos Dez Mandamentos, parte do código da aliança e vários oráculos divinos e poemas sacros. Talvez devêsse­mos acrescentar aqui, como parte do código da aliança, o chamado “decálogo cerimonial” de Êxodo 34 (melhor entendido como uma lista de festas religiosas). Na atual forma do livro essa passagem parece ser, superficialmente, os novos termos em que a aliança havia sido renova­da (34:27). Contudo, em vista de 34:1 e sua insistência na recomposição literal das tábuas da Lei, certamente podemos considerar que a aliança foi renovada sobre a base inicial dos “Dez Mandamentos” e de algum tipo de “livro da aliança”. Neste caso, deveríamos considerar o chama­do “decálogo cerimonial” como uma simples divisão do livro da ali­ança contido nos capítulos 21-23. Isso explicaria também a aparente ambigüidade de 34:27,28 quanto aos verdadeiros termos da aliança re­novada. Isso nos basta, portanto, com respeito às fontes escritas conhecidas do livro de Êxodo. 

Que fazer, então, do restante do livro? É razoável supor que o material foi preservado oralmente tal como, sem dúvida, os ensinos e fei­tos de Jesus viriam a ser preservados antes que os Evangelhos viessem a existir. A transmissão oral nos parece mais provável no caso de episódios vibrantes, como a narrativa das pragas por exemplo (7-11). A cuidadosa repetição dos detalhes da construção do Tabernáculo, que aparecem tanto nos capítulos 25-31 quanto em 35-40, também sugere uma tradição mosaica de caráter oral ao invés de um documento escri­to. É bem verdade que repetições semelhantes ocorrem com frequência nos poemas épicos da literatura ugarítica encontrada em Ras Shamra; tais poemas, porém, foram transmitidos oralmente muito antes de te­rem sido escritos e nossa posição aqui é que o mesmo aconteceu com Êxodo. Essa tradição oral teria sido preservada pelos levitas nos vários santuários locais de Israel, antes da construção do Templo em Jeru­salém, e presumivelmente contada a recontada pelos sacerdotes locais durante as festas religiosas. Isso pode ter causado pequenas diferenças verbais, como as existentes nos Evangelhos, sem afetar a fidedignidade geral do todo. É possível que tenham existido círculos complementares de tradição, na medida em que parte da história mosaica era recontada num local e outra parte em outro local. Sem dúvida todos esses possíveis centros de tradição teriam especial cuidado em preservar o material já escrito, bem como o esboço central da história da redenção, a celebração da aliança e a outorgação da Lei, pois estes constituíam a coluna mestra da narrativa. Se quaisquer “J” ou “E” jamais existiram separadamente (para usar dois símbolos das chamadas “fontes” do Pentateuco bem conhecidos dos que estudam a crítica de fontes) deve­mos considerá-los em termos deste tipo de formulações locais de uma mesma e única tradição mosaica. Se qualquer “G” jamais existiu (para usar o símbolo da base comum das supostas “fontes”), “G” corresponderia a este esboço comum de tradição oral, acrescido das partes já escritas ao tempo de Moisés, sendo assim material comumente aceito por todos os centros de tradição. Deveríamos ter, portanto, mesmo que tal hipótese fosse verdadeira, nada mais que uma posição semelhante à existente no Novo Testamento, onde encontramos nos Evangelhos qua­tro versões independentes, mas semelhantes e mutuamente sustentáveis, dos ensinos e feitos de Jesus. 

A que altura da história israelita todo esse material foi combinado e escrito na forma atual não podemos afirmar e não é provável que des­cobertas futuras nos ajudem a decidir. É desnecessário dizer que, em­bora interessante, a questão não possui qualquer valor teológico. Al­guns estudiosos conservadores situam a atividade editorial definitiva ao tempo de Josué; outros sugerem a época de Samuel. No outro extremo, há os que preferem o período pós-exílico, com Esdras; e quase todos os períodos entre esses extremos já foram apontados por um ou outro es­tudioso. A verdade importante a compreender é que a idade do documento não é indicação da idade do material nele registrado, que po­de ser consideravelmente mais antigo. É perfeitamente possível (se ne­cessário) que a tradição oral tenha preservado uma narrativa com a mesma fixidez de um documento escrito, embora normalmente se espe­re contínuas modificações verbais de pequena monta numa tradição oral, especialmente no caso de episódios históricos. Podemos crer que Êxodo é um registro histórico genuíno dos acontecimentos da era mo­saica, a despeito do método que Deus tenha usado para colocá-lo em sua forma atual. Onde não é possível a certeza absoluta o melhor é ter mente aberta, com grande reverência, tendo o cuidado de não confun­dir idéias tradicionais sobre a composição dos livros com aquilo que a Bíblia realmente reivindica para si mesma. Por outro lado, devemos lembrar que não precisamos limitar a extensão do material escrito por Moisés àquelas passagens especificamente mencionadas pela Bíblia: os limites podem ser bem mais amplos. Além disso, quer aceitemos fontes orais, escritas, ou uma combinação de ambas, há certas áreas do livro de Êxodo (por exemplo, as várias experiências de Moisés na presença de Deus) que descrevem a experiência religiosa de Moisés da mesma ma­neira em que o Senhor descreveu Sua tentação no deserto. Em ambos os casos não houve testemunhas e portanto, se a tradição não fosse digna de confiança, é difícil ver que valor poderia ter tido como uma recons­trução posterior. Além disso, não devemos nos esquecer de que tanto o esboço geral do código legislativo mosaico (quaisquer que tenham sido as adições e explicações posteriores) quanto a instituição de um “ta­bernáculo” para adoração no deserto são atribuídos ao próprio Moisés em Êxodo. Dentro destes limites, estamos livres para buscar a expli­cação que melhor se ajuste às evidências. 







[1] Consultar também Edward J. Young, Introdução ao Antigo Testamento, Vida Nova, SP e Gleason Archer, Merece Confiança o Antigo Testamento, Vida Nova, SP.