23 de agosto de 2016

JOHN BRIGHT - Os judeus sob os Selêucidas: Revolução e crise religiosa

macabeus judeus antigo testamento danilo moraes
OS JUDEUS SOB OS SELÊUCIDAS: REVOLUÇÃO E CRISE RELIGIOSA

1. As perseguições de Antíoco Epífanes[1]

A crise à qual aludimos foi precipitada pela política
do rei selêucida Antíoco IV Epífanes (175-163), que, por
sua vez, foi imposta pela contínua emergência na qual o
estado selêucida se encontrava e da qual não podia escapar.

Os reis selêucidas e sua política. — Quando Antíoco III levou o poder selêucida ao seu auge, ele acabou indo longe
demais nas suas ambições, ousando terçar armas com Roma.
Como esta tinha acabado de esmagar Cartago em Zama (202),
o general cartaginês Aníbal fugira para a corte selêucida, na
esperança de continuar a luta da melhor forma possível. Levado em parte pelo incentivo de Aníbal e em parte por suas
próprias ambições (ele se via como árbitro dos negócios de
Estado gregos tanto na Ásia como na Europa), Antíoco
avançou contra a Grécia. Nisso, Roma declarou-lhe guerra
(192), e rapidamente expulsou Antíoco da Europa, perseguindo-o até a Ásia e derrotando-o (190) em Magnésia, entre
Sardes e Esmirna (cf. Dn 11,18). Antíoco foi obrigado a se
submeter à paz humilhante de Apaméia, cujos termos exigiam
que ele entregasse toda a Ásia Menor, menos a Cilicia, que cedesse seus elefantes de guerra e sua armada, que entregasse Aníbal e outros refugiados aos romanos, juntamente com vinte
reféns, incluindo seu próprio filho (que mais tarde veio a
governar como Antíoco IV), e que pagasse uma enorme indenização. Embora Aníbal tenha fugido para salvar a vida, todos
os outros termos foram rigorosamente cumpridos. Antíoco III
não sobreviveu por muito tempo a essa desgraça. Em 187,
foi morto quando saqueava um templo em Elam para conseguir dinheiro com que pagar os romanos (cf. Dn 11,19).

Com isso, o império selêucida entrou em seu longo declínio. Sempre ameaçado por Roma e continuamente em sérias
dificuldades financeiras, começou a lançar impostos cada vez
mais pesados sobre seus súditos. Seleuco IV sucedeu a Antíoco III (187-175). Embora Seleuco aparentemente tenha confirmado os privilégios concedidos aos judeus por seu pai (2Mc 3.3), dizem que (2Mc 3,4-40) ele tentou, através de seu ministro Heliodoro e com a conivência de certos judeus que se tinham
desavindo com o sumo sacerdote Onias III, apoderar-se de fundos particulares depositados no templo. Embora a história deste
incidente seja cheia de detalhes lendários, não há razão para se
duvidar que haja uma base real (cf. Dn 11,20)[2]. Devido às
calúnias, Onias foi obrigado a viajar para a corte, a fim de defender-se. Começava a aparecer um presságio sinistro, que predizia o pior.

Seleuco IV foi assassinado, sucedendo-lhe seu irmão Antíoco IV Epífanes (175-163), em cujo reinado a situação
chegou a seu ponto culminante. Antíoco IV tinha sido um dos
reféns entregues por seu pai a Roma após a paz de Apamea, e
estava a caminho da pátria quando recebeu notícias da morte de
seu irmão. Subindo ao trono, ele adotou uma política que
logo levou os judeus a uma completa rebelião. Esta política, como
indicamos, foi imposta pela terrível situação na qual se encontrava o reino. Internamente instável, sua população heterogênea, sem uma unidade real, era ameaçada por todos os
lados. Suas províncias orientais estavam cada vez mais ameaçadas pelos Partos, enquanto que ao sul ele enfrentava um
Egito hostil, cujo rei, Ptolomeu VI Filometor (181-146),
estava pronto a renovar suas pretensões sobre a Palestina
e a Fenícia.

Muito mais séria, entretanto, era a constante ameaça de
Roma, que progressivamente estava tomando um interesse ativo pelas terras mediterrâneas orientais, pronta a intervir nos
seus assuntos com mão de ferro. Antíoco IV, que, por experiência própria, tinha um saudável respeito por Roma, sentiu
uma necessidade desesperada de unificar seu povo para a
defesa de seu reino, enquanto o apuro financeiro levava-o a
cobiçar qualquer fonte de rendimento que pudesse encontrar.
Como seus predecessores, ele estava de olho na riqueza dos
vários templos situados dentro de suas terras, alguns dos quais
sabemos que ele saqueou durante o seu reinado[3]. O templo
de Jerusalém dificilmente escaparia à sua atenção.

Ademais, no interesse da unidade política, ele concedeu
o direito das “polis” gregas a várias cidades e promoveu todas
as coisas helénicas. Isso incluía a adoração de Zeus e outros
deuses gregos (em identificação com as divindades nativas),
e também dele mesmo como manifestação visível de Zeus (uma
imagem aparece em moedas à semelhança de Zeus, enquanto
que o nome Epífanes significa “o deus manifesto”). Antíoco
certamente não tinha intenção de suprimir qualquer das religiões nativas de seu reino, nem era ele o primeiro soberano
helénico a reivindicar :as prerrogativas divinas (Alexandre e
alguns outros reis selêucidas antes dele também o fizeram) [4].
Mas sua política, posta em prática com tanta seriedade, era a
política certa para provocar violenta oposição entre os judeus
tradicionais e fiéis à religião de seus pais.

Tensões internas em Judá. — Antíoco interfere. Os
judeus, deve-se dizer, não estavam isentos de culpa por aquilo
que lhes aconteceu. Era grande a tensão entre eles com respeito à conveniência da assimilação da cultura grega e quanto ao grau em que se poderia adotá-la e ainda permanecer judeu.
Além disso, Jerusalém estava agitada com rivalidades pessoais
envolvendo até mesmo o cargo de sumo sacerdote, o que cons-
titui uma página negra na história judaica. Todas as facções
procuravam obter favores da corte, e Antíoco naturalmente
atendia àquela que prometesse a maior obediência às suas vontades — e que prometesse mais dinheiro. E isso levou-o
a interferir nas questões religiosas judaicas de uma forma que
nenhum rei antes dele havia feito.

O sumo sacerdote legítimo, quando Antíoco subiu ao trono,
era Onias III, um dos homens mais conservadores, que estivera em Antioquia procurando chamar a atenção de Seleuco III para os interesses da paz, no exato momento em que este
último foi assassinado (2Mc 4,1-6). Durante sua ausência, seu
irmão Joshua (que era conhecido pelo nome grego Jasão),
ofereceu ao novo rei uma avultada soma de dinheiro em troca
do cargo de sumo sacerdote, acrescentando ao suborno sua
promessa de total cooperação com a política real (2Mc 4,7-9).
Antíoco, encantado por encontrar alguém que agira de acordo
com seus desejos enquanto pagava pelo privilégio, concordou; e,
então, Jasão apoderou-se do cargo e estabeleceu uma ativa política de helenização (lMc 1,11-15; 2Mc 4,10-15).

Um ginásio foi fundado em Jerusalém para que os jovens nele se matriculassem; todo tipo de esportes gregos foram
promovidos, como também a maneira grega de vestir. Jovens
sacerdotes negligenciavam seus deveres para competir nos jogos.
Embaraçados por causa de sua circuncisão, uma vez que os
jovens praticavam esportes despidos (cf. Jub 3,31), muitos
judeus se submetiam à cirurgia para disfarçá-la. Os judeus
conservadores, profundamente chocados, consideravam tudo isso uma apostasia declarada. E eles não estavam errados. O
ginásio não era um mero clube de esportes, nem seus oponentes
se opunham simplesmente ao que consideravam um comportamento indecente e modesto. A posição da religião judaica
estava em questão.

O ginásio parece ter sido realmente uma corporação separada de judeus helenizados, com direitos cívicos e legais
definidos, estabelecida dentro da cidade de Jerusalém. Desde
que os esportes gregos eram inseparáveis dos cultos de Héracles (2Mc 4,18-20) ou de Hermes, ou da casa real, a participação no ginásio inevitavelmente envolvia um certo grau de aceitação dos deuses que eram seus protetores. A presença
de tal instituição em Jerusalém significava que o decreto de
Antíoco III, concedendo aos judeus o direito de viver exclusivamente de acordo com suas próprias leis, tinha sido abrogado — e com a conivência dos judeus.

Mas, este não foi o fim. Jasão tinha desfrutado apenas
três anos de seu cargo comprado quando um certo Menelau o
sobrepujou no lance e o expulsou, obrigando-o a fugir para a
Transjordânia (2Mc 4,23-26). Quem era este Menelau não
sabemos ao certo; alguns duvidam que ele fosse realmente de
linhagem sacerdotal[5]. Mas seu nome indica que ele também
era do partido helenizante. Menelau logo mostrou que tinha
menos escrúpulos do que seu predecessor quando, incapaz de
aumentar o suborno que tinha prometido ao rei, começou a
roubar os vasos do templo e vendê-los (2Mc 4,27-32). Quan
do o sumo sacerdote legítimo, Onias III, que ainda estava em
Antioquia, arriscou-se a protestar, dizem que Menelau arranjou
seu assassinato (2Mc 4,33-38).

No que diz respeito a Antíoco, este mostrou quão pouco
se interessava pelos direitos e sensibilidades dos judeus quando,
em 169, durante seu retorno de uma vitoriosa invasão do
Egito, saqueou o templo com a cumplicidade de Menelau,
tirando os vasos sagrados e tudo mais que encontrou e retirando até as lâminas de ouro da fachada (lMc 1,17-24; 2Mc 5,15-21 )[6]. Embora Antíoco não precisasse de desculpas para
tais atos além de sua crônica falta de fundos, os judeus devem
ter-lhe arrumado uma. De acordo com 2Mc 5,5-10, que provavelmente se refere a este fato, chegou à Palestina o boato de
que Antíoco tinha perdido a vida no Egito[7]. Baseando-se nisso,
Jasão marchou contra Jerusalém com mil homens, tomou a cidade e forçou Menelau a refugiar-se na cidadela. Embora
a maior parte do povo provavelmente considerasse Jasão como pelo menos preferível ao renegado Menelau, ele logo se
incompatibilizou com todos mediante um massacre absurdo, e
foi mais uma vez banido da cidade. Dizem que se tornou um
fugitivo, indo de lugar em lugar, e finalmente morrendo em
Esparta. Antíoco aparentemente interpretou tudo isso como
uma rebelião contra seu domínio e, tão logo restabeleceu seu
favorito Menelau no cargo, considerou o saque ao templo como
uma represália. Mas, quaisquer que fossem suas razões, os
judeus leais chegaram à conclusão de que Antíoco era inimigo
de sua religião e que nada o deteria.

c. Outras medidas de Antíoco: a proscrição do judaísmo.

— O rompimento definitivo veio logo. Em 168, Antíoco invadiu novamente o Egito, encontrando sucesso fácil e entrando na
antiga capital de Mênfis. Mas então, enquanto marchava sobre
Alexandria, recebeu um ultimato do Senado romano, entregue
pelo emissário Popilius Laenas, ordenando-lhe peremptoriamente que saísse do Egito (cf. Dn ll,29ss). Antíoco, sabendo bem
o que Roma poderia fazer, não ousou desobedecer. Mas podemos imaginar que ele estava sofrendo com a humilhação, e
que não estivesse muito bem-humorado ao voltar para a Ásia.

Embora, ao que parece, não tenha passado por Jerusalém
nessa ocasião, seu temperamento provavelmente não melhorou
com as notícias que recebeu de lá. Parece que depois de seu
aparecimento anterior em Jerusalém, Antíoco havia colocado
lá um comissário real (como tinha feito em Samaria) para ajudar o sumo sacerdote a incrementar a política de helenização
(2Mc 5,22ss). Presumivelmente esta política estava encontrando
tal oposição que a ordem não podia ser mantida com as tropas
de que dispunha. Por isso, no começo de 167, Antíoco enviou
para lá Apolônio, comandante de seus mercenários mísios,
com uma grande força (lMc 1,29-35; 2Mc 5,23-26).

Apolônio tratou Jerusalém como uma cidade inimiga.
Aproximando-se com o pretexto de intenções pacíficas, ele lançou
seus soldados contra o povo desprevenido, assassinou muitos
deles e levou outros como escravos. A cidade foi saqueada e
parcialmente destruída, e seus muros derrubados. Então, foi
construída, talvez no local do antigo palácio davídico, ao sul do
templo, talvez na colina oposta a ele no oeste, uma cidadela
chamada Acra. Uma guarnição selêucida foi instalada lá, e lá permaneceu — símbolo odioso do domínio estrangeiro —
per uns vinte e cinco anos.

A Acra não era meramente uma cidadela com uma guarnição
militar, mas algo muito mais censurável. Era uma colônia de
pagãos helenizados (lMc 3,45; 14,36) e judeus renegados (lMc 6.21-24;11,21) — uma “polis” grega com sua própria constituição, cercada por muros, dentro da agora indefesa cidade de
Jerusalém[8]. A própria Jerusalém, provavelmente, era considerada como território desta “polis”. Isto significava que o templo deixava de ser propriedade do povo judaico como tal e
tornava-se o santuário da cidade, o que, por sua vez, significava - uma vez que o apóstata Menelau e seus colegas altamente
colocados estavam envolvidos — que todas as barreiras para
a completa helenização da religião judaica estavam removidas.
Evidentemente, era intenção desses sacerdotes renegados reorganizar o judaísmo como um culto siro-helênico, no qual lahweh
seria adorado em identificação com Zeus, e haveria um lugar
para um culto real em que o rei fosse Zeus Epífanes.

O terrível choque com que os judeus tradicionais viam
tais procedimentos pode ser claramente notado nos livros
dos Macabeus e de Daniel. Provavelmente foi a resistência deles que levou Antíoco a tomar sua medida final e desesperada.
Percebendo finalmente que a intransigência judaica estava baseada na religião, ele publicou um edital anulando as concessões
feitas por seu pai e, para todos os propósitos e finalidades,
proibindo a prática do judaísmo (lMc 1,41-64; 2Mc 6,1-11).
Os sacrifícios regulares foram suspensos, juntamente com a
prática do Sábado e as festas tradicionais. Foi ordenada a
destruição dos exemplares da lei e proibida a circuncisão de
crianças. A desobediência, em qualquer destes casos, acarretava
a pena de morte. Altares pagãos foram construídos por todo
o território e animais impuros eram oferecidos sobre eles; os
judeus foram forçados a comer carne de porco sob pena de
merte (cf. 2Mc 6,18-31). A população pagã da Palestina foi
obrigada a cooperar, forçando os judeus a participar dos ritos
idólatras. Para coroar tudo isto, em dezembro de 167 [9] o
culto de Zeus Olímpico foi introduzido no templo (2Mc 2). Um altar para Zeus (e provavelmente também uma
imagem)[10] foi erguido, e carne suína era oferecida sobre ele.
Isto constituiu a “abominação da desolação” mencionada por
Daniel[11]. Os judeus foram forçados a participar da festa de
Dionísio (Baco) e do sacrifício mensal em honra do aniversário
do rei (2Mc 6,3-7).

2. A rebelião dos macabeus

Se Antíoco achava que tais medidas obrigariam os judeus
a aceitar suas condições, estava enganado, pois só serviram
para reforçar a resistência. E, para esta, Antíoco não conhecia
nenhuma resposta, a não ser a repressão brutal. Logo, Judá
em peso estava em rebelião armada.

a. Perseguição e resistência crescentes. — Antíoco, provavelmente, nunca foi capaz de compreender por que suas ações
provocaram esta hostilidade irreconciliável dos judeus. Afinal,
o que ele havia pedido deles não era, de acordo com a antiga
mentalidade pagã, algo que fosse anormal ou censurável.
Ele não tinha pretendido suprimir a adoração de Iahweh, nem
substituí-la pelo culto de qualquer outro deus, mas somente
identificar o deus dos judeus, o “Deus do Céu”, com o deus
supremo do panteão grego, e fazer da religião judaica um
veículo da política nacional. A maioria de seus súditos teria
concordado com tal coisa sem fazer objeção, e havia líderes
judeus liberais que estavam desejando fazer o mesmo. O
templo samaritano era igualmente dedicado a Zeus Xênio
(2Mc 6,2), mas realmente não sabemos se os samaritanos se
opuseram a isto; aliás, Josephus (Ant. XII, V, 5) afirma
que eles pediram a mudança. Antíoco deve ter-se admirado: por que os judeus tinham que ser tão obstinados? Ele,
possivelmente, não podia entender a tradição monoteísta
e anicônica ou a seriedade com a qual os judeus tradicionais
encaravam as exigências de sua lei. Esta religiosidade fazia
com que o novo culto lhes parecesse nada menos do que uma
detestável idolatria, à qual deviam resistir por todos os
meios possíveis.

A reação dos judeus, certamente, não foi unânime. Os
judeus helenizados receberam bem o édito real e sujeitaram-se
a ele com alegria, enquanto que outros, por vontade ou por
medo, seguiram-nos e abandonaram a religião de seus pais
(lMc 1,43-52). Alguns, entretanto, recusaram obediência e
formaram uma resistência passiva, preferindo morrer a violar
o menor detalhe de sua lei. Antíoco, em resposta, perseguiu-os cruelmente. Mães que circuncidassem seus filhos seriam
condenadas à morte com suas famílias (lMc l,60ss; 2Mc
6,10). Aqueles que tentassem guardar o Sábado secretamente
seriam mortos pelos soldados, quando se recusassem a aceitar
as exigências do rei ou se defender naquele dia santo (lMc
2,29-38; 2Mc 6,11). Muitos, por recusarem tocar em comida impura, foram condenados à morte (lMc l,62ss) — e,
de acordo com as lendas que surgiram sobre eles (2Mc 6,18
até 7,42; IV Mc), com torturas diabólicas. O núcleo da
resistência à política real era formado por um grupo conhecido como o Hasidim (os piedosos, os leais), de cujos
membros é provável que tanto os fariseus quanto os essênios
sejam descendentes. Não sabemos quantos judeus morreram
na perseguição, mas provavelmente não foram poucos. Foi
uma perseguição terrível, que nenhum homem seria capaz de
aceitar passivamente. Era inevitável que os judeus reagissem
com as armas.

O Livro de Daniel. — O último dos livros do Antigo
Testamento, o Livro de Daniel, refere-se a esta situação de
trágica emergência. Daniel pertence a uma classe de literatura
conhecida como apocalíptica, da qual falaremos mais adiante.
É o único livro do Antigo Testamento que pertence a esta
classe, embora se observem algumas características semelhantes
em certos escritos anteriores. O problema referente à sua composição não nos pode ocupar aqui. Embora muito do seu
material possa ser um pouco mais antigo do que o período do qual nos ocupamos [12], todos são unânimes em que o livro, em
sua forma presente, foi composto durante as perseguições de
Antíoco, não muito depois da profanação do templo, provavelmente em 166/5. O seu autor é quase certamente um dos
Hasidim dos quais acabamos de falar. Sentindo-se compelido
a resistir à política do rei por todos os meios a seu alcance,
ele procurou incitar seus compatriotas judeus a fazer o mesmo,
aderindo tenazmente às suas leis, à sua condição de judeus
e à sua religião, certos de que Deus interviria para salvá-los.

As histórias do irrepreensível Daniel servem de exemplo
de lealdade à lei e da fidelidade de Deus para com aqueles que
confiam nele. Nenhum judeu teria tido qualquer dificuldade
em compreender a figura de Antíoco, depois de Nabucodonosor. Como nos refere Daniel (c. 1), os jovens de aparência
formosa e bem dotados de inteligência tiveram a coragem de
não contaminar-se com as iguarias do rei; sendo assim não
deviam eles, com igual confiança, recusar-se a comer carne de
porco e todos os alimentos impuros? Como Daniel (c. 6)
enfrentou a cova dos leões por recusar-se a adorar o rei, rião
deveriam também eles ter confiança de que Deus os livraria
para que adorassem somente a ele? As palavras altivas dos
três jovens (c. 3) que preferiram a fornalha ardente a adorar
o ídolo do rei falaram diretamente aos judeus que tinham sido
intimados a adorar a Zeus ou morrer, e devem ter tido para
eles uma realidade que para nós é difícil de imaginar: “em
resposta, disseram Sidrac, Misac e Abdênago ao rei Nabucodonosor: ‘Não julgamos necessário replicar-te uma única palavra
a respeito deste assunto. Se assim for, o nosso Deus, a quem
servimos, tem poder para nos livrar; livrar-no-á, ó rei, da fornalha, com o fogo aceso e da tua mão; se não, hás de saber, ó
rei, que nem assim serviremos às tuas divindades, nem adoraremos a estátua de ouro que erigiste’ ” (c. 3,16-18). A história do orgulhoso Nabucodonosor (c. 4) comendo feno como
um boi e a história de Belsassar (c. 5), que viu as palavras
da sentença divina na parede, lembraram aos judeus que o
poder de Deus era maior que os poderes ímpios da terra. O
profeta, na verdade, descreveu todas as glórias do poder mundano até os seus dias na forma de uma imagem bizarra com
cabeça de ouro fino, peito e braços de prata, ventre e quadris
de bronze, coxas de ferro e pés parcialmente de ferro e em
parte de argila (c. 2) a qual o reino de Deus pulverizou
com uma pedra que se desprendeu de uma montanha.

O vidente quis assegurar a seu povo que tudo estava nas
mãos de Deus, predeterminado e certo, e que a presente agonia indicava apenas que o triunfo da vontade divina estava
próximo. Ele estava convencido de que, com Antíoco, o limite
concedido ao poder ímpio tinha chegado ao fim. No capítulo 7,
quatro animais horríveis simbolizavam os poderes que tinham
perturbado a terra através dos séculos. O último e mais terrível deles tinha dez chifres (os reis selêucidas), entre os quais
despontou um notável pequeno chifre de orgulho blasfemo
(Antíoco). No capítulo oitavo, um carneiro de dois chifres
(Média-Pérsia) morto por um bode com um enorme chifre
(Alexandre); depois, este chifre é quebrado e transforma-se em
quatro (os Estados sucessores do império de Alexandre), de
um dos quais nasce um pequeno chifre que se faz maior que Deus (Antíoco). Com certeza, Antíoco era simbolizado nisto,
porque ele blasfema o Altíssimo, persegue os santos, profana
o templo, suspende os sacrifícios e ab-roga a lei (cc. 7,21.25;
8,9-13;9,27). No capítulo 11, há uma descrição velada da história dos ptolomeus e dos selêucidas, que culmina com a profanação do templo por Antíoco (vv. 31 a 39). O profeta vê tudo
isto como parte do plano divino, que está sendo realizado com
segurança para obter a sua finalidade. Foi concedido a Antíoco
um pouco de tempo (cc. 7,25;11,36;12,11), mas sua condenação é certa e virá logo (cc. 8,23-25;ll,40-45). Os “setenta
anos” de exílio (Jr 25,12;29,10), agora reinterpretados como
setenta semanas de anos (490 anos) são quase passados (Dn
9,24-27), e o tempo da intervenção de Deus está perto. Numa
visão (c. 7,9-14), o profeta descreve o “Ancião” sentado em
seu trono; à sua ordem, o “animal” é abatido e o reino eterno
entregue a “alguém semelhante a um filho do homem”. Este
“filho do homem”, concebido mais tarde em 1 Enoch e no
Novo Testamento como um libertador celeste preexistente,
representa aqui (c. 7,22.27) os leais e justificados “Santos
do Altíssimo”. Com esta segurança da intervenção de Deus,
o vidente encorajava seu povo a manter-se firme. Ele não
duvidava de que alguns deveriam pagar com a vida a sua
lealdade. Mas eles e seus entes queridos poderiam consolar-se com a certeza de que Deus os ressuscitaria para a vida eterna
(c. 12,1-4). Não se pode duvidar que a reflexão sobre o
destino dos mártires heróicos muito contribuiu para fortalecer
a fé na vida além do túmulo no pensamento do judaísmo.



c. Judas Macabeu: a purificação do templo. — Enquanto o Livro de Daniel era escrito, os judeus, perseguidos ao máximo, pegavam em armas contra seus atormentadores. O fato
de eles serem capazes de fazer isso com sucesso deve-se tanto
à sua coragem indómita como à qualidade de seus chefes, e ao
fato de que Antíoco estava tão ocupado em toda parte com
problemas de toda espécie, que mal tinha tempo e tropas suficientes para uma pacificação real de Judá. A rebelião explodiu
pouco depois que Antíoco publicou seu infame édito (lMc 28), na cidade de Modin, a leste de Lud. Ali vivia um
um homem de linhagem sacerdotal, Matatias[13], que tinha cinco
filhos: João, Simão, Judas, Eleazar e Jônatas. Quando o emissário do rei chegou a Modin para fazer cumprir o édito real,
pediu a Matatias que por primeiro oferecesse o sacrifício ao
deus pagão. Matatias recusou-se energicamente. Quando outro
judeu se ofereceu para cumprir a ordem do rei, Matatias deglou-o sobre o altar, juntamente com o emissário do rei. Em
seguida, convocando todos os que eram zelosos da lei e da
aliança a segui-lo, fugiu com seus filhos para as montanhas. Ali
se reuniu a outros judeus que fugiam da perseguição, inclusive
grande quantidade de Hasidim (lMc 2,42ss). E, na medida em
que todos eles depositavam confiança não no esforço humano,
mas em Deus (Dn 11,34) sentiram eles que tinha chegado o
momento de combater. Matatias e seus adeptos faziam guerrilhas contra os selêucidas e os judeus que se tinham bandeado
para seu lado ou que a eles se tinham submetido (lMc 2,44-48),
perseguindo-os e matando-os, destruindo os :altares pagãos e circuncidando a força todas as crianças que encontravam. Embora
sumamente zelosos da lei, sua atitude era muito prática.
Vendo que certamente seriam aniquilados se se recusassem a
combater no Sábado, resolveram suspender a lei de guarda do
Sábado quando se tratava da própria defesa (lMc 2,29-41).
Matatias, já idoso (lMc 2,69ss), morreu poucos meses depois (166). A liderança, então, passou (lMc 3,1) para seu terceiro filho, Judas, apelidado “Macabeu” (isto é, “o martelo”).
Homem terrivelmente corajoso e de grande capacidade, Judas
transformou a resistência judaica em uma luta em grande escala
pela independência — tão bem sucedida que toda a revolta é
normalmente conhecida pelo apelido de “Guerra dos Macabeus”,

Antíoco, que naturalmente tinha esperanças de que as
tropas destacadas na Palestina pudessem sufocar a revolta, logo
ficou decepcionado. Primeiro um tal Apolônio — talvez o
Apolônio que estivera à frente do saque de Jerusalém um ano
ou dois antes — marchou contra Judá da Samaria e, em lugar não especificado, foi derrotado por Judas e assassinado
(lMc 3,10-12). Mais tarde, uma segunda força sob o comando do general Serão, bateu-se no passo de Bet-Horon, foi derrotada e posta em fuga desabalada para a planície (vv. 13-26).
Essas vitórias, sem dúvida, animaram os judeus em sua disposição de resistir e levaram centenas deles a se unir sob a bandeira de Judas. Para sorte dos judeus, Antíoco estava então
(165) empenhado numa campanha contra os partos, e não
podia mandar seu exército principal contra a Palestina (lMc
3,27-37). Mas ele instruiu o seu emissário Lísias para que
tomasse as necessárias providências. Assim, Lísias enviou uma
força considerável (vv. 38-41) [14], comandada pelos generais
Ptolomeu, Nícanor e Górgias — que acamparam perto de
Emaús, na falda ocidental das montanhas. Mas Judas, embora
em número desesperadoramente menor, tomou a iniciativa e
atacou o acampamento inimigo. Mandando parte de suas forças
procurá-lo fora do acampamento, ele obteve uma aplastante
vitória (lMc 3,42 a 4,25). No ano seguinte (164), o próprio
Lísias aproximou-se com uma força ainda maior (lMc 4,26-34)
e fez uma marcha circular por Iduméia, para atacar Judá pelo
sul. Mas Judas enfrentou-o em Betsura, exatamente na fronteira, impondo-lhe uma fragorosa derrota.

Como os sírios não estavam em condições de tomar
medidas imediatas contra ele, Judas no momento estava com as
mãos livres. Sendo assim marchou triunfalmente contra Jerusalém, prendeu a guarnição selêucida da cidadela e começou a depredar o templo profanado (lMc 4,36-59). Todo o aparato
de Júpiter Olímpico foi removido. O altar profanado foi
derrubado e suas pedras amontoadas ao lado “até que chegasse um profeta para dizer o que fazer com elas” (v. 46).
Foi erguido um novo altar em seu lugar. Os sacerdotes que
tinham permanecido fiéis à lei foram reintegrados no seu ministério, e providenciaram um novo jogo de vasos sagrados.
Em dezembro (164), três anos depois do mês de sua profanação, o templo foi reconsagrado com festas e grande regozijo.
Desde então, os judeus passaram a celebrar a festa de Hanukkah
(consagração), em comemoração a este feliz acontecimento.
Judas, então, continuou a fortificar Jerusalém e guarnecê-la,
ccmo também a cidade da fronteira Betsura, ao sul (lMc
4,60ss).

O fim do período do Antigo Testamento, viu assim o fim
da luta dos judeus pela conquista da independência religiosa, e
um começo promissor. Embora tenha sido uma luta prolongada, mantida com muitos reveses e desilusões e com momentos de glória, o seu fim trouxe aos judeus a liberdade
religiosa, assim como a autonomia política. Mas, desde que
não é nossa finalidade continuar, devemos terminar aqui
a nossa história.






[1] Sobre esta e as seções seguintes, cf. E. Bickermann, Der Gott
der Makkabäer, Schocken Verlag, Berlim, 1937; em inglês, E. Bickerman,
Form Ezra to the Last of the Maccabees, Schocken Books, Nova Iorque,
edição em brochura, 1962, Parte II; com um ponto de vista diferente,
V. TcHERrKOVER, Hellenistic Civilizatiott and the Jews, Trad. ingl.:
The Jewish Publication Society of America, 1959. 


[2] Cf. Abel, o.c., pp. 105-108; Tcherikover, o.c., pp. 381-390. 

[2] Cf. Bickermann, Der Gott der Makkabàer (na nota 31), pp.
59-65. Os membros do ginásio eram chamados “Antioquenos” (2Mc 4,9).
O significado provavelmente não é que os judeus de Jerusalém fossem
registrados como “cidadãos de Antioquia” (RSV), mas que o ginásio
era organizado sob o nome de seu protetor real. Mas cf. Tcherikover,
o.c., pp. 161ss, 404-409, que acredita que Jerusalém foi convertida em
uma “polis” nesta época. 


[3] Um templo de “Diana” em Hierápolis (Granus Licinianus) e um
de “Artêmis” em Elam (Polybius); cf. Noth, in Hl, p. 362. 


[4] Sobre o assunto, cf. L. Cerfaux e J. Tondriau, Le culte des
souveraitts dans la civilisation grêco-romaine, Desclée .& Cie., Tournai,
1957. 


[5] De acordo com 2Mc 3,4;4,23, ele era o irmão de um tal Simão,
um inimigo de Onias III, que é chamado Benjamita. Mas antigos manus-
critos latinos dizem que Simão era de Belgd, que era uma família
sacerdotal (Ne 12,5-18). O último certamente está quase correto; cf.
Tcherikover, ibid., pp. 403s. 


[6] 2 Mc coloca este acontecimento depois da segunda campanha de
Antíoco no Egito, mas isto provavelmente não está correto; lMc 1,20
colcca-o no ano de 169. 


33 Seguimos aqueles que relacionam este incidente com a campanha
de 169: por exemplo, Abel, o.c., pp. 118-120. Mas uma certeza é im-
possível; outros colocam-no em 168: por exemplo, Bickermann, o.c.,
pp. 68-71; R. H. Pfeiffer, History of New Testament limes, Harper 

& Brothers, 1949, p. 12. 


[8] Seguimos aqui a interpretação de Bickermann, o.c., pp. 66-80. 


[9] Ou 168. Existe uma .incerteza de um ano para todas as datas
do período selêucida, devido à incerteza do “ano selêucida”, com base
no qual as datas são calculadas (312/11). As datas dadas aqui são
preferidas por Abel e outros; cf. também RSV de 1 Macabeus. 


[10] Discute-se se havia uma imagem e um altar, ou somente o últi-
mo. Mas a existência de uma imagem é plausível. Nem o culto de
Zeus nem o culto real eram feitos sem imagem; e os sacerdotes tão
apóstatas quanto Menelau dificilmente recuariam mesmo diante disto. 


[11] Daniel 9,27; 11,31; 12,11; e também lMc 1,54. “Abominação da
desolação” (shiqqüs shômêrn etc.) é um jogo de palavras com ba'al
hashsbãmaym (Ba‘al [Senhor] do Céu), título do antigo deus semítico
da tempestade, Adad, com quem Zeus Olímpico tinha sido identificado.
Cf. por exemplo, J. A. Montgomery, Daniel, in ICC (1927), p. 388. 


[12] Esta é talvez a opinião da maioria dos' historiadores. Outros,
entretanto, argumentam que todo o livro é obra de um autor deste
período: recentemente, H. H. -Rowley, The Unity of the Book of Daniel,
in The Servant of the Lord and Other Essays, ed. rev., Basil Blackwell, 


[13] Josephus (Ant. XII, VI, 1) diz-nos que seu bisavô era Asamo-
naios (Hashmon). Seus descendentes, os reis de Judá independente,
são por isso conhecidos como asmonianos. Matatias era da linha
sacerdotal de Joarib (lMc 2,1; Ne 12,6.19). 


[14] Seu número (47 mil), entretanto, é sem dúvida exagerado, como
é o da força mais tarde liderada pelo próprio Lísias (lMc 4,28), que é
avaliada em 65 mil.